sábado, 31 de março de 2012

1964 E AS FERIDAS NÃO-CICATRIZADAS DA DITADURA MILITAR


HERANÇA DO COMANDO DE CAÇA AOS COMUNISTAS ESTÁ EM BOA PARTE DA TROLAGEM FEITA NA INTERNET.

Por Alexandre Figueiredo

Hoje não fazem 48 anos do golpe militar que devastou o Brasil. A data a ser lembrada, na verdade, é amanhã, mas as Forças Armadas, tentando evitar trocadilhos com o Dia da Mentira, sempre desviou a efeméride para o dia anterior.

Na verdade, 31 de março foi a data intermediária entre a partida das tropas de Olímpio Mourão Filho, instauradas em Juiz de Fora, naquele final de mês turbulento, e a chegada destas tropas no Rio de Janeiro., 01 de abril, quando foi concluído o processo do golpe militar.

A ideia de golpe já era trabalhada nos "debates" transmitidos pelas rádios da chamada "Rede da Democracia" - Rádio Globo, Super Rádio Tupi e Rádio Jornal do Brasil eram as principais delas, no então Estado da Guanabara - , como forma de "disciplinar" a política brasileira.

Vários motivos foram atribuídos para o golpe militar. O principal deles seria a associação, na verdade indireta e parcial, do então presidente João Goulart aos comunistas, mas houve vários outros motivos. Jango queria decretar estado de sítio na Guanabara, não como atitude golpista, mas para evitar o radicalismo da campanha golpista do governador Carlos Lacerda, histórico rival do trabalhismo, o mesmo jornalista abatido pelos pistoleiros do segurança de Vargas, Gregório Fortunato, em 1954.

Mas havia também as medidas de Jango para evitar a evasão de dinheiro do Brasil pelas empresas estrangeiras aqui instaladas, conhecida como "lei da remessa de lucros para o exterior", e para garantir a reforma agrária, que incomodava os grandes proprietários de terras.

O que pode ter sido o estopim, no entanto, para o golpe militar, foi uma atitude que, estrategicamente, foi equivocada por parte de Jango. Ele foi seduzido por uma aparente revolta de sargentos e pracinhas, da qual surgiu um pretenso líder que, mais tarde, se revelou um golpista nato: o sargento José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, hoje com 70 anos.

Jango mandou prender os revoltosos, mas cometeu o erro de anistiá-los em seguida. O que estimulou os generais a negociar uma ação de golpe, coisa que nomes como Odílio Denys, Amaury Kruel, Castello Branco, os irmãos Orlando e Ernesto Geisel, Golbery do Couto e Silva e Arthur da Costa e Silva estavam planejando.

A ação de Olímpio Mourão Filho, no entanto, foi isolada. A atitude contou com o apoio de um dos defensores civis do golpe, o governador mineiro e dono do Banco Nacional, Magalhães Pinto. A operação deu certo e ganhou até a adesão de uma tropa rival a serviço do chefe militar Assis Brasil, que acreditava que seu "dispositivo militar" garantiria a defesa de Jango na permanência do cargo. Não garantiu.

Mas a ação de Olímpio não o garantiu um lugar nobre no poderio militar. O anedotário político, numa época ainda de relativa liberdade de imprensa durante o início da ditadura, o denominou de "vaca fardada", em alusão às vacas de presépio, meros objetos de enfeite nas maquetes natalinas.

A sociedade civil apoiou o golpe militar acreditando que seria apenas uma fase provisória, que os generais apenas "completassem" o mandato de Jango e entregassem o poder a civis, através de eleições livres. Mas não foi assim que aconteceu. A ditadura se prolongou por mais 20 anos, pois a linha dura não confiava numa redemocratização em 1965.

Juscelino Kubitschek, o ex-presidente, apoiou o golpe visando voltar ao poder nas eleições de 1965, cuja vitória ele acreditava ser imbatível. Mas ele foi logo incluído entre os primeiros políticos cassados pelo primeiro Ato Institucional e teve que ir para o exterior, tentando depois, com seu ex-rival Carlos Lacerda, criar uma campanha de redemocratização, a Frente Ampla, mas esta também foi declarada extinta por ordem das Forças Armadas.

A ditadura militar brasileira pode não ter sido tão cruel quanto a do general Augusto Pinochet, no Chile, entre 1973 e 1990. Mas também não dá para definir a ditadura brasileira como "ditabranda", porque ela foi extremamente cruel à sua maneira, devastando socialmente todo o país.

Os efeitos da ditadura militar brasileira foram devastadores em todos os aspectos. A degradação social, econômica, política e cultural fez todo aquele projeto de evolução ética, estética, educacional, administrativa e artística sonhado desde 1958 fosse destruído. E a ditadura militar fez muitos estragos, feridas que até hoje não foram devidamente cicatrizadas.

A ditadura prejudicou os militares, já que arruinou a reputação das Forças Armadas frente à sociedade. E nem todo militar colaborou ou compartilhou dos interesses golpistas dos superiores e subordinados ligados ao regime. Meu pai, por exemplo, foi apenas um simples e dedicado servidor público comum, que cumpriu seu trabalho com dignidade e brilhantismo, como se trabalhasse num regime democrático.

No entanto, as Forças Armadas, de forma generalizada, foram vítimas de sua própria prepotência. Em vez dessa instituição ser reconhecida pela sociedade, ela é desprezada e hostilizada por muitos, apenas porque uma parte da Marinha, Exército e Aeronáutica, por paranoias anti-comunistas, conduzissem a sociedade brasileira de forma arbitrária e prepotente.

Tudo ficou arruinado, como se fosse um furacão atingindo uma região de cidades. Politicamente, a ditadura militar favoreceu a corrupção política, estimulada pela desvalorização do político civil. A mídia deixou de cumprir sua missão em formar cidadãos e passou a se mover gradualmente para os interesses meramente comerciais.

A grande imprensa, pelo apoio que ela dava à ditadura, também se desmoralizou e, aos poucos, foi substituindo os jornalistas de talento por gente cada vez mais submissa e incompetente, capaz de cometer erros ortográficos graves com alguma frequência, além de adotarem uma linha editorial cada vez mais asséptica, mais próxima do release publicitário.

Na economia, a ditadura militar quis ser grandiloquente, com um projeto desenvolvimentista cheio de obras faraônicas, embora a Ponte Rio-Niterói, inaugurada em 1974, tenha sido mais modesta do que o complexo urbanístico que chegou a ser planejado por arquitetos em 1937.

O projeto desenvolvimentista da ditadura, junto a uma economia privatista e entreguista, além de arrochos salariais sucessivos, fizeram com que a pobreza aumentasse, e a arrogância dos generais não conseguiu evitar que o país sofresse um colapso causado pelas pressões da alta do preço do petróleo pelos sheiks do Oriente Médio, em 1973, que derrubou toda a ilusão do "milagre brasileiro", projeto que só beneficiou, parcialmente, a classe média brasileira da época.

Culturalmente, a ditadura fez desmantelar identidades regionais, fez degradar todo um projeto de cultura popular com a ajuda da grande mídia. Os interesses políticos e comerciais em torno das emissoras de rádio e TV foram decisivos, enquanto valores éticos, estéticos e nacionais eram arrasados por um discurso pretensamente relativista, que justificava qualquer degradação como se fosse modernidade ou pós-modernismo.

O latifúndio aumentava seu terror no campo, exterminando lideranças rurais, missionários, sindicalistas, enquanto financiava, junto às rádios regionais, o anestesiante entretenimento da "cultura" brega, para tranquilizar o povo pobre na resignação de sua inferioridade social.

O povo pobre, desprovido de seus reais desejos, anseios e emoções, era entregue à manipulação midiática mais canhestra, que impusera um "paraíso das periferias" às custas da prostituição, do alcoolismo, do subemprego e da obsessão pelo pitoresco, pelo piegas e pelo grotesco.

A intelectualidade que passou a defender esse "modelo" de "cultura popular" também é filha da ditadura militar, que impôs uma reforma tecnocrática, tecnicista e burocrática nas universidades. Abriu-se caminho para teses meramente mercadológicas, de um desenvolvimento sócio-econômico subordinado aos interesses dos países ricos, nos quais Fernando Henrique Cardoso tornou-se um dos seus maiores exemplos.

A reboque de FHC, veio também uma geração de intelectuais da "cultura popular" que, mesmo tentando se dissociar de seu mestre tucano, seguem rigorosamente lições e procedimentos que revelam claramente a influência escancarada da Teoria da Dependência de FHC no pensamento de gente como Hermano Vianna, Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches.

A liquidação de valores sócio-culturais que a duras penas se buscava desenvolver entre 1958 e 1964 criou uma banalização do sexo, violência e corrupção, desqualificou instituições como a Família e a Igreja, e fez com que jovens gerações que não haviam conhecido o AI-5 agissem como se fossem seus séquitos.

Daí vieram os troleiros, com a Internet desde os anos 90, que em boa parte soam como se fossem as versões atualizadas de Cabo Anselmo ou do Comando de Caça aos Comunistas. Quando são classificados como reacionários, os troleiros até gracejam, escrevem coisas como "Oia!" e "Huahuahuahuah", mas dificilmente desmentem. Sabem que são reacionários mesmo, mas até os integrantes do CCC, em 1968, também gracejariam se fossem chamados de reacionários.

O machismo atropelou o feminismo, com a onda de feminicídios cometidos pelos próprios "companheiros". A mediocrização cultural tornou a cultura das classes populares viciada, estéril, escrava do consumismo e do sensacionalismo mais grotesco.

A intelectualidade formada apenas se limita a fazer apologia do "estabelecido", e com sua psicologia do terror chama de "preconceituosos" aqueles que exercem a crítica cultural com autêntico e combativo senso crítico. A imprensa política também mostra seus dotes intimidadores, condenando os movimentos sociais e defendendo o "livre mercado".

Enfim, pouca coisa melhorou no Brasil pós-1964. Nos perdemos no mato da degradação política, social, econômica e cultural. Nos esquecemos de que o Brasil pré-1964 batalhava por um país mais moderno, mais justo e mais cidadão, bem melhor do que os paliativos que, realizados, causam uma euforia maior do que a festa.

É bom repensarmos este país, admitindo as crises que ainda existem. A sangria de 1964 não se encerrou, ainda temos muito que resolver. Caso contrário, vamos perder o trem dos BRICs e fazer com que países como Benin, Barem e Botsuana nos roubem o "B" que nos posiciona no grupo dos emergentes.

Já fomos ultrapassados pela China, a Rússia já foi potência do mundo comunista e está no G-8 por sua tecnologia de ponta, sobretudo espacial. E até a África do Sul quer nos passar a perna. Uma coisa é certa: não será Michel Teló nem Neymar que colocarão o Brasil no Primeiro Mundo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

A INTELECTUALIDADE CULTURAL COMO EXTENSÃO DA DITADURA MIDIÁTICA


O ANTROPÓLOGO BAIANO ROBERTO ALBERGARIA É CHEGADO A UMA BAIXARIA.

Por Alexandre Figueiredo

Qual é a missão da intelectualidade cultural? A de refletir criticamente os problemas referentes à nossa cultura, as relações com o mercado e suas contradições, e o conflito entre os interesses midiáticos e os interesses populares.

Não é isso que acontece. A elite intelectual brasileira que é relacionada à cultura, embora afirme, em tese, a defesa da reflexão crítica de nossa cultura, faz exatamente o contrário, desaconselhando a consciência crítica, classificada como "preconceito".

