quarta-feira, 28 de maio de 2014

AGORA É COM VOCÊS!!


Por Alexandre Figueiredo

Hoje é a última postagem de Mingau de Aço, que encerra sua trajetória cumprindo sua missão. Foram cerca de quatro anos questionando fatos políticos e culturais, entre outros aspectos, correndo por fora do que o poder midiático veicula de mais tendencioso e faccioso.

Mingau de Aço fez o seu diferencial na mídia esquerdista indo até mesmo além do corporativismo das esquerdas e sendo um dos primeiros a preencher o vácuo de uma abordagem da cultura popular realmente esquerdista, que tem uma lacuna até hoje insuperada.

Afinal, o que se vê como "visão de esquerda da cultura popular", oficialmente, são aquelas abordagens de apologia à bregalização do país, que nada têm, na verdade, de esquerdistas. São, na verdade, abordagens herdadas de valores originários da ditadura militar, do coronelismo latifundiário e do neoliberalismo político-midiático.

Não se faz progresso no país com bregalização, porque esta coloca o povo na conformação de sua pobreza, glamourizando a miséria, a ignorância, o subemprego, entre outros aspectos. O apoio de intelectuais a esse "padrão de cultura" mostra que, apesar do discurso de "ruptura de preconceitos", a intelectualidade demonstrou-se terrivelmente preconceituosa.

Publicamos vários textos analisando a cultura, a política e outros fatores. Eles continuarão sendo publicados, para análises e pesquisas futuras. Procuramos dar uma análise mais abrangente possível dos temas, nesse tempo todo entre 10 de outubro de 2010 e hoje.

Eu darei um tempo na blogosfera geral para me concentrar na produção de livros e em outros compromissos pessoais. Mas decidi encerrar o Mingau de Aço por acreditar que ele cumpriu sua missão. Em breve voltarei à blogosfera com algo novo, iniciando uma nova fase.

Portanto, agradeço a vocês pelo apoio. Continuem lendo o Mingau de Aço. Ele continuará no ar, com os textos que foram produzidos. Ele apenas não será mais atualizado. Ele parou por aqui. Muito obrigado por tudo, e a gente se vê por aí.

terça-feira, 27 de maio de 2014

A COPA DE UM PAÍS EM INCERTEZAS


Por Alexandre Figueiredo

O corporativismo petista anuncia: #VaiTerCopa. Assim, em hashtags, como são conhecidas as palavras-chaves nas mídias sociais. Certo, vai ter copa. O Brasil, isto é, a Seleção Brasileira de Futebol, vai ganhar o "hexa" porque existem interesses de anunciantes em jogo, só para sentir este trocadilho.

Como em 2002, a FIFA e a CBF se empenham pela "vitória brasileira", dentro de um futebol que há muito tempo deixou de ser arte. O futebol-arte morreu em 1986 e o que veio depois foi o futebol-negócio, que encaixa no contexto em que, no Brasil, o espetáculo virou mera mercadoria.

Um detalhe a notar é que um dos astros do "penta" de 2002, Ronaldo Nazário, decepcionou as esquerdas médias ao afirmar que seu candidato para a Presidência da República é Aécio Neves, o yuppie boa vida que o PSDB tem como alternativa para enfrentar Dilma Rousseff na corrida das urnas.

A propósito, já que Dilma concorrerá à reeleição, teremos na frente o governo Michel Temer, durante alguns meses. A agenda do PMDB podou demais o governo petista, já que o PMDB, único partido remanescente da ditadura militar (era o antigo MDB levemente repaginado), é um partido sem muita identidade, mas que mistura ideais conservadores com pragmática populista.

Evidentemente, cresce o anti-petismo e uma direita organizada, nem sempre com verniz racional, já que varia entre a retórica "científica" de Rodrigo Constantino às histerias cegamente direitistas nas mídias sociais.

Mas o PT ainda permanece numa espécie de baluartismo, ou seja, acreditando em capacidades e possibilidades maiores que as que possui, ignorando os riscos e as limitações que se encontram no caminho.

O país está sob uma séria crise de valores. Extremamente violento, caótico, ainda conservador e provinciano, em completa disenteria dos valores e procedimentos originários da ditadura militar, alguns repaginados e sutis, outros não.

O que se prevê serão as manifestações de rua, que anunciaram que irão ocorrer. Em boa parte pacífica, mas há os oportunistas que se infiltram para provocar desordens. Alguns deles financiados por George Soros, o especulador financeiro "fora do eixo".

E há o problema das favelas, que só são maravilhosas aos olhos etnocêntricos da intelectualidade "bacana", que acha a pobreza linda de se ver, numa postura até pior do que os esquerdistas românticos de 1964, que, com toda sua crença pela burguesia nacional a financiar o subdesenvolvimento chique que acreditavam, pelo menos tinham algum pé no chão.

A ditadura midiática, os valores retrógrados, o machismo agonizante mas tentando se manter em pé, mesmo que seja pelo simbolismo das "boazudas", a bregalização, o coronelismo e seus conflitos no campo, o crime organizado, esses problemas são tão intensos que tornam difícil acreditar que o Brasil entrará no primeiro mundo com o hexa ou a reeleição de Dilma.

Nada disso. O país vive uma situação delicada, complexa, mal conseguindo resolver suas crises sociais. A opinião pública mal descobriu o reacionarismo juvenil na Internet, a direita já vestia uma nova roupagem faz tempo, sendo necessária a ascensão de Lobão no meio para a sociedade, e sobretudo as esquerdas, se convencerem que a direita não usava black-tie há muito tempo.

Preferimos acreditar num caminho incerto. Nem a reeleição de Dilma está garantida. As turbulências de 2013 e as crises de 2014 podem gerar desfechos inéditos. O otimismo exagerado no Brasil é uma grande fantasia, porque seria melhor que fôssemos realistas e acreditarmos que precisamos arrumar a casa antes de fazermos a festa.

Mas como muitos preferem fazer a festa primeiro, a casa ficará mais desarrumada que antes. E haverá muito mais trabalho para arrumá-la, não bastasse a bagunça que foi feita há 50 anos.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

COMENTÁRIO SOBRE "FUNK" ATESTA SOBRE LOBBY SÓCIO-ACADÊMICO QUE CERCA O RITMO


Por Alexandre Figueiredo

Um incidente manifesto no Facebook mostra o quanto a indústria do "funk carioca" conta com um poderoso lobby que envolve ativistas sociais e elites acadêmicas, de tal forma que já se admite um "patrulhamento" dos adeptos do ritmo brega-popularesco.

Sobre a realização de um "baile funk" em um morro em Ipanema, com o som em alto volume, a professora da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, Patrícia Rebello, escreveu os seguintes comentários na sua conta do Facebook: "Baile funk nas alturas no morro aqui atrás e eu só lembro daquela frase que diz que funk é cultura. Exame de urina também".

Em seguida, aparece o hashtag #meuouvidonaoépenico. A postagem foi feita no último dia 18. A mensagem foi curtida por vários internautas, que apoiaram o protesto. Alguns só não compartilharam a postagem por temer o "patrulhamento" das "militâncias culturais" em prol do "funk".

É o que disse o professor José Ferrão, respondendo à postagem: "“Só não compartilho porque depois vou ter que aguentar a militância cultural. Adorei, amiga". Erick Felinto, vice-reitor da mesma faculdade de Patrícia, também apoiou a mensagem e curtiu.

"Também não posso compartilhar, pois os colegas acadêmicos que defendem a diversidade e estudam esse fascinante fenômeno cultural iriam me massacrar. Mas é deprimente", disse Felinto, acrescentando um sutil toque de ironia no comentário.

Mas defensores do "funk" logo se prontificaram em rebater o comentário, fora das mídias sociais. O deputado Marcelo Freixo, do PSOL, um dos principais propagandistas do "funk" no Legislativo, apelou para questões de "gosto" para expressar seu ponto de vista: "Não podemos identificar como cultura apenas aquilo que nos agrada, isso é elementar".

Já o diretor do Observatório das Favelas, Eduardo Alves, adotou um discurso "etnográfico": "O funk faz uma leitura da realidade de milhões de pobres, negros e moradores de comunidades, expõe a vida, a estética desse povo, e por isso é considerado cultura. Toda arte precisa ser respeitada".

RECUO

Pressionada pela "patrulha ideológica" dos defensores do "funk", Patrícia Rebello recuou de seu desabafo e, tentando agradar seus pares - virou um "protocolo" para a classe acadêmica defender o "funk" - , enviou e-mail "reconhecendo" o "funk" como um "bem cultural".

"Foi simplesmente um desabafo de alguém que estava com sono e queria dormir. Eu não estudo nem escuto funk o suficiente pra fazer qualquer comentário sobre o assunto. Claro que funk é cultura, claro que fala de uma enorme variedade de aspectos referentes ao mundo, e às condições sociais de quem o vive. Foi uma reação imediata de um organismo cansado", escreveu a professora.

CABO ANSELMO E JOSÉ SARNEY TERIAM SIDO "TRANSBRASILEIROS"?

CABO ANSELMO E JOSÉ SARNEY OLHANDO PARA A ESQUERDA...

Por Alexandre Figueiredo

Essa conversa de "cultura transbrasileira" e tantas coisas "provocativas" acabaram enfraquecendo a nossa cultura, e infelizmente as esquerdas morderam as iscas que intelectuais alienígenas, porque surgidos no seio do poderio midiático, deixaram com sua campanha pela bregalização do país.

Li o livro Honoráveis Bandidos, de Palmério Dória, e estou lendo 1964: O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil (o título é assim mesmo), de Jorge Ferreira e Ângela de Castro Gomes e comparo os temas de suas obras com os efeitos sócio-culturais que acabamos vivendo no Brasil de hoje.

Destes dois, o primeiro se dedica ao poderio acumulado por José Sarney, um pouco expressivo político maranhense da UDN, entre 1959 e 1964, que através do clientelismo político e da corrupção se tornou um dos mais poderosos "coronéis" regionais do país, tendo influído sobretudo no crescimento do coronelismo midiático dos últimos 25 anos.

Já o segundo se dedica a analisar os últimos meses do governo João Goulart, marcado pelo radicalismo de esquerda e de direita e cujo desfecho final foi impulsionado por uma estranha rebelião de sargentos fanfarrões, a pretexto de defenderem reivindicações justas para militares de baixa patente.

Dessa revolta, se ascendeu José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, um sargento (embora autoproclamado "cabo") metido a militante esquerdista que depois se revelou agente da CIA e colaborador da repressão militar. Dizem que já em 1963-1964 o Cabo Anselmo já era assim, mas se travestiu de militar comunista para armar uma cilada para Jango e abrir caminho para a ditadura.

Até o momento em que escrevo este texto, os dois estão vivos e assistem a um Brasil que acabaram preparando, desfazendo todo um caminho de progressos de toda ordem para o país. E de uma forma ou de outra, se envolveram em contextos que trouxeram consequências negativas das quais o Brasil luta para superar até hoje.

José Sarney promoveu uma farra de concessões de rádio e televisão que influíram decisivamente no desenho do cenário da "cultura popular" no Brasil, baseado na idiotização, na mediocrização, na exploração do ridículo, do grotesco e do piegas e, na melhor das hipóteses, no "aprimoramento" artístico ou comportamental de ídolos "populares" de modo tendencioso e calculado pelas elites.

Cabo Anselmo já influiu, décadas depois, num pseudo-esquerdismo, num pretenso ativismo que inspirou de funqueiros ao Coletivo Fora do Eixo. Que, como o militar, tiveram apoio da CIA, através de instituições claramente ligadas ao órgão estadunidense, como Fundação Ford e Soros Open Society.

Anselmo também inspirou toda uma intelectualidade devido aos métodos "provocativos" que ele promoveu ao comandar a aparente rebelião de sargentos e fuzileiros navais que causou uma séria crise que propiciou a reação violenta das Forças Armadas que deu origem à ditadura militar.

Militares de baixa patente que, não satisfeitos em arrancar uma anistia de João Goulart, foram desfilar para fazer pilhéria aos oficiais do Clube Naval, no centro do Rio de Janeiro, de alguma forma deixaram a raiz de "pensadores" que chegam a empurrar funqueiros até em exposições históricas.

Que diferença têm um Cabo Anselmo que deu uma "surra na bunda" na democracia e um bando de intelectuais chamando funqueiras para abrir uma exposição, dando uma "surra na bunda" na cultura de verdade, pejorativamente chamada de "alta", com o mesmo tom jocoso do sargento "marxista" que depois se revelou agente da CIA?

