quinta-feira, 31 de outubro de 2013

PROCURE SABER TENTA REVER POSIÇÕES. TRÉGUA NA MPB?


Por Alexandre Figueiredo

O grupo Procure Saber publicou um vídeo no qual tenta rever suas posições em torno da defesa de autorização prévia de biografados e herdeiros para a produção de documentos sobre suas vidas.

Em quase cinco minutos, nomes como Roberto Carlos, Gilberto Gil e até Marisa Monte falam apenas em defesa da privacidade, sem acrescentar pontos relevantes que esclareçam a polêmica em torno do caso.

Depois da repercussão negativa causada pelo movimento, os integrantes do Procure Saber agora dizem que são contra a censura. No entanto, não deram qualquer explicação sobre a mudança repentina de posições, como também a respeito de seus posicionamentos anteriores.

A mídia e a intelectualidade também não ajudaram. A intelectualidade cultural dominante aproveitou o caso para demonizar a MPB como um todo e cooptar apenas alguns opositores do PS e considerados "malditos" da MPB autêntica para sua campanha pela bregalização do país.

Só que, sabemos, os ídolos bregas são os que mais zelariam por sua imagem. Eles não seriam libertários porque sabem como funciona a mídia sensacionalista e, por isso, possuem uma postura mais rigorosa contra as biografias não-autorizadas do que as de Roberto Carlos e Chico Buarque.

O caso Waldick Soriano, no qual o historiador Paulo César Araújo, tido como "vítima" da censura de Roberto Carlos e suposto "herói" da controvérsia, colaborou para a censura de um vídeo que mostrava o ídolo brega adotando posturas ultraconservadoras, é ilustrativo disso.

Afinal, nomes como Waldick (representado pelos seus herdeiros), Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso, Leandro Lehart, MC Leonardo, Chiclete Com Banana e outros "mais populares" não teriam uma postura libertária sobre as biografias. Eles são muito mais rigorosos com o zelo da imagem, mais do que se imagina.

O problema é que eles permaneceram em silêncio. Na cruzada do Procure Saber, criou-se até mesmo um maniqueísmo entre a nata da MPB, como Caetano, Chico, Gil e Roberto, e a turma do ECAD (Ivan Lins e a irmã de Chico, a ex-ministra Ana de Hollanda), que partiu para uma postura contrária ao PS.

Ou seja, de um lado os "vilões" do ECAD, naquele episódio do controle dos direitos autorais. De outro, os "vilões" da MPB "privatista" que querem manter uma privacidade além de seu próprio status de figuras públicas.

Os bregas tentam apenas aproveitar o cabo-de-guerra da MPB acreditando que ganharão tempo com isso para tomar para si o "olimpo" emepebista. Mas a MPB autêntica tenta uma trégua com uma postura aparentemente mais flexível quanto às biografias não-autorizadas.

Será que as polêmicas acabarão? Talvez não. A "urubologia" e a intelligentzia querem derrubar a MPB. E ainda mais quando Reinaldo Azevedo se juntou a Paulo César Araújo, Gustavo Alonso e Pedro Alexandre Sanches para começar a demolir o pedestal de Chico Buarque...

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

A QUALIDADE SALVARÁ A MÍDIA IMPRESSA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A precipitada visão da intelectualidade cultural dominante, sempre dotada de perspectivas mercadológicas e tecnocráticas, de que a mídia impressa morreu e agora é a informática a senhora absoluta dos movimentos sociais, cai por terra abaixo diante da visão coerente do experiente Mino Carta, que afirma que a mídia impressa pode sobreviver, desde que dê um salto de qualidade em seu conteúdo.

Sua Carta Capital, em que pese certos deslizes - como abraçar o Farofafá comandado pelo "filho da Folha" Pedro Alexandre Sanches - , ainda consegue se sobressair neste sentido.

A qualidade salvará a mídia impressa

Da revista CartaCapital

O jornalista Mino Carta, diretor de redação deCartaCapital, afirmou nesta segunda-feira 28, durante a entrega do prêmio As Empresas Mais Admiradas no Brasil, que “há uma precipitação na análise sobre o destino sombrio da mídia impressa, a começar pelos jornais diários”. Segundo o jornalista, a avalanche de informações proporcionadas pela internet tornou difícil a vida dos jornais. Para ele, no entanto, a salvação está na “capacidade de analisar os fatos de uma maneira crível, inteligente, profunda e sem a pretensão de impor as ideias próprias a quem as lê”.

“Tenho a certeza de que uma ilustração inteligente dos fatos, como uma maneira de analisá-los, pode efetivamente contribuir para a formação de uma opinião própria do leitor. A primeira saída para a mídia impressa é essa capacidade da análise inteligente e honesta, equidistante e equilibrada. Não é o que eu tenho observado por parte da mídia brasileira.”

O segundo aspecto considerado “importantíssimo” por Mino Carta é a capacidade de a mídia impressa colocar em prática o jornalismo investigativo. “É o que permite o que chamamos de furo, aquilo que o jornalista captura e que só ele detém. É o caminho que a imprensa brasileira abandonou faz tempo.”

Para o jornalista, CartaCapital tem se esforçado bastante neste sentido. Em seu discurso, Carta ressaltou a evolução da revista em seus 19 anos de vida e citou os “progressos notáveis” obtidos nos últimos anos. “A empresas e suas novas iniciativas cresceram cerca de dez por cento, graças a uma equipe extraordinária.”

Carta citou o crescimento da empresa nas áreas digitais, como o site, as plataformas digitais e as revistas de educação, Carta na Escola e Carta Fundamental. Fez menção ainda à reforma gráfica comandada pela diretora de Arte Pilar Veloso – que, em suas palavras, criou “a revista mais bonita do Brasil”. “CartaCapital é uma revista que já chegou ao ponto de tornar o futuro presente. Não tenho a menor duvida de que é a melhor revista que eu já dirigi. De longe”, afirmou.

Citando um antigo provérbio segundo o qual “as palavras voam, a escrita permanece”, Carta disse aos publicitários do País que não acreditem em tiragem, às quais estão em xeque e “decairão inevitavelmente”. “A mídia impressa é aquela que alcança o público decisivo, e é isso o que importa, do meu ponto de vista.”

"POR QUE VOCÊ ATIROU EM MIM": A VIDA NAS FRANJAS DE SP, ONDE DOUGLAS FOI EXECUTADO


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A polícia do Estado de São Paulo, governado pelo neo-medieval Geraldo Alckmin, realizou mais um ato de violência, matando um jovem que apenas queria praticar sua opção de lazer, no caso brincar de pipa. As classes populares vivem sua tragédia na capital paulista, como se não bastassem os incêndios que dizimam casas e estabelecimentos comerciais, deixando os que já tinham pouco sem qualquer condição de sobrevivência.

“Por que você atirou em mim?”: a vida nas franjas de SP, onde Douglas foi executado

Por Edson Domingues - Diário do Centro do Mundo

“Por que você atirou em mim?” Esta foi a última frase do adolescente Douglas Martins Rodrigues, executado na tarde do último domingo por policiais da Força Tática. A pergunta quase infantil de Douglas pode traduzir-se em afirmação: o Estado que chega ao Parque Edu Chaves – zona norte paulistana – é o Estado repressor.

Douglas buscava na tarde de domingo opção de lazer. Junto com o irmão, procurava autorização de algum familiar para participar de um torneio de pipas que ocorria num município vizinho na grande São Paulo. 24 horas depois o Secretário de Segurança Pública busca resposta à rotina praticada por policiais de sua corporação: abuso de autoridade e uso indiscriminado da violência.

Milhares de jovens da periferia encontram na rua o espaço de entretenimento. Como não há presença do Estado com equipamentos que dialoguem com a faixa etária mais presente nos distantes bairros da maior cidade da América Latina, a rua é o palco da convivência, da solidariedade e da tragédia.

No Parque Edu Chaves, Vila Medeiros e Jaçanã as noites são caladas. Não é raro escutar o velho ditado: “Aqui o filho chora e a mãe não ouve”. Não se trata da velada ameaça da bandidagem ou da organização criminosa no território, mas sim da distância geográfica dos serviços mais qualificados e dos governos.

Os pequenos campos de futebol são ocupados a cada dia, seja pela construção civil, seja por movimentos de moradia. Aqui não se sabe exatamente como será o amanhã. O comércio aguarda durante a semana a chegada do sábado, do domingo, dias de maior movimento nas padarias, salões de cabelereiros, bancas de jornais e outros serviços. Assim funciona a economia. Numa ponta do bairro, comércio. Na outra ponta do espaço geográfico, à beira da rodovia, esgoto no meio fio e crianças na calçada.

Subhabitações, puxadinhos e barracões predominam o cenário que ao entardecer torna-se precário com a escuridão. Há aqueles “parados na esquina”, que todos sabem a quem atendem, sejam eles vizinhos, sejam vizinhos de bairros de classe média alta em busca da diversão mais comum por aqui: o uso de drogas, leves e pesadas. Ainda assim, há laços de amizade, de parentesco, de associação.

A revolta que ocupa as ruas do Parque Edu Chaves é construída na esteira da comoção do disputado velório do jovem inocente. Se na periferia não há o exercício mínimo do aparato estatal para assegurar a prática cidadã, as relações entre os que ali moram se reforçam na solidariedade. Ou, ainda, as relações de troca no espaço público ocorrem entre os iguais via rede de solidariedade, tão marcante num ambiente formado de habitações precárias e de um urbanismo surreal, árido.

vila medeiros 2

É na franja da cidade que essa rede mais se manifesta diante da ausência de Estado, seja na colaboração entre mães para zelar pelo filho alheio durante a extensa jornada de trabalho, tempo perdido em precários ônibus que circulam sem regras de horário ou mesmo de trânsito, seja na solidariedade diante da fome, da dependência química, da construção da laje em pleno domingo ou da orgânica função das instituições religiosas num mar de esquecidos.

Aqui, o Estado é separado da sociedade. Não há sentimento de representação. A representação quando se dá é pela força. Outro ditado muito ouvido por aqui é: “Se não vai no amor, vai no terror.”

Atribuir ao recall da empresa fabricante do armamento da polícia paulista a execução de mais um jovem na cidade é maquiar a realidade presente nas tardes de domingo nos distantes bairros da periferia. As cenas dos telejornais da manhã de hoje exibiam jovens, negros, esfarrapados, numa catarse pré-anunciada do distante centro expandido da capital.

Não é a economia, estúpido! Os mesmos jovens que pela porta principal do distrito policial exibiam suas faces são aqueles que constam nas estatísticas da nova classe média brasileira. Da rua pra dentro de casa, as coisas vão bem, obrigado. É no espaço público que “o bicho pega”. Com as mazelas de um Estado que pouco chega, e quando chega mata, balbuciam palavras embargadas de sangue: “Por que você atirou em mim?”

Alckmin terá como zumbido a macabra pergunta.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

LOU REED E A MEDIOCRIZAÇÃO CULTURAL NO BRASIL

LOU REED, FALECIDO ANTEONTEM, APARECE AQUI COM CAMISETA LISTRADA, JUNTO AOS DEMAIS INTEGRANTES DO VELVET UNDERGROUND.

Por Alexandre Figueiredo

Numa época de mediocrização cultural galopante, cada vez que morrem artistas de grande talento, a situação se torna mais preocupante, uma vez que não há mais a presença deles para dar um diferencial para o cenário predominantemente estéril da música contemporânea.

