sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

PINTURA PADRONIZADA E A TRAGICOMÉDIA DA "MOBILIDADE URBANA" NO RJ


Por Alexandre Figueiredo

Pode parecer que a pintura padronizada seja apenas uma questão de pintura, mas ela, além de causar muita confusão para os passageiros de ônibus - confusão que não é amenizada com a exibição de logotipos de empresas nos ônibus de outras cidades, nem a colocação de nomes em letreiros digitais - , tornou-se um véu a acobertar muitas irregularidades no sistema.

Além disso, a medida tornou-se um símbolo de uma série de dramas e tragédias que atravessa o Rio de Janeiro, cada vez mais sacrificado por congestionamentos gigantes e por diversos transtornos e acidentes que chegam a causar mortes, que atingiram até atleta de ciclismo e produtora de TV.

A pintura padronizada acabou tornando o símbolo desse sistema desastrado de ônibus, vigente no Rio de Janeiro em 2010. E só o fato de empresas diferentes exibirem a mesma pintura já mostra que a coisa é muito pior do que se pode imaginar.

Primeiro, porque a pintura padronizada é uma comunicação de que a Prefeitura do Rio de Janeiro impõe sua imagem nas frotas de ônibus. Isso significa uma intervenção. As empresas, particulares, não podem exibir suas identidades visuais e, se a Prefeitura carioca impõe sua imagem, através da "pintura dos consórcios", é porque ela realiza uma intervenção nas empresas.

Isso em si já cria uma crise. Afinal, o sistema de ônibus é uma concessão da gestão municipal para empresas licitadas. As empresas levam as linhas concedidas, mas o visual fica com a Prefeitura. É como se os ônibus ficassem retidos pela Prefeitura, que na prática vira "dona" das frotas e cria uma crise de responsabilidade.

Daí, o Secretário de Transportes vira um dublê de administrador dos ônibus, mais mandando do que assumindo responsabilidades. E os empresários de ônibus, em vez de terem seus poderes limitados, estendem seu poder para a máquina eleitoral, já que, com a intervenção feita sob o rótulo de "consórcios", o sistema de ônibus é entregue à politicagem.

Junta-se a isso outros aspectos da administração lamentável de Eduardo Paes, dos quais só salva a derrubada do Elevado da Perimetral, mas mesmo assim não sem controvérsia e feita de forma equivocada, sem aproveitamento social da área envolvida.

Eduardo Paes é do tipo que é capaz de rasgar a Constituição Federal e a do Rio de Janeiro para impor seus interesses. Ele tem uma concepção de mobilidade urbana que é só sua e não abre mão disso. Isso vem de seu padrinho político, Sérgio Cabral Filho, que também tem suas manias autoritárias.

Tudo isso gerou uma série de desastres e tragédias que se vinculam direta ou indiretamente a seu grupo político, que se desgasta dramaticamente. Das quedas de edifícios, explosões de bueiros e restaurantes, acidentes de ônibus e outros incidentes, há vários mortos e feridos que a gente pergunta se Paes e Cabral Filho não deveriam ser culpados por "genocício culposo".

O que se nota é que há bastante tempo o Rio de Janeiro deixou de ser a Cidade Maravilhosa. Não por culpa sua, mas pelos abusos de autoridades que criam um modelo de cidade urbana que na maioria das vezes se choca com o verdadeiro interesse público, que não é o "interesse público" das promessas de palanque ou das pesquisas de mentirinha dos gabinetes de tecnocratas.

Por isso, a situação está dramática, já a partir do modelo de transporte coletivo, que segue concepções vindas da ditadura militar - é bom lembrar que Jaime Lerner era o "bom aluno" que cursou a UFPR comandada pelo ministro da ditadura, Flávio Suplicy de Lacerda - , mas também em outros aspectos arbitrários e antisociais.

Por enquanto, as autoridades tentam afirmar que os problemas serão resolvidos "da melhor maneira". Eles prometem realizar "estudos" para tomar as medidas cabíveis, a maioria de paliativos. Só que eles tentam resolver os problemas sem que possam eliminar justamente o principal: os próprios problemas.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

BREGA "SOFISTICADO" É PIOR DO QUE MPB PASTEURIZADA


Por Alexandre Figueiredo

A perigosa promoção do brega engomadinho de Michael Sullivan & Paulo Massadas e seus protegidos a "pérolas injustiçadas da MPB" pode abrir o caminho para a bregalização geral da música brasileira e para a derrubada da MPB autêntica em prol da instalação definitiva do hit-parade brasileiro.

O lobby intelectual é muito grande. E bastante articulado. E toda a choradeira está sendo feita para que, a pretexto de "modernizar", "ampliar" e "diversificar" a cultura popular brasileira, se extinga o que resta de cultura popular autêntica para jogar os "sucessos do povão" no lugar.

Hoje tenta-se empurrar, goela abaixo, todo aquele brega luxuoso de Sullivan & Massadas para o gosto médio da classe média que aprecia o que há de mais manjado na MPB autêntica. Isso sob aplausos de intelectuais que, isolados na "deles", não suportam mais ouvir a MPB pós-Bossa Nova e pós-Clube da Esquina que somente eles conheciam a fundo e o "povão" até hoje desconhece.

Antes que os pescadores do Pantanal e os feirantes do Norte e Nordeste comecem a conhecer Silvinha Telles e Baden Powell ou apreciar a poesia dos mineiros, a intelectualidade inventa que "sofisticados" agora são os intragáveis sucessos gravados por ídolos bregas como José Augusto e o próprio Michael Sullivan ou por artistas de MPB cooptados, como Alcione e Roupa Nova.

E aí, de repente, aquelas rádios de MPB em estabelecimentos comerciais, ou mesmo rádios como a MPB FM e a Nova Brasil FM, ou as inserções emepebistas nas rádios de pop adulto de todo o país, vão inserindo os sucessos bregas aqui e ali, coisas que rolavam fácil nas rádios popularescas dos anos 80 e 90.

O grande perigo disso tudo é que, tocando Sullivan & Massadas, a manobra abre caminho para a bregalização mais escancarada, ja que a dupla inspirou diretamente a geração de "pagodeiros" e "sertanejos" que comandou a supremacia brega da década de 90.

Aí, vai ser o que as elites intelectuais queriam: transformar os poucos espaços de MPB em novos redutos para a turma que rolava em rádios FM controladas por oligarquias empresariais (a carioca 98 FM, hoje Beat 98 e a Band FM são exemplos), ou por elites coronelistas, como muitas das rádios "populares" que existem em várias regiões do país.

E tudo isso através de um discurso pseudo-progressista, choroso, por vezes apelativo demais, em outras desesperado e paranoico, de gente que pouco está aí para o patrimônio cultural brasileiro, só quer saber é transformar o jabaculê de hoje no folclore de amanhã.

Só que o brega "sofisticado" puxado por Sullivan & Massadas nem de longe representa uma ruptura com a mesmice da MPB pasteurizada que domina o (descrescente) mercado emepebista desde os anos 80, sendo até pior do que ela.

Afinal, ninguém deve esquecer que o brega arrumadinho puxado pelo produtor Michael Sullivan piora e leva às últimas consequências as fórmulas pasteurizadas adotadas pela MPB por imposição das gravadoras, portanto acreditar que o pior é melhor que o ruim é um grande contrasenso.

É lamentável que a intelectualidade "bacaninha" aja assim, com tanta insistência que se cria um falso consenso que favorece gente que nada contribui de verdadeiro para a cultura brasileira, seja Waldick Soriano, Odair José, Michael Sullivan, os funqueiros em geral e outros ícones e ídolos da mediocrização cultural que beira à imbecilidade mais explícita.

Mas, paciência, esses intelectuais são o Brasil de Joaquim Barbosa, de Merval Pereira, de Marco Feliciano, de Jair Bolsonaro e Rachel Sheherazade. São a elite "pensante" que pensa que pensa pelo povo, mas pensa apenas com seus próprios umbigos.

Para a intelligentzia (mais legal do país), pouco importa salvar o rico patrimônio cultural brasileiro. Para ela, interessa salvar apenas os listões dos maiores sucessos "populares" tocados pelas rádios oligárquicas nos últimos 45 anos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

ITUNES JÁ EXPRESSA O 'HIT-PARADE' BRASILEIRO


Por Alexandre Figueiredo

A manobra é sutil. A grande mídia anuncia os sucessos do brega-popularesco através não da divulgação em rádios, mas da Internet, sobretudo YouTube e iTunes, como se tentasse afastar o caráter de hit-parade desses sucessos "populares".

Aí entra a intelectualidade mais festejada que, com seu delirante discurso pseudo-modernista, cheio de referências surreais, tenta definir os tais sucessos como "vanguarda pós-moderna", como quem vê cabelo em ovo.

Assim se empurra o brega-popularesco para os alternativos, da mesma forma que tenta afastar a má imagem de comercialismo associada ao hit-parade dos EUA. Como se o hit-parade brasileiro fosse apenas uma "natural extensão do nosso folclore", não um amontoado de canções comerciais bastante executadas ou pedidas pelo público.

O iTunes tornou-se a relativa novidade, no que se refere às canções compradas na Internet, já que o YouTube se banalizou como referência, sobretudo por conta de muitos vídeos com repercussão negativa na rede.

Depois do "sertanejo universitário" e de nomes como Thiaguinho, a onda agora é o "funk" de Valesca Popozuda e o "pagodão" baiano do Psirico, uma das apostas do mercado de axé-music num momento de séria decadência e uma porção de escândalos que envolvem desde medalhões do "axé" até ídolos do arrocha.

Os sucessos comerciais brasileiros não são diferentes dos norte-americanos. De forma explícita, eles tomam justamente o mercado estadunidense como modelo. Valesca, por exemplo, tenta se influenciar por Beyoncé Knowles sendo uma sósia brega da Lady Gaga. Luan Santana pautou sua carreira em Justin Bieber, Thiaguinho em Chris Brown e por aí vai.

Mas graças à blindagem de acadêmicos, jornalistas culturais e até cineastas, entre outros apologistas, o hit-parade brasileiro é glamourizado tanto pelo rótulo de "popular" - que puxa uma série de argumentos pseudo-ativistas e pseudo-modernistas - quanto pela falsa imagem de "polêmica", com a exploração tendenciosa das críticas negativas ao "ritipareide" nacional.

Por isso o público médio pensa que o hit-parade brasileiro não existe ou, se existe, está "superado" ou "agonizante". De reboque, a intelectualidade "bacana" ainda fala na "morte" da indústria fonográfica e na "agonia" da grande mídia, no seu discurso pseudo-progressista que só serve para Rodrigo Constantino virar "salvador da pátria" ao "contestar" os delírios da intelligentzia.

Isso até que a indústria fonográfica dominante e a grande mídia ressuscitem e renasçam, num voo de uma "fênix" farofafeira, através da bregalização cultural que alimenta fortunas e poderes dos barões da grande mídia, sob a vista grossa das nossas elites "pensantes".

