quarta-feira, 31 de outubro de 2012

ELZA SOARES E SUA CAUTELOSA AVALIAÇÃO DO SAMBA BRASILEIRO


Por Alexandre Figueiredo

Um dos grandes nomes da Música Popular Brasileira autêntica, a cantora Elza Soares, que atualmente divulga a música "Samba de Preto", que ela gravou em parceria com a banda de rock vanguardista Huaska, deu um depoimento recente sobre os rumos que vive o samba brasileiro.

Aparentemente, ela demonstrou bastante cautelosa em avaliar a situação, preferindo não polemizar muito, mas a declaração não deixa também de apresentar um discreto tom de crítica ao que se vê hoje em relação ao ritmo.

“Não sou capaz de dizer o que sinto sobre o samba de hoje, porque tenho medo. Como uma boa brasileira, que viu o samba de verdade, na raiz, eu vejo uma transformação muito grande: na letra, melodia, no próprio samba... Não quero dizer se foi para pior ou para melhor. Mas a juventude, hoje em dia, aceita tudo o que tem. Muitas vezes, estamos bem longe da qualidade de Luis Reis, Cartola, tanta gente boa”, disse Elza.

Ela tem conhecimento de causa. Tendo surpreendido as rádios com seu samba influenciado pelo jazz e pela Bossa Nova - ela chegou a participar de um festival, em 1960 - e dotado de muita informação musical, já a partir de seus primeiros discos de 1960 e 1961, tendo sido uma das pioneiras do sambalanço e que ao longo dos anos sempre se manteve musicalmente atualizada.

Dos dois sambistas citados, Luís Reis é hoje pouco conhecido, mas ele foi bastante prestigiado como um dos pioneiros do sambalanço e autor do famoso samba "Palhaçada" (dos versos "Cara de palhaço / Pinta de palhaço / Roupa de palhaço / Até o fim!"), que fez com Haroldo Barbosa e que em 1961 foi gravado por Miltinho. Dóris Monteiro e a própria Elza Soares (acompanhada de Wilson das Neves) também gravaram a música.

Hoje em dia, a crise da música brasileira é reconhecida pelos mais experientes. A música brasileira sucumbiu a um comercialismo escancarado, coisa que nem mesmo o mais esforçado dos intelectuais apologistas consegue desmentir com segurança. A influência da música brega se torna mais predominante do que qualquer legado da música popular de nossos antepassados.

No samba, há a ascensão mercadológica do sambrega que, mesmo com alguns artifícios pedantes - dentro das regras da "MPB de mentirinha" das TVs e rádios - , como a imitação de clichês popularizados por Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Fundo de Quintal e Jorge Ben Jor, não consegue honrar o verdadeiro samba.

Em muitos aspectos, há a mera submissão a fórmulas radiofônicas. Mesmo a assimilação estrangeira da soul music norte-americana por grupos como Exaltasamba e Revelação e por cantores como Belo e Alexandre Pires nem de longe soa criativa e é muita covardia compará-los com o que Denis Brean, por exemplo, havia feito nos anos 40 e 50 com as influências jazzísticas.

Hoje, se alguns desses falsos sambistas, verdadeiros doentes do pé, tentam inovar, é mais pela mera linha de montagem ditada por tendências musicais da moda do que pela natural vocação de inovar. São apenas fórmulas feitas para tornar os cantores envolvidos mais "digestíveis" para plateias mais ricas e ao mesmo tempo maleáveis e submissos às mudanças no mercado musical.

Musicalmente, o chamado "pagode romântico" soa postiço, fajuto e superficial, e sua desesperada busca de se apropriar do sambalanço soa por demais oportunista. A redescoberta de Wilson Simonal, por exemplo, é feita pelos mesmos sambregas que, antes, desprezariam completamente o cantor.

Além disso, resultados desse tendenciosismo como o tal "Eletrosamba" de Alexandre Pires em nada significam, sendo apenas uma nova embalagem para o já desgastado sambrega. Mas o sambrega, como um todo, do "emergente" Thiaguinho ao "coitadinho" Leandro Lehart, padece de sua mediocridade gritante, que nenhum acréscimo de informações musicais o torna mais criativo.

Falta emoção, falta identificação natural. O sambrega é apenas uma "linha de montagem", quando muito herdeiro do "sambão-joia" da ditadura militar (Benito di Paula, Luís Ayrão etc), que estava para o sambalanço assim como a turminha de Pat Boone e Bobby Darin estava para o rock'n'roll de Elvis Presley.

Portanto, se uma cantora comprometida com a modernização musical se mostra preocupada com os rumos do samba brasileiro, é bom a juventude parar para pensar, porque a breguice que está aí não pode ser confundida com a verdadeira modernização que enriquece a expressão artística. Afinal, a breguice faz o contrário: torna a arte bem mais precária e chula.




A VISÃO "SOROSPOSITIVA" DO ATIVISMO SOCIAL


Por Alexandre Figueiredo

Os setores medianos das esquerdas tentam idealizar os movimentos sociais, o ativismo político e os anseios das classes populares de uma forma estranha. Com uma retórica sedutora e por vezes fantasiosa, essa militância, com um quê de neoliberal e tecnocrática, tanta se sobressair como o "modelo ideal" de ativismo social, político e cultural.

A princípio, tudo parece perfeito. Um discurso paternalista que evoca as periferias como se fosse um conto da gata borralheira. Uma visão romantizada e glamourizada, mas carregada de um otimismo sedutor, digno dos discípulos de Auguste Comte, o filósofo positivista.

É uma visão que tenta afirmar o reconhecimento dos movimentos sociais e das reivindicações das classes populares. Mas que tenta diluir as causas sociais apenas ao atendimento das necessidades que não interferem no status quo dominante.

Lendo um texto sobre a análise dos movimentos sociais e das novas redes digitais, promovido pelo Coletivo Fora do Eixo, fiquei estarrecido com a preocupação que eles têm da não existência de um movimento como os de "ocupação" no exterior. Fiquei espantado não com a preocupação em si, mas com o modo de sua preocupação, como se eles quisessem discutir um "modelo" de manifestação social a ser implantado no Brasil.

O grande problema, neste caso, não é a criação de modelos. Isso não faz sentido. O Brasil tem problemas e para se manifestar não é necessário criar "modelos" ou aderir a modismos, mas sim ter indignação, reunir gente e ir para a rua.

O verdadeiro ativismo social não é "occupy qualquer coisa". Não é enfatizar a forma nas manifestações sociais. O grande problema da intelectualidade "sorospositiva", patrocinada por George Soros e pelas fundações Ford e Rockefeller, é o desejo de implantar manifestações sociais que se reduzam à forma, quando a essência está no conteúdo.

Muito fácil nos reunirmos numa Avenida Paulista para falar besteira e tomar cerveja (digo "nós" por questão impessoal; eu não bebo álcool), sem que tenhamos qualquer propósito definido, apenas algumas causas superficiais, tipo "defender a cidadania" e coisa e tal.

As preocupações dessa "esquerda sorospositiva" são muito estranhas. Querem a coisificação dos movimentos sociais pela tecnologia, como se as novas mídias não fossem os instrumentos, mas os sujeitos das transformações sociais. Segundo esse raciocínio, não sou eu que uso o Twitter para ameaçar o poder imperialista, é o Twitter que me usa para combater esse poder. Eu é que tenho que adequar meu ativismo em cerca de 140 tecladas.

E a cultura? Discutem mais as verbas para viabilização dos eventos culturais. É muito importante discutir os patrocínios, os espaços culturais, a Educação etc. Mas limitar o debate para o aspecto financeiro não traz eficiência. Afinal, vamos melhoras os investimentos para a cultura para quê, para termos Belo cantando no Teatro Municipal e instaurar "bailes funk" nas universidades, ou renovar as bibliotecas com jornais Meia Hora e revista Conta Mais?

E as periferias? Esse ativismo de butique dos "sorospositivos" faz com que as favelas, construções acidentais provocadas pela exclusão imobiliária, sejam convertidas em "arquitetura pós-moderna", numa clara demonstração de glamourização da pobreza.

A educação cultural não é enfatizada nem amplamente discutida, implanta-se um modelo educacional bem distante das ideias de Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira e, sobretudo, de Paulo Freire. Quando muito, dilui-se os projetos deles para o nível mais inofensivo, criando pessoas apenas capazes de argumentar habilidosamente a favor do "sistema".

As periferias são idealizadas, com esse discurso, para serem modernas Disneylândias do entretenimento. Sem um projeto de urbanização ou mesmo de desfavelização - no caso de permitir a desocupação de áreas para reflorestamento - adequados, apenas se pensa em maquiar as favelas num pragmatismo urbanístico paliativo, enquanto se transformam tais residências em paisagens de consumo para turistas socialmente paternalistas.

E a cultura, sabemos, deve se tornar a gororoba que mistura alhos com "bregalhos". Apenas a MPB autêntica se reduz a uma coadjuvante da breguice que toma conta do mercado. Tudo se submete a estereótipos das classes populares, muitos deles tragicômicos, que nunca se evoluem significativamente, só melhorando a fortuna pessoal dos ídolos que aparecem na grande mídia.

A arte se submete ao mercado, "sem preconceitos", e a "cultura de massa", em vez de se tornar uma problemática, vira apenas uma "problemática sem problemas", cujos debates não a debatem, forçando a opinião pública a aceitá-las jogando a "culpa" desse império do "mau gosto" para as populações pobres ou, quando muito, para Gregório de Matos e Oswald de Andrade, que nada tiveram a ver com tudo isso.

Criar um ativismo social que se reduz à forma, superestimar as redes sociais de forma que elas se tornem sujeito e não instrumento de mudanças sociais, glamourizar as favelas como se fossem arquitetura pós-moderna, submeter a cultura popular ao mercado do "mau gosto" e submeter a cidadania ao consumo sob o pretexto de combater a ideologia do consumo são plataformas estranhas da intelectualidade brasileira dominante.

Sob as mesadas de George Soros e companhia, esses intelectuais não querem realmente transformar o país. Querem promover seu neoliberalismo travestido de um esquerdismo torto e de um pós-tropicalismo ideologicamente oco. No fim, se mostrarão apenas tecnocratas que veem a visão das classes populares conforme seus preconceitos "sem preconceitos", tipicamente paternalistas e etnocêntricos.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

JUSTIÇA AUTORIZA PERMANÊNCIA DE ÍNDIOS GUARANI-KAIOWÁ EM FAZENDA NO MS




COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O Tribunal Regional Federal da 3ª Região, que corresponde a São Paulo e Mato Grosso do Sul, suspendeu a ação de despejo dos índios Guarani-Kaiowá da comunidade Pyelito Kue, situado na fazenda Cambará, em Iguatemi, Mato Grosso do Sul. Os índios podem ficar na área à espera da demarcação das áreas de reserva indígena na região.

Justiça autoriza permanência de índios Guarani-Kaiowá em fazenda no MS
 

Da Carta Capital, com informações da Agência Brasil

A desembargadora Cecilia Mello, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (São Paulo e Mato Grosso do Sul), suspendeu nesta terça-feira 30 o agravo de instrumento que determinava a retirada da comunidade Pyelito Kue, formada por 170 índios da etnia Guarani-Kaiowá da fazenda Cambará, em Iguatemi, região sul do Mato Grosso do Sul, onde está acampada há mais de um ano. Com a decisão, a desembargadora cancela a saída dos índios, determinada por um juiz da 1ª Vara Federal em Naviraí (MS), até que seja finalizado o processo de demarcação das reservas indígenas na região.

