sábado, 30 de junho de 2012

DEZ ANOS DE UMA CONQUISTA COMPRADA


Por Alexandre Figueiredo

Hoje não é uma data para comemorar, mas para lamentar. Afinal, hoje faz dez anos de uma "vitória" que não se deu por méritos naturais, num evento esportivo em que as manobras políticas valeram mais do que qualquer talento de qualquer time.

A Copa do Mundo Fifa de 2002, o evento realizado no Japão e na Coreia do Sul, foi um evento de cartas marcadas onde o nome Brasil não faz o papel de herói, mas de vilão. Afinal, o evento representa o auge das manobras políticas do dirigente esportivo Ricardo Teixeira.

A seleção que jogou todas as partidas nem de longe era um time admirável. É aquele time que ganhava as partidas mas sem jogadas seguras e empolgantes. Muito fraca em campo, não tinha coragem de ir para o campo do adversário fazer dribles habilidosos, antes enrolasse as torcidas com passes dentro do campo de defesa.

Desde as eliminatórias de 2001, a seleção brasileira se comportou assim. Sem jogadas confiáveis, teria sido melhor que a Copa de 2002 fosse a primeira que excluísse a seleção brasileira do seu elenco. Os bastidores do futebol eram marcados por muita corrupção e uma CPI foi feita para avaliar os conchavos políticos dos dirigentes esportivos e até mesmo as ligações da mídia com os chamados "cartolas".

Uma das estranhezas é que, tanto nas eliminatórias como na copa propriamente dita, a seleção chilena, que não era das mais fracas, se comportou pior do que um time ruim de futebol de várzea. E a partida de 2001 mostrou que a "vitória" da "nossa" seleção se deu mais porque os adversários "liberaram" o campo, numa cena que se tornou comum em 2002.

A seleção brasileira vivia sob a pressão dos anunciantes, sobretudo a Nike, que tinha jogadores brasileiros como seus contratados. Além disso, os interesses da FIFA e da CBF sinalizaram para forjar a vitória brasileira a qualquer custo. Isto é ilegal. Não existe vitória a qualquer custo, e mesmo os melhores times sempre vivem fases de derrotas em sua trajetória. Isto é natural.

Portanto, não dá para comprar 2002 a 1958. Na Copa de 1958, além do ineditismo da vitória do time brasileiro, havia espontaneidade e boas jogadas. Não era uma copa motivada por interesses comerciais obsessivos, e o que se viu em 2002 foi praticamente uma jogada pessoal de Ricardo Teixeira, driblando a ética e causando a derrota estranhamente sucessiva de seleções europeias mais fortes.

Até mesmo o Brasil X Inglaterra foi vergonhoso. A seleção brasileira jogou mal, Ronaldinho Gaúcho perdeu a cabeça e levou cartão vermelho e tudo indicava uma derrota da "nossa" seleção (ou melhor, a seleção de Ricardo Teixeira). Nada disso. De repente, o segundo tempo tornou-se praticamente uma encenação e os jogadores ingleses tão somente "liberaram" o campo para Ronaldo Nazário, o único craque de uma seleção de inseguros, correr para o gol sem ser sequer ameaçado pelos adversários.

Tudo muito estranho. De repente outros times se deixaram perder, o que mostra que a Copa de 2002 nem de longe foi competitiva. E a "vitória" da "nossa" seleção foi feita mais pelas manobras de bastidor como aquelas que a seleção da França fez na copa anterior, a de 1998, quando o país europeu foi sede.

A Copa do Mundo de 2002, sem competitividade, sempre "liberando" o espaço para uma seleção insegura e sem cumplicidade, não deve ser lembrada. Aquele "penta" foi uma conquista comprada, desde as eliminatórias, e não existe coisa mais desagradável do que obter vantagem dessa maneira.

A Copa do Mundo de 2002 foi a copa da CBF, da FIFA, da Rede Globo. Eles é que comemoram o penta obtido pela esperteza e pelos dribles éticos. O povo brasileiro foi iludido com a pregação midiática. E muita gente foi comemorar uma vitória que não é realmente sua, não bastasse o futebol ser tão somente um lazer, mas que é superestimado pela publicidade midiática.

Fiquemos com as vitórias de 1958 e 1962, as únicas em que o time brasileiro venceu com méritos naturais.

BREGA É O GOLPISMO CULTURAL BRASILEIRO


Por Alexandre Figueiredo

Um sutil golpismo cultural está em curso há um bom tempo.Mas poucos notaram que há uma intelectualidade disposta a elitizar o debate público, enquanto tenta distrair as classes populares em torno do mais medíocre entretenimento brega-popularesco?

Tentam dizer que isso não tem a ver com velha mídia, com mercado, mas tem. E muito. Afinal, os pontos de vista dos defensores do brega-popularesco transmitidos por gente como Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo em nada assustam os barões da grande mídia.

Muito pelo contrário, os barões da grande mídia até ficam felizes com essa abordagem. Afinal, muita gente fatura por dentro ou por fora dessa pseudo-cultura "popular". Há um empresariado que está por trás dessa "cultura popular", que não pode ser creditado como "gente pobre" ou "pobres emancipados".

Além disso, há oligarquias defendendo o brega com muito gosto. Alguém não suspeita disso? Não existe mera coincidência e não existe invasão da mídia onde invasor e invadidos ficam felizes em clima de festa. O brega-popularesco é, mesmo, o golpismo cultural brasileiro, para domesticar as classes populares.

A ditadura militar apoiou o brega-popularesco, seus defensores civis financiaram com gosto toda sua estrutura empresarial e midiática, mas um sinistro Paulo César Araújo e seu semblante que não inspira a menor confiança, no entanto tentou pregar o contrário e muita gente acreditou. Tudo porque o próprio Paulo César Araújo se passa por "coitadinho", como os ídolos cafonas que defende.

O brega-popularesco é artisticamente medíocre. Não possui valor cultural nem identidade brasileira relevantes. E, quando assimila influências estrangeiras, é da forma mais submissa possível. E pouco importa se as gravadoras e rádios são "regionais", as agências de famosos são quase "provincianas" e seus empresários usam tênis surrados, paletós velhos e jeans rasgados.

A estrutura comercial do brega-popularesco é tão canhestra quanto o da velha grande mídia. E seus empresários são tão ricos que já compram espaços de divulgação e apresentação no exterior para nomes como Michel Teló, como tentaram fazer com Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires e Ivete Sangalo, ou mesmo com funqueiros surgidos do nada que nem os cariocas conhecem, mas de repente vão fazer turnês na Europa (em biroscas europeias, diga-se de passagem).

Afinal, não há como imaginar que o que faz esses ídolos irem para o exterior é o financiamento modesto de esmolas de rua ou doações de ONGs. E nem uma hipotética ajuda generosa de estrangeiros para acolher os nossos "coitadinhos" brasileiros, que lotam plateias com facilidade mas que 'levam pau da crítica". Se bem que hoje esses "coitadinhos" quase nunca recebem avaliações negativas da crítica especializada.

A mediocrização cultural é gritante. Valores artísticos, sociais, morais, éticos etc são bastante duvidosos. O "mau gosto" não pode ser visto como uma revolução provocativa, deveria, sim, ser visto com um meio de transformar o povo pobre numa massa de conformados, onde as melhorias de vida só se limitam ao básico tolerado pelas regras econômicas e institucionais do neoliberalismo.

"Mau gosto" não é revolução, não é rebelião nem ousadia. É, simplesmente, o retrato da inferioridade social do povo pobre. E não dá para dizer que o povo pobre gosta disso ou daquilo, porque é a velha grande mídia que o obriga a "gostar" disso tudo. "Gostar", no sentido da propaganda consumista.

O país há muito tempo sofre essa degradação cultural. Mas a intelectualidade festiva quer que isso seja o futuro de nossa cultura. Pior, já estão defendendo a hegemonia do "mau gosto" até mesmo para a classe média e para os universitários. Enquanto isso, a cultura de verdade perde cada vez seus próprios espaços e a sua saudável influência.

Estamos perdidos, mas a intelectualidade festiva e divinizada acha isso uma maravilha. Eles não têm a perder, dentro de seus apartamentos e seu luxo de elite. E ainda insistem em fazer proselitismo na mídia de esquerda, com os mesmos argumentos que agradam muito aos barões da velha grande mídia. O que um Pedro Alexandre Sanches diz hoje estará na telinha da Globo e nas páginas da Folha de São Paulo logo amanhã.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O CENSO 2010 E SUAS LIMITAÇÕES


Por Alexandre Figueiredo

Mais uma vez, o Censo diz que "aumentou" a proporção de mulheres para cada homem no Brasil. Em relação a 1980, quando parecia haver 99,8 homens para cada grupo de 100 mulheres, a situação "melhorou" fabulosamente 30 anos depois, com 96 homens para cada grupo de 100 mulheres.

Como se as milhares de mulheres mortas pela violência conjugal, pelos latrocínios, pelos péssimos atendimentos à saúde, pelos acidentes de trânsito, pelas chacinas, pelos temporais e trovoadas, pelas "queimas de arquivo", fossem ocultadas pela informação "feliz" de que "mulher, no Brasil, existe que nem capim".

Em tese, Mércia Nakashima e Eliza Samúdio estão vivas e leves e soltas, pelos dados de 2010, levantados há algum tempo. Isabella Nardoni segue tranquila nas suas tarefas de escola e a juíza Patrícia Acioli segue naturalmente com seu trabalho. Em compensação, o Censo 2010 aponta sérias limitações e critérios em seu trabalho que põem em xeque a ilusão de que "tem mulher para todo mundo no Brasil".

A hipótese, além de, por incrível que possa parecer, favorecer mais o machismo do que o feminismo, é afirmada e confirmada dentro das limitações de alcance dos recenseadores e dos critérios viciados que o IBGE adota nos últimos 40 anos.

LOCAIS DIFÍCEIS E PERIGOSOS

No primeiro caso, o Censo dificilmente consulta locais de difícil acesso, seja pelo aspecto geográfico, seja pelo sentido sociológico ou de segurança pública. Estima-se que cerca de 100 mil brasileiros do sexo masculino sejam ignorados em todo recenseamento. São pessoas situadas nos dois extremos da pirâmide social, que por diversos motivos não são sequer citados em consultas censitárias, quanto mais entrevistados.

São homens de negócio que vivem sempre viajando, e não há como creditar aviões de passageiros como extensões do território brasileiro. Mas isso é uma parte menor da pirâmide social. Do outro extremo, se vê desde pessoas que vivem em locais dificilmente acessíveis no interior do país ou nas favelas, como pessoas consideradas "socialmente desagradáveis", como mendigos e marginais, muitos deles de difícil acesso para entrevistas, por razões óbvias.

Além disso, a população masculina, que continua tendo o peso maior nas migrações, acaba sofrendo uma distorção geográfica por causa do êxodo rural. A distorção consiste nesses homens viverem nas capitais, mas ainda serem creditados como moradores das cidades de origem no interior do país.

Salvador é o sintomático caso. A cidade possui maioria de homens na sua população, fato claramente visto no cotidiano, sobretudo nos bairros populares, mas oficialmente os dados do Censo declaram o contrário, ou seja, maioria feminina. Isso porque a cidade, não bastasse os mendigos e marginais, além dos favelados localizados em lugares de difícil acesso, ainda mantém uma demanda de homens que vive "clandestinamente" de acordo com os padrões censitários.

