quarta-feira, 31 de julho de 2013

POVO POBRE NÃO PODE FAZER MÚSICA?


Por Alexandre Figueiredo

A população pobre é refém do "funk carioca". E a intelectualidade não cansa de bater na tecla que o "funk" é o único caminho considerado por ela para a emancipação condicionada - e limitada - das classes populares.

Insistindo na supremacia do "mau gosto" como suposta causa libertária, a intelectualidade vinda dos porões da etnografia de plástico da Rede Globo, do modernismo de butique da Folha de São Paulo e da sociologia cultural do PSDB, tenta convencer as esquerdas a aceitar o "funk" como "legítima expressão de lazer e arte das classes populares".

Enquanto isso, jovens querem aprender música de verdade e não podem. Quando conseguem, são considerados "burgueses", "abandonaram" suas origens. A visão intelectual dominante, que tenta a todo custo dominar e seduzir as forças progressistas, tenta transformar a cultura das classes populares num esgoto ao qual as pessoas mais esclarecidas são "convidadas" a relativizá-lo e "positivá-lo".

O discurso pró-funqueiro da intelectualidade dominante, que não foge ao contexto e aos mecanismos da ditadura midiática, impede que as classes populares caminhem por conta própria, sendo obrigadas a restringir suas expressões ao quase monopólio do "funk carioca" e outros ritmos "polêmicos" que os barões da mídia e do mercado "reservam" para o povo pobre.

Em outra oportunidade, detalharei a fabricação de consenso que os empresários-DJs de "funk carioca" trabalharam para "folclorizar" o ritmo, favorecendo ainda mais seus interesses comerciais mascarados por esse discurso pseudo-ativista. Sabe-se que a juventude torna-se escrava desse ritmo e não pode mais ir adiante em sua cultura.

Enquanto o discurso choroso do "funk carioca" em busca de "seus espaços na sociedade" - na verdade, outros espaços e outras reservas de mercado, como reza a cartilha capitalista - prevalece até mesmo no imaginário de turistas e acadêmicos que acreditam que dele se virá uma cultura "rica e instigante", os pobres se sentem tolhidos e bitolados num amontoado de ruídos, palavreados e baixarias.

Os pobres são proibidos de tocar violão, aprender canto, aprender composição. A intelectualidade dominante acha lindo o jovem pobre se limitar ao microfone do "funk", ao mero rabiscar de letras funqueiras, mas isso é pura limitação artística para abaixo do medíocre. Para as favas essas apologias ao "mau gosto" que só prejudicam a evolução pessoal do povo pobre.

Afinal, a não ser pelo dirigismo estético do "pagode romântico" ou pelas "linhas de montagem" determinadas por rádios locais e pela TV aberta, onde se permite até aprender canto lírico e violão clássico desde que seja a serviço da pseudo-MPB mais brega, o jovem pobre é proibido aprender canto e instrumento musical.

O povo pobre não pode ser músico de verdade. A intelectualidade dominante, dotada do privilégio do prestígio midiático e da visibilidade, não deixa. Para ela, é bonito o pobre ficar na sua ignorância, na sua mediocridade, na sua imoralidade.

Tudo isso é diversão para acadêmicos e jornalistas que criam teses delirantes a favor de tudo isso, é assunto para seu sensacionalismo politicamente correto, com seus arremedos de História das Mentalidades, New Journalism e pós-Tropicalismo em documentários, reportagens, monografias, artigos e livros badalados, mas que a posteridade os sepulta nos mofos dos almoxarifados e arquivos.

A intelectualidade dominante tirou do povo pobre sua própria herança musical, dos tempos em que o bom violão era considerado "instrumento de malandro". Mas o violão se consolidou um instrumento de linguagem rica, que nenhum sampler de DJ funqueiro ou nenhum sintetizador de "funk melody" conseguem copiar, na sua beleza, na sua vibração, na sua energia.

Mas mesmo o violão transformado em máquina industrial do "pagode romântico" e do "sertanejo" não resolvem o problema. Até porque, nesses casos, o povo pobre também é proibido de fazer boa música, porque tudo é calculado, até as notas musicais mais "belas" são frutos de uma linha de montagem cujo padrão é previamente estabelecido por "especialistas" na indústria do entretenimento.

A espontaneidade popular, que gerou uma cultura riquíssima de ritmos musicais genuínos e valores sociais transmitidos comunitariamente, e não pelo processo vertical da mídia "popular" - mas controlada por grupos oligárquicos regionais ou nacionais - , foi banida pelo brega-popularesco e sua máquina de fazer sucessos que nada tem a ver com cultura de verdade.

Enquanto existe a ditadura midiática, garantida pela vista grossa de uma intelectualidade vigilante, o povo pobre não será sujeito ativo de sua própria cultura. Através de ritmos como o "funk", o povo pobre só é "sujeito" no discurso publicitário dissolvido "cientificamente" por intelectuais sob aplausos dos barões da mídia.

No entanto, é nesse contexto que o povo pobre se limita a ser objeto desse processo de "cultura de massa", manipulado nos seus desejos, anseios e crenças, reduzido a uma caricatura quase imperceptível numa nação midiatizada como o Brasil. Mas é uma caricatura cujo desenho mostra traços assustadores de domesticação social.

O povo pobre é escravizado por essa "cultura" brega que tem no "funk" seu exemplo mais extremo. E a intelectualidade que apoia essa "cultura" pode até gostar de pobreza. Mas, no fundo, ela não gosta de pobre, pois seu discurso "positivo" nada faz e nada quer fazer para superar a verdadeira pobreza cultural.

terça-feira, 30 de julho de 2013

"ODIAR" EMPRESA DE ÔNIBUS NÃO É RAZÃO PARA DEFENDER PINTURA PADRONIZADA

 
VIAÇÃO OESTE OCIDENTAL - Mudança de nome disfarçada de "extinção" de empresa, a atual Rio Rotas não melhorou com a "disciplina" da pintura padronizada.

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Eu escrevi este artigo em outro blogue, alertando que a mera aversão a empresas de ônibus não é motivo algum para a defesa da pintura padronizada.

Se o pessoal acha que botar diferentes empresas de ônibus para ter a mesma estampa de prefeituras ou órgãos estaduais vai resolver o problema do poderio dos empresários de ônibus, se engana, porque o que ocorre é o contrário. Daí o logotipo da "Cidade do Rio de Janeiro" acobertando e estimulando os abusos do cartel dos donos de ônibus na capital fluminense.

Este e outros textos sobre o assunto estão publicados no blogue MOVIMENTO PINTURA LIVRE, e todos estão convidados a participar e segui-lo.

"ODIAR" EMPRESA DE ÔNIBUS NÃO É RAZÃO PARA DEFENDER PINTURA PADRONIZADA

Por Alexandre Figueiredo - Blogue do Movimento Pintura Livre

A indiferença das pessoas que protestam contra a corrupção nos sistemas de ônibus nas grandes cidades quanto à validade da pintura padronizada é algo que preocupa, porque a pintura padronizada é um dos motivos que mais estimulam a camuflagem que aumenta ainda mais a corrupção nas empresas de ônibus.

Há quem ache, com evidente ingenuidade, que a pintura padronizada, na qual se destaca o logotipo da prefeitura ou do órgão estadual - no caso de linhas intermunicipais - , resolveria a corrupção nos sistemas de ônibus, pois a respectiva Secretaria de Transportes (municipal ou estadual) atuaria como espécie de "xerife" para reprimir os abusos das empresas de ônibus.

Além disso, a pintura padronizada seria uma forma das pessoas expressarem seu "horror" e "ódio" às empresas de ônibus, confundindo a natural indignação com seus abusos com uma histeria moralista e hipócrita, porque isso em si não resolve para combater a corrupção e outros problemas do setor.

Querer esconder uma empresa de ônibus ruim com uma pintura padronizada achando que isso irá "castigá-la" por seus abusos contra a população é uma ideia tão fantasiosa quanto achar que ladrões e estupradores, por serem muito feios, devam aparecer sempre encapuzados, dispensando qualquer urgência de fazer o retrato falado dos criminosos.

O poderio dos cartéis de empresas de ônibus pode não ser resolvido pela diversidade visual. Isso é óbvio. Mas quem pensa que a pintura padronizada resolve o problema, está enganado. Ela torna o que está ruim cada vez pior. E é o que se vê no sistema de ônibus do Rio de Janeiro implantado depois de 2010.

Pelo contrário. Se a coisa estava ruim, se havia cartéis, empresas de ônibus ruins, ônibus em péssimo estado de conservação etc, a coisa piorou com a pintura padronizada, porque esta se tornou um "véu" que tornou a corrupção de antes ainda mais escancarada.

Mesmo empresas que antes eram boas, como Matias, Real e Braso Lisboa, hoje mostram ônibus sucateados, e existe uma torcida para que o corrupto e demagogo governador fluminense Sérgio Cabral Filho "padronize" as frotas intermunicipais controladas pelo DETRO para proteger a Transmil (empresa ruim controlada por "peixes grandes") sob uma licitação de fachada e pintura padronizada.

Isso é óbvio. Empresas de ônibus diferentes mostrando a mesma pintura, pouco importando pequenos detalhes técnicos, só permitem a corrupção. As empresas ruins apostam nesta medida para se "esconderem" debaixo de empresas boas. Além disso, não se sabe quando uma empresa boa pode ficar ruim de repente, e por isso não adianta "odiar" uma empresa por si só.

Isso porque, mascarando empresas ruins com a pintura padronizada, fica mais difícil fiscalizar e denunciar. Com a pintura padronizada, os empresários de ônibus mais corruptos agradecem, e o Estado torna-se cúmplice dessa corrupção estimulada por esse "baile de máscaras".

segunda-feira, 29 de julho de 2013

"FUNK CARIOCA" É O RITMO MAIS PURISTA DO PAÍS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Eu só não citei a inviabilidade de atribuir rigor estético à Bossa Nova, já que o ritmo brasileiro se inspira em tendências vanguardistas do jazz, que investem no improviso e na liberdade artística. Mas descrevi da melhor forma possível o porquê do "funk carioca" ser considerado por mim o ritmo mais purista do Brasil.

"FUNK CARIOCA" É O RITMO MAIS PURISTA DO PAÍS

Por Alexandre Figueiredo - Blogue Fatos e Milongas

Qual é o ritmo mais purista do país? A "velha" música folclórica, oriunda de um Brasil rural, pré-televisivo e sem eletricidade? Ou seria a Bossa Nova, com seu requinte artístico impecável, sua sofisticação artística tão mundialmente famosa? Embora a intelectualidade que exerce influência dominante na opinião pública, com seus antropólogos, sociólogos, historiadores, cineastas e críticos culturais, tente investir entre uma ou outra opção, qualquer uma das duas respostas não possui o menor fundamento.

Com uma cautelosa observação sobre todos os ritmos da música brasileira, independente da qualidade ou do valor cultural que possuem ou não, tem se a conclusão de que o ritmo mais purista feito no Brasil é o "funk carioca", feito no mais absoluto e intransigente rigor estético, para desespero daqueles que viam, e ainda veem, no "funk" um símbolo máximo do que eles entendem como "diversidade e riqueza cultural".

