terça-feira, 31 de julho de 2012

SEM QUERER, GLOBO AGRAVA CRISE DA REVISTA VEJA


Por Alexandre Figueiredo

Há poucos dias, parecia ser fogo de palha a denúncia de que Veja fazia "parcerias" com o bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira para desmoralizar desafetos ou para beneficiar aliados.

Parecia que os chefões da famigerada revista do Grupo Abril esperavam vencer seus denunciadores pelo cansaço, com a exploração confusa da CPI do Cachoeira, concentrada demais em alguns envolvidos (Demóstenes Torres e Marconi Perillo) e condescendente com outros (como o governador fluminense Sérgio Cabral Filho).

Mas foi a mulher do próprio Cachoeira, Andressa Mendonça - que havia sido esposa do substituto de Demóstenes Torres no Senado, Wilder Morais - que, ameaçando um juiz, declarou que o marido iria acionar o editor-chefe da sucursal brasiliense de Veja, Policarpo Júnior, para montar reportagens contra o juíz. É o denuncismo de Veja a serviço da calúnia e da "lavagem de roupa suja em esgoto".

E a informação acabou sendo dada pelo portal G1, das Organizações Globo, então severa protetora dos interesses do amigo dos irmãos Marinho, Roberto Civita, da mesma forma que o "doutor" Roberto Marinho era muito amigo de Victor Civita, sobretudo na defesa do golpe militar de 1964.

Pois o incidente soa estranho, e Veja retirou de seu portal um vídeo com um ator da Rede Globo, Caio Blat - que no entanto é marido de uma atriz que havia trabalhado na Rede Record (atualmente Maria Ribeiro se concentra no cinema) - que, estreando como cineasta, fez críticas ao monopólio da Globo Filmes no mercado cinematográfico brasileiro.

E isso cai como uma bomba quando outra CPI está sob a vigilância da grande mídia, a do "Mensalão", sobretudo pela ganância de explorar levianamente os erros cometidos pelo então chefe do Gabinete Civil do governo Lula, José Dirceu, que a grande imprensa não se satisfaz em criticar, sendo capaz de desmoralizar Dirceu até quando ele vai beber água em um bebedouro.

Pois a ameaça da senhora Cachoeira - que ficou presa e, solta sob fiança, aparentemente está proibida de se comunicar com o próprio marido - faz com que voltem as nuvens cinzas que pairavam sobre o prédio da Editora Abril e sobre a cabeça de seu poderoso chefão.

Correu até boato de que Roberto Civita estava com câncer, na desesperada tentativa de evitar sua convocação à CPI. A ameaça dele ter que falar sobre as atividades ilegais de Veja, juntamente com seu pupilo Policarpo Júnior, voltou à tona quando parecia tornar-se um assunto secundário ou uma "necessidade sem muita importância".

E desta vez foi um veículo aliado que divulgou a notícia. O que mostra o quanto a velha grande mídia às vezes se atrapalha. Chega um ponto em que não dá para esconder, e espera-se que Veja, a decadente revista do Grupo Abril, seja devidamente denunciada, porque, mais do que um periódico conservador e reacionário, é também um veículo desonesto, antiprofissional, mentiroso e irresponsável. Portanto, uma revista tão ruim que dá pena até usá-la para embalar peixes e carnes no comércio.

O CONSTRANGEDOR "MERCADO" DAS QUE "MOSTRAM DEMAIS"


Por Alexandre Figueiredo

O machismo enrustido de alguns homens, sobretudo jovens, permite que eles disfarcem suas visões em torno de alegações pouco convincentes como a "liberdade do corpo", mesmo dentro do contexto de "mulheres-objeto" que movimenta o mercado de celebridades no Brasil.

São centenas de "musas" que aparecem, toda semana, na Internet, que se limitam a apenas mostrar seus "dotes físicos", suas "boas formas" trabalhadas sobretudo pelo silicone. Elas não têm o que dizer, e já começam a cansar qualquer um só mostrando o corpo.

O que é estarrecedor é que tudo se repete à exaustão, sem que o mercado editorial, que se alimenta de "fotos sensuais" dessas "musas populares", se dê conta do ridículo.

São musas do MMA, ex-BBBs, "mulheres-frutas" do "funk carioca", "garotas da laje", "musas do Brasileirão", "miss bumbum" e tantas outras, que ainda se vangloriam de um estilo de vida que é marcado pelo vazio intelectual e pela personalidade superficial.

Mas outras coisas são bastante estarrecedoras. Primeiro, pela campanha que certos internautas "cheios de razão" fazem para defender o "direito" delas de serem assim tão alienadas. Em pleno século XXI, com a promessa do Brasil virar potência mundial, e depois de tantas conquistas femininas, haver gente defendendo o direito de certas mulheres permanecerem estúpidas e vulgares.

Essa minoria barulhenta e agressiva, no entanto, não podem influenciar a outra parte dos homens, com personalidade mais diferenciada e distante da boçalidade dos machistas troleiros - que, quando acusados de tal machismo, se limitam a responder "Ôia!" ou "Huahuahuah", incapazes de desmentir tais acusações - , que nunca iriam namorar mulheres assim tão vulgares.

Na Internet, é uma atrás da outra. É uma que, pela enésima vez, vai de biquíni cuja alça "acidentalmente" cai por causa do vento. É outra que, indo para uma festa tal, "acaba mostrando demais". É outra que fica "pagando calcinha", outra que fica "pagando cofrinho", outra que vai de vestido tão justo que aperta seu inflado corpo siliconado.

E tudo isso se repete, se repete, feito um disco riscado, sem que alguém se dê conta do ridículo. E o pior é que "musas" assim ainda têm o cinismo de dizer que desejariam namorar "caras legais". Ou seja, aqueles homens comuns, simples, mais caseiros, inteligentes porém sem arrogância, gentis sem extravagância, sensíveis e amorosos.

Em primeiro lugar, esses homens não querem essas musas. O que eles querem são moças que não precisam mostrar o corpo a toda hora e que não apreciem atrações brega-popularescas. Eles querem mulheres com personalidade e que não passem vexame nas conversas com os amigos, além de serem capazes de trocar ideias e mostrar coisas interessantes.

Em segundo lugar, as "musas populares" já possuem pretendentes. O problema é que elas acabam criando problemas com seus namorados - que variam, na melhor das hipóteses, a lutadores profissionais, jogadores de futebol, policiais militares e ídolos brega-popularescos e, na pior das hipóteses, a figurões do "submundo" criminoso - e várias delas acabam tendo medo até mesmo de namorar comportados ídolos "sertanejos". A não ser que o mercado é que as impeça de arrumar algum namorado às vésperas delas lançarem alguma sessão "sensual" numa revista.

A decadência dessas mulheres é gritante. Só os machistas troleiros não pensam assim e saem esculhambando quem alerta para essa realidade. Punheteiros envergonhados, "pegadores" frustrados, esses internautas grotescos, verdadeiros pitboys de redes sociais da Internet, falam grosso demais em mensagens privativas de e-mails, respostas a blogues e fóruns de redes sociais. Mas não conseguem esconder que são machistas e que medem a realidade conforme a reação de seus órgãos sexuais.

Enfim, é muito constrangedor ver toda essa multiplicação de musas vulgares - várias delas quase quarentonas e se recusando a aposentar-se - para o deleite apenas de um bando de machistas enrustidos para os quais o respeito humano é palavra que não existe em seus dicionários.

O "MENSALÃO" E O PHOTOSHOP DA VEJA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A Veja, com seu sensacionalismo abjeto e seu jornalismo fajuto e antiprofissional, não mede escrúpulos para distorcer as coisas, confundindo crítica com calúnia, denúncia com mentira, discordância com desmoralização, informação com fraude.

O "mensalão" e o photoshop da Veja

Por Saul Leblon - Agência Carta Maior

Quando Serra ataca blogs críticos, classificando-os de 'sujos', ou se refere ao PT como um partido que usa métodos nazistas, e Veja faz do photoshop seu principal argumento 'jornalístico' na demonização de lideranças adversárias - como na capa da edição desta semana, com o ex-ministro José Dirceu - , o objetivo é infantilizar o discernimento da sociedade, quebrar seu senso crítico para inocular valores e legitimar interesses que de outro modo figurariam como controversos, ou mesmo intragáveis, no imaginário social.

A infantilização da política é a tradução 'popularesca' da judicialização, o recurso extremo de um tempo em que projetos e referências históricas do conservadorismo foram tragados pela conflagração entre os seus interesses e as urgências da sociedade humana - entre elas a urgência ambiental e a urgência, a ela associada, de se convergir para formas mais sustentáveis de produção e repartição da riqueza.

Órfãos da crise do Estado mínimo, açoitados diariamente pelo noticiário econômico, soterrados nos escombros das finanças desreguladas - aqui e alhures - que argumento lhes resta, além do photoshop dos fatos na tentativa, algo derrisória, de ainda vender peixe podre como iguaria inexcedível?

Nos EUA, a extrema direita e seus veículos, a exemplo das respectivas versões tupiniquins, usaram e abusaram do photoshop para implantar chifres demoníacos no perfil essencialmente cool de Obama, ademais de classificá-lo, ora de comunista, ora de nazista, com direito ao bigodinho do Führer. A extrema direita e a direita norte-americana não podem permitir a dissecação política do colapso financeiro - fruto de sua costela - em outro ambiente que não o photosop e a barragem judicial às medidas requeridas pela desordem reinante.

Semi-informação, assim como a semi-cultura do bueiro televisivo, formam o lubificante da infantilização e da impenetrável judicialização da política. O episódio chamado de 'mensalão' cumpre o papel de prato de resistência dessa ração tóxica servida à opinião pública nacional. O tema efetivo do julgamento que se inicia esta semana no STF argüi os alicerces do sistema político brasileiro. O nebuloso financiamento privado das campanhas eleitorais, indissociável da rejeição conservadora ao financiamento público, é a contraparte de um interdito mais amplo à presença do Estado - leia-se, do interesse público - em todas as esferas da vida social e econômica.

A direita nativa - e seu dispositivo midiático - sabe que o cerne da questão refere-se à prática do caixa 2 de campanha, uma degeneração intrínseca à entrega de um bem público, a eleição, à lógica de mercado. O jogo do toma-lá-dá-cá instaurado a partir da indução à busca de recursos privados não poupa direita ou esquerda. Todos os partidos foram e são reféns desse moedor que abastarda projetos e rebaixa a soberania democrática.

O PSDB de Serra, por sinal, desfruta o cume do pódium como pioneiro e virtuose, com o comprovado engate do valerioduto mineiro ao caixa 2 da fracassada tentativa de reeleição do ex-presidente do partido, Eduardo Azeredo, em 1998. Romper esse dínamo implica, na verdade, alargar as fronteiras da democracia, libertando-a não apenas do dinheiro privado, mas também dos limites exauridos do sistema representativo, revitalizando-o com a ampliação de mecanismos de consultas e referendos mais regulares e adequados às demandas de participação da cidadania.