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

ARGENTINA: CLARÍN TERÁ QUE DESFAZER PARTE DE SEU PATRIMÔNIO


Por Alexandre Figueiredo

O governo argentino aprovou a proposta de divisão do patrimônio do grupo midiático Clarín, até agora o maior conglomerado de Comunicação daquele país. A proposta faz parte da chamada "Lei de Meios", que determina a redução do poder de grandes empresas midiáticas na Argentina.

"Com a adequação do Clarín à lei, não acaba seu direito de informar e opinar com liberdade. Acaba sua possibilidade de se impor como um gigante econômico e monopólico para manipular a opinião pública e condicionar a democracia", celebra Martín Sabbatella, diretor da Autoridade de Serviço de Comunicação Audiovisual, responsável pela aprovação.

Numa façanha considerada audaciosa, a medida abre precedentes para a luta contra a concentração de grandes grupos midiáticos no Brasil. Por isso mesmo, a reação da chamada grande imprensa foi de grande pesar, como se estivesse anunciando uma "tragédia".

Para os porta-vozes dos barões da grande mídia, seja nos EUA, na Europa e na América do Sul, principalmente no Brasil, a medida visa enfraquecer o que eles entendem como "liberdade de imprensa e de expressão" de um dos "mais expressivos grupos da mídia independente" argentina.

O Clarín terá que se dividir em seis empresas diferentes, se desfazendo de boa parte de seu patrimônio de rádios, TVs, portais de Internet, jornais, revistas etc. O prazo determinado é de seis meses. O grupo Clarín terá que vender 5/6 de seu patrimônio fatiado para novos acionistas.

O plano de fatiamento foi proposto pelos próprios executivos do Clarín, como forma de diminuir sua presença no mercado midiático, o que representava uma preocupante concentração de poder na sociedade argentina.

POR QUE A INTELECTUALIDADE "BACANA" ESTÁ DE MAL COM ROBERTO CARLOS?


Por Alexandre Figueiredo

Sabemos que a intelectualidade "bacana", aquela que quer a bregalização do país, está de mal com seu antigo rei, Roberto Carlos. É certo que o cantor capixaba anda aprontando muito, demonstrou ser bastante conservador, é excessivo no zelo de sua privacidade e bastante tendencioso em posturas falsamente engajadas.

Mas a intelligentzia absolve tantos erros. Waldick Soriano, por exemplo, com seu direitismo explícito, seu conservadorismo patriarcal e seu machismo moralista, havia virado queridinho das "esquerdas médias" no seu dirigismo cultural de nos empurrar o brega goela abaixo.

É bom deixar claro que Waldick Soriano havia gravado, com gosto, um disco-tributo a Roberto Carlos. Procuremos saber do que realmente foi o brega. E Waldick nunca gravou a "Internacional" em ritmo de falsas guarânias nem em qualquer outro ritmo que lhe tenha vindo à mente para imitar.

Indo para exemplos recentes, nomes como Zezé di Camargo, Joelma do Calypso, Odair José, DJ Marlboro, Raça Negra e tantos outros demonstraram ser figuras não menos conservadoras que Roberto Carlos.

Mas, para quem acha que um sucesso chinfrim de axé-music, composto por um rico empresário baiano, tem letra "marxista", vale tudo. Só não vale mais classificar o "Rei" como um dos artífices da moderna música "transbrasileira", aquele que popularizou a guitarra, abriu as portas para os bregas, deixou a música brasileira mais pop etc etc etc. Por que será?

Roberto Carlos foi o responsável direto por tudo isso que os intelectuais "bacaninhas" tanto gostam. De Michael Sullivan a Leandro Lehart, de Bartô Galeno a Valesca Popozuda, de Wando a Paulo Sérgio, de Raça Negra a Banda Calypso, nada, mas nada mesmo seria se não fosse a influência do "grande monarca" da música "transbrasileira".

Ou mesmo os que já estão no establishment, como Leonardo, Daniel, Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano, Belo, Thiaguinho, Luan Santana, Michel Teló, Chitãozinho & Xororó, todos "filhos" das aventuras (ou desventuras?) bregas de Roberto Carlos nos anos 80.

Portanto, é como se o império da música "transbrasileira" ficasse um tanto acéfalo. Um reino sem rei. Há o primeiro-ministro Caetano Veloso, que mexe os pauzinhos para promover a bregalização do país com matizes pretensamente modernistas, mas nada teria sentido se não fosse o cantor capixaba que agora é hostilizado pelos intelectuais "bacanas".

O que será que faz com que a intelligentzia brasileira adotar uma postura adversa a Roberto Carlos, se os erros que ele cometeu não são diferentes dos que muitos "queridos" do brega. Será porque o conservadorismo de Roberto Carlos é o mais manjado? Ou será que ele leva às últimas consequências seu conservadorismo?

Evidentemente, a "batalha" que ele fez contra o historiador Paulo César Araújo pesou muito nesta postura, já que o "Rei" decidiu punir um membro do "clero" intelectualoide brasileiro, o "sacerdote" que queria entrevistar o "Rei", não conseguiu e foi lançar um livro à revelia de "Sua Majestade".

Mas se trata do mesmo "Rei" que inspirou Michael Sullivan, um ex-integrante dos Fevers, a se aventurar nas breguices americanizadas e a construir um padrão de comercialismo musical baseado nas lições do ídolo capixaba.

Isso é tão certo que, depois que Lincoln Olivetti e Robson Jorge pasteurizaram a MPB, transformando-a num engodo comercial, Michael Sullivan e Paulo Massadas deram uma cosmética na música brega, os quatro compuseram juntos "Amor Perfeito" e advinhem quem foi chamado para gravar a música? Ele, Roberto Carlos.

Roberto Carlos está por trás de tudo. De imitadores como Paulo Sérgio, Amado Batista, José Augusto, Odair José e Fernando Mendes, aos nomes mais recentes do "funk". Está por trás do sambrega, do Raça Negra ao Grupo Molejo, do Só Pra Contrariar ao Negritude Júnior, de Alexandre Pires a Thiaguinho.

Da mesma forma, Roberto também está por trás do crescimento do breganejo, através da música "Caminhoneiro", e recebendo todo o respaldo dos ídolos do gênero. Zezé di Camargo & Luciano gravaram "Como Vai Você?", música de Antônio Marcos popularizada por Roberto.

E os dois filhos de Francisco Camargo, ultraqueridos pelas "esquerdas médias" que nem sequer enxergaram a marca da Globo Filmes no filme dos breganejos que foram lá ver, foram lá cumprimentar o "Rei" e participar, com gosto, do disco Emoções Sertanejas.

Mas mesmo os tecnobregas e os "provocativos" pseudo-gênios da EmoPB, como Felipe Cordeiro, Banda Uó, Gang da Eletro e outros nada seriam se não fossem as portas abertas por Roberto para o mercadão da gororoba bregapop que os jovens filhos da overdose da informação absorvem de forma acrítica, sem dar uma contribuição relevante para a renovação de nossa música.

Portanto, que "cultura provocativa", que "modernidade transbrasileira" e outras coisas "muito legais" essa intelectualidade quer defender, se no seu reino do "popular midiático", com um ranço mercadológico não assumido, mas explícito, o "Rei" foi deposto?

Pelo menos a intelligentzia tenha um mínimo de sinceridade e perca o medo de botar farofafá no rodízio carnívoro do Friboi. No reino "transbrasileiro" do "Rei" Roberto Carlos, com seu cruzeiro marítimo e suas carnes Friboi, quem é súdito não deveria perder a compostura.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

ROBERTO JEFFERSON JÁ CUMPRE PENA EM PRESÍDIO DE NITERÓI


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O político que denunciou o esquema de propinas comandado pelo publicitário mineiro Marcos Valério e que, antes de envolver petistas, envolvia também tucanos como o hoje covarde Eduardo Azeredo (que prega a censura na Internet para não prestar contas à sociedade sobre sua corrupção), Roberto Jefferson, outrora era um figurão do programa popularesco 'O Povo na TV' e também um dos que desonraram o antigo PTB, juntamente com o ex-presidente Fernando Collor de Mello, ainda no partido.

O ex-deputado, apesar de ter denunciado o esquema, também fazia parte dele e por isso também foi um dos condenados dentro de uma investigação confusa e apressada feita pelo STF comandado por juristas politiqueiros. Roberto Jefferson já esteve doente, estava vivendo em seu sítio em Comendador Levy Gasparian e, agora, só dormirá na prisão, devido ao regime semiaberto.

Jefferson já cumpre pena em presídio de Niterói

Por Alana Gandra - Agência Brasil

O ex-deputado federal Roberto Jefferson, delator do processo do chamado mensalão, já está no Instituto Penal Coronel PM Francisco Spargoli Rocha, em Niterói, na região metropolitana do Rio, onde deverá cumprir a pena de 7 anos e 14 dias de prisão, em regime semiaberto, a que foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A informação foi dada pela secretaria de imprensa da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária (Seap).

Ex-presidente do PTB fluminense, Jefferson foi condenado na Ação Penal 470, o processo do mensalão. Antes de ir para Niterói, ele passou pelo Presídio Ary Franco e pelo Hospital Penitenciário, no Complexo de Gericinó, em Bangu. O advogado de Jefferson, Marcos Pedreira de Lemos, disse, em rápida entrevista, antes da transferência, que preferia que seu cliente fosse levado para o Instituto Ismael Pereira Sirieiro, também em Niterói, por considerar a instituição "mais adequada" para o cumprimento da pena.

"FUNK" TENTA SE INSERIR NA INDÚSTRIA CARNAVALESCA

VALESCA POPOZUDA RECEBE MARIANA XIMENES NO "BAILE FUNK" DA REVISTA VOGUE BRASILEIRA - O "funk" tenta embarcar nos embalos do Carnaval carioca.

Por Alexandre Figueiredo

O "funk" quer ser a axé-music carioca, num tempo em que a axé-music baiana sofre sinais de decadência, que nem o tal do "Lupo-lupo" do Psirico consegue salvar, da mesma forma que a partilha do Chiclete Com Banana (com novo vocalista) e Bell Marques anunciando carreira solo, enquanto se preparam para a despedida definitiva no Carnaval de Salvador.

No Rio de Janeiro, o "funk" chega mesmo a ter um pequeno texto na vinheta "Histórias do Rio", que passa na TV Globo carioca. A grande mídia, a indústria de moda, a indústria carnavalesca - com o apoio entusiasmado dos banqueiros do jogo-do-bicho - e outros interessados querem que o "funk" tenha hegemonia absoluta nas festas momescas.

A indústria carnavalesca passa a inserir sucessos de "funk" em desfiles de ruas, em sons tocados em quiosques, ou então na promoção de "musas" funqueiras no circuito carnavalesco, além da própria associação que a grande mídia faz à "modernidade" funqueira como suposto complemento para a festa momesca carioca.

E isso com investimentos maciços de dirigentes carnavalescos, dirigentes esportivos e até da contravenção que, com os banqueiros do jogo-do-bicho quietinhos na deles, dá seu aval à indústria funqueira que movimenta milhões de reais por mês e que nada tem a ver com a "cultura de pobre" que seus ideólogos tão chorosamente tentam nos fazer acreditar.

