sábado, 30 de novembro de 2013

ENTIDADES DA SOCIEDADE CIVIL QUESTIONAM A MIGRAÇÃO DAS RÁDIOS AM PARA FM



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A migração das rádios AM para FM autorizada pela presidenta Dilma Rousseff atende ao lobby das oligarquias midiáticas e dos donos da telefonia móvel, que o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, parece estar aliado, vide sua falta de empenho pela regulação da mídia. E entidades já começam a questionar a medida, que além do colapso que já causa no rádio FM, faz com que o AM, mais vantajoso tecnicamente (apesar de caro), desapareça e muitas áreas rurais estejam desprovidas de emissoras para ouvir. Além disso, a medida da migração atende puramente a interesses comerciais.

Entidades da sociedade civil questionam a migração das rádios AM para FM

Por Raquel Lima - Fórum Nacional do Direito à Comunicação

A presidenta Dilma Rousseff assinou na última quinta (7) o decreto que possibilita a transferência de emissoras de rádio da banda AM para a FM. Apesar do clima de comemoração - o executivo escolheu o dia do radialista para a oficialização - as entidades que representam os trabalhadores de empresas de radiodifusão e também das rádios comunitárias mostraram descontentamento com a decisão, que, segundo eles, foi tomada sem o debate com todos os setores da sociedade e é nociva à democratização da comunicação.

O processo de transição é inicialmente opcional, mas o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, informou que a pasta não dará mais outorgas para a banda AM, que será substituída aos poucos pela FM. O governo atende, ao publicar o decreto, à demanda oficial do setor empresarial, encaminhada pela Associação das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), sob o argumento do alto nível de interferência de ruídos nas transmissões AM.

As entidades da sociedade civil apontam que a diminuição da área de cobertura das rádios -  o alcance das rádios FM é muito inferior ao do rádio AM - deixará  áreas periféricas e rurais sem sem alternativas de comunicação e informação e, ainda mais, dificultará a implantação das rádios. Segundo o ministro,  as empresas terão que comprar transmissores novos, que custam de R$ 35 mil a R$ 50 mil.

"Não há espaço no dial FM para tanta rádio, mesmo que acabem com todas as atuais rádios FM. Não no atual rádio analógico, e mesmo porque, dessas rádios AM, as que não são mantidas por governos ou igrejas ou outros grupos confessionais, mal têm condições de se manterem no ar no AM, que dirá migar para o concorrido dial FM ou de ter repetidora no FM", diz a nota pública da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Radiodifusão e Televisão (Fitert). Para eles, a melhor solução seria a garantia da digitalização de todos os sistemas existentes no país, inclusive o rádio AM.

Segundo o representante nacional da Associação Mundial de Rádios Comunitárias, Pedro Martins, a decisão do governo foi arbitrária, sem diálogo com outros setores da sociedade. "Setores da comunicação comunitária, da comunicação livre, das rádios livres, sequer foram chamados a conversar para ver como seria a integração para o setor de FM da radiodifusão", disse.

Ele lembra que há mais de um ano o segmento aguarda o retorno da proposta de alteação do decreto que garantiria a sustentabilidade das rádios comunitárias (Decreto 9615/98).  "Enquanto isso, o projeto de migração da faixa AM para FM, em menos de quatro meses, foi analisado e aprovado pelo governo", reclama. Martins chama a atenção para a morosidade da aprovação dos processos de outorga das emissoras comunitárias e destaca a constante criminalização dos radialistas. "No momento em que poderíamos agregar novas possibilidades, dar voz a novos setores, o governo chama só o setor empresarial", termina.

A Abraço Nacional, em notícia em seu site, afirma que os radialistas comunitários estão indignados com o descaso do Executivo. Para o coordenador da entidade, José Soter, o posicionamento atende apenas aos interesses mercadológicos, em detrimento das necessidades da democratização da democratização.

Sóter destaca que o Executivo não cumpre a obrigação consitucional da complementação e do acesso às concessões, previstos na Consituição Federal. "Existem dois pesos e duas medidas. Enquanto o governo se nega a encaminhar mais canais para atender as necessidades da espansão das rádios comunitárias, em apenas uma canetada fizeram esta migração. Priorizando as rádios comerciais, o governo ilustra o seu descaso com quem realmente necessita de comunicação". Segundo o coordenador, as entidades pedirão ainda uma audiência com o Executivo para tratar do assunto.

Segundo o governo, nos casos em que não for possível fazer a migração, por falta de espaço nas rádios FM, as rádios terão que aguardar a conversão da TV analógica para a digital. Os canais 5 e 6, que hoje ocupam a TV analógica, estarão disponíveis para receber as rádios. Cada um destes canais, na futura TV digital, terá espaço para 20 emissoras de rádio. De acordo com o MiniCom, hoje existem cerca de 3 mil emissoras de rádio, distribuídas aproximadamente em 50% para AM e FM.

EDITORA ABRIL PODE "ENXUGAR" MAIS: VEJA TENDE A CONTINUAR


Por Alexandre Figueiredo

O empresário Giancarlo Civita deu entrevista ao jornal Valor Econômico adiantando os planos futuros do Grupo Abril. O neto do italiano Victor Civita, que fundou o grupo através da primeira publicação da Editora Abril, a revista do Pato Donald, em 1950, afirmou que a Editora Abril é um dos pilares do grupo, mas que a empresa já tem outras prioridades.

Giancarlo afirma que o Grupo Abril possui hoje 80 empresas, das quais incluem os setores de educação e logística. A Editora Abril passou a focalizar os livros didáticos, deixando de se concentrar no setor de revistas, que enfrentou uma séria crise nos últimos meses.

O setor de revistas atingirá, no final deste ano, um rendimento estimado de R$ 2,7 milhões, um índice considerado "sem crescimento", e Giancarlo - que assumiu o grupo depois da morte do pai, Roberto Civita - afirma que continuará o processo de reestruturação do Grupo Abril.

Com isso, o setor de revistas, que já perdeu diversas publicações - revistas como Alfa e Bravo foram extintas e a histórica Quatro Rodas não tem mais chefe de redação - , poderá perder mais quadros e fechar mais publicações. Poderão acontecer mais demissões.

Giancarlo quer uma empresa "mais enxuta", o que, no jargão econômico, quer dizer empresa com menos despesas, menos custos e, portanto, também com menos empregados. Recentemente o Grupo Abril desfez a franquia da MTV Brasil, que, agora, sob o lema "Pronta pra outra", está sob administração da filial brasileira do grupo Viacom / Paramount.

As publicações principais da Abril continuam asseguradas. A Contigo está comemorando 50 anos de publicação e mantém-se de pé. Cláudia, Capricho, Quatro Rodas, Caras e Exame podem até perder profissionais, mas permanecem nas bancas.

No entanto, tudo indica que a revista Veja também se mantém de pé, apesar do espantoso prejuízo que a revista acumula nos últimos anos. Graças à sua linha editorial antissocial, a Veja chega mesmo a acumular um encalhe de até quinze exemplares por banca.

É muito comum, nas bancas de todo o país, ver, no dia de lançamento de cada nova edição de Veja, grandes pilhas de exemplares da edição anterior, acumuladas sem que viva alma se interesse a comprá-las.

É um prejuízo significativo, mas como Veja tem uma função estratégica dentro do poder midiático, o Grupo Abril mantém sua publicação, mesmo sendo uma atitude suicida. A revista já está sendo usada em promoções para assinantes típicas de revistas de pequeno porte.

Só falta mesmo Veja virar revista gratuita, tamanho o prejuízo da publicação. Neste caso, o "Paulo Maluf" baiano, Mário Kertèsz, lá em Salvador percebeu a coisa quando decidiu que sua revista Metrópole teria distribuição gratuita, porque se fosse cobrada quase ninguém iria comprar. O direitista enrustido da Bahia pode não entender de jornalismo, mas entende de marketing.

Portanto, o Grupo Abril poderá encolher ainda mais. Os profissionais já estão apreensivos e foram prevenidos que os mais de mil cortes anunciados este ano podem ainda ser maiores em 2014. E, se Veja amargar mais prejuízos, a coisa ainda vai pegar no lado mais fraco. Enquanto isso Reinaldo Azevedo pode curtir seu Natal e Reveillon sossegado. Os barões da mídia amam muito ele.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O BRASIL DOS ROQUEIROS CARNEIRINHOS

PARA MONTAR RÁDIOS "DE ROCK", NÃO PRECISA ENTENDER DO RAMO, BASTA O DONO SER AMIGO DE ROBERTO MEDINA.

Por Alexandre Figueiredo

Vivemos um país de roqueirinhos carneirinhos, ovelhinhas brancas com o pelo tingido de preto que aceitam qualquer tipo de imposição da mídia e do mercado, e restringem a aparente rebeldia apenas a alguns detalhes gestuais, visuais e verbais.

Diante da campanha que uma minoria bem barulhenta e perseverante faz pela volta da Rádio Cidade "roqueira" - a rádio reacionária que havia sido reduto de rebeldes sem causa entre 1995 e 2006 - , a submissão e a falta de discernimento são gritantes, para um gênero que havia sido famoso pela rebelião e pela recusa à obediência servil.

A exemplo dos similares que, no ano passado, pediram a "volta" da 89 FM - que, um ano depois, não conseguiu renovar o fôlego da cultura rock paulista - , que acham que até mesmo os Sobrinhos do Ataíde fazendo imitação de velhinhas é "puro rock'n'roll", a "nação roqueira" pró-Rádio Cidade aceita qualquer coisa que é imposta sob o rótulo "rock'n'roll".

Aceitam gírias clubber faladas por locutores "sarados" com a mesma voz afetada dos locutores da Jovem Pan 2. Sem ironias: há centenas de locutores falando igualzinho ao Tatola da 89 FM nas rádios de pop dançante. E, se Tatola passou a falar de um jeito mais "debochado", achando que isso será "mais rock", perdeu: sua voz está parecida com a do locutor Rui Bala da Transamérica.

Os "roqueirinhos" carneirinhos - embora às vezes dotados de um pavio bem curto - aceitam tudo, até pensar que futebol é "esporte rock'n'roll", mesmo quando 99% de jogadores e torcedores de futebol no Brasil não tenha o menor interesse em apreciar esse gênero musical.

Esses "roqueiros" não sabem o que está por trás dos bastidores. São dotados de todo tipo de desinformação, sua "rebeldia" é bastante sofrível, que nos piores momentos se tornam até mais reacionários que Reinaldo Azevedo da Veja. E ignoram as relações midiáticas e mercadológicas que estão por trás do suposto radialismo rock que tanto defendem.

A primeira questão é saber por que, com tantas outras rádios melhor habilitadas para cobrir o segmento rock, só se pensam na 89 FM de São Paulo, na Rádio Cidade do Rio de Janeiro ou similares para representarem o radialismo rock, com todo o seu duvidoso perfil "Jovem Pan com guitarras" que nem o mais básico da cultura rock consegue cobrir?

O que está por trás disso é que a mídia é um grande balcão de negócios que está por trás. Os ouvintes são só "um detalhe" no mercado radiofônico. A ditadura midiática já nos ensina que o público é apenas um "gado" que faz movimentar os investimentos que envolvem veículos de comunicação, anunciantes, empresários de todo tipo, banqueiros e outros entes privados.

No radialismo rock, num sistema de rádio tomado de comercialismo cego, o que interessa, segundo o ponto de vista dos executivos, não é uma rádio dotar de histórico ou de equipe capacidados em cobrir a cultura rock. Melhor dizendo: para montar uma "rádio rock", não é preciso entender de rock, mas atender aos mecanismos do poder empresarial.

Um deles é ser amigo de Roberto Medina. Isso os donos da Rádio Cidade e 89 FM são. As duas rádios têm desempenho na cultura rock que, na melhor das hipóteses, é superficial, e, na pior delas, irritante, mas seus donos mantém relações amistosas e comerciais com o empresário do Rock In Rio que comanda todo um lobby de empresas promotoras de eventos e concertos internacionais.

