domingo, 30 de junho de 2013

OS PROTESTOS DE RUAS E AS PRESSÕES PELA PARTIDARIZAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

Infelizmente, as esquerdas médias tiveram um surto não menos intenso do que a grande mídia direitista teve. Se esta, em primeiro momento, tentou associar os movimentos populares aos atos de vandalismo, como se tudo fosse a mesma desordem, as esquerdas médias tentam promover o corporativismo e defender a partidarização dos protestos de ruas.

Existe uma grande diferença entre o direito de exibir bandeiras de partidos políticos, sindicatos e entidades de classes, o que faz parte do jogo democrático, e o direito de partidarizar os protestos de ruas. O corporativismo do Partido dos Trabalhadores quer dar a impressão de que foi o responsável pela realização dos protestos de ruas que acontecem nas cidades brasileiras.

Se o PT foi mesmo "responsável", só de forma negativa. A independência das manifestações faz com que Globo e PT fiquem desnorteados, na medida em que nenhum dos dois consegue ter um controle social nos movimentos. E aí a corporação midiática e o partido do Governo Federal tentam, numa "guerra fria" mixuruca, trocar acusações de que a independência ideológica seria uma "manipulação".

Há uma tese esquisita nas esquerdas que é que a independência ideológica do movimento seria "uma forma de autoritarismo", isso quando não apontam a influência da Rede Globo como manipuladora dessa independência.

De acordo com essa tese, a independência expressaria uma "repressão às bandeiras partidárias", o que sugeriria, neste discurso, que os "independentes" estariam fazendo uma mobilização social para combater os movimentos sociais. Uma visão tola e surreal, diga-se de passagem.

Na verdade, essa parte influente das esquerdas - sobretudo o PT - estaria sendo influenciada pela psicologia do terror das Organizações Globo, Folha, Estadão e Veja. Talvez os corporativistas de esquerda estejam vendo Jornal Nacional demais.

A independência ideológica não envolve somente partidos. Envolve instituições diversas. Além disso, a tolerância e a receptividade é que permitem essa independência, e não o contrário. Nos protestos pacíficos, o que se vê são médicos se unindo com ativistas LGBT por causas solidárias, e um desfile de diversas bandeiras institucionais, partidárias, sindicais etc.

O risco da partidarização dos protestos de rua, sobretudo a apropriação dos mesmos pelo PT, é que em vez da desejada união dos diversos segmentos populares em prol de mudanças fundamentais para nosso país, tenhamos uma "torre de babel" partidária, em que partidos de esquerda tentam disputar quem é que controla mais os protestos de ruas.

Não se pode considerar "autoritários" os manifestantes que levam o interesse público acima de bandeiras partidárias. Eles não negam a pluralidade partidária, essa pluralidade é que é ameaçada quando se defende a "saudável" e "democrática" partidarização dos protestos populares, uma improvisada e precipitada campanha eleitoral para 2014.

Isso tanto é verdade que, se Dilma Rousseff é duramente criticada, assim como o ex-presidente Lula, a Rede Globo, o pastor homofóbico (mas, dizem, de passado "suspeito" para a causa) Marcos Feliciano (ou Marco Feliciano, para incrementar a busca no Google) e nomes como Arnaldo Jabor e Bóris Casoy também são duramente criticados.

Não há um tom ideológico delimitado nos protestos, e isso é natural. As causas defendidas estão muito acima dos interesses partidários. Isso não é autoritarismo nem os manifestantes, pensando assim, estariam sendo "teleguiados" pela grande mídia ou pelo grande capital.

Além disso, por que as esquerdas têm esse temor à independência ideológica dos protestos? Esse medo não é expresso quando, ao defenderem o "funk carioca", defendem uma causa claramente ligada às Organizações Globo e cujo maior propagandista, Hermano Vianna, é explicitamente ligado a Fernando Henrique Cardoso.

Da mesma forma, aceitam exaltar figuras como Paulo César Araújo - outro surgido das profundezas da intelectualidade cultural tucana - com uma naturalidade que não existe quando o assunto é a independência ideológica dos protestos.

Ver direitismo em manifestantes realmente independentes, enquanto não vê direitismo em antigos conservadores como Waldick Soriano e Odair José é uma grande incoerência. Ver direitismo nos protestos acima de qualquer matiz ideológica e dar ouvidos a um MC Leonardo apadrinhado por um membro do Instituto Millenium é uma grande incoerência.

Portanto, até mesmo as esquerdas precisam ter uma postura autocrítica. Ter autocrítica não é ruim. O pior é defender a partidarização dos protestos de ruas, sob o pretexto da "verdadeira democracia progressista", para no fim da festa só restar partidos de esquerda brigando entre si.

Esse discurso esquerdista da partidarização dos protestos acaba causando mais gargalhadas na direita mais reacionária. Ela se alimenta dos erros e excessos cometidos pelas esquerdas.

sábado, 29 de junho de 2013

"FUNK OSTENTAÇÃO" E DIRIGISMO IDEOLÓGICO DA 'INTELLIGENTZIA'

MC DEDÉ, GUI E BIO G3 - "Funk ostentação" também tem seus "lelekes".

Por Alexandre Figueiredo

O "funk ostentação" virou o tecnobrega da vez, no proselitismo ideológico que uma parcela da intelectualidade surgida nos porões acadêmicos do PSDB tenta fazer nas esquerdas médias, aquelas parcelas das esquerdas progressistas de posicionamento crítico menos firme.

Esse proselitismo tem uns oito anos. Veio em 2005, quando as esquerdas médias adotaram a choradeira pró-bregalização que os barões da grande mídia difundiram para prolongar a hegemonia brega que havia nos anos 90.

Era a época da biografia dramatizada Os Dois Filhos de Francisco, de Breno Silveira, e do documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, de Denise Garcia, ambos patrocinados (o segundo, em caráter de divulgação) pela Globo Filmes. Era a época em que as esquerdas eram "convidadas" a aceitar até mesmo figuras direitistas como Odair José e Waldick Soriano.

Época de promover supostos coitadinhos vindos da breguice mais comercial, sobretudo empurrando às esquerdas a aceitação de nomes que estavam "de férias" no mainstream, começando pelos antigos ídolos cafonas "redescobertos" por Paulo César Araújo. Atualmente, nomes como Leandro Lehart, Luís Caldas e o grupo Raça Negra fazem parte do cardápio desse dirigismo ideológico.

No "prato principal", esse dirigismo no entanto tenta empurrar estilos "mais difíceis" do brega-popularesco. "Não é preciso gostar, mas tem que aceitar", é a norma dessa "ditabranda do mau gosto" que tenta frear o ímpeto contestatório das esquerdas aos problemas da cultura popular. E os proselitistas fazem isso sob uma generosa "gorjeta" da Fundação Ford, de George Soros etc.

Assim, em 2005 foi empurrado para a apreciação esquerdista o "funk carioca", que já estava sofrendo uma ampla campanha apologética feita em conjunto pelas Organizações Globo e pelo Grupo Folha. Toda a choradeira discursiva conhecida foi pregada sobretudo através de um lobby em que jornalistas patrocinados pela Globo ou vindos da Folha se aproveitavam para cooptar as esquerdas médias.

Em 2009, ocorreu com o tecnobrega do Pará, com a mesma choradeira que, no seu discurso, enfatizava o dado mentiroso de que o ritmo brega-popularesco (como no caso do "funk" quatro anos antes) era "discriminado pela grande mídia". A mesma grande mídia que mergulhava no mais entusiasmado apoio a esses estilos.

"ABRAÇO DA MÍDIA"

O que causa um choque na intelectualidade progressista é que a defesa desses ritmos brega-popularescos acaba se tornando mais entusiasmada na mídia direitista, enquanto antigos "queridinhos" passam a se envolver em surtos de algum reacionarismo.

Foi o caso, por exemplo, de Zezé di Camargo militando no "movimento" Cansei - não bastasse ele ter votado no ruralista Ronaldo Caiado para deputado federal - e, mais recentemente, de Joelma da Banda Calypso adotar uma posição homofóbica tão condenada pelos ativistas sociais.

Mas no que diz aos "ritmos do momento", o "funk carioca" já mostrou sua clara associação com o direitismo midiático, que vem desde 1990. E, naquele 2005, até mesmo o Casseta & Planeta, às vésperas do surto demotucano, havia criado os personagens MC Ferrow & MC Deu Mal para promover a "superioridade" dos astros do "funk" às custas de dois funqueiros fictícios atrapalhados.

Quatro anos depois, o tecnobrega causava choque nas esquerdas médias quando a revista Veja, que condenava tudo que era de interesse público, se derreteu por Gaby Amarantos, naquela mesma edição cuja capa "confrontava" duas frases de Dilma Rousseff, e que geraram várias paródias na mídia esquerdista.

Mais recentemente, o "funk ostentação", que é a resposta ao "funk carioca" por intérpretes paulistas, que adaptaram o estilo com elementos do gangsta rap norte-americano, também demonstrou que agrada, e muito, a grande mídia, com o total apoio dos jornais Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e até mesmo do suplemento Veja São Paulo, feita no "olho do furacão" da reacionária revista.

"FUNK OSTENTAÇÃO" TEM PERFIL CONFUSO

O "funk ostentação" tenta reciclar o "funk carioca" feito no Rio de Janeiro com um discurso bem menos sutil e cada vez mais contraditório. Há uma grande diferença na pregação ideológica da cena paulistana em relação à carioca, que é bastante tendenciosa e hipócrita, mas bem articulada e com alguma "distribuição" retórica conforme o contexto.

Assim, o "funk" do Rio de Janeiro possui "variantes" enfatizadas no discurso de defesa conforme o contexto em que quer se inserir. Se o contexto envolve, por exemplo, times de futebol, há uma ênfase no "funk" mais comercial e suas "popozudas". Se o contexto é turístico, entram os DJs "de nome", tipo DJ Marlboro. Se é mais família, entra o "funk melody". Se é educacional, entra o "funk de raiz".

Já o "funk ostentação" não deixa isso claro. Seu discurso não consegue dissolver suas próprias contradições de acordo com o contexto. Sua temática é materialista, em exaltação aos bens de consumo mais caros, ao luxo e à extravagância, mas o ritmo tenta adotar uma retórica de "realidade das periferias" dentro de um pseudo-ativismo tendencioso e confuso.

Ou seja, em vez de jogar "popozudas" para o contexto do Carnaval e do futebol, lançar funqueiros "bacaninhas" para as salas de jantar das "boas famílias" e botar funqueiros "indignados" para fazer sua choradeira nas escolas públicas, tudo isso é misturado sem um claro contexto. O funqueiro que diz que é o máximo ter carro importado é o mesmo que jura ser "porta-voz" do protesto das periferias.

O grande problema, para as esquerdas médias, é que com essa situação, será muito mais fácil, mais do que nos casos do "funk" de  2005 e no tecnobrega de 2009, o "funk ostentação" receber o abraço mais apertado e caloroso dos barões da grande mídia.

E, a qualquer momento, eles entrarão no Caldeirão do Huck abraçado a Luciano Huck, amigo de Mr. Catra, de Aécio Neves e Eike Batista. Enquanto se repete o discurso choroso de uma inexistente "discriminação da grande mídia", o "funk ostentação" será "o caldeirão" nas festas dos barões da grande mídia e seus astros.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

APAGADO, "FUNK CARIOCA" PEGA CARONA NOS PROTESTOS


Por Alexandre Figueiredo

O "funk carioca" esteve muito apagado diante do calor dos protestos populares. Só depois, e "por coincidência" depois que a Rede Globo passou a falar "positivamente" dos protestos, o "funk carioca" passou a embarcar na onda, em mais uma apelação pseudo-ativista conhecida do gênero.