"DITABRANDA DO MAU GOSTO" NÃO ASSUSTA AS ELITES

A intelectualidade "bacana", que adota métodos "provocativos" de Cabo Anselmo e defende uma visão "coronelista" para a cultura popular como José Sarney, tenta manobrar seu discurso para tentar convencer a opinião pública.

Defendem o fim da MPB e a marginalização do patrimônio cultural brasileiro em museus e mansões, e querem que o povo pobre mantenha seus padrões comportamentais de pobreza, glamourizando a ideia do "mau gosto" como se fosse uma "causa nobre".

No seu discurso "atraente", querem evitar a recuperação da cultura popular que a ditadura rompeu. Criticávamos a cultura alienada, o jabaculê e a americanização de muitos ídolos "populares" brasileiros e a intelectualidade ainda gracejava, como gracejou quando se dizia que o "funk" tinha apoio da CIA, mesmo com a Fundação Ford financiando seus intelectuais etc e tal.

Tentam confundir as coisas, definindo as elites realmente questionadoras como se fossem elites aristocráticas. Confundem o saber com a riqueza. Muitas das melhores mentes não são necessariamente de gente muito rica, e no entanto quem questionava, por conhecer a cultura popular, seus descaminhos era mesmo assim classificada como "elitista".

Só que as elites realmente ricas e aristocráticas nunca se assustaram com a supremacia do "mau gosto", a "ditabranda do mau gosto" que fazia a festa da intelectualidade "bacana" às custas do "povão" que consumia os ídolos midiáticos sem reclamar.

Pelo contrário, o que tem de condomínios de luxo em suas festinhas de aniversário ouvindo "forró eletrônico", o que resta da axé-music (agora em processo irreversível de decadência), "sertanejo" e "funk" não está no blogue e mostra que, além dos barões da mídia, a aristocracia está muito feliz com a bregalização do país.

MELHOR UM POVO BREGA DO QUE UM POVO REVOLTADO

A intelectualidade "bacana" criou armadilhas que fizeram as esquerdas caírem na cilada. Como em 1964 quando a burguesia nacional deixou os esquerdistas na mão e estes ainda foram traídos pela milico-militância de Cabo Anselmo.

Criaram um modelo de "cultura popular" em que o povo ficava feliz com sua pobreza, usava o alcoolismo como válvula de escape para seus sofrimentos e os valores culturais não eram mais transmitidos pelo convívio comunitário, mas "de cima para baixo", pelas rádios e TVs "populares".

Durante muito tempo se acreditou que essas eram visões "progressistas", só porque se falava "positivamente" do povo pobre. Só que esse discurso "positivo" era traiçoeiro, porque evitava a luta do povo pobre pela verdadeira qualidade de vida, a não ser pela ajuda ostensiva das elites intelectuais paternalistas.

A ideia da intelectualidade pró-brega era dar a impressão de que defendia a "verdadeira cultura popular", com pseudo-ativismo e falsas alusões à negritude, ao feminismo e outros ativismos, quando a bregalização era só consumismo. No fundo, para a intelligentzia, melhor um povo brega, que é mais conformado, do que um povo realmente revoltado.

As próprias favelas viraram o "campo de concentração" da "nação funqueira e brega". Residências acidentais e incidentais, fruto da exclusão imobiliária, convertidas no mais descarado discurso paternalista em "arquitetura pós-moderna" e "paisagem turística" para o bom esnobismo das aristocracias.

Não se luta pela qualidade de vida, e a intelectualidade pró-brega atribuindo a qualquer bobagem pretensos ativismos. Mesmo as musas vulgares, sobretudo as do "funk", mesmo estando a serviço de uma imagem machista da mulher, se submetem ao pseudo-feminismo às custas de um celibato masoquista e forçado pelas circunstâncias.

A exemplo de Cabo Anselmo, a pregação pró-brega da intelectualidade "bacana" foi feita para confundir e enfraquecer as esquerdas e estimular a reação direitista. À exemplo dos generais e das aristocracias civis com seus rosários diante das esquerdas de 1964, as esquerdas de 2014 são enfraquecidas com seu deslumbramento brega que faz reunir uma direita mais articulada e coesa.

A direita, que sempre promoveu uma política conservadora, fazia a "caça às bruxas" durante a ditadura militar, mandando rebeldes para a prisão, tortura e morte, se rearticula em intelectuais e celebridades que agora adotam um discurso "conscientizado" que a esquerda nem de longe conseguiu fazer.

Ocupada está a esquerda com a fantasia inútil de que o brega traria a revolução social para o país, as esquerdas se enfraquecem, acreditando que basta só a "chuva de dinheiro" da Bolsa Família e da Lei Rouanet e os programas trainée para "melhorar" a conduta de ídolos bregas e sub-celebridades para criar uma "cultura popular" melhor e mais consistente.

Com isso, a direita se fortalece, porque está com um discurso mais substancial. Pode não ser um discurso sincero, mas torna-se melhor argumentado, mesmo quando sua defesa de uma cultura popular mais autêntica e um país mais cidadão sejam apenas um meio de se aproveitar das omissões do PT, do PSOL e outras forças esquerdistas quando aos projetos sócio-culturais para o país.

Mais uma vez a história se repete, embora em aspectos bem diferentes. Não saberemos o desfecho, mas sabe-se que esse papo de bregalização enfraqueceu as esquerdas, que provaram não entenderem de cultura realmente popular, defendendo um padrão que tem muito mais a ver com os interesses de grupos latifundiários e empresas multinacionais.

Portanto, o discurso um tanto tendencioso da direita e o discurso confuso e fantasioso da esquerda sobre o projeto sócio-cultural para o país só dão margem a uma pergunta: teriam sido José Sarney e Cabo Anselmo "transbrasileiros"?

domingo, 25 de maio de 2014

PRÍNCIPE DA "CULTURA TRANSBRASILEIRA", MICHEL TELÓ CANCELA APRESENTAÇÃO POR FALTA DE PÚBLICO


Por Alexandre Figueiredo

A notícia foi dada por Fabíola Reipert, a partir de um jornal em Birigui. Nesta cidade, no interior paulista, iria acontecer, no último dia 17, uma apresentação com o cantor breganejo Michel Teló, mas por problemas de estrutura do local do evento, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros não concederam alvará.

Então a apresentação do cantor foi adiada para a semana seguinte, no caso ontem, dia 24. Foi escolhido um outro local, a princípio, havendo a opção das pessoas pegarem de volta o dinheiro do ingresso. As pessoas pegaram o dinheiro, mas ninguém comprou novos ingressos.

Com a falta de público, a apresentação de Michel Teló foi cancelada. E isso depois que uma elite de intelectuais influentes inventou que Teló virou "cidadão do mundo" por causa de um mal-esclarecido episódio da divulgação da música "Ai Se Eu Te Pego", que não foi o sucesso estrondoso que muitos alardearam aos quatro ventos no Brasil.

Ele foi uma espécie de príncipe de uma "cultura transbrasileira" tão propagada pela intelectualidade "bacana", e um dos últimos baluartes do dirigismo ideológico que empurrava para o reconhecimento da gente culta certos nomes estratégicos da breguice nacional, incluindo também Odair José, Leandro Lehart e Raça Negra.

Se ele não conseguiu atrair público num de seus maiores redutos, o interior de São Paulo, área em que se supõe ser um dos focos de intenso fanatismo breganejo - área que envolve os interiores paulista e paranaense, mais os Estados do Centro-Oeste e o oeste de Minas Gerais - , então há um sério problema nisso.

Afinal, a intelectualidade "mais legal do país" não cansou de dizer que "Ai Se Eu Te Pego" é "pegajosa", "moderna", "desafiadora", que Michel Telo simbolizava a "rebelião indígena" travestida em "cultura transbrazyleyra" que ele havia conquistado o mundo, que veio para ficar etc. Só faltou Pedro Alexandre Sanches definir Michel Teló como o "Julian Assange (?!?!) brasileiro".

Uma elite de cientistas sociais, cineastas e jornalistas que apostam na bregalização do país tentava nos fazer crer que Michel Teló conduziria o futuro da humanidade planetária, sendo um dos líderes da revolução social que transformaria o mundo. Pasmem vocês, mas é o que essa turma que mexe com palestras, reportagens, monografias e documentários costumam pregar!

E no entanto, como é natural na mediocridade cultural, uma música como "Ai Se Eu Te Pego" envelheceu em poucos meses. Se Michel Teló já pegou um mercado com um Luan Santana precocemente envelhecido e antiquado, se tornou quase obsoleto depois de duplas e cantores que também soam mofados e datados.

É essa a sina do brega. Brega é a música antiquada, que se alimenta do hit-parade que perdeu a validade na véspera. Um tipo de música retardatária que só uns intelectuais metidos a engraçadinhos querem que seja a única música brasileira viável. Só que a supremacia do "mau gosto" tem limites: no fim do caminho, até os mais fanáticos defensores acabam se cansando. Muito barulho por nada.

sábado, 24 de maio de 2014

INTELECTUAIS "BACANAS" MONTAM GOLPE CULTURAL CONTRA A MPB

GOLPISMO - Às vésperas de completar 70 anos, Chico Buarque é bombardeado pela fúria de intelectuais "bacaninhas" que querem a bregalização do país.

Por Alexandre Figueiredo

A supremacia de uma intelectualidade cultural que se julga dona de uma visão "ideal" e "realista" sobre cultura popular aparentemente não causa desconfianças. Afinal, os intelectuais que a pregam possuem o privilégio da visibilidade, da formação acadêmica, e do prestígio em contatos até tendenciosos, mas decisivos, com ativistas sociais e forças progressistas.

No entanto, elas refletem, sim, um pensamento elitista que tais ideólogos não querem assumir. São antropólogos, sociólogos, jornalistas, músicos, historiadores que refletem um pensamento elitista e paternalista, embora aparentemente generoso, na qual a melhor solução para a cultura popular é manter o povo pobre dentro de um padrão de domesticação sócio-cultural.

Para isso, muito se escreveu em retóricas sofisticadas, mas confusas e contraditórias, de monografias a documentários, e o discurso até agora não encontrou uma réplica vinda de alguém com a mesma visibilidade compatível.

Até agora, só este blogue conseguiu fazer uma abordagem sistemática questionando a bregalização cultural sem investir em clichês do puro rancor de roqueiros revoltados ou bossanovistas nostálgicos. E chegamos a pegar de surpresa uma intelectualidade que parecia ter a palavra final em termos de cultura popular, mas não a equiparamos no círculo de visibilidade.

Por isso, volta e meia aparece algum factoide que transforma uma gafe em ativismo social. Como no caso da "funqueira pensadora". Como quem cria tempestade em copo d'água, ou melhor, criando Contracultura ou Modernismo em copo d'água, a intelectualidade dominante sempre manobra a bregalização para a imagem tendenciosa de "revolução social".

No fundo, são ídolos e tendências musicais ou comportamentais sem muita importância. E que tratam o povo pobre de maneira idiotizada, caricata e claramente domesticada. Mesmo assim, é assustador o lobby que envolve de cineastas a diretores teatrais, de estilistas de moda a antropólogos, que definem toda essa idiotização como "ativismo sócio-cultural".

COMBATE AO "PRECONCEITO" COMO DESCULPA

Esses intelectuais tentam um discurso articulado, como que numa espécie de similar "tropicalista" do Instituto Millenium, ou do antigo IPES que havia pregado o golpe militar de 1964. Eles usam a desculpa da "ruptura do preconceito" para defender a bregalização e seu avanço em mercados e públicos considerados mais "conceituados".

A desculpa do combate ao "preconceito" é até menos pertinente do que se imagina. Afinal, banalizou-se uma visão equivocada de combater o "preconceito", que na verdade se fundamenta numa aceitação bem mais preconceituosa do que a rejeição que se supõe combater ou romper.

O grande problema é que ninguém, com a visibilidade compatível com esses ideólogos, veio para contestar esse mito de maneira mais consistente e influente, e durante dez anos praticamente prevaleceu a visão de que aceitar tudo de forma pré-concebida é "combater o preconceito".

Então veio esse discurso, que nasceu na margem ideologicamente direita do poder midiático, se propagou nos filões esquerdistas a partir de supostos "dissidentes" que migraram da grande mídia para a mídia progressista, através de contatos por conveniência com acadêmicos e ativistas.