São homens que chegam das cidades do interior - uns transportados por ônibus da Secretaria da Saúde, a pretexto de só passarem uns dias em tratamento ou consulta médicos - e que, vivendo na pobreza e no desemprego, não são considerados "moradores" de Salvador, mas ainda vinculados a suas cidades de origem, que são "esvaziadas" pelo poder político tanto pela opressão coronelista quanto pelo "higienismo" de políticos regionais indispostos a arcar com a dívida pública.

VALE O QUE SE DIZ

Outro aspecto do Censo é o critério viciado adotado em suas pesquisas. Vale o que diz. Se, por exemplo, uma dona-de-casa que brigou com seu marido na véspera da visita de um recenseador disser a este que ela não tem marido, por uma simples questão de desabafo, então o marido não existe. É "menos um homem" nos dados censitários.

Há, nas boates e no eventos noturnos em geral, uma "maneira de dizer" das jovens moças, quando afirmam que "não existe homem" nesses locais. Assediadas com frequência por pretendentes masculinos, o que essas moças querem dizer, na verdade, é que não há homens atraentes para o gosto delas, que os demais homens, por serem "feios e desajeitados", simplesmente "não são homens". É como alguém que diz "não bebo" quando, na verdade, apenas diz que não bebe bebidas alcoólicas, mas bebe água, café, sucos e outros líquidos.

PAÍS DAS MARAVILHAS

Numa época em que as mulheres viviam de forma mais restrita que hoje, o ano de 1960, o Censo de então apontava uma maioria masculina na população brasileira, num quadro social menos complexo que o de hoje. Estimava-se, na época, cerca de 102 homens para cada grupo de 100 mulheres.

Seria natural que, com a vulnerabilidade feminina no confuso quadro social em que vivemos significasse uma redução drástica do número de mulheres, e não seu aumento. Não se quer, com isso, que se deseje que as mulheres vivam trancadas nos seus lares, mas elas de uma forma ou de outra se tornaram mais vulneráveis a tragédias do que em 1960.

Além disso, não parece que mais homens morreram de uma forma mais intensa do que antes, mas dentro de uma proporção que não difere muito da de cinquenta anos atrás. Em compensação, a alta mortalidade feminina pelos assassinatos conjugais, latrocínios, acidentes de trânsito, doenças e outros infortúnios mostra o quanto é necessário, em vez de ocultar os cadáveres femininos pela fantasia censitária, adotar medidas para evitar que mais mulheres morram em acidentes de trânsito, violências ou pelo descaso dos hospitais.

A informação de que o Brasil "tem mais mulheres" não protege a mobilização feminista. Antes ela atenua a culpa dos machistas e marginais que dizimam muitas mulheres, inclusive jovens. Esse mito, anunciado aos quatro ventos, apenas revela um "país das maravilhas", um Brasil de fantasia feito para o turismo sexual que, embora seja oficialmente combatido por lei, é informalmente defendido e mantido pelos bastidores do mercado hoteleiro e estimulados pelo entretenimento da velha grande mídia.

Enquanto isso, cerca de 100 mil homens vivem no Brasil, na sua maioria, praticamente sem direitos reais de cidadania. E, o que é pior, nem mesmo para contar número nos Censos do IBGE eles servem. É uma dívida social que as autoridades empurram com a barriga, escondendo a miséria por debaixo do tapete.

AS "DEMOCRADURAS" DO EGITO E PARAGUAI


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: As pressões conservadoras diante das necessidades de mudanças políticas fazem com que estas não ocorram de forma profunda e abrangente, mas condicionada a interesses dominantes e a condições especificamente impostas. Com isso, mesmo a democracia brasileira ainda é deficiente em muitos aspectos, e é bom deixar claro que Emir Sader também cita a cultura como uma das falhas ocorridas em nosso país.

As "democraduras" do Egito e Paraguai

Por Emir Sader - Agência Carta Maior - Reproduzido também no Blog do Miro

Países com longas ditaduras não passam simplesmente da ditadura à democracia, apagando seu passado e escrevendo a nova página da sua história como se fosse uma página em branco. Até mesmo porque costumam ser transições institucionais, pacíficas, não rupturas radicais. O passado pesa fortemente sobre as novas democracias, condicionando seu futuro fortemente.

Tem acontecido como regra nos países latino-americanos. O próprio Brasil foi vítima desses condicionamentos. Incapaz de obter os 2/3 do Congresso para convocar eleições diretas para presidente – que teriam em Ulysses Guimaraes seu mais forte candidato a ser o primeiro civil a presidir o Brasil desde 1964 -, o país se viu às voltas com mais um pacto de elite na sua história, configurado no Colégio Eleitoral, fundado num acordo entre o novo – as forças democráticas, constituídas na oposição à ditadura – e o velho – advindas da ditadura, para somar-se ao novo regime, quando o antigo se esboroava.

O preço pago não foi barato. Ao invés da democratização das profundas estruturas de poder consolidadas pela ditadura – no campo, nos bancos, nas grandes corporações industriais e comerciais, nos meios de comunicação -, o novo regime – sob a presidência do até pouco tempo antes presidente do partido da ditadura – limitou-se, bem ao estilo liberal, à democratização institucional. O país profundo seguiu igual, até piorou em alguns aspectos, como nos meios de comunicação, em que o ministro das comunicações, ACM, encarregou-se de terminar a monopolização da mídia.

Como resultado, tivemos uma redemocratização institucional, mas o Brasil não se democratizou do ponto de vista econômico, social e cultural. Continuamos - até o governo Lula – a ser o país mais desigual do continente mais desigual.

Essas são analises que podem ser estendidas a outros países do continente que passaram por ditaduras.

O Egito e o Paraguai vivem situações que podem ser comparadas com essa. Durante as longas ditaduras que os dois países sofreram, só foi tolerada a oposição moderada, que compactuava com a ditadura: o Partido Liberal no Paraguai, a Irmandade Muçulmana no Egito. Quando termina a ditadura, os partidos ligados ao regime e essas forças de oposição estão nas melhores condições para protagonizar o que deveria ser a transição para a democracia.

No Egito, os dois candidatos provinham dessas forças: um ex-ministro do Mubarak e um candidato muçulmano. No Paraguai o Congresso continua a ser dominado pelos partidos Colorado e Liberal. Foram estes dois partidos que se uniram – juntando-se aos oviedistas, partidários de Lino Oviedo, caudilho tradicional – para derrubar Fernando Lugo em processo expeditivo.

No Brasil foi preciso passar 17 anos de terminada a ditadura para que o PT chegasse a ter forças para conquistar a presidência.

Enquanto isso, existem democraduras, cruzamento de democracia com ditadura.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O LATIFÚNDIO SEMPRE APOIOU O BREGA


Por Alexandre Figueiredo

Um dos fatores mais sombrios por trás da chamada "cultura" brega, e que a intelectualidade dominante tem muito medo de admitir, é que, desde os seus primórdios, a cafonice cultural brasileira sempre contou com o apoio dos proprietários de terra.

Desde os primeiros ídolos cafonas, como Waldick Soriano e Orlando Dias (pseudônimo de José Adauto Michiles), o coronelismo brasileiro, através de sua influência econômica em casas de espetáculos, botequins e emissoras de rádio, entre outros veículos e espaços, se dispôs a respaldar a divulgação dessa "cultura" estereotipada que pouco tem de brasileira e pouco tem de relevância social para o folclore brasileiro.

Se percebermos as relações entre economia e cultura, que sempre exerciam uma simbiose dentro do brega-popularesco - mesmo seus defensores deixam vazar a informação que o "valor" de seus ídolos está nas plateias lotadas, na alta presença nas rádios e TVs e nas altas vendas de discos - , não é difícil ver a influência latifundiária até mesmo nas áreas urbanas.

Primeiro, pela relação que tem das grandes fazendas na distribuição de produtos no comércio das capitais, inclusive São Paulo. Ou pela capitalização no comércio informal que se confunde estruturalmente com as feiras livres, mas vendem até produtos piratas e contrabandeados. Ou então pela influência que possuem nas emissoras de rádio "populares", que até pelo seu equipamento muito caro precisa do financiamento de grandes fazendeiros.

Portanto, parece uma realidade pouco agradável a quem está acostumado com o sentimentalismo publicitário dos ídolos bregas, sempre promovidos como "coitadinhos", mesmo quando conseguem o tão sonhado sucesso comercial e ficam ricos e famosos com isso.

MANOBRA IDEOLÓGICA

Como a cultura é um instrumento de emancipação social em potencial, os proprietários de terras, preocupados com a ascensão dos movimentos dos trabalhadores rurais, decidiu patrocinar cantores que, de forma retardatária, soassem como arremedos dos cantores seresteiros, evidentemente sem a força artística dos originais.

Dava para perceber a diferença artística gritante entre o que as classes populares produziam de música e o que os ídolos cafonas faziam. O primeiro aspecto disso se dá pela influência estrangeira arbitrariamente imposta pela mídia dominante, que introduz elementos estrangeiros não para enriquecer uma cultura local, somando-se a ela, mas para enfraquecê-la, subtraindo-a quase toda.

O segundo aspecto se diz ao conteúdo artístico e ideológico. Melodicamente, são músicas mais fracas, numa avaliação não somente estética, mas comunicativa. Ideologicamente, seus cantores são conservadores e suas letras, mesmo quando reclamam de alguma coisa, sempre mostram algum teor resignado, decisivo para induzir nos ouvintes uma melancolia que culmina no mais mórbido conformismo social.

Desse modo, em vez de protestarem pela reforma agrária, vão para o bar se embriagarem ao som dessas canções preguiçosas, que nada têm da imagem "revolucionária" que um poderoso lobby de intelectuais trabalha com insistência na mídia e nos meios acadêmicos.

TURISMO E INTELECTUALIDADE

O brega permaneceu "anti-brasileiro" até o final dos anos 60. Interesses que variavam do desenvolvimento econômico subordinado do chamado "milagre brasileiro" até a competitividade regional do turismo, quando, já nos anos 70, Belém e Salvador ingressavam na disputa pelos turistas estrangeiros.

Dessa forma, o estrangeirismo sempre latente no brega se desdobrou em brasilidades falsas e tendenciosas do "sambão-joia", das lambadas, e, mais tarde, da axé-music. A reboque disso tudo, o coronelismo brasileiro ainda investia na conversão da música caipira numa linha de montagem "tex-mex" que enfraqueceu as duplas caipiras originais e fez a fortuna de duplas e cantores que já se lançavam ao sucesso nos anos 80, como Chitãozinho & Xororó, Gian e Giovani, Christian & Ralf (com Christian tendo integrado o "movimento" brega-exportação junto com Michael Sullivan, Morris Albert e Terry Winter) e, um pouco mais tarde, Leandro e Leonardo e Zezé di Camargo & Luciano.

Como meio de manter as aparências, o mercado brega-popularesco, desde os anos 70, apostava numa suposta "diversidade cultural", às custas de "monoculturas" impostas como modismos em diferentes regiões do país.

