domingo, 30 de setembro de 2012

HEBE CAMARGO E A CRISE DA TELEVISÃO BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

Ontem faleceu Hebe Camargo de parada cardíaca, por efeito de um câncer. Ela (que aparece na foto ao lado de um pouco reconhecível - para os mais jovens - Abelardo Barbosa, o Chacrinha) havia sido uma das poucas pessoas sobreviventes da fase inaugural da televisão brasileira, há 62 anos.

Apresentadora carismática, além de cantora e eventual atriz, Hebe era uma das grandes comunicadoras do país, tendo surgido ainda na Era de Ouro do rádio brasileiro.

Em que pese suas posições ideológicas conservadoras - Hebe havia participado, por exemplo, da Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade, que pediu a queda de João Goulart - e pelo fato de que seu programa, nos últimos anos, recebia muitas celebridades popularescas (sobretudo os pseudo-sofisticados ídolos neo-bregas dos anos 90), Hebe era uma referência à fase áurea da televisão brasileira.

Ela vivenciou a fase em que não havia videoteipe e quem fizesse televisão teria que improvisar e até mesmo encarar possíveis gafes ao vivo. Os telespectadores não eram tantos, mas os televizinhos e as televisitas já mostravam que a televisão tinha uma plateia potencial, que o barateamento do preço dos aparelhos televisivos iria fazer aumentar.

A televisão era tecnicamente mais precária, mas em qualidade era bem melhor. Havia um idealismo maior que, numa comparação com o que existe hoje, choca com a mediocridade "pragmática" dos programas atuais.

Entre os anos 50 e 60, a televisão transmitia mais inteligência, criatividade, respeito humano, e não se pegava a frivolidades como fofocas de nulidades famosas de hoje ou os tais reality shows. Até os quiz shows valorizavam a inteligência, com questões sobre História, Geografia e até Filosofia.

Os programas infanto-juvenis eram mais empolgantes, os humorísticos não colocavam a "malícia" acima da graça, os musicais mostravam grandes artistas e as novelas, embora com histórias mais convencionais, tinham elenco bastante talentoso. E havia teleteatros aos montes, com uma grande diversidade de obras.

O noticiário Repórter Esso, sucesso radiofônico que, na televisão, se consagrou na TV Tupi, era até conservador, mas dotava de um excelente profissionalismo, com locuções e textos impecáveis, e uma atitude mais respeitosa bem diferente da chamada "urubologia" jornalística de hoje.

Era um tempo em que Jean-Paul Sartre, o grande filósofo existencialista, virava celebridade nas entrevistas para a TV. Muito diferente de hoje, quando entre os "grandes famosos" há muita gente sem ter o que dizer (como os ex-BBBs). Em vez das "boazudas" de hoje, tínhamos as vedetes, mais ingênuas e mais decentes. E a televisão educativa surgia para educar, e não para competir com as emissoras comerciais "com categoria".

Mas se até uma emissora comercial como a TV Paulista - que depois virou a atual TV Globo São Paulo - havia espaço para o vanguardista Móbile, e o "irmão mais velho" do Fantástico da Rede Globo era transmitido em Belo Horizonte, pela TV Itacolomi, um programa chamado A Noite é da Guanabara, nome que não se remetia ao Estado sudestino, mas a uma extinta rede mineira de lojas de eletrodomésticos.

Quem pesquisar sobre televisão nos anos 50 e 60 verá muitas coisas interessantes. Mas seu acervo se perdeu em boa parte, em incêndios ou desgravações, mas felizmente boa parte do que restou está sendo resgatada no YouTube, ainda que por meio de fragmentos ou trechos de programas, na maioria das vezes.

Um desses vídeos é da fase pré-videoteipe, pouca coisa foi registrada, como justamente o raro vídeo em que Hebe Camargo e o humorista Ivon Curi cantavam o primeiro número musical da televisão brasileira, "Noite de Luar", que Ivon compôs com Alberto Ribeiro (parceiro de Braguinha) e José Maria de Abreu. Esse vídeo data dos primeiros dias da televisão brasileira, em 1950.

Hebe Camargo sobreviveu para ver a era da MTV, da Internet, do YouTube, e uma de suas últimas aparições foi como garota-propaganda de um serviço de TV por assinatura. Era um dos maiores elos entre o que era a televisão no passado e a televisão de hoje.

Mas se atualmente, com a mediocridade televisiva atingindo até mesmo a MTV - além de rumores que alegam que a emissora ameaça ser extinta - , a morte de Hebe Camargo, às vésperas dela reestrear seu programa no SBT, após uma passagem na decadente Rede TV!, põe muita gente a pensar na crise televisiva e no desprezo às velhas lições.

A televisão de hoje não tem criatividade, ou, quando tenta criar, é através do vazio de ideias e de valores sócio-culturais. Pouco se salva. Temos a obsessão de ridículos programas de "variedades", mais preocupados em vender produtos "milagrosos" e dizer fofocas sobre famosos de terceira categoria, de programas policialescos exibidos abertamente até para crianças, de reality shows inúteis e outras barbaridades.

Temos até livros sobre a história da televisão, mas a mediocridade não deixa que mesmo estes livros sejam acessíveis ao grande público. Não temos mais uma TV Record como era no passado, e nem temos uma TV Tupi ou uma TV Excelsior.

Enquanto isso, vamos ter mais um Big Brother Brasil, ano que vem. Cujos integrantes não vão cantar "Noite do Luar", mas provavelmente "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tchá" e outras cretinices. E ninguém vai fazer teleteatro, seu "improviso" não será técnico, mas pela falta de ideias mesmo. A televisão ficou burra demais. E perdeu uma de suas ainda dedicadas professoras.

sábado, 29 de setembro de 2012

FERNANDO COLLOR E OS 20 ANOS DO IMPEACHMENT


Por Alexandre Figueiredo

A memória curta que se torna uma mania na sociedade brasileira até tentou apagar a lembrança do impedimento político do então presidente Fernando Collor, acusado de corrupção passiva e ligado ao tesoureiro Paulo César Farias.

No entanto, a força dos fatos mostra o quanto esse episódio foi marcante na história política do país, embora nele não sejam possíveis maniqueísmos, por ser um cenário bastante complexo de interesses e conveniências em jogo.

Fernando Collor foi o anti-Kubitschek, assim como Fernando Henrique Cardoso foi o anti-Vargas. Se FHC tentou "empastelar" muitas das conquistas do getulismo, sem aparentemente mexer - porque não é legalmente possível - nas conquistas legitimadas pela Constituição de 1988, Collor tentou uma "abertura econômica" oposta à do mineiro que investiu na construção de Brasília.

Até em relação a JK, Fernando Collor foi para o rumo inverso, substituindo produtos nacionais (mesmo fabricados por filiais de estrangeiras) por importados. E seu governo de medidas claramente neoliberais - houve até mesmo uma ameaça de privatização das universidades federais, em 1991 - , até mesmo o âmbito "cultural" foi extremamente oposto ao da Era JK.

Afinal, se durante os anos Kubitschek, a televisão era sofisticada e caminhava para o avanço da tecnologia do videoteipe, da redescoberta dos ritmos brasileiros regionais e da sofisticação da Bossa Nova, o Brasil de Collor era o da mediocrização generalizada com uma televisão mais grotesca e uma música "popular" mais cafona e artisticamente duvidosa.

Fernando Collor acabou simbolizando essa mediocrização sócio-cultural, a "salvação do país" por meio de paliativos, um populismo conservador e burguês, o falso progresso econômico às custas do fisiologismo político, as alianças espúrias com uma mídia mais politiqueira.

Evidentemente, Collor acabou, por acidente, contrariando interesses das classes dominantes. Não que ele fosse realmente contra elas, mas Collor era um Jânio Quadros mais yuppie (ironicamente, Jânio faleceu sob o governo do "caçador de marajás"), sem obter um apoio consistente do Congresso Nacional e bloqueando os depósitos da poupança até das classes ricas que o ajudaram a se eleger.

O esquema de corrupção armado por Paulo César Farias e do qual Collor atuava como parceiro poderia não ter causado o escândalo que causou. Foi preciso haver a indignação das elites contra o confisco das poupanças para que a grande mídia se voltasse contra Collor, e a própria Globo permitiu que se lançasse a minissérie Anos Rebeldes como "sugestão" para as passeatas estudantis.

Em que pese a imagem glamourosa das esquerdas no país, nessa época o movimento estudantil sucumbiu a uma fase burocrática, corporativista e partidária. Em 1988 eu pude ir a uma passeata estudantil no Liceu Nilo Peçanha, em Niterói, um protesto que percorreria as avenidas Marquês do Paraná e Roberto Silveira, para convidar manifestantes do colégio Abel. Mas, de repente, a manifestação foi dissolvida e não foi adiante.

As passeatas estudantis talvez tivessem manifestantes sinceros, realmente indignados com Collor. Mas por trás disso havia interesses de mera projeção política de vários líderes, e poucos anos depois a União Nacional dos Estudantes - em 1992 bem distante do idealismo cepecista de 1961-1964 e da coragem de enfrentar a ditadura na ilegalidade entre 1966 e 1968 - virou uma mera "fábrica de carteirinhas".

No final dos anos 90, cheguei mesmo a perceber a arrogância de certos membros da UNE em Salvador na hora de inscrição dos universitários para a carteira estudantil. Era horrível, os caras agiam de forma esnobe e irritada, pareciam indispostos a fazer aquele trabalho todo. Esses dois episódios foram entre 1988 e 1997. Foi dentro desse período a "heroica" fase da UNE no "Fora Collor".

Quanto à grande mídia, ficou parecendo que Fernando Collor havia sido seu Frankenstein. Com isso vieram reportagens investigativas sobre o esquema Collor-PC, incluindo depoimentos do falecido Pedro Collor, irmão e desafeto de Collor, além de rival empresarial de Paulo César Farias.

Foi a última fase de "idealismo" da grande mídia. A grande imprensa viu se encerrar uma fase de grande profissionalismo e grande idealismo. Ainda teria, de 1992 até 2005, alguma aura de supremacia diante da opinião pública mediana. Mas até lá vieram o caso Escola Base (notícia "plantada" de boatos), o crime de Pimenta Neves, a "invasão AM" nas FMs, o surto reacionário da imprensa conservadora, o paternalismo "sorospositivo" do projeto imperialista Jornalismo nas Américas.

Mas, até chegar a esse caminho, a imprensa, então cumprindo seu dever, influindo o Congresso Nacional a votar o impeachment de Fernando Collor. Processo que foi consumado no final de 1992, encerrando um breve governo de um político pouco expressivo trabalhado pela grande mídia.

A VOLTA "BUÑUELIANA" DE COLLOR

Como num filme de Luíz Buñuel, Fernando Collor se reabilitou politicamente tentando uma imagem oposta à que teve em 1989. Foi em 2005, quando Collor já era protegido da revista rival de Veja (que junto à Folha de São Paulo criou em 1988 o mito do "caçador de marajás" popularizado depois pela Globo), a Isto É.

Collor passou a apoiar seu antigo rival de 1989, o então presidente Lula, e tentava uma pose "progressista". Queria voltar à política como senador. Era filiado ao PTB que, nos tempos de Arnon de Mello, seu pai, era o partido de um rival político deste. A essas alturas o PRN de 1989-1990 havia desaparecido do quadro partidário brasileiro, sem deixar marcas.

Mas até no Orkut já havia uma "torcida" collorida e alguns lunáticos o compararam a Juscelino Kubitschek, o que, como foi escrito acima, nada tem a ver. Enquanto isso, o lobby da "progressista" revista Isto É, num tempo em que parte da imprensa conservadora mais branda, a "mídia boazinha", podia se contrapôr à ala mais radical , com Isto É contra Veja e Bandeirantes contra Globo, seguia defendendo Collor.