Em sua decisão, a magistrada determina que os índios devem ficar num espaço de um hectare (10 mil metros quadrados), até o término da demarcação das terras na região. “Os índios devem ficar exatamente onde estão agrupados, com a ressalva de que não
podem estender o espaço a eles reservado em nenhuma hipótese”, diz a desembargadora. “Os índios não devem impedir a livre circulação de pessoas e bens no interior da Fazenda Cambará, tampouco estender plantações, praticar a caça de animais na fazenda e, ainda, desmatar áreas verdes consistentes em Reserva Legal”. Segundo a desembargadora, será obrigação da Fundação Nacional do Índio (Funai), que entrou com o recurso, garantir que os índios respeitem a decisão judicial.

A desembargadora fez duras críticas ao poder público em sua decisão. Cecilia Mello afirmou que a demora na demarcação é uma omissão do governo que “obriga o Poder Judiciário a emitir decisões impregnadas de cunho social”. “O que se apresenta é
um conflito de relevância social indiscutível e não um embate sobre meros interesses contrapostos, não sendo competência do
Poder Judiciário substituir o Estado para prover as necessidades de um segmento da população que não foi atendido
pela falta de implantação de políticas públicas específicas”, afirmou a desembargadora.

A magistrada baseou sua decisão em diversos fatos, entre eles o de que “os indígenas se encontram em situação de penúria e de falta de assistência e, em razão do vínculo que mantêm com a terra que crêem ser sua, colocam a própria vida em risco e como escudo para a defesa de sua cultura”. Segundo a desembargadora, há notícias críveis de que a comunidade Pyelito Kue “resistirá até a morte”.

Confira a íntegra da decisão do TRF 3

Além do recurso feito pela Funai, havia no TRF 3 um outro recurso, ajuizado pelo Ministério Público Federal em 16 de outubro, antes do assunto ganhar ampla repercussão, inclusive internacional, devido à interpretação de que os guaranis kaiowás estariam dispostos a se suicidar coletivamente em protesto contra a decisão judicial. Em carta endereçada ao governo e à Justiça brasileira, os líderes da comunidade falam em “morte coletiva” ao se referir aos possíveis efeitos da decisão da Justiça Federal. E revelam que o grupo já perdeu a esperança de sobreviver “dignamente e sem violência” na área onde afirmam estar enterrados seus antepassados.

“Moramos na margem do Rio Hovy há mais de um ano e estamos sem nenhuma assistência, isolados, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Passamos tudo isso para recuperar o nosso território antigo […]. E decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem mortos”, narram os índios na carta.

WIKILEAKS: GOVERNADOR DE MS "ZOMBOU" DE PEDIDO DE TERRA PARA OS GUARANI-KAIOWÁ


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: As autoridades do Mato Grosso do Sul preferem ficar solidárias aos interesses dos proprietários de terras do que das populações indígenas, estas sim que teriam o direito natural de propriedade. O que mostra que a comunidade dos índios Guarani-Kaiowá é o Pinheirinho da vez, com a séria ameaça de despejo de suas próprias reservas.

O próprio Wikileaks já divulgou um documento sobre uma demonstração de sarcasmo do governador sul-matogrossense.

WIKILEAKS: GOVERNADOR DE MS “ZOMBOU” DE PEDIDO DE TERRA PARA OS GUARANI-KAIOWÁ

Por Luiza Bodenmüller e Spensy Pimentel - Agência Pública

Documentos vazados pelo WikiLeaks mostram que autoridades do Mato Grosso do Sul desdenharam da demanda dos indígenas; para EUA, situação é um “desastre”

O drama dos Guarani-Kaiowá, de Mato Grosso do Sul, chamou a atenção das redes sociais nas últimas semanas, mas não tem comovido as autoridades do estado, conforme demonstram documentos divulgados pelo Wikileaks.



Um comunicado diplomático de março de 2009 relata uma visita do então cônsul norte-americano no Brasil, Thomas White, ao estado. Sua comitiva manteve conversas com o governador André Puccinelli (PMDB) e outras figuras de peso, como o então presidente do Tribunal de Justiça do estado, Elpídio Helvécio Chaves Martins.

O telegrama, de 21 de maio de 2009 e endereçado ao Departamento de Estado dos Estados Unidos pelo Consulado de São Paulo, relata a visita do cônsul-geral e sua equipe ao Mato Grosso do Sul. Segundo o documento, durante os quatro dias de visita, houve reuniões com membros do governo federal e estadual, do setor privado e também com lideranças indígenas.

O telegrama revela que a ideia de que os Guarani-Kaiowá poderão ter mais terras demarcadas é vista com desdém pelas autoridades locais.

“O governador Puccinelli zombou da ideia de que a terra, num estado como o Mato Grosso do Sul, cuja principal atividade econômica é a agricultura, poderia seja retirada das mãos dos produtores que cultivam a terra há décadas para devolvê-la aos grupos indígenas”, lê-se.

Além de Puccinelli, entre os entrevistados estavam o então presidente do TJ-MS, Elpidio Helvecio Chaves Martins e o presidente da Federação das Indústrias de Mato Grosso do Sul, Sergio Marcolino Longen. Do outro lado da disputa, além de lideranças indígenas (os guarani Otoniel Ricardo, Teodora de Souza, Edil Benites e Norvaldo Mendes) foram ouvidos representantes de grupos que fazem a defesa dos direitos indígenas, como o procurador Federal Marco Antonio Delfino e o advogado do Conselho Indigenista Missionário Rogerio Battaglia, entre outros.

O desembargador Chaves Martins, por sua vez, ponderou, na conversa com a delegação norte-americana, que a demarcação de novas terras para os indígenas poderia ter efeitos negativos – ao contrário do que reivindica o movimento indígena.

“Chaves advertiu que as tendências ao separatismo nas comunidades indígenas – concentrando os índios em reservas expandidas – só iriam agravar os seus problemas. Dourados tem uma reserva vizinha, que Chaves previu que se tornará a ‘primeira favela indígena do Brasil’ se persistir a tendência a isolar e dar tratamento separado aos povos indígenas”, relata o cônsul.

Segundo defensores dos direitos indígenas, a reserva de Dourados tem péssimas condições de vida em função da sobrepopulação ocasionada pela falta de terras: são 11,3 mil pessoas vivendo em 3,5 mil hectares.

O então presidente do Tribunal de Justiça também reclamou de “calúnias” que as autoridades locais sofrem dos ativistas, sendo acusadas de “tortura e racismo”, quando estão simplesmente “tentando cumprir a lei”.

Segundo recentes relatórios do Conselho Indigenista Missionário, há mais assassinatos entre indígenas no Mato Grosso do Sul, e particularmente entre os Guarani-Kaiowá, do que em todo o resto do Brasil: entre 2003 e 2011, foram 279 em MS, e 224 no restante do Brasil. O estado também se destaca pelo número de suicídios entre indígenas e outras mazelas, como desnutrição infantil.

Índios deviam “aprender a trabalhar”

De modo geral, avalia o comunicado diplomático, as autoridades locais acreditam que as demandas indígenas pelas demarcações e o retorno ao estilo de vida tradicional “não têm base”.

“Autoridades municipais e estaduais perguntaram como os índios dali reivindicavam ser índios, se eles ‘usam carros, tênis, drogas’. Eles reclamaram dos subsídios públicos dados aos índios, afirmando que eles deveriam ‘aprender a trabalhar como qualquer um’”, relata ainda o telegrama.

O telegrama expressa a conclusão de que não há “solução fácil” para o conflito em Mato Grosso do Sul. Para os norte-americanos, apesar de estarem na posse das terras há décadas, somente 30 a 40% dos agricultores devem ter títulos legais no estado – a conclusão é baseada em uma estimativa do geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, da Universidade de São Paulo.

“Era difícil ver um meio termo potencial no conflito entre índios e agronegócio em Dourados. Apesar de os índios parecerem menos radicais do que, por exemplo, o não étnico Movimento dos Sem-Terra (MST), eles parecem não menos dedicados à sua meta de recuperar suas terras ancestrais, e a oposição dos proprietários parece igualmente arraigada”, avalia o telegrama.

Para os americanos, a situação das terras indígenas em MS e outras partes continuará apresentando desafios à democracia brasileira nos próximos anos. “A única coisa que fica clara é que, sem uma postura mais proativa do governo brasileiro, o assunto não vai se resolver por si mesmo”, conclui outro comunicado de 2008 sobre o tema – intitulado significativamente de “o desastre guarani-kaiowá”.

Nas últimas semanas, uma carta da comunidade guarani-kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay (Iguatemi-MS) deflagrou uma ampla campanha de solidariedade com esse povo indígena com base especialmente na internet. A demanda básica dos Guarani-Kaiowá é pela demarcação de terras: atualmente esse povo, o segundo maior do país, soma 43,4 mil pessoas, vivendo em pouco mais de 42 mil hectares.

Na carta, os indígenas afirmam não acreditar mais na Justiça brasileira e, diante do abandono do Estado e das constantes ameaças de pistoleiros, fazem, em tom dramático, o pedido para que seja decretada a “morte coletiva” dos 170 Guarani-Kaiowá da comunidade.

TURISMO SEXUAL E EXPLORAÇÃO ERÓTICA DAS MOÇAS POBRES


Por Alexandre Figueiredo

Uma investigação policial apontou que a Rocinha, bairro da cidade do Rio de Janeiro localizado no trajeto entre o Leblon e a Barra da Tijuca, tornou-se um polo de turismo sexual e de tráfico de mulheres. Muitas mulheres pobres são exploradas e vendidas por suas próprias mães para o mercado erótico clandestino, um drama cujos casos similares revelou tragédias e miséria.

O turismo sexual na Rocinha virou um mercado ilegal potencial depois que o tráfico de drogas foi expulso da favela para a instalação da chamada Unidade de Polícia Pacificadora. E o esquema de prostituição inclui sobretudo menores de idade. Mas o turismo sexual é um assunto muito mais complexo do que se pode imaginar.

Afinal, a exploração sexual das jovens pobres, apesar das denúncias divulgadas fartamente pela grande mídia, são estimuladas pelo próprio entretenimento "popular" dessa mesma mídia. Certamente há uma diferença, até de gente envolvida, entre as equipes de telejornais que denunciam a prostituição de menores e os programas de entretenimento que incitam a "sensualidade juvenil" no "povão".

As jovens pobres acabam sendo ideologicamente induzidas para a sexualidade. E, num contexto de mediocridade e vulgaridade do brega-popularesco, elas, na sua escolaridade precária, acabam até mesmo sendo estimuladas a "se oferecerem" para os homens. As próprias rádios, TVs e jornais "populares" estimulam isso.

Elas classificam como "modelos de mulheres bem-sucedidas" aquelas que só são famosas pelos dotes físicos, e mostram uma "sensualidade" um tanto grotesca e fácil. Com isso, as moças pobres acabam se identificando com elas, algumas associadas, direta ou indiretamente, à trilha sonora dessa "liberdade do corpo" sem alma: o "funk carioca", o forró-brega e o "pagodão" baiano, entre outros ritmos.

A mídia insere nas moças um "mundo de mil possibilidades" e a ideologia apologética do brega-popularesco as empurra para assediar até mesmo homens de classe média, mas com perfil mais modesto. As moças pobres tornam-se vulneráveis a qualquer galanteio, qualquer homem que pergunte a uma delas que horas são já as faz sexualmente excitadas e prontas para o assédio.