Criando um mercado de entretenimento que revelou um jovem empresariado de perfil parecido com os capatazes de fazendeiros, mas com roupas mais modernas como camisetas com palavras em inglês e tênis, o brega-popularesco, além de alimentar o mercado turístico e estabelecer alianças com oligarquias políticas e midiáticas regionais, recentemente passou a usar um novo lobby para tornar seu mercado ainda mais totalitário.

Desse modo, os empresários do entretenimento brega se beneficiaram quando Fernando Henrique Cardoso tornava-se conhecido pelas ideias neoliberais difundidas por sua Teoria da Dependência. Juntando a fome com a vontade de comer, o empresariado da "cultura" brega viu nisso uma ótima mina de ouro, pois usando a intelectualidade para desfazer, aos poucos, a influência do antigo ISEB e dos CPCs da UNE, cortava-se pela raiz qualquer chance de repensar os rumos da verdadeira cultura brasileira.

Assim, a associação de oligarquias políticas, midiáticas e econômicas com o meio acadêmico - que passava a ser patrocinado até por corporações estrangeiras - fez criar, nos gabinetes, colegiados e salas de aula, a partir da Universidade de São Paulo, um "padrão USP" de pensar a cultura popular, com a sutil penetração dos conceitos de "cultura de massa" que passaram a prevalecer nos últimos anos.

Eram os mesmos conceitos de "cultura de massa" duramente contestados e combatidos por intelectuais da Europa e dos EUA, incluindo gente como Noam Chomsky e Umberto Eco, mas em especial nomes como Guy Debord e Jean Baudrillard. Era uma linhagem crítica originária da "Escola de Frankfurt", movimento de pensadores da Comunicação que veio a ser mundialmente conhecido a partir do exílio deles nos EUA.

Como não havia mercado para a "cultura de massa" que fosse levado a sério no Primeiro Mundo, o Brasil tornou-se terreno fértil para suas pregações apologéticas. E nada como o "padrão USP" que, no final dos anos 80, passou a valer em quase todas as universidades do país, públicas e privadas, para difundir esses princípios que permitiram a prevalência do brega-popularesco como uma "cultura séria".

TUDO POR DINHEIRO

E aí, paralelo às pregações neoliberais da USP, veio o Projeto Folha para impor o paradigma neoliberal de jornalismo. Desses dois contextos, surgiu o maior ideólogo do brega-popularesco do momento, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, discípulo de Fernando Henrique Cardoso na USP e do "patrão-colega" Otávio Frias Filho na Folha de São Paulo.

Mas a intelectualidade interessada de todo o país passou a defender o brega-popularesco, visando abocanhar verbas de pesquisa e bônus para viajar pelo país e pelo resto do mundo. Isso valeu tanto para um Paulo César Araújo na UFF como para um Milton Moura e Roberto Albergaria na UFBA, ou para um Hermano Vianna na UFRJ.

Todos eles passaram a defender a "cultura de massa", identificada no Brasil pelo brega-popularesco, como se fosse uma "cultura séria". Sob o intuito de desqualificar os verdadeiros movimentos sociais, esse lobby de intelectuais, mesmo claramente identificado com os interesses de grupos midiáticos como Globo e Folha, tentava vender o brega-popularesco como se fosse um "ativismo social das classes populares".

Muita mentira, muitas inverdades foram veiculadas nesse sentido. E isso tão somente para fortalecer o mercado e o empresariado. Isso não fortaleceu a cultura popular de verdade. E fez com que o latifúndio se fortalecesse na condição de "mecenas" do país. E, além disso, permitiu que os latifundiários financiassem até mesmo o ingresso de Michel Teló nas paradas de sucesso internacionais.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O TENEBROSO GOLPE DO PARAGUAI


Por Alexandre Figueiredo

O golpe do Paraguai é pior do que se imagina, pela forma com que foi feito, através de uma fachada de legalidade.

A derrubada de Fernando Lugo, sem que lhe desse uma real chance de defesa, foi resultado de um jogo de interesses e de negociações entre as forças conservadoras do país com os EUA, num plano que já era concebido ha três anos, conforme divulgou o Wikileaks.

A situação é tão terrível que, por trás da derrubada de Lugo, estavam interesses não só de latifundiários paraguaios, mas de seus sócios brasileiros do agronegócio, os chamados "brasiguaios". E, o que é pior, braços criminosos associados a tais elites, como contrabandistas, traficantes e grupos paramilitares, muitos associados ao roubo de carros e ao comércio ilegal de produtos piratas ou contrabandeados, também estavam articulados na "campanha" pela derrubada de Lugo.

Fernando Lugo se esforçou em combater o crime organizado que o derrubou. Queria acabar com esse mercado ao mesmo tempo escravista, assassino, explorador e ilegal. Lugo queria, com isso, queria promover a justiça social, a cidadania e um mercado de trabalho mais humano. Mas mexeu em privilégios tão ilegais e criminosos quanto geradores de fortuna fácil para seus interessados.

A velha grande mídia brasileira, embora admita a precipitação do congresso paraguaio na derrubada de Fernando Lugo, agora tenta, de uma maneira ou de outra, legitimar o governo de Federico Franco. E seus "calunistas" partiram para cima do Mercosul, julgando "injusta" sua decisão de banir o Paraguai das próximas reuniões do bloco econômico.

O povo protesta, no Paraguai, contra a decisão do Legislativo de seu país. Fernando Lugo e sua equipe ministerial montam um governo paralelo para pressionar contra Federico Franco. A Organização dos Estados Americanos (OEA) e a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) já começaram a reagir ao episódio do impeachment que tirou Lugo do poder.

A Unasul também baniu, a exemplo do Mercosul, o Paraguai das próximas reuniões. Em ambos os casos, a decisão valerá até que o Paraguai restabeleça a ordem democrática. Quanto à OEA, uma missão foi enviada para o Paraguai para analisar a situação, mas a organização sinalizou que pode adotar alguma medida enérgica por causa do episódio.

Ainda vai render muito essa crise no Paraguai, na medida em que as classes dominantes do país farão tudo para manter Federico Franco no governo. Mas as pressões internacionais contra a situação estão começando, o que fará o pequeno país se complicar ainda mais. E mostra o quanto o golpe contra Fernando Lugo é tenebroso, podendo servir de um precedente político para outros golpes "legais".

Convém ficarmos atentos aos fatos.

MÍDIA BRASILEIRA DEFENDE FEDERICO FRANCO. LUGO PREPARA GOVERNO PARALELO


Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia, pelo menos a do Brasil, já se posicionou favorável ao novo governo paraguaio, presidido agora pelo "moderado" Federico Franco, que havia sido vice do titular deposto, Fernando Lugo, numa coalizão de diversos partidos nas eleições de 2008.

A princípio, jornais e emissoras de TV pareciam estranhar a rapidez extrema com que Lugo foi deposto, embora não questionassem a fachada de legalidade que o Congresso do Paraguai usou para expulsar o presidente do poder, através do impeachment.

Em todo caso, porém, a velha grande mídia, através de seus comentaristas, se empolgou com as alegações dos parlamentares conservadores paraguaios de que Lugo era "incompetente" e "despreparado" para lidar com situações difíceis como a do massacre de Curuguaty. Os parlamentares acharam que Lugo, ao apoiar os trabalhadores sem-terra, vários deles vítimas do confronto com os policiais da citada região, estava "pondo em risco" a democracia no país.

Além de aplaudir a ação do congresso paraguaio, em que pese a crítica à pouca chance de defesa dada a Lugo, a velha grande mídia partiu para criticar a atitude do Mercosul de banir o Paraguai das próximas reuniões do bloco econômico. A declaração divulgada contou, no entanto, até mesmo com a adesão do Chile, governado por uma figura até mais conservadora do que parecia, em tese, ser o atual presidente paraguaio Federico Franco, o empresário Sebastián Piñera, associado à Opus Dei.

Até mesmo a presidenta Dilma Rousseff recebeu o apelo dos comentaristas midiáticos para que ela aceitasse a "soberana decisão" do Legislativo do Paraguai. E os comentaristas capricham no discurso "legalista" e "democrático", sugerindo que Dilma adote uma posição "neutra" em relação ao caso.

Em contrapartida a tudo isso, o ex-presidente Lugo afirmou que continuará governando. Ciente de sua vocação democrática, ele montou um governo paralelo com sua equipe ministerial. O Gabinete de Restauração da Democracia, nome dado à iniciativa, terá como sede a própria casa do ex-presidente, que fiscalizará os atos e decisões do presidente Federico Franco.

O governo foi anunciado numa reunião entre o ex-presidente, a sua equipe ministerial e parlamentares aliados. Estes tentam alguma solução legal para restituir o poder do presidente deposto, embora ela seja difícil por conta da maioria conservadora no Congresso.

Quando iniciou o processo que culminou no golpe, Lugo participava da reunião do Rio+20, no Brasil. Depois que deixou o poder, Lugo ainda se reuniu, na rua Alberti, no centro de Assunção, para se solidarizar com os manifestantes que estavam em frente à sede da TV Pública, protestando contra a censura e a depoisção do presidente.

Fernando Lugo também pretendeu, a princípio, apresentar sua defesa na reunião de cúpula do Mercosul, nos próximos dias 28 e 29, mas depois mudou de ideia. Por outro lado, Fernando Lugo desqualificou Federico Franco - a quem evita chamar de "presidente" - como intermediador de negociações internacionais entre o Paraguai e os demais países do mundo.

O FAROFA-FÁ DO EFE-AGÁ


Por Alexandre Figueiredo

O mentor intelectual da intelectualidade que defende o brega-popularesco, o sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, não é muito diferente, no pseudo-esquerdismo, que vemos nos cientistas sociais e críticos musicais mais badalados.

Fernando Henrique Cardoso também tem lugares em que vende uma imagem de "intelectual de esquerda", que são as plateias de universidades situadas em algumas cidades da França, como Paris, Nanterre e Sorbonne, para citar as principais, ou os fóruns econômicos que tem o sociólogo como convidado.

Sabe-se, também, que Fernando Henrique Cardoso também sonha, tal como um Pedro Alexandre Sanches na abordagem cultural, com uma "esquerda mais obediente", que não questionasse os rumos "seguros" da economia neoliberal globalizada.

Pois o próprio FHC havia se misturado com os intelectuais de esquerda quando, nos anos 60, se dizia influenciado por Karl Marx - mas, sobretudo, pelo que Max Weber analisava de Karl Marx - e se relacionava com os intelectuais do ISEB, Instituto Superior de Estudos Brasileiros, uma organização que surgiu por encomenda de Juscelino Kubitschek para analisar o país e que, inicialmente neutro, tornou-se uma entidade claramente de esquerda.

Naqueles tempos, figurões que hoje integram a direita intelectual e política no país eram alinhados à esquerda, uns aparentemente, outros pelos arroubos de juventude: os cepecistas Ferreira Gullar e Arnaldo Jabor, o líder estudantil José Serra e o então anônimo estudante Fernando Gabeira.

Os tempos passam e, na distância do passado, indagamos o que faz com que idealismos socialistas se percam, para uns, com as desilusões da militância ou pelas ilusões dos privilégios obtidos, ou o que faz com que direitistas latentes defendam um esquerdismo de resultados para obter vantagens pessoais.