Chega a ser risível quando se lê, em textos da mídia esquerdista, o "funk" ser visto como um "movimento" de supostas vítimas, enquanto ele, na mídia direitista, demonstra ser vitorioso e hegemônico demais para ser considerado "cultura dos excluídos".

O discurso dos intelectuais "progressistas" menos contestadores - que parecem papagaios quando tentam falar mal de reacionários conhecidos da grande mídia - chega a ser repetitivo, pois ninguém mais aguenta ver um funqueiro visto como "vítima de preconceito", o "funk" ser comparado ao samba na rejeição "moralista" de 1910 ou vincular o "funk" ao suposto ativismo dos rolezinhos.

Essa choradeira ninguém aguenta mais e só faz a intelectualidade "bacana" cair no ridículo diante de supostos "contestadores" como Rodrigo Constantino que, com sua falsa sabedoria burguesa de fanático privatista, quer um Brasil cada vez mais austríaco, sendo "transbrasileiro" à sua maneira.

O "funk" conquista o mainstream mas tem a cara-de-pau de se autoproclamar "vanguarda" e "cultura alternativa". No Rio de Janeiro, virou coisa de "cara legal" aceitar o "funk" e já existe até casos de assédio moral entre colegas de trabalho que obrigam um colega que não gosta de "funk" a ir a um evento do gênero.

Enquanto isso, o baile da revista Vogue - franquia da Carta Capital, lamentavelmente entregue a abordagens "culturais" duvidosas e de acordo com os interesses cafonizantes do baronato midiático - já mostra Valesca Popozuda (que já mandou beijinho nos ombros dos filhos de Roberto Marinho) cooptando atrizes e modelos para seu "esquemão" funqueiro.

E isso com o "funk" tentando se sobressair até mesmo ao samba no Carnaval carioca, enquanto o "funk ostentação" paulista aprende o esquema para se impor também ao Carnaval paulista, principalmente agora que os funqueiros, dotados de rigor estético pré-histórico, acabaram de descobrir o pandeiro, isso 50 anos depois de Bob Dylan ter composto "Mr. Tambourine Man" (Sr. Homem do Pandeiro, em português).

Os empresários-DJs de "funk" impõem essa visão contraditória, ora "militante", ora "festiva", de seu gênero, pouco se importando com a coerência e a transparência dos fatos. Espertos, eles usam a mesma frieza calculista para subornar acadêmicos, ativistas sociais, apresentadores de TV, estilistas de moda e donos de casas noturnas para defender o "funk" de qualquer maneira.

Daí que não importa se fulano diz X e sicrano diz Y a respeito do "funk". Se o discurso é "positivo", vale tudo, até se contradizer, mentir, manipular, e tudo o mais. Vale até dizer que o "funk" é "educativo" num dia, e, em outro, dizer que o "funk" não tem a obrigação de assumir a missão de educar as pessoas.

A grande mídia tenta dar uma imagem "bacana" e "atraente" do "funk", dando a crer que a pessoa só é "moderna" e "de bem com a vida" se aceita ouvir um "funk". Se não aceita, é jogada no limbo das já falecidas patrulhas moralistas de 1910, castigado por ser visto como "antissocial", "careta", "preconceituoso" e "intolerante".

No entanto, "funk" não é outra coisa senão MERCADORIA. E todo discurso de defesa, mesmo na roupagem "objetiva" das teses acadêmicas ou dos manifestos progressistas, não passa de MARKETING. Na sociedade hipermidiatizada, poucos percebem isso, acham que tudo é folclore, que tudo é natural, que mentira é verdade e verdade é mentira.

São essas mentes confusas que aceitam tudo, só porque lhes é "agradável" e "saudável". E isso continuará até que venham, nos bastidores do "funk", escândalos que hoje comprometem e enfraquecem a reputação dos ídolos da axé-music. Até quando isso vai acontecer, não se sabe. Por enquanto o "baile funk" só está no início da festa. O problema será a ressaca.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

CAIO CASTRO: O "JUSTIN BIEBER" DA TELEDRAMATURGIA?


Por Alexandre Figueiredo

É muito perigoso que alguém que pareça formador de opinião e modelo de personalidade a ser seguido pelos fãs demonstrar péssimos hábitos ou posturas lamentáveis. E Caio Castro, um dos astros em evidência da Rede Globo, é um exemplo mais típico dos tempos recentes.

Em uma entrevista reprisada no canal pago GNT, no programa de Marília Gabriela, Caio afirmou que não gosta de teatro nem de literatura. A declaração causou uma reação de indignação de atores diversos, como Laura Cardoso, Rosamaria Murtinho, Maitê Proença, Pedro Paulo Rangel, Miguel Falabella (que disse que ele era um "desinibido", não um ator), entre tantos outros.

Mesmo Beth Goulart - que atualmente está no teatro fazendo uma peça sobre Clarice Lispector na qual ela dirige, produz e é autora do texto, além de interpretar a própria escritora - , que afirmou que a liberdade é sem limites, sentiu estranheza ao ver um ator renegando o teatro e desprezando a literatura, já que as artes cênicas muitas vezes se inspiram em obras literárias.

Caio Castro virou o símbolo da estupidificação da juventude brasileira. Algo que os barões da grande mídia estavam tentando fazer junto à "inocente" indústria do entretenimento, como meio de enfraquecer o potencial de curiosidade e busca de informação das pessoas nascidas, na maioria, de 1978 em diante.

Sabe-se que os chefões da mídia e do entretenimento investiram pesado para que as gerações de adultos e jovens de hoje sejam seduzidas à mais escancarada mediocrização cultural, às custas do apego à noitadas e à curtição compulsiva e viciada (mas nada prazerosa), do desprezo à cultura autêntica e da supervalorização, em tom de fanatismo, de modismos e fenômenos comerciais.

Daí as pessoas que apreciam breguices. Daí as pessoas que vão para as noitadas com espírito mais para ressaca do que para a verdadeira alegria festiva. Daí as pessoas arrogantes que não aceitam que suas posturas duvidosas sejam contestadas por outrem. Daí as pessoas que odeiam livros, filmes e peças de teatro e se acham felizes com isso.

É uma mistura de niilismo com narcisismo, de baixa auto-estima com arrogância, de pessoas que tentam buscar a alegria que lhes foge, já que, quando contrariadas, essas pessoas reagem com ódio, esnobismo e ainda vão ridicularizar o discordante em algum sítio na Internet ou nas redes sociais.

E qual é o símbolo deles? Simplesmente aquele que simboliza o "sucesso do momento". E por que essas pessoas são "sucesso"? E por que são vistas como "ideal de vida e de personalidade"? Porque simplesmente são famosas e pronto. Antes, alguém ficava famoso porque era talentoso, hoje há quem seja visto como "talentoso" só porque conquistou a fama.

Caio Castro não parece um ator ruim. Mas como personalidade deixa muito a desejar. Muito superficial, chegou a faltar um importante evento social porque estava embriagado. Como desculpa, inventou que "não estava se sentindo bem de saúde".

Agora é a declaração que ele havia dado na época e que foi reprisada na TV paga. E os fãs de Caio Castro caem no delírio. Acham que ler livros é perda de tempo. Como se não bastasse a declaração da prepotente Ivete Sangalo, nos tempos em que ela era uma pretensa unanimidade aos olhos do poderio midiático então com hegemonia quase absoluta.

Isso faz lembrar Justin Bieber, o astro mirim que, em sua vinda ao Brasil, fez apresentações incompletas e caiu na farra e na curtição. Justin ainda posou de "garoto mau", aprontou umas, bebeu todas, exaltando todo o vazio de um entretenimento juvenil ruim em que a curtição torna-se um fim em si mesmo, sem qualquer serventia para a existência humana.

A turminha reaça do Orkut e Facebook, que adora o "sucesso" pelo sucesso e se sentem ofendidos quando se critica até as tosses de uma Britney Spears, sempre gosta desses exemplos que lhes são "tudo de bom, nota déis (sic) e show de bola".

Desde que Xuxa deseducou os corações e mentes infanto-juvenis nos anos 80, o emburrecimento contaminou uma boa parcela das pessoas. Há gente que foge desse caminho, sim, mas a maioria sucumbe à bregalização, à curtição viciada, à estupidificação que nem faculdade resolve, até porque, com tantas universidades privadas, o ensino superior, mesmo público, foi para a "privada".

E como serão as gerações futuras? Se já temos que aguentar uma intelectualidade "bacaninha" achando que ser cafona é o "máximo", eles que são as únicas referências possíveis de "mestres" para o chamado brasileiro médio, imagine então a juventude, ou mesmo os trintões de primeira viagem dos últimos cinco anos, que adoram se achar a "galera", usando e abusando dessa gíria tola?

Já sentimos hoje a glamourização de muito lixo brega de 25 anos atrás, tido hoje como "genial" só porque foi trilha sonora de namorico ali, de bebedeira acolá, ou porque serve de contraponto para artistas sofisticados que os intelectuais de hoje aprenderam a odiar.

Será que Caio Castro entrará na Academia Brasileira de Letras daqui a 50 anos, quando o critério até lá, se a mediocrização cultural ir adiante, será apenas "dar um alô pra galera" nas mídias sociais? Será que a burrice de hoje será a sabedoria de amanhã, e muito malandro receberá aplausos só porque "aprendeu a viver" na tal "escola das ruas"?

Isso é muito preocupante. E é bom que fiquemos atentos. Afinal, a verdadeira perda do preconceito não está na aceitação inverificada de tudo, mas no questionamento verdadeiro dos problemas, mesmo que seja para pôr em xeque modismos estabelecidos e bem sucedidos.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

INTELECTUALIDADE "BACANA" É AUTISTA?


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade "bacana" não conhece a cultura brasileira. E cada vez mais adota um discurso repetitivo investindo nos mesmos argumentos chorosos, cada vez mais maçantes, cada vez menos eficazes.

Tanto na Caros Amigos quanto no Le Monde Diplomatique Brasil há gente que, a pretexto de defender os rolezinhos, fazem propaganda do "funk". A choradeira está desesperada, as desculpas mais esfarrapadas - tipo "Eu não gosto de funk, mas reconheço seu grande valor para o povo pobre" - e o discurso cada vez mais apelativo e aparentemente unânime.

Enquanto tentam fazer de tudo para dizer que o "funk" é cultura, a realidade mostra que não é assim. O "funk" tem sua estética rígida, seu moralismo rígido definido e nivelado "por baixo", e o povo pobre não pode ultrapassar seus estereótipos, por mais que melhorem seu poder aquisitivo e tenham mais água e luz em suas casas e maiores proteções constitucionais.

Se o "funk" é machista, que se faça "feminismo" nos limites desse machismo, com mulheres e homens brincando de cães e gatos (ou "cachorras" e "tigrões"?). Se o "funk" fala errado, é porque tem que ser assim. Educação, cidadania, decência? Tudo isso é palavrão para os funqueiros para os quais os verdadeiros palavrões são "poesia" e "protesto artístico".

A intelectualidade "bacaninha" do Brasil - cujas vozes já se multiplicam em terceiros, como líderes comunitários, artistas performáticos, estagiários culturais e jornalistas nanicos que repetem o mesmo discurso choroso da intelligentzia - tenta criar um falso consenso na qual a cafonice cultural, o brega, o "funk", o grotesco, o piegas são a "verdadeira cultura do povo pobre".