E mais uma vez o ritmo faz proselitismo em sítios de esquerda. Depois do episódio da tese universitária sobre o feminismo no "funk" num artigo reproduzido no blogue Escreva, Lola, Escreva, e do caso da proibição de "bailes funk" nas noites de São Paulo noticiada no Diário do Centro do Mundo, é a vez do blogue Somos Todos Palestinos defender o ritmo brega-popularesco carioca.

Desta vez, trata-se de um sucesso de MC Garden e DJ Vinícius Boladão - do chamado "funk ostentação" que é o "funk carioca" paulista - , intitulado "Isso é Brasil", numa defesa entusiasmada publicada pelo blogue dedicado à causa palestina.

No entanto, a exemplo de outros dois blogues, a propaganda do "funk" veio de terceiros. O texto "O funk e o feminismo" - que pega carona numa tese universitária que CONTESTA o feminismo das funqueiras, mas apoia a tese CONTESTADA pela mestranda - veio de duas blogueiras, Verinha Dias e Samantha Pistor, do blogue Feminismo Sem Demagogia.

O texto publicado no Diário do Centro do Mundo é de autoria da cineasta Alice Riff, ligada ao "soros-positivo" Coletivo Fora do Eixo e que havia feito um documentário que mostrava MC's do "funk carioca" e outras coisas da dita "cultura das periferias", seguindo a linha de Denise Garcia no documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda.

Já o texto de Somos Todos Palestinos é uma reprodução literal, sem qualquer acréscimo de comentários ou notas, de uma matéria do sítio Paper Pop, que nem é dedicado a qualquer causa progressista, mas tão somente a notícias sobre celebridades do meio televisivo e musical, com ênfase nas atrações brega-popularescas.

A equipe do Paper Pop inclui até um funcionário da Editora Abril, Caio Caprioli, editor da revista Superinteressante, publicação que havia revelado o editor Leandro Narloch, autor dos guias "politicamente incorretos" da história brasileira e mundial e ligado ao Instituto Millenium.

O que faz o "funk carioca" vender seu "peixe" na mídia progressista é um mistério. Afinal, o ritmo nada tem de realmente libertário e mesmo seu simulacro de ativismo social poderia ser feito nos limites da mídia dominante.

Desejo de se tornar "unanimidade"? Talvez. O que se sabe, no entanto, é que o "funk" polemiza menos quando faz sua propaganda na mídia direitista. Enquanto isso, a boa-fé da mídia esquerdista para o "ativismo de resultados" do "funk carioca" perde o sentido, pelo fato de que o "funk" envolve valores retrógrados inseridos numa visão de glamourização da pobreza que tenta imobilizar as periferias.

Além do mais, o sucesso de MC Garden e DJ Vinícius Boladão surgiu depois do reposicionamento da grande mídia, que antes via os protestos como "desordem". "Isso é Brasil" não tem a contundência de verdadeiras músicas de protesto como "Que País é Este" da Legião Urbana e "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores", de Geraldo Vandré, ou de muitas letras do "elitista" Chico Buarque.

Será a pobreza? Não. Em outros tempos, nomes como João do Vale e Zé Kéti eram capazes de fazer boas canções de protesto. O derradeiro sucesso de Luiz Gonzaga, "Xote Ecológico", é uma boa letra de protesto. O problema está no "funk", porque é um ritmo dançante comercial, comandado por ricos empresários-DJs, e marcado pela baixaria e pelo pretensiosismo e tendenciosismo pseudo-ativistas.

O "funk ostentação" é o queridinho da vez das pseudo-esquerdas que pregam a bregalização do país. É o consolo da vez diante da desilusão com o tecnobrega, vendo Gaby Amarantos beijar a boca da mídia de direita e a "madrinha" Joelma do Calypso ter um surto moralista religioso, já que as pseudo-esquerdas tentam seguir a agenda LGBT das esquerdas.

No entanto, assim como o tecnobrega, o "funk ostentação" foi muito bem tratado pela revista Veja, ainda no fervor de seu reacionarismo editorial. Dizem que Veja se tornará um periódico mais moderado, apesar de Reinaldo Azevedo não parecer abrir mão de sua fúria habitual. Em todo caso, Veja continuará conservadora e, certamente, com os braços abertos aos brega-popularescos.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

FHC É ELEITO PARA A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Infelizmente, não tivemos a chance de haver, na Academia Brasileira de Letras, o contraponto ideológico entre Merval Pereira, o "imortal" das Organizações Globo, e o jornalista Amaury Ribeiro Jr., autor do livro A Privataria Tucana.  Um dos personagens desse best seller de não-ficção, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, foi eleito para a cadeira 36 da ABL, que muitos agora passam a apelidar jocosamente de "cadeira P-36", em alusão à plataforma da Petrobras que afundou devido a um acidente provocado pelas pressões profissionais da lógica neoliberal do governo FHC.

FHC é eleito para a Academia Brasileira de Letras

Por Paulo Virgílio - Agência Brasil

Rio de Janeiro – Com 34 dos 39 votos possíveis, o sociólogo, professor e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (FHC) foi eleito na tarde de hoje (27) para ocupar a cadeira 36 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Vai assumir a vaga aberta com a morte do jornalista João de Scantimburgo, em 22 de março deste ano. Votaram 24 acadêmicos presentes à sede da academia, no centro do Rio, e 14 por carta. Houve uma abstenção.

Presidente da República em dois mandatos sucessivos, de 1995 a 2002, Fernando Henrique Cardoso, nascido no Rio de Janeiro em 18 de junho de 1931, é doutor em sociologia e professor emérito da Universidade de São Paulo (USP). Foi também professor em várias universidades e instituições estrangeiras, entre elas Stanford, Berkeley e Brown, nos Estados Unidos; Cambridge, no Reino Unido; Paris-Nanterre e Collège de France, na França, e Ipes/Cepal, em Santiago do Chile.

Intelectual com atuação política, Fernando Henrique teve seus direitos políticos cassados em 1964 pelo regime militar e exilou-se na Europa e no Chile. De volta ao Brasil, participou da luta pela redemocratização do país, ingressou no então MDB e foi eleito senador por São Paulo. Nos anos 80, foi um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), do qual é presidente de honra. Antes de ser eleito presidente, foi ministro das Relações Exteriores e da Fazenda no governo Itamar Franco (1992-1994).

De acordo com o acadêmico Marcos Villaça, ex-presidente da ABL, “a eleição de Fernando Henrique Cardoso é um ato de respeito à inteligência brasileira. A sua obra de sociólogo e cientista dá ainda mais corpo à academia”.

Com a eleição de FHC, a Academia Brasileira de Letras passa a contar com dois ex-presidentes da República entre seus 40 membros. O outro é José Sarney, ocupante da cadeira 38, desde 1980.

O novo membro da ABL é autor ou coautor de 34 livros, 23 deles de sociologia, e mais de cem artigos acadêmicos. Uma de suas obras, Dependência e desenvolvimento, escrita em coautoria com Enzo Falletto e publicada originalmente em espanhol, em 1969, é considerada marco nos estudos sobre a teoria do desenvolvimento. O livro teve dezenas de edições, em 16 idiomas.

Os livros mais recentes de Fernando Henrique Cardoso são voltados à análise de sua atuação como político e as memórias: O presidente e o sociólogo (1998); A arte da política (2006); The accidental presidente of Brazil (2006); Cartas a um jovem político (2008) e A soma e o resto: um olhar sobre a vida aos 80 anos.

ENCONTRO COM FÁTIMA BERNARDES VIROU REDUTO DE NEO-BREGAS


Por Alexandre Figueiredo

Era esperado que o programa Encontro com Fátima Bernardes, da Rede Globo, se tornaria mais cedo ou mais tarde voltado para o popularesco. Nas últimas edições, a jornalista e apresentadora passou a receber a geração de cantores neo-bregas que fez muito sucesso nos anos 80.

Nomes como Alexandre Pires (agora de volta ao Só Pra Contrariar), Chitãozinho & Xororó e Ivete Sangalo, que antes adotavam o Domingão do Faustão como prioridade para sua promoção comercial, mudaram de estratégia.

Eles não deixaram de comparecer ao programa de Fausto Silva, mas como este anda priorizando os pós-bregas mais comerciais (tipo Michel Teló e MC Anitta), eles tiveram que arrumar outro reduto, encontrando no programa da srª. William Bonner o espaço exato.

A geração neo-brega, diferente dos pós-bregas de hoje - que enfatizam plateias mais jovens e usam o pop estrangeiro atual como fórmula para seus sucessos - , faziam um crossover entre a música brega dos anos 70 e a fase pasteurizada da MPB do final dos anos 70 e do decorrer dos anos 80.

Os ídolos neo-bregas, que começaram fazendo discos explicitamente mais bregas - é só ver os primeiros discos do Só Pra Contrariar e de Zezé di Camargo & Luciano, por exemplo - e só em última hora, de forma tendenciosa, passaram a emular a MPB que era tocada nas rádios FM e era a mesma MPB que era motivo de críticas de boa parte da opinião pública.

Com uma produção mais estéril, entre covers de MPB com arranjos "corretos" mas burocráticos e um fraco repertório autoral que nem de longe justificava tanto cartaz desses ídolos na mídia, eles tentavam prolongar o sucesso comercial sob o apoio da grande mídia mais conservadora, como Rede Globo, Folha de São Paulo e a revista Caras.

Sem poderem conquistar o primeiro time da MPB, uma vez que não possuem talento natural para isso - até porque dependem de outros arranjadores, músicos e produtores para "embelezar" seus repertórios - , os ídolos neo-bregas já haviam se desgastado quando investiram exageradamente em DVDs e CDs ao vivo que só revisitavam o mesmo repertório.

Juntando a intenção de recuperar o sucesso perdido dos neo-bregas com a necessidade do programa de Fátima Bernardes ficar "mais popular" - dentro daquilo que a Rede Globo acha que é "popular" - , faz sentido o novo apelo da geração 90 da música brega em aparecer nas manhãs de segunda a sexta.

Evidentemente, isso não vai fazer diferença alguma na carreira deles que, mesmo veteranos, estão muito longe de superar a reputação baixa na mediocridade cultural dominante. Até porque, se eles tentam se vincular à MPB, é justamente ao que houve de pior nessa sigla nos anos 80.

Outro aspecto é que os cantores de "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music que emplacaram na Era Collor e foram apadrinhados pela Rede Globo há muito viviam um revival não-assumido, com seus discos ao vivo lançados um atrás do outro, com as eternas regravações de seus sucessos alternados com covers oportunistas.

Não será a mediocridade ainda mais gritante de gerações mais recentes, como as do "sertanejo universitário", que fará os neo-bregas dos anos 90 melhores. Mas num país que começa a superar o seu marasmo, através dos protestos populares, querer que a MPB se revitalize através dos neo-bregas é querer que a vida política reconquiste a transparência com o fisiologismo do PMDB.

