quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A NOVA INDÚSTRIA FONOGRÁFICA E AS NOVAS GRANDES MÍDIAS


Por Alexandre Figueiredo

Os pretensos "gurus" da intelectualidade brasileira tentaram fazer prevalecer um ponto de vista em que o mercado fonográfico morreu, que a grande mídia está agonizando e que o mundo se transformará num grande cenário alternativo onde tudo é cultura independente e subversão midiática.

Sim, estamos falando do pessoal de sempre: Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Hermano Vianna etc. Os pretensos profetas da subversão cultural, da derrubada total das leis de copyright, da anarquização do mercado e da tuiterização dos movimentos sociais, não conseguem esconder suas contradições e inverdades ideológicas, por trás do seu otimismo falsamente libertário.

Até mesmo suas "previsões" sobre a derrubada da mídia e do mercado soam risíveis, se melhor observadas. E, com uma análise ainda mais atenta, o que Sanches, Lemos, Vianna e companhia pregam sobre as "novas mídias" se baseia, na verdade, numa visão tecnocrática bastante conservadora, baseada nos conceitos neoliberais de informática que se identifica claramente aos ideais do "negócio aberto" de George Soros.

Soros, que em 2010 havia apoiado a candidatura presidencial de José Serra no Brasil, tenta deturpar os conceitos de novas mídias digitais e da liberação das leis sobre direitos autorais. Seu discurso estabelece um aparente enunciado teórico que supostamente indica que os movimentos sociais irão dominar a mídia e a indústria fonográfica e os destinos da humanidade serão decididos pelo clique de um mouse.

Chegam a anunciar até mesmo o termo copyleft, um termo cinicamente usado, até de forma um tanto jocosa, para forçar a associação desse ponto de vista ao ideário de esquerda, mesmo sendo ele dotado de um conteúdo neoliberal bastante explícito. Lembra os primórdios do PSDB em 1989, quando o tucanato se autoproclamava de centro-esquerda quando apenas era inspirado na atualização do liberalismo clássico.

Naquela época o tucanato ainda era comedido por membros humanistas como André Franco Montoro e Mário Covas e o PSDB ainda lembrava um PSD mais moderno (leia-se o PSD na sua fase anos 50). Daí um certo vínculo com os valores iluministas que o liberalismo clássico chegou a considerar, mas que o neoliberalismo abandonou completamente, apesar dos progressos da humanidade.

O MERCADO FONOGRÁFICO SE TRANSFORMA

Um dos equívocos que a intelectualidade badalada e detentora dos privilégios da visibilidade e prestígio acadêmico fazem é defender a tese de que a simples crise das maiores companhias fonográficas mundiais representa, por si só, o fim das grandes gravadoras.

Dá para ver a associação de Pedro Alexandre Sanches com o Coletivo Fora do Eixo, que já tem como integrante o produtor Carlos Eduardo Miranda, que havia sido parceiro de Tatola na fase "grunge" da rádio paulista 89 FM (atual UOL 89 FM), a mesma que hoje tem Otávio Frias Filho, ex-patrão e mestre de Sanches, como sócio acionário. Famiglia unida...

Carlos Eduardo havia feito um simulacro de "gravadora independente" sustentado pela norte-americana Warner Music. A grande mídia tentou espalhar aos quatro ventos que a Banguela Records era uma "gravadora independente", quando era apenas um sub-selo da Warner, que a mídia creditava como "simples distribuidora". Aí vieram outros selos do tipo como Radical Records (EMI) , Indie Records (PolyGram) etc.

E farsa não colou, porque ficou muito fácil montar um selo "indie" dentro de escritórios arranjados pelas grandes gravadoras. E mostra que essa intelectualidade anda blefando muito quando diz que as grandes gravadoras estão morrendo e o mercadão mergulhará fundo na indústria independente.

O que ocorre, na verdade, é uma rearticulação de forças. As grandes gravadoras apenas cedem terreno a outras grandes gravadoras. É como na política brasileira, quando a ARENA cai e depois o PSDB se ascende ao poder. E existem selos fora do quarteto Sony-Warner-Universal-EMI (remanescentes das "sete irmãs" de 20 anos atrás) com clara mentalidade de grandes gravadoras.

O exemplo brasileiro da Som Livre é ilustrativo. A gravadora nem de longe pode ser considerada independente, e nem mesmo pseudo-independente. Seu vínculo com as Organizações Globo, bastante explícito e assumido, impede que o selo se alinhe num contexto de mídia alternativa na qual se inserem verdadeiras (e poucas) gravadoras independentes brasileiras, como a Baratos Afins.

Enquanto isso, vemos também selos pequenos do Pará, da Bahia e de Goiás, só para citar exemplos, que já possuem mentalidade de grandes gravadoras, em muitos casos até de uma forma bem mais cruel. Uma Sony Music, por exemplo, com toda a sua tirania mercantil, é capaz de permitir a liberdade artística para Bob Dylan, um dos mais "difíceis" artistas da música contemporânea.

Essa liberdade não existe, por exemplo, nas "pequenas" gravadoras do Pará que investem em "forró eletrõnico" e tecnobrega, pois seus executivos, associados aos empresários de seus "artistas", impõem normas rígidas e um método escravista de trabalho, transformando os músicos em sub-empregados.

No exterior, destaca-se a gravadora asiática YG, que lançou o cantor Psy, que gravou vários álbuns na gravadora antes de ser vendido como um suposto "fenômeno de Internet". A YG se configura como uma multinacional, com escritório nos EUA e filiais em vários países. Mas, se nos guiarmos pela análise "segura" dos intelectuais brazucas, ela seria definida como "independente".

NOVAS MÍDIAS CONSERVADORAS

O que se observa, também, é que no âmbito das novas mídias digitais, a tão sonhada revolução social simplesmente não aconteceu. A própria grande mídia, sobretudo a "popular", restringe a atuação social na Internet a bobagens que envolvem desde gafes de pessoas anônimas até a risíveis sucessos musicais.

A própria "pequena" indústria fonográfica brasileira é esperta. Para dar a impressão de que não faz parte da indústria, ela lança seus "artistas" primeiro através dos vídeos do YouTube. Depois é que lança em disco, isso quando lança. Mas nem por isso esses ídolos se tornaram "indie" ou representam a extensão cultural e popular das novas mídias.

As novas mídias digitais apenas foram uma novidade como a televisão brasileira em 1950. A tão propagada "revolução socialista" não se deu pelo clique de um mouse nem pelos 140 caracteres do Twitter. E, além disso, as empresas de informática e de Internet se mostraram conservadoras, assim como "gurus" executivos como Bill Gates e Steve Jobs, adeptos do neoliberalismo como qualquer empresário moderno.

Mas mesmo os internautas brasileiros mostraram seu ultraconservarodorismo em tons reacionários. A trolagem é um fenômeno na Internet que, socialmente, é comparável ao do Comando de Caça aos Comunistas no Brasil de 1964.

O ultrareacionarismo juvenil, através de comentários jocosos por vezes lançados com pseudônimos (fakes), representou uma defesa desesperada do "estabelecido" pela mídia, política e mercado dominantes. Isso derrubou qualquer utopia de que as redes sociais se tornariam um paraíso de rebelião socialista, uma "primavera" digital.

A chamada subversão dos direitos autorais também é um conceito que requer cautela. Os "gurus" da subversão do tal "copyleft" também não querem que os artistas recebam dinheiro por suas obras, já que o ideal, no caso, defende apenas a "liberdade" no uso de obras alheias, mas sem atentar para o uso responsável, favorecendo até mesmo a pirataria fonográfica e digital como fins em si mesmos.

Os "agentes" acabam se tornando outros, pois se temos, de um lado, empresários e editores de obras artísticas ficando com a grana, de outro teremos equivalentes "clandestinos" e "modestos" dos mesmos, fantasiados de "guerrilheiros digitais".

Devemos, portanto, tomar muita cautela. A indústria fonográfica apenas rearticula suas forças e estruturas de poder. As novas mídias são apenas novas mídias, mudanças maquinais que pouco refletem, por si mesmas, no progresso das mentes. Por mais que tenhamos Twitter, Facebook e YouTube, são as mentes humanas que de fato realizam transformações, e isso vale desde a idade da pedra.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

TESE DE PAULO CÉSAR ARAÚJO SOBRE BREGA E DITADURA ESTÁ ERRADA


Por Alexandre Figueiredo

Já havíamos falado a respeito dos equívocos de análise de Paulo César Araújo sobre o contexto da ditadura militar no seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não, cuja abordagem sobre a Censura Federal entra em contradição com o que é apresentado, de forma mais realista, pela escritora Beatriz Kushnir no livro Cães de Guarda, lançado na mesma época.

No entanto, não falamos com tamanha ênfase e uma análise próxima do caráter científico que apresentaremos a seguir.  Portanto, aqui se é feita uma análise bem mais objetiva e racional, e não apenas uma avaliação aparentemente opinativa, a respeito desse equívoco de Paulo César Araújo, geralmente visto como "unanimidade" entre os círculos intelectuais brasileiros.

Segundo a abordagem de Paulo César Araújo, durante o período de vigência do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), lançado pela ditadura militar brasileira para tornar a repressão mais rigorosa, a música brega viveu o que o autor considera seu período áureo, fazendo muito sucesso nas emissoras de rádio e televisão.

Até aí, nada de errado. O grande erro cometido por Paulo César Araújo está em creditar esse sucesso a uma suposta reação popular aos arbítrios da ditadura militar. E, contrariando o que ele próprio disse no parágrafo do referido livro, no qual ele definia os ídolos cafonas em "despolitizados", ele tenta transformá-los em "artistas politizados", em "cantores de protesto".

TESE SEM FUNDAMENTO

Por que a tese de Paulo César Araújo de que a música brega era "uma canção de protesto" não tem o menor fundamento? Independente de acharmos que a música brega é "boa" ou "ruim", a tese não tem o menor fundamento por diversos motivos.

Em primeiro lugar, porque é insuficiente a "prova" usada por Araújo, de uma "pesquisa" de estudantes da PUC mineira de que "Eu Não Sou Cachorro Não" seria "uma canção de protesto", até porque o exercício é apenas um artifício "científico" para justificar uma avaliação de caráter subjetivo, altamente discutível, sem falar que o objetivo de Waldick com a música era apenas falar de desilusões amorosas. Só isso.

Em segundo lugar, Paulo César Araújo tentou criar uma abordagem estereotipada da censura brasileira, apostando num contexto uniforme de censores necessariamente militares, moralistas e durões. Já Beatriz Kushnir define os censores não necessariamente como "sargentões" a cortar tudo e todos, mas em servidores públicos que estavam cumprindo ordens da ditadura militar.

Uns censores eram mais flexíveis, outros tinham frescuras pessoais, outros eram realmente durões, mas havia censores que tinham uma relação mais cordial com os órgãos de mídia para os quais trabalhavam. Não dá para criar uma visão maniqueísta entre a ditadura e a sociedade, já que mesmo nas Forças Armadas havia interesses divergentes e sérios atritos mesmo entre aqueles que dirigiam a ditadura militar.

Através dessa análise, constata-se que o argumento de Araújo de que, só pelo fato de terem tido músicas censuradas, os ídolos bregas teriam sido "cantores de protesto" não possui o menor fundamento. Até porque, a partir dos próprios ídolos mais destacados, como Waldick Soriano e Odair José, se constatou que os dois cantores depois demonstraram ser ideologicamente bastante conservadores.