AUTISMO?

O que se percebe no entanto é que a intelectualidade cultural dominante é, ela em si, uma elite. Seus ideólogos tentam se confundir com o povo pobre e suas vontades pessoais tentam se sobrepôr á vontade popular.

Esses ideólogos - de jornalistas culturais a antropólogos, de líderes comunitários a atores teatrais, de cineastas a músicos - que defendem a bregalização do país (inclusive a forma mais radical de brega que é o "funk") se acham os juízes máximos da cultura popular, num país em que Joaquim Barbosa preside o Supremo Tribunal Federal e Merval Pereira é "imortal" da ABL.

A intelectualidade cultural dominante acha que a MPB que só ela ouviu e apreciou e agora está cansada dela era ouvida pelo "povão". Acha que um Itamar Assumpção escondido em discos da Baratos Afins estava facilmente acessível ao pescador que vivia isolado nas entranhas da selva amazônica.

Tentam argumentar que a era da MPB acabou, que Chico Buarque está ultrapassado, enquanto tentam dizer que Waldick Soriano - que nunca foi mais do que uma paródia ruim de Vicente Celestino - era "moderno e sofisticado".

Em contrapartida, os intelectuais "bacanas" acham que ritmos como o tecnobrega e o forró-brega estão "em alta" no Norte e Nordeste, sem perceberem a ira popular que está cansada de ouvir esses ritmos que tratam o povo pobre como uma caricatura.

Da mesma forma, há muita gente nas favelas e outras comunidades pobres que não aprovam o "funk" e ficam preocupadas com a trágica volúpia que os jovens pobres estão sujeitos a sofrer no "saudável" entretenimento funqueiro. Na melhor das hipóteses, muitas adolescentes voltam de lá grávidas de filhos que não estão preparadas para criar sozinhas (e terão que assumir tal tarefa).

Suas convicções de "bom elitismo", seu etnocentrismo "cordial", tentam ser divulgados como se fossem sua "natural" inclinação para compreender, "sem preconceitos", a "vontade popular". Acham que seu julgamento é puro, que percebem o povo pobre "tal como realmente é", ignorando que a bregalização cultural foi condicionada durante décadas pelo coronelismo midiático.

A intelectualidade é autista? A impressão que se tem é que sim, porque a intelectualidade "mais legal do país" não compreende as contradições e problemas da sociedade. E, pior, nem chega a compreender seus próprios erros, já amplamente difundidos por aqui.

Esses intelectuais tão badalados continuam com suas visões sobre "cultura popular" que parecem desprovidas de preconceitos, mas são cheias de vícios piores e muito mais preconceituosos do que se pode imaginar.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O REACIONARISMO NAS MÍDIAS SOCIAIS



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante acredita no poder revolucionário das novas tecnologias digitais. Muito se teorizou sobre o poder "transformador" dessas novas mídias, sobretudo com otimismo descomunal, o que foi demonstrado em muitas palestras, artigos e reportagens, entre outros recursos discursivos.

Recentemente, as pregações sobre a "revolução digital" estão associadas a tecnocratas como o advogado e especialista em Informática, Ronaldo Lemos, da Fundação Getúlio Vargas e do programa Navegador da Globo News, ao Coletivo Fora do Eixo e aos integrantes da Mídia Ninja, grupo "ativista" que tentou desviar o foco dos protestos populares em 2013.

Só que a tão anunciada "revolução" simplesmente não aconteceu. Apenas houve uma mudança na transmissão das informações, que se tornaram ágeis, mas isso não tornou as pessoas necessariamente mais solidárias, progressistas ou inteligentes, antes mudou os mesmos processos sociais num outro contexto.

O reacionarismo na Internet, pelo menos no Brasil, surgiu desde que a nova tecnologia se popularizou. E envolve muita gente jovem, o que superou, há muito, o mito de que a juventude tenra é necessariamente rebelde e revolucionária. Há muito reacionarismo extremo, ao mesmo tempo raivoso e zombeteiro, de gente aparentemente "rebelde" e "moderna".

O meio social é que faz o jovem ser reacionário ou não. E existem muitos fascistas de 17 anos, que se enchem de tatuagens e piercings, ouvem som pesado, falam muito palavrão, escrevem mensagens desbocadas, são dotados da mais violenta ironia, do mais impiedoso sarcasmo.

Durante anos esquecemos que, na década de 1960, em pleno fervor da Contracultura, houve jovens reacionários ligados ao Comando de Caça aos Comunistas. Se levarmos em conta apenas o visual e a retórica, eles se passariam por beatniks vanguardistas socialistas.

A "galera do CCC" era composta por jovens que, da parte de homens, usavam barba sem bigode, vestiam suéteres de gola rulê sob ternos, falavam palavrão e eram zombeteiros, gostavam de guitarras elétricas e tudo mais. As mulheres pareciam sósias da Twiggy com o mesmo aparato "moderno".

A memória curta apagou essa imagem de juventude reacionária, de verniz "moderna" e "arrojada", e com a ditadura militar veio uma série de mimetismos ideológicos que fizeram muitos jovens reacionários parecerem "progressistas".

Mesmo numa prática de bullying - do qual fui vítima há cerca de 30 anos atrás; eu mesmo denominava a prática como "implicância" - , os valentões eram vistos sempre como pessoas simpáticas, atraentes e, pasmem, modelos de realização pessoal. Os mesmos valentões que xingavam rapazes "pouco convencionais" animavam até excursões de alunos.

Só nos últimos anos, quando os noticiários tiveram que abrir algum leque, por causa dos fatos sociais diversos, mesmo a mídia mais conservadora tem que engolir a existência de jovens reacionários. Até mesmo por uma questão de sobrevivência: tais jovens poderiam ser habilidosos "cães de guarda" nas mídias sociais.

No Orkut, ainda sob o reflexo do carisma do presidente Lula, vi muitos desses reacionários fantasiados de esquerdistas. "Socialistas" com QI de fascistas, praticando trolagem, mas exibindo nos seus perfis definições falsas como "esquerda-liberal" e falsas adesões a comunidades relacionadas a Che Guevara, Lula e Fidel Castro.

Eram pessoas neuroticamente neoliberais, dessas que acham que "toda música é comercial" e "até o ar que respiramos é mercadoria", mas numa contradição hipócrita, se revoltam quando alguém lhes acusa de neoliberais: "Neoliberal é a mãe", "Se eu sou neoliberal, então f***", reagem.

Aliás, como verdadeiros hipócritas, eles sempre batiam ponto em comunidades como "Odeio Hipocrisia" e "Odeio Gente Hipócrita". Suas posturas farsantes sugerem até mesmo o refrão: "Eu sou da paz, sou 'déis' (nota dez), sou tudo de bom e sou show de bola", reunindo declarações típicas dessa patota digital.

Durante os dois governos Lula, a maioria dos internautas reacionários adotava um verniz "progressista". Depois da posse de Dilma Rousseff, isso mudou, ressurgindo reacionários sinceros, mas igualmente agressivos. Com o desgaste do Orkut causado pelo extremo reacionarismo e mesmo casos de violências, o Facebook virou alternativa para o outro portal.

No Facebook, aquele reacionarismo do Orkut diminuiu o tom, enquanto florescia uma consciência contestatória dos retrocessos sociais que não havia antes. Mesmo assim, surgem pessoas não-reacionárias de pensamento conservador, ao lado de reacionários histéricos em outros contextos, não mais a "galera tudo de bom" que forjava "guevarismo" com QI ultradireitista.

Os atuais conservadores e reacionários exaltam o capitalismo e defendem valores neoliberais, diferentes daquela patota que dizia que "tudo é mercadoria" e se disfarçava com falsas adorações a Che Guevara. Embora com algumas posturas pertinentes, sobretudo contra o fanatismo pelo futebol e contra a imbecilização cultural, a postura pró-capitalista doentia preocupa, e muito.

Isso é certo porque há 50 anos atrás havia gente com esse mesmo ponto de vista, capaz de aceitar regimes autoritários - como acabou sendo a ditadura militar - , forjando lucidez e objetividade para camuflar posturas golpistas que, uma vez implantadas, promoveram a degradação social que até agora não se resolveu.

Vira um círculo vicioso. A ditadura militar ajudou na bregalização do país, promovendo a degradação sócio-cultural que fez o povo pobre deixar de ser ele mesmo para ser uma caricatura montada por emissoras de rádio e TV, revistas e jornais "populares" e pela pressão violenta das campanhas publicitárias que vendiam "sonhos" surreais e de natureza sócio-cultural alheia.

Querer que a situação se resolva com outra ditadura, com mais outro entreguismo, é tentar salvar a vida de um moribundo com soda cáustica. Ela só agravará o que já é grave, e com outra ditadura poderemos ter um país ainda mais brega, com reacionários pseudo-esquerdistas ou direitistas escancarados impondo, pelas mídias sociais, uma visão ditatorial aprendida com os generais.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"FUNK" E O CONSENSO FABRICADO PELOS INTELECTUAIS


Por Alexandre Figueiredo

É preocupante a supremacia de uma visão oficial de que o "funk" é associado ao ativismo sócio-cultural, vide a choradeira de intelectuais e ativistas diversos, e agora de mais gente "bacana" dizendo que ama o "funk", que acha tudo "legal" e que até as mulheres-frutas podem peidar na cara deles que eles ficam até com orgasmo.

Embora eles insistam no discurso da "ruptura do preconceito", e multipliquem dentro de seu circuito de visibilidade, prestígio e de uns bons egos intelectuais inflados pela projeção fácil, eles dotam uma postura cruelmente preconceituosa, embora dizer isso, para quem não tem o mesmo privilégio de visibilidade, como o nosso blogue, seja o mesmo que dar conselhos a surdos.

Prestando muito bem atenção, o "funk" é um ritmo bobo, superficial, dotado de sérias limitações artísticas e culturais. Chega a ser mais repetitivo e tedioso do que se imagina, e nada tem de vibrante nem de conscientizado.

O que fez o "funk" crescer foi a esperteza de DJs e empresários, e também de DJs-empresários, que vendo os "bailes funk" serem palco de atos violentos - fazer o quê, eles ocorrem em subúrbios que sofrem a influência do crime organizado - , passaram a criar um discurso pseudo-ativista a partir da aparente repressão policial a esses eventos.

E aí os chefões do "funk", cansados de ficar só subornando gerentes de rádio ou ficar arrendando a todo momento espaço em emissoras FM ou de TV aberta, decidiram financiar "por fora" teses acadêmicas, documentários e reportagens "sérias" para iniciar um discurso pró-funqueiro às custas da falsa imagem trabalhada ao gênero.

MARKETING "COM CATEGORIA"

Aproveitando a estagnação do discurso anti-funqueiro, que repete clichês de roqueirinhos peraltas, o discurso pró-funqueiro, mesmo com teses contraditórias e de veracidade duvidosa, adotou um aparato bastante sofisticado que passou a seduzir muita gente abastada.