Enquanto isso, o público infanto-juvenil que se dispõe de um aparelho que toque DVDs preferirá ver desenhos de Bob Esponja, Transformers e outros enquanto Fátima Bernardes fala com seus convidados, no consolo de não ter mais TV Globinho há um bom tempo.

E, por vezes, Fátima Bernardes se serve do couvert artístico dos neo-bregas que insistem em manter a trilha sonora de um tipo de país que começa a perder sua razão de ser.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

PLENÁRIO DA CÂMARA DOS DEPUTADOS REJEITA PEC 37


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A Proposta de Emenda Constitucional número 37, que propunha a limitação de investigações criminais do Ministério Público, foi rejeitada por ampla maioria pelos deputados federais, ontem à noite, em Brasília. O resultado dá como certo o arquivamento da proposta, mantendo as atuais atribuições do Ministério Público e outros órgãos do Judiciário na investigação de casos específicos previstos em lei.

Plenário da Câmara dos Deputados rejeita PEC 37

Do Portal Vermelho - Com informações da Agência Câmara e Portal Terra

O Plenário rejeitou, por 430 votos a 9 e 2 abstenções, a Proposta de Emenda à Constituição 37/11, que regulamentava as investigações criminais do Ministério Público, limitando sua atuação. Assim, a PEC será arquivada.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 37 foi rejeitada na noite desta terça-feira (25) pelo plenário da Câmara dos Deputados. A matéria foi recusada por 430 votos contra. Outros nove votaram a favor e dois se abstiveram. A derrubada da PEC havia sido acordada mais cedo em reunião de líderes. Com o resultado, a proposta acabará arquivada.

Todos os partidos encaminharam o voto de suas bancadas pela rejeição do texto. A queda da PEC foi comemorada por manifestantes que estavam na galeria do plenário da Câmara. Após o encaminhamento, foi iniciado o processo de votação e, assim que a negativa à matéria foi confirmada, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), proclamou o resultado. A cada voto contrário, os presentes gritavam e aplaudiam.

A proposta limita o poder de investigação do Ministério Público (MP) ao incluir na Constituição Federal um parágrafo que define que o órgão somente poderá apurar infrações penais cometidas pelos seus membros.

O GRANDE ABISMO DA MÚSICA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A MPB se encontra hoje semi-árida e quase estéril, diante do abismo entre dois extremos. Um é uma MPB autêntica, relativamente sofisticada e pós-tropicalista, marcado sobretudo pelo ecletismo, mas pouco eficiente no diálogo com o grande público. Outro é a breguice hegemônica que atinge facilmente o grande público mas seu compromisso com o fortalecimento da cultura é nulo e inútil.

Esse abismo não é bem resolvido pela intelectualidade, que geralmente prefere ouvir a MPB eclética em casa, enquanto cria todo um repertório ideológico, sofisticado mas de argumentação confusa, para defender a breguice hegemônica que toma conta das rádios e TVs.

Não há um meio-termo entre o apelo popular e a qualidade artística, e isso não se resolve quando a mídia tenta "arrumar" a imagem de ídolos bregas, tentando fazê-los à imagem e semelhança dos medalhões da MPB autêntica.

Isso se deve porque, a exemplo do que vimos com a geração de ídolos do "pagode romântico" e do "sertanejo" dos anos 90, eles não se tornaram mais criativos quando passaram a fazer um arremedo de MPB. Pelo contrário, levaram às últimas consequências tudo aquilo que tornava a MPB insuportável na virada dos anos 70 para os 80. O "apelo popular" era o único diferencial, mas não fazia diferença na essência.

Afinal, nota-se que esses nomes só gravavam covers de MPB que se alternavam com canções bregas ou com arremedos de algum "som MPB" que os ídolos neo-bregas dos anos 90 ouviam vagamente, como a soul music brasileira e a música caipira. Nada que deixe marca na música brasileira, apesar do marketing forte em torno desses intérpretes.

Até agora a grande mídia e a intelectualidade apostam nesse suposto meio-termo entre brega e MPB. Um meio-termo inútil, porque não acrescenta coisa alguma na nossa cultura musical. O que há é apenas um desfile de artistas de MPB autêntica e de Rock Brasil adotando uma atitude paternalista com os bregas, em duetos tendenciosos ou covers oportunistas.

Essa inutilidade se reforça quando, por trás da "sincera homenagem" que um ídolo do "pagode romântico", do "sertanejo" ou de qualquer outro estilo, faz à MPB existe algum palpite ou macete dado por um produtor de TV, um arranjo musical feito por outrem, entre outras intervenções de terceiros que reduzem ainda mais a hipótese já duvidosa de criatividade e sofisticação atribuídas aos neo-bregas veteranos.

Tudo é feito por outros, desde a música que um ídolo "pagodeiro romântico" ou um "sertanejo" deverão gravar, até mesmo os arranjos musicais usados. O ídolo neo-brega parece comandar o "espetáculo", mas na prática ele se reduz a um mero crooner de um trabalho de outros arranjadores e produtores.

O resultado é um trabalho burocrático, forçado, por mais que seja feito diante de muitos sorrisos e muitos aplausos das plateias. Não é um trabalho criativo, e além disso as regravações de clássicos da MPB, em vez de levar os fãs de brega-popularesco a ouvir mais a MPB, os desestimula justamente a isso, satisfeitos em ver a canção de MPB na versão - que lhes soa "definitiva" - do ídolo neo-brega da ocasião.

Portanto, não houve a qualidade artística esperada, porque tudo soa forçado e muito técnico. Ídolos neo-bregas veteranos acabam soando como calouros de reality show, parece que estão interpretando uma música pela primeira vez. E, como expressão artística, o fracasso é certo, apesar do aparente sucesso comercial que isso possa causar, porque se torna uma performance oca, superficial e tendenciosa.

Não há como esperar que o abismo que separa a MPB mais renomada e o brega mais "coitadinho" se resolva tão somente juntando forçadamente uns e outros. O que se precisa é de uma MPB autêntica que fale com o povo, sem se tornar escrava da mídia e do mercado, unindo qualidade artística e apelo popular, para assim poder atingir o público de forma verdadeira, honesta e criativa.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A HERANÇA AMARGA DE JAIME LERNER

 

Por Alexandre Figueiredo

O desgaste de um modelo autoritário de mobilidade urbana salta aos olhos, já começando a chamar a atenção dos manifestantes dos protestos populares que, nas grandes cidades, já começam a contestar esse modelo "moderno" que foi feito para motivos turísticos e políticos durante os eventos esportivos mundiais a serem realizados no Brasil em 2014 e 2016.

Esse modelo, baseado na concentração de poder da Secretaria de Transportes, na camisa-de-força dos consórcios, no fardamento da pintura padronizada das frotas de ônibus e numa lógica opressiva de serviço do transporte coletivo, demonstra-se cada vez mais caduco, embora ainda se encontre persistente.

Pois agora esse modelo, lançado pelo arquiteto paranaense Jaime Lerner no auge da ditadura militar, na condição de "prefeito biônico" (nomeado pela ditadura) de Curitiba, poderá ser prejudicado com as Comissões Parlamentares de Inquérito que pretendem se instalar em breve.

Em Curitiba, a primeira CPI do tipo vai se insaurar amanhã, para investigar o esquema financeiro das empresas de ônibus de Curitiba, empresas que os cidadãos da capital paranaense nem chegam a ter ideia exata quais são, porque a pintura padronizada há muito mascarou as mesmas, enquanto se limita a mostrar o nome de cada consórcio dentro de uma pintura que só varia conforme o percurso e o tipo de ônibus.

Há muito se fala em corrupção por trás dos transportes de Curitiba, oficialmente tido como o "melhor do mundo", mas cujo desgaste e decadência estão cada vez mais difíceis de esconder. Os curitibanos, aliás, estão muito irritados com a fama de "melhor do mundo", porque eles são os que mais sofrem com os transtornos diversos causados pelo esquema.

Há superlotação até mesmo em ônibus biarticulados, os motoristas vivem uma rotina de trabalho opressiva, as frotas passaram por um período sem muita renovação e, quando ela houve, causou um rombo nos cofres públicos e privados;

Como se isso não bastasse, o transtorno da pintura padronizada que já não garante transparência alguma, os números das frotas mais parecem sopas de letrinhas com uma combinação complicada de letras e números. Hoje adotar uma pintura padronizada que, em vez de mostrar as empresas de ônibus, exibe o visual determinado por prefeitura ou órgão estadual já não traz qualquer vantagem para a mobilidade urbana.

É certo que exibir a identidade visual de cada empresa - com sua pintura própria, seu logotipo e sua colocação de número - não vai melhorar o transporte coletivo, mas faz uma grande diferença na percepção do passageiro comum, que pode reconhecer qual a empresa que presta um bom serviço ou não. 

Já a pintura padronizada, ao camuflar diferentes empresas com uma mesma pintura, que só varia por outros critérios (zona, tipo de ônibus, natureza do serviço etc), mascara as empresas dificultando a fiscalização pública. Ela não traz transparência, e o passageiro é sempre o último a saber quando empresas mudam de nome ou linhas mudam de empresas operadoras.

Quanto a outros aspectos da mobilidade urbana, já se questiona o caráter absoluto dos corredores exclusivos, das vias de BRTs, porque nem toda cidade tem a estrutura necessária para isso. Curitiba, Feira de Santana e Brasília, por exemplo, possuem essa estrutura, mas Niterói é um exemplo de cidade sem qualquer estrutura para construir pistas desse porte.

Autoridades, empresários e tecnocratas estão apavorados com a decadência do modelo de Lerner. Mesmo originário da ditadura militar - até a pintura padronizada de Curitiba se baseou nos ônibus das Forças Armadas - , ele ainda é vendido como "novidade" e há quem ache esse modelo de mobilidade urbana "progressista".

Tentam salvar o moribundo com maquiagens, quando na verdade o problema está no fato de que esse modelo está bastante caduco. Mas, paciência, os próprios políticos e tecnocratas que estão no poder já haviam se educado ideologicamente nos tempos do "milagre brasileiro". 

Ônibus fardados, motoristas estressados, pistas exclusivas que forçam até mesmo a derrubada de habitações populares e áreas ecológicas, enquanto a falta de transparência desse modelo garante a corrupção. 

A CPI vai tentar resolver o problema, embora não haja garantia total para isso. Em todo caso, é uma iniciativa que, em si, representa a herança amarga causada pelo modelo autoritário de mobilidade urbana de Jaime Lerner.

O maior temor é que as manobras politiqueiras possam apenas "arrumar" as finanças e tudo ficar como está, apenas "premiando" os incautos com ônibus "especializados" novinhos, passagens mais baratas, melhorias nos "bilhetes" e mais pistas exclusivas (mesmo com derrubada de áreas ambientais). Medidas em parte benéficas, mas são recompensas adotadas de maneira tendenciosa pelo poder político.

É o raciocínio dos poderosos: para Lerner, tudo, para o povo, nada. Que o povo fique aplaudindo os arbítrios que estão por trás de recompensas tendenciosas. E tudo isso garantido pela pintura padronizada das frotas de ônibus, esse verdadeiro "baile de máscaras" que desafia as atenções e percepções do povo que paga por um serviço ruim.

FAUSTO SILVA E A AUTOPROMOÇÃO DA GLOBO NOS PROTESTOS POPULARES


Por Alexandre Figueiredo

O apresentador Fausto Silva, do programa Domingão do Faustão, fez, no último domingo, uma propaganda dos protestos de rua no Brasil, contrariando a tendência original da Rede Globo, que transmite o programa, que havia condenado os protestos através de uma cobertura exagerada dos atos de vandalismo.