Anteontem faleceu Lou Reed, o cantor e guitarrista que havia começado a carreira ainda adolescente em 1957, integrando bandas de garagem, antes de se tornar conhecido como um dos membros-fundadores do Velvet Underground.

Lou foi o terceiro integrante da formação clássica do VU a falecer. Nico, a modelo que se tornou, por um período, cantora do grupo, faleceu em um acidente de bicicleta em 1988. Sterling Morrison faleceu em 1995, vítima de câncer. A morte de Reed não foi esclarecida, mas teria sido causada por complicações no fígado.


Portanto, desta formação, que gravou o "álbum da banana" em 1967 - intitulado apenas The Velvet Underground and Nico - , sobraram apenas o também guitarrista John Cale - de formação dodecafonista - e a baterista Maureen "Mo" Tucker (vocalista da música "After Hours"), ultimamente convertida em direitista, apoiando o movimento neomedieval Tea Party.

O empresário e artista plástico Andy Wahrol, ícone da pop art, faleceu em 1987. Figura ímpar da cultura nova-iorquina, ele havia sido homenageado, em 1991, por Lou Reed e John Cale, no álbum Songs For Drella, referente a um dos apelidos de Wahrol no seu meio.

Coincidência ou não, no Brasil, houve o paralelo de Caetano Veloso e Gilberto Gil homenagearem o Tropicalismo num álbum tributo chamado Tropicália 2, lançado dois anos depois de Songs For Drella.

Afinal, o Tropicalismo havia surgido na mesma época da cena alternativa diversificada do Reino Unido e dos EUA, entre 1966 e 1967, na qual o Velvet Underground foi um dos nomes mais expressivos.

O grupo seguia o estado de espírito da arte modernista, juntando rock de garagem, poesia de rua, e um movimento multimídia empresariado por Wahrol que unia artes plásticas, moda, teatro e cinema, além da música da qual o VU era um dos principais nomes.

O Velvet Underground foi um grande fracasso comercial, em seu tempo. Mas depois tornou-se influente em quase todo o rock pós-punk produzido, de Blondie e Smiths a Belle and Sebastian e Strokes. Todo o rock alternativo produzido de 1979 em diante tem, de alguma forma, influência do Velvet Underground e da carreira solo de Lou Reed.

"MODERNISMO DE RESULTADOS" SÓ VALE PELA EMBALAGEM

E ao vermos que a morte de Lou Reed choca num mundo de mediocrização cultural crescente, mesmo num contexto estrangeiro da banalização do ato de provocar causada por Miley Cyrus em suas performances recentes, ou na espetacularização organizada de Lady Gaga, no Brasil a situação ainda se torna muito mais grave.

É claro que o VU causou influência também no Brasil. Logo nos anos 60, o grupo teria em parte influenciado os Mutantes. O rock alternativo dos anos 80, sobretudo Fellini, sofreu influências da banda nova-iorquina. E, recentemente, Marisa Monte havia gravado "Pale Blue Eyes", uma das músicas do VU, num de seus discos.

No entanto, a "provocativa" intelectualidade dominante tenta criar um "modernismo de resultados" em que a rejeição e a vaia unem, forçosamente, a vanguarda alternativa e a retaguarda brega, num balaio de gatos a que se reduziu a proposta contestatória da "geleia geral" lançada pelo tropicalista Torquato Neto, sob a assistência musical de Gilberto Gil.

Daí que tentaram até mesmo criar tributos "alternativos" de Odair José e do grupo sambrega Raça Negra (!). Felizmente, não chegaram a comparar o Velvet Underground ao É O Tchan, só pela fachada "multimídia" que supostamente compararia os dois antagônicos grupos.

Aqui a cena alternativa vai aos poucos sendo substituída por bobos-alegres performáticos - tipo Felipe Cordeiro e seu Kitsch Pop Cult, ou grupos tipo Gang da Eletro, Bonde do Rolê e Vivendo do Ócio, ou poetas tipo Dudu Pererê - , já que os verdadeiros artistas alternativos não vivem da música e se concentram em seus outros empregos.

Os verdadeiros artistas alternativos são jornalistas, dentistas, taxistas, professores, servidores públicos, que apenas tratam a música como um hobby, e por isso têm seu diferencial artístico. Já os bobos-alegres da EMoPB simpáticos ao brega são apenas profissionais da música que juntam uma gororoba de informações superficiais para produzir performances "musicômicas".

Num Brasil marcado por sub-celebridades, em que qualquer siliconada posa de feminista sem motivo relevante e qualquer ídolo medíocre posa de coitadinho, fica muito complicado falar em cultura alternativa num país marcado pelo pretensiosismo.

Afinal, aqui as gerações recentes de jovens lunáticos, confiantes demais na sua overdose de informação e sem perceber a subnutrição cultural em que vivem confundindo quantidade com qualidade, acham que o hit-parade que consomem é  "alternativo" simplesmente "porque sim".

Diante de tantas tolices, tantas incoerências, tantas meias-verdades, tanto pretensiosismo, tantos mascaramentos, a mediocrização cultural, que tenta vender a retaguarda como se fosse vanguarda, e faz choradeira para promover o lixo cultural como se fosse "cultura de verdade", a morte de Lou Reed soa um fato sem importância.

Mas, para quem pensa a cultura no Brasil, é mais um exemplo estrangeiro que se vai, deixando órfã uma perspectiva cultural que é valorizada a cada dia por menos pessoas. Nas redes sociais, a morte de Lou pouco repercutiu. Se fosse um ídolo da axé-music, teria repercutido bem mais, infelizmente.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

ROBERTO CARLOS AGORA DIZ DEFENDER BIOGRAFIAS NÃO-AUTORIZADAS, "COM CONVERSA"


Por Alexandre Figueiredo

O cantor Roberto Carlos deu uma entrevista à repórter Renata Vasconcellos, exibida ontem no Fantástico da Rede Globo, mostrando-se aparentemente "flexível" quanto à produção de biografias sem prévia autorização do biografado.

Roberto é um dos líderes do movimento Procure Saber, ao lado de figuras como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, mais a adesão de Djavan, Milton Nascimento e Erasmo Carlos e do apoio "informal" de Vanessa da Mata e Jorge Mautner.

O movimento que defende os artigos 20 e 21 do Código Civil sobre a obrigatoriedade da autorização do biografado ou de qualquer de seus herdeiros legais a produção de documentos a seu respeito, como uma forma de zelar, com um certo rigor, a imagem do biografado e sua privacidade.

Diante da polêmica causada pelo Procure Saber, acusado de defender a censura e contrariar os interesses da classe dos editores, seus membros procuraram se manifestar à sua maneira, tentando justificar seus posicionamentos aparentemente proibidores, entre outros depoimentos.

Caetano Veloso havia escrito, em sua coluna de O Globo, que, entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, "muito cuidado é pouco". Chico Buarque tentou dizer que "nunca" foi entrevistado por Paulo César Araújo, até este divulgar um vídeo - do qual foram extraídas fotos - sobre tal entrevista.

Agora Roberto Carlos dá seu parecer e, aparentemente, mostrou-se "flexível" em relação às biografias a seu respeito, depois de mandar proibir, através de processo judicial, a publicação do livro Roberto Carlos em Detalhes, do mesmo Paulo César Araújo. Com o livro fora de circulação desde 2007, ano de seu lançamento, Roberto admite permitir sua volta às livrarias do país.

Roberto, no entanto, argumentou que defenderia biografias não-autorizadas "com conversa". É um argumento muito estranho, porque na prática ainda é uma autorização. Roberto argumentou que a biografia de Araújo pode circular, desde que "certos trechos" sejam eliminados de seu texto.

BIOGRAFIA OFICIAL

O artista capixaba ainda revelou que está escrevendo a sua própria biografia. Roberto Carlos garante que contará tudo que, segundo ele, deverá ser contado, principalmente os detalhes sobre o acidente de trem que o fez amputar uma das pernas.

Roberto acrescentou na entrevista para o Fantástico que sua biografia poderá render três livros. Ele está escrevendo os depoimentos a respeito de sua vida e carreira, e espera que um escritor faça o texto final da biografia.

Sobre o acidente ocorrido na infância, Roberto foi enfático. "Ninguém poderá contar do meu acidente melhor que eu. Ninguém poderá dizer o que eu senti e o que eu passei, porque isso aí só eu sei", afirmou.

REINALDO AZEVEDO GANHA ESPAÇO NA FOLHA DE SÃO PAULO

 
Por Alexandre Figueiredo

O raivoso e, por isso mesmo, "provocativo" colunista de Veja, Reinaldo Azevedo, agora tem mais um espaço na mídia, escrevendo texto também na sua nova coluna na Folha de São Paulo, o que indica que, em breve, ele poderá ganhar até mesmo um espaço na televisão.

A Folha de São Paulo, periódico cada vez mais alinhado com o PSDB, não se conforma com o desgaste do partido no seu Estado, e procura criar agora uma  "frente ampla" multimidia para ver se articula uma blindagem midiática para recuperar a reputação dos tucanos na sua própria base política, que é São Paulo.

Daí que a Folha de São Paulo, primeiramente, adquiriu um espaço na TV Cultura, emissora educativa que no entanto andava ideologicamente conservadora e com um mal disfarçado apetite financeiro de emissora comercial, a ponto de passar até mesmo filmes comerciais antigos de Hollywood, os mesmos que os lunáticos do TeleCine pensam ser "alternativos".

Aliada do Grupo Abril, a Folha também apoiou a mudança de comando do programa de entrevistas Roda Viva, entregue ao mesmo Augusto Nunes que escreve para Veja, a mesma "casa" de Reinaldo Azevedo.

A Folha também fez parcerias com o Grupo Camargo de Comunicação, tornando-se sócia da 89 FM, a "rádio rock" que trata os jovens como se fossem idiotas temperamentais e cujos donos haviam sido aliados de Paulo Maluf e, desde então, se mantido aliados de dois hoje ex-malufistas, o "cartola" da CBF José Maria Marin e o governador paulista Geraldo Alckmin.

Agora, a Folha reorganiza sua lista de colunistas que, com exceção de Jânio de Freitas (jornalista que se mantém num raro profissionalismo), é dotada de figurões com alguma inclinação para o conservadorismo ideológico que não raro trai os princípios de bom jornalismo. Eis então:

Segunda-feira: Ricardo Melo

Terça-feira: Janio de Freitas

Quarta-feira: Elio Gaspari

Quinta-feira: Janio de Freitas

Sexta-feira: Reinaldo Azevedo

Sábado: Demétrio Magnoli

Domingo: Janio de Freitas e Elio Gaspari

Ironicamente, Reinaldo Azevedo, o "pitbull" de Veja, que já havia passado pela Folha nos anos 90, ajudou o também jornalista Pedro Alexandre Sanches e o escritor Paulo César Araújo na demolição do mito Chico Buarque. Tidos como "progressistas", os dois têm que engolir a adesão de Veja e seu colunista na causa de jogar pá de cal na história da MPB autêntica.

Quanto ao espaço de Reinaldo Azevedo, seu aumento pode lhe trazer mais visibilidade. É verdade que Folha e Abril andam muito em crise, e nem mesmo a permuta de imagem da 89 FM e TV Cultura (ambas reacionárias e decadentes) com Folha e Abril consegue algum avanço.