E aí Collor foi eleito senador, seguindo as linhas do fisiologismo político junto a seu ex-desafeto José Sarney. Ambos até queriam tirar um memorial existente no Congresso Nacional, certa vez. Collor, por sua vez, alternava momentos falsamente "progressistas" - como no episódio recente em que o senador cobrava a presença de Roberto Civita, do Grupo Abril, para depor na CPI do Cachoeira - com outros reacionários.

Entre os momentos reacionários, está o apoio de Fernando Collor pela queda do presidente paraguaio Fernando Lugo. Mas esse episódio, junto ao apoio oportunista de Collor à campanha contra Veja, só fizeram com que as esquerdas médias se omitam diante da hipótese de repudiar o senador e ex-presidente. Como na Bahia as esquerdas médias tentaram o silêncio diante de Mário Kertèsz.

Elas se sentiram seduzidas por Collor, seja pela mediocrização que ele simbolizou e que setores da sociedade dominante glamourizam - como a música neo-brega de nomes como Zezé di Camargo & Luciano e Alexandre Pires, "crias" da Era Collor - , seja pelo apoio tendencioso a Lula, seja pela associação com uma mídia conservadora mas "branda".

Collor, símbolo dos valores dos anos 90 que foraram o inconsciente de uma geração, teria de ser poupado. Deixem as análises sobre a gravidade da Era Collor para acadêmicos e analistas políticos. Fica uma impressão de que as pessoas mais jovens que os manifestantes do "Fora Collor", crianças em 1992, dificilmente estariam estimuladas a derrubá-lo. Principalmente agora, quando os anos 90 ensaiam uma onda saudosista.

A Câmara dos Deputados, há 20 anos exatos, aprovou por 441 votos a 38, o impedimento político de Collor. O julgamento e o veredito final foi deixado para o Senado Federal, e se consumou em 28 de dezembro. Itamar Franco tornou-se presidente interino no decorrer de 1992 e passou a ser titular depois de consumado o impeachment, governando o país até 1994.

Depois desse tempo, várias coisas ocorreram. Collor perdeu a mãe, Leda Collor (Arnon de Mello já havia morrido em 1983) e o irmão Pedro Collor. A viúva de Pedro, Tereza Collor, hoje está casada com outro empresário. O tesoureiro Paulo César Farias foi assassinado em 1996, com sua namorada Suzana Marcolino, num quarto de hotel em Maceió. Fernando Collor se divorciou de Rosane Malta (hoje sua desafeta) e se casou com uma mulher bem mais jovem que ele. Itamar Franco faleceu em 2011.

O "POPULAR" COMO FORMA DE ACOBERTAR OS PECADOS DA MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

A ditadura midiática é mais complexa do que se imagina. E, agora que o governo Dilma Rousseff é criticado pelas próprias esquerdas por estar financiando a mídia direitista, não se pode insistir naquele velho maniqueísmo entre todos os que se diziam apoiar o PSDB e outros que se diziam apoiar o PT.

Uma das futuras preocupações dos analistas de esquerda deverá ser com o rótulo "popular" que certos setores da mídia e do entretenimento usam para que sejam veiculados os piores valores sociais e morais, promovendo a mais descarada mediocrização cultural a partir de uma visão estereotipada do povo pobre.

Até agora, muitos acham que basta se apoiar no termo "popular" e nos seus símbolos discursivos para ser "progressista" assim na moleza. Grande engano. Interesses mercadológicos perversos, que incluem a mais aberta manipulação do inconsciente coletivo e na mais explícita domesticação das classes populares, estão por trás desse rótulo "popular" que ainda deslumbra parte da intelectualidade dominante de nosso país.

Pecados muito piores são acobertados pelo pretexto do "popular". E que permitem que o povo pobre seja marginalizado dos debates públicos do seu próprio interesse. Com isso, será moleza, por exemplo, quando o FMI aplicar no Brasil as mesmas medidas enérgicas que faz para resolver a crise na Europa. O "mundo encantado do popular" já teria dissolvido metade das passeatas potenciais de nosso país.

Vários aspectos indicam que esse processo é muito mais perverso do que se pode imaginar. Através desse entretenimento, valores retrógrados são dissolvidos em pretextos falsamente modernos para fixá-los nas classes populares. Estas são trabalhadas, pela mídia, como uma multidão ao mesmo tempo resignada e patética, como uma caricatura de si mesma.

Antropólogos, sociólogos, críticos musicais e historiadores considerados influentes, mas alinhados a um pensamento dominante de cunho neoliberal, tentam justificar esse processo de domesticação como a "mais saudável promoção da felicidade popular".

Com um discurso que lembra mais um marketing turístico, mas trabalhado até em monografias e documentários, glamouriza-se a miséria e a ignorância popular, frutos de conhecidas limitações de ordem social, política e econômica, promovendo-as como se fosse sinônimo de "felicidade" e "superioridade popular".

A televisão, o rádio e jornais e revistas, além de, agora, a Internet, manipulam boa parte da população das periferias para que elas se tornem uma multidão conformada com suas limitações sociais diversas. Lançam, quando muito, espaços de "catarse" coletiva, como os veículos, programas e eventos que ora banalizam a violência, ora exaltam a pornografia, ora promovem o fanatismo esportivo.

Programas de reality show e telenovelas desviam o povo do debate sério dos problemas comunitários ou dos problemas políticos mais profundos. Assim o povo não pensa em reforma agrária, não questiona a desnacionalização da economia, aceita o aumento de preços e o corte de investimentos em Saúde e Educação, enquanto "pensa" na "sister" do Big Brother Brasil que conquistou ou não seu "affair".

A mediocridade ainda se estende pela "multidão" de "popozudas" que, sob diversos "matizes" - uma é paniquete, outra é a Garota da Laje, outra é a "mulher-fruta" do "funk", outra é a "musa do Brasileirão", outra é a Miss Bumbum etc - , só trabalham para promover sua condição de mulheres-objetos, consistindo em fenômenos retrógrados e paródias machistas da emancipação feminina.

E a música brega-popularesca, medíocre, esquizofrênica, tendenciosa, cujos ídolos são mais celebridades do que artistas, dependendo de factoides para promover artificialmente seu sucesso, uma vez que culturalmente não possuem qualquer valor? E ainda há intelectuais que apostam nesses ídolos como "a nova expressão" da cultura "pós-moderna, hiperconectada e multifacetada" do que tais "pensadores" entendem como "cultura das periferias".

Tudo isso é garantido pelo rótulo "popular", que esconde o pior dos preconceitos vindos de intelectuais, celebridades e autoridades com as classes pobres. Para eles, o povo é "melhor" naquilo que ele tem de ruim, de pitoresco, piegas e patético, e os intelectuais, sobretudo, trabalham retoricamente para vender o mercadão consumista brega-popularesco sob a falsa imagem de uma "revolução sócio-cultural".

Com isso, não se melhora a vida do povo. Esse discurso todo apenas tenta calar as críticas de quem entende os problemas que estão por trás. O rótulo "popular" santifica os piores pecados, canoniza os piores algozes, trata visões altamente preconceituosas como se elas fossem a "ruptura" desses mesmos preconceitos.

Só que isso, em vez de melhorar a vida do povo pobre, apenas acoberta os problemas. Acoberta-se tudo: os pecados da mídia, os problemas sociais, os interesses das classes dominantes camuflados pelo termo "popular". E isso não é bom.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

DJAVAN LANÇOU NOVO DISCO. CADÊ AS RÁDIOS?


Por Alexandre Figueiredo

Para a intelectualidade dominante, a MPB só é "legal" quando pode ser cooptada pelo mercadão brega-popularesco.

Tentando isolar a ala mais sofisticada da MPB autêntica o máximo possível, a intelectualidade que, mesmo de formação neoliberal, faz proselitismo tanto na Globo, Folha e Caras quanto em Caros Amigos e Fórum, busca também afastar o restante da MPB autêntica para que, assim, a turma da Biscoito Fino (mas nem todos os seus contratados, diga-se de passagem) se reduza a um gueto "elitista" da música brasileira.

No entanto, sabemos que o apoio da intelectualidade para a MPB autêntica é tendencioso. Antes, atacava-se a MPB esquerdista de todo jeito, até Sérgio Ricardo, se aparecesse, "apanhava" da crítica musical. E atacava-se a Bossa Nova mais do que José Ramos Tinhorão.

A turma etnocêntrica só aceitava o Tropicalismo e seus derivados, como exceção à breguice dominante. Até que, nos últimos anos, precisa amaciar seu discurso para dar a impressão de que não são contra a MPB. Para justificar a "cultura de massa", até para futuras apropriações tendenciosas dos "ídolos populares", hoje se defendem artistas "malditos" da MPB autêntica ou a ala mais flexível da MPB sofisticada.

No entanto, isso não ajuda a MPB. Ajuda no mimetismo pedante dos ídolos brega-popularescos nos seus sucessivos discos ao vivo ou nos covers que ocupam boa parte de seus álbuns de estúdio, mas impede que a MPB autêntica alcance o grande público nas suas gravações originais.

Djavan é um exemplo. Ele era até uma figura com acesso relativamente fácil nas rádios, mas ultimamente anda restrito, quando muito, a rádios especializadas em MPB, que só existem em pouquíssimas capitais do país. Mas, de repente, a situação do músico alagoano radicado no Rio de Janeiro mudou completamente.

Com um vasto repertório de sucessos, ele virou, para o público mais rasteiro, um falso one-hit wonder, nome dado a cantores de um único sucesso em toda sua carreira. No caso, Djavan é "reconhecido" hoje apenas pela música "Oceano", enquanto outros sucessos autorais se "diluem" em regravações de ídolos brega-popularescos, principalmente do chamado "pagode romântico".

Djavan veio da geração de compositores e cantores dos anos 70, geração influenciada pelos ventos criativos dos anos 60. Como vários desses artistas, Djavan tem um estilo próprio, capaz de harmoniosamente assimilar influências de jazz fusion em vários momentos e, em outros, incorporar elementos da música de Dorival Caymmi.

Nos últimos anos, seu carisma e seu talento não adiantaram para ele ter mais acesso nas programações das rádios. Djavan nem dá mais qualquer sinal nas rádios "populares", a não ser pelos citados covers tendenciosamente gravados pelos "pagodeiros românticos" e cujo crédito de autoria é completamente ignorado pelo locutor que de modo imbecil conduz o cardápio musical do horário.

Antes, pelo menos, a MPB autêntica tinha um acesso maior nas rádios. Entre dois ou três sucessos popularescos, havia uma música de MPB tocando nas paradas de sucesso. Hoje somente em algumas rádios de pop adulto - cada vez mais apáticas, apesar do rótulo, bastante falso, de "rádios sofisticadas" - e nas raras rádios de MPB sintonizáveis no país.

E, o que é pior, aparentemente todo mundo "gosta" de MPB. Mas dá para perceber que a MPB sempre se encontra em plano secundário, como se fosse uma música estrangeira. A prioridade acaba sendo o brega-popularesco, que só "é também MPB" na imaginação fértil e demagoga dos intelectuais etnocêntricos.

Desse modo, a verdadeira música brasileira possui filtros que barram seu acesso ao grande público. Ou, pelo menos, dificultam esse acesso. E Djavan, um dos grandes cantores da nossa música, precisa do intermédio incômodo dos sambregas para que parte de seu vasto repertório seja ouvido pelo povo pobre. Que no entanto continua não tendo a menor ideia de quem é e o que faz Djavan.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

JANGO AINDA TINHA O "ÚLTIMA HORA"


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: João Goulart, mesmo em seus infortúnios, contou com o apoio fiel do jornal Última Hora e de seu proprietário Samuel Wainer. Com o golpe de 1964, porém, a coisa mudou, as maiores personalidades do país tiveram que ir para o exílio e a Última Hora acabou depois juridicamente "sequestrada" pela Folha de São Paulo, que se apropriou da marca (a partir da "compra" da edição paulista do periódico de origem carioca) para não publicá-la jamais. Curiosamente, uma manobra que Mário Kertèsz havia feito, na Bahia, se apropriando do nome Jornal da Bahia para que o jornal esquerdista nunca mais voltasse a circular.