A alta reputação de muitos intelectuais desse porte não está à altura de suas posições a respeito de nossa cultura. O conhecimento que eles têm da verdadeira cultura popular do passado serve apenas de escudo para que eles defendam, até com arrogância e comentários mesquinhos, a mediocrização crescente que acontece na cultura brasileira tida como "popular".

Em muitos casos, são comentários nervosos, verdadeiros chiliques textuais, como os que até o ultrafestejado Pedro Alexandre Sanches, quando não gosta de ver críticas contra os chamados "sucessos do povão". Mas o nervosismo textual, geralmente atacando quem faz críticas à chamada "cultura de massa" brasileira, se encontra em qualquer intelectual.

Ontem mesmo, o antropólogo baiano Roberto Albergaria saiu em defesa das baixarias nas letras de música do "pagodão" local, mesmo com um gritante grau de machismo e de ofensas às mulheres. São letras que falam em "pancadinha", "tapa na cara" e chamam as mulheres de "cadelas".

Albergaria já é conhecido por posições altamente discutíveis. Num programa de pós-graduação da UFBA, o antropólogo praticamente expressou uma visão entreguista do povo baiano, afirmando que baiano "não gosta de acarajé, prefere hamburguer". Quanto à lei anti-baixaria da deputada estadual Luíza Maia (PT-BA), Albergaria afirmou que a lei é "contrária à liberdade de expressão" e definiu as baixarias como "brincadeira".

É essa a missão da intelectualidade mais influente desse país? Uma intelectualidade que, a pretexto de defender a "cultura do povo pobre", na verdade defende o poder midiático que está por trás desses sucessos.

O problema é que ninguém entende que essa "cultura popular" é condicionada pelo poderio de rádios FM e TV aberta. Afinal, esses veículos são controlados por oligarquias e grupos políticos, regionais ou nacionais, que às custas de uma taxa cobrada por fora, chamada "jabaculê", veiculam sucessos musicais e empurram as celebridades que devem ser vistas como "modelos de sucesso".

Por outro lado, muitos desses nomes "populares", como cantores, musas e "personalidades" (tipo jogadores de futebol inclinados às farras noturnas ou ex-integrantes do Big Brother Brasil) são empresariadas por gente rica, geralmente empresários de famosos ou donos de agências ou espaços de entretenimento.

Quando se tornam "medalhões", às custas do alto índice de visibilidade e prestígio, os ídolos "populares" chegam mesmo a ter as próprias redes de TV aberta como "sócias", às vezes com a participação dos investimentos de emissoras FM ou de revistas como Contigo e Caras.

Portanto, nenhum pobretão existe aí. A origem pobre pouco importa. Se fosse assim, qualquer especulador financeiro, qualquer grileiro seria "pobretão", porque nas situações da vida muitos humildes se tornam ricos, uns licitamente, outros não.

Mas a intelectualidade faz pegadinha e, nos seus malabarismos discursivos, feitos para arrancar, à guisa de persuasão, aplausos entusiasmados da plateia desinformada, equiparam os grandes empresários do entretenimento a qualquer miserável. Um homem rico como Cal Adan, empresário do É O Tchan, para essa intelectualidade é "tão pobre" quanto uma criança em serviços de engraxate.

VENDE-SE UM ÍDOLO "POPULAR" COMO SE VENDE UM AUTOMÓVEL

Essa intelectualidade acaba servindo de extensão para a ditadura midiática. É muito ingênuo pensar que o grosso da manipulação da opinião pública pela velha grande mídia esteja no noticiário político. Este, através de seus comentaristas e articulistas, apavoram muitos analistas da blogosfera progressista, mas esta é apenas uma parte, até pequena, do processo.

Afinal, a própria "cultura popular" que fascina intelectuais como Pedro Alexandre Sanches e Roberto Albergaria, é fruto justamente da manipulação midiática, que empurra referenciais confusos, alheios a princípios éticos, estéticos, a identidades regionais, à cidadania e à auto-estima do povo.

Apenas se fala que "o povo gosta", "o povo quer", quando sabemos que essa pretensa "cultura popular" é feita através de investimentos de persuasão publicitária. Vende-se um ídolo "popular" como se vende um automóvel, impondo-o como "padrão" de supostos desejos e anseios de uma população pobre que a mídia fez extinguir desejos e anseios próprios.

Portanto, essa "cultura popular" obedece princípios meramente comerciais que desprezam qualquer princípio que contribua para o progresso real da sociedade. E seus "valores" e "ídolos" não são transmitidos comunitariamente, mas de cima para baixo, via rádio e TV, mas sob o gancho inicial da Internet, recurso usado pelos empresários do entretenimento.

Só que a intelectualidade mais influente, mas pouco confiável, faz de tudo para promover uma relativização excessiva dessa visão, num discurso confuso, fantasioso e que deturpa conceitos originários de tendências como o Modernismo, o Concretismo e o Tropicalismo.

Isso faz com que qualquer visão obtusa sobre cultura popular, divulgada por um intelectual de nome, seja vista como "verdade indiscutível", por mais que apresente contradições profundas. Elas pouco importam, até porque a intelectualidade associada tenta intimidar as discussões estéticas, com chiliques histéricos dignos de madames de mansões milionárias.

QUANDO INTELECTUAIS CONDENAM O MILENAR DEBATE ESTÉTICO

O status da intelectualidade que, esperta, recorre logo a intelectuais pouco prestigiados de esquerda - para dar a falsa impressão de que seu discurso não compartilha com os interesses da velha mídia; só que compartilha, e muito - , que acabam se iludindo com a "simpatia" desses verdadeiros arautos da mediocridade cultural brasileira.

Desse modo, os arautos da mediocridade cultural fazem sua choradeira discursiva, tentando diferir sua retórica do mau humor habitual dos comentaristas políticos da grande imprensa. Isso não impede que Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, despeje "urubologias" dignas de um Merval Pereira, com muito medo de ver qualquer debate estético nos auditórios das faculdades.

Isto significa que uma prática natural que ocorre no primeiro mundo, que gente como Umberto Eco e Noam Chomsky, o debate estético, é desestimulado pela intelligentzia brasileira. Uma tradição milenar, feita pelos mais competentes e respeitados círculos intelectuais, é simplesmente condenada pela intelectualidade dominante do Brasil.

Ver Pedro Alexandre Sanches e companhia condenarem algo que vem sendo feito desde a Antiguidade Clássica, há milhares de anos, é algo de se envergonhar, em se tratando de uma intelectualidade dotada de visibilidade, prestígio e de uma popularidade fanática e quase cega entre muitos.

No entanto, eles podem falar mal da grande mídia e dizer que a "cultura popular" que eles defendem é "independente" e "alternativa". Quem perceber melhor o discurso vai saber que tudo isso é balela. Afinal, o que eles fazem é tão somente defender os ditos "valores culturais" da mesma velha grande mídia, da mesma velha grande indústria que dizem condenar.

Afinal, não adianta essa intelectualidade semi-jagunça condenar os seus mestres e mentores, ou dizer que nada têm a ver com eles. Eles têm, e muito, e precisam da velha grande mídia para obter visibilidade. Podem falar mal de seus mestres, mas se seguem suas lições fielmente é porque, no fundo, são seus maiores discípulos.

Querendo se passar por "independentes" da velha grande mídia, não conseguem evitar que seja provado, por A mais B, que a "ditabranda do mau gosto" que tanto defendem os faz colaboradores de fato dos interesses dos barões da grande mídia.

quinta-feira, 29 de março de 2012

DEFENSORES DO "FUNK" PREFEREM FESTAS COM "PROIBIDÃO"


UNIDADES DE POLÍCIA PACIFICADORA ESTARIAM REDUZINDO A OCORRÊNCIA DE "BAILES FUNK" NO RIO DE JANEIRO.

Por Alexandre Figueiredo

Desesperados com a redução de espaços para seus eventos, os defensores do "funk carioca" afirmaram, em reportagem do Terra Notícias, que as Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro fizeram diminuir a ocorrência dos chamados "bailes funk", que agora só acontecem com autorização policial.

Sem querer defender as UPPs, expressão de um grupo político pouco confiável, nota-se no entanto que o outro lado, o dos "ativistas" funqueiros, também se expressa pelo sentimento de frustração em relação à medida, já que, aparentemente, o governador Sérgio Cabral Filho e o prefeito carioca Eduardo Paes são simpáticos à "causa" funqueira.

O que surpreende é que vários de seus entrevistados, quando falam da saudade de quando havia mais "bailes funk" em locais como Rocinha e Complexo do Alemão, assumem sua preferência aos "bailes" com o chamado "proibidão", variação do "funk carioca" com temáticas mais agressivas, várias delas com apologia ao crime.

CONTRADIÇÃO

Na reportagem, nota-se que um dos principais dirigentes funqueiros do país, o também intérprete MC Leonardo, da APAFUNK, caiu em contradição a respeito do "funk carioca", expressando sua solidariedade aos eventos com "proibidão".

"O funk não tem que educar ninguém", disse ele, contrariando toda a pregação que ele faz quando divulga o ritmo para professores e acadêmicos. Na famosa reunião dos funqueiros na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), há três anos atrás, quando foi decidido pelos parlamentares da casa que o ritmo era um "movimento cultural de caráter popular", MC Leonardo falou da a "possibilidade" do "funk carioca" ser promovido "em favor da cidadania".

Foi neste evento que o DJ Rômulo Costa, da Furacão 2000, afirmou que o "funk carioca" poderia substituir o exercício de redações nas escolas, a pretexto de atrair mais interesse e dedicação dos alunos. Foi aplaudido, pasmem, na ocasião, por gente em boa parte ligada à Educação.

Agora MC Leonardo muda o discurso, quando surgem as cobranças a respeito. Passou a defender o "proibidão", sob as mesmas alegações que o antropólogo baiano Roberto Albergaria fez em defesa das baixarias da música baiana.

Faz parte. Afinal, é uma intelectualidade (e seus associados, pois MC Leonardo é "protegido" de Hermano Vianna) financiada por empresas multinacionais, que desprezam o povo pobre. Para essa intelectualidade, o povo tem que somente consumir aquilo que as rádios empurram para ele, a título de "cultura das periferias".

Não há ética, nem estética, nem cidadania em jogo. É tudo consumismo. Enquanto isso, a intelectualidade vive feliz nos seus apartamentos confortáveis, certos de que serão aplaudidos de pé nas próximas palestras. Apesar das contradições de suas posições e da de seus seguidores.

O SURPREENDENTE "ENCONTRO" ENTRE FRANCIS FUKUYAMA E PEDRO ALEXANDRE SANCHES



Já advertimos aos caros leitores da influência do historiador do "fim da História", Francis Fukuyama, na formação ideológica do festejado jornalista musical Pedro Alexandre Sanches. Sabemos que Pedro, que participa do blogue Farofafá e escreve para Caros Amigos e Fórum, na verdade defende o "fim da História" na Música Popular Brasileira, às custas da ruptura com uma das práticas milenares da intelectualidade autêntica: o debate estético.

Francis Fukuyama, um dos papas do pensamento neoliberal, acredita na perfeição da "democracia liberal" e na economia capitalista. Pedro Alexandre Sanches, embora "condene" o mercado e a grande mídia, defende justamente os ídolos musicais e os valores ligados aos dois "entes". Ou seja, Sanches defende o mercado e a grande mídia de todo jeito, embora tente dar a impressão contrária.

Mas aqui não vamos fazer comentários de inferência. Deixemos aqui para que Sanches e Fukuyama digam, em suas próprias palavras - no caso de Fukuyama, "em termos", por conta de uma tradução em português - , suas visões de "fim da História". As semelhanças de argumentos são contundentes.

