terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013: MAIS UM ANO MALUCO NO BRASIL?

FELIZ 2015 - MELHOR GUARDARMOS AS FESTAS PARA O FIM DO ANO QUE VEM. ISSO SE A RESSACA NÃO CHEGAR ANTES.

Por Alexandre Figueiredo

O ano de 2013, no Brasil, mostra o país ainda preso pelas correntes pragmáticas de uma década de 90 que até agora não foi oficialmente encerrada e já começa a despertar um saudosismo de um passado que estava sempre presente.

Um Brasil que volta e meia é mergulhado por episódios kafkianos - não, não iremos muito longe, tivemos o Febeapá de Stanislaw Ponte Preta, logo seriam episódios febeapianos - ainda engatinha no seu sonho obsessivo de ser uma grande potência que está longe de ser. Afinal, não se faz uma potência com chuva de dinheiro, mas com qualidade de vida e justiça social.

Um Brasil tragicômico, que incluiu no começo o incêndio da boate Kiss, em Santa Maria, no interior gaúcho, durante a imprudência da organização de um espetáculo breganejo. 242 pessoas morreram, outros entes das vítimas também faleceram, como se contagiados pelo clima trágico do episódio. A tragédia prenuncia um Brasil que ainda precisa tomar cuidado consigo mesmo.

Na política, o Partido dos Trabalhadores teve desempenho morno, no conjunto da obra. O governo Dilma Rousseff, com seus altos e baixos, consegue manter a estabilidade econômica, mas peca pela pouca ousadia de seu projeto político, e pela pouca coragem da presidenta de exercer a regulação da mídia e políticas em prol da democratização, ampliação e modernização da Internet.

Em vez disso, Dilma preferiu dar a sentença de morta ao rádio AM, atendendo aos interesses dos barões da telefonia móvel. Só que a festa da migração das AMs para o dial FM, que já estava ocorrendo há muitíssimo tempo, deu com os burros n'água, com rádios perdendo audiência para a televisão, que já pode até ser sintonizada em telefones celulares.

Mesmo a manipulação da medição de audiência das FMs, feita por um método rudimentar e malandro, não deu certo. As rádios de " dez e tantos mil" ou cento e tantos mil ouvintes" simplesmente estão com audiência muito abaixo da dos dados oficiais, já que na verdade são uns poucos "gatos pingados" que sintonizam tais emissoras diante de multidões que passam por perto deles.

Aí é aquela coisa. O jornaleiro ouve a FM noticiosa, e você vira "ouvinte" só porque comprou um jornal na banca dele. Você vai para a loja de materiais de construção comprar algumas peças e só porque o vendedor ouve a FM tal, você é jogado para a audiência da mesma. O síndico ouve a transmissão esportiva em FM e todo o prédio leva a "culpa" pela sintonia. Não faz sentido.

Mas aí a farra dos barões da mídia, que adoram brincar de rádio AM nas ondas de FM - favorece muito mais a concentração de poder e impede a concorrência de AMs "mais fracas" - , vai muito mais além do noticiário político, embora este apronte muito das suas.

CIRCO MIDIÁTICO

O reacionário Reinaldo Azevedo aumentou sua visibilidade acumulando coluna na decadente mas persistente Veja e na Folha de São Paulo, sonhando em ganhar espaço na TV. E a Folha aumentando influência com programa na TV Cultura e até mesmo na "roqueira" 89 FM, coordenada pelo emo "das antigas" Tatola Godas que pensa ser o guru hardcore mas fala feito locutor de FM de pop baba.

A tão festejada volta da 89 FM, no final do ano passado, embora comemorada de forma fantasiosa pelos roqueiros brasileiros, não se deu por causa de uma "missão histórica" com a cultura rock, mas porque seus proprietários são amigos de Roberto Medina, que queria a emissora como realimentadora do mercado de shows internacionais.

A mesma armadilha pode vir com a carioca Rádio Cidade, outra rádio dos amigos de Roberto Medina, e que, como a 89, são amigos de Ricardo Teixeira e Eike Batista, lembrando os tempos em que o dono da 89, José Camargo, apoiava Paulo Maluf ao lado do hoje presidente da CBF, José Maria Marín, quando hoje eles apoiam o tucano Geraldo Alckmin.

A Rádio Cidade, talvez, se aproxime mais de Sérgio Cabral Filho. Mas em todo caso é uma politicagem que passa por trás dos roqueirinhos tão metidos a "conscientizados". Para eles, só interessa a 89 e a Cidade tocarem o que essa garotada entende por "rock", incluindo besteirol esportivo e programas de perguntinhas tolas.

Mas se até Lobão e Roger Rocha Moreira viraram reacionários, o que dizer das reacionárias Cidade e 89, com sua programação "roqueira" padrão FIFA, sem qualquer compromisso real com a defesa da cultura rock (os clássicos vão para o lixo e os alternativos fiquem no limbo), cujos donos têm mais compromisso com Roberto Medina e seu mercadão de shows do que com a História do Rock.

E diante dos jovens "roqueiros" padrão Reinaldo Azevedo exaltando rádios medíocres, a Veja resiste mesmo acumulando exemplares encalhados em todo o país, e dando ao Grupo Abril uma crise que custou a franquia da MTV e a circulação de várias revistas. E isso com o patriarca Roberto Civita morrendo depois de grave enfermidade.

A MTV recomeçou do zero com novos canais e a tutela da Viacom / Paramount, que criou filial própria no Brasil. Revistas como Alfa, Uma e Bons Fluídos foram embora, milhares de profissionais do Grupo Abril foram para a rua. Quatro Rodas permaneceu, mas ficou sem "condutor", no caso, o chefe de redação. André Petry da Veja, um Augusto Nunes menor, foi para a rua. Caras e Contigo, entre outras, permanecem em pé, e Contigo até comemorou 50 anos com certa tranquilidade.

A Rede Globo perde audiência, mas sua crise não parece tão aguda quanto a Abril (e esta ainda quer se concentrar no mercado educativo, com faculdades e editoras de livros didáticos), embora fosse já um sinal claro de declínio para uma emissora que detinha a supremacia quase absoluta de audiência durante muitos anos.

Mas neste circo midiático, o noticiário político sofre uma crise que não é somente sua, já que toda uma concepção de país dominada pelo poder político, pelos intelectuais e tecnocratas, anda muito decadente.

ÔNIBUS DESGOVERNADO

E já que o Brasil anda parecendo um ônibus desgovernado, tudo indica que a pintura padronizada que simboliza o "novo transporte coletivo" do Rio de Janeiro se limitará a ser historicamente o canto de cisne de um projeto tecnocrático que Jaime Lerner lançou em Curitiba na ditadura militar.

Tido como "santo" por alguns busólogos "chapa-branca", Lerner foi condenado pela Justiça por improbidade administrativa. A pintura padronizada sonhada por ele, além disso, prejudica o povo, que se confunde na hora de saber qual a empresa de ônibus que vai pegar, e favorece a corrupção político-empresarial, garantida pelo mascaramento da pintura igualzinha em várias empresas.

A corrupção correu tão solta que mesmo as tentativas de criar CPI dos Ônibus deram em fracasso, vide o prestígio de certos "supersecretários" de Transporte e o poderio dos grandes empresários de ônibus. Os busólogos "chapa-branca", esquentadinhos em 2012, se isolaram na tentativa desesperada de defenderem Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho.

E aí a verdadeira mobilidade urbana se notou nas ruas, com manifestações populares sem um caráter ideológico rigidamente definido. Era algo inédito em 45 anos, com as dimensões só observadas antes na Passeata dos Cem Mil no Rio de Janeiro de 1968.

O Brasil parecia mudar com essa verdadeira diversidade social em marcha por um país melhor. Até que veio o cabo-de-guerra entre o PT e as Organizações Globo para ver quem é que bancava o dono das manifestações populares. Com isso, houve demonizações de um lado e de outro, a sociedade afastou-se das ruas e só sobrou o corporativismo agressivo de Black Blocs e similares.

E aí, veio do nada, a figura de Pablo Capilé que, diferenças de contexto à parte, se equiparava ao Cabo Anselmo de 50 anos atrás, na medida em que desviava o foco das manifestações sociais (como na época do movimento pelas reformas de base da era Jango).

Aliás, Capilé não só desviava o foco como fazia o Brasil ficar fora do eixo, com um estranho "ativismo de resultados" que soou como um sedutor canto da sereia para as esquerdas, ocultando as generosas mesadas do magnata George Soros, mas colocando seus militantes para brincar de debates ciberativistas no programa Navegador, da Globo News dos irmãos Marinho.

Enquanto isso, houve a CPI que investigava a corrupção de Carlinhos Cachoeira, que já naufragou quando evitou o depoimento de testemunhas e suspeitos importantes, sobretudo em relação ao envolvimento do jornalista de Veja, Policarpo Júnior, no esquema. A grande mídia nem esteve aí para isso e ficou aliviada quando a CPI terminou como se não tivesse acontecido.

E a CPI do Mensalão marcou o estrelismo de alguns ministros do STF, que levaram ao extremo os erros políticos de Marcos Valério tendo a reboque José Dirceu, José Genoíno e outros. Estes acabaram sendo demonizados pela direita, mas não tiveram a autocrítica de assumir seus erros, quando se juntaram ao valerioduto visando obter vantagens fáceis para o PT.

Aí veio o contraste entre a direita que demoniza demais os petistas, e a esquerda que os vitimiza e, por conseguinte, os heroifica demais. Nem um, nem outro. Ficou apenas um maniqueísmo viciado em que a direita furiosa age contra os petistas que, em vez de assumir erros e adotar autocrítica, se limitam a dizer que são "injustiçados", sem dar qualquer explicação a mais.

Na órbita tucana, o jornalista Amaury Ribeiro Jr. até tentou criar uma "candidatura" de protesto para a ABL, mas nada impediu que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso virasse membro da academia e, ao lado de Merval Pereira, ensinasse "urubologia" para os colegas literatos. Tudo isso, porém, não evitou a crise que o PSDB e seus satélites DEM e PPS sofressem, perdendo políticos para o "ressuscitado" PSD, do ex-demo Gilberto Kassab.

PSD foi o partido de Juscelino Kubitschek, que voltou à cena, juntamente com João Goulart, por causa das denúncias que os dois, aparentemente mortos por acidente de carro e parada cardíaca, respectivamente, teriam sido assassinados pela Operação Condor (que envolvia algumas ditaduras sul-americanas, inclusive o Brasil). Jango teve o corpo exumado e examinado, além das homenagens tardias como a anulação da cassação de mandato e as cerimônias fúnebres de chefe de Estado.

PROCURE "NÃO SABER"

Na cultura, o que se viu foi uma série de trapalhadas feitas pela intelectualidade cultural dominante que, autoproclamada de esquerda, não consegue esconder suas contradições quando defende o brega e seus derivados, inclusive o "funk". E, diante da crise do "funk carioca", veio o "funk ostentação" como suposta novidade, para realimentar a campanha intelectualoide em prol do ritmo, com toda a choradeira discursiva de sempre.

A choradeira até mudou o foco. Sem cortar a alegação de "combate ao preconceito", este teve menos ênfase nos choramingos contra a rejeição que a sociedade dá aos funqueiros. Desta vez, a intelectualidade "mais bacana" recorreu à sociedade de 1910 para explicar tamanha rejeição, como se ainda estivéssemos sob as mesmas estruturas moralistas da República Velha.

Esse discurso choroso também se apoia com a preocupação purista em manter o "funk" em suas baixarias e sua imbecilização artístico-cultural. E aí mesmo as mulheres que integram a intelectualidade cultural dominante caem em contradição.

Enquanto elas se voltam contra os comerciais de tevê que transformam mulheres de classe média em imbecis, elas protegem as funqueiras que trabalham uma imagem não muito diferente, até mesmo mais grotesca. E aí as "pensadoras" acabam errando ao considerar como baixarias a imbecilização da imagem feminina pela publicidade televisiva, mas vendo como "discurso auto-afirmativo direto" quando as mesmas baixarias partem de MCs e mesmo de "musas" do "funk".

