quarta-feira, 21 de maio de 2014

PT, ESQUERDAS E A DIREITA "ATRAENTE"


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas parecem otimistas. A direita, entusiasmada. Mas a situação do Brasil é bastante imprevisível para acharmos que tudo será às mil maravilhas: Brasil hexacampeão, Dilma reeleita, país no Primeiro Mundo, e, no lado da oposição, uma direita que acha que tem todas as respostas para resolver as crises sociais que ainda persistem.

A realidade está muito mais complexa, e o que se nota no Partido dos Trabalhadores é um otimismo exagerado de seu triunfo, como se o caminho já estivesse previamente traçado pelo destino. A última participação do ex-presidente Lula num encontro de blogueiros mais parecia uma comemoração antecipada da vitória do PT nas urnas.

O PT até realizou progressos sociais, mas peca pelo corporativismo, pelas alianças sem confiabilidade, pelo pragmatismo paliativo - como definir medidas auxiliares, urgentes mas provisórias, como as cotas raciais e o Bolsa Família, como se fossem definitivas e permanentes - e por uma concepção míope de cultura popular.

Em contrapartida, surge nas mídias sociais uma direita articulada, organizada e influenciada por um elenco "atraente" que inclui um roqueiro (Lobão), um pensador com empatia entre os jovens (Rodrigo Constantino), uma bela moralista nervosa (Rachel Sheherazade), filósofo (Luiz Felipe Pondé), antropólogo (Roberto da Matta), cineasta (Arnaldo Jabor) e "imortal" da ABL (Merval Pereira).

O PT se faz de vítima, mas prefere se sentir vitorioso, enquanto não consegue explicar seus erros e equívocos. Que isso é influência sobretudo de contatos "alienígenas" aqui e ali, do PMDB a George Soros, ou que interesse tiveram José Dirceu e José Genoíno por Marcos Valério.

Os petistas se limitam a reclamar da campanha midiática contra eles. Tudo bem. Mas a falta de autocrítica, de um lado, e um orgulho triunfalista, de outro, faz com que o PT esteja muito mais no caminho das incertezas do que das certezas.

Os noticiários, não somente da imprensa reacionária ou semi-reacionária mas também algumas progressistas, mostram o quanto a situação brasileira está bem difícil. Fenômenos como Anonymous, Black Blocs, os protestos de ruas, os vandalismos, a violência, os protestos na Internet, tudo isso desafia a opinião pública em geral e indica mais um país turbulento do que tranquilo.

A derrubada em definitivo do mito de que as mídias sociais causariam, por si só, a revolução social, transformando a humanidade em objeto, e não sujeito, do processo ativista, foi comprovada quando o direitismo passou a crescer de forma mais organizada no Facebook e no Twitter, de forma bem mais explícita que o pseudo-esquerdismo com QI de extrema-direita do Orkut de oito anos atrás.

As esquerdas, e não só o PT, erram porque seu projeto político, econômico, social e cultural apontam muitos erros. Medidas paliativas como o Bolsa Família são válidas, desde que provisórias e emergenciais. O progresso também não se dará com transposição do Rio São Francisco e com hidrelétricas como Belo Monte, que causam danos sócio-ambientais sérios.

Da mesma maneira, a cultura popular não se evoluirá pela bregalização nem pelo "funk", e que todo o discurso esquerdista condescendente com os funqueiros já gerou péssima repercussão, na qual é insuficiente os esquerdistas se passarem por vítimas e fazerem a mesma choradeira pró-funqueira de sempre.

As esquerdas não se evoluíram, e isso não é uma constatação de extrema esquerda. Até porque, com a mediocrização sócio-cultural atingindo níveis elevados - tanto que muitos incautos acham naturais coisas que, na verdade, são aberrantes - , até o esquerdismo mais equilibrado de 50 anos atrás hoje parece "extrema-esquerda".

Sim, somos "norte-coreanos" e "brizolistas" por defender coisas que seriam apenas convencionais nos anos 60. Hoje querer que o samba dos morros seja apreciado pelos jovens dos morros é um misto de elitismo com radicalismo guerrilheiro. Querer que o artista fale de amor como se falava nas boas canções brasileiras tem o status de campanha panfletarista da UNE.

As esquerdas glamourizaram a miséria, a ignorância e até a pornografia. Perdem tempo defendendo a liberação da maconha em vez de lutar pela qualidade de vida. Querem bregalização em vez de uma cultura popular melhor. E acham que regulação da mídia se limita tão somente a domar o noticiário político para que todos passem a falar bem de Lula, Dilma e seus amigos.

O Partido dos Trabalhadores, portanto, está bastante defasado. Se Dilma vencer as eleições, será muito mais por uma questão de "zona de conforto" do que do sucesso de seu programa de governo, muito acanhado em relação às expectativas. Também o corporativismo petista de setores das esquerdas não resolvem a solução, porque todo corporativismo é irreal e restritivo.

O Brasil está complexo, e as esquerdas estão perdendo a chance de adotar posturas autocríticas, rever posições. Se, por exemplo, o "funk" apunhala as esquerdas pelas costas e comemora seu sucesso com os barões da grande mídia, não é para os blogueiros de esquerda defenderem mais o ritmo. MC Guimê virando capa de Veja é suficiente para as esquerdas verem os funqueiros como traíras.

Diante de um PT cada vez mais confuso, e de outros setores de esquerda pouco eficazes, a direita se aproveita para adotar um discurso simplificado e "atraente", ainda que de forma demagógica, já que seu discurso "a favor do povo" só lhes é garantido pelo pretexto da oposição.

Ser oposicionista é uma posição mais confortável, porque, em vez de fazer o que não pode, se cobra do detentor do poder aquilo que ele prometeu fazer e não quis. E as pressões da vida desencorajam tanto neoliberais quanto esquerdistas em geral. O Brasil é muito complexo. Em vez de otimismo, deveríamos ter uma boa dose de realismo. Senão o país será engolido pelo caos.

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