quinta-feira, 15 de maio de 2014

BREGA TENTA FORÇAR O VÍNCULO COM A CULTURA ALTERNATIVA


Por Alexandre Figueiredo

A blindagem intelectual em torno do brega-popularesco criou uma situação cada vez pior. Inseriu em ídolos medíocres um pretensiosismo que eles nunca tiveram na origem e que, em últimas consequências, os leva a delírios ou oportunismos bastante constrangedores e forçados.

Os ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas nunca foram grande coisa. E nem se tornarão. Mas no começo da carreira eles, num sentido dúbio, nunca quiseram fazer cultura de qualidade. Foi um bem e um mal, porque no começo eles eram assumidamente ruins, e hoje eles se tornaram muito mais confusos diante das cobranças de melhorias que as circunstâncias e conveniências fazem para eles.

Já vimos os neo-bregas dos anos 80 e 90 aderirem a um pretensiosismo de sofisticação, assimilando todo um ritual de pompa e luxo que marcou a fase "burguesa" da MPB autêntica, a mesma que afastou a MPB do público jovem, mas que hoje foi poupada pela intelectualidade, que agora usa a geração bossa-novista dos anos 60 como bode expiatório dos males cometidos pela MPB mais comercial.

Agora, há uma ala de bregas que são empurrados, pela blindagem intelectual supostamente "provocativa", para o público alternativo. Algo que empurrar óleo de ricino na goela de uma criança. Juntar extremos antagônicos, a retaguarda do brega e a vanguarda do alternativo, tornou-se cada vez mais comum, respaldado em alegações falsamente modernistas.

E isso contagia não só músicos como também sub-celebridades que, marcadas pelo vazio intelectual, agora tentam compensar o tempo "perdido" para se associarem a algum pretexto supostamente vanguardista.

Na música, vemos o caso do "funk", que se apoia aos mais contraditórios discursos avançados, numa campanha de defesa do ritmo que mostra argumentos confusos, chorosos, ilógicos e nem tão vanguardistas quanto parecem, mas que garantem sua popularização e visibilidade por parte de um público com maior poder aquisitivo.

O "funk" lança mão até de discursos comparativos nada procedentes, porque apenas evocam coincidências superficiais. Da Semana de Arte Moderna à Contracultura dos anos 60, as comparações tendenciosas e falsas do "funk" converteram em falso ativismo social, sobretudo racial e sexual, todo seu perfil ideológico, no fundo associado ao mais rasteiro machismo e racismo anti-negros.

Daí por exemplo empurrar a Valesca Popozuda a um contexto fashion associado à pop-art de Andy Wahrol, ela que havia sido classificada como "pensadora" por uma "polêmica" questão escolar. Ou então jogar um inexpressivo grupo de funqueiras para abrir uma mostra sobre Josephine Baker através de uma vaga, tendenciosa e improcedente comparação.

Em outros gêneros, como o "pagode romântico", além da promoção tardia do cantor Leandro Lehart em suposto "artista visionário" - se tornando uma imitação barata do falecido e hoje esquecido Monsueto (1924-1973) - , temos também a forçada associação de nomes como Raça Negra, Grupo Molejo e até o "pagodão" do É O Tchan a contextos alternativos.

O Raça Negra foi empurrado para o público alternativo através de um disco-tributo produzido e depois distribuído pela Internet, e cuja capa imita a estética de álbuns de grupos como Sonic Youth, mostrando uma garota franzina numa loja de discos de vinil que destacava os LPs do RN.

O Grupo Molejo foi empurrado para esse público através de uma camiseta que imitava a estética da camisa oficial dos Ramones, incluindo a descrição dos nomes dos integrantes à maneira do que se foi feito com os membros originais (três deles já falecidos) da antiga banda nova-iorquina.

Já o É O Tchan havia sido enquadrado numa suposta cena "independente" descrita em monografia por Mônica Neves Leme, trabalho que resultou no livro Que Tchan é Esse?, de 2003, a partir de um projeto de pesquisa bancado, ainda que indiretamente, pela CIA (agência de informação dos EUA) a partir da Fundação Ford.

Mas agora o grupo, ícone das baixarias culturais que marcaram a década de 1990, incluindo apologias à erotização infantil e até ao estupro, tenta ser reabilitado por uma "provocativa" mixagem de um DJ, de nome Bertazi, que incluiu o vocal de Morrissey na música "This Charming Man", da extinta banda inglesa The Smiths.

A mixagem, disponível no YouTube, é algo que soaria ofensivo não só aos fãs dos Smiths como também ao próprio Morrissey. O perfil ideológico do É O Tchan é extremamente oposto ao dos Smiths, da mesma forma que o nazismo é para a cultura judaica.