O "funk carioca" consiste num rigor estético, sim. E, diga-se de passagem, extremamente rigoroso. O ritmo, do contrário que muitos pregam, conta com sérias limitações de criação artística, e o que se vê pelas ruas, ao observar as pessoas ouvindo "funk", é que todas as músicas (digamos que o "funk" seja "música", só para facilitar a análise) parecem uma só, independente de que intérprete seja.

No "funk carioca", só existe um DJ e um MC. Isso já impõe sérias limitações, sendo uma degradação até mesmo dos valores de cultura das classes populares antes expressos historicamente. Só para se ter uma ideia, é proibido ter um violão no "funk carioca". Um MC tocando violão é "mané", a não ser que esteja fazendo o chamado "funk melody", espécie de cruzamento do "funk" com o brega de Odair José e companhia, como se ouve em nomes como MC Leozinho e MC Naldo Benny.

Até mesmo o som é calculado, conforme as temporadas. Antes, o DJ soltava apenas um som de bateria eletrônica, que mais parecia o som de um "pum", enquanto o MC vociferava suas baixarias ou seu "protesto" que no fundo soa inócuo e ingênuo. Essa tendência durou de 1990 a 2001, quando o "funk", que fazia seu lobby junto a intelectuais e ativistas sociais (além da grande mídia, é claro), teve que se adaptar às necessidades de vender uma imagem "socializante" e pretensamente "folclórico-libertária" para o gênero.

Aí veio o chamado "tamborzão", que é o som de bateria eletrônica, como na fase anterior, só que imitando os batuques de candomblé, talvez como "pagamento" de algumas mandingas de DJs funqueiros que queriam fazer sucesso não da forma habitual do seu meio, mas se passando por "ativistas sociais" e "agitadores culturais" aos olhos de elites intelectuais do nosso país que só conhecem o povo pobre do Brasil através de documentários da TV britânica.

O "tamborzão" era uma forma de vender o "funk" para turistas e "bacanas" vindos de missões universitárias ou de ONGs no exterior. E, no calor de uma campanha que vendia o brega-popularesco como "cultura dos excluídos" - embora essa "exclusão social" nunca existiu e o brega-popularesco sempre esteve em alta no esquemão midiático e mercadológico - , época de uma ambiciosa cinebiografia de breganejos, o "funk" investiu pesado numa campanha sofisticada para promover uma imagem "positiva" para a sociedade.

Só que o "tamborzão" envolvia equipamento pesado, e depois veio a investida de misturar sons caóticos que envolviam desde um sctratch (técnica de girar um disco de vinil numa vitrola) cujo som imitava o de um galope de um cavalo, até mesmo uma combinação de sons que imitavam sirenes e buzinas. Em certos casos, até mesmo músicas diversas eram sampleadas e manipuladas pelo DJ. Até mesmo o "plim-plim" da Rede Globo, emissora que mais apoiou e apoia o "funk carioca", virou sucesso de "funk", intitulado "Aquecimento da Globo".

Aí o "funk" ficou caro, porque nessa época, mais ou menos 2010, recomeçaram as críticas contra o gênero, depois de uma aparente "unanimidade" em favor do ritmo, já que as vozes contestatórias não tinham visibilidade suficiente para difundir seus questionamentos sérios sobre o "funk" sequer na Internet, e, quando eram difundidos, eram questionados, até mesmo de forma ofensiva, por outros internautas que defendiam o "funk" como suposta cultura das periferias.

Com isso, o "funk" passou a contar praticamente com um outro MC fazendo balbuciação - o famigerado "tchuscudá-tchuscu-tchuscudá", ou o "tchu-tchá" cantado pelos breganejos João Lucas & Marcelo em homenagem ao ritmo - , enquanto se reduziam as sampleagens, que poderiam até mesmo criar problemas de direitos autorais, mesmo quando a intelectualidade associada garantia a "bandeira" do "copyleft", um embuste ideológico em favor da pirataria.

Essas mudanças do "funk", incluindo também as variações "musicais" entre o "funk" propriamente dito e o "funk melody", não garantem a riqueza artística do gênero. Pelo contrário. São variações mercadológicas, que transformam o "funk" em "proibidão", "de raiz" ou "melody" conforme o público almejado (o "melody" é uma variação voltada "para toda a família", por exemplo, cujo maior ícone é o arroz-de-festa MC Anitta). Tudo questão mercadológica, sem qualquer tipo de espontaneidade artística.

Daí o rigor estético, o extremo purismo do "funk carioca". Riqueza artística havia no funk autêntico, de Tim Maia, Banda Black Rio, Cassiano, Gerson King Combo e outros, com seus grandes músicos, suas orquestras, suas melodias e arranjos. Tim Maia era tão exigente musicalmente quanto João Gilberto, sempre cobrando bons arranjos e bons instrumentais de sua banda e orquestra de apoio.

Nada a ver com essa precariedade do "funk carioca", que é esteticamente rigoroso dentro dos princípios do "mau gosto popular", e extremamente purista para que sua música "diferenciada" seja praticamente a mesma, a ponto de fazer um cenário paulista, do "funk ostentação", estar perdido entre o "proibidão", o "melody" e o "de raiz", sem saber para que público se dirige, ao menos mercadologicamente.

domingo, 28 de julho de 2013

O PAPA E O COMPLEXO DE VIRA-LATA

 
COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Talvez como um meio de tentar abafar a onda de protestos populares, a grande mídia supervalorizou a vinda do papa Francisco, confundindo liberdade religiosa com supremacia. Além disso, a grande mídia critica o governo Dilma Rousseff não pelo que ele deve ser criticado, mas apenas por pura aversão fútil ao PT, que se nota sobretudo de partidários do demotucanato.

Se houve alguma desorganização do evento do Papa, como o fato da Cidade da Fé não ter sido pronta a tempo,  o Governo Federal não tem culpa direta, sendo a verdadeira culpa para a dupla Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes, que pensam serem os grandes governantes do Estado do Rio de Janeiro, quando estão fazendo administrações das mais desastrosas.

O papa e o complexo de vira-lata

Por Altamiro Borges - Blog do Miro

A visita do papa Francisco é reveladora do complexo de vira-lata da mídia nativa. Além da overdose na exposição do evento – que transformou a programação das tevês numa espécie de missa pública e colocou em dúvida se o Brasil é realmente um país laico –, ainda há os que só veem defeitos na recepção ao líder católico. Tudo deu errado e a culpa, lógico, é da presidenta Dilma e da incompetência brasileira. Eliane Cantanhêde, a da “massa cheirosa” da Folha, não perde oportunidade para desferir as suas bicadas tucanas:

“Na chegada, o carro do papa Francisco espremido entre táxis e ônibus, num baita engarrafamento na Avenida Presidente Vargas, centro do Rio, enquanto na larga pista ao lado, interditada, não se via uma única bicicleta. Um vexame inexplicável. Logo mais, no Palácio Guanabara, a presidente Dilma, em vez de um singelo discurso de boas-vindas ao papa, puxou e leu um discurso maior do que o da grande estrela do evento. Faltou ‘semancol’. Na mesma noite, enquanto o mundo queria saber a quantas andava o papa no Brasil, o que se via era uma guerra campal entre policiais, vândalos e infiltrados de toda ordem. Uma violência vergonhosa”.

A colunista chega a insinuar que o governo foi culpado pelo alagamento do campo de Guaratiba, previsto para o encerramento da maratona papal. “A culpa é só da chuva?”, fustiga. Ela nem sequer informa os seus leitores que a decisão de realizar a atividade no local foi da cúpula da igreja católica e não do governo. Para Cantanhêde, que até hoje morre de saudades do reinado neoliberal de FHC, todos estes incidentes comprovam a incapacidade dos brasileiros. “Competência zero”, esbraveja.

O complexo de vira-lata fica explícito quando a própria jornalista reforça as críticas maldosas de alguns veículos internacionais, como o New York Times e o Chicago Sun-Times. Este último jornal reflete a magoa da cidade em que é editado, que perdeu a disputa dos Jogos Olímpicos para o Rio de Janeiro. “Perdemos para isso?”, questiona, ressentido. Na sua visão colonizada, a jornalista da “massa cheirosa” dá destaque para a frase preconceituosa do jornal ianque contra o Brasil. Que deprimente!

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Em tempo: Nem todos na Folha padecem do mesmo complexo de vira-lata. Em sua coluna, o jornalista Nelson de Sá questiona o tipo de cobertura da visita papal feita pelas emissoras de televisão. Reproduzo o curto artigo para a reflexão dos que não se deixam contaminar pela fé cega:

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Na TV, evento é prévia kitsch da Olimpíada

NELSON DE SÁ – DE SÃO PAULO

A Globo interrompeu sua programação por cerca de dez minutos, às 19h30, para transmitir ao vivo a "Celebração da Palavra" com o papa Francisco, em Copacabana.

Mas o canal do papa foi, de novo, a Globo News, que entrou ao vivo com ele a partir das 9h40. Mas o melhor veio à noite, em Copacabana, na cerimônia que fez as vezes de abertura de Olimpíada. Foi quando o canal abraçou retórica e estética católicas. Na barra de informações, "Jovens representam a alegria do carioca".

Fafá de Belém foi a estrela. Na descrição da apresentadora Leilane Neubarth: "Ela me disse que estava com muito frio. Estava com um vestido bem leve, decotado, mas brincou: Meu coração está muito quente'".

Depois, a apresentadora deu seu testemunho: "Francisco tem essa doçura de tocar com delicadeza o coração das pessoas. Eu me incluo".

MITO DA "BAIXA CULTURA" É INVENÇÃO DAS ELITES

ETNOCENTRISMO CRUEL: PARA A INTELECTUALIDADE DOMINANTE, A PEDOFILIA NOS "BAILES FUNK" É VALOR "POSITIVO", POR VER NELES A "INICIAÇÃO SEXUAL" DAS JOVENS DAS PERIFERIAS.

Por Alexandre Figueiredo

O grande problema que envolve o conceito de "baixa cultura" não está simplesmente na recusa da cultura das classes populares, mas também na aceitação acrítica e aleatória de tudo que esteja, em tese, associado ao contexto do "popular" e do "pobre", por mais falso que seja.

A intelectualidade dominante cria impasses para si mesma, porque, a título de supostamente reconhecer o valor da cultura popular, prefere defender a "cultura de massa" originária do brega e ramificada em vários derivados - incluindo a "moderna" axé-music e o "polêmico" "funk carioca" - do que a melhoria cultural das classes populares.

Quando se consideram essa necessidade de melhorias, elas sempre acabam associadas mais a um assistencialismo das elites do que a natural melhoria das classes populares. Não são as classes populares que podem melhorar, por si mesmas, seus referenciais culturais, mas é o apoio paternalista de cientistas sociais e críticos culturais que, com os valores etnocêntricos desta gente "sem preconceitos", que faz o povo pobre "melhorar" na forma e não no conteúdo.

PARA INTELECTUALIDADE, DEGRADAÇÃO CULTURAL DAS PERIFERIAS É "VALOR POSITIVO"

Afinal, somos tomados de uma onda de relativismo ético que faz com que a defesa da moralidade verdadeira - que não deve ser confundida com moralismo - se limite às elites "esclarecidas". Quando a imoralidade acontece nas periferias, a intelectualidade dominante consente, julgando serem "valores positivos", "valores do outro" que "devem ser respeitados".