MÍDIA E INDÚSTRIA DO ENTRETENIMENTO

Outro fato que também desmonta a tese de Araújo é que, se a música brega fez sucesso durante a vigência do AI-5, houve um mercado e um sistema midiático para difundi-los. Aí Araújo contradiz, porque se acreditarmos nele teríamos que crer que a mídia toda estava completamente contra a ditadura militar, o que não é verdade.

Pelo contrário, era nessa época que a mídia brasileira via agonizarem e morrerem os poucos focos oposicionistas abertamente expressos ao público. A grande mídia estava abertamente solidária ao regime militar e a mídia oposicionista, sufocada ou marginalizada, era impotente para se projetar ao grande público naqueles anos de chumbo.

A TV Excelsior, ligada a um empresário janguista que havia se suicidado antes (o mesmo Mário Wallace Simonsen da companhia aérea Panair), seria lacrada em 1970. O Correio da Manhã, que apoiou o golpe de 1964, mas se opôs severamente contra a ditadura, foi transformado num periódico inócuo aos arbítrios da ditadura. Já não tínhamos a revista Senhor e a Visão, tornando-se esquerdista, ficou marginalizada no mercado.

Enquanto isso, na mídia tutelada por grupos conservadores, a Folha da Tarde (dos Frias) havia encerrado sua fase esquerdista e a revista Realidade (dos Civita) havia deixado de ser a notável revista de excelentes textos jornalísticos - geralmente inspirados na tendência do "Novo Jornalismo" de narrar reportagens como se fossem romances - e uma postura progressista.

Se a grande mídia tinha esses desfechos todos, imagine então as inúmeras rádios que tocavam os ídolos bregas, muitas delas com concessões feitas ou renovadas durante o periodo militar. Elas nem de longe representariam uma oposição ao regime militar, como quer a abordagem de Araújo, mas seriam sobretudo o mais fiel reduto de defesa da ditadura militar.

Afinal, são rádios controladas por oligarquias regionais ou nacionais, juntamente com emissoras de televisão que não representavam ameaça à ditadura militar. E também existe um mercado de entretenimento que é associado ao respaldo dos poderosos regionais no interior do país, ou do poder econômico das capitais estaduais.

Mesmo os serviços de autofalantes - pretexto dos defensores da música brega falarem em "mídia alternativa" - eram feitos sob autorização dos chefes oligárquicos que influenciavam as cidades do interior. Portanto, nem eles representam qualquer oposição ao regime militar, mas o seu respaldo mais satisfatório.

Portanto, a música brega tornou-se sucesso num contexto próprio para isso, através de uma mídia e um mercado que respaldaram a ditadura militar. Sendo assim, a música brega não só não representava ameaça aos interesses da ditadura militar, mas estava de acordo com os mesmos.

CARUSO 0 X LATUFF 1



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A tragédia de Santa Maria, onde uma boate com funcionamento irregular sofreu um incêndio que causou mais de 200 mortes e centenas de feridos, também rendeu charges. Mas a charge de Chico Caruso, além de totalmente sem graça, nada expressou sobre o drama, enquanto Carlos Latuff, famoso por suas denúncias sociais e pelo excelente desenho, disse muito a respeito da postura da grande mídia em relação ao episódio. Parabéns, Latuff, pela mensagem!!

CARUSO X LATUFF

Por Paulo Nogueira - Diário do Centro do Mundo, reproduzido também no Blog do Miro

Fazer charge num drama como o de Santa Maria é uma tarefa para poucos.

É fácil fazer bobagem, e é difícil fazer coisa boa.

Na tragédia de Santa Maria, tivemos as duas situações. O cartunista Carlos Latuff, que se celebrizou no Brasil há pouco tempo depois de ser acusado de antissemita, brilhou.

Latuff ironizou o abominável comportamento da mídia diante de calamidades como a da casa noturna Kiss. Um repórter tenta extrair palavras de um familiar da vítima no enterro, numa exploração abjeta da dor alheia.

Clap, clap, clap. De pé.

Latuff deu voz a milhões de brasileiros que somaram à tristeza pelas centenas de mortes a indignação pela atitude de jornalistas que não respeitam a dor alheia e simulam, como canastrões, uma dor que não sentem.

O lado B veio com Chico Caruso, no Globo. Ele fez uma prisão em chamas, na qual ardem as pessoas ali dentro e da qual se exala uma fumaça sinistra. Dilma, sempre Dilma, observa de longe e exclama: “Santa Maria!”

Era para rir? Os leitores acharam que não. Mas viria uma segunda etapa. Numa decisão estapafurdiamente incompreensível, Ricardo Noblat republicou a charge em seu blogue com o acréscimo da palavra “humor”.

A reação nas redes sociais foi imediata. Caruso e Noblat foram simplesmente abominados. No próprio blogue de Noblat, os leitores - em geral arquiconservadores como o blogueiro - manifestaram repúdio. Um deles notou que a dupla conseguiu unir petistas e antipetistas na mesma reprovação torrencial.

Noblat defendeu Chico Caruso, e sobretudo a si próprio, em linhas antológicas: quem não gostou da charge, foi o que ele essencialmente disse depois de uma cômica interpretação do desenho, não a entendeu. Os leitores são burros, portanto.

Tenho para mim que parte da raiva se deve ao fato de ambos estarem fortemente identificados com a Globo. Alguma coisa da rejeição que existe em boa parte da sociedade à Globo se transmite a seus funcionários.

Mas a questão vai além. É complicado, ficou claro, fazer charge decente para as Organizações Globo. A de Latuff jamais seria publicada pelo Globo. O espesso conservadorismo da empresa acaba por ceifar a possibilidade de iconoclastia, de inconformismo de cartunistas da Globo.

Se nas colunas políticas o reacionarismo nos veículos da Globo não chega a chocar, porque é esperado, na charge aparece como um estigma. De artistas se espera uma atitude diferente, mais arejada, mais provocativa.

Caruso, nos anos 1980, se destacou como um dos melhores chargistas de sua geração. Prometia mais do que entregou, é certo, mas fez uma carreira boa.

Agora, vai passar para a história como o autor da charge mais repudiada e mais infame da mídia brasileira em muitos anos - em parte por um mau momento, em parte por carregar no peito o crachá das Organizações Globo.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

"BOAZUDA" COMETE GAFE RELACIONADA À SAÚDE PÚBLICA


Por Alexandre Figueiredo

Mais uma vez a mídia machista se alimenta de factoides e gafes de suas "musas", insistindo num mercado que já causa problemas e repercussões negativas, mas se protege pelo pretexto do termo "popular" para promover mulheres reduzidas a reles brinquedos sexuais de um público mais bronco.

Desta vez, a gafe foi da "modelo" (?!) Andressa Urach - mais uma dessas "boazudas" com sobrenome "europeu" - , que mostrou um mosquito pousando sobre um de seus glúteos, num claro gesto de estupidez e imprudência.

Segue a nota que o portal Terra, sob "encomendação" da mídia machista (jabaculê?), publicou sobre a sub-celebridade:

Andressa Urach posta foto com mosquito no bumbum

Andressa Urach adora dividir os momentos de seu dia a dia com seus fãs no Twitter. Nessa segunda-feira (28), antes de dormir, a loira postou uma foto em que aparece com um mosquito pousado em seu bumbum.

"Esse sabe o que é bom! Hoje quem vai fazer amor comigo é o mosquito", escreveu Andressa, provocando os fãs.


A mensagem é puramente narcisista - "Esse sabe o que é bom",  sobre o traseiro da moça - e é puramente irresponsável, sabendo o que pode fazer um inseto destes, que geralmente incomoda as pessoas (sobretudo eu) e que pode ser fonte de sérias doenças, principalmente a dengue. Portanto, a gafe de Andressa Urach foi, acima de tudo, contra a saúde pública.

Além disso, o texto também força a imagem, muitas vezes falsa, de "encalhadas" dessas pretensas musas. Usar um mosquito para dizer que uma moça "não consegue ter um namorado" é o cúmulo do ridículo, embora a mídia machista não mede escrúpulos para permitir tais "gracinhas" para manter essas mulheres no posto de "brinquedos sexuais" para (a falta de) imaginário masculino.

Portanto, foi mais um episódio patético que faz com que a mídia machista ainda persista como extensão do poder midiático. E que mostra um mercado controlado por homens, em que pese o suposto celibato e a falsa imagem de "encalhadas" de suas moças.

Só que esse mercado estimula o turismo sexual, a pornografia e a pedofilia, na medida em que essas "popozudas" são vendidas como exemplos de sucesso feminino. Isso acaba repercutindo até nos portais de prostituição estrangeiros, que publicam fotos dessas moças, no tráfico de mulheres e coisas piores.

Sem falar que, no caso de Andressa Urach, se trata também de uma péssima campanha de combate à dengue. As famílias aedes aegypti agradecem.

OS "CARTOLAS" E O MACHISMO DAS "BOAZUDAS"


Por Alexandre Figueiredo

Carnaval, futebol e sexo. O "coquetel" machista alimenta os impulsos sexuais de um público masculino pouco qualificado intelectualmente, com sua "multidão" de pretensas "musas" que alimentam a falta de imaginário masculino com uma "fantasia sexual" pré-fabricada, embalada para consumo.

Essa constatação é óbvia. Mas houve gente na intelectualidade badalada de preconceituosos "sem preconceitos" que, tentando inverter os valores sociais, creditava essas servas do entretenimento machista como "feministas" só porque aparentemente não vivem sob a sombra dos homens.

Já escrevemos que isso é muito incoerente. Não tem fundamento. Afinal, o mercado da mídia machista envolve homens, sim. São editores de revistas "sensuais" e de portais de celebridades, são dirigentes carnavalescos, dirigentes esportivos e até contraventores. E eles batem o pé, querem o mercado "farto" de glúteos e peitos para alimentar a tara masculina.

Num país de transformação de valores como o Brasil, isso continua sendo um retrocesso. A exibição corporal dessas "musas" sem conteúdo, que não tem a nos dizer, que parecem felizes nos seus papéis de "brinquedos sexuais" dos homens do "povão", é repetitiva e cansativa, mas a mídia machista chega a ser cínica ao dizer coisas como "e dá para cansar?".

São centenas e centenas dessas moças, que são impostas pela mídia não somente como objetos sexuais dos homens pobres, mas também como ideais de sucesso feminino para as moças das classes populares. Elas só têm algum direito de ser ou não ser uma "musa" assim por uma questão de aparente "democracia" da mídia dita "popular". Mas, em que pese o caráter exótico e aberrante das "boazudas", a mídia as supervaloriza, sim.

No último fim de semana, vimos as "musas do Cariocão" sendo lançadas todas juntas, "sensualizando" o espetáculo midiático. Passado o Campeonato Carioca, elas alimentarão seu sucesso nas mesmíssimas poses nas praias, nas academias de ginástica, nas sessões de fotos "sensuais", "mostrando demais" de seu corpo, mas nada fazendo de diferente em relação a isso.

Isso é muito retrógrado, já que existem mulheres que são capazes de unir sensualidade e inteligência e que não precisam "mostrar demais" o tempo inteiro. É só perceber, por exemplo, o caso da atriz Emma Watson, a mesma que foi estrela teen dos filmes da saga Harry Potter.

Dona de um impressionante par de pernas e de um corpão sedutor, Emma no entanto se destaca pelas boas entrevistas, pela bela voz, e ainda por cima pode vestir roupas discretas, mesmo grandes sobretudos, e ter um gosto musical relevante. No mesmo caminho também segue a outrora atriz mirim Dakota Fanning.