Há alguns dias, o cineasta Fabiano Amorim, em artigo publicado no Diário do Centro do Mundo, afirmou que "gosta muito de funk". Pouco depois, no blogue Farofafá, o colaborador Kevin Assunção escreveu um texto sobre uma competição de MCs em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

Há muitos apologistas, gente diversa, que se alimenta e realimenta esse falso consenso em prol do "funk", criando um padrão ideológico de que as nossas elites sócio-culturais são muito "boazinhas", e defende-se o "funk" para que não se defenda, pelo menos com a ênfase que deveria, outras melhorias sociais.

É muito duvidoso que pessoas defendam o "funk" achando que isso é uma atitude progressista, quando vemos a Globo, a Folha e mesmo a Veja - espécie de Geraldo Alckmin em versão mídia impressa - apoiando o gênero com inegável e escancarado entusiasmo.

"FUNK" NÃO ROMPE PRECONCEITOS, MAS CRIA OUTROS MAIS "POSITIVOS"

Isso é sinal que a ideologia confusa defendida pelos funqueiros consegue enganar muita gente, e seu perfil ideológico torna-se um atrativo para pessoas que carecem ainda de uma observação mais apurada das coisas.

Afinal, "gosta-se" de "funk" não porque ele realmente valha alguma coisa, mas por sentimentos de paternalismo e curtição que fazem as elites esconderem suas hipocrisias e seus preconceitos. O "funk" nunca deixa alguém sem preconceitos, antes criasse novos e "mais positivos" preconceitos.

O cara não gosta do "funk" em si. Ele gosta daquilo que o "funk" é associado: boates alucinantes, noitadas movimentadas, curtição obsessiva e valores que possam fazer as elites parecerem mais "modernas", "inclusivas" e "socialmente participantes".

A ânsia da intelectualidade ver o "funk" trazendo aqueles ideais do Bronx e do Brooklyn, transformando São Paulo em Nova York, é para eles bastante confortante do que zelar por qualquer patrimônio cultural que o Brasil construiu com muito trabalho e sangue dos escravos.

Desconta-se a hipocrisia de tentar comparar "funk" e samba ou atribuir aos funqueiros uma negritude cultural que não existe, até porque muitos branquelos do "funk" usam essa falsa negritude para se autopromoverem.

O pessoal defende o "funk" porque ele é uma forma dupla de manipulação. Ele glamouriza a pobreza e faz com que as populações das favelas se contentem com as limitações sociais. Por outro lado, faz com que acadêmicos, cineastas, jornalistas e outros "bacanas" elitistas deem à sociedade a falsa impressão de que tais elites "possuem consciência social" e "são solidários às periferias".

Construído o consenso, o "funk" cria um simulacro de controvérsia e polêmica que na prática também inexiste. Primeiro, porque o "funk" nunca causou qualquer susto ou repugnância aos barões da grande mídia, que sempre foram receptivos e solidários ao gênero.

Segundo, porque é estratégia de marketing os patrocinadores "sentirem medo" de investir nos eventos funqueiros. Eles patrocinam, sim, mas omitem suas logomarcas porque sabem que seu público não é necessariamente funqueiro. Mesmo assim, o "funk" agrada em cheio os interesses das multinacionais (ou transnacionais, para ficar lado a lado do discurso "transbrasileiro").

O sério problema disso é que o pessoal "mais bacana" acaba prejudicando a cultura com esse discurso pró-funqueiro. Foi assim que, na Bahia, criou-se um discurso pela axé-music que gerou um mercado de exploração do mercado de trabalho e sonegação fiscal.

A monocultura da axé-music criou verdadeiros astros-magnatas, corruptos, sovinas e gananciosos. A monocultura do "funk" segue o mesmo caminho, agravado pela mania de coitadismo do gênero. Tudo parece "legal" hoje, mas é o discurso do conhecido MC, o MC Donald's, que queria que "amemos tudo isso" mesmo explorando vilmente seus próprios funcionários.

Os efeitos colaterais da "unânime" adesão da sociedade "bacana" ao "funk" não tardarão a vir.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

EDUARDO AZEREDO RENUNCIA A MANDATO DE DEPUTADO FEDERAL


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Dá para perceber por que o mineiro Eduardo Azeredo queria tanto censurar a Internet. É o medo que ele tem de ser investigado como principal beneficiário do esquema do mensalão tucano. Daí a renúncia para tentar minimizar os efeitos judiciais contra ele.

Eduardo Azeredo renuncia a mandato de deputado federal

Por Carolina Gonçalves, com colaboração de Pedro Peduzzi - Agência Brasil

Em clima de surpresa para quase todos os parlamentares, o deputado Eduardo Azeredo renunciou hoje (19) ao mandato na Câmara dos Deputados. A carta, entregue pelo filho de Azeredo, Renato Azeredo, no início da tarde, foi lida em plenário minutos depois, oficializando o afastamento do político, réu na Ação Penal 536, o processo do mensalão mineiro.

No processo em análise do Supremo Tribunal Federal (STF) , Azeredo foi apontado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como o “maestro” no suposto esquema. Janot afirma que o tucano desviava recursos públicos em benefício próprio para financiar sua campanha política. E pede que o ex-deputado seja condenado a  22 anos de prisão pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro.

Eduardo Azeredo não veio para Brasília. Na carta, ele afirma que as pessoas que assumem a atividade política estão vulneráveis a situações ditadas por ataques, pressões e interesses de adversários.

“Uma tragédia desabou sobre mim e minha família, arrasando o meu nome e a minha reputação”, destacou. Segundo ele, as acusações feitas a ele foram baseadas em testemunhos e documentos falsos.

Eduardo Azeredo disse, no documento, que a contratação da agência de Marcos Valério, foi uma “infeliz coincidência” que o colocou em situação de suspeita e garantiu que não é culpado de nenhum ato de peculato. “Não fiz empréstimo fictício para minha campanha de reeleição ao governo de Minas em 1998”, completa.

O presidente nacional do PSDB e senador, Aécio Neves (MG), que, ainda pela manhã dizia que apenas tinha “ouvido falar sobre a renúncia”, tentou afastar qualquer rumor de que a decisão tivesse sofrido qualquer pressão do partido que disputa o processo eleitoral deste ano. "Que eu saiba não foi nenhuma [pressão do PSDB]. Foi uma decisão de foro íntimo que tem de ser respeitada".

Aécio Neves ainda acrescentou que Azeredo “é conhecido e reconhecido em Minas Gerais como homem de bem” e que sua decisão não provocará qualquer influência nas campanhas do partido.

Por duas vezes, ao longo das últimas semanas, Eduardo Azeredo ameaçou se manifestar no plenário sobre as acusações feitas no processo, mas cancelou os dois pronunciamentos. O presidente do partido em Minas Gerais, deputado Marcus Pestana (MG), daria hoje (19) uma declaração sobre a situação do ex colega e leria parte do pronunciamento de Azeredo.

Com a leitura da carta de renúncia, que ainda será publicada no Diário Oficial do Congresso Nacional, a vaga de Azeredo deverá ser ocupada pelo deputado João Bittar (DEM-MG), que hoje é suplente em exercício e será efetivado, segundo informou a Secretaria-Geral da Mesa Diretora. A vaga de Bittar passa a ser ocupada pelo deputado Ruy Muniz (DEM-MG) ou por Edmar Moreira (PR-MG), que ficou conhecido por ter um castelo de R$ 25 milhões no interior de Minas Gerais registrado em nome dos filhos.

GOVERNO DA BAHIA APROVA MUDANÇA DE NOME DE ESCOLA EM SALVADOR


Por Alexandre Figueiredo

As aulas em Salvador voltaram, e uma escola está em plena expectativa de mudança de nome. É o antigo Colégio Estadual Emílio Garrastazu Médici, cuja mudança para o nome do comunista Carlos Marighella foi aprovada na última sexta-feira, conforme divulgado no Diário Oficial do Estado.

A mudança foi escolhida através de votação, que não incluiu a manutenção do nome, mas deu como opções escolher entre os nomes de Milton Santos, conhecido geógrafo baiano, e o do político comunista e guerrilheiro Marighella, morto há 45 anos.

O colégio fica no bairro do Stiep, em Salvador, no entorno da Rua Gabriel Passos (por sua vez, homenagem ao político udenista que apoiou a criação da Petrobras), e o autor deste texto já morou um bom tempo nas proximidades da referida escola.

A mudança de nome simboliza um resgate histórico, abandonando a homenagem a um general da ditadura militar e o primeiro a inaugurar o mandato sob a vigência do AI-5, e substituindo-a por uma das vítimas da repressão militar.

Marighella foi morto numa emboscada armada sob ordens do delegado Sérgio Paranhos Fleury, em 04 de novembro de 1969, em São Paulo. Fleury, falecido em 1979, era conhecido pelo seu estilo truculento de repressão e tortura de presos políticos no DOPS paulistano. Marighella teria resistido à voz de prisão e, na troca de tiros, uma investigadora do DOPS também morreu.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

1990 DESEDUCOU AS PESSOAS


Por Alexandre Figueiredo

A memória curta e a mania de relativismo da opinião pública atual, aliada a uma mistura de "cultura trash" com ideais "politicamente corretos" é a receita de uma mentalidade viciada que atinge até mesmo determinados especialistas culturais.

Tomados como "bússolas" tanto a intelectualidade cultural pró-brega quanto emissoras de rádio FM mofadas, mesmo os especialistas mais dedicados são tentados a ficarem presos no hit-parade, tão acostumados a trabalhar o agenda setting das pautas noticiosas.

Pois o hit-parade é o agenda setting musical. E o agenda setting é o hit-parade da notícia. Mas poucos percebem isso e o mais grave disso tudo é a mania de internautas pretensiosos fazem de soarem "alternativos" e "vanguardistas" apreciando apenas (ou prioritariamente, ao menos) as "referências de sucesso", como se fosse fácil bancar o diferenciado sendo óbvio e previsível.

Hoje ninguém garimpa mais novas informações, fontes raras etc. De repente eu consulto a Internet e vemos pessoas cada vez menos conectadas. Elas se prendem mais facilmente ao óbvio, e ainda falam mal de Justin Bieber, como se reprovassem tudo o que ele fez de fútil e frívolo na sua carreira.

Pois isso se expressa sobretudo pelo saudosismo da estranha década de 1990, uma década que não teve um fim declarado, mesmo com a junção de fim de década, fim de século e fim de milênio. A "década que não acabou" nem virou passado e virou alvo de muito saudosismo.

Pois foi na década de 1990 que os ideais duvidosos se consagraram. Nela se encerraram os últimos vestígios do idealismo e da criatividade da década de 1960, substituídas por um "pragmatismo" de consumo e diversão obsessivos que derrubou de vez qualquer busca por valores sócio-culturais autênticos.

O hit-parade dos anos 80, símbolo lúdico da "década perdida" dos EUA e Reino Unido - dominados por políticos conservadores como Ronald Reagan e Margareth Thatcher - , se prosseguiu na década de 90 e virou modelo para a supremacia brega-popularesca no Brasil.