As frases de Pedro Sanches foram extraídas de várias fontes (Caros Amigos, portal Vírgula, Farofafá) e as de Fukuyama foram extraídas do próprio livro O Fim da História e o Último Homem, original de 1992, mas na tradução portuguesa de Maria Goes, publicada pela editora lisboeta Gradiva, em 1999. No entanto, o texto aparece aqui em grafia brasileira, porque eu copiei o texto a mão, pelo natural costume de eu ser brasileiro.

Pedimos paciência para os leitores observarem com calma os argumentos confrontados, e certamente será surpreendente verificar a afinidade ideológica de ambos os escritores. Onde se lê "lutas ideológicas" em Fukuyama, em Sanches se lê "questões estéticas e de gosto".

Notem que ambos são contra o que entendem por "preconceito", se posicionam contra princípios e lutas ideológicos, se acham "acima da direita e da esquerda" e defendem princípios liberais para a sociedade contemporânea. Concluiremos que o "último homem" de Fukuyama fica em casa ouvindo "funk carioca", tecnobrega e afins e não quer saber de questões estéticas e ideológicas.

"Nele (artigo "O fim da História?", The Internacional Interest, verão de 1989), defendia que, nos últimos anos, tinha ocorrido por todo o mundo um consenso notável quanto à legitimidade da democracia liberal, como sistema de governo, na medida que esta triunfava sobre ideologias rivais, como a monarquia hereditária, o fascismo e, mais recentemente, o comunismo. Mais do que isso, porém, eu defendia que a democracia liberal poderia constituir o 'ponto terminal da evolução ideológica da humanidade', e a 'forma final de governo humano' e, como tal, constituiria 'o fim da história'. Isto é, enquanto anteriores formas de governo eram caraterizadas por graves imperfeições e irracionalidades, que conduziam ao seu eventual colapso, a democracia liberal estava comprovadamente livre dessas contradições internas fundamentais" (Francis Fukuyama, capítulo "Á Guisa de Introdução").

Em relação ao colapso dos "paradigmas de cultura brasileira", Pedro Alexandre Sanches também dá seu "ponto terminal da evolução ideológica humana", através do liberalismo brega:

A música brasileira nunca mais vai ser a mesma depois desta primeira década dos anos 2000. Como todo mundo está cansado de saber, nesse período a explosão da internet levou ao colapso total os hábitos antigos da indústria fonográfica. Artistas que viviam presos a gravadoras, contratos e direitos autorais se tornaram independentes, e os que não se tornaram encolheram um bocado, em tamanho e importância.

A primeira década deste novo século tem sido um tempo de libertação para a música. Hoje, ela pulula pela grande rede, mais parecida com água saindo da torneira que com algumas canções aprisionadas dentro de um disquinho laser. Isso mudou radicalmente o mundo da música, e o Brasil está surfando muito bem, obrigado, nestes novos tempos.

A grande novidade, nesse cenário mais amplo e arejado, é o desenvolvimento de modos inéditos e altamente criativos de produzir, gravar, distribuir, divulgar e consumir música. É o que vem acontecendo em inúmeras cenas locais (Rio e São Paulo já não são tão importantes como antenas captadoras e difusoras de modas musicais), e a do chamado tecnobrega do Pará é a mais vigorosa.
(Pedro Alexandre Sanches - portal Vírgula - 22/12/2009)

Sobre o termo "fim da História", segue a argumentação de Fukuyama:

"Num primeiro instante, muitas pessoas ficaram confusas com o meu uso da palavra 'história'. Entendendo a história no sentido convencional, como ocorrência de acontecimentos, as pessoas apontavam a queda do Muro de Berlim, a repressão comunista na Praça Tia'nanmen (Praça da Paz Celestial) e a invasão iraquiana no Kuwait como provas de que a "história continuava" e de que eu estava, ipso facto, comprovadamente errado.

No entanto, aquilo que eu havia sugerido que terminara não era a ocorrência de acontecimentos, mesmo de acontecimentos maiores e momentosos, mas a história: isto é, a história compreendida como um processo singular, coerente e evolutivo, tendo em conta a experiência de todos os povos em todos os tempos."
(Francis Fukuyama, op. cit)

Pedro Alexandre Sanches, mesmo numa argumentação mais ligeira e curta, guarda semelhanças impressionantes em relação ao historiador norte-americano, neste texto sobre o documentário de MPB Uma Noite em 67. Confiram:

"Se o prumo saudosista persiste, mudemos de rumo. A espontaneidade das cenas de bastidores de 1967 é útil para não trazer nostalgias do que já não temos mais (ou nunca tivemos, no caso das gerações mais recentes)." (Pedro Alexandre Sanches, Caros Amigos, junho de 2010).

Se Pedro Alexandre Sanches acaricia demais as esquerdas, Francis Fukuyama usa Karl Marx para, junto com o também filósofo alemão Georg Hegel, "justificar" o "fim da História" defendido pelo norte-americano. Segue o trecho em questão:

Tanto Marx quanto Hegel acreditavam que a evolução das sociedades humanas não era ilimitada, mas que terminaria quando a humanidade conseguisse atingir uma forma de sociedade que satisfizesse as suas mais profundas e fundamentais aspirações. Os dois pensadores postulavam, pois, um 'fim da história': para Hegel era o estado liberal, enquanto para Marx era uma sociedade comunista. Isto não significava que o ciclo natural do nascimento, vida e morte acabasse, que deixassem de ocorrer acontecimentos importantes ou que os jornais que os noticiam deixassem de ser publicados. Significava, outrossim, que não haveria mais progresso no desenvolvimento dos princípios e instituições fundamentais, porque todas as questões verdadeiramente importantes tinham sido resolvidas". (Francis Fukuyama, op. cit)

Pois se não havia mais "questões importantes" no pensamento de Fukuyama, também não havia para Sanches, que as define como "questões estéticas". Vejamos então, num texto curiosamente intitulado "Feliz Fim do Mundo para Todos Nós", um trocadilho com as profecias de 2012 feito por Sanches. Ou não seria uma alusão ao "fim da História"?

"A “relevância estética” sempre se definiu do mesmo modo, à margem de nós-punheteiros: o que as pessoas consomem mais é o que elas consideram de mais qualidade. Encher a boca pra falar de “questão estética” e se recusar a avaliar Ivete Sangalo, Banda Calypso e Michel Teló não tem nada de estético: é ideológico. Mais fácil ter raiva de quem vende mais que a gente (jornalistas incluídos), subir num pedestal e proclamar, com a boca cheia de batata quente: “Isso não presta”.

(...)

Por essas e por outras eu já há alguns anos renunciei de comentar qualquer “questão estética” (bem, nem sempre…): vocês não precisam de mim pra dizer o que vocês devem ou não gostar. Quanto mais liberdade, quanto menos jabaculê, quanto mais moeda solidária, mais a questão estética vai se impor espontaneamente, sem rédeas nem cabrestos. É isso que muita gente tá tremendo de medo por intuir, principalmente nos velhos e depenados topos-de-cadeia.

Cacilda, será que em 2012 a gente consegue (e quer) parar de girar feito disco riscado, largar de lado um pouco a giração em círculos de “cachê”, “questão estética” e outras velharias que torraram o saco de todo mundo em 2011? (Pedro Alexandre Sanches - Blogue Farofafá - 24/12/2011)

Francis Fukuyama faz suas definições sobre "o último homem" e "o fim das ideologias" que pode muito bem se encaixar no pensamento de Pedro Sanches, sobretudo na definição do que é "preconceito". Vejam estes trechos e depois comparem até mesmo com os trechos selecionados e outros textos de Pedro Sanches espalhados na Internet, na Caros Amigos e na Fórum.

A semelhança de sentido é gritante, sobretudo na ideia de "libertação" humana e a exaustão, para Fukuyama, da "experiência histórica" e, para Sanches, da "questão estética".

Francis Fukuyama, sobre o último homem:
"A educação moderna, essa educação universal, absolutamente essencial para preparar as sociedades para o moderno mundo econômico (neoliberalismo), liberta os homens de suas amarras à tradição e à autoridade. Eles sabem que o seu horizonte é simplesme3nte isso, não a terra firme, mas uma miragem que desaparece com a aproximação, dando lugar a um outro horizonte. É por isso que o homem moderno é o último homem, exausto pela experiência da história e desenganado quanto à possibilidade de uma experiência direta de valores". (Parte V - O Último Homem)

Fukuyama, sobre o fim da História:
"O último homem, no fim da história, sabe que não o fará porque tem consciência de que a história está cheia de batalhas inúteis, em que homens lutaram por serem cristãos ou muçulmanos, protestantes ou católicos, alemães ou franceses. A história subsequente provou que as lealdades, que impeliram os homens para atos desesperados de coragem e sacrifício, não passaram de tolos preconceitos. Os homens com educação moderna realizam-se ficando em casa, congratulando-se pela sua tolerância e ausência de fanatismo". (op. cit)

quarta-feira, 28 de março de 2012

A MORTE DO "PRECONCEITUOSO" MILLÔR FERNANDES



Por Alexandre Figueiredo

Mal foi superado o luto pelo falecimento do humorista Chico Anysio, eis que o país é surpreendido pela morte de Millôr Fernandes, uma das mentes mais brilhantes que marcou o século XX e um pedacinho do século corrente.

Trabalhando desde a adolescência, ele, ainda nesta fase, fundou a coluna O Pif Paf, na revista O Cruzeiro, seção que ficou marcada pelo lema "cada número é um exemplar, cada exemplar é um número". Era uma seção de piadas, poesias cômicas, textos humorísticos, e que durante uma fase teve ilustrações de Péricles Maranhão (1924-1961), o criador do personagem Amigo da Onça.

Certa vez, Millôr, ao escrever a paródia da lenda de Adão e Eva, em 1964, acabou saindo da revista O Cruzeiro. Decidiu então criar uma revista própria, O Pif Paf, que só durou oito números, já que o último ironizava com a aparente democracia relativa dos primeiros meses da ditadura militar (em que haviam prisões, repressão, torturas, mas havia uma certa sutileza dos generais). Falava-se do "risco de entrarmos numa democracia".

Aí os generais não gostaram da ironia e mandaram fechar o jornal. Mas, cinco anos depois, Millôr já estava engajado em outra revista de humor, o Pasquim, de notável história. E era mais uma "molecagem" humorística, já que era um jornal de humor lançado no calor do AI-5, que botava pra quebrar naquela época, atrasando qualquer produção midiática por conta de lentas análises dos censores, além das prisões, torturas e mortes de opositores da ditadura.

Millôr era dramaturgo, desenhista, adaptador de peças estrangeiras montadas no Brasil, e como escritor falava de coisas sérias com humor, através de pequenas frases ou de outras tiradas. E uma delas foi seu ceticismo sobre a ideia de preconceito, já que se trata da palavra mais vitimada pelo preconceito em nosso país.

Ele não acreditava muito nessa ideia dos "sem preconceitos", já que o preconceito é o desconhecimento prévio de alguma coisa. Muitas vezes se tem preconceito contra o preconceito, e o puxão de orelha do mestre Millôr caía bem nessa intelectualidade mais recente, festejada e bajulada, que usa o "preconceito" como pretexto para aceitar qualquer mediocridade que venha a se tornar em evidência na mídia.

E a mediocridade cultural que cresce em passos galopantes, expulsando qualquer expressão cultural autêntica que não aceite, por "puro preconceito", se associar aos medíocres e canastrões "culturais" de plantão, torna-se preocupante na medida em que não somente nossos mestres se vão, mas suas lições quase também morrem junto.