Se até as musas teen são capazes de moderar a sensualidade para mostrar que não são só corpos sedutores, por que o mercado brasileiro do entretenimento insiste no culto das "mulheres-objeto", não só jogando centenas de moças do gênero e ainda por cima sem aposentar as veteranas?

São "musas do Brasileirão" e equivalentes regionais, "miss Bumbum", "peladonas", ex-BBBs, mulheres-frutas, etc etc etc. Centenas, milhares, todas fazendo a mesma coisa que se repete. Mostram demais seus corpos que perdem a graça, não têm a menor sutileza para a sedução, o que anula completamente o sentido real da verdadeira sedução, da verdadeira sensualidade.

A intelectualidade tentou atribuir como suposto "feminismo" dessas musas "populares" a associação com a "liberdade do prazer sexual" ou "liberdade do corpo". Só que essa "liberdade" está muito mais para a "liberdade" dos barões da mídia e seus "urubólogos", uma "liberdade" tirânica e autoritária, do que a liberdade verdadeira dos movimentos sociais.

Além disso, não existe liberdade do corpo sem a liberdade da alma. E liberdade do corpo não é exibir as formas físicas a qualquer preço. Chega um momento que o corpo precisa se guardar. Mas quem não tem discernimento nem inteligência não quer saber dessa necessidade. O machismo brasileiro é turrão.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

BREGA-POPULARESCO, ESPETÁCULO E IMPRUDÊNCIAS

A BANDA GURIZADA FANDANGUEIRA, QUE SE APRESENTOU EM SANTA MARIA NO MOMENTO DA TRAGÉDIA: O SANFONEIRO DANILO JAQUES MORREU NA OCASIÃO.

Por Alexandre Figueiredo

O brega-popularesco, que é a "cultura popular" promovida pelo mercado e pela grande mídia e que, do contrário que muitos pensam, tem muito menos a ver com o folclore das classes populares e mais com o hit-parade adaptado aos contextos brasileiros, é imprudente por excelência.

Afinal, seu universo é marcado pela mediocridade cultural e artística, que em muitos casos carece até mesmo de estratégia. Em criatividade, então, nem se fala, porque ela é quase nula. A intelectualidade dominante tenta relativizar, definindo essa sub-criatividade como "recriação", "novos valores artísticos" ou coisa parecida, mas isso não tem fundamento lógico.

Mesmo fora da música, o espetáculo brega-popularesco é imprudente porque não toma cautelas em muitas posições. No âmbito das chamadas "boazudas", por exemplo, as moças podem tão somente mostrar seus corpos de forma obsessiva, seja nas praias, ensaios de escolas de samba ou mesmo ocasiões impróprias, "sensualizando" até mesmo em missas de igreja, que o mercadão deixa como está.

Isso faz com que seus ídolos diversos cometam gafes ou deixem ocorrer transtornos diversos. A ex-BBB Maíra Cardi "sensualizando" num aeroporto, Alexandre Pires envolvido em clipe racista, MC Leonardo caindo em contradições quanto à "função educativa" do "funk carioca", os defensores de Waldick Soriano pedindo a "verdade histórica" exceto para este cantor brega, que sempre foi ultraconservador.

No caso de Waldick Soriano, chegou-se ao ponto de, misteriosamente, dois vídeos de uma entrevista com o cantor de "Eu Não Sou Cachorro, Não" para o TV Mulher de 1983, em que ele se mostrava machista e direitista, terem sido retirados do portal Globo Vídeos, provavelmente sob pressão do lobby de Paulo César Araújo e Patrícia Pillar, atriz da Globo que havia feito documentário e livro sobre o cantor.

Mas até mesmo tragédias ocorrem por conta disso. É o caso da banda gaúcha de tchê music, Gurizada Fandangueira, que havia feito um espetáculo pirotécnico sem a menor necessidade na boate Kiss, em Santa Maria, interior do Rio Grande do Sul.

Incapaz de se destacar pela música em si - não muito diferente de qualquer conjunto do gênero que, dizem, seria a versão original do "sertanejo universitário" - , o grupo sempre colocava como clímax em suas apresentações o espetáculo pirotécnico.

Isso contribuiu para o trágico incêndio que matou mais de 200 pessoas, ontem de madrugada, uma tragédia considerada uma das piores da história do Rio Grande do Sul. Um dos integrantes do grupo, o sanfoneiro Danilo Jaques, acabou perdendo a vida no incidente, agravado pelas irregularidades da boate, da negligência de seus donos e até do fato de que a casa noturna tinha alvará vencido.

Mas a banda deveria ter sabido que não se faz espetáculo pirotécnico em lugares fechados. Deveria ter poupado a "façanha" para apresentações em lugares abertos, de preferência sem edifícios à volta, evitando usar sinalizadores numa casa bastante fechada como aquela.

Embora seus integrantes alegassem que nunca havia dado errado o uso de sinalizadores, os técnicos desaconselham a realização de espetáculos pirotécnicos em lugares fechados, porque eles sempre oferecem risco contra a vida dos presentes.

Na manhã de hoje, o vocalista da banda, Marcelo de Jesus dos Santos, o segurança de palco da banda e o empresário Elissandro Sphor, conhecido como Kiko, tiveram prisão decretada. Sphor se encontra internado no Hospital Santa Lúcia, em Cruz Alta, por ter sido intoxicado com a fumaça do incêndio, mas deve ir diretamente para a prisão quando receber alta.

ENTRETENIMENTO: INDÚSTRIA E GANÂNCIA


Por Alexandre Figueiredo

Ontem, de madrugada, ocorreu uma das piores tragédias envolvendo jovens no Brasil, um incêndio na boate Kiss, em Santa Maria (RS), durante uma festa de universitários, que causou centenas de mortos e milhares de feridos.

A ocorrência se deu quando o vocalista de uma banda que se apresentava na ocasião fez um espetáculo pirotécnico, que teria causado o incêndio no local. Houve correria, gritos e empurrões, além do fato dos seguranças terem barrado as saídas, aumentando a tragédia. A boate tinha um alvará de segurança vencido.

A tragédia chegou a ter um número de mortos anunciado para 245, mas até a redação deste texto o número foi reduzido para 232. Mesmo assim, é um número muito grande. E a tragédia repercutiu na mídia estrangeira, principalmente em portais como os da rede norte-americana CNN e na inglesa BBC.

O fato atenta pela superestimação do entretenimento no Brasil, que movimenta uma indústria voraz que, de tão grande, atrai o surgimento de empresas sem a menor segurança. Empresas que funcionam sem alvará ou alvará vencido, que vivem sob a obsessão do lucro que fazem seus donos cometerem injustiças.

As portas foram fechadas e os seguranças teriam dificultado os frequentadores de saírem do local. Isso porque os donos queriam que os frequentadores entregassem as comandas, que são aqueles talões usados na escolha e na compra de refeições e bebidas num restaurante ou lanchonete.

MERCADO CRUEL

A ganância dos empresários nessa supervalorização do entretenimento faz com que haja um mercado cruel, que envolve casas noturnas funcionando de forma irregular - como a boate Kiss - , agências de famosos com regime escravista, como se vê no "forró eletrônico" e uma mídia que quer que a juventude veja a diversão como um fim em si mesmo, e não como um lazer para alegrar a alma.

A própria exploração midiática da ideia de diversão faz com que os jovens, nos últimos dez anos, sejam desaconselhados a ler e trabalhar sua inteligência. Impõe-se a diversão em excesso, não aquela que faz rimar lazer e prazer e que ameniza as tensões cotidianas, mas simplesmente o mero ato de sair para boates, eventos de entretenimento, para favorecer o lucro das empresas envolvidas.

A grande mídia até inventou suas gírias relacionadas, como a indigesta "balada", que não traz qualquer significado relevante nem tem serventia social, sendo apenas uma forma preguiçosa para a juventude evitar ter um vocabulário diversificado que inclua "festa", "jantar com os amigos", "agitação", "noitada", "boemia" etc. Até ficar parado comendo bobagem no restaurante virou "cair na balada".

Por isso criou-se mais uma demanda de pessoas empurradas para a curtição vazia e aleatória do que pessoas que realmente sabem se divertir, que possam ler livros, saber de História, Política e admirar intelectuais sérios sem deixar de dar risadas e brincar de forma saudável.

Nada disso. O que se vê são pessoas que sentem obsessão pelas gandaias, pelo narcisismo das noitadas cheias de bebedeira e drogas, pessoas que só querem brincar de "torpedos" nos telefones celulares, para dar flertes que não dão em relação amorosa alguma. Só querem sexo, drogas e diversão, como cantou Paulo Miklos na música "Diversão", dos Titãs.

Cria-se uma demanda de consumidores vorazes de entretenimento, e uma indústria cruel e exploradora. De um lado, jovens que precisam curtir a "noite" a qualquer preço, com todos os riscos que os expõem à violência sob todos os aspectos, até no trânsito. De outro, empresários que abrem mão da segurança, do respeito humano e outras medidas legais em nome do lucro.

A tragédia de Santa Maria foi um grande alerta para o risco que a obsessão pelo entretenimento pode causar, trazendo para sempre muita dor e sofrimento para várias famílias.

domingo, 27 de janeiro de 2013

REVISTA VEJA E BREGANEJO: TUDO A VER


 Por Alexandre Figueiredo

O breganejo, oficialmente conhecido como "sertanejo", é o estilo mais conservador do brega-popularesco, uma espécie de "Tea Party" dos bregas. Sua música extremamente piegas e melosa fala de frivolidades amorosas e letras pseudo-poéticas, dentro do estilo choroso inspirado na música de Waldick Soriano.

Deturpando a antiga música caipira com mal digeridas influências de country music, mariachis mexicanos e boleros, o breganejo existe desde meados dos anos 80, como um subproduto das imposições comerciais das gravadoras à música caipira, que queriam transformar a música rural brasileira num equivalente ao comercialíssimo pop romântico dos anos 70, conhecido principalmente através dos Bee Gees.

A revista Veja, na época do breganejo, já havia se convertido num periódico ultraconservador, que explorava de forma sensacionalista os óbitos de famosos e adotava posturas antipopulares como defender o fim do rádio AM e a privatização de estatais. Eram os anos 80 e a Veja não pegava pesado ainda no reacionarismo aberto de hoje, mas já incomodava por suas posturas ideológicas.

Hoje, quando o "sertanejo" passa a ter uma geração dita "universitária" - um rótulo que não tem qualquer serventia, até porque Luan Santana já era "universitário" desde adolescente - , a Veja entra no auge do reacionarismo, com a trolagem travestida de jornalismo de Reinaldo Azevedo e pelas reportagens mal-humoradas contra os movimentos sociais, além do pedantismo nos assuntos sobre saúde.


A aliança entre Veja e breganejo pode parecer acidental para alguns que possuem memória curta e acham que o brega-popularesco nada tem a ver com a grande mídia (visão que sabemos ser sem fundamento). Mas o brega-popularesco, como categoria de estilos musicais comerciais, sempre esteve aliado à mídia direitista, mesmo quando tentava fazer tráfico de influência na mídia de esquerda.

VEJA EXALTA A VIDA DE LUXO DE CHITÃOZINHO & XORORÓ, UMA DAS DUPLAS PSEUDO-SOFISTICADAS DO BREGANEJO.

A memória curta faz com que muitos pensem que a geração breganeja dos anos 90 é "música de raiz". Para os mais jovens, mediocridade antiga é "genialidade", mas isso não quer dizer que Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano e as tragicamente extintas duplas Leandro & Leonardo e João Paulo & Daniel (das quais sobraram os segundos integrantes de cada nome) sejam melhores que as duplas atuais.