Em Salvador, isso é levado ao extremo. As moças pobres não medem qualquer cautela na escolha dos homens. Não medem afinidade nem segurança, olham para qualquer um como se acreditassem ver neste um príncipe encantado. Mergulham em fantasias sem fim. Esse "mundo de sonho" é armadilha certa para várias dessas moças se venderem para redes de prostituição no exterior.

Isso porque elas não foram estimuladas, seja pela escola ou pela mídia, ou mesmo numa estrutura familiar onde até os pais são sub-escolarizados, a tomar qualquer cautela na escolha de um homem. Se cismam com rapazes de classe média da vizinhança, pouco importa se eles não as desejam, elas os assediam como se fosse certo que viessem a se casar com eles. Elas não medem afinidades e pensam que são desejadas por todos os homens.

Mas se aparece um traficante de mulheres vestindo bermudão e tênis e parecendo galã de novela e este se chega a elas amistosamente, essas moças se empolgam achando que todas as portas da felicidade estão neste homem. Não sabem o quanto um homem desses pode ser perigoso.

O CASO DO NEW HIT

As moças acabam sendo induzidas, pelos valores transmitidos pela mídia popularesca, a seguir o ditado "a formiga, quando quer se perder, cria asas". Esnobam os homens de seu meio só porque eles querem jogar pelada nas manhãs de domingo. E, o que é pior, a afinidade acaba se tornando um fator repulsivo e não atrativo, como deveria ser.

Seja nos "bailes funk" do subúrbio carioca e da Baixada Fluminense, seja no "pagodão" da Região Metropolitana de Salvador, as moças pobres acabam aderindo a uma "sensualidade" grosseira sem limites. E se tornam "oferecidas" porque a mídia achou que isso era "romper com o preconceito" e "estimular a auto-estima das moças da periferia".

Só que isso dá em prejuízo. Primeiro, porque entrega as moças pobres ao cenário machista de sexo libertino e fácil. Segundo, porque isso as torna vulneráveis diante do risco de serem estupradas, como ocorreu no caso das fãs do grupo de pagodão New Hit, numa cidade do interior da Bahia.

Aproveitando o assédio fácil das fãs, os membros do New Hit acabaram forçando elas a fazerem sexo com eles. Eles foram denunciados pelas vítimas e o laudo confirmou que eles cometeram o estupro. Mas, nas redes sociais, muitos internautas acabaram também criticando as moças, alegando que elas primeiro se ofereciam, para depois recusarem.

EDUCAÇÃO E PREVENÇÃO

Seria muito melhor que a sociedade, além de possibilitar a punição a quem estabelece qualquer exploração erótica, pressionasse a mídia a tomar cautela na divulgação da sensualidade feminina, evitando qualquer tipo de vulgaridade.

É necessário sobretudo repudiar a mídia machista, mesmo que sejamos acusados de "moralistas" ou coisa parecida. A mídia machista vai alegar que a "sensualidade" que promove através das mulheres vulgares é um "tipo diferente", ou que isso é "liberdade do corpo" (à maneira que os "urubólogos" falam em "liberdade de expressão").

Além do mais, a educação escolar ou familiar seriam formas de prevenção das mulheres pobres quanto a seus impulsos sexuais. Nem todos os homens as desejam e também nem todos os homens são confiáveis. Além disso, nem sempre sonhar alto demais garante a felicidade esperada. A qualidade de vida se dá com luta e trabalho, e não com privilégios dados de bandeja.

É necessário instruir as moças pobres a repensar a vida sexual e amorosa, ver os riscos e as vulnerabilidades, para evitar uma libertinagem que pode ser arriscada e fatal e pensar na afinidade como critério maior de vida amorosa.

OS TROLEIROS E AS MUDANÇAS NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

A trolagem tornou-se um lamentável fenômeno na Internet e contrariou as perspectivas de que a interatividade só abriria caminho para mentes progressistas na rede mundial de computadores. Infiltrados nas redes sociais, nos e-mails e nos fóruns digitais, os reacionários da rede e sua fúria jocosa acabam sendo derrotados pelas mudanças ocorridas no país.

Quase sempre defendendo o estabelecido pelas regras do mercado, da mídia e da política, os troleiros - ou trollers, em inglês - são algo como vândalos digitais, que em casos extremos chegam a criar blogues ofensivos ou vídeos caluniadores, mas na maioria das vezes preferem humilhar através de um e-mail anônimo ou de mensagens apócrifas jogadas até em petições digitais.

Eles também aparecem nas redes sociais - Orkut, Facebook, Twitter, Instagram - com seu reacionarismo, alguns se encorajando em divulgar seus próprios nomes. Sua intolerância é notável, até mesmo quando seus totens absolutos da "cultura de massa" - podendo ser uma caricatura de rádio de rock ou uma dupla breganeja cujo nome plagia artistas de MPB - e não aguentam sequer críticas construtivas sobre seus ídolos.

FILHOTES DA DITADURA MIDIÁTICA

Os troleiros são "filhos" de um tempo, a década de 1990, onde a ditadura midiática exibia seu explendor. A Internet só veio na segunda metade e ainda assim com fraca demanda, comparável ao da televisão brasileira no começo da década de 1960, crescente mas incipiente.

São jovens acostumados com um país onde prevaleciam as decisões vindas "de cima", onde mesmo com suas evidentes imperfeições e falhas, o poder político, o midiático e o mercadológico eram vistos com uma "superioridade" intocável. Eles erravam, mas eram vistos como "forças" capazes de trazer algum progresso para a população.

Os filhotes da ditadura midiática, na medida em que viam, na Internet, textos que contestavam o mérito de tudo aquilo que acreditavam e apoiavam, passavam a reagir de forma desesperada, com mensagens geralmente jocosas, agressivas e ofensivas, que demonstram uma clara irritação dos mesmos contra qualquer contestação ao "estabelecido".

Isolados nas promessas de "modernidade" trazidas pela velha grande mídia, pelo fisiologismo político, pela tecnocracia velhaca e pelo entretenimento "popular", os troleiros se concentram geralmente em "modismos" ou "tendências" de ataque.

Um dia defendem uma "rádio rock" caricata, como foi a Rádio Cidade do Rio de Janeiro. Noutro defendem o poderio musical de Bell Marques, do Chiclete Com Banana. Noutro, defendem a padronização visual dos ônibus do Rio de Janeiro, depois certas duplas emergentes do "sertanejo universitário", em seguida as "popozudas", mais tarde o José Serra e por aí vai.

Verdadeiros aspirantes a "urubólogos", os troleiros são ainda subestimados pelos analistas médios de esquerdas, que os veem apenas como "ciberpunks mal-orientados". Sem perceber que, no futuro, lá depois dos 40 anos, esses "modernos" internautas, muito jocosos e até desbocados, estarão no reacionarismo jornalístico, criando veículos ou instituições similares ao que vemos hoje com a revista Veja, a Opus Dei, o Tea Party, o PSDB etc.

No entanto, a cada vez que as mudanças sociais diversas se confirmam e os antigos totens começam a ser contestados por mais gente, os troleiros passam por humilhação. Eles sentem que as reações contra seus impulsos agressivos são grandes, e não raro há casos de troleiros que são desmascarados e humilhados em rede mundial, expostos à humilhação pública até nas buscas do Google.

A "aventura" dos troleiros, dessa forma, acaba tendo sempre um fim dramático para eles. Um dia os impulsos deles se voltam contra até mesmo seus aliados, ou mesmo contra "peixes grandes". Acabam arrumando confusão contra eles mesmos. Nem a criação de blogues ofensivos contra seus desafetos acabam lhes salvando, porque as "caças" se voltam contra seus "caçadores".

Além disso, o vandalismo digital acaba tendo vida curta, na medida em que a incapacidade dos troleiros de resolver os problemas com suas fúrias se tornam inúteis. Num certo momento, eles se tornam mais humilhados do que aqueles que desejavam humilhar.

E, desocupados, um dia esses troleiros terão empregos que exigirão maior dedicação ao trabalho, o que significa perda do tempo disponível para criar fakes ou para mandar mensagens ofensivas em larga escala. No fim só lhes restarão os prantos. Sem poder conter a evolução da sociedade brasileira, eles só terminam arrumando encrenca contra si. A fúria cega do momento pode ignorar e esnobar tudo isso, mas depois eles terão que admitir a derrota, como versões "mini me" de gente como José Serra e Diogo Mainardi.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

MÍDIA MACHISTA E O FIM-DE-SEMANA DAS FUNQUEIRAS


Por Alexandre Figueiredo

Desesperado, o "funk carioca" tenta se apoiar nas "musas" para tentar se manter na mídia, e neste caso vemos o portal R7, lamentavelmente integrado à grande mídia machista, para criar factoides sem graça sobre essas mulheres-objeto bem do agrado dos mais rígidos machistas.

Desperdiçando espaço na Internet, o portal R7, baseado na visão estereotipada do "popular" veiculado pela velha grande mídia, havia descrito o "fim de semana" das funqueiras, sob a retranca "Música" (?!), no esforço vão de mantê-las em alta.

São as mesmas "mulheres-frutas" de sempre, que a mídia popularesca promove com um certo exotismo sensacionalista, sobretudo sob cortesia de glúteos e peitos siliconados. Elas aparecem acumulando várias apresentações - uma delas em um só dia - ou trocando várias vezes de shortinho. Só para gente machista mesmo.

Isso derruba de vez qualquer apologia feita pela intelectualidade "sorospositiva" - que havia tentado glamourizar o "funk carioca", sob o apoio explícito da velha grande mídia que esses mesmos intelectuais acusavam de "boicotar" os funqueiros - de que essas "musas" são feministas.

Desde quando feminismo é falar mal de homem? Isso não coloca a mulher num lugar melhor na vida, e nada impede que a mulher, numa sociedade machista, seja hostil ao homem mas, de acordo com a conveniência, possa manter sua subserviência se ver nela um monte de vantagens. E as "musas" do "funk carioca" servem com gosto a um mercado movido justamente pelo mais histérico e intransigente machismo.

As notícias nem tem a menor relevância quanto à música brasileira, sendo tão somente o culto da personalidade dessas "popozudas". E tão somente o culto da imagem coisificada da mulher brasileira, até uma profanação, porque a "mulher brasileira" exaltada nesse mercado brega-popularesco mais humilha que orgulha as verdadeiras batalhadoras do Brasil, que não se rendem a esse sexismo grotesco.

Portanto, bola fora para o R7, do Grupo Record, cujos executivos em parte usufruem seus prazeres pessoais com mulheres de verdade como Angelina Muniz e Bianca Rinaldi. Aos pobres mortais, só se reservam a Mulher Melancia, Geisy Arruda e similares. "Popozão" dado não se olha os glúteos.

E foi uma ideia lamentável para um grupo empresarial que tem Paulo Henrique Amorim como um de seus âncoras ter que promover essa pouca vergonha siliconada das funqueiras. Qualquer coisa é só se queixar ao "bispo" Edir Macedo.

Deixem o "funk carioca" se tornar a trilha sonora das choradeiras de José Serra. Tem mais a ver.