Jango ainda tinha o “Última Hora”

Por Rodrigo Vianna - Blogue Escrevinhador

É claro que são conjunturas muito diferentes. Na época do Jango, havia a Guerra Fria. Os EUA desconfiavam de um presidente que se dava ao desplante de visitar a China comunista e que, apesar de grande proprietário de terras, era a favor da Reforma Agrária. Além disso, Jango governava com apoio do velho partidão (que, aliás, ele gostaria de tirar da ilegalidade). Lula/Dilma são líderes brasileiros de centro-esquerda, num Brasil onde a Guerra Fria acabou. Acabou?

Os EUA seguem sem gostar de governos que rechaçam golpes em Honduras ou no Paraguai. Não aceitam governos que adotem medidas, ainda que tênues, para redução da desigualdade. Não aceitam governos que tenham projeto de Estado nacional, como tinham Vargas e Jango.

O grande segredo de Lula/Dilma – e esse era também o segredo de Vargas/Jango – é que conseguiram atrair para a aliança governista as forças de centro. Jango caiu quando o PSD de Juscelino bandeou-se para a direita. Lula quase caiu porque no primeiro mandato fez a escolha errada: em vez de uma aliança com o PMDB, preferiu que o PT se acertasse no “varejo” com pequenas legendas conservadores (Valdemar Costa Netto, Roberto Jefferson e seus “partidos”).

Nos anos 50/60 ou agora no século XXI, a direita isolada (sem programa, e afastada do centro) refugiou-se no moralismo e na imprensa. A diferença é que Vargas e Jango, ao menos, tinham o “Última Hora” - jornal de Samuel Wainer, um dos poucos contrapontos à imprensa conservadora comandada por Lacerda e Roberto Marinho. Dilma e Lula nem isso possuem.

Digo tudo isso porque estou encantado com a leitura de “João Goulart”, a biografia escrita pelo professor Jorge Ferreira (UFF). É um catatau (700 páginas), como dizíamos na época da ficha telefônica e do telex. Mas um catatau que tira o fôlego.

Ferreira não escreveu apenas (e não seria pouco) uma biografia de Jango. A vida de Jango, na verdade, é o mote que ajuda a costurar o perfil de uma época. O livro se apóia em documentos, entrevistas, em memórias escritas por quem viveu próximo a Jango. Dois capítulos (8 e 9), especialmente, são brilhantes e nos ajudam a pensar no Brasil de hoje. O autor reconstrói os embates e as escolhas políticas de Jango, nos últimos 12 meses antes do golpe de 64.

A leitura nos leva para um mundo em que o golpe não era “inevitável”. Em nenhum lugar estava escrito que a direita deveria sair vitoriosa. A costura dos fatos, na miudeza da conjuntura politica de enfrentamento em 1963 e 1964, põe a nu também os erros da esquerda.

Brizola, Julião (e as ligas camponesas), trabalhistas de esquerda, movimentos de marinheiros e sargentos, intelectuais, sindicalistas, comunas liderados por Prestes e Hercules Correa… Todos eles acreditavam que tinham forças para prescindir do centro. Jango, não. Por temperamento, cautela ou moderação política mesmo, ele queria aprovar as reformas via Parlamento. E aí não tinha jeito: era preciso negociar, era preciso ceder para aprovar as reformas possíveis. A esquerda enquadrou Jango: isso seria conciliação com os conservadores!

A esquerda (ou “as esquerdas”, como prefere Jorge Ferreira) dizia abertamente que as reformas teriam que ser feitas no confronto. Se a institucionalidade entravava as reformas, às favas com a institucionalidade – pregavam alguns. A esquerda tinha uma visão puramente “tática” da democracia parlamentar. Em dado momento, acreditou que – pela mobilização popular e pelos apoios de grupos nacionalistas e reformistas nas Forças Armadas – poderia prescindir do centro.

Brizola mesmo, que nunca foi marxista, chegou a 64 com uma agenda em que a prioridade era fechar o Congresso Nacional, não para instaurar ditadura “comuno-sindical” como diziam os inimigos, mas para convocar uma Assembléia Constituinte formada por operários, camponeses, oficiais e sargentos nacionalistas (ver p. 422 em “João Goulart”, de Jorge Ferreira). Seria o rompimento com a velha ordem liberal. A esquerda tinha força pra isso? Acreditou que sim.

O PSD de Juscelino, então, foi-se embora da aliança. Só nessa hora é que Jango, sem alternativa, assumiu a agenda da esquerda trabalhista/comunista e foi para o famoso Comício da Central do Brasil, em 13 de março de 64. A descrição do comício, no livro, é primorosa. Para quem cresceu com a idéia de que militares e movimentos sociais devem ser – sempre e inexoravelmente – ”inimigos”, chocou saber que foi a cúpula das Forças Armadas que garantiu a segurança para que Arraes, Brizola, Jango e líderes sindicais e populares pudessem subir ao palanque no Rio – governado na época por um direitista (Carlos Lacerda).

Os círculos golpistas entre os militares, àquela altura, eram minoritários. A “esquerda” militar também era minoritária. A maioria dos soldados e oficiais simplesmente fazia seu trabalho. Quando a esquerda errou? Quando (e aqui volto a me apoiar no relato de Jorge Ferreira) assustou o oficialato mais “centrista”, dando apoio a greves de marinheiros e soldados. A “quebra de hierarquia” lançou a maioria silenciosa das Forças Armadas nos braços dos golpistas.

Jango ajudou a cavar a prórpia cova, é verdade. Acreditou no “dispositivo militar” do general Assis Brasil. Trocou de ministro da Guerra várias vezes. Não tinha um Marechal Lott. E fez escolhas erradas. Às vésperas do golpe, e isso Ferreira narra em detalhes, recebeu várias recomendações para não ir ao ato no Automóvel Clube no Rio – posse da diretoria da Associação de Sargentos. Jango foi. Os golpistas ganharam o pretexto de que necessitavam para o golpe.

Leio, escrevo e penso numa certa esquerda (entre a qual me incluo) insatisfeita com os titubeios de Lula/Dilma. A esquerda, hoje, tem força para avançar sozinha? Não. Jogar o centro no colo de PSDB/DEM seria o caminho para a derrota política e eleitoral. Lula/Dilma e o PT fazem a leitura correta, percebem que a famosa “correlação de forças” não permite arroubos.

Onde erram? Ao abrir mão de intervir com vigor, para fazer a mesmíssima “correlação de forças” avançar na direção de mais reformas.

Qual o pai de todos os erros? Comunicações. Lula e Dilma (essa mais ainda!) abrem mão de reformas nessa área. Lula acreditou que podia se comunicar direto com as massas. Em 2005, notou o erro. Dilma parece acreditar num “diálogo” com a velha mídia. Ficam reféns da correlação de forças, determinada (e pautada) pela velha mídia – apesar do contraponto dos blogs e redes sociais.

O erro não é apostar em governo de coalizão. O erro é não agir com mais firmeza -especialmente, nas Comunicações – para impor uma agenda mais avançada a ser sustentada pela ampla coalizão governista.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PROTESTOS NA EUROPA CONTRA AS MEDIDAS AUSTERAS CONTRA A CRISE



Por Alexandre Figueiredo

As políticas de ajuste impostas pela troica (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia) provocam indignação em vários países do mundo.

E, como a corda sempre arrebenta no lado mais fraco, países como Espanha e Grécia são duramente afetados, o que faz com que a população reaja severamente às imposições econômicas.

São as famosas medidas de cortes financeiros que, embora não resolvam a grave situação de desemprego existente nos diversos países europeus que adotam o Euro como unidade monetária, são feitas para salvar apenas as finanças das empresas e dos governos.

Na Espanha, protestos da multidão no centro de Madri, ocorridos ontem, foram duramente reprimidos pela polícia. Os manifestantes, que protestavam não somente na capital espanhola, mas também em outras cidades do país, queriam a renúncia do Parlamento espanhol e a convocação de novas eleições.

Os manifestantes estavam indignados contra a aceitação dos parlamentares às medidas austeras impostas à Europa. "Fora! Fora! Eles não nos representam", foram algumas das frases gritadas. A polícia reprimiu com violência aos protestos, deixando vários feridos. Alguns manifestantes também reagiram e feriram pelo menos dois policiais. 23 manifestantes foram presos.

Na Grécia, uma nova greve geral foi decidida, a primeira desde que o economista Antonis Samaras tomou posse como atual primeiro-ministro grego. Vários cartazes de protestos foram colocados em Atenas, um deles dizendo "SOS - o país deve ser salvo, mas acima de tudo sua população".

A paralização atinge vários serviços públicos, em protesto contra a aceitação de Samaras e seu governo de coalisão às medidas determinadas pela troica. Hospitais funcionam em ritmo lento e atendem apenas situações de emergência.

A Grécia recebeu uma ajuda de 13,5 milhões de euros - cerca de 1/13 avos do total a ser destinado ao país pelo Fundo Monetário Internacional e outros integrantes da troica - para cumprir um programa econômico que inclui o corte em vários benefícios previdenciários e o aumento da jornada de trabalho. Além da greve geral, vários protestos foram realizados pela população grega.

Hoje mesmo cerca de 50 mil pessoas participaram de uma manifestação no centro de Atenas, revoltadas com as medidas. "Não vamos nos submeter à troica!! Fora UE e FMI!", eram os principais gritos. A polícia também reprimiu com energia, lançando gás lacrimogêneo contra os manifestantes. O governo colocou no local de protestos 3 mil policiais, o dobro do número normalmente usado no lugar.

Como se vê, a crise europeia acontece, e se as soluções decididas não atendem aos interesses da população, protestos são realizados. Sem qualquer prioridade no espetáculo, afinal, é a realidade dura da população do Velho Continente que está em jogo.

A GLOBO E O INCONSCIENTE COLETIVO


Por Alexandre Figueiredo

Uma das lições que muitos brasileiros ignoram é quanto ao significado de discípulos e alunos de qualquer fenômeno associado a ideias dominantes.

Imaginam que o maior discípulo é aquele que bajula e endeusa seu totem, seja ele um mestre ou uma instituição.

Não, grande engano. O maior discípulo, o maior aluno e o maior seguidor é aquele que não necessariamente adora seu mestre ou qualquer outro totem, mas aquele que segue suas lições e seus princípios.

Pois existem discípulos maus que, bajulando seus mestres e adorando totens, no entanto deixam de seguir seus ensinamentos. Mas os maiores discípulos e seguidores são aqueles que, formalmente rompidos com seus mestres e totens, no entanto herdaram com impressionante fidelidade as suas lições.

Há vários exemplos disso, e mostram, mesmo fora do âmbito das Organizações Globo, o quanto ela influiu na construção de um inconsciente coletivo cujo raio de alcance atinge até mesmo aqueles que dizem odiar a chamada "vênus platinada" da famiglia Marinho.

Nos meus quinze anos de Internet, pude ver vários exemplos envolvendo vários ícones e totens da ideologia dominante, de uma forma ou de outra associados ou aliados do poder midiático. São vários aspectos, e várias situações, que nos leva até mesmo a desconfiar se a postura "anti-Globo" de algumas pessoas não passaria de jogo de cena, ou uma maneira de tentar agradar os amigos mais à esquerda.

Até na crise das "rádios rock", entre os anos 90, a influência da Globo torna-se notória. Como se não fosse suficiente a clara influência da linguagem "Jovem Pan 2" (então um paradigma de rádio pop "hostilizado" pelas ditas "rádios rock") na pretensamente "roqueira" 89 FM de São Paulo, o empresário e apresentador Luciano Huck, da Jovem Pan 2 e então nos primeiros anos de Globo, também exercia influência ideológica no público "roqueiro", mesmo estando ele "hostil" à sua figura.

Eram gírias clubbers, como "balada" e "galera", ou então o mesmo apetite por noitadas, esportes radicais e filmes de ação e histórias em quadrinhos que unia os clubbers da Jovem Pan 2 e os "roqueiros de butique" da 89 FM (e sua congênere Rádio Cidade, no Rio de Janeiro).