E Millôr nem de longe era antiquado. Pelo contrário, mesmo idoso, era moderno, seja quando tinha sítio na Internet - que agora encerra suas atividades - e até conta no Twitter. Porque ele era de um tempo em que se respirava cultura, quando ela estava dentro dos eixos, sem qualquer demagogia ou pose de vítima.

E ainda por cima Millôr foi um dos precursores do "frescobol", um famoso esporte de praia, e chegou a vencer campeonatos de pesca. Tudo isso para um homem cujo nome de batismo era Milton, mas que decidiu ser Millôr porque a caligrafia usada certa vez num registro escreveu o "t" de tal forma que parecia um "l" com um circunflexo "voando" sobre a letra "o". E deixou um irmão também famoso, Hélio Fernandes, ainda hoje engajado como jornalista do agora blogue Tribuna da Imprensa.

Éramos um país de cabeça erguida, não pretensos coitados querendo bancar os gênios, e Millôr era desse tempo de muito idealismo, muitas ideias, onde a inteligência estava acima do sucesso. E ele ainda por cima fez a tradução para a letra de "Feedback Song for a Dying Friend" da Legião Urbana, que Renato Russo compôs e gravou em inglês.

Millôr até tentou se encaixar na conservadora Veja. Mas até suas divergências com Lula eram mais descontraídas do que a furiosa discordância dos "calunistas" da irresponsável revista. E aí, Millôr decidiu sair, porque seu bom humor não combinava com o mau humor da linha editorial do periódico do Grupo Abril.

Fica mais um vazio no nosso país. E, justamente num momento em que o humorismo brasileiro vive sua crise (apesar das "novas" atrações, como o Pânico na Band e o Casseta & Planeta Vai Fundo, apenas fórmulas usuais repaginadas). E, mais uma vez, o medíocre brasil pouco se dá conta da perda de seus verdadeiros valores.

Até porque eles, totalmente fora de qualquer eixo, se isolam na contemplação narcisista não só da mediocridade de seus ídolos e referenciais, mas da mediocridade de si mesmos na "caverna" cafona onde contemplam seu mundinho de brinquedo.

Apesar de idoso, Millôr Fernandes não recebia o desdém da intelligentzia caolha porque era antigo. Ela o desprezava porque não o entendia nem o queria entender. Afinal, Millôr é um cidadão à frente do seu tempo.

LEI QUE PROÍBE MÚSICAS OFENSIVAS ÀS MULHERES É APROVADA NA BAHIA



Por Alexandre Figueiredo

Um projeto de lei foi aprovado na Assembleia Legislativa da Bahia proibindo o uso de letras ofensivas às mulheres, presentes sobretudo no chamado "pagodão baiano" ou "porno-pagode", de grupos da mesma linha musical de Psirico e Parangolé, só que "menos comportados".

São letras que eu mesmo pude perceber quando estava em Salvador. "Só na pancadinha", "Tapa na cara, mamãe", "Toma, toma", "É na madeirada" e, mais recentemente, "Me dá a patinha, sua danadinha". Letras de alto cunho machista, não muito diferentes do que as que ocorrem no "funk carioca" e no tecnobrega mais barra-pesada.

A lei foi criada há cerca de um ano pela deputada estadual Luíza Maia (PT-BA), determinando, entre outras medidas, que o Estado não financie grupos e cantores que interpretem letras ofensivas às mulheres. À lei aprovada, foi incluída também uma emenda estendendo as punições para letras homofóbicas e com apologia às drogas.

“Eu acho que passaram todos os limites da degradação da mulher. Precisava ter um freio. Por que a repercussão do projeto? Porque as mulheres baianas não aceitavam mais”, disse Luíza Maia.



No entanto, a intelectualidade etnocêntrica, que acha a mediocrização cultural "o máximo", protestou contra a medida. O antropólogo Roberto Albergaria que, junto com o sociólogo e historiador Milton Moura, são os queridinhos dessa intelectualidade festejada, já havia feito comentários infelizes sobre a cultura baiana, afirmando que o baiano não quer saber de acarajé e sim de hamburguer, numa alusão claramente entreguista e pró-capitalista.

Agora, Albergaria, que defende o "pagodão" assim como Milton Moura no seu artigo-porralouca "Esses pagodes impertinentes...", lançado há mais de 15 anos atrás, deu outra declaração infeliz, que aposta na mesma desculpa de "liberdade de expressão" dos editores de Veja.

"É uma lei contrária à brincadeira, à liberdade de expressão dos artistas e à própria linguagem do povo", afirmou Albergaria, achando que o machismo do "pagodão" baiano é uma coisa "inocente".

O governador Jacques Wagner tem um prazo de 30 dias para sancionar a lei. Sendo do mesmo partido de Luíza Maia e a lei envolvendo temas de grande interesse público, a tendência é da lei ser finalmente aprovada.

Ela não resolverá na melhoria musical desses grupos, que continuarão medíocres, grotescos e incompetentes. Mas será o primeiro passo para terminar os tempos de muita baixaria e degradação cultural na Bahia.

O "PINHEIRINHO" MUSICAL


O MÚSICO RENATO ROCHA, EX-LEGIÃO URBANA, HOJE VIVE NA POBREZA.

Por Alexandre Figueiredo

Triste cenário da cultura brasileira. Enquanto intelectuais como Pedro Alexandre Sanches, de uma forma cínica e arrogante, pregam a "ditabranda do mau gosto", a cultura de verdade perde seus espaços, em nome do "justo reconhecimento" dos chamados "sucessos do povão" como "parte de nossa rica cultura".

É um discurso demagógico, em que foram precisos vários textos para desmascará-lo, mas são precisos ainda mais outros textos. Afinal, a intelectualidade tão festejada, tão badalada em suas palestras e diante de microfones sempre abertos para eles, tenta promover os reles cardápios radiofônicos do brega-popularesco como "cultura de vanguarda", em argumentos nervosos, paranoicos, promovendo os ídolos como se fossem "vítimas" de uma campanha "ofensiva" que na prática não existe ou é muito exagerada.

E tudo isso é feito para empurrar ídolos do porte de Ivete Sangalo, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Mr. Catra, Banda Calypso, Fernando & Sorocaba e Michel Teló para espaços criados justamente para fugir deles.

Criaram assim seus "Pinheirinhos" onde a cultura de verdade não pode mais ter sequer seus próprios espaços, entregues aos mesmos breguinhas que possuem espaços demais na mídia e nas casas noturnas e festivais.

Vai chegar um ponto em que não haverá uma diferença entre o Abril Pro Rock e o Festival de Barretos, já que a essas alturas a choradeira nervosa de Pedro Alexandre Sanches e companhia vai querer que Michel Teló se apresente às plateias de vanguarda a título de "romper o preconceito". Uma ideia que, do jeito que é propagada, anda sendo pra lá de preconceituosa.

Expulsam-se os músicos de Bossa Nova dos espaços da Bossa Nova, entregues ao ecletismo oportunista dos ídolos da axé-music. O Clube da Esquina não pode ter seus sócios, mas pode admitir as carteiras falsificadas dos parasitas "sertanejos" do movimento mineiro. Para a intelectualidade etnocêntrica, Chitãozinho& Xororó é, pasmem, mais "clube da esquina" do que Toninho Horta e Lô Borges.

São expulsos músicos de Rock Brasil dos próprios cenários de Rock Brasil, agora entregues ao "sertanejo universitário", afinal, estes já "são influenciados pelo rock". O Brasil inteiro pode se transformar numa Salvador em que um ritmo popularesco detém o monopólio de mercado e as outras expressões só podem ter lugar quando cooptadas por este ritmo dominante.

Isso lembra Pinheirinho, a comunidade popular de São José dos Campos desalojada pelo Governo do Estado de São Paulo, o mesmo que patrocinou o último seminário do Coletivo Fora do Eixo, no final do ano passado. E tudo para favorecer o especulador financeiro Naji Nahas, para pagar as contas de sua empresa que faliu por ter sido mal-administrada.

Mas para intelectuais que são patrocinados por outro especulador financeiro, o estrangeiro George Soros, tanto faz o Pinheirinho musical. Eles até defendem o drama do povo de Pinheirinho, meio como amigos-da-onça metidos a solidários. E criam seu elenco de falsos coitados, de Waldick Soriano a Leandro Lehart, de Wando a Gaby Amarantos, passando por Michael Sullivan e José Augusto, para dar a impressão da "verdadeira solidariedade" ao povo pobre.

Mas eles não sofreram como sofre o ex-baixista da Legião Urbana, Renato Rocha, entregue à miséria pela força das circunstâncias. E que até gente da Bossa Nova, tida como "rica de marré de si", já sofreu, como o saudoso cantor Lúcio Alves, uma das grandes vozes de nosso país, mas que morreu sob o signo do abandono.

Nessa época o brega-popularesco até queria ampliar seus espaços, mas as universidades ainda serviam de refúgio a essa cafonice dominante, do contrário de hoje. Atualmente, e infelizmente, os espaços alternativos e de vanguarda viraram reféns do mercado, e são obrigados a virar extensões do brega-popularesco que já possui espaços demais.

E assim não há diferença entre George Soros e Naji Nahas. E Geraldo Alckmin continua financiando as palestras de Pedro Alexandre Sanches, por mais que este faça pretensos ataques ao PSDB. O povo pobre não tem mais sua cultura, pois "sua cultura" agora é a das rádios FM, da TV aberta, da mídia grande que é "morta" pelo discurso intelectualóide que a ressuscita depois.

A intelectualidade badalada ainda tem o cinismo de falar em "cultura independente", "novas mídias", "mídias alternativas". Mas no fundo ela quer mesmo é a continuidade do mercadão, de preferência sob nova direção. De que adianta? As mesmas corporações combatidas pelos "fora do eixo" são favorecidas pelas pregações destes.

E os nossos verdadeiros valores vão para o ralo. E reclamar disso ainda é visto como "preconceito", "purismo", "moralismo" e "higienismo". O Brasil se degrada, e qualquer um que reclamar é visto como "chato". Pena.

CULTURA S. A.



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Ironicamente, a revista Cult chegou a ter no seu quadro de jornalistas o festejado Pedro Alexandre Sanches, o propagandista maior da mediocrização cultural e um dos que confundem arte com mercadoria como quem gosta de ver o joio junto com o trigo. Mas aqui cultura não é brincadeira e o texto a seguir, embora longo, merece leitura atenta, afinal não podemos jogar fora as análises dos antigos intelectuais sobre a indústria cultural. Até porque elas soam muito mais atuais que as pregações que hoje a intelectualidade faz em prol do brega-popularesco.

Cultura S.A.

Adorno diagnosticou como as sociedades capitalistas avançadas transformam as produções do espírito em pura mercadoria

Por Ricardo Musse - Revista Cult - Reproduzido no portal Boilerdo

Adorno rejeita peremptoriamente o modelo expositivo dos sistemas filosóficos. Recusa neles o idealismo implícito no propósito de construir uma “totalidade para a qual nada permanece exterior e todo e qualquer conteúdo se volatiza em pensamentos”.

Mas, sobretudo, considera-os como mera reiteração da razão burguesa, orientada pelo princípio da troca, que tende a tornar comensurável a si mesma e assimilar todo o existente.

O sistema não pode ser o norte da teoria, precisamente porque é práxis, porque é “nessa direção que se move o mundo administrado”. Se a reflexão pretende ir além daquilo “que está meramente presente, que é dado”, se tiver o seu impulso na crítica, na resistência, na negatividade, ela deve ter a liberdade de interpretar os fenômenos de forma desarmada. Ela deve ser, em suma, antissistemática.