Fazendo vários questionamentos sobre a situação de vários setores de serviços públicos, Fausto Silva estimulou a reação da plateia, que dizia um sonoro "não" quando o apresentador perguntava se esses serviços estavam em bom desempenho. Até mesmo durante a Dança dos Famosos, um dos quadros de destaque do programa, houve manifestações de famosos presentes.

De repente, as Organizações Globo passaram a "apoiar" as manifestações populares, numa reviravolta tendenciosa, para uma corporação que fazia uma cobertura dos protestos com ênfase exagerada nos atos de vandalismo e que culminou nos comentários reacionários do cineasta e jornalista Arnaldo Jabor, que havia comparado o Movimento Passe Livre à entidade criminosa PCC, e depois teve que voltar atrás.

Isso não é de graça. Primeiro, porque os protestos são ideologicamente independentes, e isso inclui uma postura nada sectária ao governo Dilma Rousseff, o que anima os barões da grande mídia a pegar carona nos protestos pelo simples fato de que ela faz oposição à presidenta.

Segundo, por que as Organizações Globo, vendo os protestos se seguirem para além do controle midiático, precisam se autopromover com um apoio paternalista e tendencioso, o que nos leva ao terceiro ponto dessa mudança, que são as lições de 1983.

Nessa época, as Organizações Globo, a partir da Rede Globo e do jornal O Globo (naquela época não havia a revista Época nem a rede Globo News), havia se recusado a fazer a cobertura dos movimentos pela volta das eleições diretas no país, então sob o regime militar. O desprezo fez história e, com a Internet e os relatos de professores universitários, o episódio é bem conhecido das gerações mais recentes.

Com essa omissão da Globo, veículos igualmente conservadores como a Folha de São Paulo e a TV Bandeirantes, no entanto, decidiram, por uma junção de vários aspectos - cobertura jornalística mais profissional, concorrência midiática e autonomia de seus jornalistas - embarcarem no apoio às manifestações populares da época, depois reconhecida como a fase terminal da ditadura militar.

Daí a Globo ter virado quase uma Folha de São Paulo da vez, com as diferenças de contexto devidas. É uma forma de tentar evitar o desgaste de imagem da corporação que é "vítima", ela mesma, dos protestos populares. E se até a revista Veja começa a moderar seu reacionarismo, é sinal de que a grande mídia tenta tirar seus anéis para preservar os dedos.

Quanto a Faustão, outra coisa deve se levar em conta, que é também a tendência do brega-popularesco, que tem no Domingão do Faustão sua maior arena eletrônica - foi através dele que a moda dos neo-bregas (Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Alexandre Pires, Ivete Sangalo) de fazer uma pseudo-MPB engomadinha tentou emplacar no sucesso - , de embarcar em qualquer ativismo social.

O "funk carioca" é sintomático, na sua obsessão de parecer "ativista" e "libertário" que faz até com que funqueiras muito bem casadas - mas com maridos sendo levados, mediante indenização pesada, a morarem bem longe delas - se passem por "solteironas" para criarem um falso feminismo e temperar a "militância" com apoio tendencioso à causa LGBT, posando ao lado de drag queens estereotipadas.

Mas esse tendenciosismo contagia todos, até mesmo astros da axé-music que em Salvador quiseram acoplar seus trios elétricos no trem sem freio dos protestos de rua, sendo atropelados depois pelo fracasso de suas manobras oportunistas, que a ninguém convenceram.

E Fausto Silva, o "mecenas" da pseudo-cultura brega-popularesca, que tentou "vociferar" contra o jabaculê que sempre ocorreu no seu programa e continuará a ocorrer, não podia estar fora desse contexto. Se o brega-popularesco é um "popular" postiço, por ser uma forma pasteurizada, caricata e estereotipada de "cultura popular", é preciso que, como em toda fraude, sejam mantidas as aparências.

Daí o pseudo-ativismo que faz parte desse simulacro de "cultura popular", dentro de um contexto de uma postura falsamente "libertária" que tenta camuflar o caráter estritamente comercial dessa pseudo-cultura de cantores bregas, musas popozudas, jornalistas brucutus que falam para um povo pobre midiaticamente feito à imagem e semelhança de sua própria caricatura dos humorísticos de TV.

Portanto, o crescimento dos protestos populares também abre caminho para os oportunistas. É um efeito natural de fenômenos que crescem muito, vide a fase dos pseudo-esquerdistas da Era Lula que geraram de troleiros de direita a professores tipo Eugênio Raggi e cuja herança se deu nos Jair Bolsonaro e Marcos Feliciano que conhecemos. Cabe, nessas situações, acionarmos a cautela e o discernimento.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A PEC-37 E A "PARTIDARIZAÇÃO" DOS PROTESTOS


Por Alexandre Figueiredo

As esquerdas médias e a direita, agora que os protestos se tornam uma notícia dominante na agenda temática dos brasileiros, criar um "norte" ideológico para esses fenômenos, para atender a seus interesses particulares.

A direita, já sabemos, tentou superestimar os atos de vandalismo, na tentativa de enfraquecer os efeitos dos protestos de rua das cidades brasileiras, enquanto fazia o possível para recolocar a Copa das Confederações no centro das atenções populares.

Não deu certo, e a pressão da Internet e dos manifestantes que, em maioria, atuam de forma pacífica e arrojada, se sobrepôs até mesmo à reação midiática, e a grande mídia, recuando, teve que "engolir" a prevalência das manifestações pacíficas que assustaram políticos, dirigentes esportivos e barões da mídia.

Agora é a vez das esquerdas médias tentarem alguma manobra ideológica para colocar sua frigideira no calor dos protestos populares. E dois temas entram no cardápio para favorecer os interesses corporativistas de suas cúpulas: o apoio à PEC-37 e a defesa da "partidarização" dos protestos.

Claro, para gente dita "progressista" que dá ouvidos até para Fernando Collor quando ele pega carona na indignação contra os abusos da grande mídia e do Judiciário, como se o ex-presidente e hoje senador fosse um valioso conselheiro, os interesses corporativistas parecem estar acima mesmo dos interesses populares.

Quanto à PEC-37, projeto de emenda constitucional - recurso feito e previsto pela própria Constituição para reformular artigos e leis, desde que não atinjam cláusulas pétreas (inalteráveis) - que determina limites de investigação às polícias militar e federal, retirando sua atribuição a outros órgãos e ao Ministério Público, as esquerdas médias saíram em franca defesa.

Sem explicar direito as razões dessa defesa, as esquerdas médias usam como pretexto combater os abusos cometidos pelo Poder Judiciário, numa clara dor de cotovelo em relação ao desfecho que, por mais duvidoso e apressado que fosse, havia condenado figurões do PT acusados de envolvimento com o esquema do "mensalão".

Quanto à "partidarização", as esquerdas médias usam como pretexto a campanha midiática contra a presença de partidos políticos nas manifestações, criando um maniqueísmo entre a "ausência" e a "presença" de partidos nos protestos populares, vistos pelos esquerdistas médios respectivamente como o "mal" e o "bem".

Neste caso, há um grande equívoco de interpretação, além de uma propaganda pré-eleitoral implícita neste discurso. Afinal, está dentro do contexto democrático que grupos partidários compareçam às manifestações exibindo as bandeiras de seus partidos políticos. Faz parte da democracia.

Ninguém será condenado nem pode ser reprimido por exibir uma bandeira de um partido ou grupo, a não ser que esteja vinculado a causas segregacionistas ou antidemocráticas. Mas esse não é o caso. Só que supervalorizar a exibição de bandeiras de partidos esquerdistas diversos, do PT ao PCO, pode dar no equívoco de desviar o foco das manifestações.

Isso porque a maior graça das manifestações está na diversidade de segmentos sociais unidos por uma causa comum, de combate a abusos e omissões de ordem político-institucional. Envolve desde a opressão machista na violência doméstica aos noticiários distorcidos da grande mídia, passando por arbítrios políticos que vão do aumento salarial dos parlamentares até um modelo autoritário de mobilidade urbana.

Se concentrarmos o foco nos partidos políticos, o que vai acontecer? Teremos disputas internas que irão manchar os protestos e sua espontaneidade original. Será a "passeata do PT" que se contrapõe à "passeata do PSOL", à "passeata do PSTU", à "passeata do PC do B" etc. Com todas as rivalidades que podem surgir por dentro disso.

Voltando à PEC-37, a questão não é garantir que as investigações sejam feitas pelos "astros pop" do Judiciário, do porte de Gilmar Mendes, Roberto Gurgel ou até mesmo o "isento" Joaquim Barbosa, que pecam por um certo estrelismo e cumplicidade com os barões da mídia e que a idolatria pela direita os faz até mesmo cogitarem disputar cargos no Executivo ou bancarem os dublês do Poder Legislativo.

A questão é garantir que, em certos casos previstos por lei, o Ministério Público e órgãos como a Procuradoria-Geral da República e o Supremo Tribunal Federal sejam responsáveis pela investigação de crimes e outros graves delitos - sim, porque há crimes que ainda mantém status de "contravenções" - cuja natureza torna-se insuficiente a simples investigação pelas instituições policiais.

A defesa da PEC-37 pelas esquerdas médias acaba mostrando a contradição de seus líderes, quando em outras ocasiões condenam que se mutile a Constituição de forma tão tendenciosa, mas neste caso a defendem com muita convicção achando que vingar o arbítrio de Roberto Gurgel, Luís Fux, Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa e outros possa resolver o problema. Mas não resolve.

O Judiciário não são eles. Ocorre que eles é que foram colocados no Poder Judiciário dentro de um contexto em que a influência de Fernando Henrique Cardoso atingia os vários setores da vida política e institucional no país. As esquerdas ficam apavoradas quando veem a ligação desses juízes com FHC, mas ignoram que um historiador tipo Paulo César Araújo também surgiu sob o mesmo pano de fundo ideológico.

Portanto, não vamos mexer nas atribuições do Judiciário só por causa de alguns integrantes pouco transparentes. De repente alguns vão embora, como Carlos Ayres Britto, que se aposentou depois de, feliz da vida, prefaciar (indevidamente, para a natureza de seu cargo) uma coletânea de artigos de Merval Pereira. Devemos defender os três poderes que não podem ser confundidos entre si.

E quanto à "partidarização", que sejam bem-vindas as bandeiras partidárias nos protestos de ruas. Não é preciso concordar ou segui-las, mas a democracia é feita de diversas correntes, e os protestos envolvem diversas camadas sociais.

Mas os partidos políticos não podem se colocar acima dos protestos, como o Judiciário não pode se colocar acima da sociedade e nem as esquerdas médias acima do interesse público. Todos eles precisam servir à sociedade, e não se sobreporem a ela.

A partidarização dos protestos de rua mais parece uma campanha eleitoral ilegal, porque precipitada e não autorizada por lei. Além de ser uma malandragem de mau gosto de tentar fazer campanha eleitoral de graça, às custas do oportunismo de movimentos sociais espontâneos.

INTELECTUAIS DA MODA NÃO SUPORTAM VER POBRE FAZENDO MPB DE VERDADE

COMO UM EXTRA-TERRESTRE - É assim que a intelectualidade etnocêntrica vê um pobre quando ele faz cultura de qualidade.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante de hoje prega a hegemonia do "mau gosto" na cultura popular. As classes mais abastadas é que se adaptem ao "mau gosto", o povo pobre é desaconselhado a melhorar sua cultura e superar a cafonice e o grotesco reinantes.