A pedofilia, por exemplo. Se ela se expressa num rapagão de classe abastada e nível universitário, que fotografa meninas de 13 anos de trajes íntimos e poses sensuais, a intelectualidade dominante considera um crime. Mas quando a pedofilia acontece num "baile funk", com o rapagão transando com uma garota tambem de 13 anos em pleno evento, isso é um "valor saudável", porque a menina exerce sua "iniciação sexual" com sua "liberdade (?!) do corpo".

Se há degradação sócio-cultural nas populações pobres, ela é consequência de décadas de problemas de ordem econômica, educacional, cultural e política. Passamos por 21 anos de ditadura militar, cujos efeitos ainda se refletem hoje. Afinal, se desenvolveram oligarquias e elites não só de políticos, latifundiários, jornalistas e juristas, mas também de intelectuais, tecnocratas e "jovens empreendedores" que aprenderam os valores autoritários e corruptos deixados pelos "anos de chumbo".

PERSUASÃO PUBLICITÁRIA

A "baixa cultura" não é para ser aceita, é para ser questionada, analisada. Se a rejeição cega é ruim, a aceitação cega é pior ainda. Afinal, o chamado "gosto popular", um mito alimentado por intelectuais badalados pela grande mídia, na verdade é um processo de manipulação feita pelos estereótipos trabalhados pelo poder midiático.

É o conhecido processo da publicidade. Afinal, a "cultura" brega-popularesca, como toda mercadoria, é lançada sob uma campanha persuasiva, que apela para o povo pobre consumir seus valores e símbolos. Criam-se estereótipos relacionados ao "pobre" e ao "popular", dentro de aspectos que transformem o povo pobre numa plateia a mais passiva e inofensiva possível, além de impulsionada para o consumismo até mesmo acima de suas condições econômicas.

Vende-se um ídolo brega-popularesco, um veículo da mídia popularesca, como se vende um carro. O povo não precisa, mas é induzido a "precisar", a "desejar". O tal "mau gosto" é construído nisso, nesses estereótipos. Portanto, não há como considerar esse "mau gosto" como espontâneo nem muito menos entendê-lo como meio "libertário" de expressão popular.

O "mau gosto" é um subproduto da publicidade, do poder midiático. Ele não surge como ameaça ao poderio midiático, apenas "tira férias" da grande mídia, até para evitar a superexposição de certos modismos. O retorno desses modismos popularescos, respaldado pela maquiagem "etnográfica" de cientistas sociais, jornalistas culturais e até documentaristas, não significa que ele se configura numa força antagônica ao mesmo poder midiático que o promoveu e continua lhe apoiando.

A construção dessa "baixa cultura" é uma maneira de transformar o povo pobre numa multidão inofensiva e tentar confundir a opinião pública através da falsa analogia com tempos de moralismo rigoroso. Em outros tempos, o povo pobre produzia cultura de qualidade, tinha valores sólidos e produzia conhecimentos, mas que apenas escapava a valores aristocráticos que conduziam a sociedade de então.

Portanto, não há como creditar o brega-popularesco como uma "cultura popular" supostamente incompreendida pelas elites moralistas. É outra coisa. Não é uma cultura orgânica, vinda das classes populares, mas uma "cultura" midiática, muitas vezes patrocinada pelo latifúndio, feita para transformar o povo pobre num estereótipo de si mesmo, reduzido a enriquecer o mercado e fortalecer o poder midiático, que usam o rótulo "popular" como mimetismo para suas manobras intrigantes.

sábado, 27 de julho de 2013

POR QUE A INTELECTUALIDADE AINDA NÃO CONHECE O POVO?

AS ESQUERDAS MÉDIAS APOIAM A REFORMA AGRÁRIA (NA FOTO, UMA PASSEATA DO MST), MAS POUCO VÃO ALÉM DE PAUTAS SINDICAIS E INSTITUCIONAIS.

Por Alexandre Figueiredo

Por que nossos intelectuais ainda desconhecem as classes populares? Por que as elites pensantes, mesmo aquelas que pesquisam a cultura popular, ainda não conseguem ver, da forma mais realista possível, a natureza autêntica da cultura popular e o cotidiano das classes pobres?

Descontando pretensões e declarações um tanto demagógicas e outro tanto envergonhadas - uma forma hábil de dizer "sim" é dizer "não", pelos sentidos ocultos que isso apresenta e que contradizem meras palavras ditas - , o que vemos é essa postura de antropólogos, sociólogos, jornalistas em geral, historiadores, ativistas sociais e cineastas, que, independente do plano ideológico, só agora começam a conhecer e a entender (e, ainda por cima, mal) o povo pobre.

Sabemos que na maioria esses intelectuais se dividem em parte numa esquerda hesitante, tímida e pouco perseverante na compreensão crítica do mundo, e que mal começa a compreender a realidade das classes excluídas para além da agenda das lutas sindicais e da violência que atinge sobretudo a juventude negra e pobre. Além dela, e até aproveitando o esquerdismo ainda iniciante e tímido da outra, vemos pseudo-esquerdistas que se promovem às custas dos pretextos do "popular".

As esquerdas médias acabam sendo seduzidas pelas pseudo-esquerdas, e estas aproveitaram o desgaste do governo Fernando Henrique Cardoso, depois de episódios como a tragédia da plataforma P-36 da Petrobras e o racionamento da energia elétrica, para renegar a herança original. Intelectuais que se formaram através das ideias de FHC e dos valores difundidos pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo usaram a vitória eleitoral de Lula para desenvolver seu pseudo-esquerdismo.

Isso acaba corrompendo a visão progressista sobre cultura popular, porque ela é hegemonicamente afetada pela supremacia do pensamento elitista, não aquele que rejeita surdamente as classes populares, mas o "bom" elitismo, o "bom" paternalismo que aposta na domesticação, pela mídia e pelo mercado "populares", das populações pobres.

SOCIALISMO INICIANTE

Ao socialismo iniciante das mentes das esquerdas médias, ainda presas a pautas sindicalistas e institucionais, se intervieram visões neoliberais de pseudo-esquerdistas que juntavam, num só balaio, análises da Teoria da Dependência de FHC com conceitos do pós-Tropicalismo e "recheados" do "fim da História" de Francis Fukuyama. Tudo coberto de um verniz falsamente "libertário" e "ativista", um esquerdismo vermelho tipo tinta guache, que desmancha em pouco tempo.

Mas por que as esquerdas médias se deixaram seduzir pelos falsos dissidentes do tucanato, de jornalistas culturais adestrados (ou amestrados) por Otávio Frias Filho, cientistas sociais influenciados por FHC, cineastas documentaristas tomados pela lógica da Globo Filmes, que estavam ali vendendo seu "peixe" brega, funqueiro, "sertanejo" etc para a mídia esquerdista em grau muito baixo de desconfiômetro?

Simples. As próprias esquerdas médias se inserem num contexto histórico e sócio-cultural no qual eles mesmos não fazem parte das classes populares ou, se fazem, integram já setores associados de alguma forma as elites médias. Portanto, eles podem não serem as elites burguesas que defendem os privilégios sociais, econômicos e culturais de si mesmas, mas também estão longe de fazerem parte do proletariado.

As esquerdas médias possuem uma bagagem cultural que envolve muitas leituras de livros e um gosto musical que transita entre o que há de mais arrojado na MPB, os clássicos do rock autêntico e esquisitices ou sofisticações da música pop em geral. Para localizar o leitor, digamos que seus paradigmas principais sejam Arrigo Barnabé e Sérgio Ricardo, Eric Clapton e Smiths, Regina Spektor e John Mayer.

Evidentemente, as esquerdas médias não chegam a ir a fundo nos subúrbios nem no comércio popular. Quando eu morei em Salvador, fui várias vezes ao bairro do Uruguai, cheguei a andar dentro de uma favela da Boca do Rio e passei uma vez pela feira de São Joaquim. Um intelectual esquerdista médio só percorre tais locais quando são obrigados a fazer pesquisa de campo ou acompanham autoridades, celebridades e ativistas em visitas a esses lugares.

"APOLOGIA AO POPULAR" GARANTE ÁLIBI

Se as esquerdas médias se comportam assim, imagine então os pseudo-esquerdistas, que quando muito só conhecem as classes populares através de contatos com porteiros de prédio, faxineiros, empregadas domésticas, feirantes, peixeiros e caixas de supermercado. Os intelectuais de pseudo-esquerda, que contradizem sua postura "esquerdista" pregando ideias neoliberais mal camufladas pela "apologia ao popular", são dotados ainda de um elitismo mais rígido ainda.

Escondem, em seus pontos de vista "populistas", seu desejo de ver o povo pobre domesticado por uma "cultura popular" tramada pela grande mídia e pelo mercado. Para eles, é melhor um pobre rebolando o "funk" do que fazendo passeatas por justiça social. Os pseudo-esquerdistas usam jargões "esquerdistas" para disfarçar bem seu direitismo antipopular. E ainda chamam Dilma Rousseff de "presidenta"!!

Os intelectuais pseudo-esquerdistas se esforçam o máximo para proteger dessa suposta defesa ao que entendem por "cultura das periferias". Estes possuem o mesmo perfil ideológico de um Ali Kamel, Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede, mas possuem oportunismo suficiente para renegar os mestes e colegas do neoliberalismo ideológico do qual se formaram.

Daí a esperteza deles "rejeitarem" os excessos de seus colegas "urubólogos". Tentam impressionar falando mal do Instituto Millenium (o qual sentem um forte e "sensual" desejo de visitar), dos processos judiciais de Ali Kamel, do reacionarismo da Veja e de figuras como Eliane Cantanhede e Merval Pereira, ou mesmo do humorista Marcelo Madureira. Os intelectuais pseudo-esquerdistas os espinafram sem receio de que serão eles que os acolherão num momento futuro.

VISÃO FRÁGIL

Mas por que as esquerdas médias são tão receptivas ao pensamento "populista" das pseudo-esquerdas intelectuais? Talvez esse desconhecimento da realidade concreta do povo pobre, que toma conta dos esquerdistas médios mesmo com toda a solidariedade - sincera, mas precária - , possa torná-los "presas" fáceis do discurso pseudo-esquerdista de intelectuais em prol da bregalização do país.

Afinal, tanto esquerdistas médios quanto pseudo-esquerdistas não possuem uma visão plenamente realista das classes populares. De formação classe média, possuem os conceitos genéricos de povo e são vulneráveis a determinados preconceitos, sobretudo nos pseudo-esquerdistas de formação neoliberal.

Mas enquanto os esquerdistas médios desconhecem o povo pela sua ignorância natural de classe, os pseudo-esquerdistas, com seu elitismo enrustido, simplesmente ignoram de maneira convicta, embora não assumida. Se irritam quando veem o povo pobre fazendo passeatas, por exemplo, por reforma agrária, mas não podem se posicionar a respeito. Pela conveniência das circunstâncias, intelectuais deste porte precisam manipular o jogo de alianças que mascare suas posições reais.