Pelo contrário. Essas duplas só são "sofisticadas" pelo aparato feito em apresentações superproduzidas e por um banho de loja, de técnica e publicidade. Mas, musicalmente, continuam tão medíocres quanto as duplas e cantores solo recentes, como Michel Teló, Gusttavo Lima, João Lucas & Marcelo ou mesmo Victor & Léo e João Bosco & Vinícius, as duas duplas cujos fanáticos fãs apelam para a trolagem.

O breganejo mais antigo se beneficiou pelos tardios covers de MPB - com ênfase a um tendencioso parasitismo sobre o Clube da Esquina - , sobretudo no cancioneiro caipira, além de passarem a ter a seu serviço as equipes técnicas das grandes gravadoras (de arranjadores a artistas gráficos) ligados à MPB depois que esta promoveu um êxodo fonográfico para a Trama ou a Biscoito Fino.

Daí a enganação dos jovens que pensam que Chitãozinho & Xororó é "música caipira de verdade". A dupla sempre se comprometeu com um comercialismo musical desde o começo de carreira, mesmo fazendo arremedos de música caipira de raiz.

Ideologicamente conservadores, Chitãozinho & Xororó são ricos há muito tempo, sendo também latifundiários e aliados dos políticos ruralistas e do tucanato político, lembrando que o PSDB apoia e patrocina, com gosto, o famoso Festival de Barretos.

Mesmo as tentativas de empurrar o breganejo para o esquerdismo não eram muito ousadas. Tentou-se promover a dupla Zezé di Camargo & Luciano como uma dupla "marxista", só por causa de um dramalhão cinematográfico sobre sua origem "humilde" e o apoio eleitoral a Lula. Mas os dois também votaram no ruralista Ronaldo Caiado para o Congresso Nacional e um deles militou no reacionário "Cansei".

Mesmo a blindagem das esquerdas médias teleguiadas pela intelectualidade sorospositiva - sobretudo Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo - não conseguiu convencer. Além disso, as manobras tinham limites, já que não dava para associar o ruralista breganejo com o movimento dos sem-terra, abominados até mesmo pelos mais flexíveis barões do mercado do entretenimento "popular".

Quando muito, tais ideólogos evitavam cruzar as posturas anti-ruralistas supostamente defendidas e o apoio ao breganejo. Falava-se, em separado, "contra" os ruralistas e "a favor" dos sem-terra, e em defesa do breganejo (culturalmente alinhado com o coronelismo político), como se cultura não tivesse a ver com política.

Mas tem. Embora a reportagem da presente edição de Veja enfatize os "sertanejos universitários", ela sinaliza as alianças do coronelismo político, do direitismo midiático e do brega-popularesco, já que as distorções em torno da cultura popular, tendenciosamente manobradas pelo mercado e pela mídia, não podem ser confundidas com qualquer processo espontâneo de modernização da cultura do povo pobre.

Muito pelo contrário. As manobras mercantilistas assimilam elementos estrangeiros, não da forma espontânea de quem gosta de música estrangeira e assimila com naturalidade, mas por imposição do mercado sobre aquilo que está fazendo sucesso. E isso vale para qualquer tendência brega-popularesca, inclusive o tal "sertanejo".

Portanto, Veja não descansou de seu reacionarismo quando deu essa reportagem de capa sobre os "sertanejos". Ela apenas escolheu uma trilha sonora perfeita para sua linha editorial. Revista Veja e breganejos: tudo a ver.

GRANDE MÍDIA E INTELECTUALIDADE CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante no país está acima da mídia? Ela está acima dos cenários políticos dominantes? Não. Embora ela não se confunda, como força social, aos barões da mídia, governantes e empresários, ela demonstra estar associada e dependente das demais forças, numa clara aliança ideológica.

De Milton Moura (foto) a Roberto Albergaria na Bahia até Hermano Vianna em âmbito nacional, a intelectualidade se associa ao poder midiático legitimando a "cultura de massa" dominante e veiculada por esse mesmo poder. Criam até um discurso bastante apologético, assinando embaixo no que a mídia dominante decide que deva ser a "cultura popular".

Toda a intelectualidade que defende o brega-popularesco, que é essa suposta "cultura popular" da grande mídia, onde além dos citados vimos Mônica Neves Leme, Pedro Alexandre Sanches, Eugênio Arantes Raggi, José Flávio Júnior, Paulo César Araújo e muitos outros, tenta enxertar no seu ideário folclórico as tendências brega-popularescas tidas como "controversas".

É notória a tentativa de creditar como se fosse a mesma coisa uma pseudo-cultura rotulada como "popular" e que seja ditada pelo mercado e pelo poder midiático. A mitologia em torno do "popular" no Brasil faz com que mesmo o mais aberrante ídolo popularesco "fabricado" pelos escritórios empresariais seja tido como "novo folclore", apenas porque faz sucesso estrondoso.

Durante anos prevaleceu esse discurso, em que o mercadológico e o sociológico se confundiam, e o poder midiático era praticamente "inocentado" da culpa da hegemonia do "mau gosto", através de um grupo de intelectuais que tentava afirmar que a degradação sócio-cultural era um natural processo "evolutivo" das classes populares que a chamada sociedade organizada "não conseguia compreender".

ESCOLA DEMOTUCANA

Todos esses intelectuais acima citados basearam seus contextos sobre a apologia do "mau gosto popular" e a glamourização da pobreza - ambos os casos indicando uma deturpação intelectual da ideia de compreensão antropológica do "outro" - em conceitos claramente inspirados na principal corrente da Teoria da Dependência difundida pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A escola "demotucana", ou, sendo mais exato, "prototucana" da USP, que determinou os paradigmas neoliberais de estudo da cultura popular - sobretudo rompendo com métodos e ideias dos antigos ISEB e CPC da UNE - foi a formação ideológica dessa geração de intelectuais que passou a defender o comercialismo cultural dos anos 90 como se fosse o "novo folclore brasileiro".

Usando como pretexto as aventuras tropicalistas na apreciação do "mau gosto cultural" - lembrando que o próprio Caetano Veloso, simpatizante da música brega, é também admirador de FHC - , os intelectuais tentavam creditar o brega-popularesco como se fosse a "verve polêmica e incompreendida da cultura popular" e, no âmbito musical, tentaram legitimá-lo como "força rebelde da Música Popular Brasileira".

Entrando em diversas contradições, como por exemplo subestimar o caráter conservador de nomes diversos como Waldick Soriano, Odair José e Zezé di Camargo & Luciano, ou superestimando supostas rebeldias de Wando, Tati Quebra-Barraco, É O Tchan e Michel Teló, essa intelectualidade seria a comitiva pensante do PSDB, não fosse a derrota eleitoral de José Serra.

Se julgando "alheios" ao poder da grande mídia, esses intelectuais até chegaram a fazer proselitismo na mídia esquerdista, como é o caso de Pedro Sanches e Paulo César Araújo (este não pela presença profissional nessa mídia, mas pelo tráfico de influência sobre esquerdistas médios), mas seus pontos de vista sempre eram inteiramente apoiados pelo poder midiático.

Daí a semelhança das defesas ao brega-popularesco que Sanches fazia na imprensa esquerdista e o que os jornalões escreviam a respeito. Era a mesmíssima defesa. Ver que Gaby Amarantos foi defendida até pela ranzinza Veja derrubava de vez a tese de que o brega era discrminado pela mídia. E Mr. Catra era considerado "sem mídia" depois de aparecer várias vezes nos veículos das Organizações Globo.

POR QUE A RETÓRICA "PROGRESSISTA"?

Essa intelectualidade estava preparada para assumir um paradigma de cultura popular que simbolizasse a Era José Serra, no caso de uma vitória eleitoral deste. Só que Fernando Henrique Cardoso não conseguiu eleger seu sucessor e o PT, mesmo moderado e respaldado por aliados conservadores, ganhou as eleições e está há dez anos no poder.

Por uma questão de sobrevivência na busca da visibilidade, a intelectualidade dominante, mesmo com acesso na Rede Globo e na Folha de São Paulo e defendendo compreensões da cultura popular dignas de um Instituto Millenium, foi se alinhar teoricamente na "esquerda", buscando se protegerem através do pretexto mitológico da palavra "popular".

A retórica "progressista" era então um plano de emergência para intelectuais que passaram os anos 90 aprendendo conceitos neoliberais de compreensão da cultura popular e se alinharam no poderio político midiático dominantes.

Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, era cria do Projeto Folha de Otávio Frias Filho. Já Milton Moura e Roberto Albergaria eram ligados a uma ótica mercadológica que se alinhava a um modelo de "cultura de massa" patrocinado pelo poder midiático derivado do domínio político de Antônio Carlos Magalhães.

Por isso, ao longo desses dez anos, a intelectualidade cultural dominante tentou nos fazer crer que nada tinha a ver com a grande mídia. Mas tinha e continua tendo a ver. Seus pontos de vista, em diversos sentidos, são apoiados até mesmo por Nelson Motta e Otávio Frias Filho nos salões do Instituto Millenium, quanto mais nas telas da Globo ou nas páginas da Folha.

Mesmo as "divergências" do brega-popularesco são internas entre si e não em relação a mídia, como o aparente contraste entre um suposto tradicionalismo de Chitãozinho & Xororó e a suposta rebeldia de Tati Quebra-Barraco. No fundo, são dois lados de uma mesma moeda, onde valores morais "flexíveis" ou "tradicionais" apenas se alternam como pretexto para manter o mercado dominante da cafonice.

Mas nada que assuste os barões da grande mídia. Eles e o empresariado associado em diversos setores, das agências de entretenimento e promoção de eventos às redes de supermercado e de eletrodomésticos, sem excluir as multinacionais, gostam muito dos pontos de vista que a intelectualidade dominante faz do que eles entendem como "cultura popular".

Afinal, intelectuais também podem fazer apologia ao "deus mercado", e essa geração se organizou para isso. Só que, no Brasil, tudo é feito com desmentiras. Faz-se algo, e desmente que se está fazendo. A intelectualidade, assim, tentou parecer "progressista" e "vanguardista", mas ela estava na carona da retaguarda midiática e no mercantilismo mais escancarado.

Só tentaram criar um discurso "diferente", um tanto confuso mas altamente persuasivo. Todavia, ideias falam muito mais do que qualquer postura que possa desmentir o sentido ideológico das mesmas. Este é o problema de nossa intelectualidade.

sábado, 26 de janeiro de 2013

DESESPERADO, O BREGA QUER SE PASSAR POR "ALTERNATIVO"

GABY AMARANTOS, HARMONIA DO SAMBA, ODAIR JOSÉ E RAÇA NEGRA - Quando a música brega tenta se apropriar do mercado alternativo brasileiro.

Por Alexandre Figueiredo

A cantora de tecnobrega Gaby Amarantos fez sua primeira apelação ao classificar a nova música dos Strokes, "One Way Trigger", como "supertecnobrega", apenas porque a canção possui um acorde "bizarro" nos teclados.

O episódio é mais um que revela o quanto o brega tem de tendencioso e pretensioso. É quando seus ídolos, incapazes de permanecer no mainstream por muito tempo - evidentemente, por conta de sua música descartável - , tentam recuperar desesperadamente o estrelato se passando por "cult" ou "alternativos".

Com uma blindagem que inclui de barões da mídia a empresários do setor do entretenimento, o brega-popularesco volta e meia vive esses surtos pseudo-vanguardistas. Nos últimos dez anos, quando se intensificou a campanha midiática e intelectual em torno do brega-popularesco, isso tornou-se um complemento à imagem de pretensos "coitadinhos" que os ídolos promovem para recuperar o sucesso.