Falando em "musas" do "funk", elas nem estavam aí para denúncias de que a solteirice de algumas delas era uma farsa. Duas conhecidíssimas "musas", igualmente siliconadas e oxigenadas, estariam escondendo suas vidas de mulheres bem casadas, com o marido de uma delas na prisão e outro morando em lugar ignorado.

Este último caso é até notório. A funqueira, também tida como "ativista" e militante LGBT (apesar de heterossexual), que tem filho adolescente, nem se interessou a explicar por que recebeu uma moto importada que nunca usa, ou porque se recuperou da dengue duas vezes num piscar de olhos. Tida oficialmente como "solteirona", ela na verdade estaria casadíssima e usando sua imagem de pseudo-solteira para, diante de factoides, não expor o maridão, protegido na privacidade.

Voltando à intelectualidade pró-brega, pró-funqueira e similares, o episódio do Procure Saber, de um grupo de medalhões da MPB que se voltou contra biografias não-autorizadas foi o pretexto para o golpismo cultural de jornalistas e escritores "tarimbados", famintos em derrubar a MPB e instaurar a bregalização em todos os pontos e redutos imagináveis e inimiagináveis no país.

Se a intelectualidade "bacana" já fazia seu dirigismo cultural empurrando Raça Negra e Leandro Lehart goela abaixo nos públicos de vanguarda e de cultura alternativa, o caso Procure Saber foi uma deixa para eles derrubarem seus ódios contra o traíra Roberto Carlos, que eles antes respeitavam como um natural aliado da bregalização, mas que passou a ser mal visto por causa dos processos judiciais contra o arroz-de-festa Paulo César Araújo.

A campanha contra o Procure Saber ignorou, antes de mais nada, o fato de que mesmo os ídolos bregas exerceriam um zelo pela vida privada pior do que Roberto Carlos e Chico Buarque, até pela exposição que os bregas têm ao sensacionalismo da mídia. Além disso, o próprio Paulo César Araújo fez um lobby para tentar apagar na Internet alusões ao apoio de seu ídolo Waldick Soriano à ditadura militar e aos valores machistas.

Tudo virando uma campanha por um Procure Não-Saber da música brasileira, de preferência ignorando que a "admirável" breguice que toma conta das rádios e TVs de todo o país fosse patrocinada pelos barões da mídia e pelo latifúndio, apostando mais na tese um tanto improcedente de que essa breguice é resultado pura e simplesmente da "vontade popular".

AJUDINHA DE REINALDO AZEVEDO E DA GLOBO

E aí vieram situações insólitas, como a fúria dos intelectuais "bacaninhas" contra Chico Buarque, que deixou vazar até um histérico anti-esquerdismo de Pedro Alexandre Sanches, o "filho da Folha". Na sua obsessão de derrubar a MPB e criar o império da bregalização sob o consentimento temporário de alguns obscuros da MPB, que serão apunhalados pelas costas no meio do caminho, Sanches teve o favorecimento de contextos nada esquerdistas para sua campanha feroz.

Para derrubar Chico Buarque e enterrar viva a MPB autêntica, Sanches e seu parceiro farofafeiro Eduardo Nunomura (espécie de André Forastieri pós-tropicalista) contaram com o apoio de ninguém menos que Reinaldo Azevedo, que à sua maneira combatia Chico Buarque com seu apetite extremo-direitista.

Mas nesse caminho o roqueiro convertido num Olavo de Carvalho rebelde, o músico Lobão, havia lançado um livro de "ensaios", seu "manifesto do nada" numa "terra do nunca" que antecipou sua coluna de Veja. E Lobão apoia tudo que Pedro Alexandre Sanches apoia no "funk", até com entusiasmo descomunal. A direita é mais receptiva ao "batidão" do que imagina a vã filosofia.

Não bastasse isso, Sanches e Nunomura, na sua paranoia "urubóloga" contra a MPB, apelaram até mesmo para as estrelas da Rede Globo, o sambrega Thiaguinho e o breganejo Luan Santana, como supostos heróis da cruzada anti-MPB dos dois farofafeiros. O que deixou Sanches de calças curtas, diante de seus falsos ataques à grande mídia que ele eventualmente escreve em seus artigos.

Para terminar a tragicomédia brega, a intelectualidade "bacaninha" exagerou nas lágrimas com a morte do ídolo brega Reginaldo Rossi. Ele, que nunca se levou a sério e não levantava bandeiras em prol de uma dita "verdadeira MPB", foi alvo de elogios e teve associado a virtudes artísticas, poéticas e musicais que ele nem se interessou em ter. A intelectualidade dominante o levou a sério demais, ela que se apega mais a mitos do que a pessoas.

E na esquina temporal de 2014, o Brasil está problemático até mesmo nas obras da Copa. Acidentes matam operários, obras continuam inacabadas, dinheiro público e privado sendo desperdiçado. E as chuvas destruindo as casas populares, as favelas, as periferias, matando muita gente e deixando os sobreviventes sem sequer o básico de bens para sua sobrevivência e conforto.

Mas essa é a periferia de verdade, que a intelectualidade "bacaninha", as autoridades e os tecnocratas e, acima de tudo, os barões da grande mídia, não querem saber. O Brasil de um futebol corrupto que ofusca uma discreta vitória no handebol feminino ainda precisa aprender muito para ser potência, se preparando para que alguma nação africana passasse a perna na corrida nos postos de futuras potências mundiais.

Termina-se esse ano maluco de 2013 - bem mais do que o louco ano de 1961 descrito na retrospectiva da revista Manchete, na época - desejando a todos um feliz 2015 e muita paciência para encararmos o confuso ano de 2014 que virá pela frente.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O GLOBO ACHA QUE GANG DO ELETRO É "VANGUARDA"


Por Alexandre Figueiredo

Desde que veio o tal brega-cult, a partir do tributo "roqueiro" a Odair José, tudo pode acontecer. Pior: se foi produzido até mesmo um tributo "alternativo" ao Raça Negra, então qualquer coisa pode acontecer.

Desta vez, a crítica do Segundo Caderno de O Globo, na edição de ontem (29.12.2013) na eleição dos dez melhores discos de 2013, escolheu um do grupo de tecnobrega Gang do Eletro, definido como "vanguarda" pela pequena resenha. Tão ridículo quanto desejar o Nobel da Paz a Justin Bieber pela sua fama de "pegador". Mas um prato cheio para o esquema jabazeiro que atinge a crítica brasileira.

A Gang do Eletro é o Bonde do Rolê de vez, não pelo fato de tentar um sucesso no exterior - o grupo pop-rock-funqueiro "classe média" do Paraná apenas virou um exotismo aos olhos dos gringos, que o viram apenas como uma "divertida piada" - , mas pelo fato de ser queridinho da crítica "especializada".

Desde o começo dos anos 90 não víamos algum sinal de uma cultura alternativa que se projetasse bem na imprensa musical. E o rótulo "alternativo" se serviu a tanta porcaria, que de anos em anos chegou-se ao ponto mais constrangedor de dizer que até Harmonia do Samba é "alternativo".

Então aqui "alternativo" tem mais a ver com Lady Gaga - que é o mainstream do mainstream do mainstream, mas metido a "arte performática pós-modernista" - do que com as riot grrrls do rock independente estrangeiro, ou de nomes como a recém-casada Vanessa Carlton, que procuram colocar as melodias acima da atitude. E isso é ruim.

Infelizmente, ser "alternativo", para a crítica especializada no Brasil, não é mais uma questão de alguém fazer uma música diferente, mas de qualquer um fazer uma atitude qualquer que os jornalistas musicais achem "provocativa" e "legal".

Muitos intérpretes sem pé nem cabeça viram "vanguarda" para a "panelinha" jornalística apenas porque têm aquele jeitão "esperto", com aquela pose de quem "saca tudo", mesmo que musicalmente seja oco, confuso, impreciso, retrógrado ou medíocre. Basta ter alguma "atitude" e uma pose de "bacana", prometer uma "mistura" de sons (mesmo que ruim) e pronto, virou "vanguarda alternativa".

Ah, mas aí, com a blindagem intelectual que sofremos, tão ruim quanto a dos "urubólogos" da grande imprensa, fazer críticas assim são vistas como "preconceituosas". Ridículo. E a intelectualidade cultural dominante, tida como "progressista" por ser amiga de fulano, sicrano ou querer algum "dimdim" do MinC, nasceu no mesmo ninho dos "urubólogos", só cresce em cativeiros diferentes.

Cultura alternativa não é uma questão de adotar uma piada tão esperta que, em vez de ser considerada engraçada, ela é levada a sério demais. Neste sentido, a Gang do Eletro se insere no contexto dos bobos-alegres da EmoPB de nomes como Kitsch Pop Cult, Vivendo do Ócio e tantos outros pseudo-vanguardistas.

A única coisa que eles têm é apenas muita informação. São apenas grupos de bons internautas, que consultam a Internet aqui e ali em busca de algum fragmento de expressão cultural. Mas isso não os faz geniais nem vanguardistas.

Grande erro da crítica apostar na Gang do Eletro como "vanguarda musical". Não é. Que saudades dos tempos em que a imprensa "corporativista" da Bizz exaltava nomes como Fellini, Akira S e as Garotas que Erraram, Violeta de Outono e Voluntários da Pátria. Esses, sim, eram alternativos. Assim como Vzyadoq Moe, e olha que havia quem achasse este "engraçadinho".

Mas hoje é a Gang do Eletro, o Bonde do Rolê, o Kitsch Pop Cult que são levados muito, muito a sério. Assim como o tal tributo "alternativo" ao Raça Negra. De repente, veio essa obsessão pelo brega que parece uma unanimidade. Uma unanimidade tão burra quanto aquela questionada pelo dramaturgo Nelson Rodrigues.

Brega nunca foi vanguarda. Sempre foi e continua sendo retaguarda, com seus cenários de subúrbios sujos e gente feliz porque vive no subemprego e só se distrai na bebedeira. Nada menos vanguardista que isso.

Mas no país em que Merval Pereira é imortal da ABL, Joaquim Barbosa é presidente do STF e Pedro Alexandre Sanches é intelectual de esquerda, faz sentido chamar Gang do Eletro de vanguarda e achar Raça Negra alternativo. Assim não dá para sonhar com o Brasil no primeiro mundo. Um sal de frutas, por favor!!

INTELECTUALIDADE E O MEDO DE EVOLUÇÃO CULTURAL DO POVO

INTELECTUAIS ESTARIAM DEFENDENDO BREGA, "FUNK" E SIMILARES PARA EVITAR QUE O POVO POBRE CONHEÇA NOMES COMO O GRUPO QUINTETO VIOLADO.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante acha que o povo pobre só ouve "funk", e, quando muito, alguns ritmos bregas bem safadinhos. Se questionamos essa supremacia do mau gosto, que enriquece latifundiários, empresários patrocinadores e barões da grande mídia sob o rótulo de "cultura popular", somos acusados de pertencermos a correntes moralistas de 1910 já superadas.

Sempre esse mesmo discurso. "O pobre tem o direito de ouvir o seu funk", "o brega precisa ser reconhecido como arte maior da nossa MPB", "as mulheres-frutas se sensualizam para sustentar suas mães pobres e abandonadas". Sempre esse discurso supostamente solidário da intelectualidade "mais bacana", "mais solidária", porém, na prática, muito, muito mais elitista.

O que a intelectualidade cultural dominante pensa, a respeito da situação do povo pobre, das classes populares em geral ou das periferias, seja a perspectiva que for, pode estar sendo feita de forma que tal intelectualidade seja vista como "desprovida de qualquer tipo de preconceito".