Assim, eles fazem comentários ligeiramente depreciativos contra seus mestres e colegas de formação ideológica. Por outro lado, precisam se omitir de discordâncias violentas que possuem com esquerdistas como Emir Sader e José Ramos Tinhorão, para não pegar mal, pois os pseudo-esquerdistas precisam fazer proselitismo nas esquerdas para a defesa do brega.

Aproveitando essa visão fácil, os pseudo-esquerdistas tentam inserir falsos consensos em torno de ritmos que a mídia direitista já explora com muito gosto, como o "funk carioca" e o tecnobrega. Por outro lado, os pseudo-esquerdistas precisam neutralizar e enfraquecer o debate de pautas como a regulação da mídia e a reforma agrária, através de uma postura que expressa uma aparente defesa no enunciado, mas um tenebroso desprezo aos detalhes.

Isso faz com que as esquerdas médias, fração hegemônica da intelectualidade progressista, adote posturas que não representam ruptura com o status quo midiático-cultural. Pelo contrário, imaginam que essa "cultura popular" que vem da grande mídia e do mercado são "expressão natural do povo pobre". Criam polêmicas sem necessidade, enquanto os pseudo-esquerdistas, quietos, se dirigem aos cenários da Globo e Folha para comemorar o proselitismo que enfraqueceu os debates sobre cultura brasileira.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

"FUNK CARIOCA" E O PARASITISMO SOBRE O ESTADO



TALVEZ O JUIZ JOAQUIM BARBOSA TIVESSE "MAIOR IMUNIDADE" NA OPINIÃO PÚBLICA SE TIVESSE SIDO UM FUNQUEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco, sob o pretexto de defender a "natural (sic) expressão das periferias", sempre encontra pretextos para pedir, das autoridades, o título de "movimento cultural" como forma de atrair verbas públicas num mercado que já é cheio de investimentos privados. O "funk carioca" é um caso ilustrativo disso.

Se autopromovendo às custas da tragédia que abateu o MC Daleste, durante uma apresentação no interior paulista, o lobby do "funk carioca", agora enfatizado na cena paulistana do "funk ostentação", agora tenta arrancar da Prefeitura de São Paulo o status de "movimento cultural" nos moldes do que foi feito com a cena carioca na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), em 2009.

Forçando a barra no pretensiosismo, os funqueiros confundem necessidade de obter segurança para seus eventos e pedir o fim da violência policial com a glamourização do ritmo, que é apenas um mero pop dançante e comercial.

Embora, da parte do prefeito Fernando Haddad, haja a boa intenção de criar um local para "bailes funk" que não cause incômodos à vizinhança, o movimento "Território Funk" exagera no engajamento social, postura que é ainda mais forçada no "funk ostentação" do que no próprio "funk" do Rio de Janeiro, que, pelo menos, sabia separar contextos diferentes para seu pretensiosismo.

No "funk ostentação", as diferenças entre "proibidão" (que exalta a violência), "funk comercial" (mais alegre e com ênfase nas "popozudas") e "funk de raiz" (que adota um arremedo de protesto social) não são muito nítidas. Além disso, os funqueiros tentam garantir sustento estatal nos "bailes funk", através do apelo para o "reconhecimento cultural".

Da mesma forma que o "funk carioca" não precisa forçar a barra nesse suposto engajamento político-social, já que é apenas um ritmo dançante sem maiores compromissos, também não precisa forçar a barra para pedir "reconhecimento", porque o ritmo já conta com um forte lobby na mídia, na política, no mercado e até nos meios acadêmicos.

O "funk carioca" possui uma aparente "imunidade" na opinião pública - apesar das duras críticas que recebe da sociedade, inclusive de muita gente da periferia - de tal forma que imaginamos até se os juízes do Poder Judiciário, como Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa e Roberto Gurgel, não poderiam gravar discos de "funk" para "melhorar" um pouco suas imagens para a tão badalada intelligentzia?

Enquanto o "funk carioca" vende uma falsa imagem de "movimento de pobre", cujo conteúdo ideológico, no fundo, apela mais para a glamourização da pobreza do que para pedir melhorias sociais autênticas, seu mercado demonstra ser um dos mais rentáveis do país, comandado por empresários-DJs muitíssimo ricos, que há anos não veem mais a cor da pobreza em suas vidas.

Além disso, a "livre expressão" na verdade é um rigor estético que escraviza os jovens pobres, que não podem aprender a cantar, compor, tocar instrumentos. Eles são prisioneiros da sua própria ignorância, da sua própria pobreza, e enquanto vendem a falsa imagem de "artistas de protesto", enriquecem os bolsos dos DJs que os apadrinham e mandam por trás.

O "funk carioca" cria um arremedo de protesto que só ganha o apoio da intelectualidade porque esta, trancada em seus escritórios e colegiados, precisa disfarçar sua formação elitista por algum tipo de paternalismo, e o apoio ao "funk" é uma forma eficaz das elites disfarçarem seus graves preconceitos sociais.

O "funk" estabelece esse discurso "social" há mais de dez anos e até agora a população pobre não melhorou com o "funk". Seus DJs ficaram mais ricos, se apresentam até para turistas gringos cobrando ingressos mais caros do que muito medalhão do rock, e no entanto até eles, mesmo sendo empresários poderosos, gracejam de tão esnobes quando alguém diz que eles estão muito ricos.

O povo pobre quer ouvir outras coisas. Quer assumir a herança cultural dos antepassados, com seus sambas, maxixes, lundus, jongos etc, mas o "funk" não deixa. As favelas viraram reféns do "funkocentrismo", da supremacia do "funk carioca" como medida de todas as coisas.

A situação é tão séria que agora os funqueiros estão transformando a tragédia de MC Daleste em marketing. Estão menos preocupados em pedir justiça para o crime contra ele do que em pedir "reconhecimento" para o "funk". Querem se autopromover às custas do jovem morto, forçando mais a barra num engajamento que o "funk", mero entretenimento, não tem.

E, para piorar, essa obsessão do "funk ostentação" em obter títulos de "movimento cultural", a exemplo do que ocorreu com o tecnobrega e o "funk" no Rio de Janeiro, é apenas uma manobra parasita para se obter verbas estatais para alimentar o mercado, de forma que não se mexa nas fortunas exorbitantes dos empresários-DJs de "funk" (ou, no caso do tecnobrega, nos de "aparelhagens").

Dessa forma, enquanto o Estado financia e patrocina eventos de "funk" e tecnobrega - ou de outro ritmo brega-popularesco que vier - , as fortunas dos empresários que controlam os "artistas" desses ritmos repousam em seus cofres para o deleite de seus projetos pessoais, como compra de apartamentos de luxo, viagens para o exterior, aquisição de latifúndios etc..

E, com a glamourização política do "funk" e do tecnobrega, tais ritmos se apoiam numa falsa perenidade que só tem serventia para o mercado, mas não para a sociedade. Até porque, com essa "cultura de massa" que só produz sucessos radiofônicos e fetiches midiáticos, não há a verdadeira valorização do conhecimento, tudo é tendencioso, falso e postiço.

Daí que não dá para dar reconhecimento cultural a pretensas expressões que, em boa parte, expressam o interesse empresarial na domesticação das classes populares. E essa domesticação, assim como a apologia à pobreza, tem o "funk carioca" como exemplo mais típico.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

JUIZ BARBOSA CONDENARIA EVENTUAL RÉU BARBOSA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O título do artigo, não assinado, é irônico, porque o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, se promove como símbolo de ética e transparência, mas comete muitas irregularidades que agora vêm à tona, não bastasse a lua-de-mel que ele vive com a inadimplente Rede Globo.

Juiz Barbosa condenaria eventual réu Barbosa

Do Jornal do Brasil On Line

A empresa de fachada do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa,  Assas JB Corp - criada para ele comprar um apartamento em Miami - tem seu endereço no mesmo local de sua residência. De acordo com matéria publicada nesta terça-feira (23/7) pelo site Brasil 247, esse subterfúgio entra em contradição com as decisões tomadas por Barbosa no julgamento do mensalão, quando acatou uma tese em que uma empresa com endereço residencial foi considerada de fachada. Leia abaixo a matéria do site:

Se "Joaquim B Gomes" fosse réu no Brasil e seu caso caísse nas mãos de Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, ele estaria em maus lençóis. Os dois, na verdade, são a mesma pessoa e "Joaquim B Gomes" foi apenas a forma que Joaquim Barbosa preferiu usar para assinar os papéis da Assas JB Corp, empresa offshore que ele criou para adquirir um imóvel avaliado em R$ 1 milhão, em Miami. Nela, consta como endereço a residência do presidente do STF no Brasil: SQS 312, bloco K, apartamento 503, em Brasília, CEP 70565-110.

O eventual réu "Joaquim B Gomes" poderia ser condenado pelo juiz Joaquim Barbosa por uma razão simples. No julgamento da Ação Penal 470, do chamado "mensalão", Barbosa acolheu a tese do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, quando ele pediu a condenação do deputado João Paulo Cunha (PT-SP), numa segunda ação de peculato.

Essa acusação dizia respeito à contratação da empresa IFT, do jornalista Luís Costa Pinto, para prestar serviços de consultoria na área de comunicação à Câmara dos Deputados. Gurgel e Barbosa consideravam a IFT uma "empresa de fachada" apenas porque sua sede comercial era também o endereço residencial do jornalista.

Eis, abaixo, a tese de Gurgel, acolhida por Barbosa:

Na verdade, a subcontratação foi uma armação para que Luís Costa Pinto fosse bem remunerado (vinte mil reais por mês) para prestar assessoria direta a João Paulo Cunha.

Contratado pela empresa SMP&B sob o manto formal do serviço apresentado em sua proposta, Luís Costa Pinto prestava assessoria direta a João Paulo Cunha. A empresa IFT, cujos sócios são Luís Costa Pinto e sua esposa, tem como endereço registrado na Receita Federal exatamente a residência dos proprietários, indicando que se trata de uma empresa de fachada.

O desvio perpetrado por João Paulo Cunha, no período compreendido entre fevereiro de 2004 até dezembro de 2004, alcançou o montante de R$ 252.000,00 (duzentos e cinquenta e dois mil reais), valor pago ao Sr. Luís Costa Pinto.

Observe-se que foi o próprio João Paulo Cunha quem autorizou a contratação da empresa IFT, cuja proposta trouxe o nome de Luís Costa Pinto.

Nesta terça, o blog O Cafezinho, do jornalista Miguel do Rosário, publicou novos documentos sobre a aquisição imobiliária feita por Joaquim Barbosa em Miami, onde consta uma estranha transferência da propriedade por apenas dez dólares. Barbosa disse que fez sua compra "em conformidade" com a lei americana e disse ter sido orientado por um advogado. Ele afirmou ainda ter recursos de sobra para o investimento feito nos Estados Unidos, mas sua sociedade numa empresa vem sendo questionada por advogados por ferir o Estatuto do Servidor Público.

Em tempo: na Ação Penal 470, João Paulo Cunha foi inocentado dessa segunda acusação de peculato, contrariando o desejo de Gurgel e Barbosa.

