terça-feira, 6 de maio de 2014

A APOLOGIA DA MEDIOCRIDADE NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, muitos estão tão acostumados com a mediocrização do Brasil que acham estranho que um blogue como este venha a questionar praticamente todos os problemas brasileiros. São pessoas que, até pela pouca idade e pelo desconhecimento dos fatos - não por culpa delas, em muitos casos - , não têm noção do quanto o Brasil retrocedeu nos últimos 50 anos.

Se existisse uma máquina do tempo e alguém pudesse "viajar" até mais ou menos 1963, ano em que o Brasil estava ainda tranquilo, mesmo às vésperas de encarar tensões que propiciaram o golpe civil-militar de abril de 1964, ficaria simplesmente transtornado e entenderia as críticas "radicais" que aparecem aqui e ali no país.

Isso porque o Brasil teve um projeto de país bastante ousado. A mediocrização cultural não tinha a intensidade de hoje, a cultura do povo pobre era de primeira, os partidos políticos, mesmo os mais assépticos, ainda tinham algum projeto de país e mesmo um reacionário extremo como Carlos Lacerda era de uma erudição e uma inteligência admiráveis.

Hoje chegamos ao absurdo de ver internautas preocupados em defender, com uma raiva doentia, ideias, valores e personalidades de gosto duvidoso, com uma persistência que nem o reacionarismo do IPES e do IBAD - entidades que reuniam pensadores e ativistas de direita no Brasil, como o Instituto Millenium hoje - seria capaz de exercer.

Muitos ficam assustados quando alguém critica tantos absurdos. "Fulano é mal humorado", "sicrano é do contra", costumam dizer. De repente, para ser normal tem que aceitar pelo menos 20% de toda a estupidez e seus absurdos que acontecem no país. O Brasil foi além do Febeapá de Sérgio Porto, virou filme de Luís Buñuel e já está virando livro de Franz Kafka!!

Nem mesmo os mais velhos conseguem perceber o teor dos retrocessos no nosso país. Só quando são muito idosos, que viveram tempos em que o Brasil procurava se evoluir, e não esconder as diversas sujeiras por debaixo do tapete. Mas eles não são ouvidos.

Hoje, para piorar, há uma campanha de anti-intelectualismo, que, por incrível que pareça, tem na intelectualidade "bacana" seus maiores defensores. Eles é que, defendendo o "estabelecido" pela indústria do entretenimento, inventam que isso é "o novo folclore popular" e inserem uma série de teorias delirantes que só mesmo um intelectual de verdade iria contestá-los com segurança e firmeza.

Contestar e questionar, processos naturais do raciocínio humano, de repente viraram sinônimo de "inveja", "radicalismo" e, pasmem, "desinformação" (?) e "preconceito" (?!?!). Se conhecemos algum fenômeno, verificamos, analisamos mas contestamos, somos "preconceituosos", e virou lugar comum essa visão um tanto delirante e esquizofrênica sobre preconceito.

Ter preconceito é não conhecer as coisas. Só que virou moda dizer que ter preconceito é conhecer algo e recusá-lo, enquanto tem gente que "rompe com preconceitos" sem entender o que realmente está aceitando. Ou seja, tem gente que "não tem preconceitos" fazendo noção pré-concebida das coisas.

Raciocinar passou a ser sinônimo de aceitar e tentar explicar a aceitação de qualquer coisa. Criou-se um conservadorismo terrível da aceitação das coisas. O "estabelecido", com todos seus absurdos, com todas suas aberrações, tem que ser aceito, até na sua quase totalidade, sob pena do contestador sofrer certos estigmas "desagradáveis".

Ele acaba sendo vítima do verdadeiro preconceito. Por questionar a maioria dos absurdos do nosso país, ele é visto como "radical", "antissocial", "preconceituoso", "invejoso", "desinformado", "de mal com a vida", "pessimista", "polêmico demais" e outras coisas absurdas que nem correspondem necessariamente à personalidade do questionador.

Muitas vezes, pessoas que aceitam mais as coisas é que são mais temperamentais, invejosas, preconceituosas, intolerantes e outras coisas negativas. A trolagem que se faz em prol de valores difundidos pela mídia, pela política e pelo mercado é que revela o grau de intolerância, de reacionarismo e de preconceitos de gente que se diz "da paz" e "sem preconceitos".

Essas pessoas é que não aguentam o pensamento diferente. Preferem impor o pensamento único de que a bregalização do país é legal, que os estereótipos vão salvar as classes populares ou esperar posturas pré-estabelecidas sobre quem deve ou não questionar as coisas.

Um exemplo. Se você questiona a imbecilização cultural do "funk" e o mercantilismo voraz da axé-music, espera-se que você esteja do lado de Rachel Sheherazade e Reinaldo Azevedo. Ou se você questiona o neoliberalismo e a ditadura midiática, é esperado que você aceite o "funk" e todas as suas baixarias, certo? Errado!

Defender o "funk" é que vai contra a defesa das classes populares, já que o ritmo carioca explora uma imagem caricata do povo pobre, e isso se torna tão claro que, dentro das esquerdas, existe uma indignação dura contra aqueles que se tornam apologistas do gênero.

O "funk" é um ritmo que glamouriza a pobreza, a ignorância e até mesmo a imoralidade, além de fazer com que o povo pobre se torne prisioneiro de suas próprias condições de pobreza, só se "emancipando" quando se torna claro que são as elites que intervém nessa suposta melhoria de vida.

A mediocridade tornou-se tão hegemônica que a decadência da TV aberta e do rádio FM tornam-se claras. A do rádio FM ainda não é reconhecida por muitos, mas sua decadência é muito mais grave do que se imagina, e sua crise, nos bastidores, já significou demissões em massa que atingem até mesmo rádios que parecem ter "boa audiência" segundo os números mortos do Ibope.

O Brasil ficou bem mais castrado do que há 50 anos. Uma emissora comercial da primeira metade dos anos 60, como a TV Paulista (que tinha uma reputação comercial equivalente à Rede TV!), em São Paulo, era capaz de lançar um programa vanguardista na forma e conteúdo como o Móbile, que atualmente é produzido pela TV Cultura.

Em 1960, ano em que até Renato Russo e Ayrton Senna eram bebês recém-nascidos, um filósofo como Jean-Paul Sartre atraía muita audiência para a TV Tupi, numa situação "inconcebível" nos dias de hoje, em que os astros são sub-celebridades dotados da arte de transformar suas próprias nulidades em "sucesso permanente".

Daí que criticar tudo e todas as coisas é um ato de coragem. No caminho, quem contesta um maior número de problemas é chamado de "invejoso", "preconceituoso" e até "burro". E este é o preconceito maior, vindo daqueles que "não têm preconceito" contra o "estabelecido", mas possuem um preconceito cruel e até criminoso contra quem não pensa igual a eles.

E isso num tempo democrático, de governo considerado progressista etc. E ver que, mesmo nos primeiros anos da ditadura militar (1964-1968) havia maior estímulo para contestar as coisas do que hoje. Mas, felizmente, também se criam condições para questionamentos ainda mais profundos, por mais que os contestadores sejam vistos como "antissociais" e "preconceituosos".

Os troleiros ladram e um dia são "apedrejados" quando seu reacionarismo pega pesado demais. E a cada dia a mediocridade é cada vez mais contestada, se desgastando pela sua natural vocação para a mesmice. Hoje assusta demais falar mal do "estabelecido" quando ele é guiado pela mediocridade e imbecilização. Mas amanhã será vergonhoso demais alguém defender esse "estabelecido".

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