Uma das entradas pela qual Adorno procura compreender o sistema capitalista consiste na atualização da dicotomia entre dinâmica e estática – conceitos propostos inicialmente por Auguste Comte e redefinidos por Karl Marx como uma dialética entre forças produtivas técnicas e relações sociais de produção.

No diagnóstico de Adorno, hoje “as relações de produção detêm a supremacia em relação às forças produtivas”. Inverte-se assim a previsão de Marx de que o ritmo do desenvolvimento técnico tenderia a implodir a sociedade petrificada.

A prevalência do estático, do sempre igual, no mundo administrado, não desmonta, no entanto, a pertinência da análise marxista do capitalismo.

Ao contrário, Adorno reafirma seus pontos essenciais: a crítica da dominação exercida por meio do processo econômico; o protesto contra a opressão social tornada anônima (que caracteriza, valendo-se de uma frase de Nietzsche, como “nenhum pastor e um só rebanho”); a denúncia da reificação como fonte da ausência de liberdade (“os homens continuam não sendo senhores autônomos de sua vida; tal como no mito, esta decorre como destino”).

Adorno não considera superada nem mesmo a tão contestada teoria das classes sociais. As tentativas de refutação, adverte, partem em geral da suposição equivocada de que as classes são delimitadas no âmbito da consciência. A determinação objetiva assenta-se, no entanto, na sua posição no processo produtivo, na propriedade (ou na capacidade de dispor) dos meios de produção.

Uma vez que o próprio Marx concebeu a consciência de classe como um epifenômeno, a integração do proletariado nas sociedades industrializadas do Hemisfério Norte não indica que a classe tenha desaparecido.

Concorrência e hierarquia

No mundo contemporâneo, o processo de acumulação do capital – logo, a reprodução das classes sociais e das relações de propriedade – depende cada vez mais da administração do Estado, que opera como “capitalista total”.

Nesse cenário, “o estado de espírito fixado e manipulado torna-se um poder efetivo”: “A organização da sociedade impede, de um modo automático ou planejado, pela indústria cultural e da consciência, pelos monopólios de opinião, o conhecimento e a experiência dos mais ameaçadores acontecimentos, das ideias e teorias essencialmente críticas, paralisando a capacidade de imaginar concretamente o mundo de um modo diverso de como ele dominadoramente se apresenta àqueles por meio dos quais ele é constituído” (Adorno, “Capitalismo Tardio ou Sociedade Industrial?”).

Na economia capitalista planejada, convivem em contradição “o princípio tipicamente burguês da concorrência” e a “dominação direta” sob a forma de “hierarquias fechadas de tipo monopolar”.

A paradoxal coabitação de princípios antagônicos – cristalizando a relação, antes dinâmica, entre mercado e Estado, num contexto em que permanece indeterminada a prevalência da lógica econômica ou das diretrizes políticas – resulta da expansão do fenômeno que Marx destacou como matriz da sociabilidade burguesa: o fetichismo da mercadoria.

Adorno reitera assim o qualificativo que Marx atribuiu ao capitalismo – “sociedade do trabalho alienado” –, procurando examinar como a coisificação se alastra a partir da produção ciência como o inconsciente dos indivíduos, reificando não só o âmbito do processo de trabalho, mas também as atividades no tempo livre e, assim, a própria esfera da vida imediata.

A maior parte do tempo livre na sociedade capitalista é despendida no entretenimento, mais precisamente nas inúmeras formas de diversão proporcionadas pelos modernos meios de comunicação de massa.

A politização da arte, preconizada por Walter Benjamin nos anos 1930, frutificou, segundo Adorno, em outro registro, como um mecanismo de despolitização da sociedade. Com a emergência da indústria cultural, constitui-se uma nova forma de domínio e integração social, na qual as massas não configuram o elemento ativo, como Benjamin desejava, mas pura passividade.

Mundo administrado

Não se trata apenas do fato, já presente antes, de que as mercadorias culturais se orientam conforme as leis de valorização do capital, e não segundo seu “próprio conteúdo e figuração adequada”:

“As produções do espírito no estilo da indústria cultural não são mais também mercadorias, mas o são integralmente. Esse deslocamento é tão grande que suscita fenômenos inteiramente novos. A indústria cultural transforma-se em public relations, a saber, a fabricação de um simples assentimento, sem relação com os produtores ou objetos de venda particulares. Vai-se procurar o cliente para lhe vender um consentimento total e não crítico, faz-se propaganda do mundo existente, assim como cada produto da indústria cultural traz em si seu próprio marketing” (“A Indústria Cultural”).

Adorno contesta as justificativas mais corriqueiras (e plausíveis) da indústria cultural. Uma defesa objetiva não se sustenta porque a indústria cultural não resiste ao confronto com aquilo sob cujo disfarce se apresenta: a obra de arte.

Ela deturpa assim o próprio conceito de cultura. Subjetivamente, ela tampouco se legitima, pois o consentimento que alardeia reforça nos indivíduos apenas a autoridade e o conformismo.

O mundo administrado descrito por Adorno não se confunde, porém, com o “sistema total”, a sociedade sem brechas, aterrorizante, construída por George Orwell no romance 1984. Adorno conclui, por exemplo, sua conferência sobre o tempo livre destacando que os produtos da indústria cultural, que se apresentam de forma tão impositiva, não deixam de ser recebidos com algum grau de ceticismo:

“Se minha conclusão não é muito apressada, as pessoas aceitam e consomem o que a indústria cultural lhes oferece para o tempo livre, mas com um tipo de reserva, de forma semelhante à maneira como mesmo os mais ingênuos não consideram reais os episódios oferecidos pelo teatro e pelo cinema. Talvez mais ainda: não se acredita inteiramente neles. É evidente que ainda não se alcançou inteiramente a integração da consciência e do tempo livre. Os interesses reais do indivíduo ainda são suficientemente fortes para, dentro de certos limites, resistir à apreensão total” (“Tempo Livre”).

Ricardo Musse é professor no Departamento de Sociologia da USP

VIDA E OBRA DE THEODOR ADORNO

Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno (1903-1969) foi um dos fundadores, em 1924, da Escola de Frankfurt, importante centro de pesquisa independente que combinava marxismo e psicanálise em suas análises. Durante exílio nos Estados Unidos, entre 1934 e o final da Segunda Guerra, redigiu, juntamente com o filósofo Max Horkheimer, sua principal obra, Dialética do Esclarecimento (Zahar). Lançada em 1947, a obra marca a primeira vez em que o termo “indústria cultural” foi empregado. Com dupla formação – tanto filosófica quanto musical –, o pensamento de Adorno investiga o destino da arte e da cultura nas sociedades dominadas pela racionalidade tecnológica. Em 1977, instituiu-se em sua cidade natal o prêmio que leva seu nome, concedido a personalidades que se destacam em filosofia e artes.

terça-feira, 27 de março de 2012

NEGRETE E A DISCRIMINAÇÃO DOS MÚSICOS DE VERDADE


NO BRASIL DO "FUNK", DO TECNOBREGA E DE MICHEL TELÓ, NEGRETE (EM DESTAQUE) MOSTRA A VERDADEIRA CARA DO MÚSICO DISCRIMINADO.

Por Alexandre Figueiredo

No país da mediocrização cultural, do "funk", do tecnobrega e de Michel Teló, um músico de grande talento está vivendo na rua. Renato Rocha, o Negrete, que integrou a primeira fase da Legião Urbana - a de 1983-1988, mais voltada para o protesto pós-punk - , está vivendo na rua.

O músico, que chegou a integrar uma formação mais recente do Finis Africae (grupo brasiliense radicado no Rio de Janeiro e, por enquanto, inativo), agora enfrenta a miséria, embora eventualmente alguns fãs o reconheçam, conversem com ele e peçam autógrafos.

A gente fica a pensar o quanto nossa "intelectualidade mais bacana", aquela que recebe palmas das plateias deslumbradas e desprevenidas, tem culpa nessa situação toda. Porque gente como Pedro Alexandre Sanches, Ronaldo Lemos, Paulo César Araújo e Hermano Vianna - logo o irmão do Herbert Vianna, que tanto apoiou a Legião Urbana - acaba protegendo mais os donos das rádios FM ditas "populares" do que a cultura popular brasileira de verdade, aquela que não pratica o esporte de lotar plateias no menor espaço de tempo.

No Brasil do "funk carioca", do tecnobrega, do "pagode romântico" e coisa e tal, a verdadeira música brasileira, que prima pela qualidade, pela honestidade e pela coerência, esta é que sofre a mais cruel discriminação.

É até constrangedor que o superbadalado Pedro Alexandre Sanches, um dos "sacerdotes" da Idade Mídia, venha para a mídia esquerdista fazer sua choradeira em defesa da mediocridade cultural, chamando quem a questiona de "puristas", "preconceituosos", "higienistas".

Nós é que "temos raiva", enquanto Sanches, irritado, não admite que os "sucessos do povão" recebam alguma crítica sequer. E, descumprindo o que um intelectual de sua visibilidade deveria fazer, ainda tem um grande medo de qualquer debate estético.

Pois, por culpa desses intelectuais - Sanches, Vianna, Araújo, Lemos e seus séquitos - , a retaguarda que sempre representou a música brega e seus derivados, na medida em que ganhou o tendencioso rótulo de "vanguarda cult trash", expulsou a MPB e o Rock Brasil de muitos redutos alternativos. E isso sem deixar de tocar naquelas "rádios do povão" que, na verdade, são controladas por oligarquias empresariais, muitas delas latifundiárias.

O tecnobrega, o forró-brega, o "pagode romântico", o "funk carioca", todos os bregas sempre estiveram com algum acesso na grande mídia. Eles são crias dela, queiram ou não queiram os "fora do eixo" de plantão.

O apoio das Organizações Globo e do Grupo Folha a eles é algo que salta aos olhos, mas quem tenta desmentir tal realidade ainda é aplaudido de pé pelas plateias seduzidas. E garante até que, passada a ostentação "global", ocorra o mesmo com Gaby Amarantos e Mr. Catra do que ocorreu com José Augusto, Wando e Waldick Soriano, que certos blogueiros de "esquerda" mais frágeis cortejarão com suas choradeiras textuais.

Ninguém percebe que os bregas agora são os "donos do poder". No mesmo sentido de poder de Geraldo Alckmin e Otávio Frias Filho. Se vemos Arnaldo Antunes cantando com Michael Sullivan, não é este que anda "mendigando" um lugar nobre na música brasileira, mas o outro, Arnaldo, que quer visibilidade, quem sabe um lugar em alguma vaquejada no interior do país.

É bom deixar claro que, sob a batuta das Organizações Globo (e da multinacional RCA), Michael Sullivan foi um produtor musical e compositor cujo poderio midiático, dentro do setor, era, nos anos 80, comparável ao que Ali Kamel exerce no telejornalismo da mesma corporação midiática. Mas a memória curta vê Michael Sullivan como um coitadinho, como se tivesse vivido dramas piores do que Renato Rocha. Mas não viveu metade do que o ex-Legião viveu.

Da mesma forma que Michael Sullivan representa "o poder", também vemos casos assim quando o também ex-Legião Dado Villa-Lobos e dois membros dos Paralamas do Sucesso tocam com Chimbinha, da Banda Calypso. Ou quando os Titãs fazem "dueto" com o funqueiro Mr. Catra.

Não são a Banda Calypso e o Mr. Catra que estão "pedindo" algum espaço nobre na cultura brasileira, mas são os roqueiros que, em nome da visibilidade, veem nesses nomes do brega-popularesco um "pistolão" para jogá-los nas vaquejadas e micaretas do interior do país.