Seria até cômico ver essas "tribos" brigando mas compartilhando dos mesmos valores ideológicos, o duelo do 6 com o meia-dúzia. E até o locutor Zé Luís (hoje garoto-propaganda das Casas Bahia) era claramente influenciado no que Luciano Huck fazia na Jovem Pan 2.

O ufanismo esportivo de Galvão Bueno é outro exemplo da influência ideológica sobre pretensos detratores. O narrador esportivo é "odiado" por uma parcela dos brasileiros que, no entanto, seguem bem a sua histeria ufanista. Se não endeusam seu mestre, endeusam os totens que ele impõe, o que significa um endeusamento subsidiário, onde o totem maior é isolado numa aparente aversão, enquanto totens secundários trazidos pelo totem maior é que são endeusados pelos discípulos não-assumidos do mestre.

A "cultura" brega-popularescatambém influi na influência da Rede Globo no imaginário daqueles que dizem odiá-la. Até quando a Rede Record se apropria desses "pecados" da Rede Globo através do processo pejorativamente denominado "recópia". Torna-se até desculpa para dizer que os valores da breguice cultural veiculados pela Rede Globo "estão acima dos interesses da emissora".

Isso influi até mesmo em pessoas como o professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, que, falsamente "esquerdista", assina embaixo em todos os valores da velha grande mídia. Mas existem outras pessoas que exaltam a "cultura de massa" glamourizada e perpetuada pelas lentes "globais", mesmo quando, contraditoriamente, "avacalham" a Globo e copiam, para colocar no Facebook, aquela famosa charge de Carlos Latuff sobre o hipnotismo da Globo: "Sorria: Você está sendo manipulado".

Mas o inconsciente coletivo da Globo vai mesmo de forma indireta até mesmo em intelectuais como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches. O primeiro é claramente formado ideologicamente pela Rede Globo, pelo "inocente" papel de domínio cultural midiático da emissora dos Marinho no povo brasileiro, sobretudo pelo povo pobre.

A Globo, assim, age como formadora da "vontade popular", glamourizada apenas como mera "difusora" dessa "vontade". Uma "vontade" trabalhada em novelas, em programas de auditório, em trilhas sonoras, em telejornais, em campanhas publicitárias e outros programas, e em rádios e jornais ligados a grupos políticos direta ou indiretamente relacionados.

A glamourização do brega por Paulo César Araújo é, na verdade, uma glamourização de uma "cultura popular" cujos laços são mercadológicos e midiáticos, não mais os laços sociais naturais das comunidades. É a manifestação do inconsciente coletivo da Globo, seu grito de desespero diante das avaliações críticas contra seu mecanismo industrial e sua produção de ídolos considerados ultrapassados, mas que interessa ao mercado resgatá-los.

E Pedro Alexandre Sanches, discípulo de Fernando Henrique Cardoso, Francis Fukuyama e Otávio Frias Filho, também tem sua "inspiração global" para veicular suas ideias. A "cultura de massa" brega-popularesca tem relações intrínsecas de aliança com as Organizações Globo. Por exemplo, muito do sucesso de Amado Batista, Wando, José Augusto e Sullivan & Massadas no rádio carioca se devem ao braço radiofônico da Globo, a 98 FM.

Fora isso, temos a influência que as novelas da Globo exercem sobre o comportamento popular, o fanatismo esportivo condicionado por seus programas esportivos, o padrão de apreciação da "cultura de massa" através dos espetáculos de entretenimento da emissora ou do que as rádios tocam e as revistas mostram.

Nada disso é "cultura alternativa", nem "vanguarda cultural", e nem algo que esteja acima da mídia. O que veio de dentro da grande mídia não está acima nem fora dela, porque dela vive para sobreviver. Mas enquanto certas pessoas não admitirem que apreciam o poderio da Rede Globo, a qualquer momento seu inconsciente coletivo denunciará que no fundo eles não passam de tietes das Organizações Globo.

As pessoas são induzidas a acreditar que os valores veiculados pela grande mídia a partir das Organizações Globo são os valores próprios dessas pessoas. Os valores da mediocrização cultural, na medida em que recebem o rótulo "popular", são atribuídos a uma espontaneidade que, na verdade, não existe, e que está em pleno acordo com os interesses manipulatórios dos barões da mídia.

Um exemplo, para encerrar. Se um rapaz que "odeia" a Rede Globo pronunciar, num bate papo, a palavra "galera" várias vezes, é sinal que ele anda vendo o Domingão do Faustão. Não há como escapar, ele é tiete da Globo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

APÓS HERZOG, OUTRAS VÍTIMAS DA DITADURA PODEM TER NOVO ATESTADO


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Vladimir Herzog foi uma vítima de tortura que provocou uma séria crise no governo militar. Até então, os órgãos de tortura eram defendidos e apoiados pelo próprio governo ditatorial como instrumentos para a eliminação do que eles entendiam como "subversão comunista".

Mas a autonomia dos torturadores acabou se voltando contra a ditadura, com a ameaça de quebra da hierarquia militar, e o abuso dos torturadores, juntamente com os reflexos brasileiros da crise do petróleo lançada pelo Oriente Médio (devido ao aumento abusivo dos preços do petróleo), causou o colapso que resultaria no declínio da ditadura, tempos depois.

Diante do processo de busca de informações ocultas pela ditadura, através da Comissão da Verdade, o jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog foi o primeiro a ser oficialmente reconhecido como vítima de assassinato, já que seus torturadores lançaram oficialmente a versão de suicídio do jornalista, morto em 1975. E isso abrirá um precedente para que outras vítimas tenham novos atestados com o verdadeiro motivo de seus óbitos.

Após Herzog, outras vítimas da ditadura podem ter novo atestado

Do Portal Terra

O ex-procurador-geral da República Claudio Fonteles, membro da Comissão Nacional da Verdade, confirmou nesta terça-feira, no Rio de Janeiro, que a decisão da mudança do atestado de óbito do jornalista Vladimir Herzog, partiu da própria instituição.

"Por unanimidade, nós deliberamos que diante de um quadro evidente de que ele foi assassinado nas dependências do Estado, pelo serviço policial da repressão, oficial na época, e embasado por provas eloquentes, nós deliberamos, para provocar o Poder Judiciário, por meio dos juízes de registros públicos, para que fosse sanada aquela gravíssima omissão. E fizesse constar que esse digno brasileiro morreu vítima da violência arbitrária", disse Fonteles.

A mudança atingirá todos os que foram mortos pela ditadura, assegurou o ex-procurador. "Todos. Criamos o que se chama em direito do precedente prudencial. E todos, agora, podem seguir essa linha. Acho que foi um ponto altamente positivo".

A comissão não sabe, entretanto, quantos presos políticos poderão ser beneficiados. Fonteles ressaltou que isso vai depender muito dos parentes das vítimas. "Eles sabem. É muito fácil para todos nós. Procurem a comissão, apresentem o quadro, como fez Clarice Herzog e seu filho, e aí, pronto. Já temos o procedente e, imediatamente, andamos".

Fonteles participou da audiência pública Memória e Verdade, organizada pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão do Rio de Janeiro (Prdc-RJ). Indagado se o médico-perito que assinou o atestado de Herzog à época, Harry Shibata, poderia ser acusado de crime de falsa perícia, esclareceu que, criminalmente, o fato prescreveu. "Tem mais de 70 anos, a prescrição conta pela metade".

Ele declarou que o Brasil, "lamentavelmente, no direito penal, ainda é um País que estimula muito a impunidade". Para Fonteles, crimes graves não deveriam prescrever nunca. "Reitero isso fortemente. Crimes graves não podem prescrever".

Admitiu que a comissão já está investigando também os empresários que financiaram a ditadura. Mas não quis adiantar detalhes. "Posso dizer só isso: já temos alguns documentos para montar o quadro. Mas deixa a gente trabalhar um pouquinho mais. Nada será oculto". Previu que haverá novidades para relatar mais para o final do ano.

Em resolução publicada na edição do Diário Oficial da União do dia 17 de setembro, a comissão decidiu apurar os crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar, restringindo as investigações aos crimes cometidos por agentes públicos ou a serviço do Estado. A resolução indica, portanto, que supostos crimes atribuídos a opositores do regime ditatorial, que vigorou no Brasil de 1964 a 1985, não serão alvo de análise. De acordo com a assessoria de imprensa da comissão, a decisão atende a regras já previstas em lei e em acordos internacionais em que o Brasil é signatário.

A comissão concluiu que a queima de documentos e atas referentes ao período da ditadura pelos militares foi ilegal, oficiou a decisão ao Ministro da Defesa, Celso Amorim, para que os comandos militares se manifestem, o que não ocorreu até agora. Embora exista um crime no ato cometido, Fonteles ponderou que uma apuração de culpabilidade remeteria aos comandantes anteriores, que atuavam à época da ditadura, e não aos atuais.

O CONTROLE EMPRESARIAL DA "CULTURA POPULAR"


Por Alexandre Figueiredo

Em vários textos, já escrevemos sobre o controle empresarial da dita "cultura popular".

Sabe-se que eles não podem ser confundidos com a população das periferias, embora eles tenham que parecer "humildes", com suas empresas dotadas de estruturas "modestas" que disfarçam a ganância mercantil das mesmas.

Infelizmente, tudo é negócio. Nada é arte e cultura. A discurseira intelectual é conversa para boi dormir, afinal esses empresários, responsáveis pelos sucessos de estilos como forró-brega, "funk carioca", arrocha, tecnobrega, breganejo e outros, muitos outros, são empresários mesmo, e não "simples produtores culturais".

Geralmente esses empresários possuem atuação regional, mas estabelecem "parcerias" com redes de supermercados, lojas de materiais de construção e até mesmo com os grandes fazendeiros de sua região. Vale insistir que eles não são "pobrezinhos". Mas eles precisam dar a falsa impressão de que não são tão ricos quanto parecem. Quando muito, se autoproclamam "pobres remediados".

Os negócios que eles fazem com seus "produtos" - os cantores e conjuntos "populares" que estão sob sua tutela - são diversificados. Se eles se "emancipam", eles se tornam patrocinados por empresas maiores, como multinacionais e redes de televisão. É o caso dos ídolos neo-bregas dos anos 90, agora "grandes astros da música" tutelados por empresas como as Organizações Globo e companhias como Philips e Coca-Cola.

Infelizmente, nada na dita "cultura popular" midiática escapa ao controle empresarial. A coisa é tão séria que eles precisam disfarçar de toda forma possível, para não despertar desconfianças. Afinal, muitos dos nomes "populares" mais regionais são verdadeiras "armações", como muitos conjuntos de forró-brega ou mesmo vários nomes do "funk carioca".

Esses empresários precisam, por exemplo, evitar "carregar" visualmente pelo terno e gravata, preferindo roupas das mais informais possíveis. Precisam ser informais o tempo inteiro. Nos eventos de gala, até tentam "quebrar" os paletós com alguns tênis "arrojados" para "manter a jovialidade", mas nos bastidores seu poderio e seu autoritarismo são evidentes.

A situação ficou tão séria que hoje os compositores populares não têm mais vez. Quanto muito, precisam aderir às regras mercadológicas e escrever letras "safadas" e vendê-las para esses empresários. São compositores que nunca vão além de constrangedoras apresentações em pequenos bares.

Aí os empresários jogam as composições para os conjuuntos do momento, que gravam e tornam a música um grande sucesso, sobretudo nacional, se o empresário em questão tiver um dinheiro para comprar espaços nas redes de televisão e até na inclusão da tal música nas trilhas de novelas.

É muita ingenuidade acreditar que esse "negócio da música" é um inocente processo de laços sociais comunitários. O discurso intelectual tenta "mimetizar" os empresários entre o povo pobre da periferia. Tentam inventar que tais empresários do entretenimento "não têm" dinheiro para comprar sítios - embora vários deles tenham latifúndios - , mas estranhamente atribuem a eles um domínio tecnológico impecável.