E no caso dos programas que, de forma surreal, juntam forçadamente futebol e rock'n'roll, com resenhas esportivas de humor digno de um cruzamento entre Danilo Gentili e Galvão Bueno, o que acontece por trás é que os donos da "rádio rock" fizeram um acordo com os "cartolas" (dirigentes esportivos) da CBF para atrair um público supostamente "mais rebelde".

Isso é tão certo que quem for pesquisar os bastidores do empresariado radiofônico verá que o partiarca dos empresários que controlam a 89 FM, o ex-deputado arenista José Camargo, sempre foi amigo de Ricardo Teixeira e, como político ligado a Paulo Maluf, Camargo era parceiro de José Maria Marín, outro malufista, que hoje preside a CBF.

Portanto, nada é feito senão conforme interesses empresariais. Só que até nisso a ingenuidade dos "roqueirinhos" é extrema. Acham que isso é "bom" porque viabilizará comercialmente as "rádios rock". Se uma emissora FM lhes disser que Pimenta Neves é um galã feminista,  esses "roqueirinhos" aceitarão isso numa boa.

Com roqueiros tão carneirinhos assim, até os empresários de brega-popularesco caem na risada. O "funk-ostentação" pode ser o supra-sumo da imbecilização cultural ou a degradação sócio-cultural levada às últimas consequências, mas temos que admitir que em São Paulo o ritmo está levando a melhor em cima do roquinho caricato, superficial e subserviente puxado pela 89 FM.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

OSSADA É ENCONTRADA EM PRÉDIO DO TEMPO DA DITADURA MILITAR


Por Alexandre Figueiredo

Nas obras de reforma do entorno do prédio do Ministério Público de Pernambuco, no bairro Boa Vista, em Recife, foram encontradas ossadas a uma profundidade inferior a um metro em relação ao piso, descobertas por um servente de pedreiro.

O que chama a atenção é que o mesmo edifício, denominado Ed. Promotor de Justiça Paulo Cavalcanti, foi, durante o período de repressão da ditadura militar, o prédio da 2ª Companhia de Guardas do Exército, que teria sido local de passagem de presos políticos que seriam encaminhados para outros lugares.

O edifício fica na Av. Visconde de Suassuna, e as ossadas encontradas serão levadas para investigação. Até agora não há informações de que teriam sido ossadas humanas, qual a idade das mesmas ou se elas correspondessem a algum desaparecido político.

Em todo caso, a Comissão da Verdade acompanhará o caso, já que a relação do atual edifício com o antigo quartel que nele era instalado durante a ditadura militar chamam a atenção para uma possível descoberta de desaparecidos políticos no período.

O material, que foi encontrado ontem, já está no Instituto de Medicina Legal em Recife, para ser avaliado.  As obras do entorno do Ministério Público pernambucano continuam, exceto na área onde foi encontrado o material, que permanece isolada.

GLAMOURIZAÇÃO DO BREGA NÃO TRARÁ A "MPB MALDITA" PARA O GRANDE PÚBLICO

LANNY GORDIN, GUITARRISTA DA MPB PÓS-TROPICÁLIA, FOI CONHECIDO POR TOCAR COM GAL COSTA. A INTELECTUALIDADE, AO JOGÁ-LO NO BALAIO DE GATOS COM OS BREGAS, NÃO ESTARÁ LEVANDO A ARTE DO MÚSICO PARA O "POVÃO".

Por Alexandre Figueiredo

A glamourização do brega feita pela intelectualidade cultural dominante, com toda a sua choradeira a respeito dos "verdadeiros artistas do povo" e um certo pretensiosismo de misturá-los à vanguarda "maldita" da MPB autêntica, como quem mistura alhos com bugalhos, só serve para promover a vaidade de certos intelectuais "bacaninhas" detentores de muita visibilidade.

E para que serve misturar esses alhos com bugalhos? De repente, escreve-se sobre "funk ostentação" e bota Rui Maurity no meio, xinga a poetisa e atriz Elisa Lucinda de "MC" e investe até na necrofilia usando o pobre Itamar Assumpção, que não está aí para reclamar, para "apoiar" os funqueiros.

Ou então há aquela choradeira em torno do "forró eletrônico", rejeitado pela revolta popular contra essa cafajestice midiática, porque uns jornalistas que vivem em seus apartamentos confortáveis em Sampa não suportam ver seu querido "forrozinho" de cantores e dançarinos bobos-alegres ser rejeitado pela sociedade que só eles pensam viver ainda em 1910.

Nessa choradeira, vale tudo: jogar o mangue beat para apoiar o "forró eletrônico", apelando para a necrofilia, citando Chico Science e tudo. Ou então criando uma gororoba de reportagem em que cabe até Patti Smith, Trio Nordestino, Marcos Valle e o que mais. Isso sem falar do habitual uso leviano de Oswald de Andrade e Gregório de Mattos para apoiar aberrações popularescas.

A intelligentzia quer misturar breguices como Odair José, Leandro Lehart, MC Guimé e outros com nomes da MPB "maldita" como Rui Maurity, Azymuth, Arrigo Barnabé e Lanny Gordin (guitarrista que havia tocado com Gal Costa na sua fase tropi-roqueira), como se tudo fosse igualmente ousado, igualmente criativo, igualmente genial. Não é. Nem de longe.

Para piorar, o grande público continua marginalizado, atolado na breguice radiofônica. A intelectualidade parece achar que nivelar bregas e "malditos" irá colocar os últimos no acesso ao grande público.

Não. Se fosse assim o "povão" já estaria conhecendo Bossa Nova, Clube da Esquina, música caipira de raiz, só pela associação forçada trazida pelos covers feitos por ídolos neo-bregas. Se dentro dessa fórmula "acessível" a coisa não acontece, imagine se o "povão" vai comprar discos de Itamar Assumpção depois da associação forçada do falecido cantor aos funqueiros, por exemplo?

O povo ouve "versões de MPB" gravadas pelos neo-bregas como se fossem canções autorais destes. Ou, se conhece as versões originais, as dispensam, porque o que lhes vale é a versão gravada pelos neo-bregas.

Imagine então as associações forçadas. Quem vai se interessar por Lanny Gordin se já tem o Chimbinha? Se o intelectual "bacaninha" exalta este último comparando-o (tendenciosamente) ao primeiro, o "povão" nem se esforçará em se interessar por Lanny Gordin porque o intelectual espalhou por aí que Chimbinha "soa parecido".

Portanto, são armadilhas que o discurso da "diversidade cultural" trama para a opinião pública, para legitimar como "artistas sérios" toda a multidão breguinha, sobretudo a que tirou férias da grande mídia.

Comparando os ídolos bregas aos grandes nomes da MPB, os intelectuais "bacanas" nada fazem senão desaconselhar o grande público a conhecer músicos de qualidade, pela falsa ideia que divulgam de que o brega "já é música de qualidade".

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

EUA QUER ENFRAQUECER CULTURA POPULAR NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

A CIA está por trás da bregalização da cultura brasileira? Este serviço de informações dos EUA está usando o "funk" para enfraquecer o patrimônio cultural do povo brasileiro? O imperialismo aposta na bregalização para destruir a riqueza cultural que temos?

Muitos gracejam ao ouvir esta tese, fazem pirraça, gozam, ironizam, ou então ficam negando com aparente convicção: "absurdo", costumam dizer. Mas a tese, embora pareça conspiratória à primeira vista, é a mais dura realidade.

O Brasil é um país há muito tempo bastante visado pelos EUA. Por ser o segundo maior país do continente americano, é um rival em potencial à conhecida nação da América do Norte. A coisa estava tão feia que quase aconteceu uma guerra entre os dois países, em 1964.

Os EUA temem que o Brasil se fortaleça como um país autônomo, próspero e independente. Conforme eu estou lendo no livro Contendo a Democracia, de Noam Chomsky, a estratégia dos EUA é evitar que outro país se torne próspero, independente e autônomo, que faça frente ao poderio estadunidense na geopolítica e na economia mundial.

A opressão política e econômica já foi tentada, mas agora a opressão cultural é que está havendo, como forma de enfraquecer o povo brasileiro e, embora não se elimine o patrimônio cultural brasileiro, o torne cada vez mais privatizado na apreciação particular das elites "ilustradas".

Enquanto isso, financia-se uma boa parcela de intelectuais para promover a mediocrização cultural, a imbecilização que transforma o povo pobre numa caricatura, inserindo os mesmos valores e métodos da espetacularização do entretenimento alienado que intelectuais conceituados no mundo inteiro veem como um sério problema, mas aqui é visto como algo maravilhoso.

A CIA tem George Soros, o magnata que se consagrou no Fórum Econômico Mundial, como um de seus colaboradores. Ele tem um método arrojado de enfraquecer a cultura brasileira. Financia instituições no mundo inteiro, que transformam culturas locais em arremedos comerciais e caricatos, e assim transforma-se as classes populares locais em caricaturas de si mesmas.

No Brasil isso acontece, e Soros dilui seu dinheiro em instituições brasileiras diversas, financiando indiretamente intelectuais, cineastas, artistas e jornalistas "independentes" que apostem na campanha da bregalização do país.

A bregalização cria um verniz de "diversidade cultural" que não passa de uma extensão "etnográfica" do conceito neoliberal de "livre mercado". E enfraquece o povo pobre transformando-o numa massa conformista, abobalhada, que não faça ameaças ao poderio midiático e ao mercado dominante.

As únicas "ameaças" possíveis são para supostas elites que o discurso intelectual questiona e que só existem na imaginação delas. Uma forma "modernizada" das elites moralistas e aristocráticas de 1910, que "ressurgiram" assustadas com os fenômenos "populares" que aparecem no rádio e na televisão.

Só que essas elites de 1910 foram guardadas no cemitério do tempo. Não iriam ressurgir como fósseis reanimados pela intelectualidade cultural dominante. Esta é que cria um discurso falso, para impressionar a opinião pública e para entregar o futuro do folclore brasileiro nas mãos de empresários "culturais" inescrupulosos, que namoram escondido os barões da grande mídia.

É só ver o claro apoio de multinacionais - ou transnacionais, conforme o discurso neoliberal atual - aos ídolos "populares" e a todo esse entretenimento associado. Barões da mídia, investidores estrangeiros, latifundiários, políticos conservadores, todos eles dão o maior apoio. A intelectualidade "bacaninha" faz vista grossa, mas é justamente isso que acontece.

Através desse processo, os EUA e as elites brasileiras associadas querem que o povo pobre fique enfraquecido culturalmente. Falam em "cultura transbrasileira" para tranquilizar as pessoas. Conversa para o gado dormir.

O que querem, com a bregalização do Brasil, é que o povo pobre só tenha dinheiro, mas não tenha a verdadeira qualidade de vida que vai muito mais além do simples consumismo e algumas garantias institucionais. Qualidade de vida tem a ver com cidadania, com valores sócio-culturais sólidos que tenham a ver com progresso social.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

AS MAIS-MAIS DO "DIRIGISMO CULTURAL" BRASILEIRO


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural brasileira é neoliberal, mesmo fazendo proselitismo nas esquerdas, falando mal de jornalistas direitistas, cuspindo nos seus mestres tucanos etc. Mas uma coisa elas herdaram do que havia de pior nas esquerdas.

É o "dirigismo cultural", vindo dos regimes autoritários do Leste Europeu. Ordens partidas "de cima", orientações oficialescas sobre algo que deve ser valorizado sem questionar se isso vale a pena ou não. "Ordens do partido", "orientações dos dirigentes", determinações que devem ser aceitas porque "vêm de cima".

A intelectualidade cultural brasileira não vem com "Revolução Cultural" declarada, nem apelam para o livrinho vermelho, e nem compartilha dos ritos militarescos de stalinistas, maoístas e similares. Até porque essa patota está mais para endeusar os valores pop dos EUA. A cultura "transbrasileira" de que falam tem muito a ver com o sentido de "transnacional".

Mesmo assim, seu "dirigismo cultural" é feito à sua maneira. E não se iludam quando eles dizem "ninguém é obrigado a gostar de fulano, mas deve-se reconhecer seu valor", até porque eles fazem toda uma choradeira que as elites paternalistas acabam gostando do "coitadinho" brega da ocasião.