Depois veio uma situação surreal, de intelectuais supostamente esquerdistas defendendo a derrubada de uma MPB de esquerda, para pô-la no lugar um brega naturalmente direitista, de uma linhagem que vai dos primeiros ídolos cafonas, apoiaram a ditadura militar, até o "funk", que faz alianças que vão de bicheiros a George Soros, passando pelos barões da mídia.

CULTURA AMEAÇADA

Enquanto intelectuais lançam um discurso confuso e engenhoso para defender o brega, de natureza meramente radiofônica, como o suposto "novo folclore brasileiro", a ponto de haver casos extremos de um tendencioso Pedro Alexandre Sanches, o "filho da Folha de São Paulo", ver negritude até em "galegos" fazendo "funk", a cultura é ameaçada por um golpe.

Esse golpe promovido pela campanha intelectual intensa, hoje bombardeada por inúmeros anônimos a criar discursos e factoides em prol da bregalização do país - desde o professor Antônio Kubitschek, do caso da "funqueira pensadora", a blogueiros ocasionais e semi-anônimos - , é feito contra o nosso rico patrimônio cultural, embora se use a defesa do mesmo como pretexto.

É um intelectual atrás do outro, e já não é mais a "santíssima trindade" de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna e Paulo César Araújo dizendo que o Brasil tem que ser brega. Num dia é um cineasta iniciante que defende o "funk", no outro são curadores de arte que chamam funqueiras para abrir exposição de fotos, noutro é a blogueira com saudades de Waldick Soriano etc.

Junte-se a isso a campanha U-RU-BÓ-LO-GA que Pedro Sanches faz contra Chico Buarque e uma geração de emepebistas dos anos 60. O "esquerdista profissional" querendo derrubar, sob os aplausos de seus aliados, a esquerda emepebista, enquanto obriga as esquerdas a assinarem embaixo no apoio a bregas emergentes que, meses depois, festejarão o sucesso abraçados aos barões midiáticos.

A cultura brasileira, sobretudo a musical, é o que resta para as forças golpistas combaterem e que até 1976 saiu quase ilesa do turbilhão ideológico da ditadura. E Chico Buarque, último elo para as gerações mais recentes conhecerem nomes como Paulo Freire, Vinícius de Moraes, Darcy Ribeiro e outros, é uma "ponte" a ser demolida pela fúria da intelectualidade "bacana".

O caso Procure Saber tornou-se o pretexto para a intelectualidade "bacana" partir com toda a fúria contra a MPB sessentista, a ponto de Pedro Alexandre Sanches e Reinaldo Azevedo defenderem a mesma causa anti-buarqueana. Tudo para derrubar o que resta de cultura de qualidade, de boa poesia, de opiniões fortes, abrindo caminho para a bregalização mais totalitária e imbecilizante.

Para eles, legal é Leandro Lehart bancar o imitador do Monsueto, já que este faleceu há muito tempo, ficou esquecido e com isso o ex-Art Popular quer bancar o "genial". Legal é entregar o que resta da MPB sofisticada dos anos 60 para o controle de Michael Sullivan, a velha raposa do brega a cuidar do galinheiro da MPB de qualidade mas menos combativa.

Para eles, legal é o povo pobre permanecer na sua baixa qualidade de vida, a pretexto de ser a "sua cultura", o "seu ideal de vida". Como se qualidade de vida fosse apenas algumas garantias legais genéricas, alguma gratificação financeira e outros paliativos que pouco contribuem para a verdadeira superação da pobreza vital e existencial das periferias.

Para piorar, essa intelectualidade supostamente progressista, na verdade, está preparando o caminho para Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo e o agora reaça Lobão defenderem uma suposta lucidez cultural que os "progressistas" da moda se recusam a assumir.

É o que parece a finalidade de intelectuais pró-brega que parasitam os cenários esquedistas. Empastelar uma visão progressista de cultura popular para defender a domesticação e idiotização das classes populares e abrir caminho para a volta da direita com suas pregações supostamente "conscientizadas".

sexta-feira, 23 de maio de 2014

DILMA DEFINE EXPLORAÇÃO SEXUAL INFANTIL COMO CRIME HEDIONDO. OS INTELECTUAIS "BACANAS" VÃO CHORAR?


Por Alexandre Figueiredo

A presidenta Dilma Rousseff sancionou  lei aprovada pelo Congresso Nacional que define como crime hediondo a exploração sexual de crianças, adolescentes e pessoas consideradas vulneráveis, como adultos que se equiparam a esta condição típicamente infanto-juvenil, ou seja, sem capacidade de discernimento ou de autodefesa devido a doenças ou limitações psicológicas.

A medida vale para casos de atividade sexual remunerada, a pornografia infantil e a exibição feita em espetáculos sexuais públicos ou privados. Mesmo que não haja o ato sexual propriamente dito, o crime ocorre também quando há outra forma de relação sexual ou atividade erótica que implique em proximidade física entre a vítima e o agressor.

Também está sujeito à sentença criminal aquele que promover ato libidinoso ou praticar sexo com alguém entre 14 e 18 anos no âmbito da prostituição. Na Lei do Crime Hediondo (8.072/90), o estupro de crianças, adolescentes e adultos vulneráveis já está incluído na lista.

Apesar da definição como crime hediondo, a pena é considerada branda, de quatro a dez anos de reclusão, e a mesma deverá começar a ser cumprida em regime fechado. No entanto, para réus primários, pode haver progressão para semi-aberto depois de dois quintos da pena e, se reincidente, de três quintos. Mas a sentença proíbe fianças e benefícios como anistias, graças e indultos natalinos.

E A INTELECTUALIDADE "BACANA"?

A grande questão é como a medida irá refletir na intelectualidade cultural dominante, que adota no caso uma postura bastante ambígua, já que ela se opõe a atos sexuais explícitos e feitos num contexto criminoso, como o estupro, mas aprova insinuações de sensualismo para o público infanto-juvenil em espetáculos de entretenimento.

Já houve intelectuais definindo espetáculos "sensuais" envolvendo adolescentes como "iniciação sexual das jovens pobres". Gêneros como o "pagodão", da Bahia, e o "funk", seja "funk carioca" e "funk ostentação", sugerem, em seus espetáculos e músicas, a insinuação de erotização do público infanto-juvenil, sob o consentimento das famílias e até de acadêmicos.

A pornografia no "funk" em geral já foi definida como "discurso direto", como se fosse algum preconceito criticar a banalização do sexo no ritmo. E os ídolos que abordam a pornografia são naturalmente defendidos por intelectuais como se eles também pudessem ser curtidos pelo público infanto-juvenil, já que não existe alguma advertência contra isso.

A lei sancionada por Dilma ainda não descreve, aparentemente, casos como apologia da erotização infanto-juvenil, que é um dos estímulos para a exploração sexual de crianças e adolescentes, talvez por serem considerados crimes comuns, sem efeito rigorosamente prático.

Além da lei, Dilma também lançou o aplicativo para telefones celulares e tablets, o Proteja Brasil, em parceria com a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Com o aplicativo, pode-se usar essas tecnologias para denunciar atos de exploração sexual previstos na lei.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

"O RÉU E O REI" NO PAÍS DO "BEIJINHO NO OMBRO"


Por Alexandre Figueiredo

O projeto de lei que permite a publicação de biografias não-autorizadas já teve sua aprovação feita na Câmara Federal, mas ainda depende da aprovação do Senado para receber a sanção presidencial. Mas, antes disso acontecer, um livro foi lançado para relatar o caso de um processo que inspirou os debates sobre o assunto.

É o livro O Réu e o Rei, escrito pelo historiador Paulo César de Araújo que descreve o que o autor sofreu durante todo o processo de pesquisa e entrevistas para seu livro Roberto Carlos em Detalhes e o processo que o cantor capixaba moveu para banir a comercialização da obra. O empresário do cantor, Dody Sirena, já estuda meios de impedir também a venda de O Réu e o Rei.

Roberto, através de seus advogados, alegou que Paulo César escreveu uma biografia do cantor e compositor sem autorização do mesmo, daí a ação na Justiça para recolher os exemplares e proibir a comercialização.

O caso gerou uma polêmica que favoreceu Araújo, criando uma animosidade entre a geração intelectual em que ele se inclui - ao lado de Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Eduardo Nunomura, Denise Garcia, entre outros - e a geração dos anos 60 de Roberto Carlos ao lado de tropicalistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil e pós-bossanovistas como Chico Buarque.

Paulo César Araújo é meio vítima, meio marqueteiro. Um tanto injustiçado, é verdade, porque afirmou ter procurado o "Rei" para dar uma entrevista e o cantor nunca esteve à sua disposição. Com base em entrevistas de outros artistas, ele construiu a memória biográfia do cantor capixaba, mas este não gostou da menção de "certos fatos" e decidiu proibir a comercialização do livro.

Por outro lado, porém, Paulo César se autopromove com isso. Sem receber o merecido crédito do seu livro anterior, Eu Não Sou Cachorro Não, por causa de uma tese surreal de que o brega "causava horror" à ditadura militar, só repercutindo bem na intelectualidade "bacana" mas sem conseguir reabilitar os ídolos cafonas, o autor foi capitalizar em cima do processo de Roberto contra ele.

Mas o próprio Paulo César Araújo também pode ter tido seus momentos de Roberto Carlos. Há uma suspeita de que Araújo criou um lobby, junto à atriz Patrícia Pillar, estrela da Globo e diretora e escritora de biografias (cinema e livro) de Waldick Soriano, para vetar a permanência de um vídeo em que o ídolo brega elogiava a ditadura militar e reafirmava seu machismo. É apenas uma suspeita, mas há indícios de que o motivo do sumiço do vídeo seja este.

Isso porque, para combater a "velha e cansada" MPB, a intelectualidade "bacana" defende a publicação de biografias não-autorizadas. Mas, em relação ao brega, a situação é tão problemática - levando em conta a influência que a mídia sensacionalista tem no Brasil - que os ídolos quase sempre adotaram uma postura de abstenção, não declarando contra ou a favor de biografias não-autorizadas.

O que está por trás dessa polêmica - agravada pelo movimento Procure Saber, organizado pela empresária Paula Lavigne junto a medalhões da MPB - é a campanha que os intelectuais de hoje fazem para derrubar a geração 60 da música brasileira, superestimando seus erros.

Querendo extinguir a MPB e transformar a supremacia da breguice cultural numa tendência totalitária, a intelectualidade quer depreciar a MPB mais sofisticada de tal forma que ela só será revalorizada nas mãos de nomes como Michael Sullivan, o ídolo brega que zela pela MPB como uma raposa cuida de um galinheiro.

LEMBRA 1964

É certo que Roberto Carlos é conservador, defendeu a ditadura militar, zela demais pela sua imagem e causou polêmica até em comercial de carne. Mas é bom deixar claro que Roberto, já em aventuras conservadoras e pós-1975, abriu as portas para o brega e nomes como Odair José, José Augusto, Michael Sullivan, Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó nada seriam se não fosse o "Rei".

Muito da supremacia brega que a intelectualidade "bacaninha" defende se deve a Roberto Carlos já como contratado da Globo e a um Caetano Veloso já narcisista e aliado do "Rei", portanto não há como escapar e defender a bregalização cultural como se fosse uma guerrilha revolucionária.

A intelectualidade "bacana", festiva e bobo-alegre, até tentou trocar o nome da sigla VPR, de Vanguarda Popular Revolucionária para Valesca Popozuda Rebolando, animada com a definição da funqueira como "filósofa" e bagunçando com os contextos ativistas e educacionais com atos "provocativos" que inspiraram outro grupo "funk" e ser jogado num evento sobre Josephine Baker.

É o país do "beijinho no ombro", do "lepo-lepo", da idiotização cultural glamourizada por um poderoso lobby intelectual, que se julga "independente" mas está a serviço, informal, dos barões da grande mídia e dos grandes senhores do entretenimento.

Eles querem derrubar a MPB autêntica para colocar o brega no lugar. Se alguém quiser resgatar a fase sofisticada da MPB, que recorra a Michael Sullivan, o "Rei do Jabá", que quis destruir a MPB nos anos 80. Seria constrangedor ver Michael Sullivan sobrando para cantar, junto a seus capangas, canções como "Wave", de Tom Jobim, e "Arrastão", de Edu Lobo.

Isso lembra o golpe de 1964. Assim como os militares e a extrema-direita civil derrubaram o estancieiro João Goulart, solidário com as classes populares, querem derrubar Chico Buarque, o "coronel da Fazenda Modelo", solidário com a cultura do povo pobre.