São coisas que mudaram de ontem para hoje e podem mudar de hoje para amanhã. Em 1964, Fernando Henrique Cardoso e José Serra pareciam sinceros centro-esquerdistas, e em nenhum momento puseram os pés nos salões do IPES e do IBAD. FHC parecia simpatizante do ISEB e seguidor de Celso Furtado.

Mas em 2010, se viu José Serra se aliando com o Comando de Caça aos Comunistas - que já fazia seu terror em 1964, queimando a sede da UNE que foi presidida pelo próprio Serra, e depredando até estúdios de emissoras de rádio - e Fernando Henrique Cardoso há muito consagrado por ideias que agradam aos chefes do FMI e já reconhecido como um político conservador nos dois governos que fez para o país.

Dessa forma, Fernando Henrique Cardoso, como as conveniências permitiram, pôde parecer um intelectual de esquerda aos olhos desavisados de seu público. E pode se misturar com a nata da esquerda política e intelectual quando as circunstâncias permitiram. Até que, depois, mostrou ideias claramente conservadoras, na medida em que seu aparente esquerdismo era superficial. Mas aí ele já havia usado as esquerdas para obter vantagens e depois largá-las no caminho.

terça-feira, 26 de junho de 2012

GABY AMARANTOS NÃO INVADIU A GLOBO. A GLOBO É QUE GOSTOU DELA


Por Alexandre Figueiredo

Às vezes, nota-se um certo nervosismo em certos escribas, que já não conseguem ter o poder de influência e domínio do que antes.

Quando veio o escândalo de Veja envolvida no esquema de Carlinhos Cachoeira, o colunista Reinaldo Azevedo escreveu um texto que mostrava claramente sua fúria diante das acusações feitas contra a revista.

Agora eu pude ver o nervosismo por parte de MC Leonardo e Pedro Alexandre Sanches, que sempre foram estranhos no ninho em relação ao elenco progressista da revista Caros Amigos. Uma boa revista, mas que até hoje não possui uma linha editorial de cultura bem resolvida.

Com o "funk carioca" deixando mais claro que nunca passou de uma "cracolândia" musical, MC Leonardo parece tentar explicar sua "militância", deixando subentendido, no título, "Um Toque para a Esquerda", uma certa animosidade que o dirigente funqueiro tem com a esquerda. Enquanto isso, ele se encontra bem à vontade quando fala de seus pares no jornal Expresso, das Organizações Globo.

Quanto a Pedro Alexandre Sanches, nota-se que ele anda recebendo críticas pelo modo como ele defende a mistura de alhos com bugalhos na música brasileira. Depois que ele escreveu um texto sobre Chico Buarque em que ele mais se preocupava em falar mal de um assessor do cantor, o "colonista-paçoca", meio nervosamente, tenta creditar o sucesso nacional de Gaby Amarantos como algo "revolucionário".

O título é muito pretensioso: "A Terra treme ao som tecnoindígena", como se ele não visse diferença entre o tecnobrega e as músicas indígenas que o Brasil houve há milênios. Tentando definir o sucesso do brega, em especial o tecnobrega de Gaby Amarantos, Sanches tenta definir o hit-parade brasileiro como se fosse um "folclore moderno", que seria algo como dizer que um chiclete de bola é igual a uma fruta que cai de uma árvore.

Sanches festeja o sucesso de sua musa Gaby Amarantos como se ela tivesse invadido a grande mídia numa operação conspiratória. Dependendo desse ponto de vista, está pronto, o tecnobrega rendeu os barões da grande mídia e o socialismo foi instaurado no Brasil. Não é bem assim, é o oposto. A grande mídia recebeu muito bem o tecnobrega e a Globo gostou muito de Gaby Amarantos. A Caras também.

Num certo momento, Sanches recorre a argumentos "subversivos" que até Steve Jobs em seus surtos mais conservadores teria sido capaz de dizer. O de que a máxima da cultura brasileira atual é "roubar, piratear" em vez de reciclar. Num dado momento, ele evoca seus "heróis" Wando, Alípio Martins e Odair José e, numa outra passagem, Zezé di Camargo, que ele também acha "revolucionários".

Tentando convencer a gente de que a MPB autêntica não é "melhor nem pior" que o brega-popularesco (na verdade, a MPB é melhor), Sanches parece meio perdido nas suas argumentações, porque ele tenta até agora escrever o seu "Manifesto Antropofágico" mas hoje os tempos são outros e o Brasil ainda desconhece as armadilhas que já foram, no Primeiro Mundo, devidamente identificadas por gerações de pensadores, de Walter Benjamin a Umberto Eco.

Ao longo do texto, ele também recorre a argumentações "etnográficas", a partir do já citado título. É muito tendencioso, da mesma forma do que inverter o sentido da "sabedoria" pela pouca idade dos jovens de hoje, mais receptivos as pregações pró-bregas de Sanches. É forçar a barra demais definir o tecnobrega como "som indígena", ou então definir outros ritmos bregas como o "funk carioca" como "negritude". Tudo isso é comércio, não cultura étnica. Isso está claro.

Sanches, na verdade, defende a substituição da cultura brasileira pelas regras comerciais do hit-parade. Mas, para que ele possa defender tal ideia sem assustar os leigos, ele tenta forjar um discurso falsamente folclórico, usando dos clichês do mais rasteiro discurso "subversivo", com essa rebeldia postiça de adolescentes riquinhos, que acham que vão mudar o mundo com o clique de um mouse.

Talvez seria hora de Pedro Alexandre Sanches pedir ao colega de pregações popularescas Hermano Vianna algum lugarzinho na Rede Globo. Que Sanches "criticou" ignorando a cumplicidade entre a grande mídia e o tecnobrega. Pessoalmente, adoraria ver Pedro Alexandre Sanches tendo coluna no Fantástico ou fazendo a agenda cultural no programa de Fátima Bernardes.

Não é qualquer um que pode ser de esquerda. Para ser de esquerda, tem que pensar como esquerda. Isso não é determinismo ideológico. Isso é coerência. Quem escolhe um caminho é para andar nele.

DEMÓSTENES CASSADO. VEJA LAMENTA!


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A velha mídia não gostou, mas teve que perder seu "cavaleiro da ética" como um precioso anel que estava apertando demais os dedos. Ele tornou-se o primeiro a ser cassado, depois de tentar renunciar para obter uma absolvição ou qualquer atenuante judicial. Demóstenes não conseguiu e teve que ser defenestrado diante de tantas provas contra ele.

Demóstenes cassado. Veja lamenta!

Por Altamiro Borges - Blog do Miro

O Conselho de Ética do Senado aprovou na noite desta segunda-feira (25), por unanimidade, o relatório do senador Humberto Costa (PT-PE) pela cassação do mandato do ex-demo Demóstenes Torres. A votação se deu através do voto aberto e nominal - o que dificulta futuras manobras para inocentar o falso paladino da ética e jagunço de reputações. O relatório teve a aprovação dos 15 senadores que integram o conselho.

O parecer será agora encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado para análise dos aspectos constitucionais. Na sequência, ele seguirá para votação no plenário. Até os íntimos amigos do falso paladino da ética já dão como certa sua cassação. Do contrário, alegam, ocorrerá a total desmoralização do Senado. As provas da ligação de Demóstenes Torres com a máfia de Carlinhos Cachoeira são irrefutáveis.

Os viúvos do ex-demo

A cassação do ex-demo representará um duro golpe para a oposição de direita no país. Para o DEM, que já havia lançado o senador para a sucessão presidencial de 2014, ela quase significa um passaporte para o inferno. O partido tende a extinção após as eleições municipais de outubro. Já o PSDB perde o seu mais fiel aliado, sustentáculo do governo FHC e de outros governos tucanos. A cassação também enterra de vez o falso discurso moralista, udenista, da oposição da direita - mais suja do que pau de galinheiro.

Além do baque na direita partidária, a cassação também causa abalos na mídia hegemônica. O ex-demo era paparicado por jornalões, revistonas e emissoras de tevê. Era presença constante na imprensa como líder da oposição e arauto da moralidade. Quem mais sofre com o fim de carreira de Demóstenes Torres é a revista Veja, que sempre usou o senador como fonte privilegiada. O ex-demo chegou a ser eleito pela revista como um dos "mosqueteiros da ética". Bob Civita deve ter insônias nesta noite!

FOLHA DE SÃO PAULO AGORA COBRA PARA VOCÊ LER NA INTERNET


Por Alexandre Figueiredo

Os empresários do "funk carioca", tecnobrega, "sertanejo pegação" e "forró eletrônico" são mais ricos do que Otávio Frias Filho ou é o Tavinho Frias que é mais pobre do que eles?

Coitadices à parte, devemos imaginar a falta que Pedro Alexandre Sanches faz para o jornal paulista, que agora deu para cobrar pelo conteúdo lido na Internet.

Para não pegar mal, a Folha de São Paulo permitiu ao leitor comum ler apenas 20 textos por dia, assim de graça. Atingido esse limite, o leitor terá que fazer um cadastro gratuito, para ler mais 20 textos. Se quiser ler mais, sem qualquer custo, terá que esperar outro dia para fazer isso.

Isso porque, para quem quer ler mais de 40 textos, é necessário fazer uma assinatura para o conteúdo digital. Até tentamos pesquisar o sítio da Folha de São Paulo para saber o preço das assinaturas, mas surgiu esse "simpático" aviso na foto ao lado. E eu tenho muito o que fazer para criar login e senha só para ler este jornal.

E tudo isso é feito com a Folha de São Paulo vivendo sua "ótima fase", com programinha de TV na TV Cultura, e todo o ar de "superioridade" como paradigma - no entanto, já superado - de "jornalismo moderno" em todo o Brasil.

Você abiriria mão de sua cesta básica só para ler um jornalzinho destes na Internet, e logo quando a blogosfera informa muito mais - e muito mais honestamente - do que o diário da famiglia Frias?

WIKILEAKS: GOLPE ERA PLANEJADO DESDE 2009


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Documentos secretos do Wikileaks revelam que o golpe consumado no Paraguai foi de certa forma pensado e planejado desde 2009, conforme divulgaram mensagens de políticos direitistas paraguaios e já se pensava em colocar o vice-presidente Federico Franco, considerado "moderado", no lugar de Fernando Lugo, que é o que justamente foi feito.

Por trás desse golpe, há também interesses de elites do agronegócio brasileiro pelas terras do país vizinho.

WikiLeaks: golpe era planejado desde 2009

Por Saul Leblon - Agência Carta Maior

Despacho sigiloso da Embaixada dos EUA em Assunção, dirigido ao Departamento de Estado, em Washington, já informava, em 28 de março de 2009, a intenção da direita paraguaia de organizar um 'golpe democrático' no Congresso para destituir Lugo, como o simulacro de impeachment consumado na última 6ª feira. O comunicado da embaixada, divulgado pelo WikiLeaks em 30-08-2011 (http://wikileaks.org/cable/2009/03/09ASUNCION189.html) O comunicado da embaixada, divulgado pelo WikiLeaks em 30-08-2011 (http://wikileaks.org/cable/2009/03/09ASUNCION189.html) mostra que já então o plano era substituir Lugo pelo vice, Federico Franco, que assumiu agora. O texto enviado a Washington faz várias ressalvas. Argumenta que as condições políticas não estavam maduras para um golpe, ademais de mostrar reticências em relação a seus idealizadores naquele momento. Dos planos participavam então o general Lino Oviedo (ligado a interesses do agronegócio brasileiro no Paraguai, que agora pressionam Dilma a reconhecer a legitimidade de Federico Franco, simpático ao setor) e o ex-presidente Nicanor Duarte Frutos. Em seu governo (2003-2008), o colorado Nicanor Duarte Frutos foi duramente criticado por vários governos latino americanos por ter permitido o ingresso de tropas norte-americanas no territorio paraguaio para exercícios conjuntos com o Exército do país; foi em seu mandato também que os EUA tiveram permissão para construir uma base militar na zona da Tríplice Fronteira,com gigantesca pista de pouso, supostamente para combater narcotráfico e o terrorismo islâmico.