Isso é o que querem os intelectuais ditos "tarimbados", considerados "irretocáveis" e aparentemente imunes a qualquer questionamento que os desqualifique como pretensos formadores de opinião. Para eles, a degradação social é a única forma viável de "expressão" para a população pobre, e qualquer desejo de melhoria e superação da cafonice é vista como "higienismo" ou "elitismo".

Essa visão é tão evidente que a intelectualidade quer que primeiro sejamos obrigados a aceitar esse "mau gosto" e conformarmos a ver bregas e artistas de MPB aparecendo juntos nas fotos, os primeiros como "mascotes" dos segundos, tal qual indígenas posando ao lado dos grandes navegadores no século XVI.

Tenhamos que aceitar tudo isso, e esperar que a intelligentzia "ensine" aos bregas fórmulas acessíveis da MPB pasteurizada, tida como a "consagração" e a "salvação" da carreira dos ídolos bregas. Ou então, promover um apresentador policialesco a um "novo Chacrinha" de ocasião, ou uma "boazuda" sendo "orientada" a imitar algum ícone da sensualidade clássica, seja Marilyn Monroe ou Leila Diniz.

Fora dessa "melhoria cultural" orientada e sustentada pelas elites intelectuais e pelo mercado e mídia dominantes, não existe chance de emancipação sócio-cultural do povo pobre, que já sofre em tomar como sua uma pseudo-cultura pasteurizada, domesticada, estereotipada e caricata, que se distancia, na essência, das tradicionais expressões genuínas da cultura popular brasileira.

O povo pobre é obrigado a apreciar, hoje, falsos sambas, falsas músicas caipiras, um "forró eletrônico" sem pé e nem cabeça que mistura tão somente country music, disco music e ritmos caribenhos, sem expressar qualquer regionalidade nordestina. E as favelas das cidades urbanas são praticamente reféns da imbecilização cultural do "funk carioca" e seu poderoso lobby de intelectuais, celebridades e políticos.

Refém de uma pseudo-cultura midiática, oficialmente tida como "popular", as classes populares não podem ter a liberdade artística de outrora. Hoje a chamada "cultura popular" - cinicamente defendida pela intelectualidade sob rótulos pretensiosos como "verdadeira cultura popular" ou "cultura com P maiúsculo" - é praticamente controlada pela grande mídia e pelas chamadas empresas de entretenimento (casas noturnas, agências de famosos, gravadoras etc).

ELITES "ISOLAM" OU "PASTEURIZAM" O ARTISTA DAS CLASSES POPULARES

Quando surge alguém, nas classes populares, fazendo alguma cultura de qualidade, as elites vão logo correndo para cortejá-lo de forma paternalista e devolvê-los ao "gosto popular" sob a tutela e a promoção da grande mídia, sem romper com o contexto popularesco dominante.

Foi o caso de Seu Jorge, o artista popular de talento refinado que havia cantado o tema da novela da Rede Globo, Salve Jorge. De origem humilde, Seu Jorge tinha muito conhecimento de sambalanço, experimentado desde os tempos em que ele era vocalista do grupo Farofa Carioca, nos anos 90.

Já com considerável carreira solo, ele custou a atingir o grande público devido às manobras da grande mídia, que dificultam o acesso do grande público à MPB autêntica - que, quando muito, aparece no "gosto popular" de maneira secundária - , e nessa época Seu Jorge chegou até mesmo a gravar um disco com versões de músicas de David Bowie, aprovadas depois pelo próprio roqueiro inglês.

Seu Jorge só começou a ser liberado para o sucesso popular quando foi jogado para um dueto com o ídolo do sambrega Alexandre Pires, na música tendenciosamente intitulada "Eu Sou o Samba" (homônima ao clássico de Zé Kéti), quando o sambrega ou o "pagode romântico" descobriu, tardiamente, a mina de ouro do sambalanço a partir dos tributos a Wilson Simonal, uma das influências de Seu Jorge.

Outra cantora popular, Mart'nália, filha do sambista Martinho da Vila, um dos mestres do gênero, também foi vítima do apadrinhamento das elites e da grande mídia. A cantora, cujo estilo é bem próximo da veterana Elza Soares, só tornou-se acessível ao "gosto popular" depois que passou a ser "adotada" por celebridades televisivas e aparecer em trilhas sonoras de novelas da Globo.

Foi por esse apadrinhamento que as elites intelectuais passaram a entender o artista popular brasileiro como um "extraterrestre" que precisa ser retirado do convívio popular e só ser devolvido a ele depois de um "tratamento midiático", num contexto em que o normal é que os baiões nordestinos sejam feitos primordialmente por elites juvenis residentes na Zona Sul de Curitiba ou Porto Alegre.

Fora essa condição do artista popular "domado" pela grande mídia, a postura da "boa sociedade" e dos "renomados" intelectuais é do elitismo mais doentio, do mais cruel preconceito que parte de uma elite dita "sem qualquer tipo de preconceito".

Um exemplo. Se as favelas cariocas passam a fazer, novamente, o samba como se era feito pelo menos até cerca de 1965 (época em que surgiram artistas como Paulinho da Viola e Martinho da Viola, mestres remanescentes do gênero), as elites intelectuais de hoje, preconceituosamente "sem preconceitos", classificam o processo como "elitismo", "saudosismo" ou, pasmem, "higienismo social".

O mesmo ocorre com a música nordestina. Se um pobre do interior de Pernambuco faz um baião como Luiz Gonzaga ou um maracatu como Jackson do Pandeiro, é considerado "elitista" e "academicista". "Missões" como fazer o som desses artistas, hoje, só são atribuídas oficialmente para rapazes de classes abastadas que vivem nas capitais do Sul e Sudeste.

Segundo a intelectualidade, pobre quando quer fazer música nordestina é "aconselhado" a fazer uma sonoridade mais "moderna, atual e urbana", dentro de um pastiche gosmento que mistura country, disco music e ritmos caribenhos, quando muito com o som do acordeon herdado da canção gaúcha. Ou seja, uma música nordestina que nada tem de nordestino. Mas a intelectualidade dá um jeito, definindo esse som sem pé nem cabeça como "linguagem universal"...

Até a palavra "pop" tornou-se uma desculpa para permitir a degradação sócio-cultural defendida pela intelectualidade. Pop é, nos EUA, um paradigma de canção comercial sem qualquer vínculo com valores artísticos e sócio-culturais, mas no Brasil é encarado como um termo "mágico" supostamente atribuído a uma rebeldia dotada de uma mensagem "acessível" e um apelo "popular".

Isso quer dizer que a intelectualidade dominante não quer que o povo pobre faça MPB. Quer que faça "pop brasileiro", o que é uma diferença enorme, para menos. Afinal, o que os intelectuais querem é que o povo pobre seja domesticado por uma música comercial e medíocre, enquanto o rico patrimônio cultural é usurpado pelas elites "especializadas" para seu usufruto privativo. Para nossa intelligentzia, o povo é somente um detalhe.

domingo, 23 de junho de 2013

BREGA NUNCA REPRESENTOU RUPTURA ALGUMA

CAETANO VELOSO E ODAIR JOSÉ, NOS PREPARATIVOS PARA A "POLÊMICA" PERFORMANCE NO FESTIVAL PHONO 73.

Por Alexandre Figueiredo

Criou-se uma "tradição" ideológica em acreditar que a "cultura" brega e todos os seus derivados - o que se entende por "popular" veiculado pela mídia nos últimos anos - representa uma suposta ruptura com o estabelecido e, segundo essa tese, seria um movimento "injustiçado" pela mídia e pelo mercado dominantes.

É uma visão oficial que conta com um forte lobby de intelectuais, jornalistas, blogueiros, acadêmicos, celebridades, artistas e produtores de eventos, e que deixa a "boa sociedade" numa situação confortável. Afinal, é apoiando o brega que as elites disfarçam seus piores preconceitos, a partir de um paternalismo cordial com a mediocrização cultural do país, que cria uma imagem adocicada do povo pobre.

Essa visão tenta atribuir à breguice dominante um tom de "rebeldia" que ele nunca teve. Afinal, o brega, assim como seus derivados, sempre manteve uma postura resignada, conformista e subalterna, até mesmo retardatária na assimilação de influências culturais obsoletas, como uma tradução fiel às ideias que, na Economia, são expressas no pensamento de Roberto Campos e Fernando Henrique Cardoso.

O brega nunca rompeu com o poder midiático porque este era justamente a fonte de sua formação "cultural". A grande mídia sempre forneceu aos aspirantes de expressões bregas - cantores e músicos cafonas, "boazudas", jornalistas policialescos, humoristas de besteirol, vários craques de futebol - os elementos que os caraterizam no som, no vestuário, na atitude, no comportamento etc.

POR QUE O BREGA É VISTO COMO "RUPTURA"?

Mas por que o brega é visto como uma suposta ruptura contra paradigmas que as elites enxergam em relação à grande mídia, à cultura brasileira e ao mercado? Por que essa visão, de validade duvidosa, no entanto é defendida em aparente unanimidade no mainstream da opinião pública?

Criou-se uma tendência de semi-intolerância em relação à MPB autêntica, desde que veio a rejeição crítica compartilhada por intelectuais e acadêmicos, diante da mesmice e da acomodação da MPB feita pela indústria fonográfica.

De repente, não só a MPB mas qualquer desejo de melhoria cultural das classes populares foi visto como "dirigismo ideológico", logo pela sociedade pró-brega que faz dirigismo "recomendando" Raça Negra para o público alternativo da Virada Cultural.

Tudo que acontece como "culturalmente negativo" nas classes populares e que consiste na ideologia brega, para essa "boa sociedade" e seus ideólogos intelectuais, é visto de forma positiva como se essa inferiorização cultural fosse "superioridade".

Essa postura se dá com um mal disfarçado rancor com o suposto academicismo atribuído à MPB, aos movimentos sociais, ao verdadeiro feminismo e a tudo que age contra a mediocridade cultural e a imbecilização. Para a intelectualidade dominante, o povo pobre só poderá melhorar por via da Economia, enquanto dependerá do apoio da intelectualidade para as supostas melhorias culturais.

Esse rancor se dá sobretudo contra figuras como Chico Buarque, Tom Jobim, contra o Clube da Esquina - sem atacar diretamente Milton Nascimento, para não dar impressão de racismo - , contra a Bossa Nova, contra a música instrumental de qualidade, enfim, contra tudo que for considerado "alta cultura" pela intelligentzia atual.

Para contrapor-se a isso, a intelectualidade dominante passou a ver no brega um suposto foco de rebeldia, e isso a princípio parecia uma atitude de provocação, quase que uma postura jocosa, feita para gracejar dos excessos que o academicismo havia pregado nos anos 70.

BREGA ERA PIADA; GRANDE MÍDIA O FEZ LEVAR-SE A SÉRIO DEMAIS

Não vamos nos esquecer também que essa visão de defesa preciosista do brega surgiu em São Paulo e, pouco depois, se projetou no Norte e Nordeste, de onde veio a maioria dos ídolos bregas, que os reciclou através do aval de artistas, celebridades e jornalistas paulistas.