ACM NETO E O NEO-CARLISMO


Por Alexandre Figueiredo

O Partido dos Trabalhadores não conseguiu eleger seu prefeito para Salvador. No plano estadual, o PT ainda não conseguiu mostrar grandes avanços, apesar de algumas medidas interessantes, como o Conselho Estadual de Comunicação, um marco diante de um Estado onde havia uma mídia sem lei, um coronelismo de rádio portátil com seus "coroneletes" controlando emissoras e sendo seus "astros-reis".

Só que um desses "coronéis" midiáticos, justamente o que mais pratica seu culto à personalidade, teve a infeliz ideia de apoiar o candidato derrotado, Nelson Pelegrino. Mário Kertèsz, o "Maluf baiano", o "Berlusconi com dendê", o astro-rei da Rádio Metrópole, o ex-político mas sempre politiqueiro que há um bom tempo brinca de ser "radiojornalista", acabou virando um "pé-frio" para a chapa petista.

Nem todo petista sente simpatia por Kertèsz. Pelo contrário, políticos baianos realmente comprometidos com os movimentos sociais sempre viram no empresário um oportunista. Quem pensa longe e não é traído pelas seduções da memória curta sabe que Kertèsz é um afilhado político de Antônio Carlos Magalhães que depois se magoou ao se ver preterido pelo padrinho em prol de outros apadrinhados.

Kertèsz só era apreciado, e mesmo assim sob condições "pragmáticas", pela ala fisiológica das esquerdas baianas. Oportunista, o empresário que, como prefeito de Salvador, criou um grande esquema de corrupção para montar sua fortuna pessoal e seu patrimônio midiático (que depois teve que ser parcialmente desmontado a cada denúncia), é também conhecido pelo seu tendenciosismo e hipocrisia.

Afinal, Kertèsz tenta parecer na sua rádio o contrário do que é. Machista, conservador, faccioso, parcial, tenta parecer "feminista", "progressista" e tendenciosamente dar espaço às mais diferentes correntes ideológicas, até porque a palavra final é sempre dele. E, como locutor, ele soa forçado e caricato, com uma dicção que oscila entre a de um gerente de hotel e a de um dono de um botequim de subúrbio.

Ele ainda é capaz de ter surtos direitistas de fazer o pessoal da Veja ficar de cabelo em pé. Se ele anda magoado com os herdeiros de ACM e com o carlismo como um todo, é que ele esperava ser o grande líder entre os herdeiros políticos de ACM, mas acabou sendo deixado em segundo plano.

Nelson Pelegrino não conseguiu que as bases mais íntegras de apoio, como os movimentos sociais de trabalhadores, estudantes e intelectuais, se sobressaísse para elegê-lo como substituto de João Henrique (o ex-pedetista ligado ao PMDB), que fez duas administrações desastrosas em Salvador. E a falta de carisma e de grandes realizações de Jacques Wagner só desanimou os soteropolitanos. Lula e Dilma não conseguiram emprestar seus prestígios e Mário Kertèsz e sua campanha irregular na rádio só melaram a chapa petista.

Talvez o apoio de Kertèsz - que nem de longe é o "Rei do Ibope" que tanto alardeiam na Bahia - ao PT se deva mais à amizade que o empresário tem pelo publicitário Duda Mendonça, envolvido na "turma do mensalão" tal qual o sócio de Kertèsz, Roberto Pinho, seu parceiro no famoso desvio de verbas públicas na segunda gestão de Mário Kertèsz como prefeito de Salvador.

Duda Mendonça, que havia em outros tempos sido publicitário de Paulo Maluf, há muito realiza serviços para o PT, ajudando na eleição de Lula e na promoção de uma imagem mais acessível do Partido dos Trabalhadores, fazendo com que seu projeto político se diluísse através de um programa mais "pragmático" que nem sempre agradou as esquerdas.

Em Salvador, a "lipoaspiração" ideológica do PT, através da eleição de Jacques Wagner, de origem carioca, fez com que o programa do partido se tornasse impotente para muitos problemas vividos na capital baiana, como o crescimento urbano desordenado causado sobretudo pelo êxodo rural de proporções preocupantes.

Eu mesmo observei, quando morava em Salvador, em 2007 e 2008, que muitos ônibus atribuídos à Secretaria de Saúde de vários municípios do interior levavam passageiros a pretexto deles serem atendidos em hospitais de Salvador, como o Hospital Geral do Estado, localizado junto à Av. Vasco da Gama, e o Hospital Central Roberto Santos, localizado em Narandiba, região do Cabula.

Sem estrutura para manter uma grande população e tomadas não só pela corrupção política mas pelo coronelismo, várias cidades do interior baiano ainda parecem viver nos tempos do Segundo Império, tomadas de muita pobreza e isoladas até do que ocorre de mais banal no resto do Brasil.

Por isso, várias pessoas - principalmente homens, que engrossam uma estatística ainda não reconhecida no Ibope, que atribui a vários habitantes masculinos de Salvador como se ainda vivessem nas suas cidades de origem - acabam deixadas à própria sorte em Salvador, fugindo de cidades atrasadas mas sem poder encontrar qualquer vida digna na capital baiana.

O crescimento desordenado é observado até quando se chega no Aeroporto e se vê enormes áreas faveladas em São Cristóvão, ou quando se chega na Rodoviária, na altura do Iguatemi, e se vê o grande bairro favelado no entorno do Jardim Brasília e atrás da estação de ônibus rodoviários, e que é considerado um dos mais violentos da cidade. Ironicamente, a Rádio Metrópole tem sede nas suas proximidades.

Há muitos sem teto no centro de Salvador, e ficou praticamente impossível transitar até mesmo na Rua Carlos Gomes, mesmo nos dias de semana. Já nas tardes de sábado, o risco de alguém transitar por essa rua sem ser assaltado é praticamente mínimo, tantos os viciados em drogas que perambulam pelo lugar.

Além do mais, o erro de desativar o elevado Gonçalves - que poderia aliviar o fluxo de passageiros do Elevador Lacerda - e a falta de alguma iniciativa prática para revitalizar o Comércio e o centro soteropolitano, ou criar um corredor cultural que vai do Terreiro de Jesus ao Campo Grande. Discussões existem, mas não há um investimento maciço para criar um corredor atraente e mais seguro.

Antônio Carlos Magalhães, pelo menos, investia em infra-estrutura. Evidentemente, seu compromisso com os movimentos sociais era apenas tendencioso, e seu desenvolvimentismo urbanista tinha mais a ver com um modelo que Juscelino Kubitschek já fazia (e bem melhor) e que Carlos Lacerda adotou na antiga Guanabara. E que, em parte, a ditadura militar encampou, tirando os aspectos progressistas do projeto.

Seu neto talvez possa agir nesse sentido. Ele nega que pretende ressuscitar o carlismo, mas certamente ele expressará o neo-carlismo, o conservadorismo do liberal-populismo de seu avô, em um novo contexto, embora não haja garantia se ACM Neto continuará no DEM, o partido que, na sua linha ideológica, havia herdado uma linhagem que começou na UDN e passou pela ARENA, PDS e PFL.

Mas sua administração não será progressista, e o contraste ideológico com o plano estadual dificultará as coisas. Os soteropolitanos terão que esperar, pelo menos, por medidas paliativas de construção de conjuntos habitacionais populares para absorver a população das favelas ou das ruas e da criação de centros de tratamento de usuários de drogas, além de fortalecer a segurança nas ruas. Pelo menos isso.

VITÓRIA DE HADDAD CONSAGRA DECLÍNIO DO PSDB EM SP


Por Alexandre Figueiredo

Depois da vitória no primeiro turno de Carlinhos Almeida em São José dos Campos, a vitória de outro petista, Fernando Haddad, para a prefeitura de São Paulo, consagra a decadência do PSDB e dá início ao processo de declínio de um ciclo ideológico em que o tucanato era considerado sinônimo de "modernidade" e "racionalidade".

Embora tenha repercutido mal, a princípio, a famosa foto de Paulo Maluf junto a Haddad e Lula, as propostas de Haddad e outros fatores como o apoio que os movimentos sociais davam ao candidato se sobressaíram ao incômodo respaldo de Maluf.

O próprio José Serra contribuiu para a derrota eleitoral. Antipático e arrogante, o outrora líder estudantil e um dos símbolos dos chamados "ex-querdistas" (esquerdistas que migraram para a direita), atualmente economista e empresário, demonstrava antipatia até mesmo com profissionais da imprensa aliada.

Mesmo para Miriam Leitão, uma das "divas" do conservadorismo midiático, José Serra se comportou de forma indelicada, mostrando sua intolerância com determinadas perguntas. E na eleição recente até mesmo a Datafolha e as Organizações Globo tiveram que "engolir" a derrota de Serra.

Até mesmo Fernando Henrique Cardoso começava a ficar incomodado com seu antigo pupilo, que se tornou seguidor do sociólogo já nos tempos em que este pregava as ideias da Teoria da Dependência que no âmbito da cultura influenciou até mesmo Hermano Vianna e o possível aspirante a "ex-querdista" Pedro Alexandre Sanches.

Mas a antipatia de José Serra havia também contagiado outras figuras que o apoiavam. Soninha Francine, outra "ex-querdista", havia dirigido, no Twitter, um palavrão para xingar Fernando Haddad, que repercutiu mal e a ex-VJ da MTV, antes muito simpática e graciosa, recorreu ao famoso "huahuahuahuah" típico dos troleiros.

Há também o pastor evangélico Silas Malafaia, espécie de "Ratinho" dos evangélicos pelo seu estilo grotesco de pregação religiosa, que com seu ultraconservadorismo também mostrou-se um cabo eleitoral de Serra por demais reacionário, indigesto para estimular o eleitorado laico a apoiar o tucano.

Evidentemente, a grande mídia começou a falar bobagens. A comentarista política Cristiana Lobo disse que Haddad era o "mais tucano" do PT escolhido para concorrer à prefeitura. É certo que o PT de hoje adota programas neoliberais em seu projeto político, e isso é quase generalizado no establishment do partido, mas é equivocado chamar Haddad de tucano, com os rumos quase medievais que o partido de Serra e Geraldo Alckmin andou seguindo nos últimos anos.

A revista Veja deu menos destaque à vitória de Haddad. No portal da revista, houve a preferência de colocar, em primeiro plano, a foto do prefeito eleito de Curitiba, Gustavo Fruet, do PDT. Para o reacionarismo doentio de Veja, é dos males o menor ofuscar a vitória de Haddad, rival do candidato defendido febrilmente pela revista, mostrando o campeão de outra cidade, ainda que este tenha o PT como coligado em sua chapa.

Fruet havia derrotado Carlos Massa Jr., o Ratinho Jr., o filho do famoso apresentador de TV Ratinho, símbolo da mídia popularesca dos anos 90. Ratinho Jr., do PSC, poderia colocar a moderna Curitiba - cujo sistema de ônibus está numa decadência sem freio - sob uma administração tecnocrático-populista, mas sua derrota abriu caminho para um político sem muitas surpresas, mas menos popularesco.

Quanto a Haddad, sua vitória foi reconhecida até mesmo por Marta Suplicy, que a princípio ficou indignada com a escolha dada a ele, e não a ela, para concorrer à prefeitura de São Paulo. Essa postura mais calma se deve sobretudo à boa recepção que o meio artístico e intelectual deu a ela ao assumir o Ministério da Cultura, dando fim ao corporativismo do ECAD da gestão anterior.

O que a vitória de Fernando Haddad representa, para São Paulo, é o fim do ciclo de domínio do PSDB, partido que parecia ideologicamente moderado e, sob a cumplicidade do PFL/DEM, mergulhou num processo de reacionarismo rabugento que fez os tucanos serem até mesmo pouco sutis ao lidar com a opinião pública.