Pelo contrário, a mídia direitista paulista se reúne menos para se fortalecer e mais para se apoiar nas suas fraquezas, assustadas com a transformação da sociedade que faz com que seus principais veículos e personalidades percam a reputação alta e outrora inabalável que tinham.

domingo, 27 de outubro de 2013

"FUNK" NÃO SERÁ COMO O SAMBA, O ROCK OU O JAZZ


MC GUIMÉ, ASTRO DO "FUNK OSTENTAÇÃO" - O "funk" é fechado na sua concepção estética e nos valores sócio-culturais mais primitivos.

Por Alexandre Figueiredo

O "funk" está sofrendo uma crise de reputação. Seus defensores, desesperados, tentam todo tipo de comparação, e a mais comum delas é a comparação com o samba de cem anos atrás. Dizem os defensores do "funk" que o ritmo hoje é rejeitado pela mesma sociedade que rejeitou o samba cem anos atrás.

A comparação não procede. Não tem o menor fundamento. Afinal, como se havia escrito mais de uma vez, a sociedade que rejeita os funqueiros, queiram ou não queiram, é moralmente muito mais flexível que aquela que rejeitou o samba em 1910.

A sociedade daquela época era extremamente aristocrática, não tinha consciência de sua brasilidade preferindo adotar anglicismos e galicismos, ou seja, imitar valores da chamada alta cultura inglesa e francesa, mais prestigiadas no mundo ocidental de 1910.

Esta sociedade, dotada de um moralismo extremo, se inquietava com um pezinho mostrado por uma jovem moça ingênua. Musicalmente, apreciava a música erudita. Literariamente, adorava ler textos mais rebuscados. Era muito mais voltada à pompa do que até mesmo da própria capacidade de raciocinar, que, por incrível que pareça, não era o forte daquela geração.

Existe uma diferença muito grande da mocinha ingênua de 1910 que, indo à praia, mostrava os dedinhos dos pés banhados pela água e a funqueira de hoje que, com cinismo e arrogância, empina seu traseiro volumoso para os olhos de qualquer um, de maneira claramente grotesca.

Somos moralmente muito mais flexíveis, mas isso não significa que somos abertos a qualquer libertinagem. Abusos morais também podem constranger, e a provocação como um fim em si mesmo é vazia de qualquer intenção libertária, principalmente numa sociedade midiatizada e mercadológica que é hoje.

Além dessas comparações moralistas, que mal podem ser equiparadas quando a polícia de hoje reprime "bailes funk" e a de 1910 reprimiu as rodas de samba - que a clara diferença de contexto põe o "funk" em desvantagem, até pelas baixarias que este expressa - , há a comparação com os contextos culturais de outros tempos.

Neste caso, além do samba e do maxixe de 1910, a intelectualidade dominante tenta comparar o "funk" ao jazz dos EUA em 1900 e ao rock'n'roll em 1955. As argumentações usadas pela intelectualidade dominante, em primeira instância, lhes davam esperanças da futura "reabilitação" do "pancadão" pela chamada alta cultura, o que também não tem fundamento algum.

Em primeiro lugar, porque o samba, o jazz e o rock'n'roll se valiam pela linguagem musical. Mesmo quando o público os resumia a fundos musicais de suas festas, mesmo assim o aspecto musical era considerado, não era um mero som para catarse, mas uma linguagem vocal e instrumental que tinham sua razão de ser em relação à música comportada demais apreciada pelos adultos.

Se o jazz, por exemplo, fazia alusão aos formatos fálicos de seus instrumentos, e o samba era considerado sensual e o rock'n'roll tem esse nome por alguma referência sexual, no entanto isso não era colocado como um fim em si mesmo e nem acima do aspecto musical.

Já o "funk" é o contrário. É um ritmo praticamente subordinado ao contexto sexual (e brutal) e nada tem a ver com o desenvolvimento de uma estética musical. Do contrário do jazz, do samba e do rock, o "funk" é esteticamente fechado, tem sua rigidez que o faz o ritmo mais purista do Brasil.

Tecnicamente, o "funk" fica sempre preso na figura de um DJ e um MC. Geralmente o DJ é alguém de classe média baixa, que em muitos casos se torna empresário e fica rico. O MC é o mais pobre, e tudo que ele faz é dizer uma letra com um microfone na mão.

O jazz usava muitos instrumentos, e musicalmente rumou para a sofisticação, até para escapar de diluições que a forma branca e comportada de jazz, chamada Dixieland, fazia para imitar as novidades trazidas pelo jazz negro.

O samba tinha uma ampla variedade de ritmos, como o coco, o maracatu, o jongo, o caxambu, o lundu, e trabalhava não só com instrumentos percussivos, mas com violão, banjo e até alguns instrumentos de sopro. Gerou até mesmo uma variação quase erudita chamada chorinho, que era muito tocada nos redutos boêmios do começo do século XX.

O rock'n'roll veio de uma forma mais comercial de jazz, o swing, que entrou no meio das fusões do country and western e do rhythm and blues. Já tinha uma base musical mais sólida, que já começava a se evoluir no final dos anos 50, com músicos cada vez mais criativos - como Buddy Holly e Bo Diddley - e uma geração de bandas instrumentais que aprimoraram o gênero.

Portanto, nada a ver com o "funk", que havia rompido com todas as lições do funk autêntico feitas até os anos 80 e virou um ritmo fechado em sua "ilha", em seu "mundinho ideológico". Não é o "funk" a vítima de preconceito, antes o "funk" tivesse preconceito com tudo.

O "funk" rejeita todo tipo de evolução social. Seus propagandistas até tentam argumentar o contrário, mas seus argumentos são vagos e inconsistentes. Ficam preocupados com as críticas, mas em vez de cogitarem alguma mudança, posam de vítimas, achando que farão heroísmo resistindo a todo tipo de pressão contrária ao ritmo e ao que ele representa.

Portanto, não há como esperar uma evolução do "funk". Fechado e isolado nos seus princípios estéticos e sócio-culturais mais primitivos, o "funk" só faz aumentar as críticas e a rejeição que recebe. E, quanto mais seus propagandistas tentam promover o "funk" como falsa vítima, mais a sociedade reage tornando a rejeição cada vez mais rigorosa.

sábado, 26 de outubro de 2013

CRISE CRIADA PELO PROCURE SABER REFLETE EM NEO-BREGAS


Por Alexandre Figueiredo

A crise provocada pelos medalhões da MPB que criaram, junto com a produtora Paula Lavigne, o movimento Procure Saber, que defende a prévia autorização de biografados ou seus herdeiros para a produção de biografias ou material similar - historiografias ou documentários - se reflete também na geração de neo-bregas e alguns de seus derivados.

Alguns fatores podem até ser coincidência, como Alexandre Pires voltar ao seu antigo grupo Só Pra Contrariar, Chitãozinho & Xororó "presos" no seu auto-tributo sinfônico, Leonardo e seu filho Pedro Leonardo anunciando aposentadoria da música e Daniel, aquele sem sobrenome e repertório próprios, alimentando "visibilidade" no júri do programa The Voice Brasil, da TV Globo.

Podem ser coincidência, mas tais fatores indicam não só a perda de fôlego dos ídolos neo-bregas que marcaram os sucessos "populares" da década de 90 como a perda de sentido que o mainstream da MPB passa a ter para esses ídolos.

Afinal, desde uns quinze anos atrás os neo-bregas - geralmente ídolos do chamado "sertanejo" e "pagode" românticos, mas incluindo também alguns nomes da axé-music, do "forró eletrônico" e do "funk melody" - usaram a mesma MPB que aparecia nas trilhas de novelas e que hoje se reúne no "maçônico" Procure Saber para "repaginar" sua "estética" musical e visual.

Todos esses ídolos - como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Ivete Sangalo e Alexandre Pires - entraram como penetras na festa da MPB através de concessões ao brega feitas por Roberto Carlos, Caetano Veloso e Gilberto Gil, todos encabeçando o Procure Saber.

Era através deles que os neo-bregas adotavam uma estética de luxo e de pompa, que envolvia desde o vestuário até mesmo iluminação e até mesmo normas de etiqueta que, mesmo contradizendo seu aparente apelo popular, davam uma aparente sofisticação que disfarçava suas breguices.

Musicalmente, isso envolvia um aprimoramento técnico dos músicos de apoio, a intervenção de outros arranjadores no repertório dos neo-bregas ou mesmo recorrer a covers do que há de mais manjado na MPB autêntica, de Lupicínio Rodrigues a Renato Teixeira, geralmente com algum conteúdo aparentemente ligado ao romantismo, à fraternidade e à ecologia.

Os neo-bregas foram impulsionados sobretudo por Roberto Carlos, que eu sua fase bregalizada, após a boa fase soul de 1969-1975, e tutelada pela Rede Globo de Televisão (que contribuiu no "refinamento" dos neo-bregas). Nessa fase, o "Rei" havia se convertido de moderno ícone pop brasileiro a um cantor romântico conservador e em certo ponto antiquado e ranzinza.

A música "Caminhoneiro" abriu o caminho para a ascensão de "sertanejos" - ou melhor, breganejos - que deixaram a exclusividade dos palcos do Clube do Bolinha e outros programas da TV Bandeirantes, TV Record e SBT, ou, um pouco antes, na agonizante TV Tupi, para estrearem nos palcos de maior visibilidade da Globo e depois fingirem que "também fazem MPB".

Juntamente com os breganejos, vieram os "pagodeiros", ou melhor, os sambregas, todos diluindo seja a música caipira e o samba durante a Era Collor, mas que, já no fim do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, exibiam trajes de gala e camuflavam sua crise criativa com covers oportunistas que variavam do Clube da Esquina a Jackson do Pandeiro.

É certo que os neo-bregas, com sua cosmética pseudo-sofisticada, não alcançaram o primeiro time da MPB. Eles só "são MPB", assim, meio de mentirinha, para uma mídia e um público inseridos no contexto popularesco, já que, em verdade, nem de longe representavam a veia realmente criativa que marcou os grandes nomes da MPB autêntica.

Hoje, com a crise atingindo a MPB autêntica pelo zelo excessivo de seus medalhões, os ídolos neo-bregas chegam a um impasse. Aparentemente, adotam uma postura de neutralidade em relação ao Procure Saber. Tentam parecer "apolíticos" nesse processo todo.

Agora, vendo que a "fonte" se sujou através da postura protecionista de suas imagens pessoais, os neo-bregas já nem sabem o que fazer. Ideologicamente conservadores, eles não partirão para uma guerrilha libertária nem jogarão fora suas convicções.

No fundo solidários com o Procure Saber, os neo-bregas sabem muito bem o que é sensacionalismo na mídia "popular" e por isso tendem a exercer um rigor ainda maior na proteção de suas imagens do que pregam Roberto Carlos e Chico Buarque.

Daí situações surreais como certas intérpretes de "funk carioca" se passarem por "solteironas" num artifício sutil para esconder sua vida privada de mulheres bem casadas. Além de um recurso comercial para garantir a imagem "sensual" delas, é também um meio de proteger seus maridões de qualquer factoide.

Quem pega carona nas pregações intelectuais "provocativas" e "superbacanas" ignora que o próprio contexto sensacionalista da mídia "popular" faz com que os neo-bregas tendam a serem muito mais zelosos por sua imagem que qualquer medalhão de MPB.

Ou será que Alexandre Pires vai permitir que algum biógrafo enfatize sua ligação com George W. Bush? Ou as amizades de Belo com criminosos do narcotráfico carioca? Ou a pedofilia do É O Tchan e sua letra sobre estupro ("Segura o Tchan")? Ou o escândalo sexual do DJ Marlboro? E a sonegação fiscal de Ivete Sangalo? Ou o coronelismo de Chitãozinho & Xororó? Etc etc etc.