Afinal, a intelectualidade tenta também criar um discurso "tecnológico", superestimando o poder revolucionário das redes sociais e das novas tecnologias. Esse discurso, bem ao gosto do imaginário neoliberal introduzido nos anos 90, no entanto cria contradições que atribuem erroneamente às classes pobres as conquistas tecnológicas acessíveis tão somente a uma meia-dúzia de "iniciados".

Desse modo, eles não conseguem esconder que os empresários do entretenimento regional são poderosos. Criam um discurso contraditório "qualquer coisa" e, sem desmentir réplicas, deixam para lá. A intelectualidade se beneficia pela visibilidade onde mentiras e meias-verdades viram "verdades absolutas" apenas por causa de quem transmitiu tais ideias.

Enquanto isso, os empresários do entretenimento regional, os grandes barões do entretenimento de cada localidade, são os verdadeiros "donos" da "cultura popular". Eles criam modismos, manipulam ídolos musicais, ditam as normas do mercado, comandam o esquema de jabaculê, muitas vezes com mãos de ferro.

No entanto, oficialmente, eles são apenas "pobrezinhos produtores culturais". Tão "modestos". Enquanto isso, o povo pobre é obrigado a consumir e a viver associado a essa pseudo-cultura altamente mercantilista.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

RITCHIE É USADO PARA DEFESA DE BREGANEJOS


Por Alexandre Figueiredo

Em mais um artigo neoliberal-pós-tropicalista-pós-moderno-meta-industrial-tecno-conectado, desta vez na revista Fórum, Pedro Alexandre Sanches aparentemente investiu num artista de MPB, o cantor Ritchie.

Sim, um artista de MPB autêntica, embora Ritchie seja de origem inglesa, nascido Richard Davis Court. Mas é porque seu compromisso cultural com o Brasil é muito mais autêntico e sincero do que o de muitos brega-popularescos que sonham com Miami e Nashville.

Não devemos esquecer que, no passado, tivemos também, por exemplo, Mário Zan, que era nascido na Itália, mas que tão sinceramente se envolveu no amor à cultura regional brasileira. Mas também vemos que até mesmo a cantora portuguesa Eugênia Melo e Castro é muito mais MPB do que muito breguinha pretensioso chorando feito bebê malcriado diante da mídia.

Mas como a apropriação de ícones da MPB por Pedro Alexandre Sanches - o discípulo pós-moderno mas meio envergonhado de Fernando Henrique Cardoso, o mesmo guru de José Serra, Geraldo Alckmin e do patrão-mentor-colega de Sanches, Otávio Frias Filho - é feita tanto para localizar a história fukuyamiana da MPB para nada antes de 1967 como para desenvolver uma "cultura de massa" brasileira, o colonista-paçoca lança mão de vivos e mortos para corroborar sua propaganda pessoal pelos ídolos bregas.

E aí uma reportagem politicamente correta, tecnicamente eficaz, sobre o cantor inglês naturalizado brasileiro, amigo tanto de Thomas Dolby (seu sócio num projeto de informática), Steve Hackett, Jim Capaldi (já falecido) e Steve Winwood quanto de Caetano Veloso, Gal Costa., Egberto Gismonti, Lulu Santos e Lobão (destes dois foi colega de banda no Vímama).

Sabemos do infortúnio que foi o mega-sucesso comercial de Ritchie, que através do seu álbum solo de estreia, Voo de Coração, de 1983, que deveria ser um álbum de tecnopop moderno introduzido no Brasil, mas acabou sendo desnorteado para uma divulgação brega que depois incomodou o cantor.

A fama equivocada de "sucesso brega" de "Menina Veneno", uma música que, pessoalmente, eu curto muito, tornou-se um "fenômeno" à parte, pelo direcionamento errado que o sucesso da música teve, sobretudo em rádios popularescas, que fizeram a má fama do cantor, que teve que optar por um semi-ostracismo e trabalhar com informática com Thomas Dolby, o cantor-tecladista de "She Blinded Me With Science".

Tendo quase abandonado a música, Ritchie é um daqueles casos de artista de MPB que paga pelos pecados cometidos pelos ídolos bregas. Desse modo, a mídia tenta manobrar a reputação de Gillard, Fernando Mendes e José Augusto para que eles invertam os "papéis" com gente séria da MPB como Vinícius Cantuária, Guilherme Arantes e Dalto.

Com Ritchie, não foi diferente. Um artista dotado de muitas informações musicais, desde quando era um garoto inglês que amava os Beatles e os Rolling Stones e depois passou a amar o rock progressivo - mas de forma equilibrada que o permitiu se indignar, com os ex-colegas do Vímana, com os delírios progressivos datados de Patrick Moraz, que os recrutou para uma depois abortada banda de apoio do ex-Yes - , acabou sendo visto erroneamente como um "cantor brega".

E aí veio, nos anos 90, a dupla Zezé di Camargo & Luciano gravar a música num arranjo grandiloquente e pretensioso para os vocais afetados da dupla goiana. Pronto. Ritchie agora pode pagar os pecados dos dois filhos de Francisco Camargo, enquanto Ritchie que se vire na sua carreira, carregando o fardo de "cantor brega", enquanto Zezé e Luciano fazem "MPB de mentirinha" nos palcos da Rede Globo e nas páginas da Folha de São Paulo e Caras.

Pedro Sanches, então, se apropria da reputação de Ritchie para tentar forçar a associação dele com o breganejo, como escreve no decorrer da reportagem. Tenta manipular para um sentido positivo o que para Ritchie foi uma crítica severa: o inglês não aprovou o sucesso de Michel Teló e Gusttavo Lima, apenas estranhou que, 30 anos após a eclosão do Rock Brasil, haja a "promessa de sucesso mundial" de cantores interioranos.

Sanches achou "ótimo". Tentou manobrar o discurso a favor de suas teses. Para Sanches, Michel Teló virou "sucesso mundial" e ponto final, só falta o jornalista defini-lo tendenciosamente como um "misto de Bono Vox com Julian Assange". Sabemos que esse "sucesso mundial" não passa de marolinha, que Teló só tocou em espaços de terceira categoria e mesmo sua aparição em listões internacionais é fruto de muito jabaculê.

Só que dizer que "Menina Veneno" tem a ver com os breganejos, como se houvesse uma "fina sintonia" entre ambos, é uma grande mentira. Pedro Sanches apenas forçou a barra na sua associação tendenciosa. Afinal, o breganejo, como todo ritmo brega-popularesco, não tem a natural sabedoria cultural que a MPB autêntica possui, porque sabedoria não é apenas acumular conhecimentos, mas saber processá-los, coisa da qual os bregas são totalmente incompetentes.

Mas talvez faça algum sentido, afinal Sanches quer receber passagens de graça para viajar para Goiás, para o interior do Paraná e para o Pará, fazer reportagens sobre eventos popularescos de lá com as despesas pagas pelo latifúndio. Faz parte do espetáculo do jabaculê que atinge a intelectualidade dominante em nosso país.

Tavinho Frias deve estar orgulhoso com seu ex-funcionário mas para sempre seu discípulo.

FERNANDO & SOROCABA E A "MPB DA REVISTA CARAS"


Por Alexandre Figueiredo

O que é a "verdadeira MPB", para certos bitolados da grande mídia? É uma equação matemática, movida a cifrões, que equaliza, nos "artistas" bregas, uma soma entre todo um clima de pompa e de luxo com o tal "apelo popular" desses ídolos.

Nada a levar a sério. Não se trata da verdadeira Música Popular Brasileira. O termo "verdadeira MPB" é apenas dito, a título de provocação, para empurrar ídolos meramente comerciais para redutos que não lhes seriam naturalmente apropriados, como aqueles onde se expressa a cultura de qualidade, em detrimento aos meros e fáceis campeões de vendas e de visibilidade.

E a grande mídia vai apoiando. Desta vez, temos as duplas de "sertanejo universitário", a praga patrocinada explicitamente pelos latifundiários de todo o país com o apoio dos barões da grande mídia, que tomam todos os espaços possíveis, até mesmo os centros urbanos antes resistentes a qualquer breganejo.E não é pela criatividade nem pela modernidade desses gêneros. Afinal, os "sertanejos universitários" não fazem coisa alguma de diferente ao que Odair José fazia há 40 anos atrás.

Até o pretensiosismo é o mesmo. A dupla Fernando & Sorocaba, do "hino da bebedeira", a música "Tô Tenso", já é uma xerox de Rionegro & Solimões, que por sua vez é xerox de Rick & Renner, dá um exemplo da arrogância inerente aos ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas em geral através de uma declaração dotada de puro cinismo.

Conta então Sorocaba, um dos membros da dupla: "Cada vez mais eventos desse tipo estão invadindo a noite paulistana. É um volume grande de shows, mostrando que a força do sertanejo é cada vez maior. Gradativamente estamos ocupando mais espaço. A música sertaneja é a nova música popular do Brasil".

É muito pretensiosismo, desculpa para desalojar a verdadeira MPB - sem aspas, aquela "abominável" MPB da Biscoito Fino e de nomes como Djavan e João Bosco (o autêntico, parceiro de Aldir Blanc) e do antigo folclore brasileiro - e o Rock Brasil, que já perdem os seus próprios espaços para dar espaço a tendências que já tinham espaços demais.

O breganejo pode não ser a mais oportunista das tendências derivadas do brega, como a axé-music, nem a mais demagógica dessas tendências, como o "funk carioca", e nem tão lasciva quanto o forró-brega. Mas sua carga de pretensiosismo, sobretudo através da vertente "universitária", é bastante conhecida, mas no fundo ela não passa de uma estética "emo" adaptada à "cultura caipira".

A propósito, Sorocaba também é produtor do novo disco da dupla Chitãozinho & Xororó, querida de Caras e do tucanato, dupla pseudo-sofisticada da geração de neo-bregas que dominou as paradas de sucesso nos anos 90 e que depois veio a se comprometer com a "MPB de mentirinha" armada pela indústria fonográfica.

Além do mais, a entrevista de Fernando & Sorocaba foi na revista Caras, do Grupo Abril. Ou seja, a Abril de Roberto Civita tem sua visão do que é "a nova MPB". É só verificar a revista Veja, com suas trapalhadas, seu tendenciosismo e outros defeitos piores, para ver o quanto a Abril "entende" de MPB.

É a forma da velha grande mídia de tentar deixar a MPB autêntica no limbo, enquanto rotula como "MPB" o brega-popularesco que em nada contribui para a Música Popular Brasileira nem para a cultura brasileira em geral, mas rende muito dinheiro e garante boas parcerias com os barões da grande mídia. Anos atrás, o DJ Marlboro, queridinho da Globo, disse no jornal O Globo que o "funk carioca" era "a verdadeira MPB".

Sim, o brega-popularesco é aliado da grande mídia. Isso é uma realidade que nenhuma monografia de intelectuais badalados consegue desmentir, mesmo com os mais rigorosos métodos acadêmicos. Porque mentiras "científicas" podem soar bonitas, colher aplausos das plateias e tudo o mais, só não dizem a verdade dos fatos.

Os brega-popularescos estão dentro da mídia grande, tão dentro que não querem sair. Mas, para dar a falsa impressão de modéstia, insistem em dizer que "estão fora da mídia". Suas aparições na Globo, Abril e Folha mostram, no entanto, o quanto eles agradam, e muito, os barões da grande mídia que enriquecem junto a esses ídolos tão "pobrezinhos".

domingo, 23 de setembro de 2012

THE VOICE E O ACADEMICISMO MUSICAL PELA GRANDE MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

É curioso. A intelectualidade dominante, quando atira contra seu alvo predileto, a MPB da Biscoito Fino, a acusa de academicista, escolástica, como se seus artistas fossem os "donos da canção popular".

Mas nunca se viu Chico Buarque, Olívia e Francis Hime ou mesmo a ex-ministra Ana de Hollanda alardeando na imprensa que só eles é que entendem de cultura popular, de folclore brasileiro. Nem sequer o "estadunidense" (segundo os detratores) Tom Jobim, que do contrário que muitos pensam, foi mil vezes mais gente simples do que todo o elenco da música brega brasileira dos últimos 50 anos.