O despacho da Embaixada dos EUA em Assunção divulgado pelo WikiLeaks

Reference ID Created Released Classification Origin
09ASUNCION189 2009-03-28 20:24 2011-08-30 01:44 SECRET Embassy Asuncion

VZCZCXYZ0000
OO RUEHWEB

DE RUEHAC #0189/01 0872024
ZNY SSSSS ZZH
O 282024Z MAR 09
FM AMEMBASSY ASUNCION
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC IMMEDIATE 7716
INFO RUCNMER/MERCOSUR COLLECTIVE PRIORITY
RHMFISS/HQ USSOUTHCOM MIAMI FL PRIORITY
RHMFISS/USSOCOM MACDILL AFB FL PRIORITY
...id: 199404
date: 3/28/2009 20:24
refid: 09ASUNCION189
origin: Embassy Asuncion
classification: SECRET
destination: 07ASUNCION910|08ASUNCION535|08ASUNCION598|08ASUNCION611|09ASUNCION188
header:
VZCZCXYZ0000
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FM AMEMBASSY ASUNCION
TO RUEHC/SECSTATE WASHDC IMMEDIATE 7716
INFO RUCNMER/MERCOSUR COLLECTIVE PRIORITY
RHMFISS/HQ USSOUTHCOM MIAMI FL PRIORITY
RHMFISS/USSOCOM MACDILL AFB FL PRIORITY
----------------- header ends ----------------
S E C R E T ASUNCION 000189
SIPDIS
STATE FOR WHA/BSC MDASCHBACH
E.O. 12958: DECL: 03/23/2029
TAGS: PGOV PREL MARR PINS PA
SUBJECT: PARAGUAYAN POLS PLOT PARLIAMENTARY PUTSCH
REF: A. 08 ASUNCION 00611
¶B. 08 ASUNCION 00598
¶C. 08 ASUNCION 00535
¶D. 07 ASUNCION 00910
¶E. 09 ASUNCION 00188
Classified By: DCM Michael J. Fitzpatrick; reasons 1.4 (b) and (d).
--------
SUMMARY
--------
¶1. (C) SUMMARY: Rumors persist that discredited General and
UNACE party leader Lino Oviedo and ex-president Nicanor
Duarte Frutos are now working together to assume power via
(mostly) legal means should President Lugo stumble in coming
months. Their goal: Capitalize on any Lugo mis-steps to
break the political deadlock in Congress, impeach Lugo and
assure their own political supremacy. While many predicted
political shenanigans in March during the traditional social
protest season that accompanies the opening of Congress,
little has come of it (largely because Lugo has been careful
not to provide the political or legal rope with which to hang
him, thus depriving Oviedo and Duarte the numbers in Congress
for their supposed "democratic coup"). But that could change
quickly here. Mid-March outrage over multi-million dollar
subsidies for sesame growers via a discredited NGO was
considered as a possible ground for impeachment before Lugo
walked away from the program (though the controversy
continues). For a president already facing many challenges
-- internal political struggles, corruption, and the
perception that his own leadership style is ineffective --
Lugo must now also worry about making a mis-step that could
be his last. END SUMMARY.
------------------
DOWN, BUT NOT OUT?
------------------
¶2. (S) Paraguay's two-most controversial politicians --
cashiered General and UNACE party leader Lino Oviedo and
discredited ex-president Nicanor Duarte Frutos -- simply
refuse to go away. After using the first six months of the
Lugo administration to quietly lick their electoral wounds
the duo are now positioning themselves to assume power should
President Lugo stumble in coming months. Sensitive reporting
(and other Embassy contacts) indicate that Duarte and Oviedo
would like to create circumstances which could lead to a
constitutional change of government (ref A). An
Oviedo-Duarte partnership began long before President Lugo's
inauguration last August. As President in 2007, it was
Duarte who used his control of the Supreme Court to free
Oviedo from jail. (NOTE: Oviedo was serving time for
involvement in the 1999 assassination of Vice President Luis
Argana and the subsequent Marzo Paraguayo massacre of unarmed
student protesters (ref B). END NOTE). Duarte incorrectly
assumed that if Oviedo ran for president, he would split the
opposition vote, thus ensuring a win for his own Colorado
puppet candidate, Blanca Ovelar.
¶3. (C) In return for Oviedo's freedom, his political party
UNACE supported Duarte's constitutionally dubious Senate bid
(ref C). Senate President Enrique Gonzalez Quintana swore in
Duarte last August in his private chambers after failing
several times to get a quorum for that purpose. However, the
Senate rejected Gonzalez Quintana's unilateral act and swore
in Duarte's substitute in early September (ref D).
¶4. (C) Oviedo also suffered a political setback last
September, when the military's congressional liaison, General
Diaz, informed President Lugo that Oviedo, Duarte and others
had invited him to a meeting at which they then discussed the
possibility of a coup. Lugo immediately exposed the meeting,
further damaging Oviedo's "democratic credentials." Oviedo
since has become Lugo's principal political adversary,
instructing his "troops" in UNACE party to oppose all
Congressional initiatives and reforms Lugo pursues, and
refusing to meet with Lugo. There is no deeper political and
personal divide in Asuncion today that that between Lugo and
Oviedo. And the distaste and distrust are as mutual as they
are deep.
------------------
A FARFETCHED PLAN
------------------
¶5. (C) Duarte's and Oviedo's shared goal: Find a "cause
celebre" to champion so as to change the current political
equation, break the political deadlock in Congress, impeach
Lugo and regain their own political relevance. Oviedo's
dream scenario involves legally impeaching Lugo, even if on
spurious grounds. (With a two-thirds vote, the Chamber of
Deputies may bring impeachment proceedings against the
president. Like in the United States, the Senate tries
impeachments, again requiring two-thirds vote to convict).
The presidential baton would thus, in this scenario, pass to
Vice President Federico Franco, who would be
constituitionally required to call vice-presidential
elections within 90 days. Given the institutional collapse
and political fratricide reigning now within the Colorado
Party, Oviedo would be the obvious leading candidate.
Meanwhile, Duarte, having regained his Senate seat via
Supreme Court maneuvering, would assume the Senate presidency
and become number three in the line of presidential
succession. The Liberal Franco would be President, but
Oviedo and Duarte would control Congress -- and the courts.
Farfetched? Perhaps. But not entirely unprecedented in
Paraguayan politics.
---------------------------------
BACK TO REALITY: THE HARD NUMBERS
---------------------------------
¶6. (C) Throughout January and February, post heard increased
reports of a possible "constitutional" plot against Lugo
after Congress returned to session in March. However, Oviedo
and Duarte have not had the public excuse -- much less the
numbers in Congress -- for their supposed "democratic coup."
In order to bring impeachment charges in the lower house,
Oviedo/Duarte need 53 votes. Assuming the support of all 30
Colorados (not an easy assumption in light of divisions in
the Colorado Party between Duarte and his former Vice
President Luis Castiglioni) and 15 UNACE deputies,
Oviedo/Duarte today fall at least eight short of the votes
they need to bring impeachment charges. The environment in
the Senate is similar: Oviedo/Duarte need 30 votes to convict
but have only 24 in the best case scenario (15 Colorado
senators -- six of which are led by Luis Castiglioni -- plus
9 UNACE senators).
-------------------------------
NO BASIS (YET) FOR IMPEACHMENT
-------------------------------
¶7. (C) Several of Embassy's key political contacts conclude
that Lugo's best defense against impeachment is that most
political actors prefer working with him to the alternative:
Vice President Federico Franco. (BIO NOTE: Franco is known
for being an old-school Liberal party politician with an
oversized ego and a difficult personality. END NOTE).
Additionally, Congress cannot vote to impeach Lugo without at
least superficial political or legal grounds. Lugo has been
in office only seven months, and the situation is not ripe
for impeachment. Instead, despite rumblings about Lugo's
mild-mannered leadership style and his failure to set out a
national agenda, public support for the Lugo administration
remains high. The Bottom Line: Given the nightmare scenario
of General Oviedo and Nicanor Duarte Frutos jointly running
the show, the general political consensus here -- among
rationalists, anyways -- remains strong: For all foibles,
President Lugo remains Paraguay's least worst option.
-------
COMMENT
-------
¶8. (C) COMMENT: As history demonstrates, nothing is
impossible in Paraguay. But politics here can turn on a dime.
Witness Nicanor's masterful 2007 orchestration of Oviedo's
release from military prison -- and the clearing of all
charges -- just hours before the 2008 electoral campaign
registration deadline. Lugo is now confronted by sudden
political clashes after the announcement of USD 8 million in
sesame subsidies to a discredited campesino-run NGO. Lugo
immediately walked back the announcement, for fear (in part)
of providing legal basis for impeachment, even as he still
pursues subsidies for suffering sesame farmers. Campesino
leaders seem to currently have the upper hand, thus forcing
Lugo's Agriculture Minister to seek to quit. But this is far
from over. For a president already facing many challenges --
internal political struggles, corruption, and the perception
that his own leadership style is ineffective -- Lugo must now
also worry about possible impeachment charges. There is no
doubt that Oviedo and Duarte are bent on regaining leadership
roles in Paraguayan politics (and, ahem, economics). As
Defense Chief Admiral Benitez recently told Ambassador (ref
E), "Oviedo has been plotting since the day he was born."
Rumors and conspiracy theories are indeed the lifeblood of
Paraguayan politics, and should be viewed as the norm. It is
when the rumors stop that we really should start worrying.
END COMMENT.
Please visit us at http://www.state.sgov.gov/p/wha/asuncion
AYALDE
=======================CABLE ENDS================

segunda-feira, 25 de junho de 2012

PARAGUAI NÃO ANTECIPARÁ ELEIÇÕES


Por Alexandre Figueiredo

O Tribunal Superior de Justiça Eleitoral do Paraguai anunciou que não serão antecipadas eleições para a escolha do novo presidente do país.

Com isso, o vice-presidente Federico Franco, que se tornou presidente depois do golpe "legalista" que derrubou o titular Fernando Lugo, governará o país até 2013.

As eleições ocorrerão no dia 21 de abril do próximo ano e a posse será quatro meses depois. Até lá, Franco completará o mandato de Lugo seguindo, todavia, uma cartilha que a velha grande mídia define, por eufemismo, de "moderada".

Enquanto surgem rumores de que um golpe está em curso também na Bolívia, o Paraguai voltará com um projeto político mais conservador, cujos maiores beneficiários serão os proprietários de terras do país, que mantém parcerias com empresários do agronegócio brasileiros.