O photoshop da Veja responde a esse divisor histórico desenhando chifrezinhos colegiais em Chávez, por exemplo. Ao reduzir a crise da economia e da sociedade a um tanquinho de areia, a direita brasileira quer garantir o seu recreio nas próximas semanas, fantasiando a hora do lanche à sua conveniência, com a esperada ajuda de alguns bedéis togados. Pode ser que atinja seu objetivo. Mas o fará no efêmero espaço do faz de conta judicial em que pretende circunscrever a história. O mundo real, que o photoshop tenta desesperadamente congelar, esse já ruiu.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

AGITAÇÕES NA POLÍTICA E MÍDIA TUCANAS


Por Alexandre Figueiredo

Os últimos dias foram bastante agitados nos bastidores do tucanato brasileiro. Há os preparativos para a farra política sobre o julgamento dos acusados do esquema do "mensalão" de Marcos Valério, entre eles o petista José Dirceu, já "homenageado" por um truque de photoshop da rabugenta revista Veja.

Mas na semana passada o PSDB paulista fez das suas. O candidato a prefeito de São Paulo, José Serra, chamando mais uma vez os blogueiros de "sujos" e comparando-os a um tipo de fascismo ocorrido no século passado. E o governador paulista, Geraldo Alckmin, deixando a violência ocorrer solta na capital paulista.

E antes que apareçam episódios como a acusação de Andressa Mendonça de ser "laranja" do próprio marido, o bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira, sua prisão e depois soltura sob fiança - depois dela tentar subornar um policial e agora ser oficialmente intimada a não se comunicar com o próprio marido (o que é, na prática, impossível) - e o tal julgamento dos mensaleiros, o jornal O Globo muda sua concepção gráfica.

Seguindo o mesmo espírito de programas da Rede Globo de Televisão - como os programas de Fátima Bernardes e Pedro Bial - , o jornal O Globo tentar ficar entre o que seus executivos entendem como "entre o popular e o sofisticado". Nem tão sofisticado, nem tão popular, algo meio Sullivan e Massadas.

Grandes tempos, aliás, em que Michael Sullivan poderia se assumir como o chefão do hit-parade radiofônico de mãos dadas com Roberto Marinho. Hoje ele tenta renegar o passado, mas Xuxa e outros ídolos estão aí para testemunhar o neoliberalismo cultural lançado pelo ex-Ivanildo dos Fevers.

José Serra, o "destaque" da semana passada, nem parece que havia sido líder estudantil socialista, com tamanho reacionarismo contra a blogosfera, já que hoje ele e sua mídia associada não podem mais conter o avanço de uma opinião realmente pública que anda demolindo as visões outrora oficiais de qualquer coisa.

E a CPI do caso Cachoeira continua andando, mas os acordos políticos, tanto do lado tucano quanto do lado petista, acabam dispensando testemunhas ou envolvidos que poderiam ser estratégicos para a investigação do esquema do bicheiro goiano. Com tais dispensas, a CPI se tornou capenga, e quando muito apenas se limitou a condenar figuras já "incômodas" como Demóstenes Torres e a continuar investigando o governador goiano Marconi Perillo.

Mas Veja, a mesma que agora está "muito ocupada" em destruir José Dirceu - muito diferente da natural discordância e reprovação dos erros por ele cometidos - , agora é denunciada por ter armado um dossiê para inocentar Carlinhos Cachoeira, revelado pelas ameaças da sra. Cachoeira para o juíz federal Alderico Rocha Santos, um dos responsáveis pela investigação do esquema do bicheiro.

Andressa teria ameaçado Alderico com as seguintes palavras, que ela teria dito com certa ironia: "Doutor, tenho algo muito bom para o senhor. O senhor conhece o Policarpo Júnior? O Carlos contratou o Policarpo para fazer um dossiê contra o senhor. Se o senhor soltar o Carlos, não vamos soltar o dossiê".Alderico disse não temer as denúncias, mas aí Andressa, ainda mais ameaçadora, perguntou: "O senhor tem certeza?".


Para piorar, as denúncias foram veiculadas no portal G1, das Organizações Globo, o que significa que não dá para esconder mais o envolvimento de Veja no esquema de Cachoeira. E, poucos dias após Rupert Murdoch ter anunciado a sua saída do comando de suas empresas, Roberto Civita, seu semelhante e amigo, volta a perder seu sossego, depois de acreditar que o escândalo de Policarpo seria fogo de palha.


Representantes de Veja na sede em São Paulo e na sucursal de Brasília foram procurados, mas ninguém se dispôs a dar declarações. A assessoria de imprensa da revista informou que não declara sobre assuntos de âmbito editorial. Mas o fato de Policarpo Júnior já ser citado num escândalo noticiado por um veículo de mídia aliado do Grupo Abril já mostra que a coisa vai complicar para a velha grande mídia.

ALCEU VALENÇA CRITICA MEDIOCRIDADE CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

Alceu Valença, a exemplo do ator José de Abreu e do nosso célebre (e injstiçado) Chico Buarque, é uma figura intelectual de esquerda que pode transitar até mesmo na grande mídia sem soar deslocado ou se tornar um traidor.

Eles não têm ilusões quanto aos mecanismos midiáticos dominantes, e possuem uma conscientização e uma visibilidade suficientes para que eles se posicionem acima até mesmo de qualquer trincheira midiática.

Portanto, não é qualquer um que pode usufruir de tamanho privilégio. Os bregas e seus derivados, por exemplo, soam bastante deslocados quando estão na mídia de esquerda, e seu baixo (embora, por vezes, pretensioso e tendencioso) nível de politização os faz parecerem mais à vontade quando estão felizes cumprindo os compromissos midiáticos com as Organizações Globo e os grupos Folha e Abril do que quando estão choramingando diante do pessoal de Fórum e Caros Amigos.

No último dia 22 de julho, a revista do Globo publicou um artigo de Alceu Valença, em que ele fala das questões políticas que aprendeu com seu pai. O cantor informa que seu pai foi político, por acreditar que a política é a "arte do possível", mas Alceu preferiu a música, por acreditar que esta é a "arte do impossível".

Em certo momento, ele criticou a mediocrização cultural que hoje domina a mídia. Alceu tem conhecimento de causa, porque sente que ele, seus colegas e mestres na militância da cultura brasileira de verdade, estão perdendo espaço devido à choradeira de centenas e milhares de ídolos bregas, celebridades popozudas, jornalecos policialescos e comediantes grotescos que usam o rótulo de "vítimas de preconceitos" para conquistar novos espaços.

Vale aqui reproduzir o parágrafo contundente de Alceu Valença, que contrasta, e muito, por exemplo, com aquela "etnografia de resultados" que os militantes do "funk carioca" fazem na sua eterna choradeira. Eis então:

"A falta de conceitos a que muitos artistas hoje se entregam veio de mãos dadas com a derrocada das ideologias. Vemos canais de rádio e TV nas mãos de políticos, que promovem o entretenimento vazio, anjos avessos a qualquer manifestação ideológica. Uma engrenagem de formadores de opinião sem opinião que glamouriza o lixo cultural e nos despe de lógica, pensamento e identidade".

Dá para perceber que tais frases lúcidas de Alceu Valença abalam feito um violento terremoto nas mentes dos tais "formadores de opinião", como Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, MC Leonardo, Ronaldo Lemos, Hermano Vianna e outros.

A frase do cantor pernambucano despe qualquer ilusão que tais "formadores" vendem a atacado ou a varejo, tentando comprar apoio até mesmo de alguns nomes da MPB séria, acreditando que um Sérgio Ricardo vá assinar embaixo de qualquer baixaria que Mr. Catra, por exemplo, fizer.

Sabemos que Sérgio não vai embarcar numa coisa dessas. Mas é certo que gente que já se foi, como Itamar Assumpção, Sérgio Sampaio e Nara Leão também não, e nem por psicografia. Mas a intelectualidade etnocêntrica dotada de muita visibilidade, mas no fundo um bando de "garotos de recados" dos departamentos de entretenimento da velha grande mídia, tenta o possível para enganar a opinião pública.

Mas vamos então a uma outra frase de Alceu, desta vez retirada do seu perfil do Facebook:

"POLÍTICA PARA MIM SERIA A ARTE DO POSSÍVEL e A ARTE A POLÍTICA DO IMPOSSÍVEL. No entanto, essas minhas assertivas filosóficas caem por terra quando vejo a política se transformando em cartel, corrupção, traição e outras sujeiras. A arte deixa de fluir da alma e vira entretenimento, jingle, puro comércio. Domina veículos de comunicação com sensualismo grotesco e um discurso vazio. O Brasil precisa pensar. Democracia não significa alienação. Será que seremos para sempre escravos dos tentáculos do poder econômico e suas artimanhas?"

E pensar que seu nome foi citado, levianamente, numa música da banda baiana Chiclete Com Banana, um dos nomes dessa mediocrização cultural atroz. Bell Marques deveria sentir vergonha dessa apropriação, afinal o Chicletão não é mais do que um bando de magnatas que integra esse verdadeiro neoliberalismo musical chamado axé-music, e Bell, explorador de músicos, sonegador de impostos, compositor medíocre e monotemático (suas músicas só falam da própria banda), é um dos maiores símbolos desse cenário "cultural" alimentado pelo antigo poder de Antônio Carlos Magalhães.

A verdadeira cultura não se dá através de lotadores de plateias, que se enriquecem às custas da credulidade popular. E Alceu, ícone da MPB setentista, músico que encantou um Jackson do Pandeiro que, a princípio, parecia desconfiado com o visual hippie do seu discípulo, é um dos artistas que não precisam se apoiar no sucesso dos "excluídos" e "injustiçados" ídolos bregas para obter visibilidade.

Alceu Valença sabe dos espaços que têm e em Pernambuco ele é respeitado e admirado o bastante para pegar carona em bregas metidos a coitadinhos que lhe ofereçam alguma vaga em qualquer mega-festival do interior do país. Isso é que é ter consciência humana e artística.

domingo, 29 de julho de 2012

POVO VAI PARA AS RUAS NA CHINA E PRESSIONA GOVERNO


Por Alexandre Figueiredo

Não é surpresa que a China anda na dianteira na corrida dos antigos BRICs para o Primeiro Mundo. Não bastasse o desenvolvimento econômico, agora é a sociedade chinesa que começa a se mobilizar de forma intensa, sem medo de enfrentar um governo que, pelo menos até agora, se baseia numa política autoritária e tecnocrática.

Nos últimos dias, o povo chinês foi para as ruas protestar contra o projeto de um duto para dejetos industriais que causaria sérios danos ambientais. Os rios poderão ser poluídos com resíduos do material produzido por uma fábrica de papel.

Foram diversos protestos. A polícia tentou reprimir as manifestações, mas elas conseguiram fazer com que o projeto de duto fosse cancelado pelo governo chinês. A prefeitura da cidade de Nantong, onde seria construído o duto, já enviou um comunicado cancelando o duto.

A China tem um passado de projetos anti-ecológicos, como a inflexível política agrícola do governo de Mao Tsé Tung que, aliada a intempéries como a enchente do Rio Amarelo matou milhões de pessoas em 1960, provocando o que os historiadores chamam de época da Grande Fome.

Quanto ao autoritarismo político, a China, há 23 anos, tornou-se conhecida pelo massacre na praça Tian'amen (Paz Celestial), a repressão violenta a protestos estudantis que resultou em vários mortos e presos. Ultimamente, porém, a insatisfação popular contra o controle do Partido Comunista chinês tornou-se cada vez mais crescente.