No entanto, quando se trata da televisão fazer o seu academicismo, para a intelectualidade tudo bem. É a mesma conversa de reclamarem da "MPB pasteurizada" engomada e perfumadinha, quando os cantores se chamam Guilherme Arantes e Zizi Possi. Mas se eles se chamam Ivete Sangalo e Alexandre Pires, tudo se torna "admirável" e "promissor".

Os reality shows não são programas muito confiáveis ou criativos. Mas viraram uma praga na televisão em geral pelo seu baixo custo de produção e pelo baixo esforço de roteiro e direção. Se o SBT e a Rede Record já vinham com os seus "riélites" musicais - um deles com a participação do "roqueiro fora do eixo" Carlos Eduardo Miranda, totem sagrado da intelligentzia brasileira - , é a vez da Globo investir no The Voice Brasil.

O novo programa é uma franquia de um programa originalmente produzido pela TV holandesa, The Voice of Holland, produzido pela Talpa (atual Tien), produtora de John de Mol, também sócio-fundador da Endemol, dona da marca Big Brother, usada pela franquia Big Brother Brasil. Sílvio Berlusconi é também um dos sócios da Endemol.

A edição brasileira é puxada pelo sucesso da edição norte-americana, The Voice, que concorre com o American Idol e X-Factor. Aparentemente, são programas que apostam na profissionalização de cantores para impulsioná-los em carreiras comerciais com contratos fonográficos.

A Globo havia apostado antes em outro reality show, o Fama, que, assim como o Big Brother Brasil teve Jean Wyllys e Grazi Massafera, exceções que usaram o "riélite" apenas para se tornarem mais conhecidos, teve a excelente cantora Roberta Sá como um dos competidores. Em contrapartida, a cria do programa, o cantor de sambrega Thiaguinho, havia passado por um breve tempo no Exaltasamba e hoje inicia carreira solo.

A única diferença do The Voice Brasil é que os cantores a competirem já são profissionais com algum tempo na carreira. Em certos aspectos, é um ponto em comum com A Fazenda, da Rede Record, embora no caso do The Voice os competidores não sejam famosos com risco de cair no ostracismo, mas músicos considerados emergentes.

PROGRAMA NÃO REPRESENTA RENOVAÇÃO REAL PARA A MÚSICA BRASILEIRA

O programa tem apresentação de Thiago Leifert, na sua primeira investida em rede nacional fora do telejornalismo esportivo, e da atriz Danielle Suzuki. O júri é formado por dois cantores ligados à MPB, Carlinhos Brown e Lulu Santos, e dois ídolos brega-popularescos, a cantora de axé-music Cláudia Leitte e o crooner breganejo Daniel.

A julgar pelos propagandistas do programa, como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó e Thiaguinho - nomes associados ao pedantismo neo-brega dos anos 90, sendo Thiaguinho seu expoente mais tardio - , o programa apenas será um "alimentador" do mercado de sucessos musicais brasileiro. Quem esperar que The Voice Brasil vá renovar a Música Popular Brasileira está redondamente enganado.

Primeiro, porque o profissionalismo musical não significa necessariamente maior valor astístico. Aqui os intelectuais que esculhambam a MPB da Biscoito Fino deram um tiro no pé. Preferir artistas amestrados pelo mercado e pela mídia, fazendo ora uma MPB mais inofensiva e "feijão com arroz" - que nada traz de novo em relação ao que já foi feito - , ora um brega-popularesco mais pedante e pretensioso, do que a MPB mais sofisticada, é um contrasenso.

Afinal, é a mesma mentalidade do hit-parade norte-americano, que vende uma imagem de falsa sofisticação artística às custas de nomes como Whitney Houston, Celine Dion e Michael Bolton. Isso é que é academicismo, que "ensina" um padrão comercial e asséptico de "grande artista", que não é mais do que um crooner flexível às regras do mercado.

Os próprios neo-bregas, como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Cláudia Leitte e Daniel, já têm tal "experiência", de ganharem banhos de loja, técnica, tecnologia e marketing para passar uma imagem mercadológica do que a grande mídia entende como "grandes artistas".

Isso é que é a tal "MPB de revista Caras". Pois a revista Caras está cheia desses nomes, virou o reduto maior dos neo-bregas, a ala pseudo-sofisticada da música brega surgida nos anos 90 (com alguns reflexos em 2002-2003). E, a julgar desse apoio dos neo-bregas, o programa nem de longe será um marco para a música brasileira. E Carlinhos Brown e Lulu Santos estão mais como "contrapontos" no programa e são nomes de muito sucesso.

Aliás, fica muito estranho depender da Rede Globo para a renovação da música brasileira, se nem a Rede Record é capaz de reeditar os festivais de MPB dos anos 60. Não temos uma nova TV Excelsior, e a MPB autêntica só possui espaço próprio e integral em programas de emissoras educativas.

O The Voice Brasil apenas colocará novos nomes para as "rádios populares", FMs também conhecidas pelo seu controle oligárquico mais explícito, embora não reconhecido pela intelectualidade dominante. E já que tudo é mercado no entretenimento dominante de hoje, não será The Voice Brasil a exceção esperada.

Portanto, deixemos de ilusões. The Voice Brasil está muito mais para os programadores de rádio do que para os verdadeiros estudiosos da música.

sábado, 22 de setembro de 2012

SOM LIVRE E SEU PODERIO MIDIÁTICO NA MÚSICA


Por Alexandre Figueiredo

Certa vez, Pedro Alexandre Sanches afirmou, em entrevista, seu horror em saber que a gravadora de MPB autêntica, a Biscoito Fino, tem na sua participação acionária executivos de um banco privado, que sabemos ser o Banco Icatu, do setor de investimentos.

No entanto, Sanches ignora que a gravadora Som Livre, que contratou muitos dos "heróis" do colonista-paçoca, como Gaby Amarantos e Michel Teló, além de um Thiaguinho que "descobriu" Wilson Simonal há pouco tempo, tem a participação acionária de ninguém menos que os irmãos Marinho.

Sim, até o reino mineral sabe que as Organizações Globo são donas da Som Livre, que é só muita ingenuidade para tratar a gravadora como se fosse uma "gravadora independente". Surgida em 1969, a Som Livre pode até ter se inspirado nos hippies para adotar este nome, mas com o tempo a gravadora, que se alimentou no mercado de trilhas sonoras de novelas, tornou-se um paradigma do que é a indústria fonográfica brasileira.

Só por ser uma gravadora brasileira, a Som Livre não está fora do contexto do comercialismo que transforma as grandes gravadoras em "vilãs" do meio artístico. A diferença é que o mercado brasileiro possui caraterísticas próprias, como a estranha ênfase no lançamento de CDs e DVDs ao vivo, mas nem de longe isso significa uma ruptura com as regras mercantilistas ditadas pelas grandes gravadoras mundiais.

Pelo contrário, a Som Livre - cuja razão social havia sido SIGLA (Sistema Globo de Gravações Audiovisuais Ltda.) e hoje é Globo Comunicações e Participações S/A - atua como "alimentadora" do mercado fonográfico dominante, tanto em caráter nacional/internacional quanto em caráter regional. Em muitos momentos, a Som Livre lança discos de carreira em parceria com outras gravadoras, numa espécie de "pool" fonográfico.

A Som Livre "alimenta" o hit-parade veiculado no Brasil, através de canções nacionais e estrangeiras que precisam emplacar nas trilhas sonoras de novelas para virarem sucessos radiofônicos. É a alma do negócio. E, independente da qualidade musical, a Som Livre exerce seu poder comercial como qualquer gravadora estrangeira instalada no Brasil.

Ultimamente, a Som Livre também atua como "alimentadora" do mercado regional do brega-popularesco, estabelecendo parcerias com mercados regionais, seja para lançar ídolos esquecidos, seja para promover nacionalmente modismos regionais, como o arrocha baiano e o tecnobrega paraense.

E, é claro, a Som Livre não deixaria de estar na "receita do bolo" da aliança entre o "funk carioca" e as Organizações Globo. Pois é sabido que, enquanto o "funk carioca" mentia para os esquerdistas medianos ao dizer que "era discriminado pela grande mídia", ele estabeleceu verdadeiras parcerias contratuais nos mais variados veículos e programas ligados às Organizações Globo, até de forma bastante explícita.

Atualmente, a Som Livre canaliza os atuais sucessos do brega-popularesco, como as gerações pós-bregas do "sertanejo universitário" (como Michel Teló, Luan Santana, Jorge & Mateus), tecnobrega (Gaby Amarantos), axé-music (Cláudia Leitte), "funk carioca" (DJ Marlboro) e outros. E, curiosamente, existe até mesmo um setor "gospel" de cantores e conjuntos contratados pela Som Livre, a despeito da rivalidade entre a Globo e a Record de Edir Macedo, por sinal dono da Line Records.

Portanto, só mesmo desinformados, ingênuos ou aqueles que querem mesmo enganar a opinião pública para tratar a Som Livre como se fosse uma gravadora independente. Isso seria localizar, no âmbito cultural, as Organizações Globo num contexto de mídia alternativa que nada tem a ver com seus interesses e sua realidade.

A cultura não está fora do contexto sócio-político e midiático em que vivemos, e se as Organizações Globo exercem um poderio midiático estensivo ao âmbito político, no âmbito cultural esse poder não está ausente. E o comercialismo da Som Livre é parte integrante do projeto de poder da Globo, não pode ser vendido separadamente.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

SÔNIA LEITE É ESTRELA: MAIS UMA A BRILHAR NO ORUN


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Depois de Carlos Nelson Coutinho, mais uma figura da esquerda brasileira perde a vida por causa do câncer.

Sônia Leite, uma das mais dedicadas ativistas do movimento negro brasileiro, era uma das fundadoras da Comissão de Negras do PT e fez parte da Articulação de Mulheres Negras e Direção da CONEN. Era também auditora do Tribunal de Contas da União e era empenhada pela preservação da cultura negra brasileira e pela luta contra o racismo.

Seguem uma nota da blogueira Sulamita Esteliam e, em seguida, um texto que a própria Sônia publicou há quatro anos numa publicação sobre feminismo pela Fundação Perseu Abramo.

Sônia Leite é estrela: mais uma a brilhar no Orun

por Sulamita Esteliam - Blogue A Tal Mineira

Sônia Leite, no ato pelo Dia Internacional da Mulher em São Paulo, 2007 – Foto: Carol/Marcha Mundial de Mulheres

Sextas deviam, por direito, ser dias felizes, a acenar com o fim de semana de ócio e lazer, preferencialmente. Nesta sexta, entretanto, Dia Internacional da Paz, os movimentos sociais e de mulheres no Brasil estão de luto pela perda física de Sônia Leite, da Marcha Mundial de Mulheres, do movimento negro, do movimento de mulheres negras, da CUT e do PT. Um câncer a levou. O enterro ocorreu esta tarde, no Cemitério Vila Alpina, em São Paulo. Muita luz para ela, e serenidade e força para quem fica.

A notícia me chega via Rede Mulher e Mídia, através da blogueira, feminista e ativista do movimento negro, Mônica Aguiar, do blogue Mulher Negra, mineira de Belo Horizonte. Toda a Rede se manifesta com tristeza e saudade.

Sônia Leite é fundadora da Comissão de Negros/as do PT, que mais tarde se tornaria secretaria. Assessorou o deputado Vicentinho em seu primeiro mandato, Integrou a Articulação de Mulheres Negras, Marcha Mundial de Mulheres e a Marcha da Consciência Negra; ajudou a organizar a X Conferência de Mulheres Latino-Americanas e do Caribe, em SP, 2005, dentre outras.

Todos os que com ela conviveram de perto, a definem como “mulher guerreira, talentosa, amiga, que sabia ouvir e compartilhar”.  Há de brilhar no Orun.