Tanto o brega do passado, como Odair José, quanto o brega "mais futurista", que é o "funk carioca", se deixaram valer dessa imagem pseudo-alternativa, para tentar evitar o ostracismo e conquistar reservas de mercado novas, ligadas à juventude das zonas urbanas. O "funk carioca" já havia feito sua retórica usando, falsamente, supostas referências que iam da Semana de Arte Moderna ao punk e pós-punk.

Odair chegou a ganhar um tributo de bandas "indie" - sobretudo aquelas que, incapazes de fazer sucesso, se autopromovem às custas da "provocação" dos covers bregas - , não bastasse a tendenciosa inclusão de suas músicas, anos antes, numa coletânea chamada Brazilian Nuggets, que fica a dever diante da coletânea Nuggets, de rock psicodélico, que a inspirou.

Afinal, pelo menos as "pepitas" do rock antigo, na coletânea organizada pelo músico de protopunk Lenny Kaye, não incluíam Pat Boone ou Bobby Darin (em que pese ele ter morrido de overdose de drogas), ídolos comportadinhos que ninguém se atreveu, pelo que se saiba, a chamá-los de "psicodélicos". Mas aqui Odair José é "psicodélico". Vá entender.

O Harmonia do Samba foi definido por uma revista baiana, a "Só", dedicada ao "pagodão" local, como um "grupo de pagode curtido por alternativos". Não é a primeira bobagem do gênero, já que outros grupos como Psirico e Saiddy Bamba haviam sido classificados pela imprensa local como underground.

Já o grupo Raça Negra, pioneiro do sambrega ou "pagode romântico" dos anos 90, também ganhou, a exemplo de Odair José, um tributo tendenciosamente alternativo, com direito a uma moça de aparência bem parecida àquelas que nos EUA normalmente curtem Sonic Youth e Mudhoney.

Quanto ao comentário "entusiasmado" de Gaby Amarantos, que só faltou botar a culpa em Julian Casablancas pelo surgimento do tecnobrega, ele foi equivocado. O portal de celebridades Zimbio foi mais feliz, comparando a nova música com o A-ha. Se bem que a comparação ainda é imprecisa, já que os Strokes não fazem tecnopop, mas new wave bem naquela linha da safra 1977-1982.

O BREGA É QUE COPIA REFERÊNCIAS, NÃO O CONTRÁRIO

A associação do brega à cultura alternativa torna-se uma farsa marqueteira e mercadológica, e a máscara cai quando se constata que o brega não passa de uma "colcha de retalhos", de um "Frankestein" constituído de "restos" de tendências musicais dispersamente assimiladas pelas emissoras de rádio "populares", mas, nunca nos esqueçamos, controladas por ricas oligarquias regionais.

Não é o alternativo que copia o brega, é o brega que copia tudo o que vê pela frente. Já se copiou até o som dos Byrds no brega setentista. O brega é que é retardatário, sempre é o último a saber dos modismos de temporada, podendo ser uma música orquestral de quinta categoria ou um pop semi-acústico da linha do Bread.

Portanto, não é a banda de Julian Casablancas que virou "supertecnobrega". O tecnobrega é que tenta imitar o som de fora. No Pará, imitou-se até a juju music, tipo de ritmo afro-caribenho, para se fazer a lambada. O "forró eletrônico" de Calcinha Preta e afins também se valeu pelo parasitismo da música estrangeira.

Se alguém ouvir "Ex Mai Love" de Gaby Amarantos e pegar carona no que ela disse sobre os Strokes, vai pensar que os Ventures e o Dick Dale eram tecnobregas. Uma coisa tão absurda quanto dizer que hambúrguer é comida de vegetariano porque tem alface e tomate no recheio.

Portanto, não valeu a comparação dos Strokes com o tecnobrega. Julian Casablancas passa longe disso. O que ele quer é trazer para as novas gerações aquele som imediatamente pós-punk que existiu na virada dos anos 70 para os 80, que ia do Television ao Wire, do Pere Ubu aos B-52's, do Devo ao Teardrop Explodes. Sem mais piadinhas, Gaby Amarantos!!

PSDB E SUA PROPAGANDA


Por Alexandre Figueiredo

Em que pesem as críticas que a sociedade em geral faz ao governo Dilma Rousseff e a certos pontos de vista pessimistas em relação ao Brasil - como a sua situação desvantajosa entre os BRICs (grupo de países emergentes que inclui também Rússia, Índia e China - , o artigo de Sérgio Guerra, presidente nacional do PSDB, foi de um reacionarismo feroz, como se Sérgio fosse um colunista de Veja.

É verdade que o governo Dilma não é aquela maravilha política e que o PT está longe de merecer uma avaliação necessariamente otimista. Mas foi acertada a medida de redução da tarifa de energia elétrica anunciada pela presidenta, porque, embora tenha o consumismo como efeito colateral, irá favorecer a produção industrial com menos custos.

Usando argumentos "corretos" bem ao estilo de Reinaldo Azevedo, Sérgio Guerra, em seu artigo, mais parece um propagandista maior do que o que ele acusa a presidenta de ter feito, no seu pronunciamento. Sérgio cobrou de Dilma que "encare o problema (do PIB, que encerrou 2012 em baixa) de frente", mas se algum tucano estivesse no poder a hesitação seria até pior.

Sérgio tenta falar como se fosse um político em propaganda. Algumas argumentações são corretas, como as críticas à transposição do Rio São Francisco, mas elas não integram a agenda ideológica de tucanos nem de petistas. O artigo tenta parecer coerente, mas é apenas um amontoado de palavrinhas bem apresentadas que mostram que o PSDB sabe cobrar bem aquilo que não seria capaz de fazer, se estivesse no poder.

Daí os governantes paulistas, como Geraldo Alckmin e, até pouco tempo atrás, José Serra, que fizeram (e Alckmin continua fazendo) administrações impopulares em total desprezo ao interesse público. Na presidência, Geraldo Alckmin e José Serra colocariam o país na quebradeira, como fez Fernando Henrique Cardoso depois do relativo sucesso do Plano Real.

Para quem quer ler o artigo de Sérgio Guerra, até para saber o tom de sua propaganda, pode ir a este linque

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A OFENSA DE SÉRGIO CABRAL FILHO AOS POVOS INDÍGENAS


Por Alexandre Figueiredo

Nem parece que o governador do Estado do Rio de Janeiro é filho de um historiador, por sinal bastante zeloso com o patrimônio cultural brasileiro. Ignorando pareceres técnicos do IPHAN, o governador fluminense Sérgio Cabral Filho enviou nota definindo a Aldeia Maracanã como uma "invasão".

O comunicado desmentiu declaração da ministra da Cultura, Marta Suplicy, de que o IPHAN havia recomendado ao governo fluminense o tombamento do entorno do antigo Museu do Índio, onde se situa a Aldeia Maracanã.

A declaração ofende os movimentos indígenas, porque a ocupação do antigo museu teve como objetivo chamar a atenção para o abandono do prédio, inutilizado desde 1979, reivindicando a utilização do mesmo para um centro de valorização da cultura indígena, proposta já bem definida pelos chefes indígenas que vivem no local.

A nota de Cabral Filho diz que o governo fluminense "tem trabalhado com as aldeias indígenas do nosso estado de forma respeitosa e parceira". Se enviar tropas de choque para forçar a expulsão dos índios da Aldeia Maracanã é "forma respeitosa e parceira", é algo que não dá para entender.

Sérgio Cabral Filho quer fazer crer que há "distorção" no assunto das aldeias indígenas e insiste na tese de que a Aldeia Maracanã é uma "invasão". Tenta argumentar sua "consideração" pelo IPHAN apenas reconhecendo que o estádio do Maracanã é tombado, o que é uma verdade, mas defende a demolição dos demais prédios à sua volta.

Enquanto isso, artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso, Camila Pitanga, Letícia Sabatella, Milton Nascimento e Tereza Seiblitz se manifestaram pela preservação do antigo Museu do Índio e seu terreno ao redor.

Chico Buarque também atacou o projeto de demolição do Estádio Célio de Barros, do Parque Júlio Delamare e da Escola Municipal Friedenreich. Já Milton Nascimento lamenta que muito pouca coisa é feita pela preservação da memória indígena brasileira.

NOVO "PINHEIRINHO"

A Aldeia Maracanã cada vez mais se configura como um "novo Pinheirinho", em alusão ao bairro popular de São José dos Campos (SP) demolido pelo governador paulista Geraldo Alckmin, para saldar as dívidas do empresário Naji Nahas e construir um novo parque industrial no lugar.

Alckmin, ao destruir o bairro burlando processos judiciais não concluídos e tomando de surpresa a população numa manhã de domingo, ainda indenizou precariamente algumas famílias e não cumpriu promessas de moradias para os desalojados. Várias famílias tiveram que montar casas em áreas de risco por falta de um lugar para se instalarem.

O mesmo pode ocorrer com a Aldeia Maracanã, a ser demolida junto com os demais prédios - os espaços esportivos e a escola, acima citados - para a ampliação da saída do Estádio do Maracanã e a construção de um centro comercial e um amplo estacionamento.

A demagogia de Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes, capazes de burlar a lei e ofender até mesmo os movimentos sócio-culturais para fazer prevalecer seus interesses, a cada dia mostram que os dois são contrários ao interesse público.

A pretexto de prepararem para a Copa do Mundo e as Olimpíadas, eles fizeram várias medidas contrárias ao interesse público, visando apenas interesses turísticos e empresariais. E agora, em desrespeito às populações indígenas, Cabral Filho e Paes tentam enfrentar, praticamente sozinhos, instituições, advogados, artistas e movimentos sociais que lutam pela preservação da Aldeia Maracanã.

A "FESTA DO CHÁ" DE MYRIAM RIOS


Por Alexandre Figueiredo

A deputada estadual Myriam Rios (ou Myrian Rios)(PSD-RJ) teve sua lei sancionada pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, há poucos dias. A Lei Myriam Rios, como é conhecida, pretende resgatar os "valores morais, éticos e espirituais" dentro dos padrões moralistas que, nos EUA, encontram similar em organizações como o Tea Party, da direita mais conservadora.

Pois a deputada estadual Myriam Rios é a mesma que foi modelo e atriz, havia sido mulher de Roberto Carlos, mas só foi mãe através de um namoro que teve com o ator André Gonçalves. Uma das mulheres mais desejadas do país nos anos 70 - eu mesmo, confesso, tinha uma queda por ela, embora minha colega de aniversário Angelina Muniz seja minha favorita dessa geração - , ela havia até posado nua antes.

Hoje, no entanto, ela, atualmente solteira, virou uma militante religiosa extremista. Achou que, criando uma lei, iria "sanear" a sociedade dos desvios morais. Só que a sociedade é muito complexa e o que Myriam quer, na prática, não é promover o equilíbrio moral e espiritual no país caótico de hoje (embora a lei seja do Estado do RJ), mas retroceder a sociedade à volta de um moralismo há muito superado e ineficaz.

Nas redes sociais, o que se viu foi uma reação de protesto quase majoritário. E, na mídia, esquerda e direita também reagiram com protesto. Nem Guilherme Fiúza, do Instituto Millenium, aprovou a lei, achando-a "patética e inócua". Se na mídia de direita as reações seguem esse teor, imagine então na mídia esquerdista, ligada aos movimentos sociais?