Já que os "farofa-feiros" vêm com suas listas que misturam alhos com bugalhos - como se o pobre Itamar Assumpção, que não está mais aí para reclamar, tivesse a ver com o "funk ostentação", já sofrendo o que Raul Seixas sofreu postumamente nas mãos de breganejos e axézeiros - nós também fazemos nossa lista, com a diferença de ser mais didática e questionadora.

Nesse meio de caminho, a intelectualidade cultural "mais bacaninha" empurrou para as esquerdas nomes como Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso e Mr. Catra. Tentaram fazer o mesmo com Calcinha Preta, sem sucesso, e com Michel Teló, aproveitando do seu suposto sucesso mundial, mas também deu com os burros atolados na água.

Quem não se lembra da "orientação oficial" de aceitar sempre Os Dois Filhos de Francisco e não dar um pio contra a dupla goiana, pouco antes de Zezé adotar surtos reacionários (paciência, os dois irmãos são eleitores do ruralista Ronaldo Caiado). Ou então de todo o oba-oba para Joelma e Chimbinha, antes dela juntar-se ao clube homofóbico de Marco Feliciano?

Também se descartaram do páreo nomes como Waldick Soriano, cujo direitismo não deu para esconder, e Mr. Catra, cujo entrosamento com a grande mídia também não deu para ser dissimulado. Nunca as grandes corporações da grande mídia deram tanta atenção ao funqueiro, em especial Luciano Huck.

Mas alguns nomes permanecem e outros são lançados, e aqui vamos mostrar uma lista das 10 mais do "dirigismo cultural", composto daqueles ídolos bregas que as esquerdas são obrigadas a aceitar como se esses cantores comerciais fossem sinônimo de "cultura libertária". Vá entender. Bem, vamos lá.

1) ODAIR JOSÉ - O ídolo cafona que marcou a década de 70 só faz músicas românticas e letras inofensivas, mas criou mal-entendidos com a Censura Federal. O galo cantou na esquina e o cantor, espécie de Pat Boone brasileiro, passou a ser superestimado nas últimas décadas tido como "psicodélico", "rebelde", "cantor de protesto" e outros adjetivos improcedentes.

2) BENITO DI PAULA - Se Odair José é considerado o "nosso Pat Boone", Benito di Paula é considerado o "nosso Paul Anka". Foi um razoável hitmaker, ou seja, aquele compositor de sucessos comerciais que "funcionam". Mas foi superestimado como se fosse "artista revolucionário" que todos somos aconselhados a crer que ele sempre foi, o que nada tem a ver.

3) WANDO - O falecido ídolo brega do "sambão-joia" surgiu como arremedo de Jorge Ben para animar o "milagre brasileiro". Nos anos 80, decidiu soar como uma versão "farofa" de Chico Buarque - calma, "farofa-feiros", é "farofa" no sentido de coisa fajuta - e distribuir calcinhas no palco. Será que a maioria dessas calcinhas era vermelha para que a intelligentzia empurrasse o cantor para o gosto oficial das esquerdas?

4) RAÇA NEGRA - Pioneiro do sambrega (releitura do "sambão-joia" lançada na Era Collor), o Raça Negra é considerado pelo repertório chinfrim. Mas é "ordem do partido" acharmos o grupo "genial" e a intelectualidade empurra o grupo para o gosto do público alternativo, das vanguardas culturais, das esquerdas e o que for para frente. Parece aquele papo das velhas mães quando obrigavam seus filhinhos a tomar chá de losna porque "era bom para a saúde".

5) LEANDRO LEHART - Outro nome do sambrega que fez sucesso como vocalista do Art Popular. Quando convinha, aceitava feliz o mercado medíocre do qual participou e fez muito sucesso. Mas só duas décadas depois quis chutar o pau da barraca e, tomado de pretensiosismo, posa de "gênio visionário". A intelligentzia adora, sobretudo pela imagem de "coitadinho aborrecido" que ele agora explora nas suas entrevistas.

6) GABY AMARANTOS - A cantora do tecnobrega conseguiu provar que esse papo de que o ritmo assustava os barões da grande mídia era balela. Até a Veja, que condena todo mundo, se derreteu pela ex-Beyoncé do Pará. Entrosada com a Rede Globo, ela no entanto cumpre o perfil ideológico da suposta "engajada", bem ao gosto da intelectualidade cultural dominante.

7) LUIZ CALDAS - Espécie de Leandro Lehart da axé-music, o outrora considerado pioneiro da axé-music passou para a segunda divisão quando o mercado foi dominado por ivetes, chicletes e asas. Seu sub-tropicalismo cheio de clichês agrada à intelligentzia, por causa de um estereótipo de brasilidade inofensivo que a intelectualidade dominante tanto defende.

8) "FUNK DE RAIZ" - As aspas indicam que o termo é falso. Não se trata do som que Tim Maia, Erlon Chaves, Toni Tornado, Cassiano e Hyldon fizeram nos anos 70, mas dos primeiros registros do "funk carioca" que rompeu estética e estruturalmente com todo o funk de verdade. O discurso dos funqueiros que passaram a usar a estrutura do DJ-e-MC é risível e inócuo, mas segue os padrões de rebeldia-que-incomoda-sem-incomodar-muito que a intelectualidade tanto adora.

9) MC GUIMÉ - Com a crise de reputação do "funk carioca", a intelectualidade tentou colocá-lo em banho-maria e focalizar a "novidade" do "funk ostentação", para ver se recicla o discurso do "funqueiro-coitadinho". E MC Guimé tornou-se o queridinho da empreitada, o pretenso "engajado" que no fundo não incomoda muito, principalmente porque defende o consumismo, fazendo o coração neoliberal da intelectualidade "bacaninha" bater bem mais forte.

10) THIAGUINHO - Sim, isso mesmo, o "príncipe" do sambrega das Organizações Globo. O que faz ele ser empurrado para as esquerdas é meio duvidoso, é como transformar William Bonner em paraninfo da luta pela redemocratização da mídia. Pelo que parece, a intelectualidade o usa para derrubar Chico Buarque, alvo preferido da intelectualidade "bacaninha" por esta não tolerar pessoas com opiniões próprias. Daí que, para tal, apelam até mesmo para um astro da Globo.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

THIAGUINHO: O "JOAQUIM BARBOSA" DA MÚSICA "TRANSBRASILEIRA"?


Por Alexandre Figueiredo

O Supremo Tribunal do Farofafá decretou: abaixo a MPB. Depois de passados os ventos do Procure Saber, a intelectualidade cultural dominante, guiada por um lado pelos "navegadores" fora-do-eixo da Globo News e, por outro, pelos fukuyamianos pós-tropicalistas (e também fora-do-eixo) do Farofafá, quer instalar a bregalização absoluta do país.

Podemos até falar numa relativa analogia a José Dirceu e Chico Buarque, ambos ex-heróis de 1968 e seres humanos dotados de erros. Dirceu cometeu erros mais graves, pois, quando convinha, se aliou a Marcos Valério, o verdadeiro chefe do mensalão, para obter vantagens mais fáceis para o PT. Mesmo assim, a imprensa reacionária exagera no tom na condenação dos petistas mensaleiros.

Neste sentido, pode-se comparar Dirceu a Buarque - cujos erros estão numa mal explicada proibição de novas montagens para uma antiga peça sua, a histórica Roda Viva - pela fúria cega com que jornalistas e intelectuais fazem contra eles, confundindo crítica enérgica com rancor puramente calunioso e depreciativo.

É algo comparável, por exemplo, à fúria que os rebeldinhos pseudo-roqueiros, que ouviam alegremente a Rádio Cidade no Rio e a 89 FM em Sampa há dez ou quinze anos atrás, que pregavam a demolição do Congresso Nacional e a extinção do Legislativo a pretexto de combater a corrupção política que, de fato, lá ocorria e continua ocorrendo.

Neste sentido, se a imprensa reacionária elegeu como herói o tendencioso jurista Joaquim Barbosa - que se apressou em elogiar as Organizações Globo e a cortejar até a reacionária revista Time, o que rendeu um bom cargo para seu filho na Rede Globo - , a intelectualidade que quer derrubar a MPB elegeu Thiaguinho como o "salvador da pátria".

Para a intelectualidade, Thiaguinho é o contraponto para o "difícil" Chico Buarque. O "pagodeiro" é querido das colunas sociais, têm cadeira cativa nas Organizações Globo, namora atriz global, adota aquela "transparência"que o faz uma espécie de "Joaquim Barbosa" da música "transbrasileira" (ou "transnacional", vide o FHC que está por dentro de intelectuais "bacanas").

O que faz intelectuais culturais que, quando lhe convém, fingem odiar a Rede Globo e a Folha de São Paulo - deixando vazar uma frustração de Pedro Alexandre Sanches não ter se tornado um Álvaro Pereira Júnior - , eleger o "príncipe do pagode romântico da Globo" nas suas pregações na mídia esquerdista é um grande mistério.

Pois não há como pedir a tal "reforma agrária na MPB" adotando como queridinho justamente um cantor que é o símbolo da "música popular de proveta" que tanto agrada os executivos das Organizações Globo.

Usar Thiaguinho como paraninfo de uma suposta "reforma agrária na MPB" soa o mesmo que eleger William Bonner como símbolo dos movimentos para a democratização dos meios de comunicação sob os moldes esquerdistas. Não faz sentido. Não procede.

A intelectualidade cultural dominante deveria assumir que adora os barões da grande mídia. Seus conceitos de cultura popular são do mais explícito neoliberalismo. Com alguma sorte, Pedro Sanches poderá até mesmo fazer parte do Navegador da Globo News, basta pedir ao seu amigo Ronaldo Lemos, companheiro de devaneios tecnobregamelodiosos.

O que não pode é fingir aversão ao poderio da grande mídia, quando defende justamente as concepções de cultura transmitidas por esse mesmo poderio. A opinião é livre, mas é preciso coerência e honestidade ideológica.

domingo, 24 de novembro de 2013

VERDADEIRO ROCK ALTERNATIVO É DESCONHECIDO NO BRASIL

A BANDA INGLESA RIDE TEVE COMO UM DOS INTEGRANTES ANDY BELL (DE CAMISA LISTRADA), QUE INTEGROU DEPOIS O OASIS E HOJE INTEGRA O BEADY EYE.

Por Alexandre Figueiredo

O que é rock alternativo para os brasileiros? Marilyn Manson? Nirvana? Queens Of The Stone Age? Flaming Lips? Smash Mouth? Offspring? Matchbox 20? Não, nenhum deles. Eles se encontram num mainstream roqueiro que poucos percebem na aridez cultural que existe no Brasil.

Sim, porque desde os anos 90 o país viveu uma erosão cultural tão grande que hoje o mainstream virou uma "peneira" em que até aquilo que era "só sucesso" nos anos 80 passou a ser visto como "sofisticado", "vanguardista" ou "alternativo" a partir da década seguinte.

Com a mediocrização cultural galopante - em maior intensidade no Brasil, embora nos EUA há quem apronte bastante neste sentido - , mesmo o pior da disco music parece "sofisticado" e "coisa do outro mundo" enquanto que baboseiras poser como Mötley Crüe são "alternativas".

Para piorar, há no Brasil quem não goste que alguém questione a suposta sofisticação de certos nomes "sagrados" do hit-parade. Como Bee Gees, por exemplo, que contam com uma "patrulha" organizada na Internet para fazer trolagem contra quem der um pio contra o pop comportado e inofensivo do famoso trio australiano.

É o país em que até o constrangedor "funk carioca" é visto como "vanguarda". Assim fica complicado explicar que Marilyn Manson não é rock alternativo, para uma população que acha que até Lady Gaga é "rock alternativa", mesmo não fazendo rock e não sendo alternativa.