Para piorar, porém, a "cultura da década perdida" nem de longe é devidamente criticada, muito pelo contrário. Quem se encoraja a criticar a mediocrização cultural brasileira é xingado de "elitista" por intelectuais " bacanas", fora o bullying virtual que recebe de internautas indignados.

Se fulano ficou 20 anos de carreira sem sofrer (em tese) graves arranhões, ele virou um "gênio". Pode ser um cantor medíocre, um músico ruim, um compositor sem um pingo de criatividade. Ou então é uma celebridade sem ter o que dizer, e que fica chateando o público com factoides e apelações cada vez mais repetitivos e sem graça, mas que empolgam a imprensa dita "popular".

De vez em quando aquele jornalista que parecia mais esclarecido fica elogiando algum nome medíocre dos anos 90, como se fosse "o maior gênio de todos os tempos" ou ao menos um "nome admirável a zelar". Se esquece que este nome havia simbolizado as baixarias dos anos 90 e era visto como ridículo até mesmo por pessoas mais flexíveis nas suas avaliações culturais.

Mas hoje o poser metal, o "rock de mariquinhas" dos anos 80 que emplacou nos anos 90, virou sinônimo de "rock clássico". Os mais risíveis nomes do "pagode romântico" e do "sertanejo" de 25 anos atrás são falsamente associados à "música brasileira de raiz". O lamentável "funk" de 1990 hoje é "genuína canção de protesto". E por aí vai.

E as garotas da Banheira do Gugu? Elas seriam também feministas? Ratinho seria um "mestre do jornalismo investigativo"? Vão reabilitar o É O Tchan e tratá-lo como se fosse um "complexo multimídia de vanguarda"? Tudo por causa dos "muitos anos de sucesso"?

Para piorar, surgem não só jornalistas "tarimbados" ou acadêmicos "dedicados" a exaltar tudo isso. Já e multiplica uma rede de ideólogos que terceiriza a pregação da intelectualidade do "bom" etnocentrismo. Tudo porque virou norma exaltar a mediocrização iniciada ou consagrada nos anos 90 como se fosse um "clássico".

E tudo isso sob diversos pretextos: "é mais divertido", "as velhas tradições são derrubadas", "lembram as coisas boas da vida", e tudo o mais. E por isso seus ideólogos, sobretudo intelectuais "conceituados", soam "mais bacanas", porque eles anunciam a "livre diversão", com seu discurso persuasivo e simpático.

Para piorar, esses intelectuais tentam adotar uma postura falsamente progressista. Como eles se autoproclamam "amigos do povo", muita gente acredita. Mas quase ninguém percebe que esses pretensos "profetas da diversidade cultural" são na verdade ideólogos de "livre mercado" com a habilidade de manipular seus discursos com muita esperteza.

Eles misturam suas pregações neoliberais com "chavões" do discurso modernista ou esquerdista, e com isso deixam de ser reconhecidos facilmente como ideólogos culturais do "livre mercado" e da "livre iniciativa". E, com isso, glorificam a mediocrização cultural e tentam ganhar tempo para cristalizar seu discurso de modo a dificultar qualquer questionamento.

Os anos 90, a "década perdida" do Brasil, deixaram essa herança. A cada ano o país torna-se ainda mais culturalmente medíocre e a complacência intelectual torna-se ainda maior. Se a coisa continuar assim, vamos achar até o MC Créu genial. De complacência em complacência, se fazem os idiotas que fazem a fortuna de reaças como o anti-brasileiro Olavo de Carvalho.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

E A MPB "FOFINHA"?

TULIPA RUIZ E MARCELO JENECI - MPB bonitinha, mas inofensiva.

Por Alexandre Figueiredo

Existe a supremacia quase absoluta do brega-popularesco, que, a pretexto de querer conquistar "seus" espaços, tira a MPB autêntica dos seus próprios espaços. Mas existe também uma parcela da MPB autêntica que, no entanto, mais parece inofensiva e um tanto complacente.

Desde que a geração 90 da Música Popular Brasileira recusou a assumir a oportunidade de ruptura com a supremacia brega-popularesca e, pelo contrário, compactuar com a mesma, vide os casos de Adriana Calcanhoto e Zeca Baleiro, a música brasileira de qualidade carece de um poder desafiador e uma força artística prestes a deixar marca.

O que se observa são, como se queixavam muitos jornalistas culturais da fase intermediária entre a crise da revista Bizz / Showbizz (1991-1999) e a ascensão da intelectualidade "bacana" (2005-2013), artistas que se limitam a reverenciar o que já foi feito na MPB e agora partem para fazer um pop alegrinho, fofinho, convencional.

A gente observa, no mercado musical brasileiro, que existe um lobby para eliminar a cultura musical brasileira e substituí-la por um hit-parade "transbrasileiro", sob a desculpa de se promover um cenário musical "mais moderno, hiperconectado e globalitário".

Assim, se temos os tais "grandes sucessos", representados pelos "injustiçados" ídolos "populares" - pode ser Michel Teló, como Odair José, ou MC Gui (MC Guimé já não vale mais; a mídia golpista já mandou seu "beijinho no ombro" a ele) ou então um grupo de axé-music de segunda divisão que "se descobriu" fazer "canção de protesto" (?!) - , temos também o equivalente do pop adulto.

Daí a MPB "fofinha", cujos expoentes mais novos são os cantores Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci, que à primeira vista parece descompromissada e despretensiosa, mas o problema é que ela é pretensiosamente "despretensiosa", e um tanto inócua e insossa.

São canções bonitinhas, que parecem um pop simpático, levando às últimas consequências a MPB "feijão com arroz" de Ana Carolina e Jorge Vercilo, que já era bastante inócua para significar algum espírito de ruptura ou transgressão.

Hoje não temos artistas realmente transgressores na música brasileira. E, quando há, a intelectualidade "mais bacana do país" vem com seu habitual "linchamento", querendo derrubar nomes de criatividade e força de opinião como João Gilberto e Chico Buarque.

Tentam esses intelectuais - para não dizer os troleiros que, com sua reacionária delinquência digital, defendem os "sucessos do povão" como se fosse a nona maravilha do mundo - dizer que "transgressores" são os ídolos brega-popularescos porque, com sua expressão de "mau gosto popular", causam pavor nas "elites moralistas e preconceituosas".

O brega-popularesco constrói sua supremacia assim, com esse discurso. Ele está no poder, mas finge que não está, porque seu "mau gosto" é visto como "subversivo". Enquanto isso, quem quer música de qualidade é premiado com artistas inócuos que até são dotados de talento significativo e informação cultural, mas suas posturas são inócuas, insossas e até mesmo muito ingênuas.

Eles acabam criando uma leve contraposição ao brega-popularesco como o pop adulto ou mais sofisticado se contrapõe ao hip hop e ao pop dançante nos EUA. É como contrapôr James Blunt a Justin Bieber, lá fora, e aqui se contrapõe Marcelo Jeneci a Luan Santana.

Isso significa que um poderoso lobby de intelectuais não quer mais zelar pelo patrimônio cultural brasileiro. O que eles querem é hit-parade, mesmo. Criam um discurso "revolucionário" que para nada serve, porque o que querem mesmo é que a cultura brasileira se submeta às regras de "livre mercado". Esse papo de "apavorar as elites" é apenas um detalhe.

No fundo, essa conversa de "cultura transbrasileira" não passa de um engodo neoliberal. Querem apenas que a cultura brasileira seja uma adaptação das regras do paradão dos EUA. Querem que imitemos os ianques, só que "com categoria". E depois esses intelectuais ficam chorando quando chamamos eles de neoliberais.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

DOIS ERROS GRAVÍSSIMOS DA INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA

ESTÚDIO DA AFILIADA DA NATIVA FM, NO RIO DE JANEIRO - Intelectuais imaginam as rádios FM como guias do "novo folclore brasileiro".

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante, "sem preconceitos", "paladina da cultura das periferias", "porta-voz da cultura dos excluídos" e outros adjetivos atraentes, pode ser desmascarada por apenas dois graves erros cometidos por ela e que põem xeque-mate na supremacia dessa elite "pensante" na avaliação da cultura popular brasileira.

Elas defendem a bregalização cultural como forma de efetivar o que eles entendem como "folclore popular contemporâneo", estabelecendo pontos de vista que parecem "generosos" mas que escondem valores elitistas, paternalistas e até mesmo conservadores, apesar de servidos de bandeja nas mídias progressistas.

Só que eles cometem muitas contradições. Muitas e graves. E, entre tantas contradições, duas principais são cruciais para comprovar que toda aquela campanha de defesa do brega, do "funk" e derivados não tem validade para a defesa da verdadeira diversidade cultural ou do verdadeiro patrimônio cultural brasileiro. E muito menos para definir CULTURA com todas as maiúsculas.

1) A "CULTURA" É TRANSMITIDA NÃO ATRAVÉS DE RELAÇÕES SOCIAIS COMUNITÁRIAS, MAS POR RÁDIOS, TVS E REVISTAS.

É o que se nota no discurso intelectual que defende a bregalização do país. Seus ideólogos tentam desconversar, embolando as coisas, como se gerentes e programadores de rádio fossem tão pobrezinhos quanto um engraxate de rua, ou como se a emissora FM "mais popular", geralmente controlada por alguma oligarquia, fosse articuladora de relações sócio-comunitárias contemporâneas.

No entanto, esse ponto de vista, tão atraente e sedutor, tem valor duvidoso na medida em que vemos que, na prática, o rádio determina a "cultura popular" de forma vertical e não horizontal, decidindo "de cima para baixo" o que o povo pobre apreciará.

Intelectuais tentaram desmentir essa constatação, romantizando a figura do programador de rádio e ocultando o poderio midiático que está por trás. Mas não conseguem convencer com suas teses, já que, com o brega-popularesco, houve a ruptura do antigo convívio comunitário, não há mais a transmissão de cultura através de gerações, é a mídia que "acultura" as pessoas.

Às vezes, seus ideólogos deixam vazar essa informação. MC Leonardo, ex-presidente da APAFUNK (Associação de Amigos e Profissionais do Funk) - a função hoje é exercida por MC Mano Teko - , escreveu certa vez que os jovens pobres "não têm a responsabilidade" de assumir a herança cultural de seus pais. Só esse argumento tornou-se anticultural, chocando-se frontalmente com os supostos compromissos dele com a "defesa da cultura".

2) A DITA "CULTURA POPULAR", EM ESPECIAL O "FUNK", NÃO CONTRIBUI PARA A EVOLUÇÃO SÓCIO-CULTURAL DAS POPULAÇÕES POBRES.

Outro argumento observado pela campanha dos intelectuais e ideólogos da bregalização do país é sobre o zelo que têm contra qualquer mudança de perspectiva nas classes populares e na ameaça do povo pobre de romper com os paradigmas e ídolos ligados a essa bregalização.

No "funk", isso se torna mais claro, mas mesmo no "brega de raiz" de Waldick Soriano e similares se observa a visão anticultural da intelectualidade "mais bacana", que estabelece padrões ideológicos que mais fazem o povo pobre ficar preso na sua própria pobreza e ignorância.

Na ideologia brega, aspectos lamentáveis como a prostituição, o alcoolismo, o subemprego são definidos como "positivos" diante de um "paraíso" idealizado de uma imagem glamourizada da pobreza, da ignorância e da miséria.