Muitos internautas lembraram não só o passado sensual da atriz, sobretudo na foto acima, de um disco de vinil do conjunto Os Motokas, de 1979, mas até mesmo as fotos da atriz nua nas edições da revista Ele Ela. Uma montagem com a capa da revista Ele Ela na Internet havia dito, jocosamente: "A moral, os bons costumes e a Myrian Rios mandam beijos".

E, se hoje ela condena a pedofilia e o homossexualismo, no passado ela foi casada com um homem bem mais velho - o cantor Roberto Carlos - e namorou o ator André Gonçalves, famoso por ter interpretado vários personagens homossexuais e tendo sofrido até violência por causa disso.

Entre seus aliados, porém, a reação à Lei Myriam Rios foi "satisfatória". Myriam havia escrito, na sua conta do Twitter: “A repercussão do meu projeto de lei só confirmou que o respeito e amor ao próximo são valores de ouro! Viva a vida!”.

Em todo caso, vale conferir o texto da Lei 6.394, de 16 de janeiro de 2013, como é juridicamente conhecida essa "Lei dos Bons Costumes":

Lei 6394/13 | Lei nº 6394, de 16 de janeiro de 2013 do Rio de janeiro

INSTITUI O "PROGRAMA DE RESGATE DE VALORES MORAIS, SOCIAIS, ÉTICOS E ESPIRITUAIS" NO AMBITO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

O GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Faço saber que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro decreta e eu sanciono a seguinte Lei:

Art. 1º Fica instituído o "Programa de Resgate de Valores Morais, Sociais, Éticos e Espirituais" no âmbito do Estado Rio de Janeiro.

Parágrafo único. O Programa deverá envolver diretamente a comunidade escolar, a família, lideranças comunitárias, empresas públicas e privadas, meios de comunicação, autoridades locais e estaduais e as organizações não governamentais e comunidades religiosas, por meio de atividades culturais, esportivas, literárias, mídia, entre outras, que visem a reflexão sobre a necessidade da revisão sobre os valores morais, sociais, éticos e espirituais

Art. 2º O Poder Executivo deverá firmar convênios e parcerias articuladas e significativas, com prefeituras municipais e sociedade civil, no sentido de possibilitar a execução do cumprimento ao disposto nesta Lei, com os seguintes objetivos:

I - promover o resgate da cidadania;

II - fortalecer as relações humanas;

III - valorizar a família, a escola e a comunidade como um todo.

Parágrafo único. Serão desenvolvidas ações essenciais que contribuam para uma convivência saudável entre pessoas, estabelecendo relações de confiança e respeito mutuo, alicerçada em valores éticos, morais, sociais, afetivos e espirituais, como instrumento capaz de prevenir e combater diversas formas de violência.

Art. 3º O programa disposto no caput do Artigo 1º terá como órgão gestor a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos.

Art. 4º As despesas decorrentes da execução desta Lei correrão por conta de dotações orçamentárias próprias, suplementadas, se necessário.

Art. 5º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.

Rio de Janeiro, 16 de janeiro de 2013.

SÉRGIO CABRAL

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

MORRE NO RIO O ATOR E DIRETOR ZÓZIMO BULBUL


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Um dos mais prestigiados diretores e atores brasileiros e dedicado ativista negro no país, Zózimo Bulbul, faleceu hoje de parada cardíaca, perdendo a luta contra um câncer. De notável trajetória, ele participou como ator da produção cepecista Cinco Vezes Favela, além de ter feito par romântico com Leila Diniz e tendo sido o primeiro modelo negro de uma grife de alta costura. Era também ligado aos movimentos em prol da cultura negra, tendo sido um de seus mais dedicados ativistas.

Portanto, é uma grande falta que se fará para a cultura brasileira, com a perda de um artista batalhador como poucos, que foi Zózimo.

Morre no Rio o ator e diretor Zózimo Bulbul

Do Portal do Ministério da Cultura

O ator e cineasta Zózimo Bulbul morreu depois de sofrer uma parada cardíaca, na manhã desta quinta-feira. O ator, que sofria de câncer há anos, estava em casa, em Botafogo. Na TV, ele foi o primeiro protagonista negro de uma novela brasileira, fazendo par romântico com Leila Diniz em Vidas em Conflito, TV Excelsior, 1969. Foi ainda o primeiro manequim negro masculino de uma grife de alta costura. Ator e diretor de mais de 30 filmes, 50 anos de carreira, estreou no cinema com "Cinco vezes favela" na década de 60 e trabalhou com a geração de diretores do Cinema Novo como Glauber Rocha.

No fim de 2012, organizou a 6ª edição do Encontro de Cinema Negro Brasil, África & Américas. 

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Morre o ator e cineasta Zózimo Bulbul, aos 75 anos

Do Portal Geledés

O ator e cineasta Zózimo Bulbul morreu nesta quinta-feira aos 75 anos em sua casa em Botafogo. Ele sofria de câncer havia alguns anos e não resistiu a uma parada cardíaca pela manhã. Ator e diretor de mais de 30 filmes, 50 anos de carreira, estreou no cinema com "Cinco vezes favela" na década de 60 e trabalhou com ícones do Cinema Novo como Glauber Rocha.

Um dos maiores expoentes afro-brasileiros do Cinema Novo nas décadas de 60 e 70, Zózimo Bulbul construiu sua trajetória no cinema através da história do seu povo no Brasil. Bulbul atuou também em clássicos como Terra em Transe (Glauber Rocha), Compasso de Espera (Antunes Filho) e, mais recentemente, em Filhas do Vento (Joel Zito Araújo), entre outros.

Em 1974, realizou seu primeiro trabalho, Alma no Olho. O título foi inspirado no livro do líder dos Panteras Negras Eldridge Cleaver,Alma no Exílio. O livro de Cleaver foi publicado em 1968 nos EUA e no Brasil em 1971. Tornou-se leitura corrente entre os intelectuais negros brasileiros, quase todos, naquele momento, antenados com os movimentos políticos que ocorriam na África e nos EUA. Aliás, nesse sentido, reflete totalmente o ideário da negritude afro-americana na história e na trilha sonora: a música “Kulu Se Mama”, de Julian Lewis, executada por John Coltrane entra em "off", enquanto o ator (Bulbul), através de pantomimas, conta a história da diáspora negra, desde a África até os dias atuais. No final o personagem, vestido de roupa, africana quebra a corrente branca que o prende pelos punhos. A mensagem não poderia ser mais política: a liberdade definitiva só virá com a assunção da negritude cujo símbolo é a África.

Dedicado ao saxofonista John Coltrane, Alma no Olho é um dos poucos filmes (talvez único) que absorveu na época as influências do protesto negro norte-americano. Embora a parcela mais ativa dos militantes negros brasileiros já tivesse construído uma agenda política informada do ideário da negritude pelo menos desde o final da década de 60. "No cinema vivia-se ainda a ressaca do golpe militar entre a goiabice de intelectuais de esquerda em crise e o desbunde tropicalista" (dogma, p. 86). A reflexão sobre a experiência dos negros urbanos e de suas lutas políticas nos filmes brasileiros é praticamente ausente. Nesse sentido, Alma no Olho é absolutamente moderno e aponta para uma representação do negro descolada do culturalismo nacionalista quase sempre elitista e conservador.

Em seguida, Bulbul dirige com Vera de Figueiredo o curta Artesanato do Samba sobre os preparativos do carnaval carioca. Ainda em 1974, sentindo-se acuado pela repressão desencadeada com o golpe militar, Bulbul parte para um auto-exílio europeu retornando somente em 1977. Em 1980, dirige seu terceiro curta-metragem, Dia de Alforria?, sobre a vida do sambista e fundador da escola de samba Império Serrano, Anicéto do Império. O filme é de uma reverência completa com o velho sambista, representante da cultura negra carioca. Reflete, assim, a postura política da intelectualidade negra que marcou o final da década de 70 e início da década de 80 desde a fundação do Movimento Negro Unificado (MNU). Nos letreiros iniciais de Dia de Alforria? lê-se: "Dedicado a Zumbi dos Palmares e todos os quilombolas mortos e vivos".

A afirmação da cultura e da história do negro foi fundamental para o ativismo negro desde o final da década de 80. É nessa chave que Bulbul realiza o seu primeiro longa metragem, o documentário Abolição, lançado em 1988, durante as comemorações do centenário da Abolição.

Ousado, o filme pretende contar a história do negro desde a abolição. O que, aliás, o faz, a partir de entrevistas com artistas, ativistas, historiadores, políticos e intelectuais negros. O dado político percorre todo o filme na base da denúncia de que nada mudou desde a abolição até agora. No entanto, há um discurso mais interno, que se manifesta quando mostra uma equipe de cinema formada por negros montando os sets e filmando. "Uma mudança e tanto! O que vemos está mediado pelo olhar dessa equipe. Assim, não se trata apenas de contar a história do negro, mas de um ponto de vista negro sobre a história. Nesse sentido Abolição (1988) é um programa ampliado de Alma no Olho (1974).

Em 1997, participou do Fespaco – Festival Pan-Africano de Cinema de Ouagadodou, considerado por ele “A Cannes Africana”, para o qual presta uma homenagem neste encontro no Brasil. “Lá, descobri que o africano que preserva a cultura oral ama o cinema por ser um ato social, de integração, diferente da literatura, que é mais individual. Os cineastas africanos são verdadeiros Griots, sábios que contam histórias para a população. E assim nós fazemos aqui respeitando o nosso tempo, nossas cores e a nossa música”, diz ele, que acaba de completar 70 anos realizando através desse Encontro de Cinema um sonho de muito tempo: juntar a África e o Brasil através das suas culturas.

Em 2001, Bulbul filma Pequena África. Utilizando como mote a descoberta de um cemitério de escravos, volta-se para os seus temas preferidos: a história do negro e do samba cariocas. Atualmente Bulbul realiza vídeos e prepara a produção do seu segundo longa metragem.

ONG DENUNCIA CONCENTRAÇÃO DE MÍDIA NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

A organização não-govermanental Repórteres Sem Fronteiras denunciou a situação de concentração de poder midiático existente no Brasil. Definindo o quadro brasileiro como "país dos 30 Berlusconi", a ONG alerta para o perigo que sofre a independência da informação, através do poder concentrado dos grandes grupos de mídia no Brasil.

A ONG ainda considera a situação imprópria para um país de grande dimensão territorial e imensa variedade populacional. "O Brasil apresenta um nível de concentração de mídia que contrasta totalmente com o potencial de seu território e a extrema diversidade de sua sociedade civil", afirma seu relatório.

A denúncia se relaciona não apenas aos grandes grupos midiáticos de caráter nacional, mas também à concentração de grupos de mídia regionais, principalmente em lugares onde ocorre assassinato de jornalistas e blogueiros. Em 2012, segundo a organização, 11 jornalistas brasileiros foram assassinados.

Segundo a denúncia, há a figura típica do grande magnata da Comunicação, cujo poder econômico depende de sua associação aos grandes centros de poder político e econômico no Brasil. Em âmbito nacional, segundo a RSF, dez grandes oligarquias, de origem familiar, controlam a Comunicação de Massa no país.

A denúncia também inclui a censura na Internet, citando o caso da prisão do diretor do Google Brasil, Fábio José Silva Coelho, por não ter retirado do YouTube um vídeo criticando o candidato a prefeito de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, Alcides Bernal (PP).

No Facebook, uma comunidade intitulada "Fora Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho" foi censurada e obrigada a mudar de nome, por conta de uma ação movida em nome do governador fluminense e do prefeito carioca.

A organização Repórteres Sem Fronteiras recomenda ao Brasil que, para reequilibrar o cenário da mídia brasileira, seja feita uma reformulação da legislação sobre propriedade nos meios de comunicação e o processo de financiamento de publicidade governamental na mídia.