Mixar É O Tchan com Smiths tem o mesmo sentido de convidar Morrissey, um vegetariano convicto que considera o abatimento de carne como um genocídio, a participar de um churrasco a rodízio. A intelectualidade "bacana" gosta, porque para ela qualquer idiotização lhes soa "libertária" e, com seu "sangue de barata", fica tranquila até quando 99% da sociedade reage com tais "provocações".

No entanto, a atitude do DJ Bertazi faz os fãs se lembrarem do verso final de "Panic", outra conhecida música dos Smiths, feita em protesto contra a veiculação de uma música de George Michael após a notícia do acidente nuclear em Chernobyl: "Hang the DJ" que, traduzida, quer dizer "enforquem o DJ".

Fora da música, é a vez das "boazudas" também partirem para a pretensão pseudo-vanguardista, puxadas pela "animadora" gafe de uma prova escolar se referir à Valesca Popozuda como "pensadora", enquanto, tempos depois, a jornalista Ticiana Villas-Boas expressa sua alienação cultural. A pretensão já era antecipada por alegações de suposto feminismo e "liberdade do corpo".

Andressa Urach, a sinistra vice-Miss Bumbum sobre a qual surgem boatos de que ela seria prostituta ou que estaria namorando capanga de banqueiro de bicho, havia contratado um cientista político (?!?!) para treiná-la para ser apresentadora de um novo programa de televisão.

No mesmo rastro da Popozuda, há a ex-integrante da Banheira do Gugu, Solange Gomes, agora fazendo festinha infantil, além de Geisy Arruda também querer bancar a "intelectual" e as paniquetes e ex-paniquetes estarem à mercê de um novo trainée que as faça parecerem "mais legais" para um público mais intelectualizado, ou quase isso.

A única coisa que "une" bregas e alternativos é a suposta rejeição por parte do público médio consumidor de fenômenos de "maior sucesso". Só que essa é uma coincidência superficial e sem qualquer importância comparativa, e que está sujeita a uma espécie de mal-entendidos e interpretações equivocadas que põe as elites pensantes de hoje em xeque-mate.

Primeiro, porque o brega nunca teve a ver com vanguarda e nem tem. O brega sempre se serviu de restos do que fazia sucesso em períodos anteriores, sendo uma colcha-de-retalhos de referências já mofadas e datadas da "cultura de massa". Portanto, ser brega sempre esteve associado à retaguarda cultural e não o contrário.

O alternativo é diferente. Se o brega é o "último a saber" das coisas e se alimenta de tendências ultrapassadas, o alternativo é o "primeiro a fazer" e a antecipar movimentos artístico-culturais lançando expressões de linguagem que podem até não serem inéditas, mas sempre carregam algo de inovador e expressivo.

O brega se ancora na idiotização cultural, na glamourização da pobreza, da ignorância e até do vazio de valores morais e sócio-culturais. É uma espécie de pop norte-americano traduzido de forma matuta no Brasil, sob o ponto de vista de um povo pobre subordinado ao poder latifundiário a dominar áreas rurais e ter equivalentes nos subúrbios e até no "mundo" midiático.

O alternativo, pelo contrário, se ancora na denúncia dessa opressão que os bregas aceitam com certa resignação. Estabelece linguagens que rompem com paradigmas dominantes, como os que prevalecem no pop norte-americano, e primam não pela mediocridade criativa nem com a postura de coitadinho, mas por uma cultura de cabeça realmente erguida e não necessariamente popular.

A série de contradições e equívocos que o discurso intelectual dominante e defensor da bregalização faz com que se confundam demais as coisas, acreditando que todos são vanguardistas porque são rejeitados e que tanto faz fazer sucesso primeiro com gafes e depois querer parecer "decente".

Ninguém espera muito tempo para tentar dar conta do recado. Ninguém se realiza primeiro cometendo gafes de propósito e depois querer fazer tudo direitinho. Ninguém vira gênio com pose de coitadinho e ninguém se torna vanguardista porque é "popular", na maioria das vezes sendo até o oposto disso. Estas são constatações que passam longe do discurso intelectualoide que ainda deslumbra muitos.

Forçar a barra para juntar bregas e alternativos não contribui de forma alguma para o aprimoramento de nossa cultura. As vanguardas não existem para servir à vaidade pedante das retaguardas. Isso em nada contribui para os medíocres tornarem-se geniais, quando muito eles se tornarão apenas imitadores tecnicamente corretos mas superficiais do que os mestres já fizeram antes.

Juntar bregas e alternativos na marra só ajuda mesmo na presunção retórica de uma geração de intelectuais para os quais só tem valor o que desagrada e incomoda, qualidades que, no entanto, são muito mais negativas que positivas. E, sendo negativas, nada nos dizem no enriquecimento e renovação de nosso patrimônio cultural.

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