Os neo-bregas têm muito a temer com as biografias, bem mais do que os membros do Procure Saber. Mas, para evitar problemas, eles evitam qualquer posicionamento. Se assumirem suas posições, não muito diferentes da de Roberto Carlos, por exemplo, passariam por uma projeção negativa que deixaria suas carreiras à deriva.

Não bastasse sua crise criativa, seu desgaste de imagem e mesmo as transformações sócio-culturais que fazem suas músicas perderem o sentido - apesar de relativamente populares para um público ao mesmo tempo conservador e de baixo poder aquisitivo - , os neo-bregas preferem reagir em silêncio à crise causada pelo Procure Saber. Mas, neste caso, quem cala consente.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

NÃO SERIA MELHOR REGULAR O MERCADO DE BIOGRAFIAS?


Por Alexandre Figueiredo

Na grande discussão sobre a questão das biografias no Brasil, a verdade é que existe um grande dilema em jogo, subestimado pela intelectualidade dominante. É o duplo risco de, no lado das biografias rigorosamente autorizadas, haver a cobertura "chapa-branca" dos biografados e, no lado das biografias sem autorização prévia, da cobertura sensacionalista e até depreciativa.

Eu sou contra a proibição de biografias não-autorizadas, porque sei que isso limita muito à construção de uma memória histórica. Vide tantos anos em que historiadores, sobretudo a partir dos primeiros trabalhos ligados ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fizeram a respeito da História do nosso país.

Foram forjados supostos heróis cuja imagem oficial nada tinha de humanos. E situações foram distorcidas para mitos que passaram a valer mais que os fatos. Como, por exemplo, no tal episódio do "grito do Ipiranga", que teria marcado a Independência do Brasil.

A visão oficial diz que Dom Pedro I, heroicamente montado sobre um belo cavalo, levantou a espada naquele 07 de setembro de 1822 e gritou bravamente, não se sabe para que contexto, a famosa frase "Independência ou Morte".

Há muita controvérsia se esse grito realmente foi dado, pelo menos da forma que a História registra, mas historiadores recentes, comprometidos com a verdade dos fatos, revelaram que Dom Pedro I não estava montado num belo cavalo, mas num modesto jumento, e estava com vontade de fazer necessidades fisiológicas na ocasião do suposto grito.

Consta-se que o processo de Independência do Brasil, ou seja, sua autonomia em relação à coroa portuguesa - independência que, a rigor, só se efetivaria realmente em 1889, com a República - , teria sido feito mesmo pelo parlamento brasileiro e sob a habilidade política de José Bonifácio de Andrada e Silva, ministro do Império conhecido como o "patriarca da Independência".

As distorções históricas não são caso exclusivo do Brasil e, na França, um grupo de intelectuais, sobretudo Marc Bloch - morto pelas tropas nazistas em 1944 - decidiu quebrar com a hegemonia da "história dos acontecimentos" e do monopólio de celebridades e personalidades políticas como agentes transformadores da História da Humanidade.

Bloch havia criado a Escola dos Annales e fundado um outro modelo de abordagem histórica, a História das Mentalidades, em que não somente famosos ou políticos seriam agentes históricos, mas comunidades, figuras anônimas ou simples fenômenos sociais, como uma simples culinária regional, por exemplo, seriam também responsáveis pela transformação histórica de um povo.

A abordagem histórica pode até mesmo envolver brincadeiras infantis. Ou mesmo a história dos mendigos de uma cidade francesa do século XVIII. Ou mesmo a história do trigo, da tecelagem, dos transportes coletivos. Ou mesmo uma história das empregadas domésticas. Há a história de rituais, de brincadeiras, de profissões, de processos sociais.

Isso foi uma ruptura importante das abordagens históricas oficiais, o que mostra um passo que, sabemos, seria regredido no país se houvesse um monopólio de biografias - ou, por equiparação, historiografias e documentários cinematográficos - vinculadas necessariamente à vontade dos biografados.

Mas a intelectualidade dominante não pensa nisso. Ela usa todo tipo de contestação ao movimento Procure Saber mais como uma campanha para desmoralizar a MPB "elitista" do que para promover maior transparência no mercado de biografias e historiografias no Brasil.

Enquanto a intelectualidade se autopromove por erros cometidos até mesmo por Chico Buarque, poucos conseguem enxergar o outro lado, quando ídolos "populares" também exerceriam zelo rigoroso por suas imagens e sua privacidade.

Um "popular" Alexandre Pires, por exemplo, tem uma sede de controle de imagem comparável à de Roberto Carlos. Funqueiras ditas "solteiríssimas" na verdade estariam escondendo suas condições de mulheres muito bem casadas tanto para não afetar a imagem de "sensuais" que trabalham na carreira quanto para proteger seus maridos na privacidade.

Será preciso dizer mil vezes que o "herói-vítima" da situação, o historiador Paulo César Araújo, que tanto reclama de ter sido vítima da censura de Roberto Carlos, contribuiu para censurar a imagem ultraconservadora de Waldick Soriano, que pegaria muito mal para a "reabilitação" do cantor nos seus últimos anos de vida?

O "popular" comete pecados que não seriam absolvidos por seu contexto. As baixarias do "funk carioca" não podem ser consideradas mais "evoluídas" do que as que se observa com os comerciais de TV, porque é o mesmo processo de degradação sócio-cultural e moral, o que é feio para as elites não pode ser bonito se atribuído ao contexto do "popular". Não pode, mas é.

Por isso haver uma regulação do mercado biográfico seria melhor. Rever os artigos 20 e 21do Código Civil brasileiro, que estabelecem um sentido rigoroso na preservação da privacidade, é fundamental, não para transformar o mercado biográfico num vale-tudo editorial, mas estabelecer um equilíbrio que evite tanto a chapa-branca quanto o bullying biográfico.

Portanto, deve-se estabelecer critérios mais democráticos para a produção de biografias. Se eu quiser, por exemplo, fazer a biografia de Chico Buarque, eu desejo não ter a necessidade de pedir autorização a ele para fazê-lo. Mas eu nunca chegaria, também, à futilidade de dizer que sua rebeldia foi pura invencionice da RCA Italiana.

Para uma intelectualidade que acha que "baixarias" na cultura do povo pobre são refresco, questões desse tipo têm importância secundária. Elas não querem regulação da mídia, que comprometeria os divulgadores da bregalização cultural, nem reforma agrária, que afetaria os patrocinadores de muitos bregas e nem regulação das biografias, que frearia o sensacionalismo.

Essa intelectualidade só quer derrubar a MPB, na pressa de impor o "fim da História" que substituirá nosso rico patrimônio brasileiro pela tal "cultura transbrasileira" de bregas "coitadinhos" e porraloucas "performáticos" kitsch.

Pouco lhes importa a produção de conhecimento: para a intelectualidade ultrabadalada, só lhes interessa a cafonice, a sampleagem sem crédito, a pirataria, a precarização do trabalho e a derrubada de qualquer tipo de identidade sócio-cultural.

Para a intelectualidade pró-brega, o que interessa é que todos nós sejamos tudo, menos nós mesmos. Daí que sua campanha contra o Procure Saber nem de longe está preocupada com a democratização das biografias, em que pese a apropriação do debate neste sentido.

Para "farofa-feiros", "foras-do-eixo" e similares, o brasileiro não é cachorro, não. Mas também está longe de ser ele mesmo. E como defender a transparência biográfica para quem se preocupa mais com a boa imagem do "outro" do que de ter qualquer consciência do "eu", é um grande mistério.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

PREFEITURA DO RJ NÃO PRIORIZA PROJETOS HABITACIONAIS NO PORTO

SITUADA SOB O VIADUTO DA PERIMETRAL, AV. RODRIGUES ALVES É LOCAL PERIGOSO PARA TRANSEUNTES NO RIO DE JANEIRO.

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: É muito necessária a demolição do elevado da Perimetral, porque deixaria de existir a escuridão que faz com que a Zona Portuária se torne uma área perigosa até mesmo no período diurno, sendo um reduto de consumidores de drogas e de assaltantes.

No entanto, a Prefeitura do Rio de Janeiro, sempre ignorando o verdadeiro interesse público, não aposta numa verdadeira revitalização da área, limitando-se a transformar o entorno da Av. Rodrigues Alves em meras áreas de comércio e turismo.

Pior: os moradores que são desapropriados ainda foram ameaçados e intimidados pelos "técnicos" da Prefeitura, que não deram qualquer aviso prévio para o desalojamento além de oferecer promessas de reassentamento e indenização precários.

Prefeitura não prioriza projetos habitacionais no Porto

Do Jornal do Brasil On Line

O projeto inicial de revitalização da região portuária incluía, além das alterações em mobilidade urbana e na infraestrutura, a revitalização das moradias já existentes na região e a criação de novos complexos habitacionais, cujo resultado seria o repovoamento da região. Apesar do projeto, moradores afirmam que o local está sendo utilizado para a construção massiva de complexos empresariais, por seu caráter econômico mais vantajoso. Isso tornaria a região portuária uma extensão do Centro da cidade, com rotina movimentada e ativa apenas em horário comercial. A derrubada da Perimetral é o marco principal desse processo de suposta revitalização, mas não livra a região do seu futuro iminente: abandono e esvaziamento.

O período noturno e os fins de semana deixariam a região portuária tão deserta quanto atualmente, se transformando em um reduto para casos de violência e a instalação de moradores de rua. Isso resultaria em um afastamento ainda mais intenso do resto da população, o que vai de encontro com o próprio conceito de revitalização. Além da melhoria de mobilidade questionável, o projeto agora revela a falta de compromisso do poder público com a população local, totalmente ignorada no projeto. O presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (CREA-RJ), Agostinho Guerreiro, critica a postura da Prefeitura e não acredita em uma revitalização que desconsidera a construção de moradias.

“Não é o ideal porque quando se falou em revitalização, a ideia é revitalizar o porto e com isso, incluir a população. Qual o conceito de revitalização? É não ter uma cidade morta em nenhum momento do dia. E o que acontece com a cidade do Rio na parte da noite é que uma grande parte da cidade é morta, exatamente pela prioridade que foi se dando à parte de edificações institucionais, voltadas para serviços e comércio. São atividades que transcorrem fundamentalmente durante o dia”, explica Agostinho.

O engenheiro ainda comenta sobre o modelo adotado em outras grandes cidades, que garantiram a união entre complexos comerciais e residenciais. “As grandes metrópoles do mundo, quando fizeram projeto de revitalização, trataram exatamente de mesclar áreas mortas, por esse tipo de situação, com habitação. Mesmo em áreas que já eram destinadas a instituições, eles incluíram edifícios habitacionais. E nos próprios edifícios institucionais foram mesclados andares voltados para o trabalho [comercial e de serviço], com residências. Isso proporciona um bairro com vida 24 h por dia. Com esse projeto, vamos ficar com a região do porto sem ser revitalizada e o Centro permanece esvaziado”, alerta.

Agostinho ainda ressalta que o projeto inicial apresentado pela Prefeitura incluía a recuperação dos bairros antigos, como a Saúde e o Santo Cristo, revigorando suas partes residenciais já existentes, expandindo e mesclando com o setor de serviços. Também previa a criação de moradias de diversos padrões, envolvendo classes altas e baixas e que a mudança no projeto, priorizando edifícios não residenciais, significa “uma perda de oportunidade para a cidade”.