No entanto, ela na verdade esconde seus piores preconceitos, quando imagina que o povo pobre, só por ter mais consumismo e permanecer brega, cafona e grotesco, sobretudo diante de trilhas sonoras que variam de Waldick Soriano a MC Guimé, atingirá o máximo de cidadania, quando se vê, na prática, o contrário.

Daí o círculo vicioso da intelectualidade dominante não aceitar, por exemplo, que funqueiros sejam criticados. "Voltamos a 1910, quando as rodas de samba eram reprimidas a cacetetes pela polícia montada a cavalo", acusam, até com certa hipocrisia demagógica, os intelectuais "mais bacanas".

Não vamos aqui dizer que o "funk" nada tem a ver com o samba, porque já descrevemos isso outras vezes, e talvez venhamos a esclarecer melhor em outras, quando isso for necessário. Mas é gritante a quase unanimidade desse discurso pseudo-progressista que mais parece atender aos temores dos barões da grande mídia com o desgaste de seu projeto de "cultura popular".

INTELECTUAIS COM MEDO DE SEREM "ROUBADOS" PELOS POBRES

O maior medo dessa intelectualidade é ver o povo pobre atingir o estágio em que esses intelectuais se encontram. Seria como um "roubo" dos saberes privilegiados que antropólogos, sociólogos, historiadores, jornalistas culturais, cineastas documentaristas e outros possuem sobre o que julgam entender por "cultura popular".

Eles têm seu "patrimônio", que são os referenciais culturais mais expressivos, geralmente de artistas universitários que se apropriaram de elementos culturais folclóricos, que antes faziam parte do cotidiano das classes populares.

Por exemplo, existe um antropólogo que possui os segredos das raízes da cultura africana e a aplicação das mesmas na cultura brasileira, através da injusta porém socialmente profícua introdução dos escravos no povo brasileiro, que deixou fortes traços de africanidade em nossa cultura, mesmo na europeizada região Sul.

Aí o antropólogo se guarda de discos de música étnica, ou de discos contemporâneos que já traduziam os antigos ritmos tribais africanos, ou mesmo os antigos ritmos negros brasileiros, como o samba e o maracatu, em fusões rítmicas mais sofisticadas.

Como forma de evitar serem "roubados" por diaristas e domésticas que fazem limpeza em suas casas, ou cozinham as refeições desse antropólogo, ele terá que criar um discurso para que tais empregados (as) não sejam estimulados a cobiçar os raríssimos discos e livros sobre cultura popular que possuem em suas coleções.

Imagine o antropólogo ver que sua empregada está de olho naqueles álbuns de vinil gravados por Naná Vasconcellos, só para citar um desses nomes que retraduzem o folclore negro em experimentalismos musicais contemporâneos. Ele terá que trabalhar seu discurso para parecer generoso e proteger seus discos sem parecer "elitista" nem "preconceituoso".

Daí os muitíssimos textos que falam que o melhor é ser brega, é ser funqueiro, é ser porralouca. "Minha criada, você já tem a televisão e as breguices que rolam no rádio como sua cultura. Se contente com ela", é o que tais textos dizem, de uma forma oculta e sutil.

Imagine a intelectualidade cultural dominante ver desaparecerem de suas coleções discos de Itamar Assumpção, Banda Black Rio, Azymuth, Rui Maurity, Wilson Simonal, ou aqueles discos autografados do Hyldon, ou aquele disco histórico de Tim Maia obtido num momento marcante da vida.

HABILIDADE DISCURSIVA

Por isso existe aquele papo que, na prática, obriga o povo pobre a se contentar com seu "mau gosto". Vem o jornalista cultural dominante, com suas reportagens habilidosas, a dizer que o "funk" é maravilhoso, que ser brega é o máximo, que rebolar até o chão é o que o povo pobre pode fazer em relação ao ativismo sócio-cultural.

A habilidade discursiva precisa trabalhar, por exemplo, que um Leandro Lehart da vida seja visto como o "novo Simonal", que Odair José é um "cantor de protesto", que o Raça Negra é "alternativo", que MC Dedé é o "novo Rui Maurity" e as sucessoras de Elis Regina estão nas grotescas MCs do "funk".

Essa manobra discursiva, que empolga a muitos, no entanto é um jeitinho elitista de parecer generoso, mas na verdade é cruelmente preconceituoso, cruelmente higienista, expulsando o povo de sua verdadeira evolução sócio-cultural.

Afinal, faz-se uma falsa analogia do brega-popularesco (seja o "brega de raiz", seja o "funk", seja outro similar) à MPB autêntica mais vanguardista, para desestimular o povo a apreciar a cultura de qualidade.

É o seguinte raciocínio: para que curtir Quinteto Violado, se o intelectual "de nome" disse que Zezé di Camargo & Luciano "soa parecido"? Para que curtir Itamar Assumpção, se aquele jornalista "bacaníssimo" disse que o "funk ostentação" é "igual" ao "Nego dito Beleléu"? Para que chegar perto dos discos antigos dos Originais do Samba, se o Raça Negra e o Grupo Molejo "soam parecido"?

É assim que os intelectuais "tão generosos" com as classes populares fazem. Eles querem ser os senhores da alta cultura, parecem tão carinhosos com a baixa cultura, com a supremacia do "mau gosto popular" que são tidos como "solidários" com as classes populares.

No entanto, é só observar melhor e perceber que isso é tão somente uma forma mais sutil de elitismo, porque a intelectualidade fica com a cultura de qualidade, se apropriando até mesmo do que aquilo que as classes pobres faziam em outros tempos.

Hoje o povo não pode mais curtir seus próprios sambas, baiões, modinhas. Só fica com o "funk", o brega, o "forró eletrônico", o "pagode romântico" e outros engodos radiofônicos. Se a intelectualidade apoia, é porque não quer que as empregadas se interessem por suas coleções de discos. A "ralé" não pode curtir cultura de qualidade.

domingo, 29 de dezembro de 2013

REINALDO AZEVEDO USA GLOBO NEWS COMO TRAMPOLIM


Por Alexandre Figueiredo

Reinaldo Azevedo, o violento blogueiro da decadente revista Veja - aquela que persiste mesmo juntando pilhas de exemplares encalhados em todo o país - , pratica seu alpinismo profissional. Tenta se proteger da crise de Veja, alimentando sua própria visibilidade em outros meios.

Depois de ganhar uma coluna na Folha de São Paulo, o reacionário jornalista agora faz suas "visitas" à Globo News, tentando conquistar aos poucos os espaços televisivos, na esperança de encontrar algum espaço próprio e constante.

Ontem de noite, ele foi um dos convidados do programa Globo News Painel, ao lado do "filósofo" Luiz Felipe Pondé e Bolivar Lamounier, ambos figuras conhecidas entre a patota do Instituto Millenium.

A pauta não poderia ser outra: "debater" os conceitos de direita e esquerda no Brasil. E, com toda a pretensa "sabedoria" de "juiz desinteressado" de Reinaldo Azevedo, ele tenta minimizar os efeitos da direita na grande mídia brasileira.

Ele é "imparcial". Para ele, não existe direita no Brasil. Como um Olavo de Carvalho mais pop, Reinaldo acredita que a direita é fraquinha e a esquerda é irremediavelmente corrupta, exagerando posturas, contextos, inventando coisas, se aproveitando da oposição política ao PT.

Ele deve imaginar que seu estilo agressivo de atacar instituições e pessoas, quase como um troleiro profissional - que inspira reacionarismos brucutus até de busólogos "críticos" da Baixada Fluminense ou professores mineiros escondidos em fóruns de samba e chorinho - . é apenas uma questão de "natural indignação" com os rumos do país.

No entanto, seu obscurantismo ideológico, que não deve ser confundido com a natural liberdade de se criticar as esquerdas e de cobrar alguma postura autocrítica de José Dirceu e José Genoíno, incomoda não só pela visão um tanto irreal da realidade, mas pela forma como ela é transmitida, ora com muita ironia, ora com muita raiva.

É como se Reinaldo Azevedo se achasse um juiz informal situado no "acostamento" da opinião pública. E do jeito que ele atrai seguidores, com seu extremo reacionarismo quase medieval - ele só difere de Olavo de Carvalho por ser mais "moderno": Olavo parece viver ainda no século XV - , como companheiro de pseudo-modernices reacionárias de Diogo Mainardi.

Mainardi já é figurinha da Globo News, por causa do Manhattan Connection. Em outros canais, Augusto Nunes conduz o programa Roda Viva numa pauta vejista. A turminha ainda ganhou a adesão do roqueiro Lobão, que ganhou espaço na revista Veja.

Com seus amiguinhos buscando maior visibilidade na mídia direitista, Reinaldo Azevedo sonha em ter algum espaço próprio regular, pelo menos semanal, na televisão, na esperança não de necessariamente defender alguma alternativa viável ao PT, mas de pregar a colocação de algum nome o mais direitista possível no comando do país. Convém ficarmos de olho.

MÍDIA E EUGENIA AMOROSA ÀS POPULAÇÕES POBRES

SEGUNDO A MÍDIA, BASTA JOGAR FUTEBOL COM OS AMIGOS NAS PRAIAS DE CIDADES COMO SALVADOR PARA JOVENS POBRES SEREM VISTOS COMO "REPULSIVOS" PARA AS MOÇAS POBRES.

Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia manipula as relações amorosas de forma tendenciosa. Ela procura desestimular as afinidades pessoais, promovendo uma forma atualizada dos casamentos por conveniência, criando uma ideologia politicamente correta que tenta seduzir a opinião pública, fazendo pegadinha até mesmo entre pessoas razoavelmente progressistas.

Sob a alegação de "ruptura do preconceito" e "superação das diferenças", a grande mídia cria um repertório ideológico em que a afinidade pessoal não é o fator importante. Nas classes abastadas, isso torna-se crucial, principalmente como meio de "domar" a emancipação feminina através do estímulo ao casamento com algum chefe de alguma coisa, empresário ou profissional liberal.

Nas classes pobres, porém, a coisa torna-se ainda mais delicada e cruel, e a grande mídia, apoiada pelo mercado e pela fabricação de um "senso comum" que aceita os ditames da mídia como se fosse o "inconsciente do povo", trabalha uma manipulação das emoções e desejos das populações pobres para evitar que se unam famílias por afinidade.

Se nas classes abastadas as relações amorosas são corrompidas pelas imposições do status quo pelo simples fato de que frequentar os mesmos restaurantes valer muito mais do que ter ideias, sentimentos e projetos de vida comuns, nas classes populares as imposições ainda se tornam muito mais cruéis.

Em Salvador, por exemplo, as rádios - controladas por antigos adeptos e afilhados de Antônio Carlos Magalhães, alguns apenas formalmente rompidos com o falecido senador, mas ainda ideologicamente seus herdeiros - , as TVs e a intelectualidade associada contribuíram para manipular os desejos das jovens pobres e negras da maneira mais confusa possível.

Distorcendo os conceitos de democracia étnica e social, a ideologia difundida pela mídia, cheia de conceitos politicamente corretos, fazem de tudo para evitar que as moças das periferias se unam com homens de seus próprios meios sociais.

 "PELADEIROS" SE TORNAM "MENOS ATRAENTES"

A distorção ideológica é tanta que mesmo um saudável hábito de homens pobres jogarem futebol nas praias, durante as manhãs de domingo, é o suficiente para afastar as moças de qualquer conquista amorosa. Graças à pregação midiática, basta ser um "peladeiro" para ser visto, pelas moças do seu meio, de forma preconceituosa, como se isso significasse infidelidade ou descaso.

Em nome da "ruptura de preconceitos" e da "superação das diferenças", demoniza-se qualquer afinidade sócio-cultural, fazendo com que essas moças sonhem com um Márcio Victor (vocalista do Psirico) ou Xanddy (do Harmonia do Samba), enquanto se recusam a namorar os homens que a eles se assemelham nas suas próprias comunidades.