A "reforma agrária" da antiga UDN, com melhores meios de indenização possíveis para os latifundiários que perdem suas propriedades, tem exata analogia à "reforma agrária na MPB", dando apoio e dinheiro para a bregalização patrocinada pelo coronelismo radiofônico e pelos próprios latifundiários.

O grande problema é que a intelectualidade "bacana" adota uma postura falsamente progressista, e em certos casos chega a influenciar as esquerdas médias a pensar como elas, criando situações constrangedoras. Se bem que nenhum desses intelectuais pró-brega ousou protestar quando blogues como este apontaram vínculos indiretos com o baronato midiático.

E assim os intelectuais "mais legais" fazem a escalada do jabaculê rumo ao monopólio absoluto na música brasileira. Derrubar uma MPB que raciocine, que tenha atitude, que seja sincera e faça música de qualidade, é a meta da intelligentzia. Tudo para colocar no lugar ídolos mais submissos às leis do mercado, por mais que num momento ou em outro, posem de ativistas.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

PT, ESQUERDAS E A DIREITA "ATRAENTE"


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas parecem otimistas. A direita, entusiasmada. Mas a situação do Brasil é bastante imprevisível para acharmos que tudo será às mil maravilhas: Brasil hexacampeão, Dilma reeleita, país no Primeiro Mundo, e, no lado da oposição, uma direita que acha que tem todas as respostas para resolver as crises sociais que ainda persistem.

A realidade está muito mais complexa, e o que se nota no Partido dos Trabalhadores é um otimismo exagerado de seu triunfo, como se o caminho já estivesse previamente traçado pelo destino. A última participação do ex-presidente Lula num encontro de blogueiros mais parecia uma comemoração antecipada da vitória do PT nas urnas.

O PT até realizou progressos sociais, mas peca pelo corporativismo, pelas alianças sem confiabilidade, pelo pragmatismo paliativo - como definir medidas auxiliares, urgentes mas provisórias, como as cotas raciais e o Bolsa Família, como se fossem definitivas e permanentes - e por uma concepção míope de cultura popular.

Em contrapartida, surge nas mídias sociais uma direita articulada, organizada e influenciada por um elenco "atraente" que inclui um roqueiro (Lobão), um pensador com empatia entre os jovens (Rodrigo Constantino), uma bela moralista nervosa (Rachel Sheherazade), filósofo (Luiz Felipe Pondé), antropólogo (Roberto da Matta), cineasta (Arnaldo Jabor) e "imortal" da ABL (Merval Pereira).

O PT se faz de vítima, mas prefere se sentir vitorioso, enquanto não consegue explicar seus erros e equívocos. Que isso é influência sobretudo de contatos "alienígenas" aqui e ali, do PMDB a George Soros, ou que interesse tiveram José Dirceu e José Genoíno por Marcos Valério.

Os petistas se limitam a reclamar da campanha midiática contra eles. Tudo bem. Mas a falta de autocrítica, de um lado, e um orgulho triunfalista, de outro, faz com que o PT esteja muito mais no caminho das incertezas do que das certezas.

Os noticiários, não somente da imprensa reacionária ou semi-reacionária mas também algumas progressistas, mostram o quanto a situação brasileira está bem difícil. Fenômenos como Anonymous, Black Blocs, os protestos de ruas, os vandalismos, a violência, os protestos na Internet, tudo isso desafia a opinião pública em geral e indica mais um país turbulento do que tranquilo.

A derrubada em definitivo do mito de que as mídias sociais causariam, por si só, a revolução social, transformando a humanidade em objeto, e não sujeito, do processo ativista, foi comprovada quando o direitismo passou a crescer de forma mais organizada no Facebook e no Twitter, de forma bem mais explícita que o pseudo-esquerdismo com QI de extrema-direita do Orkut de oito anos atrás.

As esquerdas, e não só o PT, erram porque seu projeto político, econômico, social e cultural apontam muitos erros. Medidas paliativas como o Bolsa Família são válidas, desde que provisórias e emergenciais. O progresso também não se dará com transposição do Rio São Francisco e com hidrelétricas como Belo Monte, que causam danos sócio-ambientais sérios.

Da mesma maneira, a cultura popular não se evoluirá pela bregalização nem pelo "funk", e que todo o discurso esquerdista condescendente com os funqueiros já gerou péssima repercussão, na qual é insuficiente os esquerdistas se passarem por vítimas e fazerem a mesma choradeira pró-funqueira de sempre.

As esquerdas não se evoluíram, e isso não é uma constatação de extrema esquerda. Até porque, com a mediocrização sócio-cultural atingindo níveis elevados - tanto que muitos incautos acham naturais coisas que, na verdade, são aberrantes - , até o esquerdismo mais equilibrado de 50 anos atrás hoje parece "extrema-esquerda".

Sim, somos "norte-coreanos" e "brizolistas" por defender coisas que seriam apenas convencionais nos anos 60. Hoje querer que o samba dos morros seja apreciado pelos jovens dos morros é um misto de elitismo com radicalismo guerrilheiro. Querer que o artista fale de amor como se falava nas boas canções brasileiras tem o status de campanha panfletarista da UNE.

As esquerdas glamourizaram a miséria, a ignorância e até a pornografia. Perdem tempo defendendo a liberação da maconha em vez de lutar pela qualidade de vida. Querem bregalização em vez de uma cultura popular melhor. E acham que regulação da mídia se limita tão somente a domar o noticiário político para que todos passem a falar bem de Lula, Dilma e seus amigos.

O Partido dos Trabalhadores, portanto, está bastante defasado. Se Dilma vencer as eleições, será muito mais por uma questão de "zona de conforto" do que do sucesso de seu programa de governo, muito acanhado em relação às expectativas. Também o corporativismo petista de setores das esquerdas não resolvem a solução, porque todo corporativismo é irreal e restritivo.

O Brasil está complexo, e as esquerdas estão perdendo a chance de adotar posturas autocríticas, rever posições. Se, por exemplo, o "funk" apunhala as esquerdas pelas costas e comemora seu sucesso com os barões da grande mídia, não é para os blogueiros de esquerda defenderem mais o ritmo. MC Guimê virando capa de Veja é suficiente para as esquerdas verem os funqueiros como traíras.

Diante de um PT cada vez mais confuso, e de outros setores de esquerda pouco eficazes, a direita se aproveita para adotar um discurso simplificado e "atraente", ainda que de forma demagógica, já que seu discurso "a favor do povo" só lhes é garantido pelo pretexto da oposição.

Ser oposicionista é uma posição mais confortável, porque, em vez de fazer o que não pode, se cobra do detentor do poder aquilo que ele prometeu fazer e não quis. E as pressões da vida desencorajam tanto neoliberais quanto esquerdistas em geral. O Brasil é muito complexo. Em vez de otimismo, deveríamos ter uma boa dose de realismo. Senão o país será engolido pelo caos.

terça-feira, 20 de maio de 2014

"FUNK" E A ESQUERDA QUE A DIREITA GOSTA


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas teimam em defender o "funk". Como na anedota do corno-manso, que aceita traição da própria mulher que vai para o quarto conversar com seus "primos", as esquerdas aceitam o "funk" mesmo quando os funqueiros apunhalam os esquerdistas pelas costas, se aliando com os barões midiáticos.

O "funk", neste sentido, virou a "burguesia nacional" da hora. Quem sabe de História do Brasil sabe do que se está falando. Um dos maiores erros das esquerdas em 1964, e que se tornou crucial para o sucesso do golpe civil-militar, é acreditar na aliança com a burguesia nacional na construção de um país socialista.

Naquela época, é bom lembrar mais uma vez, a burguesia nacional, percebendo a radicalização dos movimentos sindicais, camponeses e de lideranças políticas como Leonel Brizola, preferiu se aliar à UDN e aos direitistas que militavam no IPES e contribuiu com dinheiro e outros respaldos para a efetivação do golpe e da ditadura que se seguiu por duas décadas.

Isso causou uma desilusão tão grande nas esquerdas que, sem poder controlar o contexto sócio-político - a não ser pela força, de parte de alguns militantes, através da guerrilha armada - , viram seus sonhos e ideais se dissolverem e alguns até migraram para a direita ideológica, como foi o caso do cineasta Arnaldo Jabor e do político José Serra, ambos ex-ativistas da UNE.

Hoje a história se repete como uma farsa, mas no lugar da burguesia nacional, está o "funk". Se as esquerdas de 1963-1964 (descontam-se as mais radicais) acreditavam que o apoio da burguesia brasileira iria trazer o desenvolvimento sócio-econômico, hoje as esquerdas acreditam que o "funk" trará desenvolvimento sócio-cultural. Uma utopia que já está cobrando o seu preço.

"FUNK" NÃO QUER REGULAÇÃO DA MÍDIA NEM REFORMA AGRÁRIA

No discurso, as coisas parecem muito fáceis, mas na prática não. Se alguém perguntar a um dirigente funqueiro, como MC Leonardo, se ele é a favor da regulação da mídia e da reforma agrária, ele irá fingir que é totalmente a favor, até para encaixar sua retórica de suposta defesa da cidadania.

No entanto, na prática, se observa que o "funk" é radicalmente contra as duas causas. Primeiro, porque o "funk" prefere a aliança com os barões da mídia, que lhes garante visibilidade fácil, alta e permanente. Segundo, porque muitos DJs e empresários de "funk" já estão virando latifundiários, a exemplo do que acontece com os ídolos do "sertanejo" e da axé-music.

O que as esquerdas não percebem é que o "funk" não é algo acima das ideologias. Ele é algo "acima das ideologias", conforme a ideologia "acima das ideologias" de Francis Fukuyama, e entendendo o termo "acima das ideologias" como eufemismo para uma ideologia neo-direitista, na qual se enquadra o historiador do "fim da História", o preferido (não-assumido) de Pedro Alexandre Sanches.

Por isso as esquerdas adotam uma postura frouxa, condescendente e praticamente masoquista. Elas não percebem que são traídas pelos funqueiros, que, depois de fazerem suas poses de coitados na mídia esquerdista, vão para a mídia direitista comemorarem o prestígio obtido.

Por isso ninguém deve creditar como "conspiração" ou "ocupação do espaço inimigo" o fato dos funqueiros aparecerem na Rede Globo, na Folha de São Paulo e até na capa da revista Veja. Ninguém conspira para depois sair abraçado às supostas vítimas. Se o "funk" está na grande mídia, é porque seus astros e seus barões estão muito felizes com os funqueiros.

As esquerdas, presas no corporativismo e numa visão distorcida de cultura popular, estão cada vez mais impotentes de reagir ao protesto extremo-direitista, que cresce e se torna mais sofisticado. Pois só a extrema-direita rejeita o "funk", mas a direita em geral aceita e apoia o "funk", entendendo que é melhor um pobre "descendo até o chão" do que lutando por reforma agrária.

O discurso "socializante" do "funk" foi inventado pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo. Não há como escapar disso. As esquerdas pensam que o "funk" trará o socialismo para os subúrbios cariocas, e erram covardemente com esse discurso. Acabam alimentando a reação direitista que agora forja uma suposta consciência social que os esquerdistas se recusaram a desenvolverem.

O "funk" é patrocinado tanto pela contravenção e pelo tráfico quanto pela grande mídia e pela CIA. É certo que também recebe recursos do Governo Federal petista, mas no grosso os investimentos são provenientes do capital estrangeiro de instituições como a Soros Open Society e a Fundação Ford, repassados para o Estado e para instituições não-governamentais.

Por isso não há como acreditar que o "funk" é pobrezinho e faz sucesso porque choramingou por um espaço na mídia ou porque o status quo acredita que ele promoverá uma revolução sócio-cultural. Uma visão equivocada, afinal o "funk" glamouriza a pobreza, a pornografia e a ignorância, prende os pobres em estereótipos de miséria e reduz a cultura popular a uma mesmice comercial.

Daí que o "funk" é defendido por esquerdas que deixam a direita feliz e tranquila. É a esquerda que a direita gosta e que faz o direitismo crescer muito nas mídias sociais.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A GERAÇÃO HIPERMIDIATIZADA PÓS-1978


Por Alexandre Figueiredo

Os mais velhos eram crianças ou mal haviam nascido quando Bill Gates e o falecido Steve Jobs lançaram novidades na Informática. Não puderam acompanhar a primeira geração do punk rock, e não viveram as amarguras sócio-políticas causadas pelo AI-5. Eram muito pequenos para perceber a agonia da ditadura militar e os mecanismos traiçoeiros da "indústria cultural" politiqueira.