Os moradores da região reclamam que o governo impôs um projeto de edificação na região portuária, sem incluir um debate com a população. Um critica, junto com os demais moradores, a postura da Prefeitura. “Não conversaram nada, não falaram nada com ninguém, simplesmente avisaram que vai ser prédio comercial e ponto. Está todo mundo reclamando, queremos chamar o Prefeito pra abordar a situação e ver se conseguimos conversar sobre o assunto”, reprova.

A presidente da Associação dos Moradores do Morro da Conceição, Márcia Regina, afirma que nenhum tipo de investimento foi realizado na localidade e que a chegada de empreendimentos comerciais tem sido intensa. “Aqui no Morro da Conceição nada foi feito, a Prefeitura deixou muito a desejar aqui. Fizeram uma obra ‘para gringo ver’, abriram a rua toda porque iam fazer fiação subterrânea e a obra não foi finalizada. Tem uns postes aqui no meio da calçada, e as pessoas são obrigadas a andar no meio da rua. Tem dez dias que uma criança foi atropelada”, reclama Márcia.

A moradora ainda reclama do processo de desapropriação realizado no local, que retirou alguns dos moradores antigos para criação de estabelecimentos de comércio. Segundo Márcia, nenhum dos moradores retirados recebeu qualquer tipo de indenização ou realocação. Denúncias como essa já haviam sido feitas por outros moradores. A ação do governo municipal, que desapropriou mais de cem mil pessoas, teria violado o direito à posse, feito propostas inadequadas de reassentamento e/ou de indenização, ignorado realização de aviso prévio adequado, e ainda feito intimidação e ameaças.

OS BEAGLES E O AMADURECIMENTO DA GERAÇÃO Y


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A onda de protestos que transformou o Brasil pode ainda ser um processo incipiente de questionamento dos problemas diversos que envolvem nosso país, mas mostram que a manifestação se torna possível, depois de tantos anos de apatia marcados mesmo num período democrático como o que vivemos desde 1985.

Os beagles e o amadurecimento da geração Y

Por Mauro Donato - Diário do Centro do Mundo

E agora? Aquela famosa e ameaçadora geração que questiona tudo, que não admite autoritarismos, que prega horizontalidades, que exerce multi-tarefas com facilidade, cuja auto-confiança num primeiro contato pode-nos parecer beirar a arrogância e que com bons olhos pode ser entendido como uma insubmissão sadia, está chegando à idade de tomar as rédeas.

E o que você tem com isso?

Bem, ela não deixará pedra sobre pedra, e empresas que não estejam sintonizadas com os princípios dessa geração, empresas que se utilizem de trabalho infantil e/ou escravo, que promovam desmatamento ou se utilizem de recursos não renováveis, que sejam emissoras de poluentes ou que menosprezem a inteligência, a paciência e desrespeitem o consumidor/cliente/usuário, estão sendo achincalhadas nas redes sociais e correndo sério risco de qualquer dia desses verem suas instalações invadidas como ocorreu com o Instituto Royal.

Tudo que for moralmente questionável, como os testes com animais para a indústria química, cosmética ou famacêutica, mesmo que permitido por lei, será duramente combatido (no Brasil o uso de animais em pesquisa, inclusive cães, é autorizado e o advogado do Instituto Royal apressou-se em afirmar que o local “passa por constantes vistorias e nunca foi encontrada irregularidade”). Para eles não importa.

Os representantes dos Y são objetivos, são diretos. As causas sociais e a preocupação com o meio ambiente não são mais exercício de retórica como no passado. Eles os defenderão com unhas e dentes. De cara limpa ou com máscaras e roupas pretas se preciso. No grito ou na porrada. Os últimos noventa dias foram o cartão de visitas e as manifestações são uma cerimônia de posse com roteiro anarquista (muitos capítulos e final imprevisto). São o anúncio barulhento de sua nova condição de comandantes.

Os critérios para seleção das causas não são lá muito claros. Por que o Instituto Royal e não a Zara, a Nestlé ou a Coca-Cola (para ficar em três das que possuem telhado de vidros frágeis)? É legítimo ponderar que a fórmula entidade de defesa dos animais + envolvimento de celebridade + apelo emocional com caráter de urgência tenha sido preponderante para colocar o resgate dos cães no topo da lista das prioridades e carente de uma “ação direta”. Mas será de grande imprudência acreditar que se encerrará por aí.

É certo que haverá excessos pois estamos num momento de virada, um turn-over na história da humanidade, porém serão “desculpados” pela pressa em compensar a morosidade até então vigente. O mundo precisará se adequar a essa geração, que deseja tudo para ontem. Portanto, se você tem um negócio, mesmo que legal, regularizado, com os impostos em dia, mas em desacordo com a moral da geração Y, repense. Talvez seja melhor mudar de ramo.

"BOAZUDAS" TERIAM SIDO ORIENTADAS A SE PASSAR POR "CARENTES"


Por Alexandre Figueiredo

Num contexto de crise da vulgaridade feminina, as "musas" que tentam resistir a um processo natural de "seleção da espécie", buscam seus derradeiros apelos protegidas pelo pretexto do "popular" e dotadas da habilidade de seus empresários.

Como se sabe, até pouco tempo atrás havia uma "inflação" de mulheres siliconadas ou simplesmente dotadas de "corpos sarados", que nada faziam senão "sensualizar" em situações que estavam ficando cada vez mais repetitivas e cansativas.

Eram "musas" que nada tinham a dizer, ou, quando diziam, falavam bobagens. E cometiam gafes. Independente disso, porém, eram centenas de supostas musas aparecendo na Internet fazendo a mesma coisa.

Das ex-integrantes do Big Brother Brasil as "peladonas", passando por ex-dançarinas de "pagodão", funqueiras e assistentes de palco tanto de UFC quanto de humorísticos de TV, chegou-se a um ponto em que havia "popozudas demais" na mídia, e, para piorar, as veteranas não se aposentavam diante do surgimento de muitas novatas.

Havia até mesmo ex-integrantes da Banheira do Gugu "sensualizando" como se estreassem no mercado "sensual" popularesco. E tudo isso consentido pela intelectualidade dominante, que criou uma tese delirante de que as musas "populares" simbolizariam um "novo tipo de feminismo", reforçado por declarações tipo "ela 'sensualiza' para comprar uma casa para sua mãezinha".

Três "musas" fizeram declarações que dão a falsa impressão de que elas seriam "carentes amorosas". Duas delas são empresariadas pelo esperto Cacau Oliver, Andressa Urach e Nicole Bahls.

Sob a orientação de Oliver, Andressa e Nicole tentam passar a falsa impressão de que "sofrem dificuldades" na vida amorosa. Andressa reclama da "dificuldade" de arrumar um namorado. Nicole diz que está precisando "de um carinho". Tudo para dar uma impressão de que elas não estão vinculadas a um contexto cujos fãs são geralmente machistas e durões.

Carol Dias, que é colega de Nicole Bahls no Pânico na Band (TV Bandeirantes), ficou "solteira" na época em que se tornou a estrela da edição deste mês da revista Sexy. Coincidência? Para "confirmar" a situação, ela disse que prefere homens "sedutores e com pegada", para explicar a "dificuldade" de achar um namorado.

Com isso, o mercado de musas vulgares tenta estimular a libido de um público de baixo poder aquisitivo, mas dotado de valores machistas enrustidos - os tais "machistas-uia", porque reagem às acusações de machismo gritando "Uia!" sem desmenti-las realmente - , numa época de grandes transformações sociais que fazem o mercado de "mulheres-objetos" perder sentido a cada dia.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

PROCURE SABER E A CENSURA ÀS BIOGRAFIAS

WALDICK SORIANO EM LP TRIBUTO A ROBERTO CARLOS - Ídolos igualmente conservadores, mas tratados de forma divergente por intelectuais dominantes.

Por Alexandre Figueiredo

Como havia escrito, não há maniqueísmos no episódio do Procure Saber. Se os medalhões da MPB envolvidos no movimento erram pela repressão às biografias não-autorizadas, não serão os intelectuais, que os combatem e querem que a MPB seja substituída por uma linhagem de bregas "injustiçados", a ter postura mais libertária quanto ao caso das biografias.

Se nomes como Roberto Carlos, Chico Buarque e Caetano Veloso erram pelo zelo excessivo de suas imagens, temos que abrir o olho para o outro lado, porque intelectuais oportunistas como Paulo César Araújo estão aí para derrubar a MPB, privatizar o rico patrimônio cultural que temos e que o grande público quase não conhece e deixar o povo à merce do lixo cultural brega.

Sou a favor que as biografias sejam uma produção livre, sem depender de autorização dos biografados e seus herdeiros legais. Mas também não sou a favor de biografias não-oficiais que busquem visões sensacionalistas ou queiram também, à sua maneira, "limpar a barra" de pessoas de seu interesse.

Isso não existe só na MPB. No "funk", no brega "de raiz", na axé-music, no "sertanejo", há também aquela obsessão de trabalhar uma imagem "limpa". O grande problema é a diferença de abordagem quanto se fala na imagem "limpa" desejada pela MPB e na imagem "limpa" desejada pelos bregas.

Se depender da intelectualidade cultural dominante, é "errado" para a MPB a defesa do zelo de sua imagem porque seus intérpretes querem esconder o que há de "desagradável". Já no caso do brega, a imagem "limpa" está associada a um procedimento de "mostrar o agradável".

É um elitismo às avessas. Sendo "elite", a MPB autêntica é vilanizada por querer esconder aspectos desagradáveis de suas vidas. Sendo "popular", os bregas são santificados porque, mesmo escondendo aspectos desagradáveis, são enfatizados pela busca de uma imagem "agradável".

Claro, não existe uma imagem "agradável" oficial para os bregas, apesar deles fazerem sucesso comercial facilmente, já que foi institucionado todo um esquema de mercado, inclusive com práticas ilícitas de jabaculê e politicagem midiática, que fez o povo se acostumar com as breguices de sempre.

ODAIR JOSÉ REJEITOU IMAGEM DE "REBELDE" DADA POR PAULO CÉSAR ARAÚJO

O que a intelectualidade quer é supor que a censura às biografias não-oficiais se limita somente aos medalhões de uma parcela da MPB que os mesmos intelectuais desejam derrubar. Desmoralizam Chico Buarque não pelos erros ou equívocos que ele cometeu, mas usando esses erros para expressar o antigo ódio cego que tinham contra o cantor.

Tentam dar a impressão que o brega não iria defender as mesmas posturas do Procure Saber ou se, ao menos, não exerceria também um zelo excessivo por sua imagem. O caso Waldick Soriano, em que seus partidários queriam esconder o passado conservador do cantor, no entanto mostra o outro lado disso.

Odair José, outro ídolo brega reportado por Paulo César Araújo, havia rejeitado a imagem de "rebelde" que o historiador trabalhou sobre ele. "Eu só escrevo sobre o relacionamento de homem e mulher", afirma o cantor, achando exagerada a imagem "subversiva" que foi plantada a respeito dele pelos partidários do brega.

Aparentemente, a intelectualidade não teme que biografias não-autorizadas, assim como trabalhos historiográficos (quando envolvem não um biografado, mas um contexto histórico de vários personagens) e documentários, expressem uma visão desagradável sobre o brega e derivados.

No entanto, esse risco existe. Como é o caso de um possível trabalho afirmando que o discurso "social" do "funk carioca" foi inventado pelas Organizações Globo e pelo Grupo Folha, e que MC Leonardo e sua APAFUNK nada seriam se não fosse o dedo da Globo Filmes e do cineasta José Padilha, que, a despeito da postura "progressista" do funqueiro, é ligado ao Instituto Millenium.