Tudo isso tem boa parte de culpa na mídia brasileira, que se orientou pelo pior da mídia norte-americana. A superestimação da MTV, que derrubou as rádios roqueiras dos EUA nos anos 80, fizeram seu estrago nas rádios de rock brasileiras, que interromperam a continuidade da divulgação de bandas alternativas que havia na década oitentista.

Se nos anos 80 tivemos a chance de conhecer o som de grupos como Fall, Durutti Column, Cocteau Twins e Felt, nos anos 90 deixamos de conhecer o com de bandas como Ride, Wedding Present, Weather Prophets e Wonder Stuff, entre tantos outros grupos realmente alternativos que só são expressivamente apreciados em seus países de origem.

O Wedding Present, de Leeds, liderado por David Lewis Gedge, soa como se os Buzzcocks tivessem Ian Curtis nos vocais e este, longe de seu destino suicida e seu jeito melancólico, fosse um sujeito mais alegre e de bem com a vida. Musicalmente, o Wedding Present antecipava em uma década o som que o público médio conhece através de grupos como o Green Day.

Os Weather Prophets é como se os Byrds tentassem soar como o Velvet Underground. Liderado pelo vocalista, guitarrista e letrista Peter Astor, o grupo de Londres já está extinto há muito tempo, mas sua sonoridade melódica impressionante teve divulgação regular na Rádio Fluminense FM, de Niterói, e pouca gente percebeu.

O Wonder Stuff é um grupo liderado por Miles Hunt, cantor e guitarrista que havia largado o Pop Will Eat Itself (espécie de Sigue Sigue Sputnik com mais raiva e menos eletrônica) para fazer um som diferente. O WS faz um rock vigoroso, por ora influenciado pelos Beatles, em que humor e melodias convivem com harmonia e equilíbrio.

Já o Ride, oriundo de Oxford (cidade do Supergrass e Radiohead), é como se os Byrds fossem mais barulhentos e levemente melancólicos. Teve dois vocalistas e guitarristas, Mark Gardener e Andy Bell (não confundir com o xará do duo dançante Erasure) e já está extinto desde 1996, após alguns grandes discos.

No entanto, Andy Bell é conhecido por ter sido, depois, integrante do Oasis. Na banda, ele trocou de função, virando baixista e deixando de cantar, mas continua contribuindo como compositor em várias canções. Com a saída de Noel Gallagher, brigado com seu irmão Liam, os demais membros do Oasis, incluindo Andy Bell, passaram a formar a atual banda Beady Eye.

A ignorância da mídia brasileira em relação ao rock alternativo estrangeiro ocorre de tal forma que nem mesmo o Beady Eye ganha algum espaço nas ditas "rádios rock" brasileiras, perdidas em uma falsa atitude "roqueira" que, tomada de clichês, ignora tanto os grandes clássicos do rock como as verdadeiras novidades, se limitando, no caso, a tocar uns poucos sucessos do Oasis como se esta banda continuasse existindo.

Teria sido um boicote ao rock alternativo de verdade? Ou será que o hit-parade da MTV ficou valorizado ao extremo? Em todo caso, a supremacia do grunge - que, por ser jogado diretamente ao mainstream, não podia ser considerado "alternativo" - se deu sobretudo pela ciumeira que a imprensa norte-americana teve com o jornalista inglês Everett True.

Repórter do extinto semanário Melody Maker, Everett foi o primeiro, em 1990, a cobrir a cena roqueira de Seattle, cidade localizada no Estado de Washington (não confundir com a cidade de Washington, que fica no Distrito de Columbia, o Distrito Federal estadunidense) e conhecida por ser a terra natal de Jimi Hendrix.

Por ter feito a reportagem antes de qualquer jornalista ianque, Everett provocou a ciumeira e a imprensa estadunidense resolveu se apropriar da cena de Seattle com tanta obsessão que decidiu promover suas bandas - em muitos casos, de forma prematura - para o estrelato enquanto desenvolvia um estereótipo de "cultura alternativa".

Com isso, aquela divulgação de bandas realmente alternativas e melodiosas, já interrompida pela moda do funk metal, foi simplesmente interrompida e, no Brasil, tivemos a infelicidade de ver as rádios alternativas mergulharem no mais lamentável comercialismo.

Tudo culpa da influência da rádio 89 FM, que deturpou os conceitos de rádio de rock no Brasil para um comercialismo que se tornou mais rasteiro com o tempo, que fez eliminar a criatividade das rádios de rock originais, que substituíram sua equipe de gente conhecedora da causa por incompetentes que só sabem levantar o Ibope com uma linguagem "digestível".

Com rádios "roqueiras" focando um público não-roqueiro, tudo deturpou e aí o conceito de rock alternativo se distorceu completamente. Gente com roupas malucas, letras "confessionais", clipes rodados em super-8 mostrando crianças de velocípede, vocais em falsete junto a guitarras distorcidas, tudo virou muito barulho por nada em prol de um underground de mentirinha.

Isso fez cair muito a qualidade musical até mesmo das bandas alternativas novas. Seja no rock ou em outras tendências. Seja no jazz, em que os neófitos mais jovens não sabem a diferença entre o bebop (jazz sofisticado) e a música instrumental cubana, seja na MPB, cada vez entregue aos bobos-alegres e sua EmoPB que mistura brega com teatro performático, seja no rock, em que a barulheira tornou-se um fim em si mesmo, não raro sacrificando a criatividade.

Isso desqualificou e enfraqueceu as vanguardas musicais, de forma que o hit-parade se tornou mais totalitário. E o surgimento de ídolos pop "mais esquisitos", sejam Jay-Z, Lady Gaga, Miley Cyrus e tantos outros, não adiantou muito as coisas, só piorando mais ainda. Enquanto isso, a atividade de fazer música se desvalorizou, num mercado perdido entre o comercialismo e o sensacionalismo.

sábado, 23 de novembro de 2013

INTELECTUALIDADE "BACANINHA" QUER ACABAR COM JOÃO GILBERTO


Por Alexandre Figueiredo

Depois de uma pausa no ringue, a intelectualidade cultural dominante, aquela que muitos acham "muito bacaninha" e que recebe injeções "soros-positivas" nas suas contas bancárias, não só se prepara para derrubar Chico Buarque como pretende agora partir para cima de João Gilberto.

Pretendendo investir na bregalização do Brasil - que adota um modelo de "cultura popular" que agrada aos investidores estrangeiros - , o foco da intelligentzia brasileira, seja da parte de "farofa-feiros" ou de "navegadores fora-do-eixo", sob as bênçãos do "sacerdote" Paulo César Araújo e seu rosto que lembra um Dom Bosco mais alucinado, é a Bossa Nova e a moderna MPB.

O pretexto para combater a música brasileira de qualidade dos intelectuais pró-brega - que provisoriamente só aceitam a MPB autêntica quando ela não estabelece postura firmemente contestatória ao brega - é a versão que candidatos do programa The Voice Brasil, Xandy Monteiro e Maylsson (cantor do grupo sambrega SOS Paixão), cantaram da música "Adeus, América".

"Adeus, América" era uma música pré-Bossa Nova gravada em 1948 pelo grupo vocal Os Cariocas. Seu crédito de autoria é controverso, sendo de Geraldo Jacques em co-autoria de Haroldo Barbosa, em algumas fontes, e Wilson Batista, em outras. Mais especializado, o Dicionário MPB de Ricardo Cravo Alvim atribui à primeira informação.

João Gilberto tornou a canção mais conhecida através dos acordes de violão e do seu canto suave que retrabalharam a música bem ao estilo bossanovista. E que, num programa televisivo que aposta no tecnicismo exagerado no canto, foi simplesmente derrubado pelo "profissionalismo" dos dois crooners do "time de Cláudia Leitte no The Voice Brasil da Rede Globo.

Destruir a música brasileira em regravações burocráticas e cafonas não é novidade. Dois dos jurados de The Voice Brasil, Cláudia Leitte e o breganejo Daniel, já fizeram das suas. Um cem número de ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas já havia feito "massacres" ao cancioneiro da MPB, até para disfarçar o baixo nível artístico e economizar esforço no (fraco) material autoral.

Daniel e Chitãozinho & Xororó chegaram ao ponto de gravarem, em separado, a música "Disparada" de Geraldo Vandré sem se darem conta do que realmente quer dizer a letra da música, que é uma metáfora para a opressão do mesmo poder latifundiário que patrocina, com muito gosto, os breganejos.

Mas a regravação "da boca pra fora" atingiu não só a MPB, mas estrangeiros como o U2, cuja música "Sunday Bloody Sunday" - que fala sobre um massacre ocorrido na Irlanda - ter sido cantada com alegria pelo grupo Sambô e seu inglês the book is on the table "superamericano". Muitos comem e bebem ao som do Sambô enquanto outros morrem amanhã.

Houve até mesmo um grupo de sambrega que, na maior animação, havia gravado, muitos anos atrás, uma versão da bela canção de Flávio Venturini, "Noites com Sol", agredindo violentamente a linda composição com malabarismos vocais canastrões, bastante afetados, com o jeitão engraçadinho do cantor. Não sei o nome do elemento que gravou a lamentável versão.

O The Voice Brasil é um daqueles programas em que existe um padrão de "cantar bem" - o mesmo de nomes como Celine Dion e Michael Bolton, mas consagrado sobretudo por Whitney Houston - extremamente técnico, forçadamente "emotivo", gritado e cheio de malabarismos que não trazem diferencial algum e nem mesmo beleza nem personalidade.

O único jurado de The Voice Brasil, o roqueiro Lulu Santos, foi mais sensato na avaliação da versão:  "Achei que houve um excesso de trejeitos vocais e desrespeito à canção original. Faltou respeito ao que a música diz", comentou a respeito dos dois candidatos.

Os "farofa-feiros", que haviam "desaconselhado" seus leitores a ver The Voice Brasil para optar a ver bobos-alegres da EMOPEBÊ (tipo Felipe Cordeiro e seu Kitsch Pop Cult) apoiando o tecnobrega / tecnomelody, vibraram com a versão dos dois candidatos do programa televisivo.

Pois Eduardo Nunomura, integrante do joaquimbarbosiano Supremo Tribunal do Farofafá e militante da gilmarmendesificação da MPB junto ao "filho da Folha" Pedro Alexandre Sanches, comentou euforicamente a "façanha" dos dois cantarem "Adeus, América":

"Na prática, os dois dançaram e não conforme a música. Mexeram com uma instituição, daquelas que parece ser preciso pedir autorização, assinada em duas vias e protocolada na alta cultura brasileira", divertiu-se Nunomura em comentário jocoso, feito ainda sob as marcas depreciativas da campanha contra a MPB no episódio Procure Saber.

Maylsson foi aprovado, Xandy não. Talvez porque o primeiro já tenha uma "experiência musical". Em todo caso, a intelectualidade cultural dominante festejou as versões, desafiando o que os intelectuais "bacaninhas" classificam como uma "afronta às instituições estabelecidas", como na ironia pós-André Forastieri de Nunomura.

No fundo a intelectualidade cultural dominante não quer que prevaleça a música brasileira de qualidade, aquela que é feita com a alma, o coração. Só admitem a música de qualidade quando ela vira uma linha de montagem para os Leandro Lehart da vida, ou então os Luan Santana de ocasião, copiarem em algum momento de crise em suas carreiras.

A música feita com a alma, de artistas com opinião de verdade, isso a intelectualidade "bacaninha" não tolera, não aceita. Daí a vontade de derrubar Chico Buarque, João Gilberto, e o que vier de gente que não se adapta aos ventos do mercado nem compactua com o brega.

O que a intelectualidade cultural dominante quer é que apenas sobreviva, pelo menos provisoriamente, a MPB autêntica que obedece ao mercado e aceita acordos com o brega (duetos, covers etc). Uma MPB talentosa, mas boazinha, condescendente com os "coitadinhos" que rolam nas rádios.

Mas a intelectualidade os aceita até certo ponto. No fundo esperam que eles morram aos poucos. A intelligentzia quer acabar com a MPB. Madame não quer que o povo ouça MPB. Que fique a breguice que volta e meia massacre o cancioneiro da MPB, sem que o "povão" tenha qualquer noção ou estímulo para ouvir os artistas originais. Parece "bacana", mas é muito triste.