Em contrapartida, a mídia estimula que as moças pobres de Salvador desejem e até assediem homens "de fora", usando a "diversidade" como falso pretexto para tamanhas aventuras. É através desse quadro "lindo e saudável" que muitas moças pobres são entregues a traficantes de mulheres que estão a serviço de redes internacionais de prostituição.

SOLTEIRICE POR CONVENIÊNCIA

Em outras partes do Brasil, também ocorre isso de uma forma ou de outra. Com mais prejuízos do que benefícios. E mostra o quanto se distorcem conceitos e ideias progressistas, para que sejam defendidos processos sociais nada progressistas.

Superestima-se as "diferenças sociais"sob o pretexto de uma liberdade que se torna, na prática, uma imposição, em nome de uma vontade falsa, que não corresponde às necessidades pessoais verdadeiras. Por que uma moça pobre quer um rapaz de classe média? Ela mesma não sabe. Mas a mídia está o tempo todo dizendo que ela deve desejá-lo, "para o bem da diversidade social".

Além disso, a própria mídia, se não consegue empurrar as moças pobres para o amor por conveniência ao lado da "segunda divisão" da classe média - de nerds a punks, passando por rapazes comuns de vida pacata - , força a solteirice através do "exemplo" das famosas.

Em outros tempos, a apresentadora Xuxa, símbolo oficial de "emancipação feminina" e "bons valores" que a grande mídia trazia para as periferias, era obrigada a fazer esse papel de celibatária condicional. Passado o tempo, Xuxa, na medida em que alcançava os 45 anos - hoje ela tem 50 - , era liberada para o amor e hoje namora firme um ator de televisão.

Hoje o que existem são sub-celebridades ou musas "popularescas" que precisam escolher três opções: quando casadas, esconder tal condição; quando apenas namorando, serem obrigadas a fingir ou forçar um rompimento na relação e, quando realmente solteiras, serem proibidas de levar adiante qualquer flerte ou o chamado "rolé" (o popular "ficar", ou namorico de poucas horas).

No caso das casadas que passam uma falsa imagem de "solteiríssimas" - que envolvem desde dançarinas de "pagodão" até intérpretes funqueiras - , a medida visa um duplo benefício a elas, que é de passar uma imagem de "solteiras, desejáveis e independentes" e manter seus maridos na privacidade, à margem dos factoides a que suas esposas estão associadas.

No geral, porém, a imagem de pretensas solteiras é um recurso da chamada "indústria cultural" para estimular, nas moças pobres das periferias, público-alvo das supostas "solteiríssimas", a solteirice por conveniência reforçada também pela péssima imagem dos homens pobres difundida pela imprensa policialesca e pela mídia de fofocas.

"FAXINA ÉTNICA"

O que está em jogo nisso tudo é uma campanha de "faxina étnica" da grande mídia, gradual, improvisada e confusa, para evitar que as classes populares se reproduzam, mesmo diante de um contexto de aparente liberdade sexual defendida por ritmos como o "funk" e o "pagodão" baiano.

Isso porque a grande mídia aposta num cenário caótico, supostamente (e falsamente) libertário, que, associado ao descaso do poder político para garantir a segurança, a escolaridade, o saneamento básico, a cidadania e outros princípios benéficos para as comunidades populares, a natalidade descontrolada acaba resultando numa mortalidade igualmente descontrolada.

O sexo obsessivo do "funk", do "pagodão" e similares, junto à violência do crime organizado ou dos impulsos individuais diversos, além das tragédias ambientais e dos acidentes de toda ordem, criam nascimentos e óbitos sem controle, sem planejamento, que abalam até mesmo a auto-estima das classes populares e trazem muitas dores.

A reboque disso tudo, está a campanha midiática, respaldada e reforçada pela intelectualidade associada - mas que se traveste de progressista - que acha "melhor" que as moças pobres sejam mães solteiras ou sejam homossexuais. Todo o discurso de verniz "progressista" é feito para empurrar essas moças para tais condições, sob o pretexto de criarem "famílias modernas".

O problema não é o direito de escolher tais condições. No contexto das periferias idealizadas pela grande mídia e pela intelectualidade, isso não se torna um direito, mas uma obrigação, enquanto o outro lado, da escolha de uma vida com marido num casamento estável, chega a ser cruelmente desestimulada pela mídia, com a intelectualidade respondendo em silêncio consentido.

Pois uma mulher pobre que é solteira e com filhos só é algo lindo e maravilhoso para os olhos paternalistas da intelectualidade dominante.  Com vários empregos ou sobrecarga de trabalho para ganhar mais dinheiro, ela não tem tempo para desenvolver sequer sua afeição para os filhos.

Neste sentido, há uma grande desigualdade entre mulheres abastadas, com condições para serem mães solteiras mas forçadas a ter maridos "importantes" para agradar a sociedade e atingir o status quo, e as moças pobres que precisam ter maridos para com eles criar seus filhos, mas são forçadas pelas condições sociais e pela pregação midiática a ficarem sozinhas.

A grande mídia, então, faz uma jogada tripla. Primeiro, desestimulando nas classes pobres as uniões por afinidades pessoais, tenta enfraquecer as classes populares ao desvalorizar a organização familiar tradicional, e faz muitos filhos virarem órfãos simbólicos da figura do pai.

Em segundo lugar, a grande mídia estimula o sexo "livre", isto é, libertino, sem controle nem planejamento social, o que faz com que até mesmo o ato de gerar filhos se torne algo mais impulsivo e feito sem prudência ou cautela. E que muitas vezes resultam em bebês jogados junto ao lixo ou deixados em qualquer canto da rua como um objeto indesejável.

Em terceiro lugar, cria-se um higienismo social às avessas, deixando as famílias desestruturadas se perecerem, mesmo sob os aplausos demagógicos da intelectualidade paternalista, que acha legal moça pobre ter dez filhos e ser solteira, sem tempo sequer para dar um cafuné para cada um deles, de tão cansada chega à noite depois de uma jornada sobrecarregada de trabalho.

A eugenia amorosa é uma ferramenta sutil do poderio midiático, respaldado pelo poder político e pela intelectualidade associados, para evitar o desenvolvimento da solidariedade a partir da formação de casais heterossexuais estáveis nas classes pobres e no fortalecimento da auto-estima das crianças criadas por pais e mães. Cortando isso, corta-se a emancipação popular pela raiz.

Assim, o objetivo dos barões da mídia e da "generosa" intelectualidade cultural dominante é baixar a auto-estima das classes populares, deixá-las desorientadas e confusas e fazê-las morrerem aos poucos com uma geração mal-nascida a morrer cedo.

Com isso, o poder midiático, em vez de se empenhar pela melhoria das classes populares, prefere obscurecer o seu futuro, para a longo prazo deixar as periferias "limpas" para o recreio, a princípio paternalista, das elites bregalizadas, que mais tarde tomarão para si as ruínas das periferias socialmente mutiladas pelo poderio midiático.

sábado, 28 de dezembro de 2013

O ANTI-ESQUERDISMO DE "FAROFAFÁ"


Por Alexandre Figueiredo

A julgar pelo posicionamento em textos recentes, começa a preocupar a postura dos jornalistas Eduardo Nunomura e Pedro Alexandre Sanches, a dupla responsável pelo blogue Farofafá, hospedado pelo portal da revista Carta Capital.

Despejando suas "urubologias" aos que chamam de "parte das esquerdas" ou "esquerda-uspiana", os dois blogueiros, embora "sem situados" numa intelectualidade aparentemente de esquerda, seguem o mesmo caminho que havíamos conhecido de antigos figurões das esquerdas que hoje se tornaram neocons (neo-conservadores).

Há muito mostramos que o Farofafá segue uma perspectiva de "livre mercado" e adapta a visão de "fim da História" de Francis Fukuyama para os parâmetros da cultura brasileira, não somente a musical, como também a comportamental.

Protegidos pelo rótulo "popular", os blogueiros do Farofafá se passando por "progressistas", mas o que eles querem é tão somente a permanência do status quo mercadológico e midiático que alimenta os chamados "sucessos populares" brasileiros, respaldados por emissoras de rádio e TV controladas por grupos oligárquicos e até mesmo políticos (de linha conservadora, vale lembrar).

O grande problema que se vê é que Farofafá adota posturas muito estranhas, para um blogue que se autoproclama "culturalmente à esquerda". Que seus blogueiros pensem o que quiserem, tudo bem, mas saibam pelo menos para que lado estão indo, já que, junto ao direito de pensar, existe também a responsabilidade pela natureza de seu pensamento.

O Farofafá pensa de forma neoliberal. O blogue fala neolibelês com dialetos tropicalistas. A visão de cultura brasileira é a do "livre mercado", cuja analogia é notada no eufemismo "diversidade cultural" em torno da aceitação do tudo do tudo do tudo. Seja lixo ou luxo e o que estar entre um e outro.

Enquanto Sanches e Nunomura festejam a "morte do mercado" e a "agonia da grande mídia", eles na verdade ressuscitam o mercado e a grande mídia nesse teatrinho discursivo. No fundo querem apenas que o poderio midiático não se preocupe em criar ou manter escritórios em Los Angeles, Nova York ou São Paulo, mas que exerça o seu poder de exploração do pretexto do "popular".

O que eles querem é que o mercado musical e comportamental continuem movimentando como se movimentavam durante as eras Collor e FHC, ou mesmo durante os períodos dos generais Médici e Geisel, em que floresceu a bregalização do país. Eles apenas querem que a bregalização se torne mais radical, derrubando os últimos redutos (ou trincheiras) restantes da MPB autêntica.

O perigo maior disso é que o suposto esquerdismo deles está seguindo o mesmo caminho "imparcial" que nomes como Marcelo Madureira, Arnaldo Jabor, Sônia Francine, Roger Rocha Moreira e Lobão, que eram esquerdistas bem mais autênticos e sinceros que os neoliberais enrustidos do Farofafá, que são pseudo-esquerdistas, haviam seguido antes.

ILUSÕES PERDIDAS

A fazer a comparação com Arnaldo Jabor e Lobão, o direitismo deles se apoia num saudosismo ferido que os dois, cineasta e músico, tiveram em relação a um passado que não vivem mais, com seus amigos mortos e o processo sócio-político aquém das expectativas dos antigos esquerdistas.

Arnaldo viveu o calor do Cinema Novo, dos CPCs da UNE, conviveu com gente hoje saudosa  como Leon Hirzman, Glauber Rocha, Norma Bengell e Oduvaldo Vianna Filho, percorreu os cenários sócio-culturais de um Distrito Federal que se transformava na Guanabara muito antes da confusa fusão que a juntou ao antigo Estado do Rio de Janeiro.

Lobão viveu o calor do Rock Brasil e dos movimentos culturais de 1977, conviveu com os saudosos Cazuza, Júlio Barroso e sua irmã Denise (a Lonita Renaux da Gang 90) e o cineasta Lael Rodrigues. Viveu a vida louca vida dos cenários oitentistas da juventude tardiamente hippie e alegremente sonhadora do Brasil cuja ditadura se agonizava.

A intelectualidade na qual se insere não só Pedro Alexandre Sanches como também Paulo César Araújo e Hermano Vianna também vive seu saudosismo. Eles eram crianças que viam televisão nos tempos do "milagre brasileiro" e até hoje guardam uma visão um tanto pueril e ilusória de que a "cultura de massa" vive numa bolha de plástico intocada pelo baronato midiático.

Traídos pela superação de seu saudosismo, Arnaldo e Lobão se amarguraram com os rumos de um Brasil que escapava de seus interesses, que prometia ser progressista mas foi abaixo da conta. E, desiludidos, os dois passaram para o pensamento conservador, como uma defesa contra o fim de suas utopias desfeitas, de suas ilusões perdidas.

