terça-feira, 13 de maio de 2014

NEY MATOGROSSO E SEU "PARECER" SOBRE O BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Em turnê em Portugal intitulada Atento aos Sinais, título do seu disco mais recente, o cantor Ney Matogrosso, uma das personalidades mais influentes do país, causou séria polêmica por conta de uma entrevista, dias atrás, ao jornalista daquele país Vítor Gonçalves, âncora do programa RTP Informação, do canal da mesma sigla.

Ele havia feito duras críticas à forma que se organiza a Copa do Mundo no Brasil. "Não há padrão FIFA, é padrão favela. Os negros estão no porão, ainda", disse ele, que entre outros comentários, manifestou séria indignação com o cenário político do Brasil.

As esquerdas médias ficaram assustadas com as críticas de Ney Matogrosso ao PT. De fato, ele pauta muitas dessas críticas ao que ele lê na mídia impressa e eletrônica, majoritariamente reacionária e com outra parte ainda conservadora à sua maneira (como Bandeirantes, Isto É, O Dia, A Tarde e O Estado de Minas, só para citar alguns).

Mas, de todo modo, ele dá seu questionamento, embora um tanto exagerado, ao Bolsa Família, que as esquerdas também exageram na sua importância, já que na verdade não é uma medida definitiva de emancipação social, mas um paliativo válido como ponto de partida para impulsionar melhorias.

Ney disse que, para receber o Bolsa Família, as famílias precisam colocar seus filhos na escola, acrescentando que o benefício estaria também incentivando as classes pobres a terem mais filhos, para que assim recebam mais dinheiro do programa.

Embora as esquerdas médias reclamem do desconhecimento de Ney sobre o programa e questionassem a cobrança educacional supracitada, Ney é pertinente ao dizer que o programa mata a fome das pessoas e não contribui para a melhoria definitiva de qualidade de vida.

Em algumas queixas, Ney parece equivocado, como dizer que a corrupção do Partido dos Trabalhadores é "mais visível". Não, não é. Ela pode ser bem visível e consequência da obsessão do PT em obter vantagens políticas mais fáceis, sobretudo em alianças nada confiáveis com José Sarney e Fernando Collor.

Mesmo assim, Ney admite que existe corrupção em todos os partidos políticos. "Sempre imaginei que houvesse algum ideal levado na política. Não vemos isso. É corrupção diariamente, semanalmente, escândalo de corrupção no país".

Mas Ney acerta quando reclama que existem recursos para a construção de estádios para a Copa do Mundo - que, ainda assim, geram trágicos acidentes de trabalho, que geraram nove operários mortos em várias capitais do país - , mas não existem para investir em Educação e Saúde.

"O Brasil está gastando milhões para fazer essa Copa, todos os estádios dobraram e triplicaram de preço, mas a saúde é uma vergonha, está lastimável, cada vez pior; a educação é zero, nessas coisas internacionais que medem a educação no mundo o Brasil vem em cento e tal, no rabo da história; a polícia cada vez mais assassina, mais violenta… Então eu tenho que falar disso!", diz o cantor.

Ele faz duras críticas à violência policial, mas também não dá uma visão positiva da favela. Como na declaração dita no alto, em que compara a favela a uma escravidão, ao afirmar que os negros continuam no porão. Quanto à polícia, ele a definiu como fascista.

Ney faz críticas por todos os lados. Só que as "esquerdas médias", assustadas, tentam ver no cantor sul-matogrossense quase um novo Lobão. No entanto, suas críticas são acima dos partidos, acima dos planos ideológicos e envolvem os diversos aspectos de um país despreparado para receber um evento como a Copa do Mundo da FIFA.

Portanto, as declarações incomodaram, mas não partem de um novo neocon. Podem não parecer críticas muito progressistas, ao menos à primeira vista, mas também não são de um reacionarismo barato, por mais que, no meio do caminho, reaças como Reinaldo Azevedo e Rachel Sheherazade venham pegar carona nos sinais atentos de Ney Matogrosso.

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