A arrogância de José Serra, que até 30 anos atrás era impensável, quando o ex-líder estudantil e anistiado pela fase de abertura da ditadura militar, era uma "unanimidade". Hoje figuras como José Serra, Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso, pelos seus erros políticos mais grotescos, perderam, e muito, daquela aura de "superioridade" que ainda se dá a tecnocratas e autoridades.

Fala-se que José Serra irá se aposentar da política. Em todo caso, as derrotas eleitorais recentes foram demais para ele. Mas o maior abalo foi dado contra o PSDB como um todo, que já deixou de expressar qualquer possível modernidade para São Paulo, diante das transformações sociais que fazem o Estado parecer a cada dia menos identificado com a supremacia tecnocrática que durante anos era associada à sua capital.

domingo, 28 de outubro de 2012

A DECADÊNCIA DO "FUNK CARIOCA"


Por Alexandre Figueiredo

A decadência do "funk carioca" é vista como um tabu para seus defensores. Mas a choradeira destes em defesa do ritmo não conseguiu que ele se desgastasse, com o crescimento das críticas feitas contra o "funk", como se nota sobretudo nas redes sociais na Internet.

MC Leonardo, presidente da APAFUNK (Associação de Amigos e Profissionais do Funk) deixou subentendida sua aflição diante da decadência que o ritmo sofre atualmente, em artigo na Caros Amigos, lamentando a "falta de reação das favelas' em defesa do ritmo.

Uma das piadas publicadas no Facebook, por exemplo, é intitulada "O Funk Salvou Minha Vida", em que uma menina internada desacordada num hospital, ao ver que a enfermeira decidiu colocar um CD do Mr. Catra para tocar, levantou de sua cama e desligou o toca-CD.

As críticas cresceram de tal forma que nenhuma acusação de preconceito é mais possível. Tanto que as queixas vem de pessoas que já sabem o que significam DJ Marlboro, Gaiola das Popozudas, Mr. Catra e outros nomes. Nem a turma do "melody" escapa, como Latino e MC Leozinho. E as críticas são extremamente duras, não cabendo qualquer relativismo.

A situação se tornou tão clara que surgiu até mesmo uma campanha pelo uso de fones de ouvido nos ônibus e outros locais públicos, iniciativa explicitamente influenciada pelo "funk" ouvido por muitos passageiros abertamente, causando incômodo para outras pessoas.

NENHUM ELITISMO

O incômodo que o "funk carioca" causa na sociedade nada tem a ver com elitismos nem com campanhas moralistas. A coisa mostra mais complicada do que se pensa, pelo menos em relação aos funqueiros. O desgaste do gênero, por mais que a blindagem intelectual e artística (de intérpretes "performáticos" simpatizantes) tente evitar, se deve às próprias caraterísticas do gênero.

Afinal, o "funk carioca" tem claras limitações artísticas e musicais. Seus sucessos são repetitivos e seus intérpretes só se diferem como fetiches, mas artisticamente soam todos iguais. A demagógica tese de que o "funk" é um ritmo "riquíssimo", artisticamente falando, não se cumpre na prática e existe até uma piada de que de "rico" o "funk carioca" só tem a fortuna de seus DJs e empresários.

A mediocridade do próprio ritmo também é gritante. Péssimos vocalistas, sonoridade repetitiva e precária, tudo isso faz com que o ritmo não vá muito adiante na sua linguagem. Precisa que artifícios publicitários mascarados de teses intelectuais ou científicas - como reportagens, monografias e documentários que usam e abusam dos clichês narrativos do New Journalism e da História das Mentalidades - sejam veiculados para dar alguma "validade" ao gênero.

Mesmo assim, o "funk carioca" não consegue acompanhar as transformações sociais. Se o ritmo já se mostrava deplorável artística e culturalmente, ele tenta em vão sobreviver como "cultura superior", ostentando uma reputação "vanguardista" bastante falsa, porque o "funk" está associado a processos e valores de degradação social.

As mudanças sociais não conseguem ser acompanhadas pelo "funk carioca". Primeiro, porque o ritmo aposta no mais explícito machismo que trata a mulher como um objeto sexual. E até mesmo o suposto celibato das "mulheres-frutas" e similares, que poderia sinalizar, para muitos, um suposto "feminismo" funqueiro, foi desmascarado pelo fato de que várias funqueiras "solteiras" na verdade possuem namorados ou são muito bem casadas.

A pedofilia, a criminalidade, a violência e as drogas também se tornaram "valores" associados ao "funk carioca". A intelectualidade esperaria uma recuperação de reputação comparável ao jazz e ao rock'n'roll, mas isso não aconteceu. Primeiro porque os dois ritmos tinham valor artístico e uma linguagem menos repetitiva, coisa que o "funk carioca" não tem.

Isso porque o "funk carioca" - na verdade, uma tradução brasileira do miami bass - aparentemente se inspirava no funk eletrônico de Afrika Bambataa e clamava influência de James Brown. Mas os próprios funqueiros abandonaram qualquer lição do funk original, isolados na sua arrogância bairrista nos subúrbios do Grande Rio, na sua recusa ao uso de instrumentos musicais e outros recursos artísticos.

Desesperados, os funqueiros agora tentam recorrer aos mesmos artistas que abandonaram, num último sinal de oportunismo e tentativa de sobrevivência. Vendo as transformações dos valores sociais avançarem, o "funk carioca" mostra-se datado, ultrapassado e fechado em todos os sentidos.

FUNQUEIROS É QUE SÃO PRECONCEITUOSOS

Isso mostra que os funqueiros é que são preconceituosos, arrogantes, intolerantes. Queriam aprisionar as favelas ao ritmo, transformando a população pobre em refém do "funk carioca". Mas as denúncias de violência, os assassinatos e as diversas baixarias, além da mesmice sonora do ritmo, agravam a decadência.

Além disso, para quem acha que rejeitar o "funk carioca" é coisa de elitista, não é raro haver casos de mães e outros familiares estarem preocupados vendo seus filhos indo a "bailes funk" para nunca mais voltarem. E em muitos desses "bailes" torna-se explícita a baixaria sexual, com gente transando diante de multidões e havendo até mesmo estupros de menores.

Mesmo a parte "mais politizada" do "funk carioca" não disse a que veio, tentando defender uma visão confusa e contraditória de cidadania. Na famosa reunião da ALERJ que, de forma politiqueira, definiu o "funk carioca" como "movimento cultural" - alguns fofoqueiros chegaram a falar em "patrimônio" - , MC Leonardo apoiou a possibilidade do "funk carioca" ser usado na Educação. Com a repressão dos "proibidões" nos "bailes funk" das UPPs, MC Leonardo desmentiu que o "funk" tenha compromisso educativo.

Vendo com isenção e objetividade, letras como "Rap da Felicidade" e outras de nomes como MC Júnior & MC Leonardo (o mesmo da APAFUNK), na verdade, nada soam "contundentes", sendo tímidos "protestos" contra a repressão policial e apenas um apelo para que os pobres sejam incluídos no mercado de consumo da sociedade.

Dessa feita, o "funk carioca" se desgasta profundamente, por suas próprias limitações, pela sua mais evidente mediocridade e pelas baixarias em que se envolve. A choradeira ainda vai continuar, com seus defensores tentando dizer que "o funk não está decadente" ou dizer que "o funk é mais uma vez vítima de preconceitos".

Só que esse discurso também está sendo repetitivo e pouco convincente. E o povo das favelas merece coisa melhor. A sociedade se evolui e o "funk carioca" não consegue acompanhar essas mudanças. Até porque, andando pelas ruas, dá para ver que quem mais ouve esse ritmo são pessoas machistas e agressivas, que não inspiram a menor confiança.

sábado, 27 de outubro de 2012

SALVEMOS OS ÍNDIOS GUARANI-KAIOWÁ


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Os índios Guarani-Kaiowá estão ameaçados de perder seu terreno numa área rural de Iguatemi, Mato Grosso do Sul, sofrendo ação judicial de despejo e até mesmo ameaças de morte por conta dos proprietários de terra locais. Há uma petição no portal do Avaaz.org contra a ação de despejo e de perda de mais uma comunidade indígena no Brasil. O linque da petição está assinalado no texto, que só exige nome do assinante, e-mail, CEP e país onde mora.

Salvemos os índios Guarani-Kaiowá

Do blogue Fazendo Média

Os índios da etnia Guarani-Kaiowá estão correndo sério risco de GENOCÍDIO, com total omissão da mídia local e nacional e permissão do governo. Se você tem consciência de que este sangue não pode ser derramado, assine esta petição. Exija conosco cobertura da mídia sobre o caso e ação urgente do governo DILMA e do governador ANDRÉ PUCCINELLI, para que impeçam tais matanças e junto com elas a extinção desse povo.

Por que isto é importante

Leia, abaixo, carta de socorro da comunidade Guarani-Kaiowá. Os índios da etnia Guarani-Kaiowá estão correndo sério risco de GENOCÍDIO, com total omissão da mídia local e nacional e permissão do governo. Se você tem consciência de que este sangue não pode ser derramado, assine esta petição. Exija conosco cobertura da mídia sobre o caso e ação urgente do governo DILMA e do governador ANDRÉ PUCCINELLI, para que impeçam tais matanças e junto com elas a extinção desse povo. CARTA:

“Nós (50 homens, 50 mulheres, 70 crianças) comunidades Guarani-Kaiowá originárias de tekoha Pyelito kue/Mbrakay, vimos através desta carta apresentar a nossa situação histórica e decisão definitiva diante de despacho/ordem de nossa expulsão/despejo expressado pela Justiça Federal de Navirai-MS, conforme o processo nº 0000032-87.2012.4.03.6006, em 29/09/2012.

Recebemos esta informação de que nós comunidades, logo seremos atacada, violentada e expulsa da margem do rio pela própria Justiça Federal de Navirai-MS. Assim, fica evidente para nós, que a própria ação da Justiça Federal gera e aumenta as violências contra as nossas vidas, ignorando os nossos direitos de sobreviver na margem de um rio e próximo de nosso território tradicional Pyelito Kue/Mbarakay.

Assim, entendemos claramente que esta decisão da Justiça Federal de Navirai-MS é parte da ação de genocídio/extermínio histórico de povo indígena/nativo/autóctone do MS/Brasil, isto é, a própria ação da Justiça Federal está violentando e exterminado e as nossas vidas. Queremos deixar evidente ao Governo e Justiça Federal que por fim, já perdemos a esperança de sobreviver dignamente e sem violência em nosso território antigo, não acreditamos mais na Justiça Brasileira.

A quem vamos denunciar as violências praticadas contra nossas vidas?? Para qual Justiça do Brasil?? Se a própria Justiça Federal está gerando e alimentando violências contra nós. Nós já avaliamos a nossa situação atual e concluímos que vamos morrer todos mesmo em pouco tempo, não temos e nem teremos perspectiva de vida digna e justa tanto aqui na margem do rio quanto longe daqui. Estamos aqui acampados 50 metros de rio Hovy onde já ocorreram 4 mortos, sendo 2 morreram por meio de suicídio, 2 morte em decorrência de espancamento e tortura de pistoleiros das fazendas. Moramos na margem deste rio Hovy há mais de um (01) ano, estamos sem assistência nenhuma, isolada, cercado de pistoleiros e resistimos até hoje. Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia-a-dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay.