A verdade, nua, crua e dolorosa, é que Mr. Catra, Joelma e Chimbinha têm tanto poder midiático quanto Merval Pereira, Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede.

Só que vivemos a hegemonia da "imagem", o espetáculo fútil das aparências impõe sua manipulação ideológica. A aparência ou mesmo o mito de "gente simples" dos bregas e derivados ilude muita gente, que acha que eles estão fora do poder.

Ora, nenhum músico de Bossa Nova é tão rico quanto uma dupla dita "sertaneja", do porte de um Zezé di Camargo & Luciano, ou de algum DJ e empresário de "funk". Mas como a Bossa Nova está associada a uma sofisticação musical e a um cenário como a Zona Sul carioca, temos que achar que um Carlinhos Lyra e um Roberto Menescal, ou os herdeiros de Nara Leão, Tom, Vinícius e Sílvia Telles, vivem nadando em dinheiro.

E a ministra Ana de Hollanda também não é tão rica assim como se pensa, até seu envolvimento com a cúpula do ECAD é uma forma dela buscar uma "proteção" que uma Ivete Sangalo da vida não precisa recorrer. Porque a Ivete tem o apoio de tudo: Organizações Globo, Universal Music, UDR, indústrias de bebidas, Folha de São Paulo, Caras, até do FMI.

Mas de que adianta falar nisso? O que vale é a opinião "segura" de um Pedro Alexandre Sanches e um Ronaldo Lemos, que enganam as esquerdas fazendo o mesmo trabalho manipulador dos Frias e dos Mesquita, como bons alunos da velha grande mídia na qual aprenderam as maiores lições. Não tenho a visibilidade deles, acabo "pregando no deserto".

São esses intelectuais que empurram o brega-popularesco para os cenários vanguardistas, desalojando a MPB autêntica e o Rock Brasil, que cada vez perdem mais espaços, no circuito de apresentações ao vivo e nas rádios. E muitos pensam que o "funk carioca" e o tecnobrega ainda estão fora da mídia, quando vemos Mr. Catra e Gaby Amarantos entrando na Rede Globo pelas portas da frente.

O brega-popularesco já tem espaços demais, na maioria das rádios, na TV aberta, em parte da TV paga, nas revistas de celebridades, nas casas de espetáculos, no som interno das lojas de varejo e atacado, nos supermercados, nas lojas de eletrodomésticos. Não precisa de espaços vanguardistas ou alternativos para sobreviver.

Já a MPB autêntica e o Rock Brasil perdem até mesmo seus próprios espaços, na medida em que o pseudo-vanguardismo associado aos bregas e derivados pela intelectualidade mais badalada transforma os espaços alternativos em repetidores da mesmice supostamente "popular" das rádios FM e da TV aberta.

E isso faz do brega-popularesco um fenômeno totalitário, que de forma mais demagógica e cínica ainda chora pela suposta falta de espaço na grande mídia. Espaço que seus ídolos possuem demais, e que já exercem seu poderio midiático como capatazes dos barões da grande mídia.

Se o mercado fosse mais justo e houvesse espaço para a verdadeira diversidade cultural - aquela em que o brega-popularesco reconhece seus limites de espaço e expressão, sem invadir e sufocar os espaços dos outros - , Renato Rocha seria um dos grandes músicos em atividade no nosso país. Talvez ele até lançasse grandes ideias musicais, quem sabe música instrumental ou coisa parecida.

AS TECNOLOGIAS NÃO DESFAZEM EXCLUSÕES



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: As novas mídias evidentemente causam transformações profundas no âmbito dos meios de comunicação. Mas elas não representam a ruptura das estruturas de poder, na medida em que o poder midiático também se utiliza das novas tecnologias para renovar sua concentração de poder e seus privilégios.

As tecnologias não desfazem exclusões

Por Dênis de Moraes - Portal Quem tem medo da democracia?:

Devemos reconhecer avanços proporcionados pelas tecnologias digitais, como, por exemplo, as funcionalidades dos celulares, os serviços públicos online, os espaços colaborativos, os intercâmbios audiovisuais, os acervos multimídias, as redes educativas, as mobilizações virtuais por afinidades eletivas e a divulgação descentralizada através da Internet. Mas não podemos deixar de ressaltar que existem sérias contradições e desigualdades nos acessos e usos dessas mesmas tecnologias. Parcelas expressivas da população mundial continuam excluídas da evolução técnica. E são as classes e o capital dominantes que absorvem as maiores vantagens da cultura digital, impedindo a partilha equânime das riquezas e do progresso tecnocientífico e material.


A explosão inovadora não representa um bem comum, nem uma conquista repartida pela maioria das sociedades. Grandes empresas e instituições hegemônicas detêm a prerrogativa de utilizá-la em função de ambições particulares. São elas que dispõem de poderio financeiro, influência política, capacidade industrial e esquemas de distribuição pelos continentes — tudo isso facilitado pelas desregulamentações e privatizações neoliberais dos últimos 30 anos.

A própria intensificação das inovações tecnológicas frequentemente obedece à diretriz de acumulação de dividendos competitivos. Portanto, existem diferentes aspectos a considerar, se não quisermos aceitar passivamente nem ceder ao culto celebratório do novo e das euforias tecnológicas. Precisamos separar as mudanças potenciais que as tecnologias podem introduzir nas relações e práticas cotidianas dos modismos efêmeros, das graves exclusões que se mantêm na órbita da chamada explosão digital e dos apelos consumistas que inundam os meios de comunicação.

É fundamental avaliarmos a multiplicação veloz e ininterrupta de conteúdos nos suportes, canais e plataformas digitais. Dizem-nos que nunca houve tanta oferta de informação e entretenimento. Mas cabe questionar este slogan propagandístico do neoliberalismo. Quem controla essa variedade de ofertas? Qual é a sua natureza ideológico-cultural? Quais são as linhas dos conteúdos e das programações? Que linhas de abordagem são adotadas na interpretação dos fatos? Penso ser essencial verificarmos em que medida a informação está posta a serviço dos interesses ideológicos da mídia hegemônica – não raro, interesses antipopulares, que se expressam na carga brutal de discriminação, de deturpação, de silenciamento das reivindicações de entidades e movimentos sociais e comunitários.

Quando aprofundamos a análise, percebemos que, se, de um lado, cresceu a oferta de informação e diversão, de outro há um processo de centralização das fontes emissoras dos conteúdos multimídias e uma comercialização generalizada dos bens simbólicos, com o propósito de alimentar os padrões de rentabilidade das grandes empresas do setor. A alegada multiplicação de materiais informativos e culturais se inscreve mais na órbita das conveniências econômicas e ideológicas dos grupos privados do que propriamente na variedade qualitativa dos conteúdos. Frequentemente, as necessidades e aspirações sociais ficam em segundo plano.

A verdadeira diversidade pressupõe valorizar as múltiplas vozes que se manifestam na sociedade, confrontar pontos de vista e estimular trocas horizontais entre as culturas de povos, cidades e países. Diversidade se assegura, principalmente, com políticas públicas que valorizem os direitos da cidadania e contribuam para deter a oligopolização da produção cultural. Para isso, são indispensáveis mecanismos democráticos de regulação, de descentralização da mídia, de universalização de acessos, de proteção do patrimônio cultural e de apoio a usos comunitários e educativos das tecnologias.

segunda-feira, 26 de março de 2012

JOSÉ SERRA NÃO É MAIS O ASTRO DO PSDB



Por Alexandre Figueiredo

José Serra, o candidato derrotado do PSDB à Presidência da República nas últimas campanhas, até conseguiu vencer as prévias para disputar a Prefeitura de São Paulo nas eleições deste ano. Mas sua vitória foi muito magra, 52%, o que mostra o sinal de sua decadência política.

Tido como "mais consistente" pela grande mídia, Serra disputou a pré-candidatura com outros nomes menos expressivos do partido, José Aníbal e Ricardo Tripoli. Apesar disso, a vitória de Serra não pode ser considerada "imbatível", uma vez que, praticamente, Serra venceu apenas com metade dos votos dos correligionários.

Até mesmo o blogueiro da Globo, Ricardo Noblat, teve que admitir que foi uma "vitória sem sal". A Folha também saiu decepcionada, definindo o início da campanha como "pouco empolgante". O que mostra que José Serra deixou de ser um dos astros do famigerado partido tucano.

Serra, economista que havia sido líder estudantil - em 13 de março de 1964, como presidente da UNE, estava presente no comício do então presidente João Goulart na Central do Brasil - , havia sido, no passado, ideologicamente oposto à sua tendência atual, tendo sido ligado ao socialismo católico da Ação Popular.

Chega a ser irônico que, no aniversário de 22 anos de Serra, em 19 de março, seis dias após o citado comício, as elites paulistas mais conservadoras tenham feito a Marcha da Família Unida Com Deus pela Liberdade pregando a derrubada de Jango e a instauração de uma ditadura militar para "extinguir a desordem" no país.

Isso porque só tardiamente Serra aderiu ao lado oposto, e na campanha de 2010 fez o mesmo discurso moralista dos golpistas de 1964 e recebeu integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (instituição que, pasmem, continua existindo até hoje) e da instituição religiosa medieval Opus Dei.

Não bastasse isso, houve o chilique da mídia associada quando, vendo José Serra ser "alvejado" por uma bolinha de papel durante um protesto no Rio de Janeiro, tentou argumentar que o então candidato foi "seriamente atingido" por um "estranho objeto" jogado contra ele.

José Serra preferiu não mostrar propostas e parecia um candidato tão caricato quanto Fernando Collor em 1989. Mas, naquele ano, Collor conseguiu um apoio midiático suficiente para manobrar tendenciosamente sua campanha, a seu favor. Não havia Internet e, por isso mesmo, a grande mídia gozava de uma reputação quase unilateralmente positiva.

Mas hoje qualquer gafe aparece no YouTube e aquela visão única da velha grande mídia se desfaz feito um castelo de areia. Os chamados "urubólogos" da grande imprensa até tentam intimidar com seu mau humor e suas desculpas, mas o poder "formador de opinião" deles já deixou de ter a força que tinham antes, até cerca de dez anos atrás.

José Serra prometeu unificar o partido em torno dele. Terá um grande trabalho pela frente. Ele já não é mais o carismático ex-líder estudantil há um bom tempo e, mesmo entre os políticos tucanos, ele já começa a ser visto como um "mala".

Talvez a velha grande mídia local, como a TV Globo paulista, a Folha de São Paulo, a Veja e figuras "ímpares" como o jornalista Bóris Casoy, possam dar uma ajudinha na produção de uma imagem mais agradável do ex-presidenciável, para ver se pelo menos Serra ganha um assento no Palácio do Anhangabaú, sede da prefeitura paulistana.

Isso até que chegue 2014 e Serra decida mais uma vez concorrer ao Palácio do Planalto.

BREGA-POPULARESCO NÃO FAZ O POVO PENSAR



Por Alexandre Figueiredo

Não custa repetir. O entretenimento passivo do brega-popularesco, a suposta "cultura popular" da grande mídia, por mais que seja reforçado pelo apoio da intelectualidade influente, impede o povo de pensar sobre sua situação no país.

Nem o "funk carioca", a tendência mais "ambiciosa" derivada da música brega, consegue botar o povo para pensar. E nem precisamos detalhar isso aqui, porque isso já foi feito em outros textos. Mas sabe-se que até ele aposta na glamourização da pobreza, na produção de ídolos "coitadinhos" que querem tirar vantagem posando-se de vítimas.