Além disso, a recomendação inclui também medidas relacionadas a frequências audiovisuais e no que se refere às sanções referentes às mensagens veiculadas na Internet, neste caso com medidas que evitem dar punições severas ao simples protesto político-institucional.

MULHERES DESEJADAS E A BAIXA AUTOESTIMA DAS MUSAS "POPULARES"


Por Alexandre Figueiredo

A foto acima é ilustrativa. A jovem atriz Chloe Moretz, do filme de aventuras Kick Ass, num momento de descontração com um amigo, é agraciada por um suposto pedido de noivado que, depois, se mostrou uma animada brincadeira.

No entanto, o gesto, que a imprensa internacional lançou como uma "pegadinha", mostra o quanto a atriz adolescente, que surpreende pela beleza, sensualidade, talento e até pelas boas entrevistas, é bastante desejada pelos homens.

A brincadeira em questão pode ser um gesto de amigos, mas o fato de Chloe ser uma das maiores musas de sua geração nada tem de brincadeira. Repetindo o impacto que a atriz da franquia Harry Potter, Emma Watson, causou anos atrás - e que hoje é confirmado pelo seu status de grande musa da atriz franco-inglesa - , Chloe Grace Moretz mostra uma nova situação pouco percebida no Brasil.

Afinal, atrizes teen se juntam a outras atrizes da casa dos 20, 30 e 40 anos e que fazem parte do imaginário masculino junto a modelos de grife e jornalistas. A cada dia os homens se mostram cada vez mais identificados com mulheres que são muito mais do que corpos bonitos, que são capazes de mostrar talento e algum mínimo de inteligência e sensatez.

O mais estarrecedor é que uma Chloe Moretz é capaz de dar entrevistas que uma paniquete com mais de 25 anos ou uma Miss Bumbum de 23 não são capazes de fazer. A estupidez com que muitas musas "populares" seguem suas carreiras constrange muitos homens, que acaba fazendo com que as ditas "mais desejadas" no Brasil sejam cada vez menos desejadas.

MUSAS "POPULARES" NÃO SABEM O QUE QUEREM

Se as mulheres que não apelam sempre para a exibição corporal, só o fazendo quando necessário, estão sendo cada vez mais cobiçadas pelos homens e possuem uma vida amorosa relativamente movimentada - a maioria engatando namoro atrás de outro, mas muitas outras já são casadas e outra,s, poucas, são solteiras por opção ou situação - , as musas ditas "populares" acabam perdendo cartaz ano após ano.

Recentemente, a "musa" Solange Gomes, remanescente das "musas da Banheira do Gugu" que tenta estar em evidência a todo custo, apareceu num aeroporto usando roupas apertadas, apesar do olhar discreto sob óculos escuros.

Isso porque o traje "sensual" ostentava demais o corpo siliconado e anabolizado da moça, de 39 anos, que insiste em bancar a "gostosa" a todo preço, mas que a faz desejável apenas num universo machista de estivadores, pitboys, jogadores de futebol e dirigentes esportivos e carnavalescos, para não dizer os bicheiros.

Em outros tempos, "musas" desse porte eram ligadas afetivamente a esse universo. Mas, numa mudança de contextos sociais pela mídia popularesca, elas foram entregues a um celibato aparentemente irremediável, mas em certos casos falso e na maioria dos casos tendencioso e forçado, sobretudo para vender revistas e garantir o sucesso das "musas" em desfiles carnavalescos.

Mesmo sendo referência a um público-alvo de uma mídia tendenciosamente "popular", essas "musas" acabam até mesmo frustrando as expectativas, quando levam o celibato ao extremo. Por isso elas evitam até se envolver em paqueras, já que a recusa delas aos pretendentes acaba piorando sua situação, já que elas, no âmbito da vida amorosa, não sabem mais o que querem dos homens.

Elas não se envolvem com homens robustos, com medo de serem agredidas. Não se envolvem com homens mais velhos, com medo de serem vistas como interesseiras. Não se envolvem com estivadores, porque eles são grosseiros. Não se envolvem com homens mais atraentes, por verem neles possíveis infiéis. Não se envolvem com homens famosos, nem com empresários, nem com ex-BBBs etc.

Elas falam que desejam ter "namorados legais", mas dificilmente atrairão um, porque os homens com uma personalidade mais diferenciada não iriam mesmo se envolver com mulheres nada diferenciadas que são as "musas populares", que poderiam cometer gafes piores se forem para os ambientes sociais desses homens. Nem os nerds querem namorar "musas" assim, até porque a inteligência deles é muito complexa para elas.

DESCULPAS

A mídia machista "popular" tenta empurrar com a barriga essa crise das "boazudas" consequente de sua baixa autoestima. Tentam dar a falsa impressão de que o "celibato" delas é fruto de uma "liberdade de decisão" sobre a vida amorosa e sexual, dentro daquela mesma perspectiva de "liberdade de expressão" que já vemos numa Miriam Leitão e Eliane Cantanhede.

No entanto, em nome do "popular" vale qualquer "urubologia". Para a intelectualidade dominante, não há pecado do lado de fora das mansões e condomínios de luxo. E os pretextos de "liberdade sexual" e até de um suposto "feminismo" amenizam o caráter machista da vulgaridade feminina brasileira.

Essas desculpas tentam assim diminuir os efeitos negativos da vulgaridade, já criticada nos círculos intelectuais verdadeiros, aqueles que não sentem complacência com o "estabelecido" nem se iludem com qualquer aberração lançada sob o rótulo de "popular".

Afinal, a crise dessas mulheres que só vivem para serem objetos sexuais é imensa. E elas nem sequer pensam em arrumar algum futuro ao lado de parceiros. Acham que os homens não prestam, querem outros diferenciados, mas enquanto isso vivem de mostrar suas "formas físicas" na mídia. Processo que está se cansando, porque elas não têm diferencial.

E é por isso que elas perdem terreno até mesmo para musas adolescentes como Chloe Moretz. E as "boazudas" nem se intimidam com isso. Preferem causar polêmica com gafes e levar má fama do que tomar qualquer cautela ou discrição na vida. Retrógradas, as "boazudas" ou "popozudas" ainda pensam ser "modernas". Quantos equívocos...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

UOL 89 FM: MITOS E PROBLEMAS


Por Alexandre Figueiredo

Com tanta rádio de rock para voltar ao ar, voltou logo a 89 FM, uma rádio que foi marcada mais pelos erros do que pelos acertos, embora para as gerações recentes vários desses erros sejam vistos como "erros menores" ou até como "acertos".

Rebatizada de UOL 89 FM, a 89 voltou mais como um mito do que como uma rádio dotada de verdadeiras qualidades. Eu pude fazer algumas audições na programação normal da rádio e posso assegurar, com a experiência que eu tenho como pesquisador de rádios de rock, que a 89 está muito abaixo até mesmo do mínimo que se pode esperar de uma rádio de rock decente.

É certo que a 89 eliminou alguns exageros, como a ênfase nos programas humorísticos, nas promoções mirabolantes e no recebimento de celebridades qualquer nota, além de debates esportivos quando nem todo mundo curte futebol, sobretudo o público de rock (ou mesmo de "pop-rock"), e numa cidade como São Paulo, onde cada vez mais surgem pessoas questionando o fanatismo futebolístico.

LOCUÇÃO INCOMPATÍVEL COM O PERFIL DE RÁDIO DE ROCK

No entanto, isso não significa que a 89 voltou acertada. Ela eliminou os defeitos mais extremos, mas o essencial desses defeitos ainda continua. Afinal, reduzir os defeitos não é o mesmo que somar qualidades e o que se vê na programação da 89 está muito abaixo do que sugere a sua mitologia.

Admite-se que a 89 FM tornou-se um mito. A rádio nunca teve uma performance comparável com uma Fluminense FM nos anos 80, pois mesmo as melhores fases da 89 deixavam a desejar para os parâmetros básicos de uma rádio de rock.

A soma de um bom marketing, sobretudo pelo logotipo sedutor criado por Washington Olivetto (com uma fonte gráfica impactuante e a ênfase na expressão "A Rádio Rock"), e um departamento comercial impecável, além de toda a blindagem da grande mídia e das boas relações com os anunciantes e promotores de eventos, é que fizeram a diferença no carisma da 89.

Mas a emissora cometeu erros constrangedores demais para os parâmetros mínimos de radialismo rock. Adotou um estilo de locução pop que, já na dicção, é incompatível com o perfil de rádio de rock, que exige uma locução sóbria e até mesmo um timbre e um vocabulário que sejam diferentes ao das rádios pop convencionais.

Pois a 89 FM fez justamente o contrário, pois, desde 1988, passou a adotar um padrão de locução sempre copiado de uma rádio pop do momento. Estratégias de atingir um público não-roqueiro? Talvez. Mas esse mal tornou-se um vírus perigoso, um câncer que chegou a tirar a 89 FM do segmento roqueiro em 2006, sobretudo pelas pressões que o radialismo rock exercia do exterior, via Internet.

Os paradigmas de locução adotados foram, primeiro, a da antiga Rádio Cidade (quando era uma rede assumidamente pop) e, mais recentemente, o da Jovem Pan 2, cuja linguagem é copiada pela 89 até mesmo nas vinhetas.

Para piorar, o próprio coordenador da 89, João Carlos Godas, o Tatola, adota esse estilo "Jovem Pan 2" de locução que desmoraliza qualquer postura que ele faça contra o pop dançante (que ele apelida de "putz-putz"). Afinal, é das rádios de pop dançante que ele inspira seu estilo de locução. E o pior é que ele foi vocalista da banda Não Religião, que se dizia "punk rock" (embora não fosse lá grande coisa no gênero).

Também pesquiso rádios como Mix FM e a própria Jovem Pan 2 e há dezenas de locutores que falam igualzinho ao Tatola. O texto "roqueiro" nem de longe faz a menor diferença, porque a linguagem e mentalidade continua sendo sempre igual.

REJEIÇÃO AO ROCK CLÁSSICO

Um aspecto grave da UOL 89 FM é o repertório, restrito ao hit-parade aparentemente associado ao rock. Neste sentido, o cardápio musical segue a mesma metodologia das rádios de pop adulto, substituindo a repetição extrema de 60 sucessos do momento com uma alternância permanente de sucessos e músicas de trabalho com flash back na programação diária, o que diversifica um pouquinho o repertório.

No entanto, as bandas tocadas se limitam sempre aos "grandes sucessos". E mesmo no repertório "mais diversificado", as músicas já começam a repetir, como no caso do Oasis, com a música "Wonderwall". Não há liberdade de escolha de repertório, e além disso as restrições chegam ao nível do constrangimento.

Afinal, até agora a UOL 89 não percebeu que o Oasis acabou e que a última formação do grupo se dividiu entre a carreira solo de Noel Gallagher e o novo grupo criado pelo restante da banda, o Beady Eye, todos com repertório próprio e uma considerável trajetória de apresentações ao vivo.

O preconceito ao rock mais antigo da UOL 89 e seus ouvintes também não procede, porque, na postura assumida no mercado, a emissora se define não como uma emissora de "rock contemporâneo", mas como uma emissora de "rock em geral".

Isso significa que, para o anunciante que vende seu produto na UOL 89 FM, o compromisso presumido é que a emissora toque tudo o que for de rock, inclusive o mais antigo. Pelo menos na sua postura publicitária, a emissora afirma tocar "todas as tendências do rock", e não apenas o rock "mais novinho".