De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali estão o cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser morto e enterrado junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais.

Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal, Assim, é para decretar a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e para enterrar-nos todos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem morto e sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo de modo acelerado. Sabemos que seremos expulsas daqui da margem do rio pela justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo/indígena histórico, decidimos meramente em ser morto coletivamente aqui. Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS.”

O FALSO FEMINISMO DAS "BOAZUDAS"


Por Alexandre Figueiredo

A vulgaridade feminina, que explora a mulher como se fosse um mero objeto sexual, alimenta um poderoso mercado milionário da mídia machista.

Mas para não repercutir de forma negativa, a mídia machista lança mil artifícios que fazem com que esse comércio machista de glúteos e peitos femininos pareça algo "moderno" e até "feminista".

O pseudo-feminismo das "boazudas", reforçado sobretudo pelo aparente celibato das mesmas - algumas chegam a não medir escrúpulos para iniciar namoros de apenas três semanas e casamentos de apenas três meses - , tenta parecer "moderno" com o pretexto da "liberdade do corpo" e de uma certa atitude compotamental "arrojada" (ou quase isso).

Há a tendenciosa evocação de musas autênticas como Marilyn Monroe e a fictícia Betty Boop, ou as sessões de fotos com "popozudas" vestidas de fadas dos contos infantis. Há a aparição de algumas delas em exposições de carros, mas sendo muito mais uma apropriação desses eventos para a mera exibição das "máquinas sexuais".

Há, também, uma atitude falsamente "multimídia" ou mesmo um bissexualismo forçado. No primeiro caso, são as fotos "sensuais" inéditas, publicadas nas redes sociais da Internet. Principalmente como um meio de tentar "interagir" com seus seguidores.

No segundo caso, há o suposto lesbianismo que faz com que essas "musas" tentem conquistar o público GLS, até camuflando o "universo" cafona de muitas delas com uma atitude de "libertação sexual" tendenciosa. Houve até o caso da funqueira que abriu um concurso para contratar um transexual para o trio de dançarinos. 

Várias dessas musas adotam sobrenomes "artísticos" aparentemente "estrangeiros" - Cardi, Ubach, Minerato, Bahls, Bianca, Steinköpf, Belli etc - também para forjar alguma modernidade, enquanto aparecem entusiasmadamente em eventos de breganejo, sambrega e axé-music.

Mas o falso feminismo não engana, porque todo esse aparato não apresenta qualquer tipo de essência, são apenas pretextos para inventar alguma "novidade" que só serve de pano de fundo para a mesmice das exibições corporais das moças.

Elas são incapazes de falar sobre outras coisas ou mesmo de aparecer sem qualquer apelação "sensual", o que faz com que, inevitavelmente, atrizes e jornalistas de televisão acabam levando a vantagem, porque elas expressam sensualidade dentro do contexto, do contrário das "musas" que "mostram demais".

As "boazudas" sempre estão associadas à mídia machista. Esta é que, não se assumindo como tal - da mesma forma que Veja não se assume uma revista de direita - , tenta mil artifícios para prevalecer no gosto "popular". Aliás, essa palavra "popular" é que anda "canonizando" muitos picaretas da mídia, por diversas razões. Convém questioná-las amplamente, sem medo.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O 'HIT-PARADE' BRASILEIRO E SEU DISCURSO PSEUDO-VANGUARDISTA


Por Alexandre Figueiredo

Poucos se preocupam, mas o alerta de que um poderoso lobby intelectual e midiático quer substituir a cultura brasileira pelo hit-parade é um sério problema ao qual não cabem deslumbramentos.

Afinal, é um discurso bastante engenhoso, altamente habilidoso, o suficiente para arrancar uma pretensa unanimidade através do aparente otimismo que se expressa.

Este blogue há muito alerta sobre as armadilhas discursivas de uma intelectualidade que ora bajula a chamada "ala maldita" da Música Popular Brasileira, ora exalta o suposto "valor artístico-cultural" dos ídolos brega-popularescos.

A campanha retórica, que chegou ao nível das monografias, documentários e textos jornalísticos cheios de referências - ainda que, tendenciosamente, se jogue uma Patti Smith para defender até mesmo cantoras de forró-brega - , é na verdade o anúncio de que o hit-parade brasileiro quer porque quer substituir a cultura brasileira autêntica, aquela em cujos vínculos sociais prevalecem os interesses da sociedade.

CLICHÊS ESQUERDISTAS

A campanha retórica é preocupante, sobretudo pela grande adesão de intelectuais, celebridades e ativistas sociais. É um verdadeiro "IPES pós-tropicalista", algo como um Instituto Millenium cultural. Tem até mesmo o patrocínio, muitas vezes indireto - repassado a entidades nacionais financiadoras de pesquisas e produções acadêmicas e artísticas - , de organizações ligadas ao capital estrangeiro.

São instituições como a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller e a Soros Open Society, instituições aparentemente voltadas para o suporte financeiro dos movimentos sociais de todo o mundo, mas que são denunciadas como grupos interessados na domesticação das expressões esquerdistas dos vários cantos do planeta.

A Soros Open Society é a mais ambiciosa, e é controlada pelo especulador financeiro George Soros, uma das figuras destacadas do neoliberalismo mundial. Sua vitrine é o Fórum Econômico Mundial, evento que reúne os chefões do mercado financeiro e do mundo dos negócios mundiais e seus políticos associados.

No entanto, Soros tenta cooptar para seu domínio os movimentos sociais. Ele havia patrocinado o Fórum Social Mundial, evento paralelo ao Fórum Econômico, quando foi denunciado por ativistas indianos. Aí o patrocínio teve que ser suspenso. Mas ele exerce sua influência até mesmo no Brasil.

Há todo um discurso "esquerdista" que se apoia nessa mentalidade do "negócio aberto". Novas mídias, ruptura com (todas?) as regras de copyright - inclui até mesmo a jocosa expressão "copyleft" como uma suposta reação a essas regras - , expressões da periferia, etc etc etc. São termos ideológicos que juntam conceitos neoliberais difundidos a partir de 1990 com ideias tecnocráticas da mesma época e uma visão banalizada do ativismo social difundida a partir da transmissão do Live Aid pela MTV, em 1985.

Mas o discurso "vanguardista" vai além. Fala-se em "morte da indústria fonográfica" e superestima-se a ação da Internet na transformação da sociedade. O discurso tenta dar a impressão de que o Brasil viverá a ascensão de uma "cultura alternativa" que "eliminará" o mercado, substituindo-o por uma "cultura independente" que aparecerá em todo lugar, do Oiapoque ao Chuí.

TESE DE QUE A CULTURA BRASILEIRA "NASCEU" EM 1967

O discurso é atraente e bastante sedutor, mas tem suas falhas. A defesa que a intelectualidade associada faz das tendências comerciais do brega-popularesco - que chegam mesmo a defender figuras associadas à mídia conservadora, como Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano e Alexandre Pires, além dos antigos Odair José e Waldick Soriano - e a clara evocação de uma "cultura de massa" que mais parece a tradução musical do "livre-mercado", põem em xeque a validade do discurso.

Afinal, esse discurso cria uma perspectiva e uma historiografia tendenciosas para a cultura brasileira, jogando no limbo pelo menos 467 anos de cultura brasileira, já que, seguindo a tese do "fim da História" de Francis Fukuyama - claramente seguida por Pedro Alexandre Sanches - , a cultura brasileira teria "nascido" em 1967, a partir do grito de revolta de Caetano Veloso contra os que o vaiaram num festival de MPB.

Com base nessa visão, a cultura brasileira teve uma "antiguidade" (1915-1967) e uma "pré-história' (antes de 1915). Com isso, deixa-se o rico patrimônio cultural brasileiro na "geladeira" ou para alguma apropriação tendenciosa de algum "ídolo da massa".

O "norte" então passa a ser o Tropicalismo, convertido a um rol de verdades absolutas onde a cultura brasileira só é "viva" se entregar suas rédeas à "cultura de massa". Mas aqui "cultura de massa" é uma ideia trabalhada para que se oculte qualquer alusão a interesses comerciais tais quais se vê no hit-parade norte-americano.

PRODUÇÃO DE UM "PASSADO GLORIOSO"

O discurso, portanto, é trabalhado não para revelar a intenção, de maneira totalitária, um hit-parade brasileiro, mas de um discurso que dê a impressão contrária, de alusão a "cultura alternativa", "novas expressões" e "cultura independente". Dissimula-se o mercado dizendo que ele "está morto" e o que vigorará é a "cultura de vanguarda" no Brasil.

Para reforçar a tese, a intelectualidade que "fica babando" com fenômenos como É O Tchan, Tati Quebra-Barraco, Gaby Amarantos, Thiaguinho e Michel Teló tenta bajular nomes da MPB autêntica considerados "difíceis" pela grande mídia.

Dessa feita, há desde a necrofilia a nomes como Gregório de Matos, Oswald de Andrade e, mais recentemente, Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio como a bajulação a nomes ainda ativos como Inezita Barroso, Tom Zé e Sérgio Ricardo.

Há até uma ênfase, tendenciosa, em tendências musicais mais sofisticadas mas alheias à "bossa engomada" da Biscoito Fino, como forma de isolar Chico Buarque, Edu Lobo e companhia. Dessa feita, Sérgio Ricardo e Marcos Valle, por exemplo, ou um Quinteto Violado ali, um Milton Banana Trio aqui, aparecem exaltados pelos mesmos ideólogos que acham que rejeitar a mediocridade do "funk carioca" é "preconceito".

A ideia subentendida nesse discurso, trabalhado por críticos musicais, historiadores, sociólogos, antropólogos e outros especialistas e até famosos, é que se produza um "passado glorioso" a partir da MPB mais sofisticada e ao mesmo tempo menos badalada.

Isso dá conta do que essa intelectualidade faz para manobrar a opinião pública. Pois temos um passado remoto (extinto) através de figuras já falecidas, como Sidney Miller, Wilson Simonal, Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção. E um passado recente e ainda presente de nomes como Tom Zé, Sérgio Ricardo e Zezé Motta.

Evocam-se também a parte mais audaciosa da Jovem Guarda (Erasmo Carlos, Wanderléia, Ronnie Von), os demais tropicalistas, alguns "malditos" espalhados pelos anos 70, e cria-se um "elenco" que possa servir de blindagem para os descaminhos que a música brasileira, ignorando justamente o legado dos melhores artistas (independente do apoio ou da ojeriza da intelectualidade), comete hoje em dia.

Atualmente, o que temos são apenas três forças artisticamente pouco expressivas na nossa música, que prevalecem na mídia, no mercado e no gosto padrão do grande público. Há o brega-popularesco, com todas as suas deturpações da cultura popular surgidas a partir do brega dos anos 60-70. Há a "MPB feijão-com-arroz", da geração pós-1992, que apenas reproduz clichês da MPB dos anos 70. E há, agora, os "neo-performáticos" mais preocupados com a imagem do que com o som.

Estes últimos, em boa parte, acabam adotando influências do brega-popularesco em suas músicas, mesmo tentando forçar um contexto "vanguardista", geralmente associado a uma atitude de "provocação". São apenas colecionadores de "referências culturais", que exibem uma gororoba de valores e ícones que não os faz mais criativos.