CARTA AOS JOVENS JORNALISTAS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Um texto interessante é este que alerta sobre a decadência do tipo de jornalista profissional da grande mídia, mais uma marionete de interesses empresariais. Sem atentar pelo mito do "jornalismo acima da sociedade", o artigo descreve a verdadeira importância da profissão jornalística.

Carta aos jovens jornalistas

Por Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo

Caro jovem interessado em jornalismo:

Você deve ter ouvido vaticínios terríveis sobre o futuro do jornalismo. E isso pode estar fazendo você desistir de ser jornalista.

 
Pois eu digo. Pense duas vezes.


O jornalismo não está acabando. Ele está, na verdade, passando por uma formidável transformação – para melhor.

O que vai chegando ao fim é a era do jornalismo em que o jornalista é um mero apêndice para os donos das corporações.


Alguns chamam isso de jornalismo corporativo.


Nele, o jornalismo é pago para defender as ideias dos donos e não para ajudar o mundo a se tornar melhor.


Você pode ganhar um salário bom, mas a frustração é enorme. Você rapidamente aprende que os interesses dos donos são prioritários.


Na era da internet, com a democratização da informação, o caráter nocivo das grandes empresas de jornalismo ficou estampado.


Não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Os grandes jornais americanos, por exemplo, deram apoio a Bush na criminosa invasão do Iraque.


Na Inglaterra, a sociedade se deu conta de que os jornais faziam barbaridades não para defender o interesse público, mas para vender mais e ampliar seus lucros.


Os ingleses acordaram depois que veio à luz a informação de que um tabloide de Murdoch invadira a caixa postal de uma garota sequestrada – e assassinada — em busca de furos.


A internet, ao atropelar a mídia tradicional, está destruindo este tipo de jornalismo, e não o jornalismo em si.


É um jornalismo em que, para fazer carreira, você tem que ser papista e obedecer cegamente ao papa, o dono.


Papista, para que você saiba, foi uma expressão usada por um jornalista chamado Evandro para ser contratado como diretor do Globo por Roberto Marinho.


“Sou papista”, avisou ele. Deu certo.


Vai surgir um jornalismo muito mais próximo dos sonhos dos jovens que sonham mudar o mundo.


O crescimento das empresas de jornalismo, nas últimas décadas, tornou-as maiores – e piores.


Razões econômicas e financeiras se impuseram sobre as razões editoriais.

É isso que muda agora.


O jornalismo digital é mais puro. Não o feito pelas empresas tradicionais, que carregam para ele seus vícios.


Mas o que nasce na própria internet.


Os jornalistas, na mídia digital, retomam a voz que tiveram um dia e que foram perdendo à medida que os negócios passaram a ser prioritários para as companhias jornalísticas.


E a remuneração, e a carreira?


A internet vai encontrando novos caminhos para isso, longe das corporações que se desintegram.

Um deles é o crowdfunding, em que uma comunidade banca um site ou um jornalista por entender que é bom que o conteúdo produzido é relevante.


Um dos melhores jornalistas do mundo nestes dias – o americano Glenn Greenwald, que aliás milita na internet – faz crowdfunding.


É um caso entre vários.


No jornalismo digital, o jornalista vai poder fazer diferença. Não vai ter que escrever o que o papa quer.


A velha carreira vai chegando ao fim. Mas ela foi ficando cada vez pior, e é difícil lamentar seu término inglório.


É frustrante o papel de papista a não ser que você seja um cínico interessado apenas em acumular moedas e se agarrar a um prestígio precário.


A nova era devolve o jornalista ao papel de protagonista.


Por isso, deve ser saudada entusiasmadamente.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

SEM DOMINGUINHOS, BAIÃO PERDE A ALMA


Por Alexandre Figueiredo

Ontem à noite, faleceu Dominguinhos, aos 72 anos, um dos músicos remanescentes dos tempos áureos do baião, quando a música nordestina tinha seu destaque como manifestação cultural autêntica que escapava do controle mercantilista do coronelismo midiático que se desenvolveu sobretudo depois de 1964.

José Domingos de Moraes era o herdeiro artístico de Luiz Gonzaga, tinha 50 anos de carreira e mais de 40 discos gravados e lutava há meses contra um câncer no pulmão. Sua família não tinha dinheiro para parte do tratamento da doença e chegou-se a cogitar um evento musical para arrecadar dinheiro para financiamento. Mas o músico faleceu ontem, horas depois de chegar à UTI do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

Teve vários sucessos e era um produtivo compositor. Entre os sucessos, está "De Volta pro Aconchego", em parceria com Nando Cordel, gravada pela cantora Elba Ramalho e que fez parte da trilha sonora da novela Roque Santeiro, da Globo. Também foi co-autor, com a cantora de baião Anastácia, da música "Eu Só Quero um Xodó", gravada há quarenta anos por Gilberto Gil e com boa execução em rádios até hoje.

É MUITO DIFÍCIL FAZER BAIÃO E OUTROS RITMOS NORDESTINOS

Dominguinhos conheceu Gonzagão aos nove anos de idade e surgiu uma grande amizade, que resultou também em parcerias e num aprendizado artístico que fez Dominguinhos o "filho artístico" do Rei do Baião, uma vez que Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha, seguiu um outro caminho musical, mais influenciado pela música intelectualizada dos CPCs da UNE. Sem Dominguinhos, o baião praticamente perdeu a alma, porque o músico foi um dos poucos a trabalhar o ritmo nordestino com emoção.

Não é muito fácil fazer baião, maxixe e outros ritmos constitutivos do chamado "forró". Pelo contrário, é muito, muito difícil. Não basta ter um acordeon e uma ideia na cabeça e trabalhá-la em festas juninas. Mesmo em trabalhos encomendados para festas juninas, casamentos e batizados, músicos como Luiz Gonzaga, Mário Zan e Dominguinhos, entre outros dessa época áurea, trabalhavam os ritmos nordestinos com emoção e espontaneidade.

Hoje tudo é técnica. Daí que um grupo como Falamansa, por exemplo, não tenha deixado grande marca. O grupo até escapa daquela deturpação grotesca do que se chama de "novo forró" - também conhecido como "forró eletrônico", "oxente-music" e forró-brega - , mas seu baião apenas é trabalhado numa técnica correta, mas sem a emoção natural de Gonzagão e cia.. O grupo é bem intencionado, mas soa por demais burocrático no som e nas composições.

Não bastasse a grande dificuldade de se produzir baiões, maxixes, xaxados e outros ritmos com a emoção necessária para não apenas reproduzir suas linguagens como senti-las e absorver seu estado de espírito, há também a deturpação grosseira que o termo "forró" se associou nos últimos anos.

O que se conhece oficialmente como "forró" tornou-se um engodo, uma "lavagem" tirada de "restos" do cardápio radiofônico que inclui country music, disco music, merengues, salsas e outros ritmos caribenhos. A falta de "nordestinidade" e de regionalidade, notada em grupos como Calcinha Preta, Mastruz Com Leite, Caviar com Rapadura, Aviões do Forró e Saia Rodada, cujas estéticas reproduzem até mesmo cabarés texanos, é tão gritante que até mesmo o som de sanfona é inspirado não na música nordestina, mas na música gaúcha.

O forró-brega tornou-se um mercado hegemônico, predatório e monopolista, além de se valer da precarização do mercado de trabalho, da exploração do trabalho dos compositores e da violação de qualquer processo de direitos autorais que a turma intelectualoide do "copyleft" faz vista grossa ou até mesmo apoia, por um simples ódio cego ao ECAD.

O mercado do forró-brega é tão nocivo que inclui até mesmo disputas de qual grupo vai gravar primeiro a música de algum compositor, e a coisa é tão feia que houve até caso de dançarina assassinada por outra na disputa de um posto num grupo de forró-brega do Espírito Santo (!), Estado da região Sudeste.

Não fosse isso suficiente, há também as temáticas que destoam completamente da poesia original do verdadeiro som nordestino. O forró-brega se ancora em letras de ódio conjugal, temas pornográficos e exaltação à bebedeira. Há até mesmo um sucesso, "Zuar e Beber", que defende a embriaguez de pessoas que vão dirigir um carro (no caso, uma Van). Imoralidades que só a intelectualidade dominante de hoje, com seu relativismo ético - valores retrógrados tornam-se "positivos" quando associados às "periferias" - acham normais.

Só a intelectualidade dominante, que não aponta diferenças entre forró-brega e o mangue beat (este sim, um movimento de renovação do som nordestino), acha o "novo forró" maravilhoso. Mas nem mesmo os nordestinos, como pernambucanos e cearenses, aguentam mais esse som. E, além do mais, seu monopólio chega mesmo a alimentar a corrupção de políticos conservadores, latifundiários e barões regionais da mídia associados.

ARTE HUMANISTA

Isso nada tinha a ver com a arte humanista da qual Dominguinhos foi um dos remanescentes. É verdade que o som nordestino associado a ele, Gonzagão, Mário Zan, Trio Nordestino, Genival Lacerda e outros remetem ainda a um Brasil rural, a tempos em que adolescentes ainda faziam brincadeiras de crianças.

Daí outra dificuldade. Afinal, o baião não é apenas um som, não é uma música com acordeon que fale de saudades e remeta a danças populares, mas um estado de espírito de um tempo que não existe mais. Da mesma forma, a Bossa Nova, como estado de espírito, também remete a um outro tempo, e o difícil é reproduzir essa "alma" cultural para os tempos de hoje.

Os impasses que a atualização desse estado de espírito encontra hoje, numa sociedade midiatizada e massificada, tragada pela mediocrização cultural galopante, é que faz com que a simples reprodução musical soe postiça e forçada, mesmo quando bem intencionada. É que, na falta de um "clima" e um "sentimento", essa reprodução se limita a técnica e, como tal, vulnerável a clichês e, na pior das hipóteses, em caricaturas.

Daí, por exemplo, fazer um samba como se faz um Grupo Revelação, meramente técnico, embora o grupo, do contrário do Falamansa, não está fora do contexto do "pagode romântico" dos deturpadores violentos do gênero. Ou no caso do Sambô, outro que está dentro desse contexto, misturando o sambrega do Exaltasamba com o "rock farofa" bem ao gosto da rádio 89 FM, em que o aprimoramento técnico - tanto do Sambô quanto do Revelação - não significam aprimoramento artístico.

Copiar é fácil. Há "bons solos" de guitarra até nas músicas melosas de Zezé di Camargo & Luciano. Em tempos de Internet, qualquer idiota sabe que, por exemplo, o punk rock teve os Sex Pistols. O neo-brega dos anos 90 chegou ao estágio em que seus ídolos hoje fazem um arremedo de MPB, com "lindos" arranjos acústicos e orquestrais que não resolvem o problema da mediocrização artística.

Isso porque não há estado de espírito. A técnica apenas reproduz na forma o que, no conteúdo, soa forçado e sem emoção. Por mais que grupos como Sambô e Revelação "caprichem" na sonoridade sambista, eles mantém sempre a atitude brega que marca seus colegas menos espertos como Grupo Molejo, Katinguelê e Os Morenos e que também não foge dos ambiciosos Alexandre Pires e Belo, estes mergulhados numa pseudo-MPB para turista ouvir.