CONTINUA "COMENDO POEIRA"

A performance da UOL 89 FM só se tornou bem sucedida porque o Brasil, desde os anos 90, passou por uma degradação midiática que fez o país, do Oiapoque ao Chuí, se tornar um tanto cafona e provinciano. Se os "heróis" brasileiros de hoje são Luciano Huck, Thiaguinho, Solange Gomes, Michel Teló e outros e um MC Leonardo se acha ao luxo de posar de militante, a UOL 89 parece "genial" neste contexto.

Só que a UOL 89 ainda apresenta problemas graves se comparada às antigas rádios de rock dos anos 80, como a Fluminense FM de Niterói e a antiga 97 FM ou 97 Rock, esta última tendo chegado a concorrer com a 89.

Isso porque essas rádios adotavam uma linguagem que diferia, e muito, da mentalidade abobalhada das rádios de pop dançante, e tocavam um repertório musical que fugia e muito das limitações do hit-parade, a mesmo os espaços de humor valorizavam o humor e não sucumbiam ao besteirol mais patético, desses onde gritos e falsetes prevaleciam sobre piadas sem graça.

Neste caso, a UOL 89 FM se torna até mais fraca do que mesmo a fase 1985-1986 da Fluminense FM, já que a Fluminense, nessa época, já nem estava no auge, mas continuava tendo coragem de colocar até mesmo raridades e bandas inéditas no Brasil na programação normal. Até hoje, grupos como Weather Prophets e Rose of Avalanche nunca foram lançados no Brasil e já rolaram no cardápio diário da Flu FM.

Já a UOL 89, como foi de praxe na 89, só tocava o óbvio do óbvio. E, do contrário que seu mito sugere, a rádio nunca foi de rolar adoidado Frank Zappa, Violent Femmes, Fellini, Violeta de Outono e Les Rita Mitsouko na programação diária. Isso falando em nomes nacionais ou estrangeiros com discos lançados aqui.

Mesmo nos momentos mais "alternativos", o carro-chefe da UOL 89 FM foi apenas através de nomes com Eurythmics, Titãs, Kid Abelha e U2, nos anos 80, e o rock de Seattle e o funk metal, no começo dos anos 90. Mas, no país culturalmente indigente de hoje, até o "sucesso do sucesso" parece "alternativo".

Quanto às rádios de rock do exterior, a UOL 89 FM então tem sua situação piorada, "comendo a poeira" do que as rádios de fora rolam. Afinal, o que a UOL 89 vende como "novidade" e como "alternativo" é risível, onde até mesmo um inexpressivo Smash Mouth tem maior ênfase. E mesmo nomes como Black Keys, Muse e Artic Monkeys já são considerados veteranos e mainstream lá fora.

E isso quando a UOL 89 não vende como "novo" bandas clones de Limp Biskit e Evanescence que são lançadas nas suas sessões de "novidades". E já existe um programa de rock brasileiro, o "Temos Vagas", que pelo jeito, irá priorizar clones de Raimundos e CPM 22 ou o que vier na moda. Nada que acrescente muito à mesmice que fez a cultura rock perder espaço até para o brega-popularesco mais rasteiro.

CONCLUSÃO

Só mesmo um país provinciano como o Brasil, que supervaloriza até mesmo as inutilidades do Big Brother Brasil e vive no atoleiro da mediocridade cultural para achar a UOL 89 FM o máximo. Não bastasse o controle acionário da ultraconservadora Folha de São Paulo - que, no auge da 89, era tido com sinônimo de "imprensa moderna", mas hoje soa antiquada - , a emissora soa datada, superficial e equivocada.

Se até o coordenador fala igual aos locutores das rádios pop mais tolas, mesmo fazendo o estilo do "locutor engraçadinho que evita fazer muitas gracinhas" (mas que continua fazendo num momento ou em outro) e se o repertório se limita aos "grandes sucessos" e um preconceito contra o rock mais antigo mesmo dentro de uma postura vinculada ao "rock em geral", então a UOL 89 FM está muito, muito problemática.

As antigas rádios de rock que tocavam até raridades na programação normal e cujos locutores falavam que nem gente ainda continuam deixando muitas saudades.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

ADEUS MUSEU / CASA DO ÍNDIO


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Tudo indica que a Aldeia Maracanã, no bairro do mesmo nome no Rio de Janeiro, se transformará no segundo Pinheirinho, se nada for feito para conter os interesses de Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes de atender aos projetos de Eike Batista, dos tecnocratas da "mobilidade urbana" mais reacionária e outros que desprezam o verdadeiro interesse público.

Adeus Museu / Casa do Índio

Por Fábio Py Murta de Almeida - Agência Carta Maior

Não é necessário dizer que o Brasil não tem memória, ou qualquer respeito pelo passado e pelos que o construíram. Mas, o descaso que vem sendo praticado no Rio de Janeiro (local sede da Copa do Mundo e a sede da Olímpiadas) é mais do que falta de respeito. É algo programático. É um ato de intolerância, violência de proporções ditatoriais.

Digo isso por que o Complexo do Maracanã, que servia a população da Grande Tijuca e arredores, está sendo quase derrubado. Sem qualquer zona de diálogo e de debate. Por força do Governo Estadual e da Prefeitura, se deliberou que toda a área tomada pelo Estádio de Atletismo Célio de Barros (pista de atletismo nacional), Parque Aquático Júlio de Lamare (ou “Delamare” com três piscinas de competição nos moldes mundiais), Colégio Municipal Friedenreich (colégio padrão da área, referencial de educação) e o Maracanazinho (esse não será derrubado) que nesses dias estão sendo e serão derrubados.

Será derrubado também o Museu/Casa do Índio que não faz parte diretamente do Complexo do Maracanã, mas que fica nas redondezas, a partir dessa semana, Segunda-feira dia 14.01.2013. Todas essas áreas serão e estão sendo derrubadas para que sejam construídos estacionamentos para o Estádio do Maracanã palco das competições. Só não ocorreu o início da derrubada do Museu/Casa do Índio, pois houve uma série de atos do Governo ditatoriais entre os quais a utilização de uma tropa de choque para retirada das pessoas da área e o próprio pedido de retirada da região sem qualquer expedição da justiça. Só não evacuaram a região por completa falta de preparo governamental.

Nada disso vem sendo noticiado pela mídia hegemônica que justifica mais ainda a retirada dos índios do local deles, pois noticiam que o local vem sendo utilizado por traficantes de drogas e por “cracudos” (como são conhecidos os usuários de crack na região). O que é mais uma mentira para justificar a atrocidade. Para os que não sabem o Museu/Casa do Índio vem sendo ocupado pelos grupos e pessoas descontentes com a politica governamental ligada ao Capital Imperialismo, especialmente ao mega-empresário Eike Batista. Entre os descontentes destacam-se o movimento social do FIST (Frente Internacionalista dos Sem-Tetos), o Comitê Popular da Copa, grupos ligados aos Direitos Humanos, quadros do PSOL e do PSTU, advogados com histórico de luta contra a Ditadura Militar na OAB, quadros docentes ligados ao Colégio Municipal Friedenreich, amigos e simpatizantes da Grande Tijuca e alguns Punks-Anarquistas. Aliás, um Punk encapuzado teve uma foto espalhada em rede nacional, ao lado de um Índio. Indicando (falsamente), por isso, o local com o ímpeto de baderna, ligado ao tráfego de drogas.

Por fim, queremos destacar que a antiga área de socialização da Grande Tijuca que é o Complexo do Maracanã, será quase completamente colocada no chão para virar estacionamento das elites mundiais e regionais que aqui virão para os espetáculos da Copa do Mundo e das Olimpíadas. Atletas e esportes que são praticados pelos moradores da região, e até, por atletas de alta performance estão a partir desses dias sem uma área nuclear de treinos e de tratamentos. Sobretudo, a Copa do Mundo e Olimpíadas não servirão diretamente aos moradores da região, pois fazem parte das politicas públicas urbanas de higienização e de controle social levado pelo governo inflacionam os preços dos imóveis da região, que retiram as favelas dos centros urbanos, e até não permitem a metade do valor das entradas dos eventos dos estudantes e pessoas de idade.

O que estamos vendo passar sobre os olhos são políticas mais discriminatórias que as violências praticadas nos altos da Ditadura Militar. Afinal, estamos sobre o Capital Imperialismo, que não entende que antes de chegar aqui, o território era dos índios. Assim, vejamos, qual será o próximo assalto que ele fará sobre os olhos, mas infelizmente, nossos irmãos índios não estarão mais por perto. Serão jogados para longe pela política de higienização praticada pelo atual governo.

SITUAÇÃO DE FAMÍLIAS DO PINHEIRINHO É 'INADMISSÍVEL', DIZ ANISTIA INTERNACIONAL


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A desocupação de Pinheirinho, bairro popular de São José dos Campos, foi ilegal do começo ao fim, desde o artifício de uma liminar burlando a lei até mesmo à indenização precária a apenas algumas famílias. Os policiais agiram de surpresa na manhã de domingo, a ação policial foi feita sem autorização judicial e houve truculência e até bombas jogadas contra os moradores. Enfim, um "coquetel" de desrespeito aos direitos humanos.

Situação de famílias do Pinheirinho é ‘inadmissível’, diz Anistia Internacional

Da Carta Capital

A organização de Direitos Humanos Anistia Internacional definiu como “inadmissível” a postura do poder público um ano após o violento despejo de 5.534 mil pessoas da comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos (SP). No aniversário da ação, a ONG criticou, em nota, a incapacidade do poder público em encontrar uma solução “adequada e permanente” para as famílias removidas do local.

Em 22 de janeiro de 2012, a Polícia Militar e a Guarda Civil despejaram os moradores que ocupavam a área de quase 1,3 milhão de metros quadrados desde 2004. O terreno pertence à massa falida da Selecta, holding de 27 companhias do megainvestidor Naji Nahas.

A ação foi duramente criticada por defensores de direitos humanos, principalmente por ter utilizado cães, gás lacrimogênio e balas de borracha contra as famílias que não tiveram tempo de retirar seus pertences das casas.

À época, um relatório do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe) identificou mais de 1800 denúncias de violações de direitos humanos por parte da PM e Guarda Civil. As mais citadas (13,6% do total de denúncias e citada por 41% dos entrevistados) se referiram a ameaças e humilhações. Das 634 pessoas que responderam ao questionário, 166 (26,2%) relataram ter sofrido algum tipo de agressão física e 205 afirmaram que suas casas foram demolidas sem tempo para a retirada de seus bens. Além disso, 80 pessoas disseram ter ficado sem emprego ou fonte de renda por conta do episódio. Para piorar, ao menos 71 casas foram saqueadas e 67 moradores foram ameaçadas por pessoas armadas.

A Anistia Internacional alerta que, atualmente, as famílias despejadas vivem “em condições precárias e moradias inadequadas” e em áreas de risco. A única alternativa oferecida pela prefeitura e o governo do Estado foi uma bolsa-aluguel de 500 reais por mês. “A bolsa-aluguel deveria ser uma solução temporária. No entanto, essa foi a única medida de apoio às famílias no período e, mesmo assim, há relatos de que o valor é insuficiente e o pagamento atrasa – gerando situação difícil e constrangedora para os que dependem do recurso para pagar o seu aluguel.”

A organização ainda destaca que as famílias não foram reassentadas em nenhum programa de habitação e “tiveram que encontrar por si mesmas alternativas de moradia.” Segundo a ONG, o terreno permanece desocupado “sem cumprir qualquer função e acumula dívidas de 50 milhões de reais com a prefeitura, entre pagamento de IPTU e multas”.
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