Arnaldo, então, escreveu muito que a ilusão de sua geração foi glamourizar a pobreza, não da forma como se faz hoje com a apologia ao brega ou ao "funk", mas da forma intelectualizada dos CPCs, das canções panfletárias de arranjos sofisticados demais. Queria-se tocar a Internacional Socialista em ritmo de Bossa Nova para plateias do sertão nordestino.

Mas se naquela época era "lindo ser pobre", hoje tornou-se não apenas isso, mas agora também "é lindo ser brega". E a bregalização só tem o verniz "progressista" por conta das mesadas do Ministério da Cultura petista e na garantia de que as empregadas domésticas não mexerão nos discos sofisticados de MPB autêntica que só a intelectualidade "bacaninha" possui.

Enquanto empregadas domésticas não furtam discos de Quinteto Violado, Itamar Assumpção e Rui Maurity que seus patrões possuem em suas coleções, em cópias raras adquiridas com muito suor (algumas em vinil), estes podem soar "progressistas" avisando que a MPB é insuportável e que o bom mesmo é trazer o brega, o "funk" e similares para os banquetes das elites.

Enquanto tudo conspira a favor de sua vã fantasia em ver as rádios de MPB se reduzirem ao que as rádios popularescas haviam tocado nos últimos 40 anos, a intelectualidade cultural dominante pode fazer sua pregação nas plateias esquerdistas. O problema é quando a sociedade achar que não vale mais a pena defender o brega.

DEFESA DO "FUNK" E SINAL DE ALERTA

Aí, aquele sonho dourado de ouvir os programadores de rádio inserindo um brega entre Chico Buarque e Banda Black Rio, que fazia a infância de muitos intelectuais festejados de hoje, irá ruir, e eles provavelmente irão aderir ao mesmo reacionarismo que dizem criticar levemente hoje.

Uma notícia recente deu o sinal de alerta. Até com uma certa irritação, Eduardo Nunomura havia condenado o desejo que "parte da esquerda" tem em ver o "funk" decair, preparando os leitores para as guinadas neocon que ele, Sanches, Paulo César Araújo, Eugênio Raggi e outros irão assumir daqui a alguns anos.

O "funk", com sua estrutura ligada à imbecilização sócio-cultural, através da apologia à miséria, à ignorância e à imoralidade, é aquele tipo de coisa que "incomoda" sem incomodar, que trabalha um arremedo de rebeldia que impede que as classes populares assumam verdadeiras bandeiras de melhoria de vida.

Daí que questionar o "funk", não à luz de medievalismos ideológicos tipo os de um Reinaldo Azevedo, mas de uma visão esquerdista que questiona a manipulação que o ritmo faz nas populações pobres, escravizadas por um mercado controlado por DJs-empresários sob o apoio dos barões da mídia, assusta demais a intelectualidade dominante.

Por enquanto, eles têm reservas argumentistas que parecem dar seus últimos matizes de um verniz "progressista" que se dissolve aos poucos. Os propagandistas do "funk" já não conseguem mais usar a desculpa do "preconceito", de tão cansativa e inconvincente, mas agora apelam para evocar a sociedade de 1910 que supostamente estaria por trás da rejeição ao ritmo.

Se a desculpa não colar - sobretudo usando o samba como elemento comparativo, neste discurso tendencioso - , a intelectualidade cultural dominante, que prega a bregalização do país, poderá cada vez mais exercer seu reacionarismo, como já fazem muitos internautas que, nas redes sociais, defendem a bregalização do país com o apetite de "urubólogos" em prol do "livre mercado".

Quando as empregadas domésticas se cansarem de bregas, funqueiros, axézeiros, "sertanejos", forrozeiros-bregas e tudo o mais de cafonice, e ficarem de olho nos discos e livros de alta cultura de seus patrões, eles correrão para o reduto neocon mais próximo de seus meios sociais e largarão a máscara "progressista" que os protege hoje.

Não se sabe quando, mas ocorrerá um dia. Cabe tomarmos cuidado.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

CHUVAS E O LADO MELANCÓLICO DAS PERIFERIAS


Por Alexandre Figueiredo

No discurso difundido amplamente por uma intelectualidade cultural dominante, unida e coesa quase como numa unanimidade - ou talvez num acordo combinado em que todo mundo defende as mesmas coisas, seja no Esquenta da Rede Globo, seja no blogue Farofafá, seja em monografias e documentários festejados pela mídia - , a periferia aparece quase como um tipo de paraíso.

As favelas de puro sonho e fantasia, que esperam serem pintadas por algum artista plástico mais generoso, são consideradas "arquiteturas pós-modernas", como se as construções improvisadas em áreas caóticas ou de alto risco fossem o suprassumo da criatividade humana.

Já o povo pobre é visto pelo discurso intelectual como se fossem crianças inocentes nesse paraíso idealizado, com sua ignorância e sua miséria da qual não se pode mexer na sua essência, apenas se permitindo que o Estado e alguns entes privados financiem o recreio duvidoso da "garotada".

O lobby intelectual é tão grande que quem questionar essa visão mítica das periferias corre o risco de ser visto como "moralista" e "preconceituoso". Se for um blogueiro, perderá aquela visibilidade fácil garantida por todo aquele que acredita numa periferia de contos de fadas, numa espécie de Disneylândia dos subúrbios brasileiros. E poderá até perder seguidores.

Mas existe o outro lado, oposto à "dolce vita" das favelas sonhadas pela intelectualidade. Ela até dá um jeitinho para descrever, em separado, as duas periferias, a fantasiosa e a real, como se estivessem falando de assuntos diferentes.

Pouco importa se é uma mesma periferia da Baixada Fluminense, por exemplo, que num artigo bem animado é cenário de um festejado "baile funk" num discurso cheio de delírios pseudo-modernistas e pseudo-etnográficos, e, em outro, descreve o drama das pessoas que perderam bens e até entes queridos com as enchentes e deslizamentos que destruíram suas casas.

São dramas terríveis que as autoridades não se interessam em resolver. Em certos casos, como em Nova Friburgo ou mesmo em Santa Catarina, a corrupção impede que as vítimas recebam donativos ou obras de recuperação e prevenção. No caso da cidade fluminense, o dinheiro público foi desviado para interesses pessoais do prefeito. No Estado sulino, são os donativos extraviados para o usufruto de outrem.

Enquanto a intelectualidade fala numa periferia feliz, onde todos podem comprar e consumir, onde a prosperidade bate à porta de cada barraco, sobrado ou casa nas favelas, as periferias da vida real veem a perda de eletrodomésticos, alimentos, álbuns de famílias, utensílios diversos e outros objetos pessoais, adquiridos de forma tão trabalhosa e sofrida.

Isso quando não se perdem parentes, sejam mães, filhos, avós, tios, amigos de infância, e por aí vai, por causa de afogamentos ou de soterramentos. E tudo isso na tentativa de construir uma vida ao menos com algum conforto, dentro dos limites duros que as classes populares têm que aceitar.

Tudo vai embora. Desde os objetos de costuras, os livros de orações religiosas, os computadores, a televisão. Vai desde a reserva de alimentos aos CDs de "sucessos populares". Vai a televisão, vão-se muitas roupas, vão-se os remédios, os livros, o material de aula, as fotos de recordações de entes vivos ou os que já se foram.

Enquanto as elites e os políticos fingem que se preocupam com os problemas sociais, o povo pobre sofre, com suas sucessivas perdas, com sua insegurança anual de cada verão, com seu medo, com seus dilemas.

Eles não têm aonde ir, ficam nas áreas de risco porque é onde podem ficar. São desprezados pelo poder político, que lhes dá mais promessas que ajuda. E isso nada tem a ver com os pobres estereotipados da "cultura popular" alegre e feliz que deixa a intelectualidade, acomodada em seus apartamentos de luxo, bastante satisfeitas.

Daí que, fora da órbita do Brasilzinho brega, ainda reina sofrimento nas classes populares que não querem a bajulação barata da intelectualidade, mas soluções reais para a melhoria de vida e o fim definitivo de suas tragédias de todo ano.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

INTELECTUAIS "BACANAS" E O PURISMO DA POBREZA GLAMOURIZADA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante, que aposta na bregalização do país como se fosse o supra-sumo da revolução sócio-cultural para o povo brasileiro, superestima certos episódios, apenas porque eles são um contraponto ao que eles entendem como pensamento elitista dominante, independente do que isso represente ao verdadeiro interesse elitista.

Um foi o episódio de Geisy Arruda, a sub-celebridade que há quatro anos atrás foi vaiada numa universidade porque usou roupas sexualmente apelativas. A intelectualidade fez Contracultura em copo d'água e pensou que Geisy havia feito uma atitude feminista de chocar a "sociedade estabelecida" que se horrorizou com a atitude "provocativa" da moça.

Deu em nada. O que a intelligentzia esperava que fosse uma demonstração de "feminismo popular" que combatia os "valores sagrados do machismo da alta sociedade" acabou sendo apenas um factoide que fez uma moça dar uma rasteira nos competidores do Big Brother Brasil e virar "famosa" sem muito esforço.

Hoje o que se vê é a interpretação exagerada dos "rolezinhos", os encontros realizados pela Internet por grupos enormes de pessoas e marcados em shopping centers e que geraram muita controvérsia nos noticiários em geral.

A "invasão de pobres" em larga escala nos redutos de alto consumo foi comemorada pelas esquerdas médias como se fosse um levante guevarista, bolivariano e zapatista contra os comportados palácios do consumismo da alta sociedade.

As eventuais ocorrências policiais, sobretudo em alguns casos - não todos e nem em todo encontro - de arrastões, correrias e brigas só fez a intelectualidade "bacaninha", que vê socialismo até em rebolado de "mulher-fruta", comemorar diante da rinha simbólica entre a alta sociedade moralista-policialesca e a intelectualidade dotada de populismo paternalista.

É evidente que o povo pobre tem direito a ir a qualquer centro de compras. O problema é que, para a intelectualidade, o povo pobre tem direito a tudo, menos a ir a escola, desenvolver cultura melhor, falar bem e ter um comportamento menos grosseiro.

Aí a intelectualidade cultural dominante, que se julga tanto "sem preconceitos", e fica criticando o "purismo" dos outros, mostra todos os seus preconceitos e purismos que os colocam num horizonte muito mais elitista do que o elitismo daqueles que não aceitam a bregalização do país.

MANIQUEÍSMO FÁCIL

A intelectualidade dominante glamouriza a pobreza, a ignorância e a imoralidade que o poderio dominante, seja da mídia, do mercado, da política e do latifúndio, historicamente reservaram às classes populares.

Essa glamourização adota como método o apoio a tudo que corresponde ao rótulo "popular", à sua aparência e ao seu discurso oficial, vendo a ignorância, a pobreza e a ausência de valores morais edificantes como consequências negativas, mas "necessárias", para uma imagem "purificada" das classes populares.

É uma assepsia às avessas. Para o intelectual "bacaninha", que chorosamente se revolta com o "preconceito contra o povo", o povo pobre deve existir com "suas caraterísticas". Não se mexe um dedo sequer naquilo que aparentemente o povo acredita, sonha e defende, mesmo que tais crenças, sonhos e ideias defendidas tenham sido ditadas pelo "coronel" da região.

Cria-se um maniqueísmo fácil. De um lado, os aspectos grosseiros, a ignorância, a pobreza de hábitos, costumes, expressões, crenças etc, associados virtualmente às classes populares ou mesmo à nova classe média.

De outro, estão os "valores clássicos" associados a um surreal conjunto de madames estarrecidas, antigos comunas desiludidos, policiais truculentos, jornalistas prepotentes e publicitários higienistas, tipos até reais mas que têm sua imagem exagerada para compor a sociedade "padrão República Velha" que anima a retórica intelectual mais sedutora.

É a retórica fácil que, como todo discurso fantasioso, atrai muitos desavisados. Dessa forma, os aspectos grotescos, piegas e outros associados virtualmente à "cultura popular" são colocados como o "bem" que combate o "mal" representado por valores virtualmente "aristocráticos" de uma sociedade que supostamente não recebe bem os "novos tempos".