INTELECTUALIDADE CULTURAL BRASILEIRA É UMA DAS MAIS PRECONCEITUOSAS DO MUNDO


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade cultural dominante é a extensão não assumida do poder midiático. Fala de uma concepção de "diversidade cultural" que encontra paralelo na noção de "liberdade de expressão" da imprensa reacionária e na de "livre iniciativa" na economia neoliberal.

Sob o pretexto de promover a "ruptura do preconceito" em relação à "cultura popular" veiculada pelo mercado e pela mídia, seus intelectuais criam visões cada vez mais preconceituosas do que o preconceito que dizem combater.

A intelectualidade cultural dominante no país é uma das mais preconceituosas do mundo. Dizem defender a "verdadeira cultura popular" e criam todo um discurso ideológico confuso, por vezes desesperado, mas que procura ser o mais persuasivo para convencer a opinião pública que são eles os mais entendidos de cultura brasileira.

São jornalistas culturais, antropólogos, sociólogos, historiadores, cineastas, entre outros. Isso já se sabe. Mas o que muitos recusam a admitir é que são pessoas que trabalham na ideologia da "diversidade cultural" como forma de prevalecer tendências "culturais" mercadológicas não raro em detrimento do progresso cultural das classes populares.

O discurso engenhoso é desconstruído constantemente em nosso blogue, principalmente quando seus ideólogos tentam anunciar a "morte do mercado" ou a "agonia da grande mídia", na tentativa vã e inconvincente de evitarem qualquer vínculo com os barões da mídia.

Só que o vínculo bem ou mal se mostra, mesmo na forma sutil dos blogueiros do Farofafá, ou na "independência" de cineastas e historiadores que juram "não terem" recebido dinheiro para suas defesas em relação ao "funk", ao brega "de raiz" e outras "popularices". Mas também se expressa pelo envolvimento de gente como Hermano Vianna e Ronaldo Lemos com o baronato midiático.

O problema é que muitos se assustam com as críticas que este blogue faz contra a intelectualidade dominante. Será que não podemos ter intelectuais culturais no nosso país? Podemos. Será que é ruim ser intelectual no Brasil? Não é ruim.

O ruim é ver a intelectualidade cultural de nosso país, em vez de zelar pela verdadeira cultura popular e pelo progresso sócio-cultural das classes populares, defenderem os tais "fenômenos populares" da grande mídia e do mercado oficial. E esses intelectuais ainda choram quando alguém lhes aponta algum vínculo com os barões da mídia. Pode isso? Não.

O que eles acabam defendendo não é a vontade popular, não é o gosto popular. O que esses intelectuais defendem é o sistema de valores defendido por empresários do entretenimento cujo perfil lembra bastante o de arremedos urbanos dos capatazes de latifundiários e contraventores.

A grande diferença é que esses "jagunços culturais" não costumam mexer em armas, mas depositam dinheiro para promover falsos bens culturais e falsas personalidades que trabalhem uma visão estereotipada das classes populares, promovendo no povo pobre o conformismo e o apego a valores confusos, entre o pitoresco, o grosseiro, o aberrante e o piegas.

A intelectualidade cultural dominante tenta nos fazer crer que essa visão estereotipada - que seus ideólogos não admitem desta forma - expressa os anseios e crenças das comunidades e promove o progresso sócio-cultural do povo, sob o pretexto de aquecer um mercado de entretenimento que gera empregos e garante alta rentabilidade.

É uma ideologia sedutora, mas perigosa. Afinal, esses intelectuais acabam se protegendo pelo escudo elitista, achando que seus diplomas os fazem senhores absolutos da cultura popular. Glamourizam a miséria, a pobreza, a ignorância do povo pobre e exaltam até mesmo as gafes e desatenções que alguns indivíduos pobres ou de origem pobre fazem no dia a dia.

De velhotes embriagados rebolando feito falsas odaliscas, de moças siliconadas de cabelo oxigenado expressando sua burrice, tudo é "lindo" pelo discurso intelectual que tenta prevalecer na agenda progressista, mesmo quando os clamores "farofa-feiros" e similares não são mais do que equivalentes "etnográficos" das enrolações de Joaquim Barbosa no STF.

As forças progressistas devem tomar cuidado com a pregação da intelectualidade pró-brega, porque a ameaça que esta representa é tão grave quanto a de um pelego que põe um movimento de reivindicações salariais a perder.

Porque a intelectualidade pró-brega não quer ver um povo próspero. Quer ver o povo na sua pobreza, na sua ignorância, estagnado e submisso ao que rádios e TVs impõem sob o rótulo de "popular". A supremacia do "mau gosto popular" nem de longe é libertária, até porque ela agrada muito os barões da mídia.

Por isso temos que apostar numa nova mentalidade cultural de esquerda. Não se pode tomar como tal levar a sério os listões das FMs ditas "populares" ou o que a mídia em geral determina como "aquilo que o povão gosta".

A verdadeira cultura produz conhecimento, valores sociais, tem vínculo comunitário e investe no progresso social. Já a tal "cultura popular(esca)" só gera dinheiro para seus empresários e outros envolvidos, nada contribuindo para fazer o povo pobre sair de sua miséria e ignorância.

Daí que essa intelectualidade "sem preconceitos" é, no fundo, bastante preconceituosa. No fundo ela tenta convencer as esquerdas de que o esquerdismo cultural não serve e que bom mesmo é o tal neoliberalismo cultural que se apoia sob o rótulo de "popular".

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

PRIVATIZAÇÃO DE AEROPORTOS FAVORECE CAPITAL, MAS REDUZ PODER DA INFRAERO


Por Alexandre Figueiredo

O leilão que aconteceu hoje na Bolsa Mercantil e de Futuros de São Paulo, envolvendo os aeroportos de Confins (Belo Horizonte) e Galeão (Rio de Janeiro) favoreceu a participação de empresas como a empreiteira Odebrecht e grupos empresariais que já investem no Aeroporto de Cingapura.

Portanto, a privatização dos dois aeroportos brasileiros favoreceu o capital e os grandes investidores, que respectivamente, levaram o Aeroporto Internacional Tom Jobim (atual nome do Galeão) por R$ 19,018 bilhões (consórcio Aeroportos do Futuro) e o Aeroporto de Confins por R$ 1,82 bilhões.

Os consórcios vencedores se comprometeram a investir R$ 5,7 bilhões, para o Galeão, e R$ 3,5 bilhões para modernização e ampliação de sua estrutura. A medida tem por objetivo receber o fluxo turístico estimado para o próximo ano, principalmente para os próximos eventos internacionais, como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

No entanto, a Infraero, que administrava integralmente os aeroportos, além de ser sócia minoritária, só administrará os aeroportos nos primeiros 120 dias, e depois disso passará a administração para a operadora privada.

Na prática, é a redução do poder da Infraero no controle do trabalho dos aeroportos. No entanto, como na maior parte das privatizações, prefere-se manter cautela. O ato em si não é garantia que melhorias aconteçam, até porque o governo Dilma Rousseff anda adotando políticas de cunho neoliberal.

Resta saber como será a situação dos servidores públicos, dos concursados de 2009 que ainda não foram convocados, ou de outros trabalhadores dos aeroportos. Sob o ponto de vista dos negócios, o leilão dos aeroportos foi nas mil maravilhas. E sob o ponto de vista dos trabalhadores, isso nem sempre é garantia de mais empregos e maior estabilidade profissional. É esperar para ver.

O MERCADO DAS CELEBRIDADES E SUA CRUELDADE


Por Alexandre Figueiredo

Nos últimos tempos, a mídia das celebridades mostra seu caráter cruel, na sua vontade de demolir reputações, mesmo dentro do contexto "inocente" de entretenimento, no qual a mediocridade acaba valendo mais do que o talento.

Dois exemplos são bastante ilustrativos. Um é o da falecida atriz norte-americana Brittany Murphy, que voltou a ser notícia ao ser constatado, em um exame de laboratório, que o corpo da atriz teria sido vitimado por ingestão de elementos encontrados em um veneno para ratos, dando a crer que ela teria sido assassinada.

Outro se refere ao da atriz brasileira Deborah Secco, envolvida em uma denúncia de corrupção na qual ela não teve participação direta, mas foi responsabilizada como se tivesse, sem que qualquer verificação fosse feita.

Brittany e Deborah são pessoas diferentes, atrizes esforçadas que foram lançadas ao sucesso por duas conhecidas comédias femininas para adolescentes, As Patricinhas de Beverly Hills e Confissões de Adolescente. Brittany ainda fez, antes, um seriado infanto-juvenil da Disney, intitulado The Torkelsons (depois rebatizado como Almost Home).

Atrizes esforçadas - Brittany, pouco antes de morrer, havia gravado vários filmes - , no entanto elas não eram muito queridas por uma parcela da imprensa especializada em famosos, que sempre que podiam exploravam cada uma de forma bastante depreciativa.

Brittany era tida como "drogada", "anoréxica", "temperamental", "relapsa", "intransigente". Já Deborah - que segue sua vida com uma agenda movimentada - é "metida", "falsa", "narcisista" e, agora, "corrupta", ainda que a denúncia sobre desvios de dinheiro de uma ONG sejam de responsabilidade direta de seu pai.

A imprensa de celebridades às vezes implica com certas personalidades. Antes de falecer, Brittany já era "morta" pela mídia, o que a fez se dedicar a trabalhos menores e a ser cortada do segundo filme de animação de Happy Feet.

Independente dela ter se matado ou ter sido morta por alguém, Brittany vivia deprimida pelos tristes rumos da vida dela, que iam desde o boicote de parte da indústria cinematográfica até rumores de que seu marido, o roteirista e produtor inglês Simon Monjack - que faleceu em 2010 em circunstâncias parecidas com a da esposa - , estaria traindo a atriz.

Deborah, no entanto, tinha maior destaque como atriz. Ganhava papéis de destaque nas novelas, fazia papéis até polêmicos em filmes, e permanecia em evidência na mídia, sendo convidada para eventos e até sessões de moda.

No entanto, a campanha midiática tenta abater Deborah tanto quanto a congênere estadunidense fez com Brittany. Com um senso jornalístico típico da Escola Base - caso de denuncismo da imprensa que, em 1994, desmoralizou supostos acusados que, na verdade, eram inocentes - , Deborah é acusada de uma corrupção que partiu da decisão direta de seu pai.

Neste sentido, a "corrupta" Deborah Secco e a "drogada" Brittany Murphy aparecem no contexto de uma mídia que costuma ser cruel com uma parcela de famosos os quais uma elite de jornalistas não nutre a menor simpatia, e que não admite sequer seu talento e seu esforço para alcançarem algum mérito na fama.

Isso é algo até mais cruel do que a imprensa reacionária se aproveitar da condenação de José Dirceu e José Genoíno para exagerar demais nos erros que eles cometeram. E olha que Dirceu e Genoíno erraram feio, ao se relacionarem com Marcos Valério no seu esquema de corrupção política e financeira.

Numa comparação mais próxima, porém, a campanha midiática se aproxima da campanha de intelectuais considerados "bacanas" em destruir a reputação de Chico Buarque de Hollanda, artista brasileiro de talento ímpar, demonizando até mesmo o menor espirro que o cantor der em público.

Em contrapartida, se existem campanhas difamatórias e depreciativas contra pessoas talentosas que possuem algum diferencial mas não ganharam a simpatia da mídia, os mesmos jornalistas mudam o tom em relação a celebridades sem muito talento que precisam alcançar o estrelato sem o menor esforço.

Isso vale tanto para uma imprensa que demoniza Brittany e Deborah quanto para a intelectualidade - e parte da imprensa, com Reinaldo Azevedo de mãos dadas com Pedro Alexandre Sanches para todo mundo ver - que quer derrubar Chico Buarque explorando de forma exagerada os erros do cantor.