No começo, o brega era visto como uma piada que era aproveitada por artistas paulistas como um elemento a somar nas performances humorísticas. O brega não era algo a se levar a sério, e lá por volta da década de 80 houve até mesmo grupos teatrais e músicos que utilizavam estéticas cafonas como forma de expressão satírica renovada.

Só que, desde o fim dos anos 90, com a adaptação brasileira dos ideais da cultura trash - que no auge do modismo grunge de então exaltava até serial killers - somados à versão brasileira do "politicamente correto" (forma tendenciosa de adotar posturas sociais "elevadas"), fez a grande mídia fazer uma propaganda do brega tratando-o não como uma piada, mas como uma "coisa séria".

Daí a choradeira que definia os ídolos brega-popularescos como "vítimas de preconceito", invertendo o sentido do sucesso comercial e da popularidade. Superestimava-se até mesmo a rejeição que uma pequena parte da imprensa musical fazia a esses ídolos, atribuindo a ela defeitos e danos maiores do que esta realmente causava aos ídolos cafonas.

A própria grande mídia, acusada de cúmplice na "discriminação" sofrida pelos bregas, criou todo um discurso favorável a esses ídolos. Juntas, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo criaram um discurso que tentava, de forma tendenciosa, promover o brega como se fosse "cultura superior", em detrimento de expressões artísticas de qualidade menosprezadas ou depreciadas.

O brega sempre foi establishment, tanto pelo fato de sua formação ser vinculada à grande mídia regional, quanto pelo fato de que o establishment midiático e cultural sempre arrumaram algum jeito para favorecer os ídolos cafonas e seus derivados, sejam os "comportados" (como "sertanejo", axé-music e "pagode romântico"), sejam os "polêmicos" (como "funk carioca", "forró eletrônico" e tecnobrega).

Desde Caetano Veloso cantando com Odair José até Lobão, em seu surto neocon, praticamente dizer que só o "funk" é que "presta" na cultura brasileira, a sociedade dominante sempre apoiou o brega. O brega nunca foi um excluído cultural. Apenas tirava férias da grande mídia, aparentemente longas, mas longe de qualquer desprezo real.

O brega é inofensivo, mercadológico e artisticamente precário. Fácil de trabalhar fórmulas musicais mercadológicas, com baixo investimento aos "artistas". Além disso, sua despolitização agrada em cheio o neoliberalismo e deixa os barões da mídia felizes e tranquilos. O brega é capitalista por excelência, porque o capitalismo fez o povo ficar brega.

sábado, 22 de junho de 2013

IMPRENSA "POPULAR" TAMBÉM PASSA A CONDENAR PROTESTOS POPULARES


Por Alexandre Figueiredo

A dita imprensa "popular", definida pelas esquerdas médias como "divertida" e "investigativa", deu um surto reacionário e passou a também fazer "psicologia do terror" para tentar afastar o povo das manifestações populares que tomaram conta do país.

Só no Rio de Janeiro, os jornais O Dia e Extra, de perfil popularesco light, e Meia Hora e Expresso, de tendência ainda mais grotesca, deram ênfase nos atos de vandalismo ocorridos nas manifestações no Grande Rio, tentando "aumentar" os casos eventuais de desordem.

Outros jornais do país também fizeram o mesmo tom, inclusive o jornal Massa, de Salvador, do mesmo grupo do jornal A Tarde, que citou a "Praça de Guerra" que supostamente se transformou a capital baiana. As exceções, curiosamente, foram o mineiro Super Notícia e o Agora São Paulo (do grupo Folha), que deram manchete às manifestações, sem enfatizar o vandalismo.

Na maioria das vezes, porém, a imprensa "popular" segue a cartilha "moralista" dos programas policialescos, além da prática tradicional dessa parte da mídia seguir a orientação ideológica da Rede Globo, sobretudo no que essa emissora veicula em relação às classes populares. Essa mídia, erroneamente classificada como "progressista", é propagandista maior de fenômenos midiáticos como o Big Brother Brasil.

Os próprios jornais Expresso e Extra são das Organizações Globo. Em que pese uma boa cobertura sobre transporte coletivo em que irregularidades são noticiadas sem muito tendenciosismo, o Extra seguiu o rumo traçado pelos noticiários da Globo, sobretudo o RJ-TV e o Jornal Nacional, que deram uma ênfase exagerada nos atos de vandalismo, em detrimento da mobilização pacífica que dominou os protestos.

A "psicologia do terror" é um risco, uma vez que ela atinge, no caso da mídia popularesca, o povo pobre que é mais prejudicado pelo arbítrio de autoridades. Esse arbítrio é um dos principais motivos dos protestos populares, e na medida em que a mídia superestima os protestos, acaba intimidando o povo pobre a participar das manifestações às quais ele é o maior interessado.

Isso é ruim. Afinal, se o povo deixa de se mobilizar naquilo que mais lhe interessa - e lembremos que os protestos também se dirigem contra agendas defendidas pela grande mídia, como o poder das oligarquias no campo e a ditadura midiática - ,  as manifestações acabam se enfraquecendo, e os barões da mídia apostam nisso para manter seus interesses e seus privilégios.

Por outro lado, a mídia "popular" acabou sofrendo o "efeito Bóris Casoy", quando a opinião pública média via "mídia progressista" em veículos conservadores moderados, sem perceber o reacionarismo eventual que havia por trás, como no caso da TV Bandeirantes e revista Isto É, cujos surtos reacionários chocaram aqueles que viam nesses veículos alguma esperança de "mídia libertária". 

Que a mídia conservadora moderada tem sua razão de ser, ela tem. Mas que ela não supre a necessidade de mídias mais voltadas ao interesse público e às causas progressistas, é algo que não se deve esquecer. E a mídia "popular" é feita por elites que tratam o povo pobre como se fosse um gado bovino, e para o qual só interessa ficar alienado diante de aberrações, criminosos,  futebolistas "pegadores" e mulheres siliconadas.

BREGA-POPULARESCO QUER SE AUTOPROMOVER ÀS CUSTAS DOS PROTESTOS

LATINO, MC ANITTA E MÁRCIO VICTOR DO GRUPO BAIANO PSIRICO - Mediocridade artístico-cultural com pretensões de suposto ativismo social.

Por Alexandre Figueiredo

Com a repercussão dos protestos populares nas capitais brasileiras, surgem oportunistas de toda parte. E não seria diferente na música brega-popularesca, a julgar pelos casos dos ídolos de "funk melody" Latino e MC Anitta ou de nomes da "música baiana" como Tomate, Saulo Fernandes ("alma-gêmea" musical de Ivete Sangalo) e do grupo de "pagodão" Psirico.

Todos eles, à sua maneira, ensaiaram seu "apoio" aos protestos de ruas, como uma maneira de embarcar no carisma das manifestações populares. Latino prometeu "compor uma música" sobre o tema e foi criticado. Já MC Anitta alterou a letra de um sucesso seu numa legenda de sua foto no Instagram, e Márcio Victor do Psirico havia prometido "participar" das manifestações.

Tudo oportunismo. Afinal, nenhum deles têm compromisso natural com qualquer causa social. O que eles fazem é um tipo de música associada à imbecilização cultural, através da exploração de estereótipos que vão da domesticação das classes populares aos modismos mais ridículos do pop norte-americano adaptados no Brasil. Em nomes assim não se espera qualquer ativismo sócio-cultural.

O brega-popularesco é o pop comercial brasileiro. Sem muita qualidade artística ou cultural, essa categoria musical consiste na promoção de ídolos de investimentos baratos, sem uma personalidade realmente contestatória nem opinativa, mas que tenham um fácil, imediato e imenso apelo popular.

No entanto, de 2002 para cá, a blindagem intelectual que envolve o brega-popularesco, desde que Paulo César Araújo lançou sua primeira choradeira em favor dos antigos ídolos cafonas, essa categoria ficou tomada de muito pretensiosismo, expresso não só pelo "papo cabeça" de acadêmicos e cineastas documentaristas, mas de toda e qualquer apologia a seus estilos e ídolos.

A intelectualidade mais esnobe até apelidou o brega-popularesco de "verdadeira MPB" ou "MPB com P maiúsculo" no cínico propósito de valorizar as pessoas que mais vendem, mais lotam plateias e estão associadas ao aumento (ainda que virtual) de índices de audiência em programas de rádio e TV.

A intelligentzia promoveu o brega e seus derivados ao pretenso status de "arte séria e engajada", numa pregação politicamente correta que cansa de tão repetitiva, e que só serve mesmo para encher os bolsos da gente envolvida no processo, dos barões da grande mídia aos latifundiários e grandes empresários de multinacionais.

Esse aparente apelo popular dos bregas, festejado pela intelectualidade "sem preconceitos" mas muito preconceituosa, não quer dizer que o brega-popularesco, essa caricata "cultura" popular, tenha que se comprometer com causas ativistas para justificar seu sucesso. Antes não fizesse qualquer tipo de associação a esse ativismo.

Pelo menos, no pop norte-americano, é muito raro haver surtos de pretensiosismo ativista nesses ídolos da música comercial. O auge da Contracultura dos anos 60, com proporções mundiais, não foi pretexto para ídolos comportados da época, de The Platters a Johnny Rivers, passando por Pat Boone e Neil Sedaka, a "mergulharem" de vez no ativismo de protesto.

Nem mesmo os movimentos de ocupação serviram de pretexto para a adesão dos astros pop. E, perto do que são os bregas brasileiros, raros casos de pretensiosismo, como o de Jay Z e Lady Gaga, não chegam ao atrevimento obsessivo que os ídolos do Brasil possuem, e que contradiz, e muito, com o tipo de "arte" a que estão vinculados, ligados ao mais tolo estereótipo de entretenimento popular.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

GLOBO ESTÁ CRIMINALIZANDO PROTESTOS DE RUAS


Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia arma o bote e, com sutileza, tenta enfraquecer os protestos de ruas das grandes cidades. Não é uma manobra explícita, porque, aparentemente, ela "admite" que os protestos são em sua maioria pacíficos, mas se vê que ela superestima os atos de vandalismo que acontecem nas manifestações.

Depois da súbita eclosão de protestos de ruas nas grandes cidades e até mesmo em cidades pequenas e no interior - só ontem foram, segundo dados oficiais, mais de 100 cidades brasileiras, e podem ter sido muito mais - , as Organizações Globo começa a tentar "enfraquecer" os protestos.

A gota d'água teria sido o baixo cartaz que teve o "espetáculo" da vitória da seleção brasileira de futebol contra o time do Japão, na última quarta-feira, o que fez, apesar do resultado vantajoso, os astros da mídia esportiva, como Galvão Bueno, caírem em depressão.

Diante disso, a orientação da Central Globo de Jornalismo é de "pegar pesado" contra os atos de vandalismo, transformando lagartixas em Tiranossauros Rex, como se os atos de pequenos grupos de desordeiros fossem a ocorrência principal das manifestações.

Cria-se um desvio de foco, na tentativa da Rede Globo, O Globo e demais veículos dos irmãos Marinho, com a velha mídia restante de carona, tentar esvaziar o verdadeiro sentido do protesto, feito contra diversos problemas de ordem política e social que acontecem há tempos no país.

Com isso, cria-se uma "revolta" contra os excessos do protesto. É como se, na prática, a Rede Globo quisesse que os protestos pacíficos fossem esvaziados de suas causas enquanto a indignação maior se voltasse contra os desordeiros.