"INCLUSÃO SOCIAL" SEM MELHORIAS

O que está em jogo nesse discurso é que a intelectualidade cultural dominante quer que o povo pobre seja incluído nos cenários e processos associados às elites "esclarecidas", sem que representem mudanças substanciais para as classes populares.

Se a intelectualidade dominante não transmite uma ideia precisa do que são elites "esclarecidas", se elas são mais aristocráticas ou mais intelectualizadas, colocando-as como uma coisa só, isso consiste numa atitude por demais preconceituosa para aqueles que se dizem "sem preconceitos".

Só para defender a bregalização cultural do Brasil como se fosse algo libertário, a intelectualidade dominante coloca no mesmo balaio de "reprovados" intelectuais como José Ramos Tinhorão e Chico Buarque ao lado de aristocráticos ou policialescos como, respectivamente, Danuza Leão e José Luiz Datena.

Enquanto isso, os intelectuais dominantes se inquietam quando alguém reivindica que o povo pobre deva ir à escola e desenvolver uma cultura melhor. A inquietação chega ao ponto da "urubologia" digna de um Merval Pereira, mas o rótulo "popular" garante a penetração desse reacionarismo sutil nos círculos midiáticos de esquerda.

Ninguém pode mexer na "pureza" da ignorância popular, muitas vezes condicionada por elites dominantes que controlam subúrbios, roças e favelas, sob pena de ser visto como "higienista". O respaldo popular, seja consciente ou não, e mesmo sob persuasão dos barões da grande mídia, deve, segundo a intelectualidade dominante, ser preservada e aceita como é.

Daí a visão do purismo mais escancarado. O povo pobre pode ir ao shopping center, mas não pode ir à escola. Pode rebolar, mas não pode ler um livro. Pode dizer baixarias com um microfone na mão, mas não pode compor boas melodias no violão. Povo pobre pode até ganhar mais dinheiro, mas quase não pode desenvolver a verdadeira cidadania.

E a intelectualidade "bacana" acha legal os pobres em bando irem agressivos a um centro comercial, como lutadores de UFC. Isso fica dentro dos estereótipos "positivos" que a intelectualidade faz do povo pobre. Para a intelectualidade, é melhor do que fazer passeata e pedir a urbanização dos subúrbios, com fornecimento água e energia elétrica.

A intelectualidade cultural dominante quer que o povo pobre permaneça na sua mesmice. A suposta solidariedade intelectual demonstra-se um paternalismo cruel, que não quer que o povo se evolua, na medida em que a pobreza, a ignorância e a imoralidade são alvo de apologias sutis que tentam disfarçar os piores preconceitos dessa intelectualidade festejada.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

NÃO SOMOS CACHORROS, NÃO?


Por Alexandre Figueiredo

A obsessão da sociedade dita "ilustrada" - inclusive alguns autoproclamados progressistas - pela bregalização cultural, na ilusão de que isso os faria "mais humanos" e "mais simples", nem de longe representa a ruptura de preconceitos ou discriminações sociais.

Muito pelo contrário, ela representa o mascaramento dos preconceitos de muitos indivíduos, situados nas elites que gozem entre a relativa prosperidade econômica e um relativo aprimoramento intelectual, mas que parecem mais evitar conflitos com as classes populares do que defender sua verdadeira emancipação.

As mesmas elites que choram em favor do "funk", que reclamam da "intolerância" que a "sociedade" tem a este ritmo são as mesmas que se irritam quando uma passeata de agricultores sem terra toma conta do trânsito de uma Av. Paulista, por exemplo.

As mesmas elites que acham que o brega é lindo, que é maravilhoso ser cafona, que é admirável ver prostitutas e camelôs "se virando como podem" são rigorosamente as mesmas que se incomodam quando favelados põem pneus em chamas nas rodovias para pedir melhorias fundamentais para suas comunidades.

CORRENDO ATRÁS DO PRÓPRIO RABO

A bregalização cultural, defendida praticamente em uníssono pelas elites "ilustradas", pela intelectualidade "bacana", choramingando a rejeição das"elites" contra os sucessos radiofônicos, acredita que o caminho do folclore brasileiro está no jabaculê e no cardápio popularesco das rádios, das TVs e dos bares, boates e casas noturnas.

Na ironia de um dos grandes sucessos do brega-popularesco ser "Eu Não Sou Cachorro, Não", de Waldick Soriano, defender a bregalização mais parece coisa de cachorro correndo atrás do próprio rabo. A própria raiva que certos "bacaninhas" têm em relação à MPB autêntica tem muito a ver com esse ciclo vicioso.

Mesmo quando os "bacaninhas" que defendem o brega recorrem, a respaldar também os "malditos" ou os tradicionais da MPB - de Inezita Barroso a Arrigo Barnabé, passando por Zezé Motta, Quinteto Violado, Azymuth, Marcos Valle e os falecidos Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção - , isso é mais um artifício tendencioso de usar a MPB para "justificar" o brega.

E sabemos que isso não resolve as coisas. O "povão" não vai passar a ouvir Itamar Assumpção porque ele é elogiado pelo mesmo jornalista que despejou louvores a Odair José. Da mesma forma, o "povão" também não irá comprar os livros de Oswald de Andrade porque a cineasta que glorificou o "funk" o comparou à Semana de Arte Moderna de 1922.

A obsessão destes setores da sociedade pelo brega, como se "todos nós" fôssemos cafonas, que o destino do Brasil é ser brega e não dá para fugir isso, mostra o quanto essas pessoas estão confusas. Confundem a obsessão pela cafonice - que evoca sentimentos de baixa auto-estima - como o único meio de fortalecermos a auto-estima. Isso é um absurdo.

Não é preconceito algum dizer que o brega envolve símbolos, signos e ícones que se relacionam à inferiorização social, ao conformismo com a pobreza, com as desilusões da vida etc, que se reflete em músicas malfeitas, mal cantadas, numa postura submissa com as imposições da vida etc. A própria "poesia" do brega segue necessariamente esse caminho.

Portanto, que "Brasil de cabeça erguida" pode ser evocado com o brega, como quer acreditar certo jornalista "bacana" que se acha dono do pensamento cultural de esquerda? O brega é o Brasil cabisbaixo, coitadinho, e hoje sua hegemonia é muito maior do que a que a intelligentzia atribui ao legado da Bossa Nova e do Clube da Esquina na MPB autêntica.

ELITES INTELECTUAIS CANSADAS DA MPB

As elites intelectuais, aliás, estão furiosas sem razão por estarem, só elas, cansadas de Bossa Nova e Clube da Esquina jogando poesia e melodias na música brasileira. Só elas acham que o Brasil está farto delas. Tão "bacanas", tão "legais" e tão "admiráveis" esses intelectuais, eles no entanto não enxergam além de seus condomínios de luxo nos bairros nobres de São Paulo e Rio.

Mal sabem eles que há regiões do interior que não conhecem sequer o básico da MPB autêntica. O pessoal do Norte do país, a mesma região do "admirável" e "injustiçado" tecnobrega - tido como "discriminado" pela mídia mas APOIADO pela oligarquia midiática de lá, a paraense Mayorana, da TV Liberal - , até agora não conhece seus nativos Billy Blanco e João Donato.

O Brasil não vai evoluir culturalmente aceitando o brega no Olimpo da MPB. Há dez anos essa choradeira intelectual prevalece na mídia, gastando muito papel em monografias, muita celulose, muita tecnologia digital em documentários, muito dinheiro em propaganda, em reportagem etc, e o que vemos é apenas a reafirmação e a apologia à mesmice que domina há tempos rádios e TVs.

O maniqueísmo que trata a MPB autêntica como "vilã", permitindo até mesmo comentários caluniosos contra João Gilberto, Chico Buarque, Toninho Horta etc, trata o brega, podendo ser até mesmo uma funqueira de glúteos aberrantemente siliconados, como "herói-vítima", nesse apelo discursivo sutil. Mas isso em nada ajudou no progresso cultural do país.

Além disso, esse discurso delirante, que cita indevidamente alusões de caráter artístico-ativista, num verdadeiro dramalhão discursivo que trata os campeões de vendas e execuções em rádio como vítimas de uma suposta intolerância social, tão somente tem por objetivo garantir a estabilidade do sucesso comercial de alguns ídolos protegidos pela mídia e pelas gravadoras.

BREGA É TÃO SOMENTE COMERCIAL

O brega é tão somente uma música comercial. A choradeira intelectual que cita, indevidamente, de Oswald de Andrade a Chico Mendes, passando por Carlos Marighela e até Raul Seixas, para "justificar" a bregalização do país, apenas quer substituir a MPB autêntica pelo hit-parade brega-popularesco.

E quem é que terá coragem de romper com esse discurso intelectual pró-brega, dominante até mesmo nos círculos acadêmicos, para denunciar as armadilhas desse discurso e desconstrui-lo em vez de respaldá-lo com uma verborragia pseudo-modernista, prosas pseudo-concretistas e pseudo-tropicalistas travestidas de monografias "científicas" e reportagens "imparciais"?

Se "não somos cachorros" mas "corremos atrás do rabo", resgatando a breguice de anteontem sob um sentimentalismo piegas que contagia até mesmo jornalistas, blogueiros e cientistas sociais "sérios", então temos que admitir que a cultura brasileira não irá para a frente.

O que teremos pela frente são apenas meros totens popularescos, que regravarão covers de MPB só para agradar as elites, enquanto fazem qualquer coisa para permanecer em evidência na mídia. E aí não faz sentido dizer que o "mau gosto", a "baixa estética" e outras coisas do tipo são "causas libertárias" até porque esse tipo de discurso já teria cansado até mesmo seus defensores.

Defender a bregalização do país é deixar que o Brasil permaneça sempre suburbano, sub-desenvolvido, prostituído, sub-empregado. Isso não é defender um país de peito erguido ou cabeça erguida. É defender um país coitadinho, defender a glamourização da pobreza, da miséria, da ignorância, do mau gosto, numa demonstração clara e cruelmente paternalista.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

ATIVISMOS E REACIONARISMOS NA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO


Por Alexandre Figueiredo

Vivemos uma sociedade midiatizada que é devidamente analisada lá fora, mas aqui ainda é vista com um certo deslumbramento, só quebrado quando a agenda setting - espécie de hit-parade da informação - permite que se façam análises mais realistas e menos fantasiosas.

Dois episódios de sentido ideológico oposto, um mais "libertário" e outro reacionário, aconteceram recentemente e que mostram o quanto o poder midiático e a busca por visibilidade ainda movem a sociedade mais do que a luta por melhorias ou o debate sobre os problemas relevantes da sociedade.

Um é o ativismo de resultados promovido por um "toplessaço" feito há poucos dias em Ipanema. Nada contra a luta pela liberdade do corpo, mas há muito tempo isso deixou de ser um ativismo sério para estar na pauta de uma "Contracultura de resultados" que se preocupa mais em chocar os moralistas do que em provar que eles estão antiquados para os dias de hoje.

Outro é o comentário racista da executiva da InterActive Corp, Justine Sacco, publicado no Twitter, que constituiu numa piada não só de mau gosto, mas de cunho racista claro: "Indo para a África. Espero que não pegue AIDS. Brincadeira. Sou branca!".

A declaração infeliz deu a crer que Justine acha que os brancos têm muito mais resistência e invulnerabilidade à infecção pelo vírus HIV do que os negros. Além disso, a declaração foi ofensiva ao povo africano e fez com que Justine fosse demitida de um posto de comando que desempenhava na empresa.

Justine deve desconhecer, por exemplo, que o ex-jogador de basquete, o negro norte-americano Earvin Johnson, o "Magic Johnson", contraiu vírus de HIV há 22 anos e, hoje perto dos 55 anos, Johnson consegue controlar sua saúde na medida do possível, evitando os sintomas da AIDS, com tratamento disciplinado de remédios, e junto a isso levar uma vida saudável.