Isso torna-se vergonhoso para o Brasil que, sem um governo autoritário há 27 anos, não possui manifestações de protesto de grande envergadura. Houve manifestações pontuais, como continua havendo, entre manifestações genuinamente sociais condenadas pela velha mídia, como as passeatas dos trabalhadores sem-terra, outras tendenciosas, como a exploração política das passeatas estudantis, e outras meramente festivas, como as "marchas da liberdade" e similares.

Até existem protestos contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, projeto originado pela ditadura militar mas defendido pelo governo Dilma Rousseff. Só que também existiram protestos contra a transposição do Rio São Francisco, também sujeito a sérios danos ambientais, e o projeto foi adiante. A passividade popular dentro de uma falsa prosperidade do país faz com que poucos se indignem de verdade, quando muito reclamando das coisas pelas costas ou pelas contas do Facebook.

Belo Monte trará sérios danos ambientais e sócio-biológicos, se for construída. Mas, onde estão as passeatas? E ainda tem intelectual achando que ativismo social é dançar o "funk carioca", o tecnobrega e bancar o "coitadinho" nos palcos de programas da TV aberta. Assim o Brasil dificilmente irá se tornar uma potência como está se tornando a China.

O BLOQUEIO EMPRESARIAL DA CULTURA POPULAR


Por Alexandre Figueiredo

Do contrário que a intelectualidade delirantemente alardeia, a dita "cultura popular" não é mais do que um mercado dominado por empresários "especializados" que controlam ideologicamente todo o processo, do padrão de criação musical até mesmo ao nível de opiniões que deve dar um "artista".

Já foi escrito que, para evitar problemas, a intelectualidade associada precisa creditar os ricos empresários do brega-popularesco como "gente humilde" ou, quando muito, como "pobres que ganham dinheiro com seu suor".

Desse modo, o dono de um grupo de forró-brega, por exemplo, pode ser daqueles bem ricos, que detém até o nome do seu conjunto musical e a decisão de acrescentar ou substituir integrantes, trocar cantores, aumentar as dançarinas, e até mesmo decidir qual música poderá ser gravada, ou se aquela composição enviada por um chapista de automóvel ou por um mecânico de borracharia tem tudo para fazer sucesso na próxima temporada.

No entanto, a abordagem "segura" daquele crítico musical bastante festejado ou daquele sociólogo, antropólogo ou historiador, que sempre vive de plateias lotadas, sempre credita esse empresário como "pobrezinho". O empresário até contribui com isso, com escritórios modestos e usando roupas informais.

Isso tem um preço. A cultura popular acaba se tornando a Música de Cabresto Brasileira, controlada por uma elite de empresários do entretenimento que, associados a oligarquias regionais da mídia - desde rádios e TVs das capitais até aquelas no mais isolado interior do país - , controlam o que o povo pobre deve pensar, acreditar e produzir sob o rótulo de "cultura".

Não são mais as comunidades que transmitem valores, crenças e hábitos e nem promovem criações artísticas. É, infelizmente, o poder midiático regional, associado com os empresários do entretenimento (como donos de casas noturnas e de agências de famosos) e outros "comerciantes", como redes de supermercados e de lojas de varejo e atacado, fabricantes de bebidas (sobretudo cerveja) e até mesmo latifundiários.

Ninguém mais pode criar por conta própria. A criação "por conta própria" precisa passar pelo poder empresarial. A produção artística virou mercadoria. E isso desmascara de vez a intelectualidade, porque ela tenta manobrar o discurso. Dessa forma, em vez dela dizer "tudo é mercado", ela acaba dizendo "o mercado é tudo". São ideias diferentes, mas a ordem dos fatores não altera o nível ideológico em ambas.

Até quando se compõe coisas nas horas vagas, a mercantilização é cruel. Se você é um sanfoneiro modesto, terá que não só "vender" seu talento nos botequins de sua cidade, bairro ou vila - pressão dos distribuidores de cerveja na "cultura popular" - , mas terá que escolher temas mais "maliciosos" para ser bem sucedido.

Isso "matou" o baião brasileiro, pois antigamente não havia essa obrigação. Mas hoje um sanfoneiro precisa compor coisas tipo "Beijei a boca dela" (notem o cacófato), falar de brigas conjugais ou de sexo na cama, em vez de falar coisas do cotidiano.

A intelectualidade não deixa. O "ídolo popular" que falar de sua vida simples é visto como "choroso". "É triste demais", diz, paternalmente, o etnógrafo de boutique de plantão. Nada como "cacófatos" ou "brigas de amor" para tornar o "ídolo popular" mais "querido". Quando muito, deixa-se para "sertanejos" de asfalto cantarem a "saudade do sertão", dentro dos arranjos padronizados da "MPB burguesa"...

O empresariado associado, mesmo com seu jeitão "informal", não deixa que as classes populares desenvolvam sua cultura espontaneamente. Jagunços modernos da indústria cultural regional, eles "intermediam" as expressões artísticas, que já nascem atrofiadas pelo padrão radiofônico que dizima as culturas nacionais e as substitui por caricaturas matutas de referências estrangeiras. Aquilo que a intelectualidade diz, por eufemismo, ser a "natural capacidade do povo recriar o que vem de fora".

Esse empresariado aproveitou a interrupção do processo de diálogo entre a antiga intelectualidade cepecista e as classes populares, através dos CPCs da UNE, do ISEB e dos Movimentos de Cultura Popular, rompido nos primórdios da ditadura militar.

Esse rompimento deu a falsa impressão de que os sambas, baiões, modinhas e outros ritmos vindos das classes populares hoje não é mais do que um patrimônio privativo das elites acadêmicas e das classes abastadas, meio IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), meio Biscoito Fino Discos e inteiramente Academia Brasileira de Letras.

Mas o fato de que o povo pobre não pode mais criar suas próprias expressões hoje consideradas "de raiz", porque fica "muito burguês" (sic), mas brincar de Michael Jackson, de John Wayne, de Beyoncé Knowles. Lindo é um rapagão trajado feito um corredor italiano de Fórmula 1, com violão a tira-colo, com suposta "sabedoria pop", dormir uma noite numa estação de trem antes de ser apadrinhado por um gerente de rádio para fazer seus primeiros sucessos.

Alguns intelectuais sinalizaram que o povo pobre não pode mais ter a cultura de raiz, o legado natural de seus antepassados. Separa-se o patrimônio cultural popular de seus próprios herdeiros. E fica-se estarrecido quando as pessoas que pregaram tais pontos de vista são intelectuais como a baiana Malu Fontes e o blogueiro Leonardo Sakamoto e gente dotada de visibilidade como o funqueiro MC Leonardo.

Ou seja, os jovens não podem curtir jongo, não podem fazer modinha de viola, não podem fazer samba de verdade, nem sequer baião. Ou, se tiverem que fazê-los, terá que ser pelo "filtro" da grande mídia ou através de aventuras pedantes de ídolos bregas e neo-bregas na "MPB burguesa", a "MPB de mercado" que, para a intelectualidade, é "abominável" quando feita por artistas de MPB autêntica, mas "admirável" quando feita por ídolos ligados à bregalização cultural.

Esse processo em nada beneficia a cultura popular autêntica. A intelectualidade tenta desconversar, se aproveitando de seu privilégio de visibilidade. Mas o que está por trás disso é a ideia de que ao povo pobre se atribuem coisas ruins - que apenas devemos fingir acreditar que são boas - , enquanto as elites sempre levam a melhor. Até mesmo quando expressam sua complacência com a bregalização cultural.

sábado, 28 de julho de 2012

REGULAÇÃO DA MÍDIA E IMPRENSA "POPULAR"


Por Alexandre Figueiredo

Quem entende a regulação midiática a sério sabe que seu processo é muito mais complexo. Envolve não apenas questões técnicas como disciplinar o serviço de TVs por assinatura ou evitar os abusos de aluguel de horários na TV aberta. Envolve, também, questões que vão muito além de domar o mau humor de comentaristas políticos de televisão, ou de posturas anti-sociais adotadas por revistas tipo Veja.

A regulação democrática da mídia envolve outras coisas. Mesmo aquelas em que parte mediana da opinião pública de esquerda julgam "divertida" e "revolucionária". Isso porque a causa da regulação midiática envolve, acima de tudo, valores ligados à cidadania e ao progresso social dos brasileiros.

É enganoso que alguém que deseje uma regulação dos meios de comunicação exemplar queira que o "mau gosto" continue prevalecendo, só porque certos intelectuais o definem como uma "causa nobre e revolucionária". Por debaixo dos panos, porém, há um desejo de que certos "defensores" da regulação da mídia queiram, na verdade, empastelá-la e transformá-la numa "letra morta", quando muito limitada apenas a uns ajustes paliativos.

Se, agindo dessa forma, as únicas conquistas que teremos com a regulação da mídia é ver Miriam Leitão se limitando a falar de índices econômicos e Arnaldo Jabor de cinema, isso significa que a regulação da mídia se tornou apenas um potente automóvel que enguiçou no começo de seu caminho.

É de se desconfiar que até Fernando Henrique Cardoso e o empresário-DJ funqueiro Rômulo Costa se digam "favoráveis" à regulação dos meios de comunicação. Ou até mesmo Roberto Civita, da decadente revista Veja. De repente, todo mundo passou a ficar a favor, até aqueles que naturalmente se posicionariam contra. Em tempos em que Paulo Maluf, anos depois de chamar Lula de "incomPTente", posa ao lado de seu antigo desafeto para apoiar um candidato a prefeito, tudo é possível.

Mas essa aparente defesa esconde dois medos. O primeiro deles é que, posicionando-se abertamente contra a regulação da mídia, se deixe vazar que quer manter os abusos cometidos pela mídia. O segundo é de ver que a regulação da mídia, sem o controle dos oportunistas, se torne um processo audacioso que comprometa seriamente os interesses dominantes em jogo.

No caso da mídia "popular", a regulação da mídia poderá comprometê-la de forma ainda mais rígida do que em relação aos comentários reacionários da grande imprensa. O rótulo "popular" parece uma palavra mágica que a opinião pública média entende por "necessariamente progressista", mas esconde um processo de manipulação da opinião pública e da cultura popular que não é da especialidade de jornalistas claramente impopulares e antipáticos como o pavio-curto Reinaldo Azevedo e o antiquado Merval Pereira.

A missão de "completar o trabalho" da "urubologia" está através dessa suposta "cultura popular" que ainda encanta os incautos "progressistas de primeira viagem". Tudo por causa do rótulo "popular" e por uma visão paternalista de que "o povo está feliz, é isso que o povo sabe e quer fazer, isso é a cultura popular de hoje, queiram ou não queiram...", alegações típicas, mas "docilmente" cruéis.

Por isso a chamada "imprensa popular", que glamouriza a miséria e endeusa como "grandes figuras humanas" jovens vazios vindos do Big Brother Brasil, funqueiros, popozudas e jogadores de futebol "noctívagos", promove o ridículo para as classes populares, produzindo "munição" para depois os comentaristas políticos botarem a culpa no povo.

E nem pense que essa "imprensa popular" é "progressista" só porque explora o "popular". Pelo contrário, muito dos valores que um jornal tipo Meia Hora defende não são muito diferentes daqueles defendidos pelas Organizações Globo ou pelo grupo Folha de São Paulo, ou mesmo por Caras e Contigo, da Editora Abril, que faz parcerias promocionais com os proprietários de Meia Hora e jornal O Dia.