Já os mais novos nem haviam nascido em boa parte dessa época. Quando muito, nasceram quando a ditadura militar já havia passado. E também eram pequenos para perceber as artimanhas do governo Collor, os efeitos das concessões clientelistas de rádio e TV do governo Sarney e o problema da mediocrização artística dos tempos atuais.

Depois de 1978, nasceu uma geração que, salvo exceções, não acompanhou os rumos da História e se tornou praticamente dependente do poderio midiático. Os mais velhos não eram estimulados a ter um diálogo com os pais, os mais novos já tinham esse estímulo, mas não conseguiam compreender a vida de maneira amplamente questionadora.

Quando a década de 90 trouxe a reboque todo o processo de mediocrização sócio-cultural que foi da cultura popular ao rock, do cinema à moda, da literatura à televisão, os mais velhos mal entravam na puberdade e os mais jovens ainda estavam para encerrar a infância.

Em ambos os casos, são pessoas que só agora, tardiamente, redescobrem o Brasil e o mundo em que vivem. Os mais velhos tiveram que se tornar pais para ver que, por exemplo, os anos 80 não eram só Menudo, Dr. Silvana, Silvinho Blau-Blau e Xou da Xuxa. Os mais jovens começam a experimentar o ceticismo em relação a referenciais "institucionalizados" dos anos 80 para cá.

Eles são chamados de "geração Y", um termo até um tanto discutível, mas que se refere a pessoas que nasceram ou cresceram sob a influência da informática e do poder midiático, que de tão inserido em seus inconscientes, perdem a noção até mesmo do que é "cultura de massa" ou "cultura midiatizada", porque tudo lhes parece tão natural como a própria Natureza.

NASCIDOS ENTRE 1978 E 1987 SÃO MAIS "FECHADOS"

Nota-se, entre essas duas gerações, que aqueles nascidos entre 1978 e 1987 são em sua maioria bastante fechados nos seus referenciais culturais. O fato de terem nascido num período de crises sociais profundas e desajustes familiares os fizeram criar um "sistema de defesa" praticamente isolado nos referenciais situados no tempo e no espaço.

A alegoria pode ser comparada com o caso do garoto da bolha de plástico, o caso de um menino com problemas imunológicos que inspirou um filme de 1976, O Rapaz da Bolha de Plástico (The Boy in the Plastic Bubble), estrelado por John Travolta no papel-título, o mesmo que a geração de 1978-1987 conheceria em 1994 com o filme Tempo de Violência (Pulp Fiction), de Quentin Tarantino.

Eram pessoas para as quais só prestava aquilo que era produzido a partir de 1975 e que era "moeda corrente" na "indústria cultural" dos anos 80 e 90. Desprezando os anos 60, que pelos lamentos de seus pais foram tidos como uma "década perdida" (a Contracultura não havia conseguido combater os diversos reacionarismos sócio-políticos do mundo), a geração 1978-1987 se fechou no seu tempo.

Eles só apreciavam coisas que lhes eram "palpáveis" e "presentes", como aquilo que viam no rádio e TV desde a infância. A falta de compreensão do que seria anos 80 os levaria a considerar até mesmo desenhos animados dos anos 60 e seriados dos anos 60-70 como "cultura dos anos 80". É porque passava na televisão quando eles eram crianças, na década oitentista.

Por isso são raros os referenciais pré-1975 que apreciavam. Um Pelé, uma Hebe Camargo, um Roberto Carlos passavam, por razões óbvias. Mas o rock clássico virou demodê, o máximo é ouvir poser metal. A MPB ficou ultrapassada, o jeito é bregalizar de vez. Raciocinar e olhar longe viraram práticas negativas e repudiadas até com certa fúria.

Só aceitavam, como contemporâneos, Raul Seixas, Bob Marley e Che Guevara, mesmo assim de forma confusa, como se eles tivessem sido irmãos "doidões". E as tragédias lhes foram poucas, pois, fora Ayrton Senna, Mamonas Assassinas e Cássia Eller, a geração 1978-1987 não viveu grandes perdas, até sofrer o impacto da morte de Michael Jackson em 2009.

NASCIDOS APÓS 1987 SÃO ABERTOS, MAS ACEITAM TUDO SEM VERIFICAR

Já a geração nascida após 1987 encontrou um quadro sócio-político ainda mais "arejado", seja por conta das pressões sociais exercidas contra muitos abusos e irregularidades, seja pela consolidação da democracia, seja pela liberdade de informações e perspectivas sociais um tanto mais otimistas.

Com um diálogo mais aberto com seus pais, em relação à relação imediatamente anterior de pressões profissionais e afetivas que desestruturaram muitas famílias ou as fizeram sobreviver unidas num ambiente de ceticismo e busca pela sobrevivência, os nascidos após 1987 aceitam mais novidades e antiguidades do que seus similares um pouco mais velhos.

Embora criados pelo mesmo pano-de-fundo da ditadura midiática, os mais jovens buscam uma flexibilidade e um nível de compreensão menos atrofiado. Não precisariam trabalhar com patrões mais velhos ou se tornarem pais para verificarem que o mundo ia muito além dos quintais cronológicos dos jovens.

São mais receptivos a referenciais culturais antigos e outros que não fazem parte do escasso elenco de "sucesso" que seus semelhantes um tanto mais velhos apreciavam. Têm maior liberdade de apreciar as coisas, mas carecem ainda de uma visão mais questionadora sobre o que realmente vale a pena ou não em matéria de cultura.

Se a geração de 1978-1987 se apegava a um pragmatismo quase masoquista - "com tanta coisa ruim, até que o que eu gosto e acredito satisfaz minha vida" - , a que veio depois já vai um pouco além dessa baixa auto-estima, saindo das "bolhas de plástico" para ver um mundo que, no entanto, lhes deslumbra demais, como se fosse um admirável mundo de certezas pré-estabelecidas.

"PÓS-MODERNISMO" DE RESULTADOS

Se a geração de 1978-1987, na medida em que chegava aos 30 anos, se limitava a "redescobrir" cafonices como Waldick Soriano, Odair José e Ray Conniff, enquanto superestimava falecidos recentes como Michael Jackson e Wando, a geração mais nova, sem romper com tal perspectiva, pelo menos insere alguma criatividade e jovialidade.

Certo, é um "pós-modernismo" de resultados, pois ninguém espere de jovens nascidos depois de 1987 no Brasil uma geração empenhada em reciclar as lições do Modernismo e da Contracultura, já que, se os mais velhos eram culturalmente "sub-nutridos", os mais jovens apostam numa "gororoba".

É o que se vê nos ídolos em ascensão, que vão além de um fechado pragmatismo brega-comercial dos anos 90. Já não é mais obsessão defender o ruim por ser "melhor que o pior", mas de buscar alguma coisa boa da qual a juventude contemporânea, em sua curiosidade mal orientada, não consegue discernir qual é.

Em outras palavras, se a geração de 1978-1987 era bem mais fechada no que era o hit-parade, o status quo e o que "vier por aí" porque, "com tanta coisa ruim, até que tudo isso é bem legal", a geração pós-1987 já aprecia coisas bem mais diferentes, embora sejam incapazes de separar o joio do trigo.

Daí a comparação, por exemplo, da blogueira nascida depois de 1978 que pensou que "How Soon is Now?", clássico dos Smiths, era uma música da lavra autoral do Love Spit Love, e da geração pós-1987 que se divertia com a jocosa montagem que, de forma surreal, juntava a voz de Morrissey com o som rítmico do É O Tchan.

No primeiro caso, o isolamento no tempo ignorava que certos sucessos eram, na verdade, versões de músicas ainda mais antigas. No segundo caso, é a curiosidade desmedida e a busca aleatória por misturas inusitadas em que se despreza o questionamento de juntar coisas tão antagônicas num resultado que não é tão bom quanto parece, embora "divertido" à primeira vista, como piada pronta.

A geração pós-1987 consegue apreciar um Wilson Simonal, um Doors, ler obras literárias sem fazer cara feia, e parar para ver uma obra de artes plásticas, num salto para a geração anterior, que por sua ânsia de pragmatismos e "atualidades", preferia ver desfiles de moda banais como se eles substituíssem qualquer exposição de pintura ou arquitetura.

EM AMBOS OS CASOS, A INFLUÊNCIA DA GRANDE MÍDIA

O que se pode perceber é que, apesar de tais diferenças, as duas gerações têm em comum a influência forte do poder midiático, tão forte que, como um vírus que entra no organismo e ninguém sente os sintomas, as pessoas não percebem tal influência.

A geração mais velha das duas citadas, por ser a mais "fechada", é a que sofre ainda mais o peso do poderio midiático, embora em muitos casos se esforce, até de forma neurótica, em desmenti-lo. Isso porque seus valores ainda são carregados de influência da ditadura midiática, por mais que esses defensores definam tais valores como "da sociedade" e "acima de toda ideologia e poder".

Já a geração mais jovem tem uma maior liberdade. Ela já nasceu consultando a Internet, enquanto a mais velha construiu seus valores em emissoras como Globo e SBT e em rádios FM controladas por oligarquias, da Som Zoom Sat nordestina à 89 FM paulista. A geração mais nova já começou consultando portais e sítios que destoam do lero-lero midiático dos anos 90.

É certo que, num caso e em outro, há alguém da primeira geração hipermidiatizada que se abre para a "gororoba" cultural, e outro da segunda geração que é bem mais "fechado". Mas, no conjunto, as duas gerações se delimitam nas tendências descritas, até pelo quadro sócio-político que, depois de 1988, tornou-se mais flexível.

Resta saber se, no futuro, haverá uma geração que possa estar aberta ao mundo, não para apreciar tudo de forma não-verificada, mas para ver o que vale ou o que não vale a pena. Depois da geração "bolha de plástico" e da geração "gororoba", espera-se que surja uma geração capaz de separar o joio do trigo e que devolva ao Brasil um nível de compreensão sócio-cultural perdido há 50 anos.

domingo, 18 de maio de 2014

EMPRESÁRIOS DO BREGA AMPLIARAM O JABACULÊ SUBORNANDO SINDICATOS E ENTIDADES ESTUDANTIS

ANÚNCIO DE UM EVENTO "UNIVERSITÁRIO" EM ITABUNA, BAHIA.

Por Alexandre Figueiredo

O jabaculê mudou muito, em vários aspectos. Se no rádio FM o propinoduto tornou-se pior nas chamadas "jornadas esportivas", no comercialismo musical expresso pelo "popular" brega-popularesco, os subornos deixaram de se direcionar tão somente aos programadores e gerentes artísticos de emissoras FM.

Quem aposta na visão do jabaculê de 30 anos atrás, e infelizmente muitos ainda vivem nesse tempo, se enganou completamente. Em 2004, meu sítio Preserve o Rádio AM já alertava sobre o jabaculê esportivo que anos depois foi confirmado por um grave escândalo envolvendo rádios na Bahia, a ponto de Mário Kertèsz, um dos barões da mídia locais, quase ter morrido de infarto.

Já naquela época, ou seja, dez anos atrás, o jabaculê havia mudado e muita gente não percebeu. Blogueiros da época que se julgavam "líderes de opinião", que prometiam uma devassa no poder midiático e só transformavam seus blogues num desfile de fotos de sindicalistas e personalidades políticas, quase um fotolog com informes inócuos, se apagaram com essa visão mofada do "jabá".

Hoje subornar programadores de rádio para tocar música se tornou algo tão ineficiente e pouco lucrativo, numa época em que o filão do rádio AM, inclusive as "jornadas esportivas", invade a Frequência Modulada para atender a interesses de "coronéis" eletrônicos, empresários e jornalistas tecnocráticos e, ultimamente, aos "barões" da telefonia móvel.

Se de um lado um dirigente esportivo oferece jabaculê maior para as FMs, "lavando" o dinheiro sujo e a ser rastreado pelo Imposto de Renda nas "mesas redondas" e transmissões esportivas - com toda a poluição sonora feita em botecos, postos de gasolina, portarias de prédio, táxis e até estabelecimentos comerciais - , por outro os jabazeiros musicais teriam que mexer em outras áreas.

Daí que, nos anos 90, já no calor da popularização dos ídolos neo-bregas (Raça Negra, Só Pra Contrariar, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, Art Popular, Beto Barbosa, Latino, Mastruz Com Leite e Chiclete Com Banana, entre outros), o primeiro processo de expansão do jabaculê brega-popularesco foi aliciar sindicatos e entidades estudantis.