Isso porque, quando o assunto se refere às sub-celebridades, a imprensa torna-se boazinha. Astros de reality show que nada tem a dizer são elogiados a tal ponto que mesmo suas piores gafes são reportadas como se fossem algo "divertido", e mesmo os piores escândalos são explorados como um "circo" de controvérsias que, de tão espetacularizado, ficou banal.

Que talento tem, por exemplo, uma JWoWW? O que as Real Housewives têm a nos dizer? Enquanto Brittany e sua encantadora voz fazem muita falta na música - sim, ela era uma cantora brilhante - , temos que aguentar uma Courtney Stodden, a mocinha que se separou de seu marido cinquentão, fazendo pop dançante rasteiro com voz "miúda" processada pela tecnologia.

Courtney Stodden é aquele tipo de garota sem qualquer importância, que só vale pelo exibicionismo corporal às custas de peitos e glúteos siliconados, temperando uma personalidade superficial e narcisista.

Isso não é muito diferente das "boazudas" que a mesma imprensa que condena Deborah Secco faz. A impressão que se tem é que a imprensa de celebridades - em boa parte, de perfil popularesco - quer derrubar Deborah para, de preferência, colocar alguma "Miss Bumbum" ou paniquete no lugar, não necessariamente para bons papéis na TV, mas na reputação da fama.

Fala-se muito mal das "mentiras" ditas por Deborah, mas não se fala por exemplo do que as "boazudas" fazem escondendo a vida amorosa, quando umas na verdade são garotas de programa e outras senhoras muito bem casadas.

Entre essas senhoras casadas, há muita funqueira metida a ativista que espalha pelos quatro cantos que "está solteiríssima" dizendo bobagens do tipo "só transo com meu vibrador", "só levei cantada de meu afilhado" ou coisa parecida, enquanto na vida particular vivem um sólido casamento com maridões que vivem escondidos em algum canto do Centro-Oeste ou Nordeste.

Não obstante, tais funqueiras "solteiríssimas" inventam que contraíram dengue e se recuperam de uma hora para outra e retomam a carreira da noite para o dia. Não se recupera de dengue de uma hora para outra, o que dá um forte indício de que elas inventam a doença para ter uma folga e visitar seus maridos que vivem em boas residências em lugares tipo Palmas ou Maceió.

No âmbito musical, nem precisamos aqui detalhar a cobertura que a intelectualidade faz querendo destruir a MPB autêntica para instaurar a bregalização do país. Lavaram a roupa suja em esgoto a céu aberto no caso do Procure Saber e, para destruir Chico Buarque, apelam até para o inexpressivo Thiaguinho abraçado aos filhos do Roberto Marinho.

A mediocridade sócio-cultural, e podemos dizer a imbecilização cultural mais escancarada, é muito bem vinda para os olhos de certos jornalistas que cobrem o mercado da fama. Isso porque, para eles, a fama virou o fim em si mesmo e mais vale investir em sub-celebridades que cometem gafes mas "divertem" o público do que em gente com talento que vive problemas pessoais.

Em certos casos, há até limites, mas eles são determinados pelas circunstâncias. O sítio TMZ, por exemplo, adora sub-celebridades norte-americanas, mas reprovou a brasileira Andressa Urach com comentários do tipo "muito gorda" e "nada atraente".

Mas aí é porque Andressa é considerada muito exagerada e fútil até para os padrões médios da mídia de lá, apesar de haver uma Coco Austin (esposa do rapper Ice-T), com seus glúteos e peitos bastante inflados.

Por isso a imprensa de celebridades é muito, muito cruel. Tanto lá fora, os EUA pelo menos, como no Brasil. Lá fora, a mídia sensacionalista acabou por "destruir" Brittany Murphy. Aqui tentam desmoralizar Deborah Secco junto a gente "tarimbada" e "bacana" que se acha na moral de destruir Chico Buarque e afundar a cultura brasileira na breguice mais constrangedora.

A grande mídia não é só problemática no noticiário político. No âmbito do entretenimento ela chega a ser até pior.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

FAROFAFÁ IMITA BILLBOARD PARA COMEMORAR DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA


Por Alexandre Figueiredo

Diversidade cultural ou livre mercado? Os dois, dentro de um contexto de uma intelectualidade elitista que se acha acima do interesse público. Desta vez o Farofafá, em artigo escrito pelo para sempre "filho da Folha", Pedro Alexandre Sanches, mistura alhos com bugalhos para celebrar o Dia da Consciência Negra.

"Conciliador", Sanches elabora uma lista à-la Billboard, para enumerar uma lista de 46 músicas com temática associada ou atribuída à negritude. Só faltou incluir Thiaguinho, Só Pra Contrariar, Belo e Mr. Catra para completar a lista, mas creio que o discípulo pós-tropicalista de Francis Fukuyama já se encontra bastante pressionado pela opinião pública para cavar do fundo do poço.

Há inclusões corretas, como nomes respeitáveis como Dona Ivone Lara, Zezé Motta, Jorge Ben Jor, Gerson King Combo, Cassiano, Leci Brandão e a branca Clara Nunes (que no entanto sempre cantou em favor da negritude brasileira), já falecida. Há, também, o também falecido Itamar Assumpção, também lembrado no listão "farofa-feiro". E, também do além, Tim Maia e Taiguara.

Também Paulo Diniz e o cantor de reggae baiano Edson Gomes foram lembrados. Da mesma maneira, Maria Alcina, Dom Salvador e Luís Vagner, em doses repetidas, e o hoje ator Toni Tornado. Além deles, os também saudosos Bezerra da Silva, Wilson Simonal e Erlon Chaves.

Até dois artistas que tiveram a reputação abalada pelo Procure Saber, Gilberto Gil e Djavan, foram incluídos. Mas nada de Milton Nascimento. Da velha guarda da música brasileira, só Ângela Maria foi lembrada. Nada dos grandes Roberto Silva, Zé Kéti, Noite Ilustrada ou Jorge Veiga.

Enquanto isso, tudo para os intérpretes da segunda divisão do brega como determina o que resta de (pior) do esquerdismo é adotado pela intelectualidade cultural dominante: a de impor o "reconhecimento" de certos ídolos pelo corporativismo militante de pretensos socialistas soros-positivos (recebem uma graninha de George Soros, repassada de mão em mão).

Aí, haja Wando dos tempos em que ele era o imitador de Jorge Ben, anos antes de se tornar a versão "farofa" de Chico Buarque. Haja os breguíssimos e frouxos Luiz Caldas e Raça Negra, que o "dirigismo cultural" empurra goela abaixo para as esquerdas.

Tem também o outro nome do "dirigismo", o ex-Art Popular Leandro Lehart, que levou 20 anos para se considerar "gênio visionário", num surto de pretensiosismo artístico tardio e um tanto tendencioso.

Além disso, haja a choradeira do "funk carioca", classificando como "hino da negritude" o risível "Rap da Felicidade", cuja letra se resume a uma apologia à pobreza e a uma "consoladora" reivindicação para os pobres apenas circularem nos mesmos ambientes urbanos dos "bacanas". "Funk ostentação" bem antes de aparecer a cena paulista que conquistou até a revista Veja.

E há também a "prata da casa", a Gaby Amarantos que hoje faz amor com a Rede Globo e que sempre aparece nos listões do aluno-modelo de Otávio Frias Filho. A mesma Globo que, para Sanches, parece uma Vênus platinada meio amada e meio odiada pelo coração-partido do "farofa-feiro", no fundo triste por não ser chamado para ser colunista do Fantástico.

Para Sanches ela faz tudo, "protesto", "inquietação social", "hinos de autoafirmação social" etc. Ora, o que Gaby Amarantos faz é tão somente um pop comercialíssimo brasileiro. Só. Imagine se Lady Gaga e Justin Bieber fossem brasileiros. Eles seriam "guerrilheiros bolivarianos"?

A lista nem sempre mostra os verdadeiros hinos da negritude. Foi mais um desfile em que nomes de qualidade são usados para justificar a inclusão de nomes medíocres. Como nos conceitos de "livre-mercado", em que o capitalismo selvagem se apoia numa liberdade que só serve para aniquilar a concorrência. E em tempos em que a intelectualidade quer derrubar a MPB...

O REI DO CAMAROTE E SEUS IRMÃOS DA PERIFERIA

CIDADANIA? O funqueiro MC Gui (não confundir MC Guimé, apesar de estarem no mesmo "bonde") largou os estudos e, mesmo menor de idade, já posa ao lado de carrões cantados nas letras de seus sucessos.

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: As esquerdas médias estão em desespero. O texto abaixo põe tanto o "Rei do Camarote" quanto o "funk ostentação" no mesmo balaio, desta vez numa análise contestatória bastante válida, do contrário do cartaz positivo que a Veja São Paulo deu a ambos (para desespero de nossa intelligentzia que tanto queria exaltar o "funk ostentação").

O Rei do Camarote e seus irmãos da periferia

Por Marco Antônio Araújo - Blogue O Provocador

O Rei do Camarote colocou em evidência um estilo de vida que poucos conseguem manter, mas muitos desejam. Talvez por isso a triste figura do empresário coxinha tenha despertado tanta fúria (e inveja) nas redes sociais.  Essa fantasia típica do capitalismo selvagem se torna doentia quando observamos que ela se manifesta de forma epidêmica exatamente entre os mais pobres.

Isso é evidente quando consideramos o crescimento do chamado funk da ostentação entre os jovens da periferia. Mais do que a decadência moral que suas letras comportam, o que preocupa é a completa falência do que já foi nosso maior patrimônio cultural: a música brasileira. É devastador.

Basta um exemplo, bem atual: o tal de MC Gui, um pirralho de 15 anos que abandonou os estudos para faturar R$ 120 mil por mês esbaforindo, com sua voz adolescente, a letra de “Ela Quer”, cujo vídeo já superou a marca de 3 milhões de visualizações no YouTube.

O infante faz em média 50 shows por mês. Não falta plateia para ouvir preciosidades como “Ela quer minha Lamborghini, ela quer o meu Camaro, ela só quer saber de tomar champanhe, e do mais caro”. É disso que se trata.

O funk, trilha sonora de traficantes e marginais, criou uma filial para tratar do que interessa de fato para a maioria dos jovens desvalidos: enaltecer o que há de pior nas elites. É como se a Senzala invadisse a Casa Grande apenas para ocupar o lugar de seus opressores.

Ostentação, individualismo, desprezo pelo trabalho e a exaltação de bens materiais como um fim em si mesmo.  Os ícones são os mesmos: carrões, iates, roupas de grife, joias, mulheres, bebidas importadas. Estamos condenados: desse caldo não sairá nada de bom. Quanta pobreza.

Já fomos um país inteligente, com uma música popular de altíssimo nível. Mesmo o brega e o pagode de outrora destilavam poesia, paixão e coragem. Até o samba da malandragem tinha talento e dignidade. Agora é porrada. Pancadão.

Uma elite ignóbil, pobres ignorantes e uma classe média egoísta. Não tem lugar pra tanta gente nos camarotes.

"FAROFAFÁ" AGORA "QUESTIONA" STATUS 'INDIE' DA SOM LIVRE


Por Alexandre Figueiredo

O texto foi escrito meses atrás, mas a postura vale até hoje. Através do texto Brazilian Sertaneja Music, que tenta recuperar a tese, um tanto combalida, de que o "sertanejo universitário" havia "conquistado" o mundo através de Michel Teló e companhia, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, sempre fiel às lições da Folha de São Paulo, cometeu mais uma pérola.

Reproduzindo um texto da jornalista da Billboard, Leila Cobo, sobre os fenômenos "sertanejos", Sanches põe entre parênteses o seguinte comentário: "nota de FAROFAFÁ: é curioso, no mínimo, que a Billboard considere “indie” a gravadora da Rede Globo", quanto à passagem em que Leila define a gravadora Som Livre como "independente".

O curioso é que a Som Livre mais parece a gravadora do Farofafá, uma vez que vários de seus intérpretes são contratados pela gravadora da Rede Globo, como vários intérpretes de tecnobrega, de "funk carioca", de "sertanejo universitário" e de "pagode romântico". Só falta Odair José ganhar um contrato. Talvez uma choradeira no Programa do Jô ou no Mais Você possa ajudar.