Dessa feita, as elites conservadoras do Paraguai se satisfazem na vingança consumada de derrubarem Lugo, que ameaçava seus privilégios. Os argumentos foram os mesmos que os generais da ditadura militar brasileira fizeram contra João Goulart, classificando o ex-bispo paraguaio de "incompetente" e "despreparado para lidar com situações de conflito no país".

É como se um grupo de aluninhos implicantes - aqueles que cometem bullying contra colegas "mais fracos" - esperassem que um colega de aparência frágil mas inteligente e de grande caráter escorregasse no corredor, derramasse, sem querer, sua lancheira sobre a saia de uma colega e os implicantes usarem esse episódio para expulsar o coleguinha "desagradável".

Lugo apenas foi vítima de um impasse, diante do sangrento confronto entre trabalhadores rurais e a polícia que defendia os interesses dos latifundiários numa área em Curuguaty. Muitos dos latifundiários que possuem terras no Paraguai foram beneficiados pela ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), uma das primeiras na América do Sul instaurada até mesmo antes que a Revolução Cubana causasse dor de cabeça nos chefões da política de Estado norte-americana.

Com a volta da "normalidade" - leia-se uma situação conservadora e um projeto político-econômico bem ao gosto do FMI - , o Paraguai continuará sendo um país sem referências, conhecido pela vizinhança sul-americana como o "paraíso do contrabando" e o "reduto da pirataria latino-americana".

Talvez a intelectualidade etnocêntrica, para distrair a moçada, possa "aliviar a situação" creditando a "musa" Larissa Riquelme como "militante feminista" (!) daquele país. No entanto, a urubologia reinante vai chorar: sua "democracia paraguaia" já está fora das próximas reuniões do Mercosul.

MERCOSUL SUSPENDE O PARAGUAI


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O impedimento político de Fernando Lugo de continuar presidindo o Paraguai foi festejado pela grande mídia e pelas autoridades estadunidenses, mas fez com que reações contrárias a esse ato arbitrariamente decidido pelo Congresso do Paraguai também ocorressem. E uma delas é a suspensão do Paraguai de participar das reuniões do Mercosul.

Mercosul suspende o Paraguai

Por Altamiro Borges - Blog do Miro, com nota traduzida por Alexandre Figueiredo

Os países membros do Mercosul decidiram, na tarde deste domingo, suspender a participação do governo golpista do Paraguai da próxima cúpula do bloco, que ocorrerá na quinta e sexta-feira em Mendoza, na Argentina. A decisão representa mais um passo para o isolamento das forças direitistas que depuseram, "em rito sumário", o presidente democraticamente eleito Fernando Lugo.


Segundo o comunicado conjunto, a decisão de "suspender o Paraguai, de forma imediata e por este ato, do direito a participar da 43ª Reunião do Conselho de Mercado Comum e Cúpula de Presidentes do Mercosul” foi tomada com base no Protocolo de Ushuaia sobre Compromisso Democrático no Mercosul. Assinado em 24 de julho de 1998, o documento determina “a plena vigência das instituições democráticas” como “condição essencial para o desenvolvimento do processo de integração”.

No comunicado, os países membros - Argentina, Brasil e Uruguai - e também os países associados - Chile, Peru, Venezuela, Bolívia, Equador e Colômbia - expressaram a “enérgica condenação à ruptura da ordem democrática ocorrida na República do Paraguai". O comunicado informa ainda que os chefes de estado irão analisar novas “medidas a serem adotadas” - inclusive a adoção de sanções econômicas. A cúpula em Mendoza se torna decisiva para o isolamento dos golpistas. Veja a íntegra da nota:

*****

A declaração dos estados participantes do Mercosul e estados associados, sobre a ruptura da ordem democrática no Paraguai, diz o seguinte:

"A República Argentina, a República Federativa do Brasil, a Republica do Uruguai, a República Bolivariana da Venezuela, o Estado Plurinacional da Bolívia, a República do Chile, a República da Colômbia, a República do Equador e a República do Peru, considerando que, de acordo ao estabelecido no Protocolo de Ushuaia sobre o Compromisso Democrático no Mercosul, assinado em 24 de julho de 1998, a plena vigência das instituições democráticas é condição essencial para o desenvolvimento do processo de integração, decidem:

1.-Expressar sua mais enérgica condenação à ruptura da ordem democrática ocorrida na República do Paraguai, por não haver respeitado o devido processo.

2.-Suspender ao Paraguai, de forma imediata e por esse ato, o direito de participar da XLIII Reunião do Conselho do Mercado Comum e Cúpula dos Presidentes do Mercosul, assim como das reuniões preparatórias, que terão lugar na cidade de Mendoza, entre 25 e 29 de junho de 2012.

3.-Considerar, a nível de Chefas e Chefes de Estado na Reunião da Cúpula do Mercosul do dia 29 de junho, posteriores medidas a serem adotadas".

ESSES HOMENS LEGAIS E SUAS PRETENDENTES NADA LEGAIS


Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, a celebridade Geisy Arruda, "surgida" de um factoide ocorrido numa faculdade da Universidade Bandeirantes, em São Paulo, disse que está sozinha há um tempo e que gostaria de namorar "um cara legal".

É o que fazem, de uma forma ou de outra, mulheres associadas de alguma maneira no universo brega-popularesco, seja como celebridades, seja como fãs.

Querendo impressionar a sociedade, essas mulheres, que vão das chamadas "marias-coitadas" às "mulheres-frutas", tentam fazer crer que preferem "homens mais simples". Algo como um sujeito entre o nerd e o beatnik, de aparência quase desajeitada e modesta, de caráter sensível e intelectualizado.

O grande problema é que a declaração de Geisy Arruda, similar ao de outras declarações de "musas" da vulgaridade feminina, encontra oposição justamente nos "caras legais" que elas tanto cobiçam. E essa oposição se torna evidente, mesmo numa sociedade ainda tomada de resíduos machistas defendidos sutilmente pela velha grande mídia.

 A realidade se transforma e mesmo entre os homens há uma reação forte ao machismo defendido até mesmo por internautas semi-anônimos ou blogueiros reacionários, um machismo nunca assumido no discurso, mas também não desmentido, já que costumam reagir com gracejos ou com comentários irônicos tipo "oia" ou "epa", que implicitamente já sugerem uma opção machista desmascarada.

Por isso, a reação de homens de personalidade mais diferenciada, em relação à multitude de "pegadores", "encrenqueiros" ou "galinhas", é um fato que não deve ser menosprezado. Porque já existe o fato dos casamentos por conveniência, em que as esposas possuem uma personalidade diferenciada, mas seus maridos não, em certos casos homens de personalidade mais frouxa (já definidos como "manginas") que, em muitos casos, se escondem num cargo de liderança como empresários, executivos ou profissionais liberais na falta de alguma "luz própria".

E os homens com personalidade diferenciada não gostam de perder vantagem vendo as mulheres com quem eles desejam se casar serem comprometidas com os tais "manginas". E, por isso, rejeitam as mulheres vulgares ou mesmo aquelas simplesmente cafonas - as "marias-coitadas" que rejeitam homens que elas se sentem atraídas, devido à baixa autoestima delas - , porque os homens considerados "legais" também querem mulheres assim.

A crise com que vivem as chamadas "boazudas", seja pela revelação de que muitas "musas" funqueiras tidas como "solteiríssimas" na verdade são casadas ou têm namorado, pelo desgaste que atinge até as "paniquetes" e pelo "beco sem saída" por quem passam "musas" como Solange Gomes - muito "balzaca" para o papel que desempenha na mídia popularesca - e a paraguaia Larissa Riquelme, que desfez um noivado com um craque de futebol.

A cada dia o Brasil mostra que as mulheres que têm sucesso na vida são aquelas que agem com inteligência, são discretas e coerentes com os deveres e direitos seus na sociedade. Usar a liberdade do corpo como desculpa para promover a vulgaridade foi uma mentira esfarrapada que não convenceu, diante dos valores machistas nela evidentes.

Da mesma forma, foi inconvincente a campanha de intelectuais badalados em promover como "feminismo" o mero fato das musas "popozudas" não viverem (pelo menos, aparentemente) da sombra de seus homens. Quando há valores machistas em jogo, não há como disfarçar com alegações pseudo-feministas.


A ARMADILHA "TRANSBRASILEIRA"


Por Alexandre Figueiredo

"O rei morreu. Viva o Rei!!". A célebre frase significa, no anedotário popular, que o rei continua reinando nos corações das pessoas, ainda que tenha morrido.

Mas quando se diz "o mercado morreu. Viva o mercado!", no caso do entretenimento brasileiro, não só o mercado continua reinando nas emoções de seus adeptos como ele continua mais vivo do que nunca.

A intelectualidade etnocêntrica - leia-se Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e companhia - diz que o mercado morreu. Querendo defender ideias de direita num discurso esquerdista, fingem concordar que o mercado fonográfico está em colapso, a velha grande mídia está agonizante e, querendo forçar muito a barra nos seus argumentos, acham que o botão de um mouse de um computador de um cidadão comum é o botão que vai detonar a explosão cultural mundial da humanidade.

Balelas. Argumentos meio porraloucas, Contracultura de boutique. Tudo para esconder os interesses mercadológicos que estão por trás do discurso de "morte do mercado". Nos enganem que gostamos, intelectuais. Que tal vender o peixe anunciando que o mercado morreu, que voltamos ao tempo do escambo, que os escritórios agora estão nos porões das casas de qualquer um, que qualquer imbecil despolitizado agora é "guerrilheiro zapatista-guevariano"?

Ser "pós-moderno", "transbrasileiro", "hiperconectado" e outras expressões bonitinhas é o imaginário do pseudo-ativista plantado pelo discurso intelectual dominante. Que não é tido como dominante, pasmem, daí o posicionamento ideológico de seus pregadores, que evitam sempre os mesmos cenários dos urubólogos.

Dependendo do palanque ou do auditório em que um discurso neoliberal é difundido, ele ganha matizes "esquerdistas" sem que qualquer de seus princípios sejam alterados. As gerações mais recentes sofrem, em maioria, da memória curta cultuada pelas emissoras de TV e rádio, pela imprensa e pela Internet, desde os obscurantistas anos 90.

Cafonices, sensacionalismos, aberrações, baixos valores morais, outros valores supérfluos e até tolos. Tudo isso povoa o imaginário juvenil diante da overdose de alienação midiática que antecedeu a overdose de informações posteriormente assimilada. Tudo isso criando uma visão esquizofrênica que faz do Brasil uma triste peculiaridade mundial.

Afinal, são pessoas que "adoram" Che Guevara, mas defendem as regras de mercado. São pessoas que dizem "abominar radicalmente" o imperialismo, mas usufruem de tudo o que este lhes oferece. Assimilam valores tão contraditórios, que criam um repertório ideológico confuso, que se fosse um bolo seria algo bastante moderno na cobertura, mas velho e podre no recheio.

E aí vem Pedro Sanches falar em "cultura transbrasileira". Nada mais neoliberal do que isso. Pois o "transbrasileiro", como foi escrito antes, é o mesmo "transnacional" no ideário neoliberal. Dá no mesmo. São palavras dotadas de um mesmo sentido ideológico.

No lado econômico e "transnacional", empresas estrangeiras que, com um certo esnobismo, exibem a bandeira do Brasil que tomaram para si, enquanto enfraquecem concorrentes brasileiras, seja pela própria competição voraz, seja pela compra de ações.