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Saravá! Mulheres negras da esquerda brasileira - Invisibilidade histórica

Por Sônia Leite - In: PAPA, Fernanda e JORGE, Flávio (orgs.). Reflexões com Mulheres Jovens do PT: O Feminismo é uma Prática. São Paulo: Fundação Friedrich Ebert e Fundação Perseu Abramo, 2008.

A invisibilidade da mulher negra é o dilema que acompanha a sua trajetória de luta desde o período da escravidão aqui no país. Estas mulheres ficaram secundarizadas e por vezes esquecidas.

No período pré-Abolição, estas mulheres tiveram papéis relevantes, eram quem circulava “de lá para cá” trazendo e levando notícias. Era o princípio da informação. Isso ocorreu porque as mulheres negras estavam em diversas frentes de trabalho, estavam no leito, estavam na casa grande e, principalmente, acompanhando as “sinhazinhas” em seus passeios. Por conta disso, eram as escravas que podiam levar notícias de uma estância a outra, de forma precária mas eficaz. Foram elas que iniciaram esta corrente embrionária de informações de quilombo para quilombo.

Por outro lado, sempre que lembramos do maior quilombo da história, o Quilombo dos Palmares, entendemos o que significa a invisibilidade da mulher negra. Todos já ouviram falar de Gangazumba - Zumbi dos Palmares. Mas e a referência histórica de Dandara? Às vezes aparece como a esposa de Zumbi. Acotirene, então, só as feministas negras trouxeram à contemporaneidade.

Mas Dandara era uma guerreira do quilombo e Acotirene era sacerdotisa, aquela que orientava os guerreiros e seus planos de guerra no Quilombo de Palmares. A importância delas era vital, mas outra vez foram secundarizadas. Aqui não cabe nenhum senso de juízo sobre as importâncias históricas estabelecidas na saga de heroísmos que foi o Quilombo de Palmares, mas serve de parâmetro para notarmos como fatos históricos são omitidos. O racismo ocultou e transformou a história de Zumbi de Palmares, por muitas décadas, em uma lenda, retirando o caráter de herói para ser uma figura mítica, fruto da imaginação dos escravos brasileiros e seus descendentes. Podemos afirmar que, paulatinamente, o machismo acabou contribuindo para ocultar figuras tão importantes como Dandara e Acotirene e outras mais que perderam suas vidas heroicamente na luta contra a barbárie da escravidão.

Resistência histórica

Mas a mulher negra, independente do reconhecimento histórico, sempre esteve presente nas lutas de seu povo. Aqui, em nosso país, a história da população negra esteve submersa durante décadas e reconduzida ao seu espaço como forma de resistência e auto-estima de seus descendentes através das lutas contemporâneas e da reafirmação da participação dos negros e das negras na construção desta nação e da luta pela eliminação do racismo, herança da escravidão.

A mesma garra que as mulheres negras tiveram para resistir no período da escravidão, se manteve quando lhe imputaram as mais duras formas para sobreviver, ou melhor, como  todos os escravos passaram a ser coisas. Este foi o processo de “coisificação” da população negra e escravizada. E à mulher negra couberam os estereótipos de ama de leite e mulata exportação, ambos ligados ao ato de servir.

O período pós-Abolição realçou a força da mulher negra. É ela quem vai às ruas com o cesto de frutas na cabeça, é ela quem lava a roupa, cozinha e é ela quem mantém a cultura de seu povo através do culto aos 0rixás, Inkisses e Vodus, preservando o hábito adquirido no período da escravidão e que, através do sincretismo religioso, representou por vezes seus santos através da imagem dos santos da igreja católica. Foi esta mesma mulher quem formou as Irmandades nas igrejas e nessas Irmandades, mais uma vez, fez a rede de informação.

Nesta época, as Irmandades dos homens de cor eram sustentadas pelo trabalho das mulheres negras e foi por meio destas Irmandades e dos Candomblés que a população negra se reorganiza em terreno hostil.

Cabe salientar que o governo brasileiro não ofereceu nenhum tipo de indenização à população negra escravizada. Comentava-se, na época, que ao negro bastava dar um pau, um pão e um pano (um pau para matar os animais com quem conviveria na floresta, um pão para matar a fome pelo menos por 24 horas para seus antigos donos não serem acusados de suas mortes, e um pano para cobrir suas vergonhas).

Foi proibida no Brasil a entrada de africanos e asiáticos na pós-Abolição (ação levada a cabo pela Coroa Portuguesa, que projetava a nova Europa, branca, projeto quase impossível com os quase setenta por cento de negros e negras remanescentes da escravidão espalhados pelo país).

A República não alterou o quadro de desigualdades sociais que começava a ter novos contornos. Já não existia mais o ânimo de transformar o Brasil em uma nova Europa, mas os  negros e negras ainda não eram considerados cidadãos com direito de cultuar seus santos, de lembrar a África. Começa a ser gestado o racismo à brasileira ou racismo cordial ou a democracia racial. A hostilidade frontal passou a ser escamoteada, escondida em maneirismos nos idos de 1930, especificamente a partir do tratamento sócio-cultural dado ao assunto por Gilberto Freyre em seu Casa Grande e Senzala, de 1933, que buscava apaziguar as relações, trazendo o maniqueísmo do senhor mau e do escravo servil-submisso. A idéa era de criar uma nova raça brasileira, o Brasil moreno, com referencias européias e esquecimento das referências africanas; era virar as costas para a África.

A Frente Negra Brasileira foi um instrumento utilizado pelos negros e pelas negras brasileiras para trazer a problemática da não inserção dos então chamados “homens de cor” na sociedade brasileira. Junto à Frente Negra surgiram várias manifestações de revalorização da população negra. Desta forma, ressurgia também a beleza negra por meio dos vários concursos feitos pela comunidade negra organizada (Bonequinha do Café, Bonequinha de Piche, se hoje parecem esdrúxulos, na época eram oportunos, pois levavam aquela mulher negra tão estereotipada a ter orgulho de sua cor).

Quanto mais negra, mais bonita! Valorizar aquelas mulheres que hoje têm na função de doméstica um emprego em grande escala, mas sem nenhuma valorização. Foram importantes os grandes bailes organizados, por quase todo estado de São Paulo, criando bolsões de revalorização da raça negra, na contramão da democracia racial, que preconiza o afastamento destes valores e exaltava a mistura de raças, desde que sumissem os traços da África negra.

A mulher negra, mesmo neste clima hostil, participava das lutas pela emancipação no Brasil. Cabe abrir um parêntese para relacionar algumas ações de mulheres negras, símbolo de resistência: Em 1920, a despeito do caráter pequeno burguês existente na Federação Brasileira do Progresso Feminino, a entidade trazia algumas afrodescendentes em suas fileiras. Almerinda Farias Gama, uma das militantes afrodescendentes que se destacou junto com Bertha Lutz, criando o Sindicato das Datilógrafas e Taquigrafas e, posteriormente, abandonou a FBPF por achar que as mulheres que lá estavam eram da elite e não se preocupavam com os problemas das mulheres trabalhadoras. Na Bahia, em 1940, temos Maria Brandão, militante do PCB e, em 1934, tivemos a eleição de Antonieta de Barros, professora negra, filha de proletários de Santa Catarina. Nos idos dos anos 1950, víamos a primeira ação de classe ligada à mulher negra: o Conselho Nacional de Mulheres Negras, criado por domesticas, um exemplo, entre outras ações louváveis entre 1934 e 1950.

Anos 1960/1980: anos de luta

Na contramão da ditadura. aqui no Brasil, os movimentos sociais se organizavam. Nos anos 1970 o movimento negro dinamizava sua participação política junto às tendências pan-africanistas, as novas lutas travadas por negros da diáspora nos Estados Unidos e na França, lutas pelos direitos civis, Negritude de Aimé Césarie, lutas de caráter frontal contra o sistema, como a ação dos Black Panther, nos Estados Unidos.

A valorização do ser africano traz uma nova estética ao movimento negro, além da discussão sobre a existência do racismo no Brasil, desbancando a teoria governamental da democracia racial. Discutia-se também a mudança de sistema e o socialismo passava a figurar como uma opção de luta. Havia o entendimento de que o racismo era um componente de opressão do regime em curso, o capitalismo, que crescia.

Nesta época, nos idos dos anos 1970, destacamos a presença de Lélia Gonzáles, mulher negra e feminista que questionava o racismo e o machismo como componentes de opressão. Quem também dialogava sobre esta tese era Ângela Davis, uma das únicas mulheres da frente dos Panteras Negras, de Malcom X.

De 1978 a 1980 temos um boom de crescimento na organização da mulher negra no Brasil. Cabia ainda a esta mulher protagonizar a luta contra o racismo e contra o machismo. Surge a teoria da tríplice exploração da mulher negra, por ser negra, mulher e estar inserida na população pobre do país.

Surge a teoria da tríplice exploração da mulher negra, por ser negra, mulher e estar inserida na população pobre do país. Estes limites não intimidaram a mulher negra que seguiu na sua saga ancestral, participando das ações tanto do movimento negro quanto do movimento feminista. Questionando o movimento negro e o movimento feminista.

As mulheres negras iniciam uma nova fase na qual a visibilidade era a meta.

Mulher negra buscando a visibilidade

“Eu, mulher negra, existo”. Esta era a premissa do movimento embrionário de mulheres negras para mostrar a nossa existência e como sujeito político atuante na frente de lutas. Éramos invisíveis, o empoderamento era dado aos homens no movimento negro e às mulheres brancas, no movimento feminista.

Como exemplo temos o 2º Congresso Feminista, realizado em São Paulo, no qual uma militante feminista do Movimento Negro Unificado, Leni de Oliveira, questionou a ausência de mulheres negras nas mesas de discussões. Houve um impasse e mau estar, pois não era justificável aquela ausência, a não ser por um não entendimento de que o racismo e o machismo caminham na mesma esteira de opressão.

Mas a década de oitenta foi fértil para as mulheres negras. Várias entidades surgiram e a discussão da participação como protagonista da sua própria história cresceu. De Antonieta de Barros a Benedita da Silva, podemos traçar uma trajetória de inserção da mulher negra em todas as frentes de luta democrática no país; da tentativa de Almerinda, lá atrás, em 1934, tentando estar na Assembléia Constituinte, à bem sucedida eleição de Francisca Trindade, no Piauí, eleita em 2002 em um território de tradição de coronéis em eleger homens brancos, mostrar que a mulher negra optou pelo caminho da esquerda brasileira. Estivemos no Araguaia, símbolo de resistência contra a ditadura, com a participação de Helenira Resende, estudante da USP, vice-presidente da UNE. Estamos hoje com Marina Silva, a guerreira contemporânea da luta do povo da Amazônia contra o flagelo da destruição do ecossistema da floresta e o aniquilamento de seu povo.

Temos que lembrar que com o advento dos partidos políticos após a ditadura, em especial podemos consignar a dois partidos políticos a discussão racial como um componente para mudança social no Brasil: PDT e PT. Em primeira instância, o PDT, que trazia nosso Abdias Nascimento e, posteriormente, a militância do PT.

Esta militância do PT trouxe ânimo às mulheres negras organizadas. Lélia foi militante e dirigente do PT, a maioria das mulheres negras eleitas pertence ao Partido dos Trabalhadores, as militante negras de ponta, mesmos as que foram para outros partidos, iniciaram sua militância no PT, como Dulce Pereira, que foi a primeira mulher negra contemporânea a exercer cargo de destaque em governo federal (embaixadora do Brasil em 2001 ao assumir a Secretaria Executiva da Comunidade de Países de Língua Portuguesa).

Na atualidade, tivemos três mulheres negras (uma delas permanece) em funções ministeriais no governo Lula. Sem dúvida, o governo que mais colocou negros e negras em cargos de primeiro escalão.

Na área sindical, destacamos a participação da companheira Neide Fonseca, que durante anos foi presidente de um instrumento intersindical importante para a América Latina, o INSPIR, ligado a várias centrais, com o intuito de discutir a luta anti-racismo no mundo do trabalho.