Se o brega-popularesco já se "evoluiu" para a pseudo-MPB de Ivete Sangalo, Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó, se a "MPB feijão-com-arroz" jogou na mídia Maria Gadu, Ana Carolina e Jorge Vercilo, os "neo-performáticos" vêm com Superpopular, Kitsch Pop Cult, Emicida, Criolo e companhia. Estas são as tendências do futuro hit-parade brasileiro.

E o que será o futuro da MPB e da cultura brasileira em geral, entregue ao hit-parade? Será, pura e simplesmente, a submissão dessa cultura às leis do "falecido" mercado, através de uma indústria que se articulará sob a sombra da grande indústria, com gravadoras "independentes", mídias digitais e rádios comunitárias que na prática são meros satélites do "deus mercado".

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O "FUNK" E SUA CRISE DE REPUTAÇÃO


Por Alexandre Figueiredo

Em artigo na revista Caros Amigos deste mês, MC Leonardo, presidente da APAFUNK e um dos mais articulados dirigentes funqueiros do país, tenta reafirmar sua "luta" para manter o ritmo em alta, sob o rótulo de "movimento cultural".

No entanto, ele expressa sua preocupação ante o que ele define como "a falta do espírito de reação do povo favelado". Ele também está perplexo com a rejeição que o ritmo anda sofrendo.

Essa situação é evidente. Afinal, o ritmo tem suas limitações ideológicas sérias. E, mesmo com toda a blindagem dada por intelectuais e educadores cooptados para o gênero, o "funk", em vez de se aproximar da cidadania, se aproximou cada vez mais da criminalidade.

O próprio MC Leonardo contradisse que o "funk carioca" possui responsabilidade para promover a cidadania - coisa que ele defendeu na famosa reunião da ALERJ em 2009 - , três anos depois, quando o veto da polícia aos "proibidões" causou indignação entre os defensores do ritmo, que preferiam a liberação dessa facção do "funk" porque ela atraía mais gente para os "bailes funk".

As críticas ao "funk carioca" se tornaram tão grandes que o ritmo, derivado do fenômeno do É O Tchan e da "boquinha da garrafa" - dança assimilada pela "coreografia" funqueira - , passou a sofrer a reputação negativa que atingiu por definitivo o grupo baiano.

Quanto a certas declarações de MC Leonardo, como a de que "o Funk mais precisa que lhe defenda é justamente os moradores das favelas, pois são eles quem produzem, compõem, vendem, divulgam e compram sua própria cultura", é um contrasenso, porque sabemos que quem faz o "funk carioca" são seus empresários, gente muito rica, e quem divulga e vende é o esquema jabazeiro das rádios.

Além disso, o próprio perfil ideológico do "funk carioca" promove o conformismo do povo pobre. Daí a falta de uma reação forte. O que os funqueiros querem não é melhoria de vida, nem regulação da mídia, nem promoção da cidadania, causas que derrubariam quase todos os valores que o "funk" acredita. O que eles querem é apenas mercado, mercado e mercado. Querem apenas ganhar dinheiro, e só.

Esse discurso de "cultura" é muito lindo, para muitos, mas ele é irreal. O "funk carioca" aprisiona o povo pobre, vicia o gosto musical já precário dos jovens pobres, que adorariam ouvir coisas melhores. E a demagogia de certos DJs funqueiros, de que "é só melhorar as favelas que o 'funk' melhora", soam duvidosas, porque eles mesmos poderiam ter ajudado na melhoria dos podres. Nada fizeram.

O que esses "ativistas" do "funk carioca" querem é demagogia, promovendo o discurso que encaixa conforme o contexto. Querem fazer proselitismo na mídia de esquerda, enquanto falam mal dos esquerdistas pelas costas. E tranquilamente estabelecem parcerias com os barões da grande mídia, enquanto tentam dizer nas palestras que a grande mídia os "discrimina".

Por isso é que o "funk carioca" sofre sua crise de reputação. E certamente seus defensores preparam para fazer mais uma choradeira. Só que a sociedade está se esclarecendo melhor sobre o ritmo e não vai cair outra vez nessa cilada retórica.

JORNAL NACIONAL PODE SER PROCESSADO POR CAMPANHA IRREGULAR


Por Alexandre Figueiredo

Da mesma forma que, em Salvador, a Rádio Metrópole - do pseudo-esquerdista Mário Kertèsz - foi denunciada por campanha irregular a favor do candidato petista Nelson Pelegrino, o Jornal Nacional, com outro propósito, realizou também uma campanha irregular, desta vez desmoralizando o Partido dos Trabalhadores.

O programa é produzido pela TV Globo do Rio de Janeiro - com exceção do quadro da previsão do tempo, feito em São Paulo - , mas suas edições recentes têm sido feitas como forma tendenciosa de enfraquecer a campanha de candidatos petistas no segundo turno das eleições para prefeito deste ano.

Na edição de ontem, segundo noticiou a Folha de São Paulo, o Jornal Nacional dedicou 18 dos 32 minutos de seu programa (desconta-se o tempo dos intervalos) para a cobertura do final do julgamento do esquema do "mensalão" no Supremo Tribunal Federal.

Foram oito reportagens sobre o julgamento, incluindo frases "memoráveis", votos de ministros aos condenados e quem foi absolvido, além dos atritos verbais entre o relator Joaquim Barbosa e o revisor Ricardo Lewandovsky. Todavia, as notícias correspondentes à condenação dos reus e à absolvição pelo empate dos votos não foram muito além de três minutos.

A natureza da cobertura deixou clara a visão do telejornal contrária ao Partido dos Trabalhadores, como se fosse uma extensão da campanha eleitoral do PSDB. A ilegalidade expressa nesse ato, portanto, é prevista na Lei 9.504/97, conhecida como Lei Geral das Eleições, que, em seu artigo 45, caput, determina que:

Caput – A partir de 1o de julho, ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário, conforme incisos:

III – Veicular propaganda política, ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus orgãos ou representantes;

IV – Dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação;

V – É vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário, veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente (…).


A citação do Partido dos Trabalhadores, de forma depreciativa, torna-se um crime eleitoral, pois o Jornal Nacional demonstrou o claro interesse de depreciar o partido, contrariando a imparcialidade que os veículos de comunicação devem exercer conforme a lei.

BLOGUEIRO ENTRA COM REPRESENTAÇÃO CONTRA A GLOBO

O blogueiro Eduardo Guimarães, do Movimento dos Sem-Mídia, decidiu entrar, no Ministério Público Federal e no Ministério das Comunicações, com uma representação contra a TV Globo em cada instituição, pela prática de crime eleitoral.

A justificativa é que o Jornal Nacional, considerado um dos principais programas jornalísticos formadores de opinião na sociedade brasileira, estaria influenciando os eleitores a não votarem nos candidatos do PT, através de uma associação do partido ao esquema do "mensalão".

Independente de haver ou não a participação do PT na corrupção de Marcos Valério, a prática do JN demonstra-se ilegal, porque não é de sua competência influir para as pessoas pensarem se o PT presta ou não. Os meios de comunicação não podem influenciar contra ou a favor de candidatos.

Embora as representações do Movimento dos Sem-Mídia sejam feitas a poucos dias da votação em segundo turno, o caso pode ser apreciado pela Justiça. Eduardo Guimarães pede o apoio dos cidadãos à sua iniciativa, como forma de impedir mais um caso de impunidade através do poder econômico de uma corporação midiática.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A MÍDIA MACHISTA E SEUS MALES


Por Alexandre Figueiredo

Na revista Fórum deste mês, a blogueira mineira Cynthia Semiramis escreveu um longo texto sobre mídia machista, detalhando as questões e a campanha que é feita a partir das marchas ocorridas em todo o país. Estão previstos novos manifestos, em reação à exploração machista da imagem da mulher.

Em minhas pesquisas nos portais da grande mídia, nota-se que o machismo destaca os homens "bem sucedidos" como associados a uma "racionalidade" vinculada à liderança profissional - geralmente empresários, profissionais liberais e executivos - , enquanto a mulher "bem sucedida" é aquela que se destaca porque "mostra demais" seu corpo.

Ou seja, o homem é valorizado pela mente pela mídia machista, que vê a mulher como um objeto sexual. E muito dinheiro é investido nessa manipulação ideológica, tão cruel quanto hipócrita. Afinal, as mulheres que decidem investir no aprimoramento de sua inteligência e de sua independência profissional são "convidadas" pelo status quo midiático a serem conjugalmente vinculadas aos homens "bem sucedidos".

Qualquer outro que não tenha um cargo de comando ou uma fortuna é considerado "pé rapado". Neste caso, o machismo também discrimina os homens, porque se é um homem de grande caráter e batalhador, mas é um simples servidor público em estágio probatório, ele é visto como "pé rapado", por mais que se dedique com inteligência e moralidade à sua vida.

A estes se reservam as mulheres vulgares ou então as fãs de brega-popularesco mais "desajeitadas" por influência da mídia. De que adianta um homem ter uma inteligência refinada e um caráter diferenciado se ele, sendo um operário ou um servidor público, para não dizer um desempregado pela força das circunstâncias, na melhor das hipóteses, só terá direito a uma ex-integrante do Big Brother Brasil ou a uma "pobre mortal" fã de "sertanejo" e "pagode romântico" para namorar, moças que não servem sequer para conversa?

Isso é apenas um aspecto do machismo midiático que sutilmente penetra nos valores sociais dominantes hoje. E que, da parte das "musas populares" - eufemismo para as mulheres-objeto atuais - , tenta criar um falso feminismo que chega mesmo a pegar desprevenidas algumas feministas menos prevenidas.

É quando o discurso machista se traveste de moderno e associa a vulgaridade feminina a uma suposta "liberdade do corpo". Usando o termo "popular", tenta neutralizar as críticas, porque existe uma tendência das classes médias razoavelmente intelectualizadas em não contestar o que é "popular", o que faz com que boa parte das explorações grotescas da imagem da mulher sejam aceitas, porque "é o que o povo quer".

Alguns casos até fazem com que certas musas da vulgaridade sejam excluídas do debate público por aspectos politicamente corretos. Como no caso da dançarina da Gang do Samba, Rosiane Pinheiro - "genérico" das Sheilas do Tchan - que, por ser negra, passa incólume de qualquer contestação, mesmo fazendo o mesmo "serviço" das "musas" do Tchan.

Há também o caso da "emergente" Geisy Arruda, lançada à fama pelo escândalo de se vestir de forma apelativa ao entrar numa faculdade da Uniban, em São Paulo, e que fez os politicamente corretos agirem em solidariedade a ela a pretexto da "liberdade do corpo". Pouco depois, ela se revelou uma oportunista e uma personalidade tão superficial quanto qualquer uma "fabricada" pelo Big Brother Brasil.

A solteirice, muitas vezes forçada e em outras falsa - como no caso de uma conhecida funqueira que jura estar solteira, mas continua casada - , das musas vulgares também é um prato cheio não só para alimentar o milionário mercado de revistas "sensuais" e desfiles de escolas de samba, mas também um meio de forjar a falsa impressão de que essas "musas" são "emancipadas", dissimulando o machismo que elas representam.

O mais grave é que a mídia machista atua com muita sutileza. Tenta sobreviver e se adaptar estrategicamente às mudanças trazidas pelo feminismo, de forma que muito de seus valores e fenômenos chegam a ser defendidos até pelas mulheres.

Por isso é necessário discutir a mídia machista, que cria cada vez mais novas armadilhas, como meio dela prevalecer na sociedade sem que esta a reconheça como machista. Cynthia Semíramis fez sua parte. Os manifestantes da Marcha Nacional Contra a Mídia Machista fizeram a sua. Convém todos nós fazermos a nossa.