E isso é apenas o lado mais suave da coisa. Imagine então quando Meia Hora comete abusos mais graves, com suas eventuais "gracinhas" que usurpam até a memória de falecidos, como no caso recente do ator norte-americano Heath Ledger? É mesmo "divertido" usar o ator para o triste episódio do massacre do cinema de Denver, nos EUA, durante uma estreia de um filme com o Batman?

Mas o endeusamento de musas "popozudas" mostra o caráter sexista e machista do jornal, que também acha ótimo quando funqueiros, pagodeiros e jogadores de futebol compram carros importados, mesmo dentro de um esquema de contrabando. E, quando ocorre alguma encrenca com algum famoso, a "denúncia" mais "diverte" do que esclarece os leitores, da forma como ela é feita.

Se Veja comete um jornalismo irresponsável, não menos responsável é o de periódicos como Meia Hora ou o Expresso, o nosso "News Of The World". A banalização da violência, a glamourização da pobreza, a exaltação de uma imagem machista da mulher brasileira são valores retrógrados que nada podem ser vistos como "progressistas".

O rótulo "popular" não pode ser usado para permitir qualquer barbaridade feita "em nome das classes populares". Esse é o maior medo daqueles que dizem defender a regulação da mídia "de verdade", mas torcem para que ela se torne apenas uma letra morta de efeitos mais brandos. Porque, para eles, evitar a degradação da cultura popular torna a vida "sem graça" e "sem o humor natural (sic) do nosso querido povo pobre".

Se, para uns, querer dignidade e melhorias de vida para as classes populares é "tornar a vida sem graça", isso mostra o quanto tem gente retrógrada disfarçada de "progressista". Gente que condena o "elitismo" dos outros, mas é incapaz de reconhecer seu próprio elitismo. A regulação da mídia chega a ser mais apavorante para esses "pensadores da cultura popular" do que para qualquer "urubólogo" de plantão na grande mídia.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

"DISPARADA" DEVERIA ENVERGONHAR BREGANEJOS


Por Alexandre Figueiredo

Uma das músicas da MPB autêntica que são regravadas de forma tendenciosa pelos pedantes cantores do neo-brega dos anos 90 (ídolos que cruzavam as regras da "MPB burguesa" com o brega "grande hotel" de Sullivan & Massadas), dentro daquele restrito repertório "inofensivo", é, na verdade, uma canção de protesto que vai contra os interesses de quem regrava tais canções.

É claro, a regra é de que ídolos bregas, neo-bregas e pós-bregas evitem gravar canções de protesto, já que isso vai contra toda a aura de "alegria" e "positividade" trabalhada por esses ídolos.

Mas, ultimamente, o desespero dos ídolos da Música de Cabresto Brasileira é tal que vemos um grupo como Sambô cantar alegremente a canção de temática triste, "Sunday Bloody Sunday" do U2 enquanto o inexpressivo grupo Inimigos da HP, para arrancar dinheiro do Ministério da Cultura, incluiu até "Apesar de Você" no tributo caça-níqueis a Chico Buarque, que pelo jeito só agradaria a Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches.

"Disparada", porém, não está nesse contexto. A música, aparentemente, tem uma letra "inofensiva", porque era o contexto da ditadura militar, o que fazia com que as mensagens de protesto tivessem que ser feitas através de metáforas.

Vandré é conhecido pela música "Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores", bem naquele estilo docemente-contundente influenciado pelo chileno Victor Jara, muito arriscada para ser lançada primeiro. A canção é de 1968 e foi defendida pelo próprio cantor no III Festival Internacional da Canção. Em 1966, no II Festival de Música Popular Brasileira (então transmitido pela TV Excelsior), Vandré deu para Jair Rodrigues a missão de defender sua música.

Talvez a associação à figura aparentemente dócil de Jair Rodrigues, além da poesia metafórica da canção, fizesse com que "Disparada" fosse tranquilamente regravada pelos verdadeiros porta-vozes do latifúndio musical brasileiro, Chitãozinho & Xororó e Daniel (ex-João Paulo & Daniel), sem se darem conta do que eles realmente estão cantando, que vai muito além das emoções genéricas do "homem do campo".

A letra de "Disparada" é cortante, interpretada de forma subliminar. A letra fala da alienação dos trabalhadores rurais, explorados pela opressão do latifúndio, que trata o povo da mesma forma que normalmente trata o gado.

Quem acha, numa leitura superficial, que a letra poderia ser de uns breguinhas rejeitados, vaiados pela "crítica especializada" e que depois se tornam "reconhecidos" pelo seu "valor", é bom tirar o cavalo da chuva  porque a letra, na verdade, é de causar vergonha e asco a qualquer breganejo que nunca iria abrir mão de tocar nos eventos "culturais" patrocinados pelos seus patrões-colegas latifundiários.

E, além disso, Chitãozinho & Xororó são também latifundiários. E Zezé di Camargo & Luciano também, além de terem votado em Ronaldo Caiado para deputado federal na mesma época em que, vendendo a imagem de "petistas convictos" (um ano antes do principal cantor da dupla aderir ao "Cansei"), viraram queridinhos da intelectualidade etnocêntrica às custas de seu dramalhão cinematográfico.

Vejamos a letra. Há várias análises sobre ela na Internet, até no YouTube. Mas deixemos para você, leitor, pesquisar, refletir e pensar a respeito na mensagem cortante oculta pela poesia metafórica que enganou os breganejos que regravaram a canção de Geraldo Vandré. Sinceramente, a letra foi "caminhando" em "disparada".


Disparada
Geraldo Vandré


Prepare o seu coração
Prás coisas
Que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar...


Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar...


Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu...


Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei...


Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos
Que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei...


Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente...


Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar


Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer ir mais longe
Do que eu...


Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"URUBOLOGIAS" INTELECTUAIS


Por Alexandre Figueiredo

Queremos uma cultura brasileira mais humana, mais digna e em perfeita harmonia e diálogo com as tradições culturais. Mas, pensando assim, somos "preconceituosos", "elitistas", "intolerantes", "puristas".

Quem lê este blogue sabe o quanto parte da intelectualidade engana a opinião pública diluindo em discurso pseudo-progressista visões conservadoras que só defendem o mercado da cafonice e do mau gosto que alimentam um poderoso mercado midiático, apoiado abertamente pelo latifúndio e pelas elites capitalistas.

Mas quem não lê leva gato por lebre, inadvertida das armadilhas discursivas que estão por trás. Pregações cheias de inverdades, delírios, apelos publicitários, ou mesmo mentiras descaradas, tudo isso diluído num repertório discursivo cheio de referências contraditórias, numa gororoba de palavras, nomes, ideias em que o sentido não precisa ser dado de forma clara, a visibilidade de quem diz é que garante o sucesso.

Não pense, meu caro amigo. Não faça seu fórum de debates. Apenas se sente na plateia feito um bom menino e ouça gente como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos e companhia prometerem que o brega trará o Eldorado para a nação brasileira. Sua missão é apenas aplaudir feito foca de circo e depois endossar todas as inverdades e mentiras que aprendeu em suas palestras.

É estarrecedora a influência desses "pensadores" na opinião pública média de esquerda. E muita gente, feliz da vida, acaba embolando as coisas, creditando ídolos inofensivos como Wando e José Augusto como "rebeldes bolivarianos". E quem criticar tudo isso vira "purista", "preconceituoso", "elitista", para não dizer coisas piores.

Nenhum deles se contrapõe, a sério, à velha grande mídia. Desde que Gaby Amarantos virou estrela da Rede Globo, Pedro Sanches já nem fala mais contra a "velha mídia". No fundo, nunca se opôs a ela. Como um "agente da Folha" infiltrado na mídia esquerdista, Sanches apenas cumpriu o papel de pregar o conservadorismo cultural que aprendeu com o patrão-colega Otávio Frias Filho.

Esses intelectuais, inclusive um Paulo César Araújo convertido num "semideus", cometem "urubologias" tão graves quanto os comentaristas políticos. As frutas não caem longe das árvores, todos eles têm o mesmo reacionarismo que se vê num Pedro Bial ou Marcelo Tas, estendido ao âmbito cultural.

Esses intelectuais que defendem o brega e seus derivados apenas seguem um protocolo que os impede de adotar claramente a mesma postura de seus colegas da editoria política. Precisam adotar um discurso mais "positivo", falando em "transformações culturais", bajulando as classes populares etc. Evitam criticar intelectuais que no fundo discordam completamente, como Emir Sader, mas fazem falsos ataques a gente mais afim, como Eliane Cantanhede.

Isso faz uma diferença aparente entre uma jornalista que fala sobre as "mulheres-frutas" e a outra que apenas baixa a lenha no ensino público. Ou entre o mau humor explícito de um Reinaldo Azevedo, que parece anunciar o fim do mundo, e o bom humor de Pedro Alexandre Sanches, que apenas anuncia o "fim da História" para a MPB.

Mas nada que Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso não sejam capazes de escrever. Eles são também dotados de um discurso "otimista". José Serra é que faz um discurso mais mal humorado, assim como Geraldo Alckmin. FHC, com suas "urubologias", parece mais calmo e cordato, como um catedrático.

Junta-se as pregações neoliberais de FHC e os delírios pós-modernos de Caetano Veloso e temos essa intelectualidade que o leitor médio pensa ser "de esquerda". PAS na Caros Amigos é FHC em Paris, numa pose pseudo-esquerdista de vitrine, para seduzir plateias desinformadas.

Esses "pensadores" que se dizem "acima do bem e do mal" não querem as verdadeiras melhorias na cultura popular. Não querem que o povo pobre volte e ter para si sambas, baiões, maracatus, modinhas, cateretês e tudo o mais, e renove a partir daí. O povo pobre é obrigado a pegar o engodo despejado pelo rádio, "criar" suas mediocridades artísticas como quem junta peças importadas para montar um automóvel e nos é que temos que aceitar isso como "o novo folclore brasileiro".

E muita gente aplaude tais intelectuais que impõem essa visão, como se fosse "progressista". Mas o pior é que eles fazem "urubologias" lamentáveis, chamando de "preconceituosos" quem quer melhorias reais na nossa cultura. Melhorias que o brega e seus derivados - inclusive o "funk carioca" - nunca irão garantir, porque são meramente mercadológicos e comprometidos com a degradação sócio-cultural.

Não dá para vender o "mau gosto" como se fosse uma causa nobre, a título de argumentações pseudo-modernistas. As mentiras e inverdades usadas fazem a festa da intelectualidade porque as plateias são desinformadas do que está por trás disso.

Só que, na medida em que as informações antes ocultas se revelam mais e mais, essa intelectualidade é desmascarada. No fundo, elas apenas querem reafirmar o que o mercado e a velha grande mídia sempre impuseram para o povo pobre ou mesmo para a "nova classe C", que é a mediocrização que imobiliza o povo e garante o poder das oligarquias.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

VELHA GRANDE MÍDIA QUER SUFOCAR A ESQUERDA CULTURAL


Por Alexandre Figueiredo

É muito estranho os rumos tomados pelos militantes intelectuais do brega-popularesco. Aparentemente alinhados à esquerda, eles defendem valores que em nada assustam a velha grande mídia.