Dessa forma, as "parcerias" feitas com essas entidades representativas do proletariado e do movimento estudantil, além de uma forma de amestrar potenciais militantes sócio-políticos através do respaldo tendencioso à breguice cultural, seriam também uma forma de ampliar o mercado que antes se limitava aos baixos rincões sociais dos subúrbios e roças do país.

Economizava-se o dinheiro do jabaculê radiofônico, até porque até o dinheiro da indústria fonográfica, a essas alturas, paga o salário de locutores esportivos, quanto mais a grana dos empresários de ídolos bregas e neo-bregas. Antes que o dinheiro dos empresários de brega termine nas mãos das federações regionais de futebol, outros meios de propinoduto foram considerados.

Daí que, diante dos primeiros protestos acadêmicos e jornalísticos contra a breguice reinante, os empresários de brega começaram a articular o apoio de sindicalistas e líderes estudantis pelegos, que se ascenderam por conta dessas "parcerias".

De repente, ídolos neo-bregas passaram a se apresentar em pequenos festivais realizados por diretórios estudantis das faculdades - sobretudo Medicina, a mais elitista - e por eventos patrocinados por sindicatos, sobretudo em eventos comemorativos do Dia do Trabalho.

Esses primeiros focos de suborno aumentaram o alcance da bregalização sócio-cultural, numa estratégia gradual de dominação, já consolidada com as concessões de Sarney e ACM, feitas nos anos 80, que presenteou emissoras de rádio e TV para oligarquias políticas, empresariais e latifundiárias.

Foram essas concessões - das quais a intelectualidade dominante de hoje faz vista grossa - que se desenhou um modelo coronelista de "cultura popular", que hoje prevalece às custas de um discurso forçadamente modernista e pretensamente ativista, que fala numa "ruptura de preconceitos" que, na verdade, é uma aceitação pré-concebida das coisas, algo até muito mais preconceituoso.

E tudo isso começou porque os empresários do brega-popularescos, riquíssimos e aliados dos políticos mais traiçoeiros e dos latifundiários mais vingativos, foram seduzir líderes sindicais e estudantis para um acordo financeiro que estabeleceria lucros em ambas as partes.

Com isso, além de patrocinar eventos de ídolos neo-bregas em evidência ou ascensão naqueles anos 90, líderes sindicais e estudantis promoviam peleguismo compactuando com empresários de entretenimento que são aliados do latifúndio e do patronato em geral.

Era a época das greves que, de tão banalizadas, perdiam o sentido realmente reivindicatório enquanto lideranças sindicais festejavam inexpressivos reajustes salariais. E também a época em que o ativismo estudantil se esvaziou na medida que suas entidades viraram meras "fábricas de carteirinhas". Tanto em um quanto em outro caso, o peleguismo garantia lucros e poder para seus líderes.

Esse caminho antecipou o que se esperaria depois, a intensa blindagem intelectual que iria promover como um quase monopólio a já preocupante supremacia da bregalização cultural que se via no mercado dos anos 90. E que condenou o nosso rico patrimônio cultural a um empastelamento e uma série de deturpações que acostumaram mal não só o povo, mas também as elites.

sábado, 17 de maio de 2014

A DIREITA QUER USAR BREGA PARA "REINVENTAR" A MPB

THIAGUINHO E MARIA GADU - O sambrega tenta cooptar a MPB cada vez mais cansada.

Por Alexandre Figueiredo

A MPB está velha e cansada, mas nem por isso bregalizar é a solução. Reclamem como reclamem os internautas, intelectuais, artistas, celebridades, jornalistas etc, porque a bregalização nem de longe representa a verdadeira cultura popular.

Numa sociedade midiatizada, tudo hoje parece natural, diante da banalização e da supremacia de tantos fenômenos midiáticos. Tudo ficou hipermediatizado, até corações e mentes são pautados pelo poder midiático e isso é inserido no inconsciente coletivo de tal forma que tudo parece tão natural quanto o ar que respiramos.

Mas não é. Estamos perdendo o essencial do sentimento humano, enquanto as pessoas se carregam de pretensões diversas. Todos estão querendo ser tudo: de nerds a zapatistas, exceto ser si próprias. O pretensiosismo vanguardista passa acima de vocações, identidades e até mesmo da honestidade.

Isso se reflete na cultura brasileira da forma mais cruel e hipócrita possível. O entretenimento e o comercialismo musical hoje se pautam por pseudo-teorias que tentam justificar tudo e veem ativismo até em bobagens sem sentido, numa mania espalhada pela blindagem intelectual.

ANTES, BREGA ERA SÓ PIADA E DIVERSÃO

O brega até que não incomodava muito. Era apenas um tipo de música e de expressões comportamentais associado ao comercialismo explícito, quase humorístico e feito meramente por pura diversão.

A situação mudou muito quando o brega, em parte mesclado com arremedos de ritmos populares regionais, tornou-se hegemônico, foi levado a sério demais por uma intensa campanha midiática e intelectual, e que criou um pretensiosismo sem limites que preocupa seriamente pelo seu teor.

A situação piorou até para quem defende o brega que, em vez de curtir tranquilamente seus ídolos, se preocupam demais com as críticas e ficam "sociologizando" demais aquilo que curtem. Em vez de dizer "eu gosto de fulano ou sicrano", ficam criando teses "cabeça" e surreais sobre supostas funções ativistas ou revolucionárias desses ídolos.

Tudo virou um lobby violento que quase não temos MPB autêntica no Brasil. Artistas com opiniões fortes e uma postura insubmissa às leis do mercado estão dando lugar a ídolos "maleáveis" que aceitam tudo em nome do sucesso, mesmo quando forjam algum pretenso ativismo ou provocação.

O CANSAÇO DA MPB

A MPB que causou um grande impacto nos anos 60 e 70 hoje está reduzida a uma geração de jovens inócuos, que na prática já nem fazem música brasileira, mas um pop romântico inofensivo, às vezes simpático, mas sem qualquer criatividade plena.

Já desde os últimos anos, quando a indústria fonográfica fez a MPB sucumbir a um comercialismo pomposo, a música brasileira de qualidade tornou-se elitista, e o distanciamento das classes populares às próprias raízes musicais, iniciada durante a ditadura militar, se aprofundou cada vez mais.

A cultura popular tornou-se subordinada ao poderio midiático, às regras de mercado. Enquanto isso, o que sobra da MPB autêntica está em processo de gradual desaparecimento. Saem os artistas espontâneos, morrendo aos poucos, enquanto os últimos focos emepebistas se diluem em legados que já não são mais pós-tropicalistas, mas puro pop americanizado.

A MPB se entregou para fórmulas comerciais, se banalizou em clichês, virou imitação de seus próprios êxitos e compactuou com a breguice dominante, em busca de espaço de divulgação. Perdida, envelhecida e perdendo seus mestres, a MPB autêntica já perdeu a representatividade entre o público jovem, que o rádio fez acostumarem-se com a bregalização.

APENAS "PROFISSIONAIS"

A direita midiática, que fez crescer a bregalização, inventou o discurso "ativista". Ideólogos que apostavam na bregalização eram acadêmicos ligados a uma linha de pensamento difundida pelo PSDB ou estavam a serviço na Folha de São Paulo e na Rede Globo.

Foi na direita midiática - que agora tenta renegar a responsabilidade de defender a bregalização - e seus intelectuais (que tentaram se infiltrar na mídia esquerdista e também renegam o vínculo com a mídia da qual vieram) que o discurso pseudo-ativista que defendeu desde o brega de raiz até o "funk" começou a ser difundido e ampliado.

Isso já tornou o brega um quase monopólio na cultura brasileira, não só musical, mas também comportamental. O paradigma de cultura popular se subordinou a estereótipos que foram divulgados na marra, a pretexto da "ruptura de preconceitos", uma desculpa para tendências cafonas ampliarem reservas de mercado, atingindo públicos considerados "conceituados".

A partir daí, a grande mídia, que em muitos casos não mediu escrúpulos para depreciar a MPB autêntica ou, quando muito, torná-la cada vez mais figurante do espetáculo brega - logo os bregas, que eram os penetras da festa, se passam agora por "anfitriões" - que atinge até mesmo os altos rincões das elites.

Hoje o que se vê são ídolos apenas mais "profissionais". Tecnicamente corretos, mas que em nenhum momento equivalem à criatividade espontânea dos antigos emepebistas, os ídolos neo-bregas, de Chitãozinho & Xororó a Thiaguinho, apenas fazem discos "digeríveis" para públicos de elite, mas nada somam em linguagem ao que já foi produzido na MPB.

MÚ$ICA POPULAR BRASILEIRA

Os barões da mídia querem usar agora os bregas veteranos para criar um modelo de MPB mais inofensivo, mais tendencioso. A ideia é transformar a MPB numa linha de montagem para bregas veteranos imitarem, sem dar um acréscimo de criatividade.

Às vezes, pode-se até carregar na pretensão, como Leandro Lehart tentando imitar o hoje esquecido Monsueto, ou Mumuzinho querer bancar o "novo Simonal". Tudo por uma questão de boas roupas, boas roupagens, banho de loja e de técnica. E dá-lhe Daniel e Leonardo gravando covers de MPB em arranjos pasteurizados.

A grande mídia e o mercado, respaldado por multinacionais, juntamente com o patrocínio do latifúndio, quer esvaziar a MPB autêntica, seja isolando-a nas elites, seja promovendo uma imagem cada vez mais pejorativa. E a cada ano ela elitiza até mesmo os ritmos populares de outrora, jogando o samba de raiz e o baião para plateias mais ricas, privando o povo de suas raízes musicais.

Com uma campanha ideológica pró-brega e anti-MPB, com uma articulação comparável ao do antigo IPES-IBAD - eu costumo chamar os pró-bregas de "CPC do IPES" - , um lobby de intelectuais, famosos, empresários, jornalistas, acadêmicos e executivos de mídia quer extinguir a MPB e, na melhor das hipóteses, jogar o antigo patrimônio musical brasileiro para museus e mansões.

Com isso, eles tentam "zerar" a música brasileira e apostar no brega que surgiu em total desprezo com as raízes musicais, de tão ocupado estava com a imitação tardia e matuta do pop norte-americano. E fazem isso com fúria, embora com uma convicção digna de um Francis Fukuyama, seu mentor oculto de suas visões culturais.

Depois disso, eles usam os ídolos bregas para forjar os caminhos da "nova MPB" que querem: sem espontaneidade nem criatividade, mas tendenciosa, pedante e adaptável às regras de mercado, com cantores e grupos submissos, às vezes falsamente rebeldes e pseudo-ativistas, mas que não ameaçam o status quo como ameaçam ainda Beth Carvalho, Alceu Valença, Edu Lobo e Chico Buarque.

Por isso, é um processo perverso e hipócrita. A grande mídia quer matar a MPB e depois fazê-la ressurgir domesticada através dos ídolos bregas. A sociedade não percebe as armadilhas que estão por trás e acha isso maravilhoso, sem verificar que o status quo tenta reescrever a história da MPB escrevendo "música" com cifrão: MÚ$ICA POPULAR BRASILEIRA.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

"INDÚSTRIA CULTURAL" CRIA FALSO MANIQUEÍSMO ENTRE "FUNK" E O POP-ROCK


Por Alexandre Figueiredo

Nota-se, na sociedade influenciada pela chamada "indústria cultural", a formação de um falso maniqueísmo que polariza forças pseudo-progressistas com outras abertamente reacionárias, num suposto conflito de classes que não apresenta real ameaça ao status quo.

Esse "teatro dos conflitos" se expressa, de um lado, entre o populismo marcado pela bregalização cultural, ancorada sobretudo no "funk", e, de outro, de um neo-conservadorismo de verniz rebelde marcado pela domesticação da cultura rock pelas emissoras 89 FM (SP) e Rádio Cidade (RJ).

Na tentativa de evitar as revoltas sociais - algo que vem se demonstrando pouco eficiente, vide as diversas tensões sociais que vivemos - , a mídia conservadora, ainda desde o auge da ditadura militar, se empenhou em promover a domesticação sócio-cultural tanto de pobres quanto de jovens.

Isso se dava de diversos modos, seja através da diluição da cultura popular, seja pelo comercialismo extremo da chamada "cultura pop" internacional, que no Brasil tentou cooptar até mesmo tendências consideradas alternativas, que eram esvaziadas na essência e transformadas em estereótipos.