Sanches é do tipo de pessoa que, ao dizer que "o mercado morreu", na verdade está ressuscitando o mesmo. Propagandista da "rica cena" dos vários cantos do país, como o tecnobrega / tecnomelody do Pará - o "Pará-iso" pseudo-cultural que alegra os barões da mídia e tenta fazer muitos esquecerem do problema do coronelismo no Estado - , ele tenta dar a impressão que no Brasil só teremos mercado independente.

Até pouco tempo atrás, até mesmo ele acreditaria que a Som Livre era "independente". Mas hoje existem pressões e ele, o garoto-de-recados dos barões da mídia que veste a camisa do time adversário, tenta forçar um pouco seu desvínculo aparente com o poder midiático.

Isso porque é a Som Livre que tem sob seu passe sua querida musa paraense Gaby Amarantos, além dos seus neo-badalados Luan Santana e Thiaguinho. E ele segue firme endeusando Paulo César Araújo e sua tese absurda de que o brega é "a música de protesto brasileira", mesmo quando este havia se tornado "consultor" de brega das Organizações Globo.

Que intelectualidade cultural é essa que defende a bregalização a todo preço? E que moral ela tem para embarcar nas causas progressistas como a reforma agrária e a regulação da mídia, se ela na verdade atende aos interesses mercadológicos dos barões midiáticos e dos grandes proprietários de terra que financiam essa "cultura transbrasileira"?

Daí o grande problema de querer pregar suas ideias nas causas progressistas. Pensemos como quisermos, sigamos o caminho que sigamos. A escolha é livre, mas obrigatório é saber de que lado estamos realmente andando. E a intelectualidade cultural dominante, cá para nós, só quer saber de promover cultura de centro-direita nos ambientes da mídia esquerdista.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

BOA PARTE DOS NEGROS POBRES NÃO É SEQUER UM NÚMERO ESTATÍSTICO


Por Alexandre Figueiredo

O Brasil é um país com população majoritariamente masculina. Isso mesmo. No entanto, a informação não é assumida pelos dados oficiais, que tentam difundir um dado contrário, repetindo métodos viciados oriundos da ditadura militar.

Em 1960, com um país mais pacato, havia uma proporção de 101 homens para cada grupo de 100 mulheres. Por que, com o passar do tempo, com mais mulheres expostas à violência e outras tragédias, num índice de aumento maior que a dos homens, o Brasil é tido como país de "maioria feminina" se a realidade não corresponde a isso?

O que se observa é que cerca de 100 mil homens não chegam a ser registrados pelos dados estatísticos. 99% deles são negros e pobres. São moradores de ruas, desempregados e até criminosos ainda soltos nas ruas, que não são sequer números pelos dados dos Censos de cada década.

Enquanto isso, o mito da "maioria feminina" foi armado na ditadura militar para atender aos interesses do mercado turístico e hoteleiro e para atrair mão-de-obra masculina do interior para as grandes capitais ou para atrair investidores estrangeiros. Isso não foi resolvido ainda com a redemocratização.

Mas isso nem de longe beneficia as mulheres, porque, enquanto o Censo discursa de que elas "são maioria", o que se nota é o aumento da mortalidade feminina pela violência conjugal, pelos assaltos, tiroteios, erros médicos, acidentes de trânsito e outras tragédias que são jogadas debaixo do tapete para agradar o lobby de tarados machistas e o corporativismo feminista.

Não se resolve a tragédia feminina, e, por outro lado, se camufla a maioria masculina "mais incômoda", cujo registro no Censo aumentaria, e muito, a dívida interna do país. A dívida social aumentaria se o Censo de fato registrasse os 100 mil homens que estão fora dos dados censitários, muitos deles localizados em favelas de acesso difícil pelos recenseadores.

O grande problema é que boa parte desses homens é de cor negra, e se em outros tempos camuflava-se o racismo com o termo "pardos", hoje escondem-se homens em prol de um "Brasil mulher" fantasioso das propagandas governamentais.

Isso cria uma situação incômoda para os dados estatísticos, que, mesmo sem um propósito aparente, criam um mito racista e machista de um "Brasil mulher e branco", embora tendenciosamente mostrando mulheres negras em suas propagandas para atender, por mera obrigação legal, a demandas de diversidade social.

Assim, negros pobres, sem emprego e moradia, não aparecem no Censo, enquanto nele permanecem mulheres que "fazem número" mas que já estão mortas há algum tempo, seja por maridos, namorados, ladrões, motoristas embriagados ou médicos irresponsáveis, etc.

Triste Brasil em que se distorcem os dados estatísticos dessa forma.

MITO DA INSTANTANEIDADE PERDE SENTIDO COM A INTERNET


Por Alexandre Figueiredo

A instantaneidade, um dos mitos que asseguraram, durante anos, a supremacia do rádio, perdeu praticamente todo o seu valor com o surgimento da Internet. A ideia do valor da informação ser medido pela transmissão em primeira mão tornou-se obsoleta.

Afinal, quando a instantaneidade era ainda um mito sagrado e inabalável, a ideia era que a informação valia quando transmitida quase ao mesmo tempo que o fato do qual ela representava. E o primeiro a transmiti-la tinha sua oportunidade de ser "rei" de sua façanha, mesmo por algumas horas, num tempo em que a informação se propagava de forma mais lenta.

Hoje, ironicamente, a Internet é capaz de transmitir informações em tempo real em grande escala, mas isso derruba a reputação nobre que antes a instantaneidade do rádio exibia com triunfo. E isso se deve ao processo rápido de propagação de uma informação.

Atualmente, o primeiro que dá alguma informação só consegue celebrar sua façanha durante uns dois minutos. Em pelo menos três minutos, o primeiro emissor de uma informação é deixado de lado, porque sua informação é transformada e dimensionada por outras fontes, por outros emissores de informação e também por comentaristas diversos.

A informação que antes valia pela emissão ou transmissão em primeira mão hoje tem esse valor praticamente perdido, uma vez que, com a velocidade de propagação, ela é reformulada constantemente por outras fontes, por opiniões e por outros desfechos difundidos em larga escala na rede mundial de computadores.

Por isso é que o "primeiro a saber" acaba caindo no esquecimento, ou, pelo menos, caindo na concorrência de outras fontes e pessoas que imediatamente retrabalharam e redimensionaram uma informação.

Na era da tecnologia digital, a primeira informação a gente pouco se lembra.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA APOSTA NOS "PRICS"


ALÉM DA FALSA SOLIDARIEDADE COM A CAUSA PALESTINA (FOTO), INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA NÃO QUER BRASIL CULTURALMENTE DESENVOLVIDO.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que aposta na bregalização do país aposta no crescimento do PRIC, o grupo de potências emergentes do mundo. Não é um erro gráfico, porque certamente não se está escrevendo BRIC, e sim PRIC.

Para quem não sabe, BRIC é o grupo de potências emergentes integrado por Brasil, Rússia, Índia e China. Só que a intelectualidade pró-brega não quer a inclusão do Brasil nesta festa. Em teoria, até quer, e diz desejar muito, mas na prática luta para impedir que isso ocorra de toda forma. Há várias formas de dizer "não", entre elas a de parecer que só está dizendo "sim".

A agenda temática da intelectualidade cultural dominante superestima o Oriente Médio. É verdade que é bastante salutar que analistas brasileiros estudem a situação dos países centro-orientais da Ásia e África e seus conflitos seculares.

No entanto, quando uma parcela da intelectualidade começa a falar do Oriente Médio como se falasse dos assuntos de seu próprio condomínio, a coisa fica estranha. A estranha ênfase na luta do povo palestino, não pela solidariedade a eles mas pelo modismo de pegar carona na sua cobertura jornalística, não teria por trás outras causas?

Sabe-se que a intelectualidade pró-brega é financiada pelo magnata George Soros por intermédio das instituições diretamente financiadas por ele. Daí um estranho projeto de emancipação social dos países emergentes, que pede uma sociedade mais "homossexual", mais "ciberdigitalizada" e até "maconheira" e "pirateira", mas não necessariamente mais justa ou igualitária.

Diante dessa agenda ideológica estranha, que no âmbito brasileiro superestima que apenas o crescimento econômico trará, por si só, cidadania e qualidade de vida, apenas com alguns ajustes políticos, institucionais e legais, o que se pode inferir é que os intelectuais "bacaninhas" querem mesmo é que o Brasil deixe o clube dos emergentes o mais rápido possível.

Nota-se que essa patota tornou-se uma torcida barulhenta e um tanto maluquete, além de bastante tendenciosa, para a criação do Estado Palestino, ou, melhor dizendo, da nação Palestina. Tudo bem. Aliás, é fundamental defender a criação da Palestina, como forma de reconhecer a luta de seu povo.

Mas as elites intelectuais brasileiras querem zoar, e enquanto querem que o povo pobre brasileiro permaneça com suas favelas, seu comércio informal, seu subemprego, seus prostíbulos e sua bebedeira, elas preferem que a Palestina chegue ao Primeiro Mundo antes mesmo do Brasil.

Talvez seja porque George Soros está de olho no petróleo do Oriente Médio. Quanto à intelectualidade brasileira, que a cultura, que deveria ser uma ferramenta forte para o desenvolvimento social, se desabe em breguices e se congele na sua "feliz" degradação de valores sociais e morais.

Afinal, para a intelectualidade cultural dominante no Brasil, o povo pobre só pode prosperar com dinheiro do Bolsa Família e, no caso dos seus ídolos "culturais", com verbas do Ministério da Cultura. Como se uma chuva de dinheiro resolvesse, em si, todos os problemas. Mas não resolve. Se dinheiro não traz felicidade, ele irá trazer por si só qualidade de vida e cidadania?

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

INTELECTUAIS PRÓ-BREGA INSULTAM FAVELADOS


Por Alexandre Figueiredo

O que é o preconceito? Para muitos, é rejeitar algo que parece dar certo. Correto? Erradíssimo! Preconceito é simplesmente compreender mal alguma coisa, e muitos dos preconceitos ocorrem mais no lado da aceitação do que da rejeição.

Mesmo na aceitação mais entusiasmada, há expressões do mais verdadeiro preconceito, quando os entusiastas da ocasião não conseguem ter a real dimensão do problema do "outro", e acham que todo "outro" que dá um sorriso necessariamente é uma pessoa "feliz".

Na intelectualidade cultural dominante, bastante criticada por este blogue - muitas vezes para constrangimento de muita gente boa que pega carona nas esquerdas médias e nos pseudo-esquerdistas mais badalados - , isso ocorre muito, principalmente no que se refere à cultura popular.

Há mais preconceito nas campanhas a favor do "funk" do que nas campanhas contra. Isso é fato. Tanto que, para justificar a rejeição que o "funk" sofre pelos vários segmentos da sociedade - até mesmo nas periferias, sobretudo entre muitas mães preocupadas com o destino de seus filhos nos "bailes funk" - , recorrem ao Brasil de 1910 para explicar o processo.

Isso é muito mais preconceituoso do que dizer que "o 'funk' é uma #$%@%". Não vivemos mais o Brasil de 1910, portanto não é o Brasil de 1910 que rejeita o "funk", é o Brasil de 2013 que o rejeita com cara e coragem, sem medo da cara feia de funqueiros que se servem a uma indústria na qual o povo pobre não pode trabalhar melodias nem buscar valores sociais dignos.

No que diz às favelas, a intelectualidade "bacaninha" que choraminga contra a rejeição ao "funk" atribuindo este sentimento ao Brasil da República Velha, portanto, estabelece uma postura "positiva" que mal consegue esconder um elitismo que parece "simpático demais" para ser assumidamente elitista, mas é tão cruel quanto qualquer "higienismo" fascista.

FAVELAS VISTAS COMO "ARQUITETURA PÓS-MODERNA"

Virou um aparente - mas discutível - consenso entre intelectuais badalados e dotados de visibilidade e prestígio de que as favelas brasileiras são sinônimo de "arquitetura pós-moderna" e que a pobreza é um processo lindo de configuração de valores de um "mau gosto" visto romanticamente como um misto de rebeldia com ingenuidade.