BANALIZAÇÃO E AGONIA DA CULTURA ALTERNATIVA


Por Alexandre Figueiredo

A cultura alternativa, no Brasil, até existiu e continua existindo, mas nos 25 últimos anos ela sucumbiu a uma antes inimaginável deturpação e descaraterização que, recentemente, atingiu níveis extremos.

Afinal, o mais recente produto atribuído, até de modo bastante equivocado, à cultura alternativa é um tributo em repertório digital do conjunto de sambrega Raça Negra (?!), intitulado Jeito Felindie.

Pelo menos, quando havia o tributo ao igualmente brega Odair José, algum background roqueiro era justificável. Odair, pelo menos, era um ícone retardatário da Jovem Guarda, era o nosso Pat Boone, fazer um tributo "alternativo" a ele era duvidoso e discutível, mas ainda era compreensível.

Já o tributo ao Raça Negra - em que pese ter havido um ex-membro do ótimo The Jordans na formação (o que sugere muito o quanto parte da JG se corrompeu depois do fim do movimento) - não dá para entender, afinal eles eram o establishment do establishment do establishment do hit-parade brasileiro. É mais ou menos como trotskistas prestando homenagem ao ultracapitalista Roberto Campos.

Mas há uma razão sociológica sobre o fato de jovens "descolados" - termo que expressa uma forma estereotipada e caricata de ser alternativo - cultuarem o brega-popularesco, principalmente ídolos que aparentemente estão fora das rádios (mais por uma questão de fim de modismos do que por uma suposta injustiça midiática).

Primeiro, porque esses jovens são dotados de referenciais contraditórios e confusos que resultam de situações bastante opostas. São a tal geração Y que vive uma crise de valores morais, sociais, culturais e econômicos que eles não percebem, porque acham que vivem numa prosperidade "pop" cuja problemática, se chegam a admitir, não é sem algum esnobismo arrogante e condescendente.

Numa época em que seus pais iam para o trabalho, se divorciavam e não tinham tempo para a dedicação total dos filhos, geralmente nos anos 80 e 90, os jovens de hoje eram, na infância, criados por empregadas domésticas de baixa escolaridade que mal tinham capacidade de cuidar delas mesmas.

Isso não é um comentário desaforado, é fruto do cenário social, político e midiático que vivíamos. Era Sarney, Era Collor, escolas em greve, arrocho salarial, corrupção política, desvio de verbas da Educação para os bolsos das autoridades e seus "laranjas". Tudo isso havia criado empregadas domésticas alienadas, sub-alfabetizadas e praticamente manobradas pela breguice orquestrada pela velha grande mídia.

Por outro lado, esses jovens educados por babás sub-escolarizadas acabavam indo para as universidades. Tão vagamente, ouviram falar sobre uma tal cultura alternativa, através de uma mídia que distorcia as coisas, bem mais do que qualquer conversa de pescador.

Aí achavam que ser alternativo é adotar um comportamento porralouca, andar de chilenos nas faculdades, misturar um visual meio hippie e meio skatista e escrever seus próprios jornaizinhos. Com esses referenciais contraditórios, a breguice televisiva da infância e a cultura alternativa universitária, eles criaram um perfil esquisito, bem menos alternativo na essência, porque é bastante convencional.

Ser "inconvencional" é que ficou convencional. No hit-parade norte-americano, vemos ídolos mais preocupados com "escândalos" e "atitudes polêmicas" e que cantam letras "confessionais" que falam mal de algum desafeto. Acham que viraram "vanguarda" por adotarem uma postura oposta ao ilusionismo recente do pop dançante de tempos atrás, quando seus cantores apenas diziam "mexa seu corpo, dance a noite toda, esse é o calor do momento".

A própria grande mídia, com suas distorções violentas - que teriam envergonhado Sérgio Porto, se ele estivesse vivo hoje - , praticamente cria "alternativos" culturalmente superficiais, gente que só é "alternativa" nos vestuários e nas poses.

Talvez tenhamos um alternativo poser e não sabemos. São pseudo-nerds e pseudo-engajados misturando trajes hippies com trajes skatistas, tirando fotos dentro de livrarias, diretórios estudantis, em quartos cuidadosamente desarrumados cheios de revistas de quadrinhos, discos de vinis, pôsteres diversos.

Com a pressão do ensino universitário, eles acabam apressadamente, como todo "descolado", vendo filmes de Buñuel e Godard e também dos cineastas do Cinema Novo, lendo parcialmente textos de Charles Bukowski, Mário Quintana, Caio Fernando Abreu, sabendo sobre peças de teatro modernistas e "causos" sobre o movimento tropicalista, a Contracultura e o punk rock.

Juntando essa gororoba de alhos alternativos e bugalhos cafonas - ou "bregalhos" - , esses jovens querem ser "alternativos" cultuando até o Menudo. E essa mistureba de referências não cria jovens culturalmente mais criativos. Quando muito, soam apenas mais irreverentes e irônicos.

Enquanto isso, a verdadeira cultura alternativa agoniza, sem poder se zelar como cultura ou mesmo como um mercado independente e sustentável. O establishment brega-popularesco já começa a sufocar as outras expressões culturais, que perdem seus próprios redutos aos poucos, e são obrigadas a serem cooptadas pela breguice dominante para, ao menos, serem financeiramente viáveis.

O resultado de tributos a Odair José e Raça Negra, portanto, soa bastante convencional. Na melhor das hipóteses, expressa apenas a banalização de clichês alternativos no hit-parade brasileiro. Clichês que, se não fosse a choradeira intelectualoide evocando falsas alusões à "cultura brasileira", ao "folclore" e à "cultura independente", teriam sido vistos apenas como algo banal e sem muita importância.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

RAÇA NEGRA E O BREGA PSEUDO-CULT


Por Alexandre Figueiredo

Não há o que inventar no Brasil. O hype do "brega cult" tem agora mais um nome, o grupo de sambrega Raça Negra, espécie de tradução "sambista" da música de Amado Batista.

O disco em questão é Jeito Felindie, um tributo "alternativo" (sic) lançado em formato digital ao conjunto que puxou a onda do "pagode romântico" que gerou grupos como Só Pra Contrariar (que lançou Alexandre Pires), Soweto (que lançou Belo), Negritude Júnior (que lançou o hoje político Netinho de Paula), Art Popular (que lançou Leandro Lehart), Exaltasamba (que lançou Péricles e Thiaguinho), entre outros.

Todos puxados pela voz fanha de Luís Carlos, cujo grupo, Raça Negra, está beneficiado pela onda de "coitadinhos" que não para de surgir em tempos de glamourização da mediocridade cultural brasileira. E o tributo até engana na capa, usando uma moça magrinha e graciosa diante de discos de vinil. Só não engana tanto porque os discos que aparecem são a explícita breguice do Raça Negra.

Enquanto lá na Europa se discute a crise cultural de forma séria, aqui a crise cultural deixa de ser debatida por simplesmente não ser uma questão de crise de dinheiro. Se gera dinheiro, tudo bem. Danem-se os valores sociais. Se é o rádio que dita as normas, fazemos de conta que esse rádio "é o povo" e muitos vão bebericar nos botequins felizes da vida ao som da mais escancarada breguice.

O grande problema é que o brega-popularesco possui um lobby tão grande e poderoso, que envolve grandes latifundiários e empresas multinacionais com dinheiro, poder e tráfico de influência suficiente para cooptar várias forças sociais moderadas para aderirem ao seu esquema.

O tributo ao Raça Negra é alternativo? Não. É independente? Também não. Trata-se de uma fachada de "cultura independente" que se vale tanto pelo contexto da "provocação" - o garotão "descolado" curte um brega para "gozar" da cara de seus pais - quanto por um certo paternalismo das elites "bem informadas" em relação aos sucessos radiofônicos.

O que ninguém sabe é que o "maravilhoso" Raça Negra é um subproduto da bregalização feita por retardatários ou "convertidos" da Jovem Guarda, que geraram nomes como Odair José e Michael Sullivan. E que veio sobretudo através do poderio da indústria fonográfica, controlada por multinacionais, e do mercado radiofônico, entregue a políticos, grupos empresariais e latifundiários presenteados por Sarney e ACM, nos anos 80.

Foi esse quadro que desenhou o que oficialmente - mas erroneamente - se entende como "cultura popular" no Brasil. É o brega-popularesco, a Música de Cabresto Brasileira. E quem é muito jovem, nascido de 1978 para a frente, salvo honrosas exceções sucumbiu a essa degradação midiática, que poucos reconhecem ser uma extensão crucial e perigosa da ditadura midiática, um veneno de sabor doce que mata sem causar dor.

No tributo ao Raça Negra - dá para imaginar que virão tributos ao MC Créu e MC Leozinho daqui a vinte anos? - , na reportagem de anteontem no Segundo Caderno de O Globo, há depoimentos muito sentimentalistas, de gente que acha que "cultura popular" é aquela que vem do rádio. Ou então há comparações pretensiosas, como a entre o Raça Negra e Los Hermanos.

Esse tributo, feito por alguns nomes "performáticos", dá o tom do furioso processo de destruição da cultura brasileira, para que se venha o hit-parade com todo o seu apetite. Hoje os pretextos usados são o "cult", o alternativo e a cultura popular, com muito puxa-saquismo a nomes que variam de Oswald de Andrade a Wilson Simonal, de Sérgio Ricardo a Ritchie.

É o tal discurso da "diversidade cultural" ampliado para uma retórica pseudo-vanguardista. Todo muito é "alternativo" e "independente", tudo é "vanguarda" e "cultural", mas o que está por trás desse discurso sedutor é a extinção que o mercado prepara para a verdadeira cultura brasileira, aquela que não vive de lotação de plateias nem de execuções em rádio.

O mercado quer que o hit-parade brasileiro substitua a cultura de verdade. Seus ideólogos têm o cinismo de dizer que o "irrit-pareide" brega-popularesco é "a verdadeira cultura popular". Conversa para boi dormir. Por trás desse discurso ambicioso - vindo de um poderoso lobby que inclui até cientistas sociais e é feito até por documentários e monografias - , há a imposição de um mercado totalitariamente comercial.

"O que será da música brasileira do futuro?" já havia perguntado Ruy Castro. A ascensão voraz do brega-popularesco em todos os mercados e segmentos significa o canto do cisne que o mercado impõe ao folclore, à cultura alternativa, à genuína cultura popular que estão em risco de desaparecerem.

Por isso, a grande mídia, a indústria fonográfica - com as gravadoras "independentes" e "virtuais" sendo praticamente "satélites" das grandes gravadoras - e seus seguidores querem acabar com a cultura popular. "Cultura", para eles, não pode ir além de um Odair José, de um Waldick Soriano, um Michael Sullivan, Wando, Calcinha Preta, Banda Calypso, Mr. Catra ou Raça Negra. E que se contente com Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó fazendo pseudo-MPB.

Enquanto isso, isola-se a MPB da Biscoito Fino, que está para a música assim como Oscar Niemeyer está para a arquitetura. Que se jogue pedra na "geni" que se tornou Chico Buarque. Enquanto isso, abre-se o mercado, num neoliberalismo pós-tropicalista, onde pseudo-alternativos exaltam o brega dentro da gororoba midiática que consumiram na infância. É o mercado, estúpido!
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