No "funk", o que se observa é o zelo excessivo pelos valores associados ao gênero. Qualquer crítica à imoralidade e ao grotesco associados ao gênero é vista pela intelectualidade como "elitista" e "preconceituosa".

Daí que, no caso da vulgaridade feminina, por exemplo, existem dois pesos e duas medidas. Melhorar a expressão moral e sócio-cultural só vale para as elites. Vulgaridade feminina expressa em comerciais de TV é vista sempre como ofensiva, mas quando o caso é o "funk", as mesmas ideólogas "feministas" (!) definem as grosserias das funqueiras como "discurso direto" e "divertida provocação".

Chegou-se mesmo a se realizar uma palestra num centro cultural de Vila Cachoeirinha, em São Paulo, só para estudar um meio do "funk" ser aceito mesmo em suas piores caraterísticas. Embora o debate - que contou com o citado MC Leonardo - seja visto como "ativista", ele foi a demonstração do mais escancarado purismo ideológico do "funk".

Os intelectuais pró-brega se apavoram quando se fala que o jovem pobre deveria tocar um violão. Que, pasmem, era o mesmo instrumento do jovem boêmio do século XIX. Esses intelectuais ficam com medo quando se fala que a jovem favelada não deveria ser MC, mas professora, ou que o músico pobre deveria compor melodias e se distanciar do rádio.

Essa demonstração é também anticultural. A intelectualidade não quer ver o povo pobre se evoluir culturalmente, acha que isso é "elitismo". Preferem que as "evoluções" aconteçam aos poucos, sob o paternalismo das elites acadêmicas e ativistas, e sem romper com os padrões, valores e ídolos lançados pelo poderio de rádios, TVs e imprensa popularesca.

Elitistas são eles, que querem o rico patrimônio cultural para si, enquanto rejeitam a ideia dos jovens pobres assumirem as heranças de seus antepassados e renová-las, com todo o direito de preservações e alteranções que seus corações e mentes mandarem.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

GRANDE MÍDIA PODE ESTAR, MAIS UMA VEZ, "CRIMINALIZANDO" OS MANIFESTAÇÕES


Por Alexandre Figueiredo

A comoção em torno do falecimento do cinegrafista Santiago Andrade, da afiliada carioca da Rede Bandeirantes de Televisão, com toda a certeza é a expressão de solidariedade em torno de um jornalista que, querendo sempre estar perto dos acontecimentos, até para registrá-los com maior fidelidade e proximidade possíveis, assume e sofre os riscos de sua profissão.

De fato, a morte de Santiago se soma às muitas mortes de jornalistas, blogueiros, cinegrafistas e outros profissionais de imprensa que encontram no caminho desde a opressão do coronelismo local, a ameaça criminal e os acidentes de percurso, que fazem o Brasil um dos países mais violentos para os jornalistas, num quadro comparável ao Oriente Médio.

No entanto, a grande mídia, na medida em que capitaliza em torno da tragédia de Santiago, cria condições emocionais para puxar a sociedade para rejeitar as manifestações populares. O senado já começa a articular a votação de uma lei "anti-terrorismo". De repente, a grande mídia, com exploração da indignação popular, pode manipular o debate para invalidar os protestos anti-Copa.

Há poucos dias, foi preso em Salvador o manifestante Caio Silva de Souza, que havia disparado um rojão que matou o repórter cinematográfico. Apesar de considerado responsável por homicídio doloso, Caio também temia por sua vida, pois, em seu depoimento, poderia ser morto por algum outro manifestante.

Aparentemente, a grande mídia tenta dizer que não é contra os protestos populares. É claro que a grande mídia os "aprova", desde que seja contra o governo da presidenta Dilma Rousseff, não pelos erros que ela tenha cometido, mas simplesmente por uma questão de oposição político-partidária por si só.

E aí é que, mesmo com a postura "favorável" aos protestos, a grande mídia, através do radicalismo de vários de seus comentaristas, tentará intimidar a opinião pública e isolar os protestos que só serão "elogiados" quando seus interesses estiverem de acordo com a visão estabelecida pelo baronato midiático.

Uma coisa é condenar os excessos cometidos pela minoria de manifestantes, que cometem desordens, vandalismos e outros atos abusivos e que ameaçam a segurança das pessoas. Outra coisa é desqualificar os protestos populares como um todo, apesar do pretexto de condenar os abusos de uns poucos, e intimidar as pessoas a irem às ruas reivindicar melhorias gerais para suas vidas.

Dessa forma, a grande mídia pretende neutralizar as manifestações populares para que assim ganhe tempo para manter todo o status quo politiqueiro, empresarial e midiático envolvido com toda a farra financeira por trás da exploração da Copa da FIFA de 2014.

A ideia é evitar que um novo junho de 2013 se repita doze meses depois de sua realização. Intimidar a população e desencorajá-la a ir às ruas. Tudo para manter os privilégios do poderio midiático, político, econômico e mesmo entre os dirigentes esportivos, através da exploração de um evento esportivo de âmbito mundial que não trará benefícios concretos à população.

Embora muitos discordem dessa constatação, sabe-se que a África do Sul, que havia sediado a Copa da FIFA de 2010, saiu seriamente endividada depois do fim do evento. O risco é ver o Brasil sofrendo um sério colapso político-econômico depois da festa do futebol. Pelas crises que o país sofre, haverá muita confusão e transtornos por aí.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

ÍDOLOS BREGAS NUNCA SE PREOCUPARAM COM AS "DIRETAS JÁ"

SÍLVIO SANTOS DÁ SEU MICROFONE PARA O ÍDOLO BREGA SÍLVIO BRITO - Com certeza, não foi para falar sobre a campanha pela volta das diretas.

Por Alexandre Figueiredo

Desde que se ascendeu a intelectualidade etnocêntrica, aquela considerada "bacana" por apostar na bregalização do país e creditar ao jabaculê radiofônico o futuro do folclore brasileiro, através de Paulo César Araújo, os ídolos popularescos sempre foram vistos, ainda que equivocadamente, como "subversivos" e "revolucionários".

Eles eram "revolucionários" porque se projetavam através da expressão do "mau gosto popular". E eram "subversivos" porque derrubavam valores estabilizados pelo patrimônio cultural brasileiro. Além disso, a intelectualidade, com seus documentários, monografias, reportagens etc, apostavam na tese de que basta ser vaiado pelo público e pela crítica para virar um "gênio" da música brasileira.

O lobby intelectual era tal que Paulo César Araújo era visto como se fosse o "sacerdote" do meio, ele com aquela pinta de pároco medieval, promovido a guru na Idade Mídia de hoje. Seu livro Eu Não Sou Cachorro Não chegou a ser definido como "Bíblia" e mesmo suas piores inverdades eram vistas como "verdades indiscutíveis" na abordagem da música brasileira.

O grande problema é que essa intelectualidade que se gaba em ser "contraditória e provocativa", já a partir do próprio festejado PC Araújo, é que sua tese de que os ídolos cafonas dos anos 70 apavoraram a ditadura militar esbarra em uma série de equívocos que desmentem essa visão.

Em primeiro lugar, a Censura Federal era composta de pessoas com diversas visões do que era "agressivo" ou não. Havia desde donas-de-casa de senso puritano a sargentos quase paternais mas severos, passando por muitos paranoicos. Há coisas que eram censuradas e nem por isso elas vão contra os interesses do regime militar.

Daí que a censura aos bregas se limitou apenas a interpretação errada de trocadilhos - como a canção "Torturas de Amor", que Waldick Soriano gravou em 1962 (!), mas a nossa intelectualidade "muito legal" de hoje atribuiu o tema de sua letra ao AI-5 - ou a aspectos comportamentais, como a música "Pare de Tomar a Pílula", de Odair José.

A História mostrou que Waldick e Odair, no fundo, nunca passaram de cidadãos conservadores, algo como os equivalentes brasileiros dos ultra-antiquados Perry Como e Pat Boone. Mas a intelectualidade cultural dominante sempre se empenhou em desafiar a realidade dos fatos e transformar os dois ídolos cafonas em "rebeldes combatentes".

Uma das provas contundentes de que os ídolos cafonas nunca representaram qualquer tipo de ameaça à ditadura militar - apesar dos clamores do "injustiçado" Paulo César Araújo - , é que eles nem estavam aí quando o assunto era se mobilizar pela redemocratização do país.

CHICO BUARQUE - "Demonizado" pela intelectualidade "bacaninha", ele sempre esteve atuante nos movimentos sociais.

Os ídolos cafonas apareciam nos programas de televisão, tranquilamente, e não havia qualquer tipo de preocupação com a redemocratização do país. Quer dizer, se eles, como cidadãos, possuem algum desejo, isso é outra coisa, mas a impressão que se tem é que, se a ditadura se prolongasse, eles nem de longe se sentiriam ameaçados com isso.

As manifestações pela redemocratização do país, ancorada pelo movimento Diretas Já, que começou um tanto "tímido" (pelo menos em termos de cobertura da imprensa) em 1983 e se tornou mais intenso em 1984, não contaram com a presença de um único ídolo cafona em seus comícios nem sequer em qualquer declaração realmente solidária.

E olha que Paulo César Araújo já estava em idade para ser universitário, nessa época, Pedro Alexandre Sanches já estava na adolescência e Hermano Vianna começava sua carreira de crítico musical e estudante de Antropologia enquanto seu irmão Herbert colhia os primeiros anos de popularidade com os Paralamas do Sucesso.

Em contrapartida, o "insuportável" Chico Buarque, o "coronel da Fazenda Modelo" nas palavras de Pedro Sanches, o "aristocrata" de um clã "decadente" (sic), sempre esteve solidário, ontem e hoje, aos movimentos sociais e as manifestações de esquerda, independente de serem sectárias ou não.

Chico Buarque sempre esteve do lado das esquerdas em momentos mais difíceis, e sempre se manifestou solidário aos movimentos sociais, coisa que os intelectuais "bacaninhas" ignoram completamente, por verem nele um "burguês insuportável que merece ser expurgado de qualquer escalão da Música Popular Brasileira".

"Demonizado" pela intelectualidade "mais legal do país", Chico tem opinião, iniciativa e ativismo, coisa que os bregas não possuem. No exemplo da imagem acima, o cantor brega Sílvio Brito aparece no programa Qual é a Música?, de Sílvio Santos - hoje patrão da ultrarreaça Rachel Sheherazade - , tranquilo respondendo as questões e ouvindo e contando piadas.

Fora desses palcos televisivos, a ditadura militar já agonizava numa série de crises políticas - iniciadas com o assassinato do jornalista Vladimir Herzog em 1975 pelos militares do DOI-CODI, sem qualquer consulta dos generais - , e nenhum brega parecia estar engajado com qualquer mobilização que pelo menos quisesse derrubar o regime.

