sábado, 24 de maio de 2014

INTELECTUAIS "BACANAS" MONTAM GOLPE CULTURAL CONTRA A MPB

GOLPISMO - Às vésperas de completar 70 anos, Chico Buarque é bombardeado pela fúria de intelectuais "bacaninhas" que querem a bregalização do país.

Por Alexandre Figueiredo

A supremacia de uma intelectualidade cultural que se julga dona de uma visão "ideal" e "realista" sobre cultura popular aparentemente não causa desconfianças. Afinal, os intelectuais que a pregam possuem o privilégio da visibilidade, da formação acadêmica, e do prestígio em contatos até tendenciosos, mas decisivos, com ativistas sociais e forças progressistas.

No entanto, elas refletem, sim, um pensamento elitista que tais ideólogos não querem assumir. São antropólogos, sociólogos, jornalistas, músicos, historiadores que refletem um pensamento elitista e paternalista, embora aparentemente generoso, na qual a melhor solução para a cultura popular é manter o povo pobre dentro de um padrão de domesticação sócio-cultural.

Para isso, muito se escreveu em retóricas sofisticadas, mas confusas e contraditórias, de monografias a documentários, e o discurso até agora não encontrou uma réplica vinda de alguém com a mesma visibilidade compatível.

Até agora, só este blogue conseguiu fazer uma abordagem sistemática questionando a bregalização cultural sem investir em clichês do puro rancor de roqueiros revoltados ou bossanovistas nostálgicos. E chegamos a pegar de surpresa uma intelectualidade que parecia ter a palavra final em termos de cultura popular, mas não a equiparamos no círculo de visibilidade.

Por isso, volta e meia aparece algum factoide que transforma uma gafe em ativismo social. Como no caso da "funqueira pensadora". Como quem cria tempestade em copo d'água, ou melhor, criando Contracultura ou Modernismo em copo d'água, a intelectualidade dominante sempre manobra a bregalização para a imagem tendenciosa de "revolução social".

No fundo, são ídolos e tendências musicais ou comportamentais sem muita importância. E que tratam o povo pobre de maneira idiotizada, caricata e claramente domesticada. Mesmo assim, é assustador o lobby que envolve de cineastas a diretores teatrais, de estilistas de moda a antropólogos, que definem toda essa idiotização como "ativismo sócio-cultural".

COMBATE AO "PRECONCEITO" COMO DESCULPA

Esses intelectuais tentam um discurso articulado, como que numa espécie de similar "tropicalista" do Instituto Millenium, ou do antigo IPES que havia pregado o golpe militar de 1964. Eles usam a desculpa da "ruptura do preconceito" para defender a bregalização e seu avanço em mercados e públicos considerados mais "conceituados".

A desculpa do combate ao "preconceito" é até menos pertinente do que se imagina. Afinal, banalizou-se uma visão equivocada de combater o "preconceito", que na verdade se fundamenta numa aceitação bem mais preconceituosa do que a rejeição que se supõe combater ou romper.

O grande problema é que ninguém, com a visibilidade compatível com esses ideólogos, veio para contestar esse mito de maneira mais consistente e influente, e durante dez anos praticamente prevaleceu a visão de que aceitar tudo de forma pré-concebida é "combater o preconceito".

Então veio esse discurso, que nasceu na margem ideologicamente direita do poder midiático, se propagou nos filões esquerdistas a partir de supostos "dissidentes" que migraram da grande mídia para a mídia progressista, através de contatos por conveniência com acadêmicos e ativistas.

Depois veio uma situação surreal, de intelectuais supostamente esquerdistas defendendo a derrubada de uma MPB de esquerda, para pô-la no lugar um brega naturalmente direitista, de uma linhagem que vai dos primeiros ídolos cafonas, apoiaram a ditadura militar, até o "funk", que faz alianças que vão de bicheiros a George Soros, passando pelos barões da mídia.

CULTURA AMEAÇADA

Enquanto intelectuais lançam um discurso confuso e engenhoso para defender o brega, de natureza meramente radiofônica, como o suposto "novo folclore brasileiro", a ponto de haver casos extremos de um tendencioso Pedro Alexandre Sanches, o "filho da Folha de São Paulo", ver negritude até em "galegos" fazendo "funk", a cultura é ameaçada por um golpe.

Esse golpe promovido pela campanha intelectual intensa, hoje bombardeada por inúmeros anônimos a criar discursos e factoides em prol da bregalização do país - desde o professor Antônio Kubitschek, do caso da "funqueira pensadora", a blogueiros ocasionais e semi-anônimos - , é feito contra o nosso rico patrimônio cultural, embora se use a defesa do mesmo como pretexto.

É um intelectual atrás do outro, e já não é mais a "santíssima trindade" de Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna e Paulo César Araújo dizendo que o Brasil tem que ser brega. Num dia é um cineasta iniciante que defende o "funk", no outro são curadores de arte que chamam funqueiras para abrir exposição de fotos, noutro é a blogueira com saudades de Waldick Soriano etc.

Junte-se a isso a campanha U-RU-BÓ-LO-GA que Pedro Sanches faz contra Chico Buarque e uma geração de emepebistas dos anos 60. O "esquerdista profissional" querendo derrubar, sob os aplausos de seus aliados, a esquerda emepebista, enquanto obriga as esquerdas a assinarem embaixo no apoio a bregas emergentes que, meses depois, festejarão o sucesso abraçados aos barões midiáticos.

A cultura brasileira, sobretudo a musical, é o que resta para as forças golpistas combaterem e que até 1976 saiu quase ilesa do turbilhão ideológico da ditadura. E Chico Buarque, último elo para as gerações mais recentes conhecerem nomes como Paulo Freire, Vinícius de Moraes, Darcy Ribeiro e outros, é uma "ponte" a ser demolida pela fúria da intelectualidade "bacana".

O caso Procure Saber tornou-se o pretexto para a intelectualidade "bacana" partir com toda a fúria contra a MPB sessentista, a ponto de Pedro Alexandre Sanches e Reinaldo Azevedo defenderem a mesma causa anti-buarqueana. Tudo para derrubar o que resta de cultura de qualidade, de boa poesia, de opiniões fortes, abrindo caminho para a bregalização mais totalitária e imbecilizante.

Para eles, legal é Leandro Lehart bancar o imitador do Monsueto, já que este faleceu há muito tempo, ficou esquecido e com isso o ex-Art Popular quer bancar o "genial". Legal é entregar o que resta da MPB sofisticada dos anos 60 para o controle de Michael Sullivan, a velha raposa do brega a cuidar do galinheiro da MPB de qualidade mas menos combativa.

Para eles, legal é o povo pobre permanecer na sua baixa qualidade de vida, a pretexto de ser a "sua cultura", o "seu ideal de vida". Como se qualidade de vida fosse apenas algumas garantias legais genéricas, alguma gratificação financeira e outros paliativos que pouco contribuem para a verdadeira superação da pobreza vital e existencial das periferias.

Para piorar, essa intelectualidade supostamente progressista, na verdade, está preparando o caminho para Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade, Reinaldo Azevedo e o agora reaça Lobão defenderem uma suposta lucidez cultural que os "progressistas" da moda se recusam a assumir.

É o que parece a finalidade de intelectuais pró-brega que parasitam os cenários esquedistas. Empastelar uma visão progressista de cultura popular para defender a domesticação e idiotização das classes populares e abrir caminho para a volta da direita com suas pregações supostamente "conscientizadas".

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