Da favela para a Câmara do Rio de Janeiro, Jurema Batista. Valeu a pena o esforço da Joana Angélica, que liderou as mulheres negras de favelas do Rio de Janeiro para ocupar o espaço no III Encontro Feminista Latino Americano e do Caribe, realizado em Bertioga (SP).

Valeu à pena acreditar que a luta racial junto com a luta contra o machismo transforma. E vale a pena entender que este instrumento pode pertencer a todas, que a luta é coletiva.

É bom poder louvar meus santos em ioruba, bantô, angola -nagô e acreditar no poder libertário da revolução permanente de Trotsky. Saravá é uma expressão “bantisada” que muitos usam para se referir a religiões de matrizes africanas. Mas Saravá é uma forma sincrética de dizer “como a senhora vai?“, mas também hoje serve de saudação de orgulho e estima, com a qual quero terminar meu texto. Saudamos pessoas que introduziram várias gerações neste caminho de luta e que nos dão orgulho de todo dia sermos mulheres negras. Nós, mulheres negras, existimos!

Saravá Lélia Gonzáles, que reafirma a nossa fé na luta e no cotidiano de ser mulher negra. Saravá Beth Lobo, que me mostrou que a classe operária tem dois sexos. Saravá Flávio Jorge, que me mostrou que na luta pelo socialismo temos também que lutar contra o racismo. Saravá Roseli, do Grupo Negro da PUC, que me mostrou que sem Orixá não temos raízes, então nada somos.

Sonia Leite, militante da Coordenação Nacional de Entidades Negras - CONEN, da Articulação Sindical e Popular das Mulheres Negras e do Partido dos Trabalhadores

A APROPRIAÇÃO DE ÍCONES ESQUERDISTAS PELO POP


Por Alexandre Figueiredo

A música pop, em sua história, é marcada pela apropriação de ícones esquerdistas como forma de exposição, quando o comercialismo pop precisa se alimentar através de posturas "polêmicas" para vender mais e repercutir mais ainda.

Desde a famosa apropriação comercial da imagem de Che Guevara - a famosa foto em que o militante político aparece sério, parecendo olhar para um horizonte - , as esquerdas passaram a viver dessa "$olidariedade" pop, na verdade alimentando a promoção publicitária de outros.

Até mesmo os tropicalistas Caetano Veloso e Gilberto Gil, que introduziram no Brasil a "cultura de massa" como conhecemos hoje através dos paradões da Billboard, MTV e outros nos EUA e Reino Unido, se apropriaram da imagem do comunista Carlos Marighela, sem que os dois sejam, de fato, esquerdistas, pelo menos dentro da visão analística que a esquerda mais crítica faz da realidade.

Emicida, convenhamos, é um ídolo pop, dentro do contexto da formatação do hit-parade promovida pelo Coletivo Fora do Eixo, que pretende redesenhar, com ênfase nos padrões neoliberais brasileiros, o mercado cultural do país.

Sabando trabalhar sua imagem de marketing, Emicida é um "engajado" de maneira mais "avançada" que Chorão, do Charlie Brown Jr, já que Chorão, apesar da dita "rebeldia" que tentava expressar, era muito preso aos clichês dominantes da mídia. Em outras palavras, bem menos sutil, já que era muito vago no seu discurso de "conscientização social" - ele se limitava a dizer coisas imprecisas como "Fique esperto, galera (sic)" - e aceitava divulgar seu discurso em espaços menos verossímeis como o Planeta Xuxa.

Emicida, sem ser realmente revolucionário, tenta um discurso bem mais sutil. É como se um nome do hip hop norte-americano tivesse o poder de autopromoção de Lady Gaga, o nome que mais representa hoje a apropriação dos mais diversos elementos da realidade como forma de autopromoção comercial.

O rapper brasileiro, que levou vários prêmios do Vídeo Music Brasil 2012, ostentou uma bandeira do Movimento dos Sem Terra e fez um discurso para os moradores de uma favela incendiada em São Paulo. Meses atrás, ele foi preso depois de fazer provocações à polícia com um palavrão.

São apropriações que, em si, não causam efeito prático algum. Ela apenas força a associação simbólica, e nem sempre genuína, de uma celebridade a determinados símbolos considerados vanguardistas. É certo que um intérprete musical não tem a mesma responsabilidade política de um ativista político ou de um líder partidário, mas não significa que o elemento esquerdista tenha que se submeter à imagem do famoso que a usa, sem qualquer efeito real de transformação.

Além disso, Emicida já apareceu livremente em Caras - revista de celebridades do Grupo Abril - e chamou Gaby Amarantos e Neymar para um clipe seu. Mas apropriações assim também se nota em pessoas como Luciano Huck, filiado ao PSDB, que numa entrevista à revista Alfa (também do Grupo Abril), se autoproclamou "admirador" de Fidel Castro e Lula.

A bandeira do MST foi apenas uma apropriação. E não se pode comparar com Cazuza segurando a bandeira brasileira, porque este, mesmo dentro do showbis, tinha uma atitude muito mais sincera e uma força artística que compensavam a fama.

O Brasil não vai ter reforma agrária só porque o Emicida segurou a bandeira do MST no VMB 2012. E seus fãs não se tornarão mais conscientizados por isso. Tudo ficará na mesma.

VULGARIDADE FEMININA, DESGASTE E CONFLITOS


Por Alexandre Figueiredo

A vulgaridade feminina cria um mercado tão saturado e inflacionado de tantas "musas" siliconadas e sem qualquer personalidade, que gera muitos problemas.

De vez em quando, essas musas que "mostram demais" e que são as meninas dos olhos da mídia machista - um dos principais setores lúdicos da velha grande mídia - , perdem a cabeça por qualquer coisinha, sobretudo quando umas trocam farpas com as outras.

Recentemente, a "musa do Paulistão", Lorena Bueri, disse que as paniquetes "não tem pegada" e acrescentou que seu apelo sexual é zero. Não é a primeira queixa contra as musas do Pânico na Band, que haviam recebido críticas da ex-colega Dani Bolina, que as chamou de "garotas de programa".

Recentemente, a colunista do R7, Fabíola Reipert, havia também revelado que várias musas vulgares estavam ficando "bombadas" e com a voz mais grossa, não bastasse o costume comum dessas "musas populares" de inflar glúteos e seios com silicone, dando aquele aspecto de corpo "redondo".

Duas paniquetes, Carol Belli e Carol Narizinho, reagiram irritadas à declaração de Bueri. Ambas no Twitter. Belli teria dito: "Tem biscate por aí que gosta de aparecer à custa dos outros... Querida, de você eu tenho PENA, porque não te reconheceria nem na fila do supermercado!". Narizinho, por sua vez, respondeu: "Tem gente que não sabe o que fazer para aparecer! Dica: pinta a bunda de vermelho!".

Conflitos assim, que mostram o desgaste das musas vulgares que pipocam às centenas por ano na grande mídia, estimulam todo o sensacionalismo grotesco da dita "mídia popular", favorecendo a supremacia de valores machistas e enriquecendo os barões da mídia com esse lamentável espetáculo que, no fundo, deprecia e desmoraliza a mulher brasileira.

OS MALABARISMOS DISCURSIVOS DA "CULTURA DE MASSA" BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que defende a "cultura de massa" brasileira, sabemos, mudou levemente algumas posições.

Eles invertem defeitos, como acusar a MPB autêntica dos defeitos que o brega-popularesco comete, das mentiras e omissões do mercado jabazeiro, da presença na mídia mais elitista (como Caras) etc. A MPB paga pelos pecados dos bregas.

Da indiferença quase absoluta à MPB autêntica, ela passou a admitir uma parcial valorização da MPB de qualidade, indo dos "medalhões" mais flexíveis até mesmo aos "malditos" que os intelectuais se apropriam para associá-los tendenciosamente aos bregas de uma forma ou de outra.

A própria abordagem desses intelectuais, antes "radicalmente hostis" à MPB, passou a mudar o alvo dos ataques discursivos. Se antes a ojeriza era contra a MPB que se limitava a gravar baladas românticas açucaradas, com seus cantores e grupos gravando em Nova York ou Los Angeles, junto a orquestras numerosas e todo um clima de pompa e de luxo, a retórica mudou.

Pois se os alvos antes eram reconhecidos nas fases mais comerciais de Simone e Guilherme Arantes - artistas talentosos que, no entanto, simbolizaram a "MPB burguesa" dos anos 80 ao sucumbirem aos ditames das gravadoras - , hoje os alvos se tornaram não exatamente essa fase pasteurizada da Música Popular Brasileira, mas a MPB sofisticada da gravadora Biscoito Fino.

Ou seja, se antes o paradigma era as pasteurizações de Lincoln Olivetti e Robson Jorge, o pragmatismo de Mazzola e a fase piegas de Roberto Carlos, o paradigma passou a ser Chico Buarque, o casal e caro amigo de Chico, Francis e Olivia Hime (a "chefona" da Biscoito Fino) e o que vier de herdeiro "mais purista" da obra de Antônio Carlos Jobim.

Isso faz muita diferença, porque uma coisa são as normas comerciais dos sucessos do meio musical, outra coisa é a sofisticação verdadeira, da qualidade musical em sua mais alta expressão. E tal malabarismo discursivo coloca a intelectualidade dominante dentro da mesma lógica de mercado que decidiu "perdoar" os deslizes da MPB pasteurizada, até porque elas resultaram até mesmo nos "deslizes" de Fagner pela safra do hoje "injustiçado" Michael Sullivan e seu parceiro Paulo Massadas.

Isso porque, desde os anos 90, o hit-parade norte-americano, "padrão" do que deve ser a música comercial do resto do planeta, já converteu a pieguice romântica de nomes como Whitney Houston, Michael Bolton e outros na falsa sofisticação musical a ser apreciada no Brasil, com direito a fãs fanáticos e agressivos.

Portanto, aquele "pecado mortal" da MPB gravar baladas açucaradas e se encher de pompa e de luxo foi "perdoado" pela nossa intelligentzia. Até porque, no final dos anos 90, os ídolos neo-bregas, como os do "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music que fizeram sucesso entre 1989 e 1992, tiveram que apelar para imitar a MPB pasteurizada dos anos 80.

Nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Zezé di Camargo & Luciano, Exaltasamba, Leonardo, Daniel e outros passaram a seguir as mesmas regras da MPB pasteurizada que afugentou os nomes da MPB autêntica, que migraram para a Biscoito Fino e, em parte, para a Trama Discos.

Ainda não era o parasitismo ambicioso que, no sambrega, por exemplo, se limitava a emular Zeca Pagodinho - ignorado pelo mercado, mas "descoberto" pela mídia em 2002 e pelos sambregas logo depois - e, no caso do "sertanejo", não havia ainda a postura verossímil de falsa música de raiz, mas os neo-bregas queriam se justificar na mídia através da carona na MPB da qual sentiam um forte desprezo.

Isso permitu que a intelectualidade que foi adestrada a defender, a partir de 2002, os ídolos bregas de qualquer tendência, pudessem consentir com as mesmas regras da MPB pasteurizada que fizeram com que Simone, Zizi Possi e Guilherme Arantes fossem "abominados" pelos intelectuais mais badalados, enquanto até mesmo uma Sula Miranda que imitasse o "pior" de Zizi Possi era tratada como "genial".

A essas alturas Alexandre Pires passou a se apresentar com muito luxo e pompa, chegando a trocar de paletós em uma mesma apresentação, várias vezes. E Daniel, o remanescente da dupla breganeja João Paulo & Daniel, aprendeu com a fase comercial de Simone a usar uma caligrafia como logotipo.

Desse modo, a intelectualidade mais uma vez acusa os outros de "idealizarem a cultura popular". Mal sabem eles que, mais uma vez, jogaram a "responsa" deles mesmos nos outros, porque as aventuras dos neo-bregas na sua "MPB de mentirinha" não são mais do que a "idealização" que esses intelectuais e o mercado fizeram, transformando os breguinhas dos anos 90 através de um pretensiosismo pseudo-emepebista.
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