Portanto, a discussão em torno das biografias tem seu pior problema desviado pela intelectualidade pró-brega. Ela quer apenas é derrubar a MPB, colocando os "coitadinhos" do brega no lugar. Pouco importa, para ela, as questões como o abuso da exploração da privacidade de qualquer pessoa.

Afinal, se uma parcela de intelectuais "bacanas" imagina que um Chico Buarque erra ao querer promover uma imagem "limpa" de si mesmo e um Leandro Lehart, por exemplo, acertaria se fizesse a mesma coisa, então o problema das biografias continua praticamente inalterado.

O que se deve discutir é que existem biografias ruins nos dois lados. Biografias oficiais e muito bem autorizadas que nada dizem de verdadeiro ou honesto. Biografias não-oficiais e muitíssimo não-autorizadas feitas tão-somente para o lucro fácil através do assassinato de reputações. Ambos são erros terríveis que nada contribuem para a memória justa de alguém famoso para a posteridade.

Paulo César Araújo, o "herói" quase divino da intelectualidade dominante, pagou com Roberto Carlos o erro que ele cometeu com Waldick Soriano. Araújo queria trabalhar o Waldick "libertário" e "subversivo", que nada tinha a ver com o ídolo ultraconservador que o cantor foi. Lutou para vetar qualquer divulgação nesse sentido, antes mesmo de ser "vítima" de Roberto Carlos.

Se nem no punk rock as historiografias ou biografias escondem o caráter conservador de um nome como o falecido Johnny Ramone, dos Ramones, por que a intelectualidade se preocupa tanto com a recordação da imagem conservadora de Waldick?

Quem quer a verdade histórica dos anos de chumbo deveria ficar quieta quando fatos assim ocorrem. Os mesmos intelectuais pegam pesado nos erros de Chico Buarque, cobram a memória da repressão da ditadura, no entanto querem que se apague o passado ultraconservador de Waldick. Trocar o Procure Saber pelo "Procure Não Saber" em nada contribui para o resgate da memória cultural do Brasil.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

PT ENTREGA RESERVA DE PRÉ-SAL A CONSÓRCIO LIDERADO POR ESTRANGEIROS

EXÉRCITO FAZIA A SEGURANÇA DO LEILÃO DO PRÉ-SAL, OCORRIDO NO WINDSOR BARRA HOTEL, NO RIO DE JANEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

Ocorreu ontem o leilão da Bacia de Libra, em Santos, uma grande reserva de pré-sal negociada desde a semana passada na licitação realizada no Windsor Barra Hotel, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Como de praxe, muitos manifestantes protestaram contra o leilão, vendo que o consórcio formado, embora inclua a Petrobras, é comandado pelas europeias Shell (holandesa) e Total (francesa), além das chinesas CNPC e CNOOC. Um quadro acionário majoritariamente estrangeiro, diga-se de passagem, com 60% de capital estrangeiro (40% só das europeias).

Isso lembra 1958, quando o sociólogo Hélio Jaguaribe, antigo membro do ISEB que atualmente é filiado ao PSDB - o mesmo partido ainda indefinido entre Aécio Neves e José Serra para a corrida de 2014 - escreveu, no seu livro O Nacionalismo na Realidade Brasileira, em que pregava a quebra do monopólio da Petrobras na exploração do setor petroquímico.

A declaração de Hélio Jaguaribe causou uma crise no ISEB, o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, que era um grupo sem um perfil ideológico definido, mas destinado a pensar os rumos da política e da economia no país.

Jaguaribe teve problemas sobretudo com Alberto Guerreiro Ramos, radical de esquerda, que denunciou a posição ideológica de Jaguaribe. Os dois saíram do ISEB e este, até sua extinção pela ditadura militar em 1964, tornou-se uma instituição de centro esquerda.

Mas e o Partido dos Trabalhadores com isso? Ora, o partido há muito adotou uma postura mais próxima da "social democracia" sonhada pelo PSDB, um partido que preferiu ir mais para a direita. E eis que o governo Dilma Rousseff adota programas dignos do "milagre brasileiro" do período ditatorial, com seu programa de fortes tons neoliberais.

Há a construção da usina de Belo Monte, herança desse período. Não bastasse a transposição do Rio São Francisco do governo do antecessor Lula, que só favorece a fazendeiros da região, em detrimento do desenho original da natureza, que conta com sua biodiversidade afetada com as obras.

E agora tem a exploração do pré-sal, na área conhecida como Campo de Libra, referentes ao petróleo e gás natural. É uma jazida com mais de 5 mil metros no leito do Oceano Atlântico. O consórcio pagará ao governo bônus de R$ 15 bilhões e investirá na exploração com o valor mínimo estimado em R$ 610 milhões.

Apesar dos técnicos garantirem que o consórcio priorizará o interesse nacional, a União só terá lucro de 41,65%, menos da metade. Os protestos ocorreram sob intensa repressão policial e, ontem à noite, manifestantes, inclusive estudantes e funcionários da Petrobras, foram ao Centro do Rio de Janeiro realizar novos protestos.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

REINALDO AZEVEDO COME FAROFAFÁ


Por Alexandre Figueiredo

Leiam o seguinte trecho:

"Até dou de barato que, pensando no rico dinheirinho — e não há mal nenhum em querer uma justa remuneração por seu trabalho —, os medalhões não tenham se dado conta de que estavam, sim, endossando a censura. Pensaram só nos seus umbigos estrelados, como se as massas estivessem enlouquecidas, querendo saber intimidades da vida do próprio Chico, de Djavan e de Caetano Veloso.

Paula Lavigne, como é de seu estilo, logo assumiu a liderança da “batalha”, com a sua sensibilidade costumeira e os pensamentos delicados de que é capaz. Deu no que deu. O preço da adesão de Roberto Carlos à luta por direitos autorais foi, ora vejam!, a defesa da censura. Certamente o chamado “baixo clero” no Congresso é capaz de coisas mais edificantes.

Chico Buarque finge conversar só com os deuses olímpicos, mas não é burro. Percebeu o rombo que essa história está abrindo em sua reputação. Caetano Veloso vai dar combate por mais tempo. (...) Chico agora decidiu recuar do seu “Cale-se” , que compôs em parceria com Gilberto Gil, outro proibicionista. Caetano talvez volte ao seu “É proibido proibir”. Lembrar essas coisas, com efeito, é um recurso fácil, mas confronta esses senhores com a sua própria obra e com a mensagem de “liberdade” que chegaram a encarnar."


Pelo tom agressivo combinado com uma certa ojeriza contra a elite da MPB, a opinião pública média poderia atribuir o trecho entre aspas como escrito por algum intelectual "bacana" escondido em alguma lista de colaboradores do blogue Farofafá.

Quem mora em Belo Horizonte, no entanto, talvez pudesse reconhecer nos argumentos nervosos algum ataque vindo do professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, muito conhecido por sua verborragia irônica, violenta e supostamente "libertária".

No entanto, o citado trecho, pasmem, vem de um dos jornalistas mais reacionários do país, Reinaldo Azevedo, que só perde em reacionarismo para o neo-medieval Olavo de Carvalho porque o chamado "pit-bull" da revista Veja tem um apelo supostamente "mais pop".

O episódio do Procure Saber, que criou uma cruzada intelectual para derrubar a MPB como um todo, apenas cooptando, provisoriamente, a ala "maldita" (e fora dos salões do Procure Saber ou do corporativismo do ECAD) da MPB para abrir o caminho para o reinado da "pequena breguesia" instaurar o neoliberalismo (e não o socialismo) na música brasileira, gerou mais um aspecto insólito.

Pois ninguém menos que Reinaldo Azevedo se juntou ao coro articulado por Pedro Alexandre Sanches - que praticamente inocentou o blogueiro de Veja da culpa pela crise da Abril, atribuída apenas à decadência do papel impresso - tomando as dores de um Paulo César Araújo tristinho porque seus breguinhas de estimação não puderam entrar no primeiro time da MPB autêntica.

Para quem duvida, há os linques dos textos de Reinaldo Azevedo e Pedro Alexandre Sanches, para comparar os ataques que fazem contra Chico Buarque, não pelos erros que este realmente cometeu, mas pela simples vontade de derrubar a MPB e instaurar o "livre mercado" da bregalização do país.

CAMPANHA NADA PROGRESSISTA

A campanha intelectual, que se aproveita de equívocos cometidos pelos medalhões da "MPB privatista", para derrubá-la, tem pressa. Ela quer ver o Francis Fukuyama de frigideira numa batucada brasileira e deixar tudo que a música brasileira produziu, pelo menos, até 1976 (descontam-se as breguices), mofar nos museus ou nas coleções particulares dos "especialistas".

Só que quem imaginou que a campanha intelectual - que apelido de "Procure Não Saber" - iria fazer com que o socialismo viesse através da música brega, enganou-se completamente. A adesão ao coro puxado por Pedro Alexandre Sanches não é necessariamente progressista ou libertária.

Afinal, a campanha tem muito mais a ver com questões mercadológicas. Se os integrantes do Procure Saber têm seus interesses financeiros, a intelectualidade "combativa" não age de forma muito diferente.

Eles querem a renovação do mercado, não necessariamente a preservação da cultura brasileira. Que se dane o talento, a sabedoria, a arte. Fazer música, para essa intelectualidade, não é questão de expressão do espírito, mas de uma reprodução de fórmulas supostamente relacionadas à "liberdade" musical "transbrasleira"

É um tanto linha de montagem, outro tanto porralouquice pós-moderna, a "MPB dos sonhos" dessa intelectualidade. E é por isso que esta quer derrubar a MPB, por mais que sejam procedentes os erros cometidos por Chico Buarque, Roberto Carlos e companhia.

Os intelectuais é que querem, em primeira instância, atrair nomes diversos como Alceu Valença, Paulo Tatit, os herdeiros de Itamar Assumpção, Rui Maurity, Jards Macalé e outros para assinar o "abaixo-assinado" intelectualoide da bregalização do país, para depois essas mesmas pessoas serem abandonadas escondidas nas apreciações privadas da intelectualidade.

Portanto, nada de reforma agrária nem regulação da mídia. A intelectualidade pró-brega diz-se a favor destas causas, mas na verdade é contra. Puro charme para agradar as forças progressistas. Afinal, para "farofa-feiros" e simpatizantes, reforma agrária e regulação da mídia também são formas "tão higiênicas" quanto o Procure Saber.

O que a intelectualidade quer é o "livre mercado" sob o rótulo de "popular". Com toda a verborragia "libertária" hoje usada, mas que em dado momento será deixada de lado. Daí a inesperada presença de Reinaldo Azevedo nas festas intelectuais promovidas pelo "Farofafá".

domingo, 20 de outubro de 2013

INTELECTUAIS, ARTISTAS E A "IDEALIZAÇÃO" DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Intelectuais sonham com a bregalização do país. Sonham tanto que idealizam a mediocridade cultural como uma utopia que só existe na imaginação desses intelectuais, que, no seu "bom" etnocentrismo, atribuem a essa mediocrização referenciais que aqueles que fazem o brega e seus derivados (como o "funk") nem sequer se interessam a seguir.

O artigo de hoje da cantora Adriana Calcanhoto é carregado desse "bom" etnocentrismo. Ela fantasia muito sobre o "funk carioca", no seu elitismo cordial em que o "outro" é visto de uma forma não realista, mas glamourizada, não como realmente é, mas "sendo" o que deveria ser para o paternalismo cultural da cantora e de outras personalidades similares.