Nos anos 90, isso se tornou evidente e, curiosamente, paralelo. Se, de um lado, tínhamos o crescimento vertiginoso da bregalização da cultura popular, de outro, tínhamos o processo não menos agressivo de deturpação da cultura rock, reduzindo o tom de rebeldia a aspectos formais e aparentes, mas escondendo uma ideologia de essência bastante conservadora e reacionária.

Isso se deu sobretudo quando rádios FM e emissoras de TV tiveram o apadrinhamento político do então presidente da República, José Sarney, e seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

Ambos "coronéis" políticos de seus Estados, Maranhão e Bahia - Sarney ainda tem domicílio político no Amapá - , eles presentearam aliados políticos e empresariais com novas outorgas de rádio e TV feitas sem qualquer critério técnico, mas por puro clientelismo político.

Isso influiu em boa parte do "mapa" da "cultura popular" do Brasil, com a bregalização avançando de forma avassaladora, tomando reservas de mercado maiores e estabelecendo um quase monopólio que já coloca a geração neo-brega dos anos 80 e 90 (Michael Sullivan, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Daniel, Leonardo e Raça Negra) numa ala pretensamente "emepebista".

Outro efeito desse âmbito é a glamourização do "funk carioca", antes uma tolice sem qualquer relevância, hoje produto de uma campanha discursiva engenhosa que atribui, equivocadamente mas de forma verossímil, o ritmo popularesco carioca (que já tem uma "sucursal" paulista, o "funk ostentação") a clichês do discurso etnográfico, ativista e pós-modernista.

Mas as concessões de Sarney e ACM também refletem um cenário político que favoreceu as chamadas "rádios rock". A 89 FM de São Paulo tem como um dos donos o patriarca José Camargo, que também foi político da ARENA / PDS durante a ditadura e foi afilhado político de Paulo Maluf.

Crescendo vertiginosamente apoiando o presidente Fernando Collor, no início da década de 90, a 89 FM rompeu com Paulo Maluf e hoje apoia o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, através do DEM, partido pelo qual os donos são filiados.

A Rádio Cidade também se "aventurou" no perfil "roqueiro" respaldando o poder político do PSDB e do DEM, tendo sido politicamente favorecida pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, já em 1995, que era apoiado na época pelo Jornal do Brasil. Apenas depois, quando virou afiliada da 89 FM, a Cidade manteve a mesma orientação, enquanto o jornal passava para a oposição.

"PACOTE REACIONÁRIO"

Ambos os processos buscaram respaldo não só em políticos, mas também em empresários, celebridades e artistas. Se o brega-popularesco, sobretudo o "funk", se serviu de intelectuais das ciências sociais (antropólogos, sociólogos e historiadores) de jornalistas e de famosos identificados com alguma causa pós-tropicalista (ou seja, receptiva à "cultura de massa"), o pop-rock também armou sua estrutura de propaganda.

Os contextos, no fundo igualmente conservadores, tentam parecer diferentes, como na velha dicotomia entre liberais e conservadores. Os "liberais" da bregalização tentam parecer progressistas, com seu populismo carregado de ideias neoliberais dissimuladas por pretextos supostamente modernistas, com na retórica pós-tropicalista de Caetano Veloso.

Já os conservadores do pop-rock - nome que vamos usar para o "rock comercial" da 89 e Cidade - se inserem num contexto em que a direita se serve de um elenco "mais atraente", que, nesses momentos de crises sociais e de fraco desempenho do PT, tentam adotar uma postura "mais consistente".

Pois, de um lado, tínhamos a blindagem pró-brega de jornalistas "sabedores", antropólogos "empenhados" e historiadores "batalhadores", como, respectivamente, Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna e Paulo César Araújo.

Volta e meia tinha um tecnocrata tipo Ronaldo Lemos, uma militante como Ivana Bentes, um ativista tipo Capilé ou um reaça enrustido como Eugênio Raggi, ou então uma discreta Mônica Neves Leme ao lado dos fanfarrões baianos Milton Moura e Roberto Albergaria.

A reboque, os pró-bregas tinham também a contribuição de nomes como Regina Casé, Zeca Baleiro, Fernanda Abreu, Mariana Ximenes, Leandra Leal. Havia também "instituições" como o Coletivo Fora do Eixo, a Rádio Zona (FM comunitária de prostitutas) e outras engajadas na espetacularização do ativismo, incluindo Paradas Gay dotadas de homossexuais e feministas estereotipados.

Passada essa fanfarronice promovida às custas de verbas estatais do governo petista, agora é a vez da "direita zangada" mudar o tom e trazer para si o público que antes apreciava bregas e pseudo-ativistas, convertendo-os para formas domesticadas de rock que fazem a trilha sonora do "idealismo" conservador do momento.

Portanto, é a 89 FM e a Rádio Cidade que se relançam num contexto em o outrora rebelde Lobão, o intelectual Rodrigo Constantino, o agressivo Reinaldo Azevedo e a bela moralista Rachel Sheherazade empolgam a juventude exagerando nas críticas que se deve fazer ao chamado lulo-petismo.

A trilha sonora "nervosa", mas não a ponto de representar algum perigo para as classes dominantes, é o tom dessas duas rádios, juntamente com uma linguagem quase infantiloide de locutores que parecem animadores de gincanas infantis. Ou seja, "rádios rock" completamente desprovidas de qualquer estado de espírito roqueiro, associado a uma rebeldia que normalmente assusta os poderosos.

Portanto, deixado de lado o populismo um tanto romântico do discurso pró-bregalização, que defendia uma imagem estereotipada e um tanto abobalhada das classes populares, entra o discurso pop-roqueiro, que defende uma imagem não menos estereotipada da juventude brasileira, mas reduzindo a rebeldia a um estereótipo de gestos e aparência que, ideologicamente, é conservador.

No fundo, uma coisa e outra não diferem muito na essência. Em tempos de explosão dos protestos de ruas e do risco de ascensão das forças progressistas - aparentemente superado pelos erros cometidos pelas esquerdas, sobretudo por um Governo Federal pouco ousado e pouco eficiente - , domesticar pobres e jovens é a tônica do baronato midiático para a manipulação social no país.

Através dessa manipulação, as populações são inseridas num ideal de consumismo pleno, enquanto se evita a conscientização de mentes e a formação de uma sociedade preparada para reagir com inteligência aos abusos do poder dominante. Através do brega-popularesco e do pop-rock, as populações são amestradas para que possam, aos olhos das elites, serem menos ameaçadoras.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

BREGA TENTA FORÇAR O VÍNCULO COM A CULTURA ALTERNATIVA


Por Alexandre Figueiredo

A blindagem intelectual em torno do brega-popularesco criou uma situação cada vez pior. Inseriu em ídolos medíocres um pretensiosismo que eles nunca tiveram na origem e que, em últimas consequências, os leva a delírios ou oportunismos bastante constrangedores e forçados.

Os ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas nunca foram grande coisa. E nem se tornarão. Mas no começo da carreira eles, num sentido dúbio, nunca quiseram fazer cultura de qualidade. Foi um bem e um mal, porque no começo eles eram assumidamente ruins, e hoje eles se tornaram muito mais confusos diante das cobranças de melhorias que as circunstâncias e conveniências fazem para eles.

Já vimos os neo-bregas dos anos 80 e 90 aderirem a um pretensiosismo de sofisticação, assimilando todo um ritual de pompa e luxo que marcou a fase "burguesa" da MPB autêntica, a mesma que afastou a MPB do público jovem, mas que hoje foi poupada pela intelectualidade, que agora usa a geração bossa-novista dos anos 60 como bode expiatório dos males cometidos pela MPB mais comercial.

Agora, há uma ala de bregas que são empurrados, pela blindagem intelectual supostamente "provocativa", para o público alternativo. Algo que empurrar óleo de ricino na goela de uma criança. Juntar extremos antagônicos, a retaguarda do brega e a vanguarda do alternativo, tornou-se cada vez mais comum, respaldado em alegações falsamente modernistas.

E isso contagia não só músicos como também sub-celebridades que, marcadas pelo vazio intelectual, agora tentam compensar o tempo "perdido" para se associarem a algum pretexto supostamente vanguardista.

Na música, vemos o caso do "funk", que se apoia aos mais contraditórios discursos avançados, numa campanha de defesa do ritmo que mostra argumentos confusos, chorosos, ilógicos e nem tão vanguardistas quanto parecem, mas que garantem sua popularização e visibilidade por parte de um público com maior poder aquisitivo.

O "funk" lança mão até de discursos comparativos nada procedentes, porque apenas evocam coincidências superficiais. Da Semana de Arte Moderna à Contracultura dos anos 60, as comparações tendenciosas e falsas do "funk" converteram em falso ativismo social, sobretudo racial e sexual, todo seu perfil ideológico, no fundo associado ao mais rasteiro machismo e racismo anti-negros.

Daí por exemplo empurrar a Valesca Popozuda a um contexto fashion associado à pop-art de Andy Wahrol, ela que havia sido classificada como "pensadora" por uma "polêmica" questão escolar. Ou então jogar um inexpressivo grupo de funqueiras para abrir uma mostra sobre Josephine Baker através de uma vaga, tendenciosa e improcedente comparação.

Em outros gêneros, como o "pagode romântico", além da promoção tardia do cantor Leandro Lehart em suposto "artista visionário" - se tornando uma imitação barata do falecido e hoje esquecido Monsueto (1924-1973) - , temos também a forçada associação de nomes como Raça Negra, Grupo Molejo e até o "pagodão" do É O Tchan a contextos alternativos.

O Raça Negra foi empurrado para o público alternativo através de um disco-tributo produzido e depois distribuído pela Internet, e cuja capa imita a estética de álbuns de grupos como Sonic Youth, mostrando uma garota franzina numa loja de discos de vinil que destacava os LPs do RN.

O Grupo Molejo foi empurrado para esse público através de uma camiseta que imitava a estética da camisa oficial dos Ramones, incluindo a descrição dos nomes dos integrantes à maneira do que se foi feito com os membros originais (três deles já falecidos) da antiga banda nova-iorquina.

Já o É O Tchan havia sido enquadrado numa suposta cena "independente" descrita em monografia por Mônica Neves Leme, trabalho que resultou no livro Que Tchan é Esse?, de 2003, a partir de um projeto de pesquisa bancado, ainda que indiretamente, pela CIA (agência de informação dos EUA) a partir da Fundação Ford.

Mas agora o grupo, ícone das baixarias culturais que marcaram a década de 1990, incluindo apologias à erotização infantil e até ao estupro, tenta ser reabilitado por uma "provocativa" mixagem de um DJ, de nome Bertazi, que incluiu o vocal de Morrissey na música "This Charming Man", da extinta banda inglesa The Smiths.

A mixagem, disponível no YouTube, é algo que soaria ofensivo não só aos fãs dos Smiths como também ao próprio Morrissey. O perfil ideológico do É O Tchan é extremamente oposto ao dos Smiths, da mesma forma que o nazismo é para a cultura judaica.

Mixar É O Tchan com Smiths tem o mesmo sentido de convidar Morrissey, um vegetariano convicto que considera o abatimento de carne como um genocídio, a participar de um churrasco a rodízio. A intelectualidade "bacana" gosta, porque para ela qualquer idiotização lhes soa "libertária" e, com seu "sangue de barata", fica tranquila até quando 99% da sociedade reage com tais "provocações".

No entanto, a atitude do DJ Bertazi faz os fãs se lembrarem do verso final de "Panic", outra conhecida música dos Smiths, feita em protesto contra a veiculação de uma música de George Michael após a notícia do acidente nuclear em Chernobyl: "Hang the DJ" que, traduzida, quer dizer "enforquem o DJ".

Fora da música, é a vez das "boazudas" também partirem para a pretensão pseudo-vanguardista, puxadas pela "animadora" gafe de uma prova escolar se referir à Valesca Popozuda como "pensadora", enquanto, tempos depois, a jornalista Ticiana Villas-Boas expressa sua alienação cultural. A pretensão já era antecipada por alegações de suposto feminismo e "liberdade do corpo".

Andressa Urach, a sinistra vice-Miss Bumbum sobre a qual surgem boatos de que ela seria prostituta ou que estaria namorando capanga de banqueiro de bicho, havia contratado um cientista político (?!?!) para treiná-la para ser apresentadora de um novo programa de televisão.

No mesmo rastro da Popozuda, há a ex-integrante da Banheira do Gugu, Solange Gomes, agora fazendo festinha infantil, além de Geisy Arruda também querer bancar a "intelectual" e as paniquetes e ex-paniquetes estarem à mercê de um novo trainée que as faça parecerem "mais legais" para um público mais intelectualizado, ou quase isso.