Suas ideias transitam nos mais reacionários veículos de comunicação sem qualquer tipo de problema. Seus ídolos e ícones aparecem até mesmo na revista Caras.

Até a revista Veja, que dispara seu ódio contra todo tipo de movimento social, recebe os bregas, pós-bregas e neo-bregas geralmente com alguma postura respeitosa, ou, quando muito, com alguma crítica menos enérgica.

Vamos raciocinar um pouco, deixando o véu da memória curta, essa miopia historiográfica capaz de absolver hoje os corruptos condenados de ontem. Se, nos tempos da ditadura militar, colaboradores da direita se infiltravam em organizações esquerdistas para depois denunciar seus atos aos poderosos, a ditadura midiática também não deixaria de mandar seus colaboradores para a mídia esquerdista e depois revelar para a mídia dominante o que ela anda fazendo.

Fico estarrecido quando vejo que a opinião pública mediana de hoje cai muito fácil nas armadilhas midiáticas que, há 48 anos atrás, seriam facilmente identificadas. Barbaridades como acreditar que o cinema comercial de Hollywood do passado é "tão alternativo" quanto o cinema europeu, ou encarar o imperialista Jornalismo nas Américas como um subserviente otimismo infantil, ou mesmo ficar feliz quando um grupelho de sambrega tipo Sambô tocar alegremente uma música sobre um massacre contra manifestantes é de assustar.

O fato de muita gente ter nascido mais recentemente, sobretudo a partir de 1978, não significa que tenhamos que distorcer a História a pretexto de assumir uma "nova visão". Não ter acompanhado os fatos históricos não significa que se tenha liberdade para interpretá-los de forma distorcida ou adotar hoje posturas que vão contra muitos procedimentos históricos similares no passado.

Ver que Fernando Collor agora é "um grande estadista", por exemplo, é estarrecedor. Reabilita-se com muita facilidade as pessoas e figuras traiçoeiras do passado. Daqui a 20 anos, vão promover o ex-jornalista Pimenta Neves como um ícone do movimento feminista e todo mundo vai acreditar.

COLABORADORES DA VELHA GRANDE MÍDIA

Leio os textos de Paulo César Araújo, MC Leonardo e Pedro Alexandre Sanches e já pesquisei coisas sobre o "polêmico" professor de Belo Horizonte, Eugênio Arantes Raggi. E noto que eles nem estão aí para regulação de mídia, reforma agrária, massacre de Pinheirinho, protestos contra Veja etc. Mas, quando as circunstâncias permitem, todos são "militantes de esquerda", "amigos" do Emir Sader, "leitores" de Paulo Henrique Amorim e coisa e tal.

Dá para perceber que esses caras, na verdade, colaboram com os interesses da velha grande mídia. Araújo teria sido o intelectual-símbolo da Era José Serra, se este não tivesse sido derrotado nas urnas em 2002. Sanches é cria do Projeto Folha, a artimanha neoliberal de Otávio Frias Filho. MC Leonardo escreve para o jornal Expresso, das Organizações Globo e Raggi, feliz da vida, já elogiou a Folha de São Paulo e as Organizações Globo.

O que eles fazem, na verdade, é evitar que se manifeste uma verdadeira esquerda cultural, aquela que reivindica uma cultura popular de qualidade, que produza conhecimentos para a população. Criam argumentos pseudo-folcloristas, pseudo-modernistas, aproveitam do pouco esclarecimento da opinião pública mediana e de seu pouco estímulo ao discernimento por causa da dose excessiva de informações recebidas, e tentam convencê-las com argumentos confusos, claramente panfletários e eventualmente "urubológicos" (reacionários).

Nenhum deles desmente seu direitismo ideológico. E até MC Leonardo prefere falar mal das esquerdas pelas costas. Mas mesmo os argumentos sonhadores e sedutores do "Pedro e Paulo" da intelectualidade festiva, o Sanches e o Araújo, também exibem, de uma forma ou de outra, uma "urubologia" digna de revista Veja, só que um pouco mais adocicada com alguma alegação "mais positiva".

QUEM QUER CULTURA MELHOR É VISTO COMO "ELITISTA" E "PRECONCEITUOSO"

Eles acusam de "puristas", "preconceituosos", "intolerantes" e "elitistas" todos aqueles que desejam uma cultura melhor, que criticam a mediocridade cultural que só faz gerar dinheiro às custas de expressões de gosto duvidoso e de valores sociais e morais de baixo nível. Da forma que esses intelectuais e seus consortes falam, tudo parece uma pregação progressista, mas não é. É o oposto disso.

As plateias levam gato por lebre e o que elas acabam creditando como "consciência social" na aceitação do brega-popularesco, na verdade expressam sua ingenuidade e subserviência a pregadores que só querem a farra da visibilidade, enquanto defendem o "deus mercado" com argumentos mais confusos possíveis, onde o "não" de repente pode se tornar o sinônimo oculto do "sim" e vice-versa.

Imagine se falarmos na necessidade de combater o analfabetismo geral ou funcional das classes populares? Seríamos considerados "elitistas" por causa disso? Lindo é o garotão falar "as mulé" em vez de "as mulheres". Para essa intelectualidade festiva, funciona o seguinte: primeiro leva-se um idoso banguela, colhido dos subúrbios e roças, para pagar mico na televisão, e depois leva ele ao dentista.

Primeiro o povo, transformado em marionete pelo mercado brega-popularesco, é exposto ao ridículo, ao patético, ao grotesco, ao piegas. Depois, quando as classes mais abastadas contemplam o ridículo popular com uma solidariedade paternalista é que o povo é "convidado" a uma "lapidação" ao gosto das elites.

É essa armação que tentou fazer os neo-bregas de 1990-1992 um simulacro de "verdadeira MPB" que, na prática, apenas repetiu os mesmos padrões realmente elitistas da "MPB comercial" dos anos 80, através de processos que um Djavan ou uma Joyce não aceitariam fazer, mas que um Alexandre Pires ou Ivete Sangalo topariam fazer da forma mais obediente possível.

Quanto aos intelectuais associados, o "efeito Lula" os fez parecerem integrados às esquerdas. Grande engano. O que Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, MC Leonardo, Mônica Neves Leme, Eugênio Raggi e outros defendem é tão somente a mercantilização da cultura popular, numa abordagem de "modernização" explicitamente inspirada nas teorias pregadas por Fernando Henrique Cardoso, o mestre maior dessa patota toda.

Sem falar que Hermano Vianna deve estar reservando uma cadeira cativa para qualquer um deles nas Organizações Globo, daqui a alguns anos.

terça-feira, 24 de julho de 2012

JOSÉ SERRA E SUA PARANOIA REACIONÁRIA


Por Alexandre Figueiredo

Em sua campanha eleitoral para a prefeitura de São Paulo, o tucano José Serra prometeu que não iria cometer baixarias. No entanto, sabemos que ele é capaz de descumprir tal promessa, que não passa de conversa para boi dormir.

Comparável ao que Marcelo Tas havia escrito semana passada no Twitter, comparando a blogosfera a "guerrilheiros terroristas", José Serra recentemente comparou a mesma blogosfera a um tipo de fascismo muito conhecido na Europa e das mais tristes lembranças na humanidade.

Sem dizer nomes, José Serra agiu no pior estilo dos ataques reacionários. Desesperado, Serra sente na pele o peso da crise de seu partido, o PSDB, sobretudo pela lembrança da expulsão de moradores de Pinheirinho, sob ordem de Geraldo Alckmin, meses atrás, um fato que até agora não teve qualquer solução definitiva e satisfatória para a população.

 José Serra não aprendeu com a campanha de 2010. Nessa campanha, ele havia acusado os blogueiros progressistas de serem "sujos", e o então presidenciável chegou a criar um exército de troleiros para agir em defesa de seu candidato. Eu mesmo, no blogue O Kylocyclo, havia recebido uma mensagem de um serrista alucinado.

Para piorar, o PSDB lançou ontem uma ação na Procuradoria Geral Eleitoral pedindo a investigação de sítios na Internet que fizessem comentários contra o candidato. Numa ação clara de censura, o partido quer, através dessa atitude, forçar a vitória de José Serra na marra, atropelando todo o processo democrático que se deve ter nas eleições.

Serra retomou as expressões "blogues sujos", e usa como pretexto para a perseguição a blogues progressistas a publicidade do Governo Federal nestes veiculada. Serra diz que esses blogues são financiados pelo PT para "promover calúnias e difamações" contra ele.

A ação tem como base artigos publicados pela imprensa reacionária, cúmplice midiática do PSDB, como os jornais O Globo, Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e a revista Veja. E os alvos maiores são blogues infuentes como o Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, e o Brasilianas.Org, portal do jornalista Luís Nassif.

José Serra lembra até mesmo um certo busólogo fluminense que conheço - não vou dizer o nome - que se ascende às custas de ofensas e calúnias contra quem não pensa igual a ele. Mas ele é que posa de "vítima", ele é que é o "perseguido", ele é que é o "correto", ele é que é "imparcial". Ele é que acusa os outros de serem "fascistas", quando ele é que é ultraconservador, reacionário e que move pelo ódio e intolerância.

Pessoas que agem assim, em vez de atrair adeptos e seguidores, criam uma sólida base de oposição. A curto prazo, isso parece exagerado e inverídico, a longo prazo isso trará efeitos devastadores para o reacionário que, pelo menos, poderia ter sido um pouco mais tolerante com seus discordantes.

Se José Serra ganhar as eleições, será muito mais pela pressão dada pela grande mídia local - e, por razões óbvias, também de projeção nacional - do que pelos seus méritos naturais.

PROTESTO X BUBBLEGUM: E SE FOSSE NOS EUA?


Por Alexandre Figueiredo

Imagine um grupo de estudantes da Universidade do Texas que, de pirraça, criou uma tese delirante de que "This Land is Mine", sucesso de Pat Boone da trilha do filme Exodus (1961), produção baseada no livro de Leon Uris, é uma "canção de protesto".

Junta-se um autor esperto o suficiente para convencer a opinião pública, e a partir dessa canção cujo título quer dizer "Essa terra é minha", se constroi a imagem de que o conservador Pat Boone seria um "militante de esquerda" e um "cantor de protesto".

Para reforçar essa tese, o astuto escritor passe a comentar que Bob Dylan foi um "farsante", se enriquecendo às custas de "pretensas" letras de protesto, fazendo fama às custas da suposta credulidade de seus fãs. E, desse modo, o hit-parade norte-americano, dos ídolos comportadinhos pós-1958 ao bubblegum, passa a ser visto como "canção de protesto" e "rebelião popular" enquanto a verdadeira canção de protesto, nessa inversão ideológica, passa a ser vista como uma "farsa".

Pois é justamente isso que ocorreu no Brasil. Substitua Bob Dylan por Chico Buarque, e Pat Boone por Odair José. Dá no mesmo. No entanto, a "tese universitária" se deu através de estudantes da PUC de Belo Horizonte, há exatos 40 anos atrás, e o foco era outro, Waldick Soriano e sua música "Eu Não Sou Cachorro Não".

Desqualificar a canção de protesto autêntica, às custas de frescuras sem sentido, são o tom de uma intelectualidade pouco confiável, talvez uma intelectualidade mais anti-intelectual do que realmente intelectual, para seduzir a opinião pública com essa pretensa polêmica fabricada para causar frisson nas plateias juvenis.