A choradeira intelectual em prol de cantores bregas mais românticos - como Waldick Soriano, Wando, Michael Sullivan e José Augusto - também não contribui em coisa alguma para enobrecer a cultura popular. Até porque isso mais parece uma morbidez intelectualóide, com um quê de elitista e paternalista, do que uma real solidariedade com o povo pobre.

Paciência, há intelectuais com formação cultural conservadora, educadas pela televisão e pelo rádio da ditadura militar, crianças felizes brincando de milagre brasileiro sob as nuvens cinzentas do AI-5.

O povo não aparece de verdade no brega-popularesco. O brega-popularesco transforma o povo pobre numa massa resignada, num rebanho de coitadinhos que só querem entrar nos redutos das elites de cabeça baixa e trajes horríveis. Até agora, o que se viu foi apenas a campanha para que tenhamos que aceitar a inferioridade sócio-cultural e fingir que isso é "cultura superior".

Só que nessa "verdadeira cultura popular" o povo não pensa criticamente a realidade. Não há arte de verdade, não há transmissão de conhecimento, desenvolvimento de valores sociais mais sólidos, não há mobilização, não há senso crítico, não há humanidade, não há alegria de verdade, nem tristeza de verdade, nem qualquer tipo de sentimento autêntico ou real, e nem mesmo a teatralidade das emoções encenadas é real.

Tudo é feito de forma tendenciosa, mercenária, demagógica. Seus "artistas" são de alguma forma submissos com as regras do mercado. O brega e seus derivados nunca foi cultura de verdade porque nunca se preocupou, nem mesmo no auge de seu sucesso, em acrescentar coisa alguma em nossa cultura.

A intelectualidade dominante é que tenta impor essa "ditabranda do mau gosto" como se fosse "a cultura popular do futuro", "o folclore do século XXI", "a MPB com P maiúsculo". Balelas. Pura desculpa elitista de pessoas abastadas querendo parecer generosas com as classes populares.

Para essa intelectualidade, a missão do povo pobre é tão somente consumir dos "bens culturais" a ele associados, mas produzidos sob o claro patrocínio das oligarquias e elites interessadas. Se o povo rebola o "funk carioca", o "rebolation" e o tecnobrega, ou chora ao som de José Augusto e Wando, tudo bem. A intelectualidade associada até inventa que isso é "mobilização social", até para favorecer toda a politicagem que há em cima disso.

Mas quando o povo pobre deixa a mediocridade cultural de lado e passa a lutar por melhorias de vida, a intelectualidade não gosta. Ela vê perder aquela imagem "inocente" que tem do povo pobre cafona, brega e coitadinho.

Daí o pânico da intelectualidade pela volta daquele povo que construiu a história do Brasil. Um povo que incomoda a estabilidade forçada das estruturas do poder. E daí a defesa da intelectualidade para uma pretensa "cultura popular" que anestesia as massas e isola o debate público apenas a uma minoria de iniciados.

domingo, 25 de março de 2012

QUANDO A INTELECTUALIDADE "ESQUERDISTA" FICA NO LADO DA UDR


ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO - Por trás do verniz "esquerdista" da dupla, a aliança com as Organizações Globo e o apoio a Ronaldo Caiado.

Por Alexandre Figueiredo

Um colunista da revista Fórum - não, não é Pedro Alexandre Sanches - havia escrito um texto definindo Michel Teló e Xuxa como lixos culturais. No entanto, na hora de dar exemplos sobre o que seria a música brasileira de qualidade, ele, que também é músico, pisou na bola, citando a dupla Zezé di Camargo & Luciano.

A memória curta brasileira garante que a mediocridade do passado seja vista hoje como "genial". E isso não é um fruto de uma natural avaliação de conceitos e preconceitos, nem um processo de evolução sócio-cultural, mas o avanço da mediocrização cultural que, com a contribuição decisiva da velha grande mídia, transforma o Brasil numa verdadeira "terra de cego". José Saramago que o diga.

E, como em terra de cego, diz o ditado que, neste caso, quem tem um olho é rei. E os nomes que, há vinte ou quarenta anos atrás, eram vistos como sinônimo de baixaria, lixo cultural e coisa parecida, hoje são vistos como "geniais". Eles melhoraram musicalmente? Não. A sociedade melhorou decisivamente? Não. A intelectualidade hoje é muito mais aberta em ideias? Nem de longe.

O problema é que a intelectualidade dominante possui seus preconceitos elitistas enrustidos. Envergonhada desses preconceitos, esses intelectuais tentam passar a impressão contrária e definir como "preconceito" o senso crítico dos outros.

Parafraseando Caetano Veloso, se esses intelectuais fizessem na política o que fazem na cultura, estaremos ferrados. Imagine Paulo Maluf sendo classificado de "grande estadista" e "paradigma do Brasil moderno"? A gente até imagina se um dia dá um surto na intelectualidade atual e até Geraldo Alckmin é reabilitado como um "político progressista".

Hoje Benito di Paula, Waldick Soriano, José Augusto, Michael Sullivan, Wando, Zezé di Camargo & Luciano, Alexandre Pires e similares são "grandes mestres da nossa música". Mas, tempos atrás, eles simbolizaram a baixaria cultural que ameaçava a cultura brasileira.

Beneficiados pela memória curta, santificamos os algozes de ontem. Desse modo, se alguém disser que o Brilhante Ustra, o temível coronel do DOI-CODI, mereceria um Nobel da Paz, até quando haverá vozes contestando?

Vai o imperialismo norte-americano se fantasiar de fada madrinha e promover um tal "jornalismo das américas" que elogia Yoani Sanchez, condena Julian Assange e ninguém das esquerdas esboça algum desconfiômetro, é de se preocupar.

Tudo isso sem falar no caso do embuste do canal pago TeleCine Cult que, sob o dinheiro pesado da mesma indústria cinematográfica que quase impôs os temíveis SOPA e PIPA (projetos de censura na Internet), vende o cinemão comercial de Hollywood como se fosse "tão alternativo" quanto o cinema independente europeu e ninguém desconfia! Os cineclubistas de outrora se envergonhariam de atitudes desse tipo, feitas, pasmem, por gente com nível universitário.

Pois não adianta criticar Michel Teló se elogia Zezé di Camargo & Luciano. Os "sertanejos" de 1990, sabiamente acusados por estudiosos de deturpar e diluir violentamente a música caipira, hoje são vistos erroneamente como "música de raiz".

A intelectualidade é enganada pelas alegações "tropitucanas" de que essas bostas hoje são "apenas o moderno sertanejo pop" e vai dormir tranquila achando que faz sentido falar bem de Zezé di Camargo & Luciano num periódico esquerdista.

Pois a dupla havia apoiado o político latifundiário Ronaldo Caiado, da temível UDR, além de estabelecer alianças fortes com as Organizações Globo na promoção da mediocridade cultural (da qual a famigerada dupla goiana é um de seus ícones mais típicos).

Zezé di Camargo, além disso, participou do movimento reacionário "Cansei", e a dupla, apesar do pretenso humanismo reforçado pelo melodrama biográfico produzido pela Globo Filmes, Os Dois Filhos de Francisco, tinha, na Internet, um exército de troleiros da pesada, pitboys digitais que não suportam ver a dupla receber qualquer crítica, por menor que seja.

A intelectualidade cultural dominante ainda está presa a 1970. Não consegue ir antes, tem sérias dificuldades de entender o patrimônio cultural brasileiro fora das lentes da Rede Globo. E fala-se da intelectualidade "de esquerda", sejam os esquerdistas de senso crítico frágil, sejam os pseudo-esquerdistas (tipo Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches), surgidos dos mais direitistas biombos da intelligentzia brasileira.

É preciso separar o joio do trigo da música brasileira. É verdade que os intelectuais possuem empregadas domésticas, que muito do medo de criticar a breguice dominante está nos preconceitos positivamente paternalistas da intelectualidade, mas defender os bregas e derivados não vai contribuir para o reconhecimento da cultura das classes populares.

Muito pelo contrário, o que se faz é defender apenas a "cultura" promovida pelos donos de rádio e TV regionais, ligados às mesmas elites que promovem a corrupção política e a concentração de terras no nosso país.

Daí um erro estratégico de boa parte da intelectualidade média de esquerda, incluindo muitos escribas das revistas Fórum, Carta Capital e Caros Amigos. No âmbito político, eles estão ao lado do MST, mas culturalmente eles preferem estar ao lado da UDR.

OS "GRUPOS COM DONOS" DA PSEUDO-CULTURA "POPULAR"


CAL ADAN - Um dos chefões do mercado dos chamados "grupos com donos".

Por Alexandre Figueiredo

Um dos fatos que a intelectualidade etnocêntrica faz vista grossa quando defende a suposta "cultura popular" midiática é a existência de "grupos com donos".

São conjuntos musicais integrados por pessoas ingênuas, às vezes acompanhados de dançarinos, que são controlados por empresários que tudo decidem nas carreiras desses grupos. É um fenômeno que não é novidade na música comercial, mas chega a ser visto com esnobismo pelos defensores da mediocridade cultural brasileira.

Se na música em geral os grupos são comandados por vocalistas e, no rock e no jazz, há grupos liderados por instrumentistas solistas, sem falar das orquestras de jazz e música erudita comandadas por maestros, no canhestro brega-popularesco, como em toda música comercial mais rasteira, há grupos comandados por seus empresários.

Os "grupos com donos" tiveram seu exemplo mais conhecido através do fenômeno comercial É O Tchan, que pusou todo um esquema de grupos de "pagodão sensual" controlados pelos seus empresários, a partir do dono maior de vários deles, o baiano Cal Adan, que além do É O Tchan detinha vários grupos similares, em meados dos anos 90.

Cal havia comprado o então grupo Gerasamba, que não tinha dançarinas e que, através do negócio, teve um "racha" entre seus membros. O grupo então se dividiu entre a parte que queria continuar como Gerasamba e a parte que aceitava virar É O Tchan. O primeiro disco do É O Tchan chegou a ser lançado com o nome de Gerasamba, mas depois o nome foi mudado.

Grupos com donos existem nos mercados ditos "independentes" do brega-popularesco. Aqueles em que há a desregulamentação do mercado musical, onde não tem copyright, não tem salário decente e, não raro, nem sequer tem carteira assinada. Seus integrantes, não raro, nem chegam a compor as músicas que cantam, tocam ou dançam e até para dar entrevistas eles são "orientados" pelo empresário sobre o que devem ou não dizer.

Eles existem no forró-brega, no tecnobrega, na tchê music, no arrocha, na axé-music e no "funk carioca", entre outras tendências. Mas, mesmo no chamado "sertanejo universitário", já começam a surgir tantas duplas que já dá para desconfiar se elas também não seriam "duplas com donos" a pipocar em cada esquina ou até em qualquer condomínio de luxo das grandes cidades.

Esse é o lado obscuro, sombrio, daquilo que a intelectualidade diz ser a "verdadeira cultura popular". Até Milton Moura havia citado os "grupos com donos" como se fosse algo positivo. Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna, então, fazem vista grossa, tal qual Ronaldo Lemos e similares.

A desculpa usada é que esses empresários são vistos como se fossem apenas "gerenciadores" das carreiras desses grupos. Os próprios empresários têm que se autoproclamar "produtores culturais" para evitar encrenca, e evitam o máximo possível de aparecer com ternos, gravatas e sapatos de verniz, aparecendo em festas de gala usando sempre tênis e, quando muito, "quebrando" o uso de paletós com camisetas, jeans rasgados e tênis esportivos.