A intelectualidade "idealiza" o "funk carioca", o "funk ostentação" e outros similares. No seu julgamento cordialmente etnocêntrico, tenta associar ao "funk" referências que ele não tem. Supostos "ecos" disso ou daquilo, falsas comparações, falsas analogias, a intelectualidade tenta projetar sua erudição privada para um ritmo que é o grotesco em estado bruto.

Uns tentam associar o "funk" ao samba e maxixe de 1910. Outros, à antropofagia de Oswald de Andrade, ao ativismo de Antônio Conselheiro. Outros, mais ambiciosos, tentam equipará-lo ao punk rock ou, indo adiante, à pop art de Andy Wahrol e companhia.

No extremo do oportunismo, há quem, num exercício de necrofilia, associe o "funk" a Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio. Mas há quem use pessoas vivas para vinculá-las ao "funk", como o inglês Paul McCartney, que boatos difundidos na imprensa como se fossem verdade haviam atribuído ao ex-beatle um suposto e improcedente interesse pelo ritmo carioca.

Tantas referências que só existem na imaginação intelectual, não na realidade dos "bailes funk". São preconceitos "positivos" que fazem com que a intelectualidade, num paternalismo gentil, atribuísse a matéria bruta do "funk" como se fosse um ouro já acabado. Vende-se tal "visão" como se fosse realidade, mas ela não passa de simples fantasia de intelectuais paternalistas.

Adriana Calcanhoto escolheu Vinícius de Moraes. Com a mesma convicção com que Paulo César Araújo tenta definir Waldick Soriano como um "cantor de protesto", Adriana quer porque quer que Vinícius de Moraes seja um funqueiro. Ele não está mais aí para reclamar dos sonhos da sua nora póstuma, já que o poeta nos deixou há 33 anos.

Pela imaginação romântica, paternalista e poeticamente etnocêntrica de Adriana Calcanhoto, o "funk" foi o samba de 1910 que se transformou na Bossa Nova de 1958 mas que "sem a força de seus (de Vinícius) versos, o funk é todo impregnado do branco mais preto do Brasil". Uma choradeira suave, mas mesmo assim mais uma choradeira para definir o gênero.

Isso é o que o "batidão" significa para a imaginação elitista dos intelectuais. Eles querem que os funqueiros sejam vinculados a Vinícius, Oswald, Mário de Andrade, Malcolm McLaren, Antônio Conselheiro, Andy Wahrol, Leila Diniz, Martin Luther King, e até Lou Reed, Geraldo Vandré e João Gilberto.

Enquanto isso, a verdadeira dura realidade do "funk" é que ele divorciou-se até mesmo das influências sonoras de Tim Maia, Gerson King Combo, Tony Tornado e Banda Black Rio, entre outros pioneiros, para consistir num som esteticamente fechado, mal cantado, mal composto e que ainda se vale pela exploração empresarial dos "grandes DJs" e promoção de baixarias e factoides.

Enquanto Adriana Calcanhoto sonha com um "funk" de verniz bossanovista surfando pelas ondas de Ipanema, a realidade mostra um "funk" fechado no seu estilo brucutu, na sua repetição sonora, na sua baixa estética que impede até mesmo que o povo pobre aprenda novos instrumentos, e na veiculação dos mais baixos valores sócio-culturais.

Isso é o samba de 1910? Não. A rejeição do "funk" nem de longe parte de patrulhas moralistas aristocráticas, como foi o caso do samba de cem anos atrás. O "funk" é rejeitado por uma sociedade moralmente muito mais flexível do que a do século passado.

As elites se inquietavam com mulheres que, inocentemente, mostravam os dedinhos de seus pés quando iam às praias, numa época em que Copacabana não era mais do que um terreno com plantas, arbustos, areia e mar, além de algumas casinhas.

Hoje a sociedade se inquieta com mulheres grotescas e brutamontes mostrando glúteos siliconados em posições que mais parecem a de pessoas sofrendo blitz policiais ou de gente defecando na rua. Nem graciosos são tais gestos.

Portanto, o "funk" sonhado por Adriana Calcanhoto não é o "funk" real. O "funk" sonhado por Adriana está em paz com Vinícius. O "funk" da realidade despreza até Tim Maia, quanto mais a Bossa Nova. MCs, DJs e "mulheres-frutas" estão fechados no seu grotesco, na sua brutalidade, no seu grotesco e na sua mesmice. Até o "tamborzão" só foi usado para turista inglês ver.

Portanto, não valeu. Vinícius de Moraes, promovido assim tão levianamente como funqueiro, foi uma manifestação não de exaltação ao espírito moderno do poeta, mas de mais uma tentativa forçada de vincular o "funk" à alta cultura. Além disso, o "funk" nada tem de moderno, com suas baixarias irresolúveis, e sim de muito, muito antiquado.

PROCURE SABER FAZ O QUE TRILHAS DA GLOBO NÃO CONSEGUIRAM


Por Alexandre Figueiredo

Aparentemente, a campanha da imprensa e da intelectualidade dominante em relação ao Procure Saber tende a fazer com que a reputação dos medalhões da MPB seja demonizada e que seu reinado caia para dar lugar a uma geração de medalhões do brega hegemônica no plano mercadológico.

Pois algo aparentemente impensável aconteceu. A MPB autêntica, mesmo aquela envolvida na campanha do Procure Saber, movimento que, sabemos, quer proibir a produção de biografias não-autorizadas de famosos vivos ou mortos, só aumentou a curiosidade do grande público, algo que nenhuma trilha sonora de novela da Rede Globo conseguiu fazer.

O que se nota é que, nos estabelecimentos comerciais, nas ruas, nos centros culturais, a MPB autêntica está crescendo em execução, enquanto o público jovem começa a ter curiosidade maior em conhecer a MPB que seus pais tanto falavam e que uma parte ranzinza da mídia e da intelectualidade definem como "antiquada" e "decadente".

Só estabelecimentos como as Lojas Americanas - controladas pela estadunidense Wal-Mart - insistem no velho cardápio brega-popularesco, alternando no som ambiente CDs de "sertanejo universitário" e da volta do ícone sambrega Só Pra Contrariar com Alexandre Pires nos vocais, além do CD da "poderosa" Anitta.

Fora isso, o que se nota é que nomes como Chico Buarque, Djavan e Milton Nascimento ganham mais destaque do que Roberto Carlos, Gilberto Gil e Caetano Veloso, até porque estes são mais massificados que aqueles.

O que se observa também é que a MPB autêntica, independente da postura pró ou contra biografias não-autorizadas, anda ganhando mais destaque no gosto juvenil, deixando de exercer o papel secundário diante do cansativo e decadente brega e passando a envolver o gosto prioritário de uma parcela do grande público.

Espera-se que isso se torne definitivo, já que a campanha intelectualoide ainda se esforça em derrubar a MPB, de início cooptando alguns "malditos" só para impressionar a opinião pública e depois deixá-los de lado em prol da supremacia brega e de tolices como a EmoPB de Felipe Cordeiro, Vivendo do Ócio, Gangue da Eletro e outros bobos-alegres.

sábado, 19 de outubro de 2013

RADIÓFILOS E A HISTERIA CORPORATIVISTA


Por Alexandre Figueiredo

É preocupante o que acontece nos "paraísos" corporativistas dos fóruns e sítios virtuais sobre rádio, em que a histeria e as fantasias estão acima da realidade, e um entusiasmo fora do comum, embora sem relação com a realidade, torna-se praticamente uma unanimidade entre seus adeptos.

Recentemente, duas notícias um tanto amargas envolveram o setor rádio. Uma é a possível volta, ainda não confirmada mas "comemorada" pelos radiófilos, da programação supostamente "roqueira" da Rádio Cidade. Outra é a migração de todo o dial AM brasileiro para o dial de FM, congestionando a frequência e decretando praticamente o fim da segmentação do rádio.

As duas notícias são ruins. A Rádio Cidade, por trás do rótulo de "rádio rock", havia sido um reduto de jovens ultraconservadores do Grande Rio, tomados de arrogância e reacionarismo golpista (pregavam até mesmo o fim do Poder Legislativo, a pretexto de "combater" a corrupção).

Já a migração do AM para o FM radicaliza e torna definitivo todo o processo de Aemização das FMs - uma forma de ditadura midiática em que "informação" e "prestação de serviço" eram pretexto para o poder midiático manipular a sociedade - , favorecendo todo um mercado jabazeiro que envolve políticos, dirigentes esportivos, empreiteiros, latifundiários e pastores mercenários.

No entanto, é só olhar os fóruns sobre rádio e mesmo algumas notícias relacionadas que o "otimismo" se expressa de forma contagiante. "A Rádio Cidade fez história (sic) na cultura rock do RJ", dizem uns tresloucados. "No FM, as AMs irão aumentar ainda mais a audiência", dizem outros lunáticos.

É um discurso fantasioso, que mais parece de criancinhas esperando o Papai Noel, gente que faz louvor a toda decisão vinda de cima. No caso da Rádio Cidade, com tanta rádio de rock muito melhor para voltar - mesmo a "linchada" Estácio FM dos anos 80 dá de mil a zero na arrogante e burra Rádio Cidade de 1995-2006 - , tinha que voltar justamente a pior delas?

E o rádio AM? Não teria sido melhor adaptar a tecnologia de celulares para recepção da Amplitude Modulada? Com o fim do AM, a história do rádio praticamente sofre uma "queima de arquivo", na qual os antigos erros midiáticos são acobertados e na concorrência radiofônica "feroz", as rádios mais fortes (ou melhor, mais ricas) levam sempre a melhor.

Quanto à linguagem, há também um erro colossal do mercado radiofônico, cujo preço já é cobrado. É que, em vez do rádio AM se renovar dentro da faixa AM, ocorre o inverso: velhas fórmulas de AM são jogadas para a Frequência Modulada em estado bruto, e apenas algumas maquiagens são feitas para "adaptar-se" ao meio FM.

Exemplos dessas maquiagens são as vinhetas "espaciais" tipo Jovem Pan 2 ou a ênfase de repórteres mulheres num meio tradicionalmente machista que é o radialismo esportivo. Ou então a adaptação dos chamados "programas de comunicador" a um humorismo histérico da linha Pânico na TV, usando os telefonemas dos ouvintes para carregar ainda mais nas piadas sem graça.

Há muito o rádio FM não tem grande audiência. E a Aemização das FMs nem de longe representa uma esperança, antes jogasse o FM para o fundo do poço, quando muito para a beira do precipício. Só que o corporativismo dos radiófilos e "especialistas" que escrevem colunas sobre rádio, salvo exceções, ainda carregam a ilusão de que o rádio FM está "em alta".

Eles se iludem com os números fictícios jogados pelos institutos de pesquisas. Se eles não são muito confiáveis na hora de mostrar pesquisas eleitorais, eles o seriam quando pesquisam audiências de rádios? Além disso, a "audiência gigantesca" das FMs é um mito construído por uma má interpretação das sintonias de rádio em ambientes coletivos.

Afinal, 90% da audiência de rádio se dá em sintonias supostamente coletivas. São ambientes frequentados semanalmente por mais de 10 mil pessoas, talvez até dez vezes mais ou além. No entanto, apenas uma pessoa realmente está ouvindo a emissora, mas o "alcance"de sua sintonia faz as pesquisas de audiência atribuírem à rádio os tais 10 mil ou 100 mil ouvintes.