Numa verdadeira demonstração de "urubologia" cultural, apesar do proselitismo insistente na opinião pública de esquerda - como na revista Fórum, na Caros Amigos e até em alguns blogues progressistas - , credita-se os ídolos bregas e neo-bregas, equivalentes exatos dos ídolos comportadinhos dos anos 50 e 60, como se fossem "rebeldes" ou "vítimas", conforme permitirem as circunstâncias.

E para que finalidade se faz essa inversão de valores, às custas de uma elite de intelectuais que detém o monopólio da visibilidade e da formação de opinião? Por que eles querem tanto que ídolos inócuos como Waldick Soriano, Odair José ou Wando - este por uma homenagem pueril a um líder comunitário - sejam reconhecidos como "cantores de protesto", enquanto os verdadeiros cantores de protesto são em geral desqualificados como "farsantes"?

Aliás, o alvo maior dos ataques da "urubologia" intelectual, o cantor Chico Buarque, precisa ser "isolado" diante dos ataques dessa turma de "pensadores" à música de protesto. Claro que a turma que defende Waldick Soriano e Odair José como se eles fossem "cantores de protesto" gostaria de partir para cima, também, de Geraldo Vandré e Sérgio Ricardo, ou de um Carlinhos Lyra envolvido com cepecistas. Mas se eles têm que engolir seco até as críticas ácidas de José Ramos Tinhorão, terão que poupar os outros também.

Afinal, o protocolo exige. Esses intelectualoides se encontram num contexto em que precisam fazer proselitismo na opinião pública de esquerda. Precisam engolir seco as abordagens, para eles indigestas, de um Tinhorão ou de um Emir Sader, enquanto por outro lado precisam fingir que odeiam Eliane Cantanhede, Otávio Frias Filho, Marcelo Tas e outros.

Esses intelectuais precisam isolar Chico Buarque de seus colegas de causa, como Sérgio Ricardo, Carlinhos Lyra e Geraldo Vandré. Primeiro, para evitar a impressão de que tal intelectualidade defende o brega em detrimento da MPB de qualidade. Segundo, porque precisa se apoiar da cultura séria para defender a mediocrização cultural.

Esses "pensadores" já possuem posições estranhas o bastante para que suas contradições não sejam ocultas. Sem falar de um grotesco Eugênio Arantes Raggi, para o qual a brilhante MPB de 1930-1964 é "fantoche do DIP", num claro posicionamento anti-trabalhismo e anti-socialismo que o posicionaria, em 1964, numa tendência anti-Jango e pró-golpe que seu pseudo-esquerdismo não consegue esconder. Aliás, dizem as más línguas que Raggi virou um pé-frio para a esquerda mineira, que vive um período de desentendimentos e fracassos.

Mas mesmo o óbvio posicionamento contrário à MPB de esquerda já é uma contradição forte dessa intelectualidade pró-brega que jura ser "de esquerda". Afinal, uma "esquerda" criticando a esquerda, não pelo natural direito da crítica, mas pela ojeriza reacionária, é estranho. Principalmente se essa "esquerda" intelectual antepõe a MPB esquerdista com a defesa de ídolos bregas claramente de direita.

Evidentemente, interesses estão em jogo. E são interesses do mercado. E quando um Pedro Alexandre Sanches fala que "o mercado morreu", ele não está indo contra o mercado. Seu raciocínio segue exatamente a ideia de que um economista dizendo que o nacionalismo e o sindicalismo morreram, o que vale agora é o neoliberalismo.

Sanches defende o fim de um mercado ainda vinculado a propósitos sociais da cultura, aquele que permitia expressões culturais genuínas, com um quê de folclóricas, um mercado que abriga a "intragável" MPB "biscoito fino", alvo das "urubologias" do colonista-paçoca. Ele quer é aquilo que ele e o seu mestre maior Fernando Henrique Cardoso definem como "flexibilização" e que nós e até o mundo mineral entende por "desregulamentação" e "mercantilismo".

O que Sanches quer é hit-parade feito no Brasil, em contextos brasileiros, mas "hiperconectado" com as normas impostas pela indústria fonográfica dominante. Ele não quer necessariamente que uma Warner ou Universal Music comande o mercado em si, mas que suas regras sejam assimiladas pelos selos pequenos do Pará, de Salvador, de Recife ou coisa parecida. Que não produza uma nova Gal Costa, mas uma nova Beyoncé, uma nova Lady Gaga em linguagem brasileira.

Essa verborragia pseudo-etnográfica, pseudo-esquerdista, pseudo-modernista, desses intelectuais que defendem a música brega e seus derivados é apenas um discurso para impressionar. Isso enquanto a MPB não é derrubada e o folclore não é trancafiado em museus mofados. Uma vez concluída a tarefa, os intelectuais pseudo-esquerdistas "apunhalam" as esquerdas pelas costas e vão para a Rede Globo comemorar a conquista dos bregas nos terrenos remanescentes da MPB.

Aí, será a vitória do bubblegum brasileiro, que não precisará mais usar a máscara de "música de protesto" para enganar as pessoas. O neoliberalismo musical, neste caso, já teria cumprido seu objetivo.

LULA NÃO ENFRENTOU OS BARÕES DA MÍDIA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O governo Lula foi um fenômeno sócio-político que teve pouco a ver com a imagem supostamente revolucionária de seu governo, que aliás foi muito mais moderado do que a encomenda. E, assim como gerou pseudo-esquerdistas - antigos adeptos de FHC que se passavam por "esquerdistas" - , o governo Lula foi marcado pelo fisiologismo político que travou boa parte de suas reformas (e continua fazendo no governo Dilma) e, ainda por cima, permitiu o surto recente de reacionarismo da velha grande mídia.

Lula não enfrentou os barões da mídia

Por Altamiro Borges - Blog do Miro e revista Teoria e Debate

O professor Venício A. de Lima é um dos maiores especialistas em comunicação do Brasil. Já produziu centenas de artigos e vários livros sobre o tema. Intelectual rigoroso e refinado, também é um ativo militante da luta pela democratização da mídia. Nessa longa jornada, porém, mostra-se pessimista quanto aos avanços alcançados nessa área estratégica. No seu mais recente livro, Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010), conclui que o setor continua altamente monopolizado e com enorme poder de manipulação sobre a agenda política do país.

Para ele, o ex-presidente operou mudanças progressistas em vários setores da sociedade, mas não conseguiu enfrentar o poder dos barões da mídia. “Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao fim de seus dois mandatos presidenciais exibindo recordes mundiais de aprovação popular… Não há dúvida de que foi um governo bem-sucedido”. Mas, quando se analisam os dados sobre o campo das comunicações, o autor conclui que o resultado foi frustrante. “A maioria das propostas de políticas públicas que segmentos populares da sociedade civil organizada consideram avanços – embora haja importantes exceções – não logrou sucesso nos oito anos dos governos Lula. Ao contrário, muitas propostas foram abandonadas ou substituídas por outras que negam as intenções originais.”

O livro reúne 89 artigos que foram publicados originalmente nos sítios do Observatório da Imprensa e da Carta Maior no período de agosto de 2004 a dezembro de 2010. Faz um balanço minucioso dos embates travados entre os governos Lula e os impérios midiáticos em várias frentes da comunicação, com seus avanços e recuos. Um destaque é para o tema estratégico da regulação da mídia. Conforme aponta Venício, o ex-presidente até tentou pautar o debate sobre o novo marco regulatório. Montou três comissões interministeriais sobre o tema, apresentou os projetos de criação do Conselho Federal de Jornalismo e da Ancinav, incluiu itens sobre o direito à comunicação no III Programa Nacional de Direitos Humanos, entre outras iniciativas.

No geral, porém, o governo não teve forças para promover as necessárias mudanças nesse setor. Os barões da mídia, que contam com expressiva bancada no Congresso Nacional e seduzem e atemorizam a sociedade com sua capacidade de incidir sobre a agenda política e de influenciar a subjetividade social, conseguiram barrar até mesmo a regulamentação dos artigos já inscritos na Constituição de 1988. Maior prova desse fiasco é que quase nada foi feito para inibir a concentração da propriedade, a formação de monopólios e a aberração da propriedade cruzada – que é vetada até mesmo nos EUA. Enquanto em vários países da América do Sul o debate sobre a democratização da comunicação deu passos significativos, no Brasil ele ficou empacado.

Venício até aponta algumas mudanças que ocorreram no setor nesses oito anos. Cita o positivo processo de descentralização da publicidade oficial, elevando de 499 para 7.047 o número de veículos beneficiados; a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que envolveu milhares de pessoas nesse debate pedagógico, apesar do boicote autoritário dos principais impérios midiáticos; a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), um primeiro passo rumo à construção de um sistema público, conforme o que está inscrito na Constituição Federal; e o lançamento do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), que visa garantir o acesso à internet aos “excluídos digitais” brasileiros.

Mas, para o intelectual e militante, esses avanços foram tímidos. Não mexeram no principal, que é a concentração da propriedade nas mãos de meia dúzia de famílias – autênticos feudos. Para ele, não é possível democratizar os atuais impérios midiáticos, que hoje exercem o papel de partidos políticos – como confessou a própria presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Judith Brito. É urgente promover políticas públicas e mudanças totalizantes na legislação que estimulem a diversidade e a pluralidade informativas. Nesse sentido, Venício enfatiza que o papel do Estado é estratégico. No caso do rádio e da televisão, essa função é ainda mais decisiva. “A radiodifusão privada é uma concessão pública” e não pode ficar sob o domínio exclusivo do “mercado”.

Com sua larga e rica experiência, o professor Venício A. de Lima sabe que avanços mais profundos no setor dependem de intensa pressão da sociedade. Os latifundiários da mídia exercem forte influência política e não toleram nenhuma mudança – no máximo, uma autorregulamentação cosmética. Antidemocráticos, não aceitam sequer pautar esse debate na sociedade. Tudo o que se relaciona ao tema é rotulado de “censura”, de “atentado à liberdade”. Confundem, propositalmente, liberdade de expressão com liberdade de monopólios. A resistência é tão brutal que a legislação do setor – o Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT) – completará cinquenta anos em agosto próximo e nunca sofreu alterações mais consistentes. “É velha e desatualizada.”

“O exemplo mais conhecido do poder dos radiodifusores talvez seja a derrubada, pelo Congresso Nacional, de todos os 52 vetos que o então presidente João Goulart impôs ao projeto de lei que viria a se transformar no CBT (Lei nº 4.117). A ampla articulação de empresários da radiodifusão e parlamentares que permitiu tamanha façanha foi liderada pelo então diretor-geral dos Diários e Emissoras Associados, João Calmon (já falecido), e dela resultou a criação da Abert – Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão”, relembra Venício. Essa mesma entidade patronal e várias outras do setor também impediram que os preceitos fixados na Constituição Cidadã de 1988 fossem regulamentados. Sabotaram ainda as 672 propostas aprovadas na 1ª Confecom.