A própria retórica da intelectualidade dominante tenta livrar a pele deles de qualquer problema. Na retórica relacionada à suposta "cultura das periferias", esses empresários são equiparados a qualquer feirante ou sindicalista, como se o enriquecimento financeiro dos empresários desses grupos musicais fosse "acidental" ou "mera coincidência".

Além do dono do É O Tchan, Cal Adan, outros nomes famosos por controlar grupos ou intérpretes musicais são os DJs de "funk carioca" Rômulo Costa, da Furacão 2000, e Fernando Mattos da Mata, o DJ Marlboro, que além de intérprete é empresário de intérpretes funqueiros.

No entanto, a postura "simpática" desses "humildes produtores culturais" esconde um rigor empresarial cruel. Em muitos casos, eles moldam os grupos musicais, as duplas, os MC's, conforme suas vontades. E, não raro, o esquema é escravista, como no caso dos intérpretes menos conhecidos de tecnobrega e forró-brega, que vem na carona na multiplicação de nomes para vender tais tendências.

Não raro, várias manobras são criadas. Se a funqueira "boazuda" é casada, seu marido é indenizado para viver longe dela, escondido em algum canto do Brasil, enquanto a funqueira faz papel de "solteirona irremediável" nas suas aparições na grande mídia. A "solteirona" é uma personagem, trabalhada como "verdadeira", para promover a funqueira como "símbolo sexual" e vender as revistas que a contratam para fazer fotos "sensuais" para reforçar a renda para ela e seu empresário.

Essa manobra chega a usar desculpas frouxas, porém verossímeis, quando se deixa vazar certas atitudes. Como numa compra da super motocicleta pela funqueira que não parece ser inclinada a pilotar motos daquele porte, o que sugeriria que a moto seria destinada ao marido dela, já que, por outro lado, ela também não é conhecida por ter um irmão piloto de motocross.

Neste caso, cabe a desculpa esfarrapada de que a moto seria "para ela mesmo" e que ela apenas "sonharia" passear com a super moto junto a um "gatinho" pretendente. A desculpa foi dada na grande imprensa popularesca, e ficou por isso mesmo.

A própria dançarina do É O Tchan, Scheila Carvalho, acabou revelando, sem querer, que teve que esconder, por razões contratuais, os cinco primeiros anos de seu casamento com o colega Tony Salles (hoje vocalista do baiano Raghatoni). Em 2011, ela celebrou os dez anos de casamento, mas quem acompanhou a imprensa entre 2001 e 2006 veria que Scheila era tida como "solteiríssima" em várias fontes.

Em outros casos, como no forró-brega, o controle de empresários chega a estimular disputas ferozes sobre quem vai ficar com uma nova música, prestes a fazer sucesso nas rádios, feita geralmente por um forrozeiro quase anônimo ou por um mascate, borracheiro ou um frentista de posto de gasolina.

A intelectualidade comemora, já que até feirantes, frentistas de postos de gasolina ou, quem sabe, mendigos, possuem, em tese, grande chance de fazerem sucessos como compositores. Fazem qualquer bobagem, vendem para empresários do entretenimento - considerados "pobres de marré de si" pela intelectualidade associada - e um grupo de forró-brega grava cada música, coloca na trilha de novela da Globo como tema de um "núcleo popular" e, pronto.

Aí é só Pedro Alexandre Sanches ou um outro qualquer choramingar por que o grupo de forró-brega tal "não possui reconhecimento artístico", a pretexto do grupo ser hábil em lotar plateias em todo o país e ser ouvido pelos quatro cantos do Brasil etc.

O aspecto mais grave desses "grupos com donos" é que eles, associados oficialmente às "culturas das periferias", são na verdade exemplos da verdadeira escravidão artística, e expressões do mais puro poderio dos empresários de entretenimento que se enriquecem por trás desse espetáculo.

Além do mais, os cantores, músicos e dançarinos se resumem a empregados passivos, ingênuos, que apenas representam a "cultura do povo pobre" de maneira simbólica e formal. No entanto, são pobres trabalhando para ricos, gente rica dentro de suas regiões, mas que precisa se caraterizar como "pobre" enquanto vive, na privacidade, dentro de apartamentos de luxo e, em certos casos, sendo donos de fazendas administradas por "laranjas".

Esse processo faz cair a máscara do que é realmente essa pseudo-cultura "popular". Um mercadão traiçoeiro, tendencioso e autoritário, que nada contribui para o progresso das classes populares e que apenas simula uma "verdadeira cultura popular" que nada tem de verdadeira. Porque tudo isso só alimenta o consumo, lota plateias e arrasta multidões, mas não traz valores culturais de verdade para o progresso social do povo das periferias.

sábado, 24 de março de 2012

A MPB AUTÊNTICA ESTÁ FICANDO VELHA



Por Alexandre Figueiredo

Na ocasião do falecimento de Chico Anysio, fiquei pensando em vários momentos da carreira do humorista e, evidentemente, pensei na trajetória do Baiano & Os Novos Caetanos, projeto que o comediante fez com o também falecido Arnaud Rodrigues (que fez o personagem cego na novela Roque Santeiro da Globo, versão anos 80), que, por incrível que pareça, foi um projeto de MPB autêntica, ainda que paródica.

Pois a MPB autêntica, que hoje se reduziu a tributos e autorreverências, hoje não consta de muitos nomes fortes para a revigoração da verdadeira canção popular. Das classes pobres, há 40 anos não surge um compositor com o impacto de um Martinho da Vila, Paulinho da Viola.

Até surgem cantores de MPB vindos das classes pobres, mas eles rapidamente são cooptados pela classe média, cantam para socialites e coisa e tal.

A mediocrização cultural do brega-popularesco causou um efeito devastador na cultura brasileira. Em muitas regiões do país, praticamente não existe qualquer cenário de MPB autêntica, aquela que não se preocupa em lotar plateias em poucos minutos.

A maioria dos grandes nomes da MPB autêntica são gente de classe média, e parte deles chega aos 70 anos este ano: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e Milton Nascimento. Mas mesmo Gal Costa e Chico Buarque passaram dos 65, e Djavan dos 60.

A MPB está idosa, carente de renovação, enquanto gerações mais recentes parecem viciadas no pós-tropicalismo de 1970 em diante. Como se a história da cultura brasileira tivesse começado apenas em 1970 (ou, quando muito, em 1967) e o resto era pré-história.

Sim, pasmem, muita gente, inclusive intelectuais, tratam o nosso rico patrimônio cultural brasileiro como se fosse um patrimônio pré-histórico. Até mesmo a fórmula da MPB moderna se estagnou num som meio Jovem Guarda, meio samba-rock, cheio de pós-modernices.

Isso quando se fala de uma MPB com alguma qualidade musical, acima da média do que se faz hoje em dia. Porque, dos nomes medianos para baixo, o que se vê são apenas delírios performáticos, ecletismos já vagos e, de tão ecléticos, já não são mais diversificados como pretendem ser.

Descendo mais ainda, vemos a MPBzinha condescendente ao brega, gravando com Banda Calypso para ver se arruma um lugar num festival de música no Norte e Nordeste do país. Ou então gente que grava covers de sucessos brega-popularesco visando alguns trocados da Lei Rouanet.

Mesmo a obsessão de não ir muito atrás de 1967-1970 - época dos heróis da atual geração intelectual brasileira - não soa algo positivo, porque, a princípio, relembrar o samba-rock e reconhecer o valor dos melhores artistas da Jovem Guarda pode ser uma boa ideia, mas ela já começa a ir no lugar comum na MPB pós-moderna dos últimos anos.

No pior lado, já havia fracassado a tentativa de converter os neo-bregas dos anos 90 - como os ídolos do "sertanejo" e do "pagode romântico" mais conhecidos - numa pseudo-MPB de forte apelo televisivo e radiofônico, porque eles nunca foram artistas de verdade, e não foi através de trajes de gala, cenários superproduzidos, tecnologia, marketing e covers do cancioneiro mais conhecido e inofensivo da MPB que os fizeram artistas melhores.

Até filmes biográficos foram feitos envolvendo "artistas" desse nível, envoltos em muito banho de loja, de luz e técnica. Mas eles não viraram MPB de verdade porque, embora lotem plateias com facilidade e sejam conhecidos até pelo mendigo da esquina, eles nunca fizeram algo de relevância que acrescente algo novo na Música Popular Brasileira.

A tentativa de se associarem ao cancioneiro tradicional, através de covers, tendenciosos e oportunistas, de gente como Ataulfo Alves, Lamartine Babo, Renato Teixeira, Belchior (por intermédio de Elis Regina), Ary Barroso e Milton Nascimento, não fez com que os breguinhas arrumadinhos da geração 1990 virassem MPB séria, mesmo com a insistência generosa de Fausto Silva, ou talvez em razão de seu apoio, já que a associação com a Rede Globo, com o tempo, desgastou os neo-bregas, marcados sobretudo pela canastrice e pelo pedantismo musical.

Voltando à MPB autêntica, um dos poucos nomes que se dedicam a valorizar a canção brasileira é a cantora Roberta Sá, esposa do músico Pedro Luís. Com 32 anos, ela é exceção à regra pelo interesse da pesquisa da música brasileira mais antiga, além de um talento vocal que não segue a fórmula gasta da branca querendo cantar feito "negona", como se vê na axé-music, por exemplo.

Mas, fora ela - injustamente rotulada como "cria do programa Fama", sobretudo pelo "esquerdista" de alma direitista, professor Eugênio Raggi, que ignorou o fato de que o cantor Thiaguinho, ex-Exaltasamba, é que era "cria" do extinto reality show musical da TV Globo - , não há uma cantora que se destaque além do feijão-com-arroz pós-tropicalista ou do ecletismo vago das demais.

Mesmo Maria Rita Mariano, filha de Elis Regina, e Marisa Monte, ambas de admirável talento, já são veteranas. A primeira, com 35 anos, a segunda, com 45. Já não podem ser consideradas novatas ou revelações da MPB autêntica, com um considerável repertório gravado.

Portanto, é preocupante o futuro da Música Popular Brasileira. As classes pobres praticamente estão desprovidas de um nome musical forte, que não seja um reles dotador de plateia que faça canastrices musicais ou que "faça o dever de aula" nos tributos de MPB. E a classe média universitária já começa a se degradar ao se entregar à breguice mais escancarada, seja através de nomes explícitos como Michel Teló, seja pelas sutilezas performáticas de um Felipe Cordeiro, o do "brega pop cult".

Certas vezes, até parece que vem a luz do fim do túnel, quando a MPB autêntica parece estar ganhando espaços na mídia. Mas, infelizmente, o mercadão da velha mídia reage e despeja breguice em seguida. A intelectualidade fica condescendente, até demais, quando faz sua mais lacrimosa choradeira em favor de Waldick Soriano, de Wando, de José Augusto.

E isso só faz piorar a situação, já que a mediocrização cultural começa a tomar até mesmo os espaços que antes serviam de refúgio para a MPB mais autêntica e de qualidade. Com a MPB autêntica envelhecendo e limitada a tributos e autorreverências, e com o brega-popularesco defendido por uma intelectualidade etnocêntrica e impositiva, a cultura brasileira poderá ver seu rico patrimônio desaparecer, limitado a diluições cada vez piores.

E, através desse processo, o Brasil não conhecerá sua emancipação social. Até porque o "maravilhoso" brega-popularesco, que exalta a mediocrização sócio-cultural sob o rótulo de "expressão da gente simples", só favorece o lado econômico, do lucro fácil, alto e permanente do mercadão musical, mas nada contribui para acrescentar valores e conhecimentos para a sociedade brasileira.
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