Voltando ao toplessaço, o evento repercutiu menos que o imaginado. Havia mais fotógrafos que manifestantes, o que dá o tom da espetacularização que manifestações desse porte - ou outras como o desfile do orgulho gay ou a Marcha da Maconha (esta se servindo de generosas gorjetas de George Soros) - causam num Brasil ainda carente de grandes eventos ativistas.

Eles até acontecem, como foi no caso de junho passado, nas manifestações populares em vários cantos do país, até mesmo em Rio Branco, no Acre. Mas na medida em que se criou um cabo-de-guerra entre o PT e a Rede Globo para ver quem seria o "dono" dos protestos enfraqueceu as manifestações que, isoladas, deram maior visibilidade a extremistas como os Black Blocs.

Mas se quando há manifestações independentes, há quem queira ser o "dono" das mesmas, ou, quando muito, perguntar "quem" as organiza, então o ativismo verdadeiro é deixado de lado por formas mais espetacularizadas, feitas mais para "chocar" a "sociedade organizada" do que para pedir melhorias diversas.

Não que fazer topless ou defender as relações homoafetivas sejam ruins. Pelo contrário, se tornam fundamentais na busca por direitos sociais ou da valorização do prazer humano. Talvez faltasse um algo mais do que um mero espetáculo para chocar os moralistas, como no toplessaço, e sobrem gays estereotipados nos desfiles do orgulho gay.

Sobre o homossexualismo, há que se admitir que não existem somente gays estereotipados, vestidos de drag queens ou falando de jeito efeminado. Só em Hollywood, por exemplo, existem atores como Matt Bomer e Zachary Quinto, ou o estilista Marc Jacobs, que não deixam de ter a aparência masculina comum, viril e barbuda. Apenas se sentem atraídos por outros homens.

O que leva o toplessaço não ter tido o sucesso esperado não dá para entender. Talvez seja baixa divulgação. Se tivesse sucesso, daria no mesmo efeito do evento espetacularizado, numa sociedade midiatizada de hoje, em que desejos são embaralhados nem sempre conforme a liberdade pessoal, mas nos jogos de interesses do status quo ou das circunstâncias imediatistas.

Portanto, os dois episódios, o da executiva racista e do toplessaço, são apenas dois lados do mundo espetacularizado, da busca pela visibilidade fácil, seja num provocativo comentário reacionário, seja numa provocativa manifestação anti-moralista.

Corpos que não querem pegar AIDS de almas que querem ofender os outros. Corpos que pregam a liberdade de seios femininos à mostra, de almas que ainda não são tão livres assim da manipulação midiática e do jogo de interesses sócio-afetivos. Um mundo de alta tecnologia, de ampla possibilidade para a fama, mas baixa ainda para as transformações sociais verdadeiras.

A "REVOLUÇÃO VERDE" NA MPB?

ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO SÃO ELEITORES DE RONALDO CAIADO. É PRECISO DESENHAR PARA EXPLICAR?

Por Alexandre Figueiredo

Já havíamos questionado o mito da "Reforma Agrária na MPB", em texto publicado meses atrás, mas a intelectualidade dominante não toma jeito. Ela quer prevalecer sua visão, usando um jargão esquerdista para defender uma causa nada esquerdista: a de expansão de mercado da bregalização cultural brasileira, sob o pretexto de uma falsa rebelião popular.

A intelectualidade "bacaninha" quer porque quer que a bregalização esteja imune a tudo e saia ilesa até mesmo dos processos de regulação da mídia, como se essa suposta "cultura popular" não tivesse sido patrocinada pelos barões da mídia e pelo latifúndio.

Mas são. E muito. Do Oiapoque ao Chuí, as tendências ditas "populares" que tocam nas rádios e nas TVs, elas mesmas vinculadas a grupos oligárquicos nacionais ou internacionais, não são imunes a esse contexto. Que "reforma agrária" elas representam?

Nenhuma, a não ser a "reforma agrária" admitida pela direita, sobretudo o modelo de "reforma agrária" que um partido conservador como o antigo PSD, ou mesmo setores da antiga UDN, podiam aceitar: com indenização em dinheiro vivo para os "coronéis" que cedessem suas terras.

A "reforma agrária na MPB", como pregada por certos intelectuais "bacaninhas", dotados de muita visibilidade e prestígio, segue essa mesma visão udenista. Derruba-se a MPB e põe no lugar o brega e seus derivados, que apesar de simbolicamente associados às classes populares, satisfazem os interesses políticos e econômicos dos grandes proprietários de terras.

QUANTOS AGRICULTORES MORTOS VALEM UM GRUPO DE "FORRÓ ELETRÔNICO"?

É só ver que muitos ídolos "sertanejos" e "forrozeiros" são patrocinados pelos mesmos grandes fazendeiros que se aliam ao grande capital e, em certos casos, mandam exterminar agricultores, sindicalistas, seringueiros, missionárias, radialistas e o que vier como "pedra" no caminho do coronelismo dominador.

Isso porque é necessário o entretenimento brega-popularesco para que se diminua o banho de sangue nas roças e sertões. Da mesma forma, a contravenção, sejam milícias e o jogo-do-bicho, financiam o "funk" para diminuir o banho de sangue nas favelas e subúrbios, os milicianos e bicheiros são os "latifundiários" urbanos diante desse contexto de exploração e domínio.

Daí se imagina quantos agricultores mortos seriam necessários evitar diante do entretenimento desmiolado e caricato dos grupos de "forró eletrônico" e suas posturas apátridas, sem qualquer tipo de preocupação com a regionalidade cultural? Ou seria preciso aumentar ainda mais os cadáveres e criar uma roça acéfala que esteja receptiva aos processos de imbecilização cultural?

O que é certo é que o poder latifundiário apoia a bregalização do país. As "Fazendas Modelo" passam muito longe de figuras como Chico Buarque e Francis Hime, ou de Rita Lee vociferando contra os rodeios.

Tais "fazendas" passam perto dos "coitados" Zezé di Camargo & Luciano, que disfarçaram com verniz progressista suas preferências eleitorais por Ronaldo Caiado, o deputado líder dos ruralistas que se manteve firme no mesmo DEM parceiro político do PSDB, sobretudo em São Paulo.

Essa suposta "cultura popular" é na verdade a "revolução verde" que o coronelismo midiático, político e econômico quer que prevaleça, derrubando a MPB autêntica dotada de opinião, de boas ideias e boa arte. Que se derrubem as questões estéticas, que são a qualidade de vida em forma de cultura. As oligarquias querem um povo mais brega, mais conformista, mais medíocre possível.

Não há como falar em "reforma agrária na MPB" se as tendências envolvidas têm o apoio mais claro das Organizações Globo, da Folha de São Paulo, do Grupo Abril, das "transnacionais", do latifúndio. A tal "cultura transbrasileira" é a "cultura" das "transnacionais", um paradigma de "cultura popular" que a CIA e George Soros acham melhor para o povo brasileiro.

Isso porque essa "cultura popular" de bregas, tecnobregas, "sertanejos", axézeiros, funqueiros e outros campeões de vendas e perdedores em transmissão de cultura, criam um verniz de "ativismo popular" que não incomoda rigorosamente os interesses dos detentores do poder.

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA ESTÁ NO LADO DOS LATIFUNDIÁRIOS

Esse processo apenas "incomoda" as supostas elites esclarecidas, "demonizadas" pela intelectualidade dominante, acusadas de querer que a cultura brasileira se reduza à Bossa Nova e algumas poucas expressões "sofisticadas" de nossa cultura musical.

Não. O que queremos é romper com a bregalização cultural. Esse rompimento, sim, é que é a verdadeira reforma agrária na MPB, porque queremos de volta a cultura de verdade, não mais pelo filtro de alguns breguinhas mais pretensiosos, que acham que vão fazer "MPB séria" às custas de uma reprodução tecnicista de clichês da "boa MPB".

Não queremos axé-music, breganejo, sambrega, "funk", "forró eletrônico", tecnobrega nem outros ritmos que nem de longe incomodam o poder dominante. Até porque, queira ou não queira a intelectualidade "bacaninha", os barões da mídia e os latifundiários adoram muito essa forma de "cultura popular". Que "reforma agrária" é essa?

Vai o Emicida participar num evento de sorteio para a Copa do Mundo da FIFA, fazendo a festa para Joseph Blatter e José Maria Marín, testas-de-ferro dos problemáticos João Havelange e Ricardo Teixeira. Vai ele abraçado a Caetano Veloso nas horas tumultuadas do Procure Saber, vai o Emicida abraçado aos barões da Globo, da Folha, de Caras... Que "reforma agrária" é essa?

Vamos romper com a bregalização cultural. A intelectualidade vai morder os beiços, mas ela mesma não é o povo. Ela não entende de povo, acha que povo bom é povo abobalhado, consumista, caricato, cujo riso patético enche de orgulho os intelectuais brasileiros "de nome", porque garante a "paz social" que essas elites "pensantes" tanto gostam.

O que intelectual quer não é a emancipação popular da verdadeira reforma agrária. Não levemos a sério seu discurso pseudo-esquerdista de "reforma agrária na MPB", até porque um Pedro Alexandre Sanches, a exemplo de Joaquim Barbosa, só quer se jogar para a plateia a partir de expressões tão tendenciosas.

O que a intelectualidade dominante quer é voltar para casa sossegada sem ter que tirar satisfações com porteiros, faxineiros, camelôs, domésticas etc sub-assalariados, sub-escolarizados e sub-respeitados. Quer voltar para casa, de preferência, fechando as janelas de seus carros aos pedintes, mais pobres e injustiçados que os funqueiros que a intelectualidade tanto exalta.

Portanto, o que a intelectualidade cultural dominante, pró-brega, pró-funqueira etc e tal, quer é o mesmo conformismo popular que os latifundiários que controlam uma grande parcela de terras de nosso país quer para o povo de suas áreas. Uma "paz social" forçada, que garante o poder coronelista e seus privilégios.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

"FUNK" E A FRAGILIDADE RAIVOSA DE SEUS CRÍTICOS


Por Alexandre Figueiredo

Parece divertido. Sítios e fóruns virtuais contrários ao "funk" e até mesmo espaços específicos nas redes sociais mostram pessoas despejando comentários irônicos e até divertidos sobre o "funk", criticando suas baixarias e sua falta de senso de ridículo.

Tudo bem. O "funk" faz para levar a cara a tapa, como diz o jargão popular. E muito de sua imagem de pretensa vítima social não resolve as coisas, exceto que os funqueiros hoje contam com um poderoso lobby entre as elites acadêmicas e os artífices da chamada indústria cultural.

No entanto, as reações contra o "funk" são muito precárias se comparadas com a blindagem intelectual que o ritmo recebe, e volta e meia aparecem textos defendendo o "funk" com alegações chorosas e até "românticas", mesmo sob o pretexto da objetividade jornalística ou do cientificismo acadêmico.

Mesmo quando a intelectualidade recorre ao surrealismo pseudo-historicista, recorrendo à sociedade de 1910 para explicar a rejeição que o "funk" recebe hoje, seu discurso é bastante sutil, elaborado, convincente apesar de confuso e cheio de contradições e equívocos teóricos.

A intelectualidade parece não se incomodar com isso. Ela manobra com as contradições com a sutileza que não é tanta assim, mas suficiente num país onde o senso de discernimento ainda é raro mesmo em mentes razoavelmente informadas. Podem cometer as gafes discursivas que forem, as "provocativas" elites intelectuais dominantes parecem manter a consciência tranquila.

JOGO ELETRÔNICO PARA "MATAR" MC DALESTE

O grande problema na maioria das pessoas que contestam o "funk" é que seu discurso é primário e raivoso, girando em torno de comentários que não vão muito além de dizer "funk é uma bosta",  "morte aos funqueiros" e "transporte de funqueiro é camburão".