No último capítulo do livro, “Contexto e estratégias”, o autor reafirma seu pessimismo no diagnóstico. “Uma das dificuldades de quem acompanha e observa criticamente o setor de mídia no Brasil é, contraditoriamente, sua previsibilidade. Por mais que se tente renovar o ‘otimismo da vontade’, as lições da história e as evidências do presente se encarregam de mostrar como os patrões se repetem. Nada de realmente substantivo se altera no setor.” Em contrapartida, na sua inabalável militância ele também aponta o surgimento de fatores novos – como o maior engajamento dos movimentos sociais e o florescimento de uma militância crítica na internet, que serve de contraponto às manipulações e põe em xeque o modelo de negócios dos impérios midiáticos.

Parafraseando novamente o intelectual italiano Antonio Gramsci, ele conclui que “o velho está morrendo e o novo apenas acaba de nascer” e aposta suas energias numa intensa e unitária luta pela “conquista do direito à comunicação pela cidadania”.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

JORNAL MEIA HORA "PASSA RECIBO" PARA HEATH LEDGER NO ATENTADO EM CINEMA


Por Alexandre Figueiredo

A imprensa jagunça faz das suas e, em nome do sensacionalismo, chega ao ponto de fazer brincadeiras maldosas com gente falecida.

Em manchete da edição de ontem, o jornal Meia Hora - o "divertido" veículo da imprensa "popular" que só os desinformados podem comparar aos históricos Última Hora e Pasquim - fez uma verdadeira gozação com a memória do talentoso ator Heath Ledger, falecido em janeiro de 2008.

A manchete em questão se deu com as seguintes palavras: "Atirador de cinema teria sido assombrado pelo espírito do ator que fez o ‘Coringa’ no filme".Visando o trocadilho engraçadinho, a reporcagem usava como pretexto o fato de que o atirador, James Holmes, que foi preso, ter dito que "era o Coringa", antes de atirar a esmo, deixando doze vítimas fatais e vários feridos.

O fato foi na última sexta-feira, dia da estreia, no cinema Century, em Denver, no Estado de Colorado, nos EUA, do filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises), a 32 km de Columbine, onde, em 1999, ocorreu um massacre numa escola, assunto que rendeu até documentário, feito por Michael Moore, Tiros em Columbine (Bowling for Columbine), de 2002.

Ledger havia completado as gravações no papel de Coringa, para o filme anterior da mesma franquia de Batman, O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight), que só foi lançado meses depois do falecimento do jovem ator. Bastante talentoso, Ledger já era conhecido pela sua participação no filme O Segredo de Brokeback Mountain, de 2005.

Portanto, é de muito mau gosto que os jocosos jornalistas de Meia Hora - que, infelizmente não é considerada parte da velha grande mídia pela opinião pública média de esquerda - tenham "passado o recibo", ou seja, jogado a culpa do tal atentado ao pobre ator, não bastasse o fato de que os médicos dos EUA, a pretexto de venderem mais remédios, chegam a recomendar altas doses para seus pacientes.

E Heath Ledger, a exemplo da doce e igualmente talentosa Brittany Murphy, foi vítima desse consumismo farmacêutico, e ambos acabam vítimas do sensacionalismo midiático mais abjeto. Heath, vítima desse bullying jornalístico de Meia Hora, jornal que é dos mesmos donos do jornal O Dia (que todo domingo encarta a revista Veja numa promoção de parte de seus exemplares).

Brittany, por enquanto, foi apenas vítima do sensacionalismo da imprensa estrangeira, mais preocupada em saber as causas de sua tragédia (em 20 de dezembro de 2009) do que os esforços que ela teve para se manter ativa e provar seu talento. Consta-se que ela havia tomado muitos remédios e se deixado adoecer por anemia, pneumonia e inalação de mofo tóxico por estar deprimida por acusações levianas de produtores da sequência de Happy Feet, filme de animação cuja primeira produção teve a atriz como dubladora.

Mas imagine então se uma jovem moça da Baixada Fluminense, depois que ganha na loteria, gasta todo o dinheiro com roupas em um shopping da Barra da Tijuca e acaba contraindo sérias dívidas? Será que os editores de Meia Hora irão acusar a pobre Brittany por ter amaldiçoado a garota suburbana pelo consumismo exagerado, a pretexto de Brittany ter feito a Tai Frasier, a mais modesta das três garotas de As Patricinhas de Beverly Hills (Clueless)?

Pudera. Para o jornal Meia Hora, a "boa gente" é sempre a "multidão" de jogadores de futebol "pegadores" e "encrenqueiros", integrantes do Big Brother Brasil, musas "popozudas", cantores de sambrega e "funk carioca". O jornal vê como "exemplos de vida" para as classes populares homens que se esbaldam em noitadas embriagantes e mulheres que, sem ter o que dizer, "mostram demais" seus corpos inflados pelo silicone.

Para quem usurpa a memória de Heath Ledger ao citar um atentado, dá para perceber a noção de "cidadania" desse jornal aberrante, que no fundo vê as classes populares com a mesma maneira preconceituosa dos "urubólogos" de Veja, só diferindo nos métodos de manipulação da opinião pública.

Mas, cá para nós, Mr. Catra e Valesca Popozuda são muito mais assustadores (além de horripilantes) do que os fantasmas de Heath Ledger e Brittany Murphy, espíritos que continuam merecendo uma grande admiração e respeito.

CARLOS LATUFF: "TUDO DEPENDE DA VONTADE DO ARTISTA"


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O blogue Jornalismo B, de Alexandre Haubrich, fez esta entrevista com o mundialmente conhecido Carlos Latuff, cartunista brasileiro famoso por suas contundentes críticas à política nacional e estrangeira e à grande mídia, além de ter sido testemunha de episódios como a destruição de Pinheirinho (São José dos Campos) e a operação para instalar a UPP no Complexo do Alemão.

E Latuff - com quem eu cheguei a entrar em contato, quando fui a um evento de blogueiros no RJ - é um homem sem ilusões com os rumos do Brasil, como se nota nesta entrevista.

Entrevista exclusiva com Carlos Latuff: “Tudo depende da vontade do artista”

Por Alexandre Haubrich - Blogue Jornalismo B

O chargista brasileiro Carlos Latuff é reconhecido mundialmente por seus desenhos em defesa dos povos oprimidos. Latuff construiu seu trabalho em lutas internacionalistas, com os zapatistas, na Palestina, e, mais recentemente, nas rebeliões do mundo árabe.

Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade ao Jornalismo B, ele fala sobre o mundo das charges e o mundo fora delas, ambos tão grandes e complexos. A entrevista foi publicada originalmente no Jornalismo B Impresso. Para assinar o jornal em qualquer lugar do Brasil e ajudar a fortalecer a mídia independente, basta entrar em contato pelo bjornalismob@gmail.com

Jornalismo B – As charges sempre foram, pra ti, um recurso político?

Carlos Latuff – É a minha maneira pessoal de exercer meu pensamento sobre temas sociais e políticos, já que sou melhor desenhando do que escrevendo.

Qual a importância do “chargismo” na disputa política?

A charge pode servir para expor algo deliberadamente escondido por um político. Pode servir também para expressar um ponto de vista que é, também de maneira deliberada, omitido pelo mainstream media. A charge pode ser muitas coisas, inclusive inócua. Tudo depende da vontade do artista.

Como nasceu teu interesse pela causa palestina? E tua participação nas recentes rebeliões árabes?

Meu apoio à causa palestina se deu por conta de uma viagem aos territórios ocupados por Israel na Cisjordânia em 1999. O contato com os palestinos serviu também para abrir meus olhos para a realidade do mundo árabe.

Recentemente acompanhaste de perto a situação dos moradores de Pinheirinho. O que tens para relatar do que aconteceu lá?

Poucas vezes fui testemunha de um evento tão triste e tão covarde. Famílias que construíram uma vida sobre aquele terreno foram expulsas de maneira vil. Um verdadeiro complô se levantou contra aquela gente humilde: Judiciário paulistano, governador Alckmin, prefeito Cury, o especulador Nahas e empreiteiras. Fomos todos testemunhas de um crime.

A temática da recuperação da memória da Ditadura Militar tem sido recorrente nas tuas charges. Gostaria que falasses um pouco sobre a importância dessa pauta.

Num país em que sequer é possível resgatar a memória dos que combateram e foram torturados e mortos pela ditadura militar, sem ser taxado de revanchista, ações como do Levante da Juventude, e mesmo a restrita Comissão da Verdade, servem para trazer de volta a agenda do dia essa discussão.

Como vês o papel desempenhado pela mídia brasileira, de modo geral?

O papel de sempre, de instrumento de manutenção das coisas como estão.

Analisando a conjuntura mundial atual, e a situação do Brasil, em específico, devemos ficar otimistas ou pessimistas?

Devemos ser realistas e não nos deixarmos levar pelas promessas falsas de mudança. Tudo o que tenho visto são reformas, uma mãozinha de tinta aqui e ali, pra nos fazer crer de que estamos indo bem.

domingo, 22 de julho de 2012

O USO DA CULTURA SÉRIA NA DEFESA DA MEDIOCRIDADE


Por Alexandre Figueiredo

Nas revistas Fórum e Caros Amigos, prossegue o proselitismo desesperado de Pedro Alexandre Sanches (nas duas publicações) e MC Leonardo, apenas na segunda.

Ainda beneficiados pela visibilidade, os dois arautos da mediocrização cultural, diante do lançamento do Coletivo Fora do Eixo nas suas primeiras empreitadas eleitorais - fala-se na criação do Partido da Cultura, que será o PSOL de amanhã e o PPS de depois de amanhã - , tentam agora usar a cultura séria para justificar a mediocrização cultural que atinge níveis avassaladores.

Dando uma aparente folga na defesa do brega-popularesco, Sanches traça o plano de "isolar" a MPB "biscoito fino", classificando-a de "purista". Para tanto, ele se utiliza de dois artistas respeitáveis que, na sua retórica, são jogados contra Chico Buarque, a exemplo do que Gustavo Alonso, orientado por Paulo César Araújo, fez jogando Wilson Simonal contra o filho de Sérgio Buarque de Hollanda.

Os dois artistas, Erasmo Carlos e Sérgio Ricardo, são anteriores a 1967, mas foi a partir daí que eles buscaram maior visibilidade, através de uma associação, um tanto indireta, com o Tropicalismo, a "bússola" maior da intelectualidade cultural brasileira, tanto nas virtudes quanto nos defeitos (vistos como "virtudes").

Erasmo é injustamente lançado contra os chamados "puristas" da MPB. Só que Erasmo, um dos mais criativos nomes da Jovem Guarda, nunca expressou qualquer oposição à MPB "pura", Erasmo sempre demonstrou respeito e admiração por Chico Buarque, admirado até pelo amigo e parceiro Roberto Carlos.

Sérgio Ricardo, por sua vez, faz a mesma MPB de protesto associada ao "arquivilão" da intelectualidade festiva atual. E se Sérgio Ricardo faz a intelligentzia de hoje cair em delírio, reagindo furioso contra vaias enquanto tentava tocar a "alienada" canção "Beto Bom de Bola", quebrando o violão no famigerado episódio de 1967, é bom deixar claro que "Beto Bom de Bola" é tão "alienada" quanto "A Banda" do "insuportável" Chico.

E Nara Leão, a bossanovista que virou cepecista e depois tropicalista, estava nessas praias todas sem problema. Com Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Roberto e Erasmo, Caetano e tudo. Mas sempre dentro da qualidade e da honestidas artísticas, cuja defesa não deve ser vista como purismo algum.