E essa histeria contra os vandalismos que se "agigantam" na cobertura midiática, trabalhada com um sensacionalismo moralista, não contribui para condenar, de fato, tais excessos, mas para desviar a opinião pública da atenção ao que os protestos pacíficos querem mesmo dizer.

Além disso, o sentido de "vandalismo" é tão corrompido que uma invasão pacífica, porém enérgica, de prefeituras e outros prédios de atividades políticas, agora é vista também como "desordem". Em compensação, houve até caso de filho de empresário de ônibus praticando vandalismo e a grande mídia praticamente não ligou.

A Globo sabe que ela mesma faz parte dos "alvos" das manifestações populares, ao lado de autoridades políticas, dirigentes esportivos e outros que queiram promover a injustiça social e a impunidade do crime e da corrupção.

Da mesma forma, a Globo sabe que, se deixar levar adiante essas manifestações sem uma cor ideológica definida mas - ou até por isso mesmo - dotadas de real espírito democrático, haverá espaço para pressões pela regulação midiática que derrubariam de vez o império dos Marinho.

A cobertura do vandalismo pela Globo também serve como uma "psicologia do terror", como uma tentativa sutil de intimidar as pessoas, evitar que mais pessoas compareçam aos protestos, já que a "violência" reportada de forma exagerada pela corporação midiática seria uma forma de intimidar o público e dizer para o povo não comparecer aos protestos.

A Globo, agindo isso, tenta se vingar da mudança de ares na opinião pública, na sua perda de controle do processo de verdadeira redemocratização, porque até agora vivemos uma ditadura midiática dotada de poderes absolutos e com seu tráfico de influência no Executivo, Judiciário, Legislativo e até na intelectualidade "progressista" que apoia a bregalização da cultura brasileira.

Resta ficarmos atentos, porque a cobertura da Globo torna-se abjeta, na medida em que tenta exagerar na eventual ocorrência de atos de vandalismo, na tentativa de "construir" um medo e evitar o avanço das manifestações populares, forçando o povo a ficar em casa, preso à visão equivocada de país que a corporação dos Marinho e seus asseclas trazem para os lares brasileiros.

PROTESTOS EM SALVADOR: ENTRE RADICAIS E OPORTUNISTAS


Por Alexandre Figueiredo

A onda de protestos populares atingiu todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, com a presença maciça de manifestantes que provocam até hoje impacto na grande mídia. E a multiplicação de protestos se dá com uma tendência predominante de protestos majoritariamente pacíficos enquanto alguns vândalos promovem desordem e destruições e a polícia parte para a repressão a alguns manifestantes.

Algumas cidades contam com suas peculiaridades nos protestos, como Niterói, por exemplo, cujo protesto recente teve um núcleo de manifestações próximo à quase quarentona Ponte Rio-Niterói, o que interferiu no trânsito de veículos, proibido de se dirigir à antiga capital fluminense.

Outro caso é Salvador, cujas manifestações devem esquentar quando se aproxima o dia do jogo da seleção brasileira de futebol contra a seleção italiana, na Copa das Confederações, partida que se realizará na Arena Fonte Nova.

Por um erro estratégico, os jogadores da seleção foram hospedados em um hotel no trecho da Av. Sete de Setembro, no Campo Grande, um dos locais centrais das manifestações, o que fez com que alguns exaltados vaiassem os jogadores e os vândalos partirem para apedrejar o ônibus que transportava a equipe do técnico Luiz Felipe Scolari. Vândalos também teriam queimado um ônibus em outro local da cidade.

As manifestações de Salvador, como de praxe, foram majoritariamente pacíficas. Mas a cobertura de uma mídia predominantemente conservadora, principalmente TV Bahia e TV Bandeirantes, preferia superestimar os focos de vandalismo, por mais que tente também noticiar as manifestações pacíficas.

A TV Bahia é um caso clássico, pois, como emissora propriedade dos herdeiros do falecido Antônio Carlos Magalhães, principal veículo da Rede Bahia e cuja origem se deu por uma famosa politicagem nos anos 80, segue não só a orientação conservadora do finado patriarca (mas sem os excessos típicos do temperamento explosivo do "painho"), mas também do conservadorismo nacional da Rede Globo.

OPORTUNISTAS

Se as manifestações de rua de Salvador mostram focos, não tão grandes assim mas exageradamente reportados pela mídia conservadora, de vândalos e alguns radicais reacionários que se aproveitam da situação para pregar o horror, por outro lado existem oportunistas que querem cooptar ou pegar carona nos protestos para se passar por "progressista" e "ativista".

Na mídia, o maior foco de oportunismo é a Rádio Metrópole, que fez uma cobertura politicamente correta dos movimentos, além da habitual bajulação de Mário Kertèsz, o "astro-rei" e dono da rádio, figura conhecida por ter sido afilhado político do acima citado ACM, ter feito parte da ARENA e ter uma trajetória política parecida com a do paulista Paulo Maluf.

Kertèsz havia desde o final dos anos 90 se convertido em um dublê de radiojornalista que sonha ser "dono" das esquerdas baianas. Virou "radialista" depois de, como prefeito de Salvador, ter armado um esquema de desvio de verbas públicas com Roberto Pinho (depois envolvido no "mensalão" de Marcos Valério) e ter adquirido ações em emissoras de rádio e TV, além de ter sido interventor do Jornal da Bahia.

O "astro-rei" da Rádio Metrópole é uma espécie de um sub-Bóris Casoy que pensa ser Mino Carta. Conservador, machista, demagogo, Kertèsz ainda insiste em tentar vincular a si os movimentos sociais e as instituições de esquerda, tendo tentado cooptar para si até mesmo figuras eminentes da mídia esquerdista baiana, como Emiliano José, João Falcão e João Carlos Teixeira Gomes, o "Joca".

Mas o oportunismo não parou por aí. Alguns músicos de axé-music, como Saulo Fernandes, a banda Psirico (de Márcio Victor), o cantor Tomate e outros, tentaram também pegar carona nos protestos, buscando autopromoção pessoal.

Oportunismo maior que isso, não há. A música comercial brasileira, de cunho brega-popularesco, é metida a bancar "arte séria e engajada", sem ter qualquer compromisso real com isso. Ao que eu saiba, pelo menos Justin Bieber não havia cogitado em pegar carona em movimentos do porte de Occupy Wall Street.

Em todo caso, medidas pontuais como essas, como as ações de vândalos, por um lado, e a dos oportunistas, de outro, dão o tom de uma Salvador ainda conservadora, que procura se livrar da escravidão política do carlismo e da escravidão cultural dos poderosos blocos da axé-music, comandados pelos "barões" do Carnaval baiano.

Em um momento e outro, herdeiros e seguidores dessas duas forças dominantes tentam associar-se às manifestações progressistas não apenas pela propaganda pessoal, mas talvez para evitar que sejam deixados para trás pelos baianos.

No entanto, se depender da tendência independente e arrojada dos protestos nacionais, gente como Mário Kertèsz e Psirico terão que se refugiar sob as calças dos barões da grande mídia porque seus falsos ativismos em nada convencem a uma juventude ansiosa por mudanças de verdade.

A "REBELDIA" NEOCON DO CAPITAL INICIAL

O CAPITAL INICIAL PARECE CANTAR PARA OS POUCOS DESOCUPADOS QUE PROVOCARAM DESORDENS NAS RUAS DO BRASIL.

Por Alexandre Figueiredo

Lembrando dos protestos populares a ocorrer no Brasil, e associando a diversos fatores, como a reação inicial de jornalistas ultraconservadores como Ricardo Setti, da Veja, e Arnaldo Jabor, fico imaginando o que é o reacionarismo gratuito, a catarse sem causa, como a de alguns desordeiros que tentam pôr a perder os protestos no país e que, pasmem, tem uma música inteirinha de seu agrado.

Muitos se assustaram com a reviravolta neocon de Lobão, que não perceberam que, em muitos casos, o Rock Brasil anda decepcionando muito. Titãs, Paralamas do Sucesso e remanescentes da Legião Urbana se vendendo para Mr. Catra e Banda Calypso para obter espaços de apresentações no interior, Camisa de Vênus trocando Marcelo Nova por ex-assessor de Ivete Sangalo, etc...

Só o chamado punk brasileiro há muito está acomodado e nossos veteranos já não têm mais o potencial contestatório de antes. Hoje seus "protestos" são muito vagos e genéricos, que a gente nem sabe para quem e do quê estão "protestando", mais parecendo protestos sobre nada e coisa nenhuma.

De alguma forma, aprenderam com a música "Surfista Calhorda", dos Replicantes - aquela banda "punk" de um Wander Wildner depois derretido pelo brega - , um dos primeiros sucessos a fazer protestos sobre ninguém ou sobre coisa nenhuma, de tão vagos que são.

E se até Inocentes e Garotos Podres, e, até mesmo, os Ratos do Porão - de um João Gordo hoje familiarizado com a breguice midiática - , já embarcam nessa fórmula dos "protestos sobre nada", então é algo para se preocupar neste país esquizofrênico e kafkiano que é o Brasil.

O Clemente virou o Gilberto Gil da vez, pois o antigo punk que peitava o tropicalista numa discussão em pleno programa de TV, hoje se derrete todo por uma Gaby Amarantos. E, se um dia o hoje "descolado" Clemente passar a cumprimentar com beijos a MC Anitta, é sinal de que os punks brasileiros acabaram ficando muito inocentes...

O Capital Inicial havia sido um dos derivados do Aborto Elétrico, lendário grupo brasiliense de punk rock cujos membros Renato Russo e André Pretorius já são falecidos. Dos principais músicos do grupo, só restaram os irmãos Lemos, Felipe e Flávio, que depois montaram o Capital Inicial com Loro Jones e uma garota, depois substituída por Dinho Ouro Preto.

Era legal eu ouvir o Capital Inicial na Fluminense FM, em 1984, e a versão demo de "Prova" é uma das melhores gravadas pela banda. O grupo, pela origem derivada do AE, era um grupo-irmão da Legião Urbana, grupo com o qual "rachou" o repertório original da lendária banda punk.

Assim, por exemplo, se "Música Urbana" passou a ser incluída no repertório da Legião Urbana, em versão acústica em ritmo de blues - a Fluminense FM havia feito uma versão mash up, em 1987, com a batida de "Close to Me" do The Cure - , o Capital Inicial havia gravado "Música Urbana 2", seu primeiro grande sucesso radiofônico.

Depois o Capital Inicial teve uma fase pop, com Bozo Barretti nos teclados, resultando em fracasso e no fim do grupo, depois do Capital tentar outro vocalista. Depois voltou à ativa, em 1999, mas em seguida Loro Jones saiu, descontente com os rumos da banda, que até retomou os arranjos roqueiros, num outro contexto, mas sua atitude acabou se tornando mais pop.

O Capital Inicial se despolitizou mas, em que pese um bem intencionado tributo ao Aborto Elétrico, está cada vez mais distante de suas origens brasilienses e mais próximo do cenário "pop-rock" de sua cidade adotiva, São Paulo, cuja cultura rock foi empastelada pela 89 FM e pela Bizz fase anos 90. E ainda é capaz de tocar nos mesmos eventos de axézeiros e breganejos que, obviamente, nada têm a ver com o Rock Brasil.

