domingo, 18 de maio de 2014

EMPRESÁRIOS DO BREGA AMPLIARAM O JABACULÊ SUBORNANDO SINDICATOS E ENTIDADES ESTUDANTIS

ANÚNCIO DE UM EVENTO "UNIVERSITÁRIO" EM ITABUNA, BAHIA.

Por Alexandre Figueiredo

O jabaculê mudou muito, em vários aspectos. Se no rádio FM o propinoduto tornou-se pior nas chamadas "jornadas esportivas", no comercialismo musical expresso pelo "popular" brega-popularesco, os subornos deixaram de se direcionar tão somente aos programadores e gerentes artísticos de emissoras FM.

Quem aposta na visão do jabaculê de 30 anos atrás, e infelizmente muitos ainda vivem nesse tempo, se enganou completamente. Em 2004, meu sítio Preserve o Rádio AM já alertava sobre o jabaculê esportivo que anos depois foi confirmado por um grave escândalo envolvendo rádios na Bahia, a ponto de Mário Kertèsz, um dos barões da mídia locais, quase ter morrido de infarto.

Já naquela época, ou seja, dez anos atrás, o jabaculê havia mudado e muita gente não percebeu. Blogueiros da época que se julgavam "líderes de opinião", que prometiam uma devassa no poder midiático e só transformavam seus blogues num desfile de fotos de sindicalistas e personalidades políticas, quase um fotolog com informes inócuos, se apagaram com essa visão mofada do "jabá".

Hoje subornar programadores de rádio para tocar música se tornou algo tão ineficiente e pouco lucrativo, numa época em que o filão do rádio AM, inclusive as "jornadas esportivas", invade a Frequência Modulada para atender a interesses de "coronéis" eletrônicos, empresários e jornalistas tecnocráticos e, ultimamente, aos "barões" da telefonia móvel.

Se de um lado um dirigente esportivo oferece jabaculê maior para as FMs, "lavando" o dinheiro sujo e a ser rastreado pelo Imposto de Renda nas "mesas redondas" e transmissões esportivas - com toda a poluição sonora feita em botecos, postos de gasolina, portarias de prédio, táxis e até estabelecimentos comerciais - , por outro os jabazeiros musicais teriam que mexer em outras áreas.

Daí que, nos anos 90, já no calor da popularização dos ídolos neo-bregas (Raça Negra, Só Pra Contrariar, Leandro & Leonardo, Chitãozinho & Xororó, Art Popular, Beto Barbosa, Latino, Mastruz Com Leite e Chiclete Com Banana, entre outros), o primeiro processo de expansão do jabaculê brega-popularesco foi aliciar sindicatos e entidades estudantis.

Dessa forma, as "parcerias" feitas com essas entidades representativas do proletariado e do movimento estudantil, além de uma forma de amestrar potenciais militantes sócio-políticos através do respaldo tendencioso à breguice cultural, seriam também uma forma de ampliar o mercado que antes se limitava aos baixos rincões sociais dos subúrbios e roças do país.

Economizava-se o dinheiro do jabaculê radiofônico, até porque até o dinheiro da indústria fonográfica, a essas alturas, paga o salário de locutores esportivos, quanto mais a grana dos empresários de ídolos bregas e neo-bregas. Antes que o dinheiro dos empresários de brega termine nas mãos das federações regionais de futebol, outros meios de propinoduto foram considerados.

Daí que, diante dos primeiros protestos acadêmicos e jornalísticos contra a breguice reinante, os empresários de brega começaram a articular o apoio de sindicalistas e líderes estudantis pelegos, que se ascenderam por conta dessas "parcerias".

De repente, ídolos neo-bregas passaram a se apresentar em pequenos festivais realizados por diretórios estudantis das faculdades - sobretudo Medicina, a mais elitista - e por eventos patrocinados por sindicatos, sobretudo em eventos comemorativos do Dia do Trabalho.

Esses primeiros focos de suborno aumentaram o alcance da bregalização sócio-cultural, numa estratégia gradual de dominação, já consolidada com as concessões de Sarney e ACM, feitas nos anos 80, que presenteou emissoras de rádio e TV para oligarquias políticas, empresariais e latifundiárias.

Foram essas concessões - das quais a intelectualidade dominante de hoje faz vista grossa - que se desenhou um modelo coronelista de "cultura popular", que hoje prevalece às custas de um discurso forçadamente modernista e pretensamente ativista, que fala numa "ruptura de preconceitos" que, na verdade, é uma aceitação pré-concebida das coisas, algo até muito mais preconceituoso.

E tudo isso começou porque os empresários do brega-popularescos, riquíssimos e aliados dos políticos mais traiçoeiros e dos latifundiários mais vingativos, foram seduzir líderes sindicais e estudantis para um acordo financeiro que estabeleceria lucros em ambas as partes.

Com isso, além de patrocinar eventos de ídolos neo-bregas em evidência ou ascensão naqueles anos 90, líderes sindicais e estudantis promoviam peleguismo compactuando com empresários de entretenimento que são aliados do latifúndio e do patronato em geral.

Era a época das greves que, de tão banalizadas, perdiam o sentido realmente reivindicatório enquanto lideranças sindicais festejavam inexpressivos reajustes salariais. E também a época em que o ativismo estudantil se esvaziou na medida que suas entidades viraram meras "fábricas de carteirinhas". Tanto em um quanto em outro caso, o peleguismo garantia lucros e poder para seus líderes.

Esse caminho antecipou o que se esperaria depois, a intensa blindagem intelectual que iria promover como um quase monopólio a já preocupante supremacia da bregalização cultural que se via no mercado dos anos 90. E que condenou o nosso rico patrimônio cultural a um empastelamento e uma série de deturpações que acostumaram mal não só o povo, mas também as elites.

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