Daí que a coisa se agrava. Hoje os mais antigos grupos de forró-brega tentam cortejar a "música de raiz", tocando baiões e sobretudo sucessos de Gonzagão e cia.. Muito fácil gravar covers, se alimentar de repertório alheio e passar por "arte de qualidade". É como um aluno ruim que, para fazer um trabalho de aula, copia fragmentos de livros de grandes autores para "montar" um trabalho "bem feito", no qual o aluno não esboçou qualquer tipo de criação, por pior que esta seja.

Neste sentido, Dominguinhos, com sua arte humanista, fará muita falta. Ele era uma referência para as gerações atuais de um som nordestino feito com alma e emoção. Ele foi muito mais do que um sanfoneiro animando festas, mas um criador que sentia o que fazia.

Nos tempos tecnicistas de hoje, há dúvidas se haverá um sucessor que reúna o carisma, a visibilidade e o talento de Dominguinhos, numa época em que "som nordestino" tem muito pouco a ver com a realidade musical própria do Nordeste, mais parecendo uma paródia de rincões porto-riquenhos e mexicanos da Flórida.

COM SONEGAÇÃO, GLOBO ENTRA NO RITMO DA "PRIVATARIA TUCANA"


Por Alexandre Figueiredo

Obviamente, não vai dar no Bom Dia Brasil. E muito menos nos comentários de Miriam Leitão, a não ser para tentar algum desmentimento no caso. Mas o que vai abalar os bastidores das Organizações Globo é uma reportagem de Amaury Ribeiro Jr. e Rodrigo Lopes que revelará detalhes sobre o escândalo da sonegação fiscal da famosa corporação midiática dos filhos do "doutor" Roberto Marinho.

Amaury é conhecido pelo livro A Privataria Tucana, que revelou os escândalos financeiros dos políticos do PSDB, durante os governos de Fernando Henrique Cardoso, incluindo conexões com o esquema do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity. A veracidade das informações abalou as estruturas do poderio político-midiático, irritando até o "imortal" Merval Pereira. E o livro vendeu muito bem.

Um bom "prato" desse cardápio informativo é o fato de que o Tesouro Nacional bloqueou várias contas e bens da Globopar (Globo Comunicações e Participações S/A), empresa ligada às OG, devido a uma dívida ativa de R$ 178 milhões. A Procuradoria da Fazenda Nacional do Rio de Janeiro chegou a bloquear os bens da Infoglobo e Empresa Globo Ltda., mas os irmãos Marinho recorreram da decisão na 26ª Vara de Justiça do Rio de Janeiro e obtiveram a liberação dos bens.

A reportagem chegou às bancas hoje, no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, mas seus efeitos não tardarão a vir e serão fortes. Afinal, não é hoje que a Globo anda muito abalada, tendo sofrido até mesmo ataques de vandalismo em atitudes radicais consequentes aos protestos populares, que incluem a corporação na pauta da indignação popular.

As Organizações Globo são conhecidas, nos bastidores da Receita Federal, como uma das maiores inadimplentes. A corporação dos irmãos Marinho, nos últimos dois anos, recebeu não menos que 776 notificações da Receita Federal sobre as dívidas que a megaempresa tem com o Imposto de Renda.

O número de notificações é escandaloso. E se observarmos o quanto a Rede Globo ganha de dinheiro arrecadado com o programa Criança Esperança, isso é assustador. Afinal, deixemos de ingenuidade: o projeto "filantrópico" arrecada muito dinheiro e apenas uma pequena parte vai para as instituições sociais. O resto vai para seus empresários.

Os primeiros dados de sonegação fiscal foram divulgados por Miguel do Rosário, jornalista que faz o blogue O Cafezinho, que apresentou em primeira mão documentos que a Globo havia sonegado à Receita Federal durante o governo Fernando Henrique Cardoso, devendo um valor na ordem de R$ 183,14 milhões, se levar em conta valores não atualizados. Se considerar valores atualizados e somar a eles juros e multa, a dívida, no processo da RF em 2006, equivaleu a R$ 615 milhões.

É um escândalo digno de ser publicado em livro, e envolve até mesmo a compra de direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002, que, conforme você leu no Mingau de Aço, foi uma grande armação, um "penta" fabricado por Ricardo Teixeira em parceria com a Globo. E, para agravar, a Globopar era uma holding usada para "limpar" as contas de empresas que recolhem mais dinheiro público em forma de publicidade oficial, incluindo os "bônus por volume" que "anabolizam" as verbas recebidas.

Esses incidentes são um alerta justamente para isso. Afinal, a Dilma Rousseff comete o equívoco de alimentar com "bônus por volume" as verbas da grande mídia para esta publicar propaganda do Governo Federal. Desse modo, a presidenta sustenta a mídia que a desmoraliza.

Sem defender com firmeza a regulação da mídia, Dilma e seu ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, consentem com o poder das corporações midiáticas como a Globo. E permite que a Globo cometa irregularidades financeiras enquanto exerce seu poder de formadora de opiniões e até de artífice do inconsciente coletivo brasileiro e manipuladora dos valores da cultura popular brasileira. Isso é muito grave.

Uma empresa que manipula a sociedade e está com situação suja no IRRF. O escândalo da sonegação vai dar muito o que falar.

terça-feira, 23 de julho de 2013

VERÍSSIMO, EX-ESQUERDISTAS E PSEUDO-ESQUERDISTAS


Por Alexandre Figueiredo

O escritor Luís Fernando Veríssimo publicou ontem, em O Globo, um artigo chamado "Conversões", em que ele fala do processo de antigos esquerdistas de se migrarem para o direitismo ideológico, muitas vezes de forma intransigente e quase sempre com furiosa aversão às antigas qualidades de juventude.

Com um texto dotado de algum humor irônico - Veríssimo é integrante do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé - , que com um simpático sarcasmo chama o ato de ser esquerdista de "engano", o criador do Analista de Bagé e filho de Érico Veríssimo traça o processo de um direitista que um dia havia sido uma pessoa de esquerda.

Os "ex-querdistas" são muito conhecidos. Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar, Fernando Gabeira, Marcelo Tas, Lobão, Marcelo Madureira, Sônia Francine, só para citar os mais famosos. Todos eles antes comunistas ou até mesmo trotskistas convictos, antigos adeptos do PT, que depois, desiludidos, ou talvez tomados de algum privilégio, chutaram seus paus nas barracas socialistas de outrora.

Talvez haja rumores que a patota "ex-querdista" conte com as adesões de Eduardo Suplicy e Marina Silva, embora oficialmente eles não tenham se posicionado como neocons. Mas eles já começam a mudar o rumo de suas antigas trajetórias progressistas, através de algumas posturas conservadoras.

Em dada passagem do texto, Veríssimo escreve: "Não se tem notícia de uma migração ao contrário, de direitistas que voltam a ser esquerdistas, até como uma forma de recuperar a juventude". Isso é um grande alerta para aqueles que se iludiram com a pseudo-esquerda que veio na carona do fenômeno Luís Inácio Lula da Silva.

Mesmo um Mário Kertèsz - que se acha dono das esquerdas baianas mas tem origem política na ditadura, através da ARENA - ou um Jaime Lerner - outro oriundo da ARENA - não representam essa migração, até porque eles continuam mantendo ideias e valores próprios da mais histérica direita, embora tenham maior cautela de assumir a toda hora suas posturas pessoais.

Ou então, mais recentemente, um Eugênio Raggi - mineiro que se diz "petista" mas pensa como se fosse um tucano radicalizado mais à direita - ou um Pedro Alexandre Sanches vindo do Projeto Folha de Otávio Frias Filho para saltar de pára-quedas na imprensa escrita de esquerda, também não indicam qualquer postura, mesmo enrustida, a respeito.

Sobre o texto de Veríssimo, nota-se que o esquerdismo muitas vezes está ligado ao idealismo da juventude, e a conversão direitista seria um efeito das desilusões que se tem ao fracasso desse idealismo e à impotência de aliados esquerdistas.

Sobre a pseudo-esquerda, o que se observa é um direitismo envergonhado de alguns formadores de opinião, que, querendo levar vantagem na sociedade, guardam seu direitismo na geladeira e, amparado por alguns pretextos - como o "popular" e a "cidadania" - , tentam algum falso esquerdismo que se desmascara no menor obstáculo.

Em algum momento, os pseudo-esquerdistas acabam tomando o rumo dos "ex-querdistas". Se estes, mesmo convictamente esquerdistas, migram para a direita e passam a reprovar o antigo esquerdismo com uma certa raiva, os pseudo-esquerdistas, mesmo de uma forma envergonhada, acabam também partindo para o mesmo apetite anti-esquerdista.

É quando se criticam manifestações radicalmente esquerdistas, como as lutas pela reforma agrária, a MPB de protesto e musicalmente de raiz, os movimentos pela regulação midiática. No fundo, a pseudo-esquerda ingressa na esquerda para fazer cobranças a ela, a troco de uma falsa solidariedade e uma identificação mais falsa ainda das causas progressistas.

Na medida em que essas cobranças não são atendidas, a pseudo-esquerda pode se virar para a direita da forma ainda mais radical do que se imagina, e aí é que está o perigo das forças progressistas obterem a adesão movida por conveniências de gente "alienígena" formada nos círculos direitistas.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

PSEUDO-MPB E OS ARTIFÍCIOS DOS NEO-BREGAS


Por Alexandre Figueiredo

No Domingão do Faustão, o cantor breganejo Leonardo, que havia pensado em se aposentar, apareceu mais uma vez para lançar seu novo disco e contar a respeito de fatos de sua vida, incluindo conhecidas tragédias familiares, como o acidente que quase matou seu filho e a doença que matou o irmão e parceiro Leandro, com o qual formou a dupla Leandro & Leonardo.

A exemplo de outros nomes da geração neo-brega dos anos 90, como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Belo, Alexandre Pires e Daniel, Leonardo tenta um "revival" não-assumido, mas agora admitindo a postura de "veteranos" depois de uma enxurrada de nomes "universitários" que povoam as cenas pós-bregas (que emulam um aparato mais "moderno"), prometendo uma postura mais "sofisticada".

Os neo-bregas que, em 1990, simbolizavam a Era Collor - o próprio ex-presidente Fernando Collor, hoje, é senador e dublê de conselheiro para as esquerdas médias - , sempre ignoraram a MPB e esnobavam qualquer tipo de sofisticação. MPB era "coisa de bacana", mesmo quando, na época, ela tinha um bom trânsito nas rádios e pelo menos fazia parte de 5% do cardápio musical tocado pelas rádios popularescas.

Naquela época, nomes como Marisa Monte e Adriana Calcanhoto, além de Chico César - com sua voz parecida com a de Caetano Veloso - , faziam a juventude brasileira, na ressaca do já desgastado Rock Brasil (que não conseguia manter o mesmo diálogo com o público brasileiro que exercia antes), redescobrir a verdadeira MPB. Era uma surpresa ver, em 1993, jovens de 15 anos falando em Paulinho da Viola, em Bossa Nova, em sambalanço. Era uma grande novidade.