HISTERIA QUE REMETE AO GOLPISMO DE 1964

O que assusta é que a letra de "Saquear Brasília", um dos sucessos recentes do grupo, embora invista num "protesto raivoso e irônico", remete a uma histeria golpista que contradiz os protestos inteligentes do punk brasiliense que se opunham ao poder militar bem no "olho do furacão", a capital federal.

Sendo uma daquelas letras "de protesto" que a gente não sabe bem do que e de quem está protestando, "Saquear Brasília" aposta naquela histeria que, no calor da juventude, todo brasileiro acha "divertida", que é de pedir o fechamento do Congresso Nacional e estimular o vandalismo contra os parlamentares, a pretexto de protestar contra a corrupção política.

Alguns trechos da letra são ilustrativos: "É uma maravilha ser poderoso em Brasília! (...) / Eles mentem e não sentem nada / Eles mentem na sua cara / Nobre colega / Acha que a nação inteira / É surda e cega / Hipocrisia todo dia / Faz parte da mobília / Tragam os seus amigos / Tragam os seus pais / Tragam os seus filhos / E também as suas filhas / Pra saquear Brasília (...) / Vamos saquear Brasília!"

A carga de ironia excessiva anula o tom do protesto e mesmo coloca o sentido desse protesto bastante duvidoso. Uma "rebeldia" que a nada conduz, sem oferecer qualquer alternativa à situação de corrupção que acontece no país. Fica sendo um desabafo de mau gosto, cujo caráter mobilizador perde até mesmo para a "alienada" letra de O Rappa, "Vem Pra Rua", transformada acidentalmente no hino dos protestos juvenis.

As pessoas que querem o fechamento do Congresso Nacional para "combater" a corrupção (o que inclui atos de vandalismo contra quem comete atos de vandalismo contra os brasileiros) são aquelas que sempre votam nos mesmos corruptos, quando eles prometem embelezar praças, construir viadutos para seus eleitores, e ainda investem grana demais em eventos como a Copa do Mundo.

Pior: essas mesmas pessoas que pregam o fechamento do Congresso Nacional e todo tipo de desordem contra os políticos são aquelas que, se fossem eleitas para cargos políticos, estariam exatamente fazendo a mesma corrupção política que dizem condenar com surdo rancor. 

A "divertida" histeria de usar a catarse coletiva "contra a corrupção", a pretexto de um "saudável protesto juvenil" esconde uma solução golpista que, no contexto de mobilização neocon de parte de nossa sociedade, representa uma ameaça à democracia e um consentimento à própria corrupção que diz combater.

Tudo bem que a revolta popular faz com que certas pessoas cometam excessos, mas ver uma letra que, em vez de fazer um questionamento mais humano - como o próprio Renato Russo havia feito em "Que País é Este?" - , prega o vandalismo, torna-se um sério problema, porque a catarse, em vez de se voltar realmente contra os problemas do país, acaba fazendo o contrário.

É como se quisesse dizer "Vamos destruir o país porque tudo está perdido, mesmo". Como se Dinho cantasse para nós: "O país está perdido e o que resta para nós é provocar quebra-quebra e roubar quem e o que estiver à nossa frente". Quanta falta faz Renato Russo entre nós...

Foi justamente esse mesmo "estado de espírito" da letra de "Saquear Brasília" que, por volta de março de 1964, criou-se um clima de ódio "contra a corrupção" que resultou no golpe militar, o que em nada melhorou em nosso país, e só agravou a corrupção política e ao desrespeito à Constituição Federal que vemos constantemente em nossos dias.

Era exatamente o mesmo discurso que o misterioso sargento José Anselmo dos Santos, o "Cabo Anselmo", fez como "porta-voz" dos marinheiros revoltosos, criando um sentimento de histeria popular que, forjando uma acusação generalizada de corrupção política, abriu caminho para as "marchas com Deus" que incentivaram as Forças Armadas, já patrocinadas pela CIA, a derrubarem o presidente João Goulart.

Não por acaso, "Saquear Brasília" tem boa execução numa UOL 89 FM de proprietários de origem malufista e filiados ao DEM que apoia Geraldo Alckmin. E que, na sua então afiliada carioca Rádio Cidade, tentou criar uma juventude "roqueira" de extrema-direita, afastando os ventos progressistas deixados pela antiga Fluminense FM.

A verdadeira rebeldia contra a corrupção política seria criar passeatas, abaixo-assinados, usar a Lei pelo nosso favor. Como a juventude está fazendo, de forma pacífica, numa enérgica porém saudável pressão sócio-política, sem partir para a avacalhação gratuita que nada resolve para eliminar os problemas e vícios neste país.

"Saquear Brasília" não é um protesto real contra os erros políticos de nosso país. Mais parece uma letra que prega o vandalismo como solução para a corrupção. A letra só aquece os neurônios de jovens ainda pouco conscientes de seus instintos de rebeldia. No entanto, a "solução" da letra é bastante golpista, em que pese a "diversão" do que é proposto na letra.

Certa vez, Lobão, em trocadilho irônico, chamou o vocalista Dinho Ouro Preto de "Coita". Mas se o "grande lobo" já anda de mãos dadas com o irmão do desafeto Herbert Vianna, o antropólogo Hermano Vianna, na causa funqueira, o cantor do Capital Inicial acabou vestindo a camisa neocon de Lobão. "Saquear Brasília" é um verdadeiro manifesto do nada na terra do nunca.

PRIMEIRAS REFLEXÕES SOBRE OS PROTESTOS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: As manifestações populares em várias cidades do país são apenas o começo de uma grande reação popular, inédita desde que o país se redemocratizou, uma vez que sua dimensão e sua independência ideológica não encontravam equivalentes nas manifestações que se conhecia até agora. Ainda não sabemos de que forma se darão os efeitos desses protestos, mas sabe-se que o Brasil terá seu cenário político alterado pela gigantesca revolta contra o fisiologismo político, a corrupção e a demagogia que permite descasos e desserviços.

Primeiras reflexões sobre os protestos

Por Emir Sader - Agência Carta Maior

O movimento, iniciado como resistência ao aumento das tarifas do transporte, foi inédito e surpreendente. Quem achar que consegue captar todas suas dimensões e projeções futuras de imediato, muito provavelmente estará tendo uma visão redutiva do fenômeno, puxando a sardinha para defender teses previamente elaboradas, para confirmar seus argumentos, sem dar conta do caráter multifacetário e surpreendente das mobilizações.

Não vamos tentar isto neste artigo, mas apenas tirar algumas primeiras conclusões, que nos parecem claras.

1. Foi uma vitória do movimento a anulação do aumento, mostra a força das mobilizações, ainda mais quando se apoiam numa reivindicação justa e possível – tanto assim que foi realizada.

2. Essa vitória, em primeiro lugar, reforça concretamente como as mobilizações populares valem a pena, sensibilizam as pessoas, fazem com se fale para toda a sociedade e servem como forte fator de pressão sobre os governos.

3. Além disso, o movimento colocou em discussão uma questão essencial na luta contra o neoliberalismo – a polarização entre interesses públicos e privados. Sobre quem deve financiar os custos de um serviço publico essencial que, como tal, não deveria estar submetido aos interesses das empresas privadas, movidas pelo lucro.

4. A conquista da anulação do aumento se traduz num beneficio para as camadas mais pobres da população, que são as que normalmente se servem do transporte publico, demonstrando como um movimento deve buscar abarcar não apenas as reivindicações que tocam cada setor da sociedade em particular, mas buscar atender as demandas mais amplas, especialmente as que tem a ver com os setores mais necessitados da sociedade e que tem mais dificuldades para se mobilizar.

5. Talvez o aspecto mais essencial das mobilizações tenha sido o de fazer entrar na vida politica a amplos setores da juventude, não contemplados por politicas governamentais e que, até aqui, não tinham encontrado suas formas especificas de se manifestar politicamente. Esta pode ser a consequências mais permanente das mobilizações.

6. Ficou claro também como os governos, dos mais diferentes partidos, uns mais – os de direita – outros menos – os de esquerda – tem dificuldades de se relacionar com mobilizações populares. Tomam decisões importantes sem consulta e quando se enfrentam com resistências populares, tendem a reafirmar tecnocraticamente suas decisões – “não há recursos”, “as contas não fecham”, etc. – sem se dar conta de que se trata de uma questão politica, de uma justa reivindicação da cidadania, apoiada em imenso consenso social, que deve ter soluções politicas, para o que os governantes foram eleitos. Só depois de muitas mobilizações e de desgaste da autoridade dos governantes, as decisões corretas são tomadas. Uma coisa é afirmar que “dialoga” com os movimentos, outra é se enfrentar efetivamente com suas mobilizações, ainda mais quando contestam as decisões tomadas pelos governantes.

7. Certamente um problema que o movimento enfrenta são as tentativas de manipulação de fora. Uma delas, representada pelos setores mais extremistas, que buscaram inserir reivindicações maximalistas, de “levantamento popular” contra o Estado, que justificariam suas ações violentas, caracterizadas como vandalismo. São setores muito pequenos, externos ao movimento – com infiltração policial ou não. Conseguem o destaque imediato que a cobertura da mídia promove, mas foram rechaçados pela quase totalidade dos movimentos.

8. A outra tentativa é da direita, claramente expressa na atitude da velha mídia. Inicialmente esta se opôs ao movimento, como costuma fazer com toda manifestação popular. Depois, quando se deu conta que poderia representar um desgaste para o governo, as promoveu e tentou inserir, artificialmente, suas orientações dirigidas contra o governo federal. Foram igualmente rejeitadas essas tentativas apelas lideranças do movimento, apesar de que um componente reacionário se fez sempre presente, com o rancor típico do extremismo direitista, magnificado pela velha mídia.

9. É de destacar a surpresa dos governos e sua incapacidade de entender o potencial explosivo das condições de vida urbanas e, em particular, a ausência de políticas para a juventude por parte do governo federal. As entidades estudantis tradicionais também foram surpreendidas e estiveram ausentes dos movimentos.

10. Duas atitudes se digladiaram ao longo das mobilizações: a denúncia das suas manipulações pela direita – expressas mais claramente presente na ação da mídia tradicional – e as tentações de se opor ao movimento. E aquela de exaltação acrítica do movimento, como se ele contivesse projetos claros e de futuro. Ambas são equivocadas. O movimento surgiu de reivindicações justas, composto por setores da juventude, com seus atuais estados de consciência, com todas as contradições que um movimento dessa ordem contem. A atitude correta é de aprender do movimento e atuar junto a ele, para ajudar a que tenha uma consciência mais clara dos seus objetivos, das suas limitações, das tentativas de ser usado pela direita e dos problemas que suscitou e como levar adiante a discussão dos seu significado e melhores formas de enfrentar os seus desdobramentos.

O significado maior do movimento vai ficar mais claro com o tempo. A direita só se interessará nas suas estreitas preocupações eleitorais – nos seus esforços desesperados para chegar ao segundo turno nas eleições presidenciais. Setores extremistas buscarão interpretações exorbitantes de que estariam dadas condições de alternativas violentas, o que se esvaziará rapidamente.

O mais importante são as lições que o próprio movimento e a esquerda – partidos, movimentos populares, governos – tirem da experiência. Nenhuma interpretação prévia dá conta da complexidade e do ineditismo do movimento. Provavelmente a maior consequência seja a introdução da temática do significado politico da juventude e de sus condições concretas de vida e de expectativas no Brasil do século XXI.
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