Desse modo, a História, com H maiúsculo, está muito acima de posturas pessoais. Paulo César Araújo queria ser o "dono da História", manipulando os fatos históricos da música brasileira conforme seus interesses pessoais. Não deu certo. Os fatos depois se mostram e o doce etnocentrismo de muitos intelectuais badalados cai em contradição.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

LEITOR DE VEJA AGRADECE REVISTA POR REPORTAGEM SOBRE "FUNK"




Por Alexandre Figueiredo

Agora que a reacionária revista Veja se rendeu ao "funk", e a intelectualidade "mais bacana do país", aquela que quer um país culturalmente mais brega, não consegue mais explicar o porquê desse "abraçaço" da grande mídia.

Tomados de total silêncio, eles caíram em contradição não conseguindo convencer da falsa ideia de que seus ídolos cafonas e derivados "sempre foram discriminados pela grande mídia" e não conseguem também convencer do suposto "pavor" que os "sucessos do povão" faz ao baronato midiático.

Pois não só Veja deu seu "beijinho no ombro" ao "funk ostentação" - e, não só isso, pois TODO O "FUNK" foi reportado elogiosamente pela mesma revista que "criminaliza" os movimentos sociais - como um leitor veio agradecer ao periódico pela reportagem publicada.

Guilherme Lázaro Mendes, de Osasco - de onde surgiu MC Guimé, que até pouco tempo atrás era a vedete do dirigismo cultural das esquerdas médias, até ser adotado pela revista que tem Reinaldo Azevedo e Augusto Nunes como seus astros principais - , havia escrito a carta que é integralmente reproduzida nas imagens escaneadas acima, na edição de 05 de janeiro de 2014.

"Fiquei maravilhado com a descoberta territorial de viver nesse enclave e, principalmente, com a pose de MC Guimê (...) na capa de Veja. Como osasquense orgulhoso e conhecedor dos terrenos por onde anda o tatuado na capa - Guimê é do Novo Osasco, bairro em que nasci e fui criado - , senti satisfação em ver destacada minha nação, que há pouco tratou de invadir "como vândalos" os shopping centers de vossos feudos", escreveu Guilherme.

Como é que a grande mídia dá tanto apoio ao "funk" ao ponto de uma revista que prega até a prisão perpétua para o Movimento dos Sem Terra, mas que apoia os funqueiros, se tornar referência para um leitor sobre a divulgação dessa "cultura da periferia"?

Depois de Waldick Soriano, Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso, Michel Teló, Raça Negra e outros pseudo-subversivos que recebem o mais carinhoso abraço dos barões da grande mídia, agora MC Guimé (ou MC Guime ou MC Guimê) faz seu "rolezinho" na grande mídia sem causar o menor incômodo do baronato midiático. Quem será o próximo?

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

RUMORES SOBRE VENDA DA "ABRIL EDUCAÇÃO" SÃO FORTES


Por Alexandre Figueiredo

A julgar por uma notícia dada por um ex-funcionário da Editora Abril, Cido Araújo, que havia sido demitido sem justa causa pela empresa, talvez por exercer atividades sindicais perigosas à "boa imagem" da corporação midiática, a crise que atinge o grupo empresarial ainda não acabou.

Depois que Roberto Civita faleceu, no ano passado, o espólio do Grupo Abril está sendo desfeito aos poucos. A MTV, antiga franquia do grupo, já se adequou à nova rotina como empresa vinculada à filial brasileira da Viacom / Paramount. Revistas diversas, como Bravo, Alfa, Bons Fluídos foram para o espaço.

Mesmo revistas que permanecem firmes nas bancas, como Cláudia, Manequim, Contigo, Caras (franquia de revista argentina), Playboy (franquia de revista norte-americana), Superinteressante, Quatro Rodas e Veja, tiveram muitos profissionais postos no olho da rua.

Agora os rumores atingem o grupo Abril Educação. Aparentemente, é a nova prioridade do Grupo Abril, o setor educacional, que envolve desde editoras de livros didáticos, como Ática e Scipione, até cursos de inglês como Wise Up, de acordo com informações divulgadas no Wikipedia.

Os rumores envolvem a venda do setor educacional, e teriam partido de uma reportagem da revista Info Money, que apenas se limitou a dizer que a Abrilpar, divisão administrativa do Grupo Abril, contratou os bancos Itaú BBA e BTG Pactual para prestar consultoria e analisar a situação das empresas da divisão Abril Educação.

Até agora, nada foi acertado. Mas é evidente a situação desfavorável às empresas do grupo, já que o setor educação é um dos mais difíceis para a Economia. O Wise Up, por exemplo, enfrenta um mercado cada vez mais competitivo de cursos de inglês, encarando concorrentes que chegam a oferecer bem mais que o inglês básico, como o Open English, que ensina até expressões coloquiais dos EUA.

A Editora Ática, então, era uma das mais destacadas editoras de livros didáticos e outros trabalhos informativos e obras literárias, e hoje anda muito apagada no mercado, já que sua imagem não tem mais a imponência e a ostensividade de outros tempos, reduzida a uma subdivisão da Editora Abril já muito "queimada" pelo reacionarismo de Veja, que só gosta de capitalistas selvagens e funqueiros.

Portanto, a tendência do Grupo Abril se encolher ainda mais é praticamente certa. O desfecho da Abril Educação não está sequer definido, mas a crise de reputação que se reflete em termos econômicos faz com que fique ainda mais difícil manter todo o patrimônio.

Mas, pelo menos, os Civita possuem dinheiro o suficiente para descerem até o chão num "baile funk". E o capitalismo neoliberal anda mandando uns beijinhos nos ombros dos herdeiros de Roberto Civita.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

A OLAVETE RACHEL SHEHERAZADE


Por Alexandre Figueiredo

A supostamente neutra Rachel Sheherazade mostrou a que veio, sendo hoje uma das vozes da direita ultraconservadora através do canal SBT, que aparentemente não fazia parte da ciranda "mais reacionária", já que até pouco tempo atrás só a Rede Globo era oficialmente alinhada como mídia ultraconservadora e reaça.

Rachel parecia, antes de chegar ao SBT, um pouco mais "pertinente" em suas opiniões. Se ela exercia algum direitismo reacionário, isso estava latente, mas a moça parecia ter opiniões interessantes sobretudo sobre a mediocridade cultural.

O problema é que, uma vez chegando ao SBT, Rachel mostrou-se reacionária e, como âncora de programa jornalístico, ela fala como se fosse integrante do Tea Party. Ou então como uma espécie de versão feminina e mais jovem de Olavo de Carvalho, o ultrarreacionário escritor e pejorativamente conhecido como "astrólogo" por causa da mania de "fazer previsões".

Pois Rachel, a olavete, tornou-se destaque na Internet por conta de comentários feitos sobre o espancamento de um ladrão pobre, acorrentado e agredido por um grupo de justiceiros. O jovem havia cometido um furto e mesmo assim foi punido com a mais severa violência.

Segue o comentário de Rachel sobre o episódio, do mais reacionário moralismo policialesco:

“O marginalzinho amarrado ao poste era tão inocente que, ao invés de prestar queixa contra seus agressores, preferiu fugir antes que ele mesmo acabasse preso. É que a ficha do sujeito está mais suja do que pau de galinheiro.

No país que ostenta incríveis 26 assassinatos a cada 100 mil habitantes, que arquiva mais de 80% de inquéritos de homicídio e sofre de violência endêmica, a atitude dos vingadores é até compreensível. O Estado é omisso, a polícia é desmoralizada, a Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, é claro.

O contra-ataque aos bandidos é o que chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um Estado de violência sem limite. E, aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho preso ao poste, eu lanço uma campanha: faça um favor ao Brasil, adote um bandido”.

Enquanto Rachel aplaude a punição de um pequeno assaltante, desses que roubam para comer, ela "relativiza" os erros de Justin Bieber, classificando-o como um "garoto-problema" que "está crescendo". "Atire a primeira pedra quem nunca teve problemas".

Seus comentários tiveram repercussão tão negativa que refletiram até mesmo na mídia conservadora. É claro que ela tenta minimizar os efeitos, definindo Rachel como "polêmica", mas há quem veja em tais comentários uma postura exageradamente desumana e uma incitação à violência.

A Rachel que criticou os abusos do Carnaval cometeu abusos piores como o de aprovar uma violência cometida por justiceiros que, ilegalmente, agem na "limpeza social" dos subúrbios, como jagunços urbanos. Talvez ela tenha se embriagado, na véspera, do "chá" fornecido pelos seus parceiros ideológicos.

"FUNK" MANDA "BEIJINHO NO OMBRO" AOS BARÕES DA GRANDE MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

O "funk ostentação" cravou seu punhal nas costas dos movimentos sociais, e foi comemorar seus louros com o "abraçaço" dos barões da grande mídia. É o que se vê claramente com MC Guimé (ou MC Guime ou MC Guimê) e Valesca Popozuda, dois nomes do "funk" - ela é ícone do "funk carioca", mas está apadrinhando o paulista - que ganham destaque na mídia direitista.

Servindo de refresco do verão para o calor das "urubologias" costumeiras - seja Ali Kamel processando blogueiros, seja Rachel Sheherazade condenando pequenos ladrões - , os dois funqueiros andaram sendo capa de periódicos publicados pelas Organizações Globo e Grupo Abril.

Valesca foi capa da Revista O Globo e MC Guimé furou o aparente cerco da Veja às tendências brega-popularescas, numa reportagem elogiosa que já teve seu aperitivo com o suplemento Veja São Paulo, no ano passado, que divulgou o "funk ostentação" com o mesmo teor elogioso, generoso demais para uma publicação que rancorosamente condena de agricultores sem-terra a tribos indígenas.

Isso põe uma pá de cal na imagem supostamente progressista que o "funk" recebeu nos últimos cinco anos. Afinal, se o "funk" é considerado "movimento social", porque a revista Veja, que despeja sua raiva mortal contra os movimentos sociais, adota uma postura tão dócil aos funqueiros?

Desconta-se as posições pessoais de um Reinaldo Azevedo, como, nas Organizações Globo, de um Arnaldo Jabor. Em compensação, o roqueiro Lobão que, recentemente, foi celebrar sua nova camaradagem com o medieval Olavo de Carvalho, dá o maior apoio ao "funk", bem mais do que ao próprio Rock Brasil do qual faz parte.

Os funqueiros fazem sua choradeira na mídia esquerdista, fazem pose de "progressistas", desperdiçam palavras para dizer que são também "ativistas", criam todo um verniz e um simulacro de "rebelião popular" com seu próprio ritmo, no fundo um mero ritmo dançante tolo e sem importância.

Enquanto os ideólogos da intelectualidade "bacaninha" - aquela que foi vender a ideia de que o "funk é legal" nas rodas esquerdistas - começam a cansar com a choradeira de que o "funk" é "vítima de preconceito" ou que o ritmo hoje é "tão rejeitado quanto o samba em 1910", a mídia direitista faz a festa com o mesmo ritmo, e com os funqueiros com cara de quem tem sua "missão cumprida".

Os funqueiros deixaram os movimentos progresisstas na mão, ludibriados com a retórica pseudo-ativista do gênero. Foram posar de pretensos coitadinhos nos cenários e veículos da mídia esquerdista, para depois apunhalar as esquerdas pelas costas e comemorar o sucesso obtido abraçados aos barões da grande mídia.
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