A única coisa que "une" bregas e alternativos é a suposta rejeição por parte do público médio consumidor de fenômenos de "maior sucesso". Só que essa é uma coincidência superficial e sem qualquer importância comparativa, e que está sujeita a uma espécie de mal-entendidos e interpretações equivocadas que põe as elites pensantes de hoje em xeque-mate.

Primeiro, porque o brega nunca teve a ver com vanguarda e nem tem. O brega sempre se serviu de restos do que fazia sucesso em períodos anteriores, sendo uma colcha-de-retalhos de referências já mofadas e datadas da "cultura de massa". Portanto, ser brega sempre esteve associado à retaguarda cultural e não o contrário.

O alternativo é diferente. Se o brega é o "último a saber" das coisas e se alimenta de tendências ultrapassadas, o alternativo é o "primeiro a fazer" e a antecipar movimentos artístico-culturais lançando expressões de linguagem que podem até não serem inéditas, mas sempre carregam algo de inovador e expressivo.

O brega se ancora na idiotização cultural, na glamourização da pobreza, da ignorância e até do vazio de valores morais e sócio-culturais. É uma espécie de pop norte-americano traduzido de forma matuta no Brasil, sob o ponto de vista de um povo pobre subordinado ao poder latifundiário a dominar áreas rurais e ter equivalentes nos subúrbios e até no "mundo" midiático.

O alternativo, pelo contrário, se ancora na denúncia dessa opressão que os bregas aceitam com certa resignação. Estabelece linguagens que rompem com paradigmas dominantes, como os que prevalecem no pop norte-americano, e primam não pela mediocridade criativa nem com a postura de coitadinho, mas por uma cultura de cabeça realmente erguida e não necessariamente popular.

A série de contradições e equívocos que o discurso intelectual dominante e defensor da bregalização faz com que se confundam demais as coisas, acreditando que todos são vanguardistas porque são rejeitados e que tanto faz fazer sucesso primeiro com gafes e depois querer parecer "decente".

Ninguém espera muito tempo para tentar dar conta do recado. Ninguém se realiza primeiro cometendo gafes de propósito e depois querer fazer tudo direitinho. Ninguém vira gênio com pose de coitadinho e ninguém se torna vanguardista porque é "popular", na maioria das vezes sendo até o oposto disso. Estas são constatações que passam longe do discurso intelectualoide que ainda deslumbra muitos.

Forçar a barra para juntar bregas e alternativos não contribui de forma alguma para o aprimoramento de nossa cultura. As vanguardas não existem para servir à vaidade pedante das retaguardas. Isso em nada contribui para os medíocres tornarem-se geniais, quando muito eles se tornarão apenas imitadores tecnicamente corretos mas superficiais do que os mestres já fizeram antes.

Juntar bregas e alternativos na marra só ajuda mesmo na presunção retórica de uma geração de intelectuais para os quais só tem valor o que desagrada e incomoda, qualidades que, no entanto, são muito mais negativas que positivas. E, sendo negativas, nada nos dizem no enriquecimento e renovação de nosso patrimônio cultural.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

SOLTEIRICE, MACHISMO E "HIGIENIZAÇÃO" SOCIAL


Por Alexandre Figueiredo

O grande contraste que tem entre a elite de musas da televisão, em sua maioria em relações conjugais estáveis, e as consideradas "populares", que se projetam num aparente celibato, nos faz a pensar no que é a visão de vida conjugal desejada pela "indústria cultural" de nosso país.

A serviço de grandes empresas, sobretudo multinacionais, e de elites brasileiras que vão dos barões da grande mídia, nacionais e regionais, aos latifundiários, a "indústria cultural" cria modelos de "cultura popular" que não podem ferir os interesses dominantes, mesmo que apelem para ativismos tidos como "revolucionários", porém no fundo bastante inofensivos.

E isso influi até mesmo no padrão que a "cultura de massa" trabalha da "mulher solteira". O estereótipo da solteira brasileira não pode estar associado a uma mulher que aproveita a vida para ampliar conhecimentos e viver sem estrelismos ou apelações, e de preferência deva ser representado por mulheres que já expressam valores machistas por conta própria.

Sim, porque o status quo determina que as mulheres não escapem muito dos valores machistas. Se a mulher é bem instruída, tem opiniões consistentes e não depende de ser objeto sexual para vencer na vida, ela precisa ter sua "independência" regulada por um marido influente, geralmente um empresário, executivo ou profissional liberal (médico, advogado, engenheiro, economista etc).

Se a mulher, no entanto, se projeta na sua imagem de objeto sexual, pouco importando os arremedos de ativismo social que desempenha - como defender a causa LGBT ou protestar contra atos de apologia ao estupro - , ela já presta serviço aos valores machistas, o suficiente para deixar de viver à sombra de um homem.

Em outras palavras, a mulher brasileira é aconselhada pelo status quo a viver sob a sombra do machismo. Se ela não se submete sequer ao machismo mais cordial, buscando o máximo de independência pessoal possível, ela precisa ser "regulada" pela figura de um marido importante, que em tese "patrocinaria" a emancipação sócio-econômica de sua mulher.

Isso cria momentos constrangedores. Como, por exemplo, as gafes cometidas pela jornalista Ticiana Villas-Boas, da TV Bandeirantes. Alguém imaginaria que ela teria dito o que disse se não tivesse se casado com o empresário Joesley Batista, da Friboi? Se optasse pela solteirice, talvez ela tivesse uma trajetória bem mais realista e mais "pé no chão".

Por outro lado, as chamadas "musas populares" já seguem, simbolicamente, o receituário machista, elas não precisam se projetar sob a sombra de um homem porque elas já fazem, sozinhas, o que os machistas querem. Pouco importa se esse machismo de glúteos siliconados é travestido do "feminismo mais corajoso", o receituário machista é cumprido de forma exemplar, de alguma forma.

VIDAS AMOROSAS

Atrizes e jornalistas de tevê, em sua grande maioria, são geralmente comprometidas e só a elas cabe a mídia trabalhar a imagem da felicidade conjugal. É só comparar as famosas mais prestigiadas entre as elites com as famosas que se destacam no âmbito do "popular" que se nota a diferença.

Enquanto as "musas populares" se queixam das cobranças da vida amorosa, seu discurso porém revela o inverso, oculto nas palavras nervosas de uma solteirice forçosamente desesperada. Na verdade, o problema não é elas serem cobradas para ter algum namorado ou marido, mas simplesmente serem impedidas de tê-los.

A própria imagem ideológica cria um contraste. Só dois exemplos, o da atriz Bianca Rinaldi, estrela da novela Em Família, da Rede Globo, e da sub-celebridade convertida a dublê de apresentadora, modelo e atriz Geisy Arruda, que há cinco anos montou um factoide numa universidade particular paulista.

Casada com um homem bem mais velho e com fortes divergências de personalidade (é um empresário sisudo), a ex-paquita Bianca, de aparência jovial para seus 40 anos, define seu marido, de 61 anos, como "um grande companheiro", numa alusão ao cuidado dele com as filhas e como uma demonstração às relações estáveis que seu contexto estimula efetivar.

Já Geisy Arruda, grávida do ex-jogador e empresário Ricardo de Souza, afirma que está solteira e sem namorado, já que rompeu com o pai de sua criança porque "brigava muito" com ele. O contexto "popular" revela uma facilidade fora do comum de mulheres situadas neste contexto dissolverem relações de namoro ou casamento diante da menor divergência.

No âmbito popularesco, a figura do homem é trabalhada de forma bastante negativa, tanto que as "musas" chegam a se irritarem quando alguém lhes aconselha se casarem com alguém. Tentam se autoafirmarem com uma solteirice masoquista, num contraditório sentimento de carência amorosa e conformação com a solidão.

"HIGIENIZAÇÃO"

Por que é que ocorre isso? Por que, por mais que figuras da elite de musas, com relativo apelo popular  como Juliana Paes e Giovanna Antonelli estejam casadas, as chamadas "musas populares" insistem em ficarem sozinhas, mesmo quando a fama e o prestígio poderia lher render mais proveito na companhia de homens?

O que acontece é que, como as "musas populares" estão a serviço de um modelo conservador de "cultura popular", feito para evitar qualquer ameaça aos interesses das classes dirigentes, elas também se servem a um modelo de vida que visa sobretudo evitar o desenvolvimento de famílias conjugais estáveis nas classes pobres e, evitar assim, a solidariedade e a união nas mobilização popular.

Por isso é que, quando a famosa simboliza os interesses das classes mais abastadas, seu marido, podendo ser mais velho e mais sisudo, é "companheiro", mas se a famosa simboliza o universo das classes populares, pode ser até o namorado considerado "alma gêmea", que a relação se dissolve e o homem acaba com a reputação arranhada.

É como se o dinheiro fosse um fator para unir os casais. Pouco importa se o amor se exerce melhor nas classes populares do que nas classes ricas. A grande mídia não gosta de casais afins. Na Bahia, cuja mídia é herdeira do coronelismo de Antônio Carlos Magalhães, as moças pobres são "aconselhadas" a rejeitar pretendentes que apenas gostam de se divertir jogando bola na praia.

Na alta sociedade, casais sem afinidade ficam mais tempo casados do que os casais afins nas classes populares. E esse processo, além de regular o machismo em todas as classes sociais, representa um potencial e sutil processo de "limpeza social" nas classes populares.

ÓRFÃO DE PAI VIVO

Daí a ênfase das "solteiras" entre as ditas "musas populares". Mulheres que, contraditoriamente, reclamam da falta de um grande amor mas se julgam "felizes" na solidão. Elas representam o "ideal de vida", o "modelo" a ser seguido pelas jovens pobres, daí a atitude estratégica da mídia, pouco importando se a solteirice das "musas" é verdadeira ou falsa, mas sempre tem que ser aparente.

Isso desestimula, nas classes populares, a busca de casais afins. Famosas se autopromovem como mães solteiras ou separadas, a ponto de jovens pobres sacrificarem até mesmo as limitações econômicas para formar famílias de vários filhos sem a proteção do marido, e com uma sobrecarga de trabalho que as impede de desenvolver afeto e carinho com os próprios filhos.

A figura do "pai" acaba sendo precariamente exercida seja pela mãe da jovem, avó dos filhos desta, ou então do mais velho dos filhos masculinos da garota, muitas vezes mãe na adolescência. E os filhos crescem ou até mesmo nascem sendo órfãos de pai vivo, sem o convívio e a proteção da figura do pai.

Com isso, a desestruturação familiar, agravada pela pobreza, cria jovens revoltados, homens grotescos que depois vão fazer a má reputação na grande mídia, em relações forçadamente rompidas com suas namoradas, as "musas" do momento. As próprias mães, sem maridos e com mais trabalho e menos dinheiro, acabam, estressadas, também agredindo seus próprios filhos.

A intelectualidade dominante - aquela mais "bacaninha" e cheia de "coisas legais" para contar - , "sem preconceitos" mas muito preconceituosa, reforça essa visão "higienista", para a qual casais afins só podem existir nas classes abastadas.

Na pobreza, o "ideal" é forçar a solteirice, as famílias matriarcais sem recursos financeiros, em que crianças órfãs do pai vivo são jogadas, sem receber a afeição constante de uma mãe sobrecarregada nos trabalhos, ao emprego precoce e precário, numa infância difícil, dramática e estressante que cobrará o preço na vida adulta, com homens violentos ou ingênuos e mulheres batalhando acima de suas próprias condições e limitações.

Além disso, sem a solidariedade familiar ensinadas pela união de pais e mães a seus filhos, as classes pobres não têm o referencial exato de solidariedade social necessário para a união de seus indivíduos para reivindicarem mudanças sociais a eles benéficas, mas que ameaçam os interesses das classes dominantes.

A desestruturação dos lares cria um misto de revolta e conformismo, no vazio de valores sócio-culturais, que impede que a mobilização social popular ocorra de forma mais ampliada. Tudo isso começando com o desestímulo do poder midiático ao companheirismo de maridos e esposas, estabelecendo uma "rivalidade" simbólica entre homens e mulheres no povo pobre.

Daí o lado grave do "sonho maravilhoso" das "solteiras populares". Daí o lado cruel e sombrio. A grande mídia, com essa "liberdade", promove a desestruturação familiar que gerará um desequilíbrio social que irá repetir os mesmos dramas e violências vividos pelas classes pobres, e que também resultam nas numerosas tragédias que dizimam a população pobre em proporções bélicas.
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