Somente nos últimos 15 anos, talvez para "correr atrás do prejuízo", os neo-bregas passaram a emular clichês bastante manjados da MPB popularizada pelo rádio, mas sem representar qualquer tipo de ruptura com a mesmice que assolou a MPB autêntica a partir do final dos anos 70. Pelo contrário, com o êxodo dos então medalhões da MPB para fora das grandes gravadoras, elas apostam nos neo-bregas para assumir o nicho da "MPB pasteurizada" que a MPB não quis mais fazer.

Leonardo, na sua aparição de ontem, interpretou até mesmo uma canção em arranjo de voz e piano de Michael Sullivan e Paulo Massadas, "Talismã", que havia sido um sucesso nacional da dupla Leandro & Leonardo (mas um sucesso local, no Rio de Janeiro, pelo pagodeiro Edson do Forrogode).

A performance segue a mesma tendência de Alexandre Pires, em arranjo acústico num CD recente - o Eletrosamba, em que o agora regresso vocalista do Só Pra Contrariar imaginou um "novo cenário de samba" que nunca existiu - , e Chitãozinho & Xororó, em arranjos orquestrais sob a batuta do veterano João Carlos Martins.

É a tendência de regravar antigos sucessos agora com arranjos luxuosos - evidentemente feitos por outrem - , como se quisessem entrar no primeiro time da MPB sem muito esforço. Um artifício que os neo-bregas fazem para ampliar seu mercado ou justificar alguma perenidade artística que, na verdade, não existe, por serem eles ídolos da música comercial, queiram ou não queiram seus fãs.

Afinal, trata-se da mesma pseudo-MPB que irritava os jovens nos anos 80, que fazia a crítica torcer o nariz e que fazia intelectuais do porte de José Ramos Tinhorão e Rui Castro os definirem como símbolos da decadência cultural do país. A única diferença é que os "artistas" de hoje possuem maior apelo popular do que os antigos medalhões da MPB que se cansaram de serem feitos marionetes dos executivos das gravadoras.

No entanto, se os neo-bregas ganham dos medalhões da MPB autêntica por terem maior apelo popular, eles, como artistas, perdem pela falta de criatividade e até mesmo pela submissão com que abraçam as tendências do mercado, regravando antigos sucessos ou regravando sucessos da MPB autêntica sem que acrescentassem algo à verdadeira Música Popular Brasileira que não sejam sucessos financeiros ou visibilidade midiática.

Já dá até para perceber que os neo-bregas hoje soam bastante datados. Mesmo os ídolos tardios dessa tendência, como Thiaguinho e Cláudia Leitte, também soam muito datados. E todos eles, querendo fazer "MPB de verdade", apenas repetem os clichês elitistas que a fase pasteurizada da MPB, mais preocupada em criar um clima de luxo e de gala do que de renovar nossa cultura musical, fez para tornar-se conhecida jocosamente como "Música Impopular Brasileira".

Até porque a MPB nunca esteve no coração dos neo-bregas. Nunca fez parte, de fato, de suas vidas, a MPB como um estado de espírito para vocação musical. E ainda por cima eles só esperaram ficar ricos, fazer muito sucesso, para depois tentar fazer MPB, mas uma MPB sem alma, uma mera embalagem para os públicos de elite consumirem. Mas cujo conteúdo chega a ser pior do que a MPB pasteurizada de antes. Os neo-bregas acabaram ficando bregas demais para a MPB.

REDE GLOBO ABRE "GUERRA" CONTRA PROTESTOS


Por Alexandre Figueiredo

Depois de uma quase "lua-de-mel" com os protestos populares, que não passava de uma tentativa de embarcar nos movimentos, a  Rede Globo voltou a condenar as manifestações, depois que se intensificaram os protestos específicos contra as Organizações Globo, que incluíram passeatas em frente à sede da emissora e de suas afiliadas e até mesmo um ataque de vandalismo numa portaria de um prédio administrativo da emissora.

Acuada, e com a reputação ferida pelas denúncias do blogueiro Miguel do Rosário, de O Cafezinho, que divulgou documentos indicando sonegação fiscal cometida pela corporação dos irmãos Marinho, a Globo se encontra numa situação tão complicada que o jornalista Carlos Tramontina, apresentador do SP-TV, noticiário local da TV Globo paulistana, teve que noticiar com "imparcialidade" e à luz de raio verde um protesto contra a Globo realizado na capital paulista.

Os atos contra um prédio administrativo da Globo foram o prato cheio para os noticiários das emissoras ligadas às Organizações Globo, que enfatizaram a agressividade dessa minoria que nada tem a ver com a multidão que protesta nas ruas por melhorias sociais.

A enfatização dos protestos também enfocou ataques a lojas e outros estabelecimentos próximos, no Leblon, Zona Sul carioca, onde fica o prédio administrativo da Globo. Policiais reprimiram com gás lacrimogêneo. Aparentemente, a cobertura parece "imparcial", mas o modo que as coberturas destacavam os incidentes mostra um certo "revanchismo" da Globo contra os ataques sofridos em sua sede administrativa.




Outro motivo para essa reação teria sido uma manifestação na sede do jornal O Globo em que a placa do nome da rua Irineu Marinho foi substituída por uma placa em estética semelhante que, em tom de paródia, se chamava rua Leonel Brizola. Era uma alusão ao falecido político que, nos anos 80, era conhecido pela sua postura de protesto contra a emissora, resultante da vocação nacionalista de esquerda conhecida desde a década de 1960.

Com isso, a postura antimanifestações da Globo só cedeu terreno nos últimos dias, porque a emissora se concentra na cobertura da Jornada Mundial da Juventude, a ocorrer esta semana, pela própria relevância turístico-religiosa do evento internacional a ser realizado no Rio de Janeiro. Foi apenas um refresco diante da fúria da emissora contra os protestos.

Na semana passada, até a TV Bandeirantes enfatizou os vandalismos, num malabarismo discursivo igual ao da Globo em que, sem renegar a existência dos protestos pacíficos, os "minimiza" e "domestica" enquanto "agiganta" os atos violentos das minorias que só querem confusão.

É a psicologia do medo, ou a "cultura do medo", que tenta intimidar a população, desviar o foco das manifestações populares e garantir o poderio político-midiático que tranquiliza as elites. O que mostra que o poderio midiático, com seu espetáculo de informação e entretenimento, tenta confundir interesses privados e interesses públicos, um problema que seria resolvido com uma justa e eficiente regulação democrática da mídia.

domingo, 21 de julho de 2013

A BAIXA AUTOESTIMA CONTAMINA O BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Os anos 90 foram a década perdida no Brasil. Isso porque foi nessa época que os valores duvidosos introduzidos no establishment do entretenimento que os EUA viviam nos anos 80 (oficialmente a década perdida de lá) foram introduzidos em nosso país.

Com promessas de melhor tecnologia, maior visibilidade de famosos em geral e até acadêmicos, e de algum benefício "pragmático" na vida de qualquer um, passou-se a se contentar com pouco, aceitando facilmente qualquer degradação ou deturpação de conceitos, ideias e propostas para o mínimo do medíocre, mesmo que esteja longe até de atender as necessidades mais básicas.

E qualquer degradação tinha sua desculpa. "É para atrair mais público", "É para organizar melhor", "É porque o povo entende isso melhor", entre outras coisas. Fora aquela desculpa esfarrapada que muito se ouve: "Sei que não é uma maravilha, mas é melhor do que nada".

Essa postura se torna bem pior do que no pré-1964. Mesmo nos primeiros anos da ditadura militar, lutava-se por melhores condições de vida. Hoje recomeçam os protestos de ruas, mas são apenas o começo de um despertar que ainda não é completo, é um começo de tentativa de superação dos problemas, mas que não trouxe resultados plenos e concretos, embora isso seja questão de tempo.

Mas foram cerca de 50 anos de degradação de todos os sentidos. Na ordem política, econômica, cultural, institucional. Da mobilidade urbana ao radialismo rock, da problemática das mulheres pobres à mediocridade intelectual na Academia Brasileira de Letras. Parecia que o Brasil se degradava em doses homeopáticas, mas de 1964 para cá o país regrediu em dimensões buñuel-kafkianas.

Na música brasileira, temos um quadro pior. A respeitável e admirável Música Popular Brasileira de 1965-1968 é hoje depreciada, mesmo de forma "científica" em monografias e documentários, seja pela glorificação da mediocrização cultural do brega e seus derivados (inclusive o "funk"), seja pela esculhambação gratuita de nomes de indiscutível talento como Chico Buarque e Edu Lobo.

E hoje a situação é pior, porque mesmo os ritmos populares autênticos, como sambas, baiões, modinhas e outros agora são discriminados em prol de uma "cultura de massa" que até combina apelo popular com sucesso comercial, mas possuem valor artístico-cultural bastante duvidosos, por mais que a intelectualidade insista em relativizá-los.

O grande público, que antes era receptivo até a um sofisticado Edu Lobo, hoje está muito mal acostumado com as mesmices brega-popularescas que só produzem hits instantâneos, mas são desprovidos de qualquer responsabilidade sócio-cultural e artística, porque não produzem conhecimentos, só produzem refrões a serem consumidos pelo "povão".

A perda de autoestima é clara. Muitos não querem mais cultura brasileira, mas tão somente um hit-parade a competir com os EUA, com a desvantagem de que nosso "ritipareide" é a imitação do grande país imperialista.

Em vez de desejarmos um novo Jackson do Pandeiro, temos um Márcio Victor do Psirico. Em vez de querermos um novo Sidney Miller, temos um Michel Teló. Em vez de procurarmos um novo Agostinho dos Santos, encontramos um Thiaguinho. E em vez de esperarmos por uma nova Sílvia Telles, vem logo uma MC Anitta.

MC Anitta é o paradigma do hit-parade radicalmente assumido no Brasil. E que elimina qualquer contexto para as pregações intelectualoides que, em seus delírios ideológicos travestidos de "ciências humanas", tentam glamourizar os fenômenos de massa com falsas alusões a movimentos libertários ou expressões artísticas de vanguarda.

Observando o sucesso da funqueira em cada passo, nota-se todo o marketing bem calculado em factoides, demonstrações de falsa modéstia e até mesmo a solteirice forçada (para não dizer falsa) típica das musas popularescas. Pode parecer uma campanha engenhosa e certeira, mas com certeza nada para nos fazer esquecer de Silvinha Telles morta no auge da carreira, aos 32 anos, em 1966.

Mas não é só no aspecto musical. De repente, o Brasil abriu mão de querer realmente o melhor. Se quer o "melhor", mas apenas em sentido "pragmático" de atender apenas a necessidades imediatistas. Nada que represente real qualidade de vida, mas apenas algo que possibilite a sobrevivência humana e o atendimento apenas a necessidades instintivas, nem sempre prioritárias ou vantajosas.

Daí a herança dos anos 90 da ditadura midiática, do direitismo político, do neoliberalismo econômico. Só que muitos desses "frutos" são defendidos como se não tivessem a ver com esse contexto sócio-político de tecnocratas, políticos ainda autoritários e executivos de mídia que, trancados nos seus escritórios, acham que detém os segredos e os desejos das classes populares dentro de seus ternos.

Não se quer cultura, mas apenas "cultura pop", igualzinho ao que acontece nos EUA. Pouco importa a produção de conhecimentos e valores sociais sólidos, o que se defende é o consumismo puro, travestido de "cultura das periferias".