O jabaculê aumentou no rádio FM e saiu até mesmo dos pretextos musicais. Tanto que a chamada "música popular" (leia-se brega-popularesco) já adota outros métodos de jabaculê, recorrendo até mesmo a acadêmicos que dão um verniz "etnográfico" aos antigos listões das rádios bregas.

Hoje o rádio FM virou até mesmo "caixa dois" da corrupção dos dirigentes esportivos, e o jabaculê se dá de tal forma que produtores de rádio FM chegam a oferecer pagamento de contas de luz ou de fornecimento de bebidas para botequins que sintonizarem suas transmissões de futebol em altíssimo volume, até mesmo durante a noite, a pretexto de "atingir" quarteirões de um mesmo bairro.

O rádio brasileiro já foi de excelente qualidade. Hoje virou um balcão de negócio de grandes corporações, grandes redes, ou de fórmulas viciadas que "deram certo" dos anos 90 para cá. Só que o problema está nos adeptos do hobby radiófilo, que veem cada embuste lançado em FM como a fórmula milagrosa, como a salvação suprema para suas vidas.

A gente fica imaginando se são apenas as rádios "neopentecostais" que transformam o radialismo em "religião", se até mesmo uma 89 FM ou mesmo a fórmula do "Aemão de FM" também não teriam seus "devotos", gente que se comporta como uns zumbis hipnotizados, que quando tudo está bem reagem com uma alegria praticamente infantil, mas quando algo vai mal, se enfurecem.

A realidade que ocorre, porém, é ingrata com o rádio FM. Daí o tal preço cobrado pela ciranda empresarial, pelo empastelamento de ideias - como o radialismo rock brilhantemente trabalhado pela Fluminense FM e reduzido a piada sem graça pela 89 FM e Rádio Cidade - e pela concentração do poder dos donos de FM na concorrência predatória contra o AM.

Um sinal dessa realidade é a audiência baixíssima que o "Aemão de FM" tem por todo o país, atingindo desde a Rádio Metrópole FM, de Salvador - a não-eleição de seu "astro-rei" Mário Kertèsz mostra que a emissora não está tão em alta como ainda se supõe - e as surras de audiência da Rede Transamérica e da Bradesco Esportes FM, que geraram muitas demissões.

Por trás da euforia radiófila, muitos profissionais de rádio são demitidos e muitos anunciantes ficam no prejuízo - amenizado pelo fato que é mais fácil vender produtos com propaganda em TV e jornal do que em rádio FM - por causa da baixa audiência de FM que supostos "trocentos ouvintes" registrados no Ibope e outros institutos não conseguem disfarçar.

Além disso, a decadência do FM segue o ritmo da decadência da TV e da mídia impressa. É até estranho que os mesmos que superestimam a crise da mídia impressa - que chegam a anunciar a "morte" do papel - subestimam e até renegam a decadência do rádio FM, que acontece em ritmo e intensidade maiores do que até mesmo a de revistas e jornais.

O rádio FM é afetado seriamente pela concorrência da Internet, com blogues mais abrangentes que rádios noticiosas e repertório musical ainda mais vasto, diversificado e qualitativo disponível. E para quem duvida da decadência das FMs, é bom passear pelas ruas em qualquer canto das cidades para ver que a maior parte das pessoas está ocupada demais para se ligar em rádio FM.

Portanto, o corporativismo é um problema sério. Já tenho experiência de ver grupos fechados defendendo interesses privados como se fossem públicos e achando que a sociedade toda está sujeita à vontade deles. Criam fantasias diversas, exaltam decisões vindas "de cima", esperando algum milagre. Mas a vida real acontece à revelia deles, e sobretudo alheia às causas dos mesmos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

CHICO BUARQUE E PAULO CÉSAR ARAÚJO HAVIAM SE "ENFRENTADO" EM 1992


Por Alexandre Figueiredo

A revelação de um vídeo em que Paulo César Araújo aparece entrevistando Chico Buarque, desmentindo o que o cantor havia dito, sobre não se lembrar de ter sido entrevistado pelo historiador dos bregas, pode parecer que a intelligentzia brasileira tenha "ganho" a guerra contra a MPB que pretendem derrubar.

Pode ter sido uma batalha ganha. Afinal, Chico admitiu o erro e anda apresentando falhas diversas em sua carreira. Mas isso não faz com que a intelectualidade cultural dominante de nosso país saia triunfante e comemore a vitória dos bregas contra a cultura de qualidade.

Não. Aliás, nessa estranha ciranda de pessoas a favor e contra as biografias não-autorizadas, vemos que José Dirceu, sempre do lado dos "fora-do-eixo" e outros "libertinos" da tecnologia, está do lado dos burocratas do Procure Saber, é de surpreender que a "rainha do ECAD", Ana de Hollanda, irmã de Chico Buarque, está na mesma causa de Pedro Alexandre Sanches.

Sim, Ana de Hollanda explicou que é contra a adoção de autorização prévia dos biografados ou de seus herdeiros para a produção de obras sobre suas vidas. A ex-ministra da Cultura - hostilizada por Sanches no ano passado - justificou a postura, contrária à do irmão, por levar em conta o fato de ser "filha de historiador".

Enquanto isso, reina o silêncio da intelectualidade em relação à possibilidade dos bregas serem vistos como "mais libertários" na produção de biografias, embora eles mais se empenhem em trabalhar uma imagem "limpa" e "idealizada" de suas vidas, uma vez que o brega é, queiram ou não queiram, uma "cultura" comercial.

De Waldick Soriano a Valesca Popozuda, o brega distorce muito sua imagem, e, nestes casos, se o finado ídolo brega, através de um lobby de intelectuais e famosos, escondeu a imagem de cantor ultraconservador que havia sido em vida, a funqueira apostou num sucesso na Europa que nunca existiu e foi "construído" pelo próprio enredo do documentário, num momento de pura ficção.

Em contrapartida, nunca a MPB autêntica foi tão tocada nas ruas e nos estabelecimentos comerciais de todo o país. Ironicamente, a postura de "censores" dos membros do Procure Saber lhes deu visibilidade. Isso significa que, mesmo com a imagem abalada pela imprensa e pela intelectualidade, a elite da MPB acabou atraindo a curiosidade do grande público.

Com isso, mesmo com todos os seus erros pessoais, os membros do Procure Saber acabam chamando mais atenção do que os domesticados e subservientes ídolos brega-popularescos que tocam todos os dias nas rádios "populares". E, em que pese tais posturas, os artistas do PS são geralmente de reconhecida qualidade artística.

Talvez quem tenha levado menos vantagem é justamente o mais radical do PS, Roberto Carlos. Ele mesmo, que abriu as portas para os bregas e permitiu a formação de uma indústria de "MPB de mentirinha", com Sullivan & Massadas nos anos 80 e os neo-bregas dos anos 90, anda cansando nos ouvidos do público informado das posturas conservadoras do "Rei".

Portanto, a intelectualidade ganhou uma batalha, mas não ganhou a guerra. Ela esperava que a MPB teria seu fim decretado, e que daria lugar, em seu reinado, a uma leva de breguinhas "coitadinhos". Não foi desta vez. Pelo contrário, a MPB andou crescendo muito nas execuções por todo o país.

"FUSÕES" NÃO RESOLVEM O PURISMO DO "FUNK"


Por Alexandre Figueiredo

Desde que rompeu com toda a linha evolutiva do funk autêntico, o que hoje se conhece como "funk" (ou "pancadão", ou "batidão"), surgido desde 1990, tenta todo tipo de apelo para ser reconhecido "cultura séria", num discurso que chega a ser maçante e chato de tão persistente.

Não bastasse o desgaste do "funk carioca" ter obrigado o mercado funqueiro a criar um genérico paulista, o "funk ostentação", acreditando em São Paulo como "laboratório de reciclagem" de ideias desgastadas no resto do país, o "funk" agora precisa adotar outros apelos para tentar sobreviver ao natural desgaste.

Depois de uma campanha para transformar a "batalha do passinho" em "coreografia superior" - quanta choradeira será necessária para colocá-la na agenda do Teatro Municipal do Rio de Janeiro ainda não se sabe, mas deve ser muita - , com uma pequena ajudinha até de documentaristas, agora é a vez das pretensas "misturas" feitas para aquecer o mercado funqueiro no resto do país.

No Paraná, há o tal "eletrofunk", que é uma tentativa de inserir o "funk exportação" ou "funk de DJ" - ou então o "funk para turista inglês ver", quando o DJ tenta "caprichar" nas sampleagens para simular "riqueza artística" ao gênero - para o público brasileiro, sobretudo os jovens de maior poder aquisitivo que vivem sobretudo na Grande Curitiba ou no interior coronelista local.

Em Recife, sob as bênçãos do Coletivo Fora do Eixo mas sob o patrocínio do coronelismo nordestino, há o Bregafunk, algo como a fusão do tecnobrega, do já decadente "forró eletrônico" e do "funk carioca", também feito para o consumo de jovens riquinhos locais.

E para quem imagina que ambos os ritmos sofrem "discriminação da grande mídia", no último domingo eles foram divulgados com um certo entusiasmo pelo Fantástico, da Rede Globo de Televisão. Mas até mesmo a intelectualidade cultural dominante já começa a cansar desse discurso de "boicote da mídia" que não corresponde à realidade.

Aliás, graça a esse discurso intelectualoide, verdadeiras armações e modismos claramente comerciais do brega-popularesco são difundidos como se fossem "movimentos libertários". Que beleza seria, se levarmos em conta esse ponto de vista, se os modismos dançantes mais tolos dos EUA fossem associados às rebeliões libertárias que marcaram a Contracultura dos anos 60.

Mas a realidade é que, com todos os sit ins (protestos pacíficos e quase silenciosos de pessoas sentadas), passeatas e transgressões sociais, culturais e artísticas, nada que fosse feito de descartável no chamado pop estadunidense era forçosamente vinculado à Contracultura sessentista, nem com lágrimas jorradas aos montes nas palestras intelectuais.

Lá é coisa séria. Aqui é que modismos que tratam o povo pobre como uma verdadeira caricatura e se caraterizam por cantores e dançarinos com trajes ridículos e sorrisos abobalhados, claramente tutelados por empresários "pobrezinhos" mas muito, muitíssimo ricos, são defendidos pela chorosa intelectualidade brasileira como se fossem "causa nobre e libertária".

Aqui até funqueira é tida como "feminista" porque mostra seus glúteos siliconados em close para crianças diante de uma tela de TV. E aí de alguém reclamar, porque o intelectual "bacaninha" vai logo classificar esse alguém como "militante de obscuras patrulhas moralistas que estavam adormecidas há mais de 100 anos atrás".

Mas nada resolve a situação do "funk", porque o ritmo, extremamente purista nos seus aspectos,  é culturalmente e ideologicamente fechado, resistindo a todo tipo de transformação na cultura e na sociedade. As "misturas" apenas envolvem outros ritmos decadentes, num processo que, por exemplo, já ocorreu com o arrocha, a tchê-music e o próprio tecnobrega.

Portanto, o "eletrofunk" e o "bregafunk" são novos gritos da mesmice brega-popularesca que, para o desespero da intelectualidade "superbacana" e "farofa-feira" de hoje, é rejeitada em larga escala pelas próprias classes populares cansadas de serem vistas de forma caricatural pelas supostas tendências populares que enriquecem latifundiários e barões da grande mídia.
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