Já no lado cultural e "transbrasileiro", vemos regras e paradigmas do hit-parade norte-americano penetrando na cultura brasileira usando termos oportunistas como "neo-folclore", "pop pós-moderno", "cultura hiperconectada".

Assim as autoridades do FMI gostam. Prega-se o neoliberalismo na cultura como se ele fosse um "novo socialismo". E a juventude que lê Caros Amigos e Fórum às pressas, acompanhando os pais dissidentes de antigas leituras da Folha de São Paulo, não tem a menor ideia do que está por trás do atraente discurso que assimilam sem verificar.

Acabam levando gato por lebre caindo na armadilha "transbrasileira".

domingo, 24 de junho de 2012

O SENTIDO PEJORATIVO DO TERMO "PARAGUAIO"


Por Alexandre Figueiredo

O Paraguai, com sua longa ditadura que dizimou com seus referenciais de país e sociedade, passou a ser mais conhecido, internacionalmente, pelo comércio de produtos piratas, pelo contrabando de automóveis e pelos registros ilegais de automóveis roubados.

Se o país, um dos vizinhos do Brasil, não vivia seus grandes dias, depois da longa, corrupta e violenta ditadura de Alfredo Stroessner, o Paraguai tornou-se perdido em sua identidade como nação e como povo. Coisa que o ex-bispo católico e militante da Teologia da Libertação, Fernando Lugo, tentou resolver, tentando devolver ao país a dignidade perdida há muito tempo.

Fernando governou sob intensa oposição, tanto pelo Congresso paraguaio majoritariamente conservador, quanto pela grande mídia de lá, sempre a explorar factoides para desmoralizar o presidente. E tudo isso aconteceu até que um sangrento conflito de terras servisse de pretexto para as elites darem o golpe final contra o presidente, praticamente impondo um impeachment em rito sumário, quase sem chance de defesa.

Com isso, entra agora no poder o "moderado" Federico Franco, cirurgião que havia sido vice-presidente do Paraguai mas fazia oposição ao titular, investindo na desestabilização política. Dessa maneira, o Paraguai passará a ser novamente o bom aluno da cartilha panamericana do FMI, enquanto o país continua na sua crise de referenciais, na sua crise identitária, como um inexpressivo país sul-americano.

Com isso, continuará valendo aquilo que o anedotário brasileiro entende, pejorativamente, como "produto paraguaio". São produtos falsificados, contrabandeados ou roubados, é a lavagem de dinheiro, é o comércio pirata, prostituição etc. A turma do Coletivo Fora do Eixo deve adorar, porque a crise de valores no Brasil ditatorial, que favoreceu a expansão mercadológica da música brega, também inclui pirataria, comércio clandestino e prostituição.

Coitada da cantora Perla, uma cantora de boleros paraguaia que foi colocada, junto ao português Roberto Leal, no balaio dos bregas só por causa dos mesmos programas de TV. Perla foi quase uma Shakira de seu tempo, era apenas uma cantora pop do seu país. E, mesmo assim, foi deixada de lado à sorte de ser lembrada num futuro "Ploc 80", sobretudo por causa de uma funqueira praticamente homônima, a MC Perlla, que agora saiu da cena funqueira para virar cantora evangélica.

Pois o Paraguai mereceria um respeito maior de nós, brasileiros, sobretudo nesse tempo de crise política. Mas pode ser que o sentido "paraguaio" dos produtos falsificados valha mesmo para a "legalidade" com que os grandes proprietários de terra representados no Congresso daquele país usaram para depor Lugo.

Neste sentido, podemos dizer, sim, que foi uma "legalidade falsificada" ou uma "falsidade legalizada". Usou-se artifícios legais para acobertar o golpe dado a um presidente eleito democraticamente e que apenas foi vítima das pressões selvagens da oposição.

OS PORTEIROS DE TIO SAM


Por Alexandre Figueiredo

A opinião pública de esquerda mais mediana erra por estar vulnerável a inúmeras armadilhas. Formada por leitores apressados, de gente que só apreende as coisas pelos enunciados, essa "elite pensante" pensa muito menos do que pensa pensar, e questiona muito menos do que imagina fazer.

Isso se torna claro quando o assunto é entretenimento, cultura, cidadania. As armadilhas se tornam mais sutis, sedutoras. Elas não oferecem perigo para o poder dominante, e até agradam aos detentores do poder, mas os analistas médios de esquerda acabam fascinados por esse "cavalo de Troia" pós-moderno, pelo qual acreditam sair alguma revolução socialista em nosso país.

Sabemos que todo o discurso neoliberal relacionado à cultura popular se traveste de "socialista", prometendo a "morte do mercado", a implantação de "novas mídias" e a transformação de qualquer cidadão comum em "revolucionário", sem que seja necessário sequer uma "causa". Ser "rejeitado pela crítica" já é uma "causa" e verdadeiros tolos são convertidos em "ativistas sociais" por conta desse discurso míope.

Mas a coisa é muito mais séria do que se imagina. Se já é preocupante a implantação das regras do hit-parade norte-americano a pretexto de "modernizar" o folclore brasileiro, promovendo uma suposta "cultura hiperconectada transbrasileira pós-moderna", no âmbito do jornalismo investigativo a coisa parece ser ainda muito mais grave, e mais grave ainda porque poucos, como este blogue, conseguem perceber as armadilhas.

É o caso do Jornalismo nas Américas, projeto do Centro Knight em parceria com a Universidade do Texas, já comentado aqui, num processo pioneiro de questionar uma das notórias armadilhas do imperialismo norte-americano, e uma das primeiras que pegam o povo desprevenido. Afinal, as jovens gerações desconhecem armadilhas históricas como o New Deal de Franklin Roosevelt e a Aliança para o Progresso de John Kennedy.

Os porteiros de Tio Sam são escolhidos, vários deles nos países latino-americanos, para oferecer uma mitologia de sonho e fantasia para as pessoas. Tudo parece ser perfeito e justo, e no caso do Jornalismo nas Américas, promete-se o "aperfeiçoamento" do jornalismo investigativo e da liberdade de imprensa. É um discurso que, em muitos aspectos, até o Projeto Folha prometia, há quase trinta anos.

O jornalista Rosenthal Calmon Alves (ou Rosental, para uns), com seu ar bonachão, é o articulador dessa medida. Virou uma "unanimidade" entre os esquerdistas médios, como se fosse um "papai noel" das novas mídias digitais. Com um papo envolvente, "titio" Rosenthal seduziu a esquerda média a ponto de um deles sonhar em visitar o Texas, sem perceber que lá existe um Geraldo Alckmin em cada esquina.

Só que Rosenthal apenas difere dos jornalistas conservadores na elegância que tem em adotar posturas conservadoras. Neste sentido, um Reinaldo Azevedo é um troglodita. Rosenthal arrumou um jeito de defender a condenação de Julian Assange, o jornalista fundador do portal Wikileaks, dentro dos "princípios da democracia americana". Só não pode explicar se são os mesmos métodos que a "democracia americana" usa para o principal informante de Assange, Brad Manning.

Em compensação, Rosenthal elogiou a tendenciosa e oportunista Yoani Sanchez, definida como o "farol da liberdade". A esquerda média não percebeu, como já não percebe o conservadorismo de um Waldick Soriano, no âmbito da cultura. E acreditar que o jornalismo de esquerda possa ser guiado pelo "titio" Rosenthal tendo justamente a blogueira cubana como "farol" (ou guia), é cair em contradição. E não se pode ser feliz sendo contraditório.

Até o Método Paulo Freire ensina muito mais da investigação jornalística que o Jornalismo nas Américas. Afinal, o jornalismo investigativo é, acima de tudo, uma questão de motivações sociais, e não apenas uma técnica. Mais do que o "como fazer", que não deixa contudo de ser fundamental, o "para que fazer" é um imperativo e a questão primordial de um jornalismo investigativo.

O Jornalismo nas Américas apenas adequa o jornalismo investigativo dentro dos padrões aceitos pela "democracia americana". Ele segue um paradigma do jornalismo comercial norte-americano e define o profissionalismo dentro de seus padrões. O projeto é mais um em que os EUA se tornam articuladores de uma "integração panamericana" que não é mais do que uma "estadunização" da América Latina, em mais uma de suas campanhas seculares.

Dessa forma, a opinião pública brasileira deveria tomar cuidado, antes de expressar seu deslumbramento com algo que não representa um benefício real. Pregadores como Rosenthal Calmon Alves, Ronaldo Lemos, Pedro Alexandre Sanches, Pablo Capilé e outros, dos mais diversos, só querem mesmo é defender o neoliberalismo na sua acepção mais crua, mas a pretexto de falsos motivos sociais, que só servem para garantir o lucro das empresas associadas.

Dar as nossas chaves para esses porteiros de Tio Sam será oferecer nosso país de graça para o controle das autoridades norte-americanas.

sábado, 23 de junho de 2012

A SEGUNDA "GUERRA DO PARAGUAI"


Por Alexandre Figueiredo

O impeachment do presidente democraticamente eleito do Paraguai, Fernando Lugo, tornou-se mais um infortúnio envolvendo um governo popular no país sul-americano, um governo desfeito sob o patrocínio de uma potência econômica mundial.

Afinal, o impedimento foi dado pelo parlamento paraguaio dominado pelos poderosos empresários e proprietários de terras, ávidos de reconquistar os privilégios que tinham durante a ditadura longa de Alfredo Stroessner e que estavam sob risco durante o governo recentemente desfeito.

O pretexto foi a "incapacidade" do presidente paraguaio resolver o problema do conflito de agricultores sem-terra da região de Curuguaty, que deixou 17 agricultores e policiais mortos. Os protestos dos camponeses, no entanto, eram algo acima de um simples direito de posse de terra, mas um protesto contra a influência política e econômica dos 2% de ricos paraguaios que detém 80% das riquezas do país, inclusive o latifundiário Blas Riquelme, o mais poderoso de lá.

O golpe feito pelos congressistas paraguaios procurou adotar um verniz de legalidade, mas historiadores e cientistas políticos já o definem como um golpe de Estado. Lugo só teve 24 horas para fazer sua defesa contra o impedimento político, o que é muito pouco. Até um corrupto no Brasil possui um prazo maior de defesa, pelo menos uns dez dias. Um dia só é pouco para pensar e elaborar os argumentos necessários.

Lugo era um bispo católico ligado à Teoria da Libertação. Apesar de eleito pelo povo em 2008, o presidente não tinha o apoio do Congresso, que era majoritariamente conservador, sobretudo ligado ao Partido Colorado que sustentava políticamente a ditadura Stroessner. Até agora, Lugo governava sob violenta oposição política, que sempre pressioanva contra qualquer realização dos projetos de governo do presidente.

O cientista político Mark Weisbrot, também jornalista, colaborador do The Guardian inglês e co-diretor do Center for Economic and Policy Research (CEPR), sediado em Washington, já comentou sobre o apoio do presidente estadunidense Barack Obama ao impedimento de Lugo e a disposição do Departamento de Estado dos EUA de apoiar financeira e militarmente toda a oposição política às forças progressistas do Paraguai.