Mesmo entre parte da opinião pública esclarecida, o poder midiático, político, tecnocrático e econômico manipulou seus desejos, suas ideias e perspectivas. De repente, aquelas pessoas que tinham algum senso questionativo mais ácido passam a amaciar seu senso crítico, aceitando o "estabelecido" porque "os tempos são outros".

Portanto, não há como escapar. O Brasil que tem MC Anitta como a "maior revelação" da música é o país que tem Merval Pereira na Academia Brasileira de Letras, Joaquim Barbosa de mãos dadas com a Globo, Jaime Lerner ainda pregando modelos ditatoriais de mobilidade urbana, Geraldo Alckmin governando São Paulo como se fosse um tirano medieval (ele é ligado a Opus Dei).

Este é ainda um país anterior aos protestos de ruas, que mostra intelectuais preferindo defender o jabaculê como futuro da cultura popular, enquanto membros do Judiciário defendem a "legalidade" da ditadura midiática. É um país marcado pela baixa autoestima, de preferir macaquear os EUA - como MC Anitta imitando Britney Spears e cia. - do que ser o próprio Brasil da justiça social e qualidade devida.

sábado, 20 de julho de 2013

O ESTRANHO CASO DE JOÃO GILBERTO E DANIEL DANTAS, O BANQUEIRO


Por Alexandre Figueiredo

38 anos depois do polêmico "elogio" do cineasta Glauber Rocha ao general Golbery do Couto e Silva, no auge da ditadura militar, outro figurão do triênio 1959-1961 se envolve com outra eminência parda do neoliberalismo sócio-político-econômico.

O músico de Bossa Nova João Gilberto, considerado o maior criador do gênero, se associou ao conterrâneo, o banqueiro baiano Daniel Dantas - do banco Opportunity, célebre com seus negócios ao lado de políticos do PSDB - , para um processo que João move contra a gravadora EMI (companhia inglesa que já se desfaz de seus negócios).

No processo, o dono do Opportunity adiantou um empréstimo ao violonista na ordem de R$ 10 milhões, sob a garantia de que Dantas teria direito a metade do dinheiro da indenização que a falida EMI (cujo espólio hoje é rateado por outras gravadoras; os Beatles, por exemplo, são da Universal Music) terá de pagar ao cantor.

O processo se deu porque a EMI, que se tornou responsável pelos três principais discos do cantor - Chega de saudade (1959), O amor, o sorriso e a flor (1960) e João Gilberto (1961) - havia lançado uma coletânea, O Mito, em 1988, na qual remasterizou os sucessos do cantor, que, exigente na qualidade acústica de sua música, não gostou do resultado.

Além de não ter gostado do som remasterizado, que descaraterizou a precisão acústica do som original - as técnicas de remasterização dos anos 80 ainda davam a um som lançado originalmente em vinil uma qualidade comparável à superficialidade de uma fita cassete - , João não gostou do fato de suas músicas serem lançadas em coletânea, definindo a atitude como uma mutilação de seu trabalho.

A partir de então, iniciou-se uma batalha jurídica que só tornou-se favorável ao cantor em 2012. As esperanças de que os discos gravados pelo antigo selo Odeon, da EMI, passem para a responsabilidade do cantor (e, mais tarde, de seus possíveis herdeiros, já que João hoje tem 82 anos), tornam-se grandes, em tempos de perda da supremacia do ECAD.

Há uma divergência de informações quanto ao valor que deve ser indenizado. Os advogados da EMI afirmam que o valor da indenização é de R$ 1,2 milhão. Os de João Gilberto garantem que o valor é na ordem de R$ 100 milhões. Além de passar metade do valor a ser indenizado a Daniel Dantas, o banqueiro também receberá de volta os R$ 10 milhões investidos no processo.

A empresa de Dantas, a P. I. Participações, irá cuidar das estratégias judiciais e comerciais relacionadas ao processo. Através dessa empresa, advogados atuarão nas ações e acompanharão o andamento do processo, que já se inicia na Justiça.

EMPRESAS E EMPRESAS

Enquanto o recluso e misterioso João Gilberto se envolve justamente com um banqueiro famoso por suas artimanhas político-empresariais, várias delas envolvendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e relatadas por Amaury Ribeiro Jr. no livro Privataria Tucana, a "cultura do povão" se reduz, ela mesma, a um reles empreendimento empresarial.

Esse empreendimento, que envolve desde estilos musicais como o brega "de raiz" (Odair José, Amado Batista etc), o "funk carioca" e o forró-brega, até agenciamento de musas "boazudas", estabelece um paradigma duvidoso de cultura das classes populares, baseado na supremacia do "mau gosto" como única fórmula "viável" para a emancipação econômica das classes populares.

A cultura brasileira torna-se refém do mercado, e tudo que os intelectuais mais badalados fazem é defender a supremacia do "mau gosto" e exigir tão somente mais recursos financeiros para atividades culturais, sejam elas genuínas e bastardas.

Daí, vemos a Bossa Nova - verdadeira vítima de preconceitos partidos de uma intelectualidade "sem preconceitos" que prefere o brega - depender de um empresário conhecido por sua sonegação fiscal, suas politicagens e outras manobras, enquanto o povo pobre consome ídolos musicais que não passam de meras mercadorias de empresários do entretenimento e barões da grande mídia.

E o que dizer de músicos "sertanejos", funqueiros, axézeiros, grupos de forró-brega, estilos "regionais" como arrocha e tchê-music, cujos empresários, patrocinadores e divulgadores, de uma forma ou de outra, também são ligados a Daniel Dantas?

Talvez a intelectualidade pró-brega prefira, em vez de Dantas, gente mais "profissional" como George Soros e os executivos das diversas empresas estadunidenses que cercam a Fundação Ford (quem pensou que a instituição só era ligada a uma companhia automobilística, errou; inclui ela, sim, mas inclui outras corporações), capazes de forjar uma aparente "transparência" e "imparcialidade".

Em todo caso, fica o mistério que é realmente a figura reclusa de João Gilberto. Um artista impecável, sofisticado, admirável, mas uma personalidade difícil de entender. Dizer que João Gilberto se corrompeu é errôneo e simplório. Para recuperar sua propriedade intelectual, o inexplicável João tem razões pessoais de sobra para recorrer a Dantas. Mas, para nós, ele continua sendo difícil de entender.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

ÚLTIMA GERAÇÃO DO BREGA É BEM "SORVETE NA TESTA"


Por Alexandre Figueiredo

A cada dia, a música brega desce a um nível abaixo da indigência musical. A "ditabranda do mau gosto", que deslumbra a intelectualidade dominante, num país em que a Academia Brasileira de Letras tem um Merval Pereira e Joaquim Barbosa preside o STF de mãos dadas com a Rede Globo, a cada dia perde até mesmo a antiga verossimilhança.

As últimas gerações do brega, passado o complexo de superioridade dos neo-bregas e o pretensiosismo pseudo-cult dos pós-bregas, demonstram cada vez mais que o negócio mesmo é o hit-parade, num recado curto e grosso para a opinião pública, mostrando que o negócio do brega brasileiro é o "sorvete na testa" do comercialismo mais rasteiro.

Gusttavo Lima, Michel Teló, MC Federado e Os Lelekes, Israel Novaes, MC Anitta, MC Naldo Benny, João Lucas e Marcelo, Sambô, MC Koringa, Black Style e tantos outros representam a geração brega que leva o comercialismo até às últimas consequências.

Só a cantora MC Anitta já produziu factoides e frivolidades num processo típico dos astros pop mais comerciais dos EUA. Sua carreira mostra-se claramente calculada, tanto em estratégia de publicidade, quanto na produção de factoides, mostrando um comercialismo não só explícito, mas gritante, sem qualquer valor cultural.

Num país ainda à procura de uma nova Sílvia Telles, a funqueira MC Anitta, arroz-de-festa da grande mídia, mais parece um ídolo que o mercado brasileiro montou não só para compensar a debandada de Kelly Key (hoje transformada em cantora infanto-juvenil) e MC Perlla (que virou evangélica), mas para competir com ícones estrangeiros do pop comercial, como Britney Spears.

Na música brega, o comercialismo sempre foi sua meta e o hit-parade sempre foi a finalidade de seu mercado. Deixemos de lado as chorosas alegações de "cultura das periferias", "expressão do povo pobre" e falsas alegações de que o mercado e a grande mídia "morreram" no Brasil, porque o discurso pretensioso de tentar elevar o brega ao status de "arte séria" não passou de conversa para boi dormir.

Todavia, até algum tempo atrás o brega pelo menos conseguia enganar com seu pretensiosismo "artístico", que poderia até ser falso, rudimentar e risível, às vezes até constrangedor, mas pelo menos garantia uma verossimilhança suficiente para garantir a choradeira intelectual dissolvida até mesmo em monografias universitárias e filmes documentários.

Até mesmo a pseudo-sofisticação dos neo-bregas dos anos 90, gente que começou fazendo os mais toscos sucessos do "pagode romântico" e da "música sertaneja", parecia quase convincente com um aparato de "MPB de mentirinha", já que são artistas que as grandes gravadoras (e a Rede Globo) escolheram para substituir os artistas de MPB que, cansados de serem explorados pela indústria fonográfica, romperam contrato com as "grandes irmãs".

Hoje, porém, não há mais aquele simulacro de poesia do brega setentista que, ao menos, servia para enfeitar para-choques de caminhões, nem aquele pseudo-lirismo que o "pagode romântico" e o "sertanejo" dos anos 90 forjavam, mas refrões do tipo "Ai se eu te pego" e "Eu também te quero mais". Fora os "tchu-tchás" e "lelekes" que pipocam por aí.

A atual geração do brega-popularesco radicaliza e leva às últimas consequências todo o comercialismo e a mediocrização cultural que sempre estiveram associados ao brega, desde seus primórdios e mesmo nas suas aventuras "mais culturais". Com a geração atual,  as antigas sutilezas que davam algum verniz "um pouco mais artístico" ao brega foram derrubadas de vez. Agora é marketing puro, nu e cru.

Mesmo em relação a grupos "ambiciosos" como o Sambô - que combina o sambrega com o "roquinho" da UOL 89 FM - , a atitude "sorvete na testa" se dá quando o grupo, com seu inglês "superamericano" da linha "the book is on the table", interpreta de forma sorridente a canção "Sunday Bloody Sunday", do U2, de temática fortemente trágica.

Portanto, fica muito difícil, conforme dissemos outrora, forjar uma imagem de "libertária" a essa última geração de bregas, cuja superficialidade os faz próximos a banalidades como Justin Bieber e Britney Spears. Ou que remetem a mediocridades do porte de Latino, Leva Nóis e outros que nem para seduzir antropólogos e cineastas conseguem fazer.

O brega dos últimos anos está comercial demais para que as elites pensantes fiquem perdendo tempo criando teorias "heroicas" e delírios "modernista-libertários" sobre esses ídolos. Se no brega anterior, isso já não era convincente, o de hoje já nem dá para disfarçar. Virou mercadoria mesmo. Sorvete para se consumir geladinho na testa dos incautos.
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