INTELECTUALIDADE AOS POUCOS PASSA A DEFENDER VELHA MÍDIA

Enquanto isso, MC Leonardo, em mais uma daquelas choradeiras que os defensores do "funk carioca" sempre fazem, tentou associar, em seu artigo mais recente, o ritmo ao jongo (um dos derivados do samba). Recentemente, o MC Naldo comparou o "funk carioca" ao samba e a historiadora Mônica Neves Leme, anos atrás, havia feito o mesmo entre o lundu e o É O Tchan (grupo de "pagodão" baiano que, em parte, influenciou o "funk carioca", sobretudo através de um disco com o DJ Marlboro).

MC Leonardo havia participado de uma mesa redonda sobre jongo E, a certa altura, MC Leonardo comete um equívoco grave, que é de afirmar que as gerações mais jovens não devem ter o "peso de responsabilidade" pela tradição cultural de seus antepassados. Ou seja, ele disse que os jovens não devem assimilar o samba de raiz e seus ritmos (podemos inferir não só o jongo, mas o caxambu, o coco, o maracatu, o lundu etc), mas "acrescentar" o "funk carioca" à historiografia cultural.

Neste sentido, MC Leonardo junta dois pensadores numa pregação só: Fernando Henrique Cardoso e Francis Fukuyama, este por sinal presente no texto de Pedro Alexandre Sanches sobre Erasmo Carlos, através daquela visão de que 1967 representou o "fim da História" para a MPB.

MC Leonardo, também querendo evitar a memória do passado envolva os jovens favelados de hoje, também evoca FHC, quando este disse para esquecer tudo que ele ensinou e escreveu. O dirigente funqueiro quer que os jovens pobres também esqueçam tudo que aprenderam de cultura e só fiquem com o "funk". O samba, o jongo e outros ritmos é que têm que se submeter à máquina de fazer grana funqueira.

Quanto a Pedro Alexandre Sanches, seu pálido e postiço esquerdismo o faz cometer um deslize informativo no texto sobre Sérgio Ricardo. Querendo embarcar na agenda esquerdista, ele erra nos dados sobre o episódio de Pinheirinho, creditando o despejo de moradores ao bairro paulistano de Pinheiros, mediante um plano da especulação imobiliária articulado pelo ex-prefeito de São Paulo, o pessedista Gilberto Kassab.

Sabemos, no entanto, que se trata do episódio não de Pinheiros, o bairro de Sampa, mas de Pinheirinho, o grande bairro popular de São José dos Campos, já com toda sua rotina de vida, sua cultura e sua complexidade, desfeitos não pela ordem de Gilberto Kassab, mas pela imposição de Geraldo Alckmin, o governador paulistano.

Só que Alckmin patrocinou o último Congresso Fora do Eixo, e como membro do PSDB não deixa de estar vinculado, mesmo com os recentes atritos entre seus "caciques", a Fernando Henrique Cardoso, mestre maior de Pedro Alexandre Sanches, que como estudante da USP havia aprendido uma abordagem cultural pregada por intelectuais que, depois, estariam associados tanto à Folha de São Paulo, a TV Globo e o PSDB.

Como não dá mais para disfarçar, Pedro Sanches, além de poupar o governador da Opus Dei, parece mais condescendente à velha grande mídia. Em certo momento, ele ironiza o termo "grande mídia" usando aspas na palavra "grande", já que ultimamente ele anda muito feliz com o apoio que a Rede Globo dá para sua diva, a cantora Gaby Amarantos.

Mesmo as críticas que Sanches faz à indústria fonográfica, e mesmo assim juntando alhos com bugalhos, como colocar os bregas Chitãozinho & Xororó ao lado dos medalhões da MPB, encontram contradições e equívocos. Primeiro, por creditar as grandes gravadoras como "parceiras" da arrecadação financeira do ECAD, visto não como a instituição em si, mas quase que um alter ego da ministra da Cultura, Ana de Hollanda.

Embora critiquemos a cumplicidade da irmã de Chico Buarque ao ECAD - atitude reprovada pelo cantor - , é bom deixar claro que a MPB da gravadora Biscoito Fino é constituída por gente que largou as grandes gravadoras pelo autoritarismo delas, por regras que, depois, foram subservientemente seguidas por nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel e outros.

Tudo isso sem falar que a Som Livre, gravadora que acolhe os bregas supostamente "independentes" (sobretudo Banda Calypso, DJ Marlboro, Michel Teló e Gaby Amarantos), é uma grande gravadora brasileira, no sentido que a Warner é nos EUA. Isso está claro no controle empresarial das Organizações Globo, fato que não precisa de muitas explicações de tão óbvio que é.

Além do mais, para que se preocupar com a participação acionária do Banco Icatu na gravadora Biscoito Fino, se os maiores latifundiários do país patrocinam a suposta "cultura da periferia" de funqueiros, tecnobregas, forrozeiros-bregas, breganejos e coisa e tal? E os "coronéis", com muito gosto, compram espaços na Europa para jogar desde aquele funqueiro surgido do nada para excurcionar pelos países europeus até um Michel Teló que os brasileiros só passaram a conhecer a partir de um jogador português.

Usar a MPB autêntica e os ritmos folclóricos para justificar a mediocrização cultural é um artifício que nada vai enriquecer a cultura brasileira. Antes só vai permitir que a mediocrização se dê pelas comparações com a cultura séria. Mas isso não vai trazer o jongo para as grandes plateias nem fará com que Sérgio Ricardo seja mais conhecido pelas plateias jovens acostumadas com Michel Teló e João Lucas & Marcelo.

A associação da mediocrização cultural à cultura de verdade é apenas um mecanismo tendencioso para a intelectualidade festiva tentar afastar as críticas. Só que ela acaba complicando as coisas, porque contradições sempre aparecem.

INDICAÇÃO DO CONSELHO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL FOI FEITA ÀS ESCURAS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O que é marginalizar o debate público pela "nossa querida" intelectualidade festiva (aquela que defende o brega a pretexto de salvar as classes populares). Permite que as classes populares, infantilizadas pelo entretenimento "popular", desconheçam todo o processo político por trás. A fachada "progressista" do Governo Federal não impediu que o Conselho de Comunicação Social nomeasse pessoas retrógradas, sob o pretexto da "imparcialidade". E quem acaba perdendo com isso é o povo brasileiro, e tudo fica na mesma.

Vale notar que um dos membros nomeados para o CCS é Gilberto Carlos Leifert (foto), diretor comercial da Globo, presidente do Conar e pai do apresentador esportivo Thiago Leifert.

Indicação do Conselho de Comunicação Social foi feita às escuras, é retrógrada e antidemocrática

Do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) publicou uma nota em repúdio ao processo antidemocrático de nomeação para o Conselho de Comunicação Social. A reativação do órgão auxiliar ao Parlamento, prevista na Constituição de 1988, se deu “às escuras”, bem como a divulgação da lista dos nomeados para compor o Conselho, de acordo com a entidade.

Além disso, o FNDC, que vem atuando intensamente em defesa dos interesses democráticos da sociedade civil no campo da comunicação, também afirmou que os nomes foram decididos sem diálogo com a sociedade, resultando em uma composição arbitrária e preconceituosa.

Confira a íntegra da nota.

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) recebeu com surpresa a notícia da reativação do Conselho de Comunicação Social (CCS), e vem a público manifestar seu repúdio e indignação quanto à nomeação antidemocrática e preconceituosa realizada pelo Congresso Nacional.

A inclusão do Conselho de Comunicação na Constituição Federal de 1988 foi fruto tanto da luta política e da mobilização de diversos segmentos sociais quanto da articulação da sociedade com o Parlamento, fato que não se repetiu agora quando da composição do Conselho. Não houve diálogo sequer com a Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e Direito à Comunicação, subscrita por mais de 180 parlamentares, com forte representação da sociedade civil, que no ano passado encaminhou sugestões para a composição.

O CCS foi regulamentado em 1991, mas só teve sua primeira indicação em 2002, e estava parado desde 2006, numa interrupção ilegal e inconstitucional. Embora tenha caráter consultivo, ele pode cumprir papel importante de fomentar debates sobre os temas da comunicação social, e servir como impulso para o Congresso regulamentar os artigos constitucionais sobre comunicação que estão há 24 anos sem definição legal – como o que proíbe monopólios e oligopólios e o que aponta para a complementaridade dos sistemas público, privado e estatal.

Contudo, as indicações realizadas na reativação do CCS foram completamente arbitrárias, sem diálogo com a sociedade civil organizada com atuação no campo, que foi atropelada justamente no momento em que busca contribuir com o avanço da democratização da comunicação e com a efetiva liberdade de expressão para todos e todas. A demonstração do nosso acúmulo e compromisso se dá cotidianamente para quem acompanha a pauta, e foi mais do que comprovada durante a I Conferência Nacional da Comunicação (Confecom), realizada em 2009 e praticamente ignorada pelo Congresso Nacional, com honrosas exceções.

Nas vagas fixas reservadas a trabalhadores, foram mantidos representantes de entidades do movimento, como a Fenaj, mas a indicação dos radialistas se deu sem diálogo com a atual gestão da Fitert e a dos artistas privilegiou um único sindicato, com forte ligação com o setor patronal, em detrimento da associação nacional.

Já nas indicações das cadeiras da sociedade civil foram privilegiados setores conservadores (inclusive empresários do setor) e ligados às igrejas, com claro favorecimento a cidadãos com relações pessoais com o presidente do Congresso Nacional. A exceção positiva foi a indicação de pessoas com ligação com a pauta da cultura digital, que ainda assim não contempla as perspectivas do movimento pela democratização da comunicação.

Além destas incoerências, é grave a constatação de que todos os 13 nomes indicados para a titularidade da representação são de homens, desprezando a diversidade e a pluralidade da sociedade ao alijar completamente a participação feminina, algo inadmissível para a construção de uma sociedade democrática.

Um Conselho que deveria servir para auxiliar o Parlamento, e que reúne entre suas funções avaliar questões ligadas à liberdade de manifestação do pensamento, da criação, da expressão e da informação, além de emitir pareceres e recomendações ligadas à produção e programação de emissoras de rádio e televisão, não deve – e não pode jamais – prescindir da participação de uma representação coerente da sociedade civil à altura de tão complexas e estratégicas responsabilidades.

Conclamamos os nobres parlamentares a desfazerem esse grave erro e reabrirem o diálogo. Este tipo de prática arbitrária afronta os direitos do povo brasileiro e afeta o caráter democrático do Conselho.

FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação

PS do Viomundo: Entre os 13 integrantes titulares estão dois executivos das organizações Globo: Gilberto Carlos Leifert, diretor comercial da emissora e presidente do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) e Alexandre Kruel Jobim, filho do ex-ministro Nelson Jobim e vice-presidente jurídico e de relações governamentais do grupo RBS, braço da Globo no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Eles serão, respectivamente, os representantes de empresas de televisão e de imprensa escrita. Entre os representantes titulares da sociedade civil do conselho foram escolhidos nomes como os do arcebispo do Rio de Janeiro, dom Orani João Tempesta (leia-se CNBB), e de Fernando Cesar Mesquita, secretário de comunicação social do Senado.
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