Esse discurso muitas vezes é divertido e chama muita gente na Internet, mas é uma reação frágil diante do outro lado, com intelectuais lançando mão de documentários, monografias e reportagens que defendem o "funk" com a habilidade discursiva que parece sedutora, e de fato seduziu muita gente.

A intelectualidade dominante conhece esse discurso anti-funqueiro e não se intimida com ele. Esse discurso até estimula a choradeira intelectual em prol dos funqueiros. Se o anti-funqueiro exreve, num comentário de Internet, que "transporte de funqueiro é camburão" o intelectual rebate, com uma monografia, dizendo que o funqueiro é jogado em "novos navios negreiros".

A intelectualidade rebate com cerca de 300 páginas de monografias ou livros (ou de monografias que viram livros) e com duas horas de documentários o que anti-funqueiros escrevem em menos de dez linhas. O poderio e a sofisticação do discurso pró-funqueiro torna inúteis quaisquer medidas de protesto contra a imbecilização cultural simbolizada pelo "funk".

Às vezes, a raiva anti-funqueira pega pesado demais. Existe um jogo eletrônico, disponível na Internet, para o jogador "matar" o funqueiro MC DaLeste, que havia sido assassinado no palco meses atrás. DaLeste havia sido um dos nomes da cena de "funk ostentação" de São Paulo.

O jogo simula um cenário de "baile funk" e exibe cartazes com o logotipo do PT e da Rede Globo de Televisão, além de mostrar figuras como Regina Casé e Tati Quebra-Barraco. Todos são assassinados no decorrer do jogo.

ARGUMENTOS DELIRANTEMENTE "ETNOGRÁFICOS"

A atitude, que poderia ser muito bem um desabafo contra o avanço da imbecilização cultural através do "funk", acabou sofrendo o peso da reação convicta da intelligentzia, que mais uma vez recorre à imagem de falsa vítima atribuída ao "funk", com direito a argumentos delirantemente "etnográficos", como os de Joseh Silva no sítio da Carta Capital:

"O vídeo revela o reflexo de uma sociedade reacionária, que reforça mais e mais a intolerância cultural. Um jovem índio (...) não é respeitado em uma escola caso ele chegue de cocar para assistir uma aula. O mesmo acontece com ciganos, hippies, negros, nordestinos, gays, povos tradicionais e de terreiros. Isto mostra que não somos capazes e conviver com as diferenças dentro da nossa própria espécie."

Claro, esse discurso sedutor, verossímil e choroso arranca palmas de muita gente. Imagine de plateias lotadas, com um número de cerca de 100 pessoas, superior aos 30 que respaldam comentários anti-funqueiros na comunidade "Unidos Contra o Funk", a maior comunidade anti-funqueira do Facebook.

Mesmo com o risco de expressar um sutil racismo, já que associar o "funk" à negritude seria submeter o povo negro aos estereótipos nem sempre positivos do gênero, os defensores do "funk" apelam para essa falsa etnografia, achando que o "funk" é tão rejeitado quanto sambistas, tribos indígenas e hippies que levam dura da polícia.

Só que esse discurso pseudo-etnográfico não tem outro objetivo senão o de fazer com que o "funk", às custas de apelações falsamente sociológicas, pretensamente "culturais" e "ativistas", amplie seus mercados para plateias mais abastadas.

O discurso intelectual em prol do "funk", se dermos uma observação bem cautelosa, é confuso, hipócrita, oportunista e revela um paternalismo intelectual que contagia até mesmo alguns porta-vozes das periferias. Mesmo figuras "tarimbadas" como Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches apresentam falhas de análise, o mesmo ocorrendo com cineastas documentaristas.

Daí que o mal é a estagnação do discurso anti-funqueiro, que acaba sendo visto como mera dor-de-cotovelo de roqueiros frustrados ou bossa-novistas nostálgicos. Quase não existe um discurso anti-funqueiro que faça frente à confusa mas sofisticada retórica dada por jornalistas, cientistas sociais e cineastas em favor do gênero.

Por isso, os anti-funqueiros terão que provar, em seus argumentos, muito mais do que simplesmente dizer que "funk é uma bosta".

domingo, 22 de dezembro de 2013

O "ROLÊ" DO PAÍS DO BREGA-OSTENTAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

Em artigo publicado dias atrás no blogue Farofafá, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, espécie de colaborador free-lancer da ditadura midiática, tentou creditar os "rolês" dos shopping centers como se fossem uma "rebelião popular" ocorrida nos redutos do consumismo brasileiro.

Evidentemente vendo a revolta dos encontros combinados na Internet como um "mal necessário", como se tudo que viesse sob o rótulo de "popular" fosse necessariamente "revolucionário", Sanches foi vincular a geração que marcou encontro pela Internet e depois aprontou confusão ao "funk ostentação" que é uma de suas prioridades.

Com seu pseudo-anti-capitalismo cujo ícone internacional é o magnata George Soros - que, sabemos, dá consideráveis gorjetas ao Coletivo Fora do Eixo do qual Sanches é militante - , o jornalista paranaense-paulista tenta convencer que, dos funqueiros-ostentação, virão novos equivalentes a João Gilberto, Cartola, Caetano Veloso ou mesmo Chico Buarque e Lobão.

Sanches, no seu esquerdismo um tanto caricato e confuso, insiste sobretudo em promover os ídolos do "funk ostentação", "lamentando" não haver uma porta-voz feminina (há, sim, a tal da MC Sexy, mas ela parece Anitta demais para a retórica do jornalista) e exaltando o ídolo máximo do dirigismo cultural, MC Guimé.

CONSUMISMO E OLIGARQUIAS POLÍTICO-MIDIÁTICAS

Evidentemente, Sanches parece superestimar as mudanças em torno do consumismo nos shopping centers, porque o fato de pessoas que eram associadas aos estereótipos de frentistas de gasolinas, porteiros de prédios, lixeiros etc - e eu diria também feirantes, pedreiros, camelôs ou coisa parecida - estarem frequentando shopping centers não é, por si, algo revolucionário.

Afinal, isso é apenas uma parte da coisa. Há o consumismo, mas falta a cidadania. Não se faz socialismo melhorando apenas o consumo, e hoje as modernas correntes do neoliberalismo admitem algum estímulo ao consumo das classes baixas, daí a aceitação dada a projetos de bem-estar social, que nos EUA são conhecidos como Welfare State (Estado de Bem-Estar Social).

O que Sanches ignora é que a suposta "rebelião" que ele tanto vê na bregalização do país é fruto do empenho dos barões da grande mídia. Pois a sua querida ascensão da axé-music, do "pagode romântico" (do qual ele ironiza o termo "mauricinho"), do "funk", do "sertanejo" e outras modas popularescas, são movimentos MI-DI-Á-TI-COS e não "CUL-TU-RAIS e AR-TÍS-TI-COS".

Será que Sanches, com uns três anos de idade a mais que eu, desconhece que durante o governo José Sarney, ele e seu ministro Antônio Carlos Magalhães, ambos conhecidos oligarcas políticos, deram de presente a empresários e políticos que os apoiavam emissoras de rádio e TV que "desenharam" a suposta "cultura popular" dos anos 90?

Se não fossem eles, a cultura popular não sofreria o caráter caricato que marcou os anos 90, em que a queda de qualidade não é apenas uma questão de um suposto horror estético elitista, mas pela incapacidade dos ídolos "populares" de hoje produzir valores, conhecimento, arte, no sentido social do termo.

É constrangedor vermos a diferença que havia outrora  num Pixinguinha, num Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, ou, mais adiante, numa Elza Soares, que não deixam passar vinte anos de carreira para produzir obras de grande relevância. Ou Milton Nascimento, que logo no começo da carreira surpreendeu o mundo com um primeiro LP de altíssima sofisticação melódica.

Compare essa diferença com a de hoje, em que um mal-humorado Leandro Lehart espera vinte anos para imaginar se poderia ter sido um artista revolucionário. Primeiro seus ídolos despejam as porcarias que rendem dinheiro, para duas décadas depois posarem de "artistas sérios" fazendo repertórios tecnicamente corretos.

Hoje os ídolos "populares" são caricatos, despreparados artisticamente, e mesmo os ditos "conceituados" Chitãozinho & Xororó e Alexandre Pires precisam de outros arranjadores e repertório alheio para se segurarem nas carreiras. Só muito tardiamente eles tentam fazer uma "música de qualidade" sem vida, apenas cosmética, feita para o agrado da mídia e do mercado.

Não fossem os "coronéis" Sarney e ACM, não teríamos esse espetáculo constrangedor de ídolos que só percebem que poderiam ser melhores do que eram muito tardiamente, gente que esculhambou a MPB no começo de suas carreiras de sucesso, mas recorrem a ela quando estão à beira do ostracismo.

Chega de condenar as tais divagações contra supostos horrores estético-moralistas. Chega de usar a sociedade de 1910 para explicar a reprovação à breguice de hoje. A  breguice é perecível, seus ídolos surgiram para serem descartáveis, mesmo. Era seu propósito desde o começo.

O problema é que existe um poderoso lobby intelectual, do qual Sanches faz parte, que quer que essa pseudo-cultura seja levada a sério demais. Acha que o hit-parade radiofônico mais popularesco tem os segredos do futuro folclore, da revolução social e da emancipação popular do país. Grande, grande engano.

Tudo isso é feito apenas para o consumo. Tudo isso se alimentou pelo jabaculê, pela politicagem, pelo poderio midiático. Não tem como escapar. O logotipo da Globo sobre funqueiros, José Augusto, Gaby Amarantos, Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso, Luan Santana, Thiaguinho, Michel Teló etc é forte demais para eles serem tidos como "à margem da mídia".

PURISMO

Como um "Reinaldo Azevedo do B", Pedro Alexandre Sanches dá sua concepção do mais gritante purismo sócio-cultural. Como nos demais intelectuais pró-brega, que mesmo condenando o purismo dos outros, apelam para o mais explícito PU-RIS-MO de manter os pobres sempre na sua forma caricatural, entre o grosseiro e o abobalhado, entre o violento e o piegas.

Nada mais purista. O pobre pode entrar num shopping center, mas não pode deixar a favela. Ele pode falar, mas não pode estudar. Pode rebolar, mas não pode produzir grandes melodias. Época difícil para um Cartola e um Pixinguinha viverem, se fossem jovens hoje, porque sua grande arte seria pejorativamente tida como "elitista".

O pobre - ou o simbólico "ídolo dos pobres", esse carinha semi-rico que é parceiro do jabaculê radiofônico, podendo ser patrocinado até pelo latifúndio mais sanguinário - não pode produzir arte de qualidade, ele que se contente em fazer seus arremedos e rascunhos, seja carinhosamente protegido pela intelectualidade e leve 20, 25 anos para tentar parecer "artista sério".

A intelectualidade cultural dominante, mais "bacaninha" e um tanto populista quer apenas que o povo pobre fique na mesma com mais dinheiro. Nada de educação, nada de cultura melhor, isso só é admitido quando rende alguma vantagem pessoal para a intelectualidade paternalista e complacente (e contente) com essa bregalização toda.

Que o povo pobre permaneça mal-educado, grosseiro, que provoque confusão nos shoppings, que "invada a praia dos outros" com sua cafonice, sua breguice, seu grotesco, seu piegas. E que tenha mais consumismo e menos cidadania.

Daí ao apoio a tudo do brega-ostentação para fazer o jabaculê de hoje ditar as normas do folclore do futuro, sob as bênçãos das elites "pensantes", que, fantasiadas de esquerdistas, joaquim-barbosificam a cultura brasileira entregando-a à bregalização em busca de novas reservas de mercado.

Para a intelectualidade dominante, BraSileiros o caramba: melhor que fossem Bra$ileiros. Provocativamente condizente para o mercado que a intelligentzia diz que morreu ontem mas que será ressuscitado por ela amanhã.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...