Daí a "pureza" que os intelectuais "bacaninhas" atribuem às populações pobres e que virou desculpa para não desejar melhorias sócio-culturais. A razão exata que faz essa intelectualidade agir assim não é oficialmente conhecida, mas sabe-se que a glamourização da pobreza e da ignorância que está por trás disso esconde um sentimento preconceituoso cruel.

Com isso, os intelectuais "bacanas" insultam a população das favelas. Sim, aqueles mesmos intelectuais "legais" que acham o brega "o máximo" e querem porque querem que o "funk" vire patrimônio cultural. Aqueles mesmos os quais seus defensores se assustam quando alguém contesta energicamente o pensamento desses intelectuais.

Esse insulto se dá porque a intelectualidade cultural dominante, mesmo com um discurso que empolga muitos e resulta em aplausos e ovações, adota uma postura cruelmente preconceituosa e elitista com o povo pobre, ignorando a verdadeira realidade das favelas, que vai muito além das "pefierias legais" idealizadas até em documentários e monografias pela mais festejada intelligentzia.

EXCLUSÃO IMOBILIÁRIA

As favelas surgiram como construções acidentais, fruto da exclusão imobiliária que impede que os operários que construam edifícios diversos sejam seus próprios moradores. Fala-se muito em cotas para universidades, mas nunca se fala, por exemplo, em cotas de gente pobre para habitar edifícios nas grandes cidades, o que resolveria, e muito, o problema habitacional existente.

Não há como ver as favelas como "paraísos" se as condições históricas de suas construções são muito mais ingratas que os antigos quilombos do século XIX. Pelo contrário, as favelas são construções improvisadas, precárias, que se amontoam em caóticos labirintos suburbanos, em locais de acesso difícil, mas que eram o que seus moradores "puderam encontrar".

A visão intelectual, por outro lado, glamouriza a pobreza e a ignorância, e por conseguinte, glamouriza também as favelas. Isso é péssimo. Para piorar, é um discurso trabalhado de tal forma que, parecendo "positivo", cria na intelectualidade dominante (de classe média alta) e seu público (de classe média em geral, exceto a baixa) um sentimento de falsa consciência social.

Creditando as favelas como "paraísos" de cunho habitacional e sócio-cultural, a intelectualidade cultural dominante acaba promovendo não uma visão generosa das populações pobres, mas um elitismo bastante cruel travestido em palavras dóceis e alegres. E que, para piorar, volta e meia esse discurso aparece até mesmo nos cenários reais e virtuais das mídias esquerdistas.

Com essa visão intelectual, que no fundo deprecia "pra cima" a situação das classes pobres, atribuindo a elas uma "riqueza social" que não existe, as favelas são vistas como um cenário de um espetáculo de apologia à miséria, à ignorância e ao subdesenvolvimento, numa corrompida noção de aceitação do "outro" através da conformação com a pobreza alheia e seu "mau gosto popular".

Ignorando relações de dominação, de exploração, de conflitos de classes dos mais diversos, mesmo sendo a "guerra fria" social do microcosmo das vidas urbanas, os intelectuais, ao espetacularizarem a pobreza, a ignorância popular e as favelas - como "cenários" de um teatrinho paternalista que diz que "é lindo ser pobre" - , tentam desmobilizar a luta das classes populares.

Esse discurso intelectual, autoproclamado "progressista", entra em contradição a todo momento, com o choque drástico entre as periferias idealizadas pela "ideologia da diversidade cultural", criando um descompasso entre a imagem "cultural" do povo pobre trabalhada oficialmente no discurso intelectual e a dura realidade vivida no seu cotidiano.

Por exemplo, enquanto certas sub-celebridades femininas dotadas de peitos e traseiros siliconados simbolizam a "emancipação feminina" atribuída à "cultura popular", na vida real jovens meninas são estupradas e até mortas por tarados pobretões dotados de tanta ignorância que acreditam que nada sabem fazer senão forçar mocinhas faveladas a transar com eles.

Da mesma forma, as "maravilhosas" favelas do discurso intelectualoide se desfazem nas chuvas. O Morro do Bumba não aparece no "funk", não existe deslizamento de terra na "favela feliz" que ouve de Odair José a Mr. Catra, de Gretchen a Thiaguinho.

Não aparecem na "alegre cultura da periferia" os assaltos nas ruas, os tiroteios entre criminosos e policiais que volta e meia dizimam inocentes nas periferias de verdade, não aparecem os dramas familiares por causa das greves nas escolas e da escolaridade precária de nossos meninos que serão cidadãos medíocres no futuro.

Portanto, a intelectualidade pró-brega acaba ofendendo as populações pobres. E ver quantos aplausos, gritos e assobios entusiasmados de plateias lotadas são desperdiçados por conta de uma intelectualidade que sabe trabalhar ideias nefastas com um discurso atraente.

Enquanto isso, a realidade do povo pobre é algo muito mais complexo para que seja contemplado apenas pela Bolsa Família ou pela Lei Rouanet. O buraco é mais embaixo, e as favelas estão muito longe de serem paraísos. Também pudera, nossos intelectuais estão lá longe, no alto de seus condomínios. Não poderiam entender mesmo as periferias fora de seus filtros midiatizados.

domingo, 17 de novembro de 2013

MÚSICA BRASILEIRA E RESPONSABILIDADE SOCIAL

INFELIZMENTE, A CHAMADA "CANÇÃO POPULAR" SEGUE A MESMA LÓGICA DAS LINHAS DE MONTAGEM DE AUTOMÓVEIS.

Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, a música brasileira está em crise. Há a supremacia de tendências popularescas, que predominam nos sucessos radiofônicos, enquanto parte da MPB autêntica considerada "de elite" é combatida pela campanha agressiva de intelectuais dominantes.

Não temos uma alternativa. A MPB de qualidade vive o dilema entre os artistas mais conhecidos porém associados a uma ala "elitista", enquanto outros não conseguem sequer serem reconhecidos pelo público mais mediano. Por outro lado, há a breguice organizada de ídolos comerciais que tentam monopolizar os paradigmas de "canção popular" existentes hoje.

A intelectualidade cultural dominante tenta classificar como "opção viável" os ídolos bregas veteranos ou relativamente veteranos, supostamente "injustiçados" em que pese todo o sucesso radiofônico, fonográfico e de apresentações ao vivo acumulado.

Reclamam que são "grandes artistas" que foram "incompreendidos" ou "mal-orientados" pelo mercado e pela indústria da música. Alguns desses ídolos até aparecem para reclamar que foram explorados por empresários ou produtores, ou que seus primeiros discos - aqueles responsáveis pelo seu sucesso estrondoso - não saíram conforme o esperado.

Paciência. O grande problema é que, no começo de suas carreiras, os ídolos bregas aceitaram de bom grado que seus discos saíssem com esse resultado. Eles também se contentaram em escrever letras de temáticas exageradas, carregadas de um sentimentalismo viscoso, de uma pieguice chorosa, ou de outros sentimentos patéticos de alegria ou tristeza.

Esses ídolos ficam muito tempo fazendo todo papel constrangedor em programas de TV e rádio, ou em outros veículos midiáticos, caprichando no sorriso arreganhado, se comportando de forma ingênua e submissa nas entrevistas, fazendo todo o jogo do mercado.

No entanto, os anos passam e esses ídolos, que no começo de suas carreiras desprezavam a MPB autêntica, tentam agora emulá-la e persegui-la, e, quando não conseguem, fazem seus lamentos em entrevistas mais recentes.

Daí as queixas citadas. Daí a pose de supostos gênios incompreendidos. Daí a tentativa tardia e um tanto tendenciosa de dar guinadas na carreira e fazer, muitas vezes com duas décadas de atraso, o que deveriam ter feito no começo da carreira.

Eles querem reconhecimento, e até conseguem o apoio de intelectuais ou mesmo de artistas de MPB e Rock Brasil mais condescendentes. No entanto, isso se torna tarde demais para que eles obtenham algum justo reconhecimento, porque um artista pode não nascer sábio, mas ele deveria começar sua carreira com um mínimo de decência e firmeza artística possível.

Os ídolos do brega e derivados não sabem o que é responsabilidade social. Acham que é muito fácil gravar discos ruins e fazer papel de ridículos no começo da carreira e, duas décadas depois, dizer que eram "gênios incompreendidos" ou alegar que foram "explorados" por produtores e empresários ou que seus primeiros LPs eram "mal gravados".

Responsabilidade social significa ter um pouco de auto-respeito artístico, é dar um valor minimamente significativo ao seu talento. Infelizmente, muitos ídolos do brega-popularesco acham que no começo é tudo brincadeira, e perdem muito tempo trabalhando a mediocridade artística investindo o máximo no mau gosto.

Só mesmo depois, muito depois, quando são duramente criticados, é que eles tentam pensar em trabalhar algum valor. Querem um programa trainée para parecerem "grandes artistas". Querem gravar discos sofisticados, alguns até têm a pretensão de querer criar "movimentos musicais", mas isso só depois de serem abatidos pela crítica especializada no meio do caminho.

Daí a grande bronca sobre a tal "MPB de mentirinha" ou sobre até mesmo os ídolos coitadinhos que buscam a blindagem intelectual que lhes pode, ao menos, influir na inclusão de espaços nas "viradas culturais" das grandes cidades.

Seus ídolos só conseguem admitir a validade da MPB quando se tornam ricos ou, na pior das hipóteses, são duramente criticados. Mas, da forma espontânea e criativa, eles não se interessam em evoluir. Tudo é forçado pelas circunstâncias e pelas conveniências.

Aí eles apelam para outros arranjadores, para músicos de apoio mais gabaritados e para uma cosmética de vestuário, técnica e tecnologia. Na pressa de quererem ser "mais artísticos", gravam covers até demais, enquanto apelam para o embelezamento sonoro no trabalho de outros arranjadores.

O resultado nem chega a ser tão criativo, como prometem tais "artistas", mas mesmo assim a intelectualidade "bacaninha" e pró-brega aplaude e dá nota dez em trabalhos musicais que, quando muito, ganhariam um 4,5 suado.

Por isso o recado que se pode dar aos futuros artistas é evitar fazer qualquer tipo de breguice musical. Seja o brega original, seja o "pagode romântico", seja o "sertanejo", "forró eletrônico" e por aí vai. Se quer algum lugar na MPB autêntica, faça isso no começo, caprichando numa arte decente nas melodias e letras, evitando fazer papel de ridículo nos primeiros anos de carreira.

Isso porque duas décadas são suficientes para "queimar" um cantor medíocre na carreira. A intelectualidade até se dispõe a recuperar a reputação "queimada", mas isso mostra também o aspecto ridículo dessa intelectualidade, e não consegue elevar o crédito do "artista" desgastado.

Criatividade não é uma linha de montagem do "fazer bem", como se imagina na chamada "canção popular". Fazer música deveria ser uma questão de espírito, mas com o trabalho da melhor criatividade possível, sem apelar para o ridículo do brega.

A música de qualidade não é questão de escola nem de riqueza financeira, em outros tempos até grandes sambistas, violeiros e sanfoneiros, vindos de comunidades bem pobres, surpreendiam, desde seus primeiros discos, com uma musicalidade incrível e uma postura de espírito que impressionava e cativava todos aqueles que os conheciam.

Não existe esse negócio de GQT (gestão de qualidade total) na música, do adestramento de antigos ídolos medíocres para que eles pareçam "geniais" mesmo muito tardiamente. Não existe ISO 9000. Se o cantor não provar seus propósitos desde o começo, seu reconhecimento artístico será bastante comprometido.

Cultura é responsabilidade. Mesmo quando se começa com menos sabedoria, deve-se ter um mínimo de autoestima e firmeza de espírito para evitar fazer o papel de ridículo e trabalhar um repertório artístico medíocre. Se começar a trabalhar a mediocridade e fazer sucesso por isso, o tempo mostrará cobranças que o remorso tardio não poderá mais resolver.
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