Isso lembra muito a Guerra do Paraguai, que nós, brasileiros, já aprendemos de forma torta e míope. A visão que recebemos era que o presidente Francisco Solano Lopez era um ditador populista, quando ele era um líder revolucionário, influenciado por Simon Bolivar, que estava realizando medidas em prol do crescimento do país.

O Paraguai estava se tornando uma nação em ascensão sócio-econômica e política, quando a Grã-Bretanha, a potência mundial da época, nos meados do século XIX, articulou Argentina, Brasil e Uruguai a se mobilizar militarmente para destruir o país. As tropas brasileiras chegaram a ter dois generais: primeiro, Dom Filipe Gastão de Orleans, o Conde d'Eu, marido da Princesa Isabel e genro de Dom Pedro II, e Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias.

O Brasil não tinha um Exército definido, e até mesmo escravos foram treinados para combater no Paraguai. A articulação de milícias foi a origem do que hoje conhecemos como jagunços e muito do nosso coronelismo se deve a essa campanha na Guerra do Paraguai, que durou de 1864 a 1870. A crueldade de nossos "soldados" foi tal que até civis e doentes que haviam entre os paraguaios foram mortos. E 75% da população masculina foi estimada no número de paraguaios mortos. Solano Lopez também foi assassinado.

Os proprietários de terras brasileiros que treinaram soldados para a Guerra do Paraguai foram premiados com o título de coronéis da Guarda Nacional, o que deu origem ao termo "coronelismo" que conhecemos. Mas fomos enganados com a lição que recebemos, sobretudo durante a ditadura militar, em nossas escolas primárias, que sempre definiam as tropas brasileiras como heroicas no confronto.

Hoje os contextos são outros, e a "Guerra do Paraguai" foi apenas interna. Mas os latifundiários, mais uma vez, agiram politicamente para expulsar um presidente popular, não da forma sangrenta que vitimou Solano Lopez, mas da forma cruel do golpe político. E, mais uma vez, sob os aplausos de uma poderosa potência capitalista.

DOCUMENTO REVELA LIGAÇÃO ENTRE OS DIÁRIOS ASSOCIADOS E A DITADURA


COMENTÁRIOS DESTE BLOGUE: Os Diários Associados, empresa fundada por Assis Chateaubriand e, com sua grave doença, passou a ser administrado por seus funcionários herdeiros, até os dias de hoje (quando a Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, é um dos seus veículos principais), aparentemente não se enquadram nos âmbitos da mídia mais reacionária, parecendo mais próxima à chamada "mídia boazinha", aquela que adota uma postura conservadora geralmente mais contida (como Isto É e Grupo Bandeirantes).

No entanto, a empresa de Chatô defendeu abertamente o golpe militar, a ponto de negociar com autoridades do II Exército a demissão de uma jornalista "incômoda" para a empresa.

Documento revela ligação entre os Diários Associados e a ditadura

Documento revela que a jornalista Neusa Sant’ Anna Coellho Pinheiro foi demitida dos Diários Associados de São Paulo por “entendimentos entre o II Exército e diretoria” do veículo

Publicado por Documento Revelados - Reproduzido da Revista Fórum


A gente costuma ouvir que a imprensa lutou contra a ditadura. Mas não é isso que os registros históricos dizem. Mas não devemos generalizar. Existiram sim os veículos alternativos como O Pasquim, Versus, Opinião, O Sol, EX e outros de conteúdo contra o regime militar.

Mas a verdade é que a imprensa brasileira teve um papel importante na ditadura civil-militar. O Globo, JB, Tribuna da Imprensa, Correio da Manhã, Diário de Notícias e os órgãos dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, levantaram abertamente a bandeira do golpe militar. O Correio da Manhã e a Tribuna resolveram depois se opor ao regime e acabaram sofrendo retaliações duras. Mas O Globo é, sem dúvida, o veículo impresso que mais apoiou o regime autoritário. Nem preciso dizer que Chateaubriand, dono dos Diários Associados foi bem recompensado com o apoio.

Diversos militantes da Resistência presos nas mão do DOI-CODI, foram transportados em carros da Folha. O Grupo Folha apoiou o golpe de estado, financiou e participou diretamente da repressão. Em seu livro Ditadura Escancarada (p. 395), Elio Gaspari diz que “Carros da empresa [Folha] eram emprestados ao DOI, que os usava como cobertura para transportar presos na busca de ‘pontos’ ” (p. 395).

O documento abaixo é uma prova cabal e definitiva dessa colaboração entre os repressão e  imprensa.

Nele, é revelado que a jornalista Neusa Sant’ Anna Coellho Pinheiro foi demitida dos Diários Associados de São Paulo por “entendimentos entre o II Exército e diretoria” dessa cadeia jornalística.



INFO 128DSEG-4

ASSUNTO: NEUSA SANT’ANNA COELHO PINHEIRO



ORIGEM: CENIMAR

CLASSIFICAÇÃO: A1

DIFUSÃO: IIEX-SNI/ASP-DEOPS/SP-DPF

DIFUSÃO ANTERIOR: DIS/COMZAE 3 E 4 -SNI/ARJ CIE

INFO 142 CISA/RJ

DATA: 01JUNHO71


O NEOLIBERALISMO E A MORTE DA TERRA


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE:  A prevalência de princípios econômicos sobre outros faz com que o neoliberalismo se torne mais cruel do que se imagina pois, além de promover desastres de âmbito social, é capaz de promover sérios danos ambientais, em diversos aspectos.

O neoliberalismo e a morte da terra

Por Mauro Santayana - Jornal do Brasil

Não se pode esperar muito da Conferência do Rio. Há quarenta anos que o problema do meio ambiente vem sendo discutido e, nesse tempo, pouco se fez de objetivo a fim de assegurar as condições que a biosfera oferece à Natureza. Ao que parece, o homem está à espera de uma catástrofe – como foi a peste negra, no século 14 – a fim de compreender as dimensões de seus erros. Naquele século emblemático – no qual historiadores encontram semelhanças com o nosso – a população européia quase desapareceu. Pulgas e ratos levaram a peste da Ásia e encontraram o continente vulnerável à bactéria Yersinia pestis: segundo os cálculos, mais de um terço dos europeus pereceram no curso de quatro anos. Como vemos, seres aparentemente tão frágeis são capazes de promover hecatombes.

O que está matando o mundo, hoje, vale repetir, é a peste da ganância do capitalismo, que transformou a razão científica em mera servidora do dinheiro, principalmente a partir do neoliberalismo. Todos nós sabemos que os nutrientes químicos, como o nitrogênio, e agrotóxicos, estão matando os rios e extensões cada vez maiores dos oceanos. A Monsanto continua, firme, em nome da liberdade do mercado, a envenenar os solos e os mananciais de água – isso sem falar nas suas sementes transgênicas. O que já era ruim em 1972, quando se reuniu, em Estocolomo, a Primeira Conferência sobre o Meio-Ambiente, tornou-se muito pior a partir da conjuração anti-estado, promovida por Reagan, Thatcher – e, como coringa solto na jogada, o papa Karol Wojtila. Nestes últimos trinta e dois anos, não obstante as sucessivas declarações de alarme, e três novas conferências realizadas, pouco se fez de objetivo, a fim de salvar a natureza. Assim, o neoliberalismo acelera o assassinato da Terra.

A realidade nos impõe uma constatação: enquanto os Estados Unidos que, para o bem e para o mal, são o modelo da civilização contemporânea, não mudarem a sua matriz energética, e não contiverem a insensatez da bio-engenharia a serviço dos interesses do grande capital, o mundo continuará sua marcha para a tragédia.

Em nosso caso, a salvação da biodiversidade com que nos privilegiou a Natureza e, em seguida, a História, vem correndo novos e evitáveis riscos, a partir do desmantelamento do Estado, promovido pelo governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.

Desde Getúlio Vargas, o Brasil dispunha de grupos técnicos de planejamento de infraestrutura a médio e longo prazo. Durante o governo de Juscelino, esses grupos se tornaram a vanguarda do desenvolvimento da economia nacional. Os governos militares mantiveram alguns deles, reorganizaram outros e esvaziaram os demais. Um desses grupos, talvez o mais importante para o nosso desenvolvimento, era o Geipot – reorganizado em 1965, durante o governo de Castelo Branco, abandonado por Fernando Henrique e hoje em liquidação. A União teve o prejuízo de 400 milhões de reais na execução das obras da Ferrovia Norte-Sul, por falta de um órgão como o Geipot. O serviço das empreiteiras não foi fiscalizado, dia-a-dia, como deveria ter sido, e erros graves, além da não execução das obras planejadas, como estações e depósitos, foram constatados pela nova diretoria da Valec, a estatal que administra a implantação do grande trecho ferroviário.

Outra imprevisão do governo se manifesta agora, na Hidrelétrica do Jirau. Dois milhões de metros cúbicos de madeira e lenha, retirados da área a ser coberta pelas águas, estão destinados a apodrecer, por falta de aproveitamento econômico. A retirada dessa cobertura vegetal deveria ter sido planejada com antecedência e seu aproveitamento, da mesma forma. Outras áreas da Amazônia estão sendo desmatadas para a exportação – legal e ilegal – da madeira, com os danos conhecidos ao meio-ambiente. É urgente que se planifique o aproveitamento racional da madeira e dos outros bens naturais existentes nas áreas a serem inundadas nas outras hidrelétricas em construção no território brasileiro. Há, ainda, no fundo da futura represa – cujo enchimento se iniciará ainda este ano – muita cobertura vegetal que, se não retirada a tempo, irá provocar danos imensos ao ambiente, ao produzir metano, um dos gases mais poluidores da atmosfera, além do carbono.

A eficiência do Estado se garante mediante o estudo prévio de suas necessidades e de suas possibilidades, ou seja, de planejamento. Desde o Império, empreendedores e homens de Estado pensaram em termos de planejamento. Até hoje é válido o projeto ferroviário de Mauá, que previa a ligação ferroviária entre o Norte e o Sul, entre o Leste e o Oeste, e o aproveitamento dos rios para o transporte de carga pesada. Vargas, na plataforma eleitoral de 1930, reafirmou a necessidade de planejamento e seguiu a idéia durante o Estado Novo. Vargas retomou o projeto nacional, em 1951 e Juscelino deu-lhe prosseguimento de forma vigorosa, em seu mandato. Com a desconstrução do estado nacional, o governo Fernando Henrique deixou o planejamento por conta das empreiteiras e dos estrangeiros. Vale lembrar a contratação da Booz Allen pelo governo tucano, para “identificar os gargalos” que dificultam o desenvolvimento do país, quando não faltam técnicos competentes nos quadros da administração federal para cuidar do planejamento dos projetos de infra-estrutura no Brasil, como é o caso dos transportes e da energia.

É hora de o Estado assumir diretamente a sua responsabilidade e buscar os meios constitucionais para acabar com as agências reguladoras e devolver aos ministérios as tarefas que devem ser suas. As agências reguladoras foram, nos Estados Unidos de Roosevelt e do New Deal, o instrumento do Estado para conduzir a economia nos anos de crise. No Brasil, elas tiveram o objetivo contrário, o de entregar aos agentes privados, a serviço dos interesses estrangeiros, a administração dos setores estratégicos nacionais, como a energia elétrica, as telecomunicações, as rodovias, as ferrovias e os portos – isso sem falar na saúde, com a Anvisa.
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