sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A CBN E O CORONELISMO ELETRÔNICO



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Luís Nassif faz uma análise sobre o perfil ideológico da CBN, esclarecendo aquilo que o Preserve o Rádio AM já descrevia há dez anos, quando setores mais ingênuos da opinião pública ignoravam a associação da rede radiofônica com a linha ideológica conservadora das Organizações Globo.

A CBN e o coronelismo eletrônico

Por Luis Nassif - Brasilianas.Org

Não se discute o alto nível do radio-jornalismo da CBN. Critica-se sua parcialidade. Mais que isso, os paradoxos entre seu discurso político e sua prática de alianças.

No discurso, seus analistas ignoram completamente as limitações do federalismo brasileiro, a política de alianças – que garante a governabilidade -, a necessidade de pragmatismo político. Dividem o Brasil entre o supostamente país moderno (dos quais eles são porta-vozes) e o Brasil anacrônico, dos Sarneys e companhia. Aliás, é um contraponto salutar, para reduzir o poder de influência dos coronéis.

Mas hoje em dia a principal fonte de poder dos coronéis regionais é a rede Globo e a rede CBN de rádio.



De onde emana o poder político dos coronéis regionais? Em grande parte, do controle da mídia local. E esse poder deriva fundamentalmente da política de alianças com as redes nacionais de rádio e TV. Especialmente das Organizações Globo e da rede CBN.

No âmbito político, o chamado presidencialismo de coalizão é uma amarra fantástica: sem maioria, governos não governam. No caso das redes nacionais de comunicação, a definição dos sócios regionais é uma questão meramente econômica: seleciona-se o parceiro que dê melhor retorno econômico. Como a imprensa regional depende bastante das forças políticas locais, aceita-se o que tem de mais retrógrado por motivação financeira – não por governabilidade.

Ou seja, a Globo e seu braço CBN são polos centrais da força política de coronéis regionais. E, no âmbito nacional, praticam a crítica contra a força... dos coronéis regionais dos quais são associados.

É o que explica a Rede Globo ter como afiliados ACM, na Bahia, Sarney, no Maranhão, os Collor, em Alagoas – entre outros.

Volte-se, agora, ao caso CBN, especificamente a Manaus.

No momento, a CBN Manaus empreende uma campanha terrível contra uma cidadã, uma médica sem vinculações políticas – simpatizante de José Serra nas últimas eleições – que, nos confins do país, tenta exercer uma função cidadã denunciando os esbirros dos coronéis políticos locais.

Ela denunciou ações do prefeito de Manaus e passou a sofrer represálias terríveis, uma perseguição pessoal que afeta sua vida profissional e familiar – é mãe de uma recém-nascida. Indagada sobre a perseguição, a direção nacional da CBN respondeu que ela que se defendesse na Justiça. Mariza Tavares, bela jornalista, endossou a atuação de Ronaldo Tirandentes, representante do coronelismo eletrônico mais truculento e anacrônico.

A partir das pesquisas do nosso Stanley Burburinho, algumas informações sobre o braço da CBN Manaus, o empresário Ronaldo Tiradentes, com fortes ligações com o coronel local Amazonino Mendes.

Tiradentes já foi denunciado por compra do diploma de jornalista. O autor da denúncia é o jornalista Marcos Losekann no livro "O ronco da pororoca: histórias de um repórter na Amazônia". Detalhe: Losekann é correspondente da própria Globo em Londres (clique aqui). Tiradentes já admitiu publicamente a compra do diploma de segunda grau.

Mais: Tiradentes incumbiu a repórter Andréa Vieira da perseguição à médica Bianca Abidaner. A repórter foi nomeada Assessora Técnica da Prefeitura de Manaus pelo próprio Amazonino Mendes. No mesmo dia, Marcos Paz Tiradentes, irmão de Ronaldo, foi nomeado DAS-1 da Secretaria Municipal de LImpeza Pública, pelo mesmo Amazonino.

Aqui os dados sobre a assessora. Aqui o documento de sua nomeação para a assessoria da prefeitura. Aqui, a nomeação de Marcos Paz.

De que lado, afinal, está a CBN? Do suposto país moderno ou do que mais atrasado existe na política nacional?

TV RECORD NÃO É A NOVA TV EXCELSIOR


VINHETA DA TV EXCELSIOR EM 1963.

Por Alexandre Figueiredo

Até hoje, no âmbito cultural, não recuperamos o caminho perdido em 1964. Quando vemos que a intelectualidade de esquerda é submetida, ainda, aos valores da direita cultural, com o paternalismo ao povo pobre prometido por esta, isso significa que até agora muitas feridas deixadas pelo regime militar ainda não foram cicatrizadas.

Pelo contrário, como vemos em nossos textos, vemos parte da direita brasileira se fantasiar de "esquerdista", fazendo falsos ataques à Folha, Globo, FHC e outros ícones da mídia e da política direitistas, e enganando a intelectualidade esquerdista afogada ainda nos seus preconceitos de classe média que só contemplam o rádio portátil da empregada.

Só isso mistura pseudo-esquerdistas e esquerdistas ingênuos, que veem cabelo em ovo e acreditam que a direita não mexeria no tema cultura, que desliza pela mídia como um misto de virgem imaculada e bebê inocente, que transitaria pela Barão de Limeira (sede da Folha de São Paulo) e pela Casa Amarela (sede de Caros Amigos) com a mesma serenidade.

Não é bem assim. A cultura de direita quer empurrar mesmo os seus valores para a intelectualidade de esquerda acreditar, sob o pretexto de que tais valores são "generosos" com o povo pobre, para tentar neutralizar o avanço de políticas de centro-esquerda com a manutenção dos mesmos valores culturais vigentes nos tempos de Geisel, Sarney, Collor e FHC.

A ingenuidade ocorre de tal forma que muitos veem um maniqueísmo grosseiro entre duas principais redes de televisão do Brasil, a Rede Globo e a Rede Record.

Certamente, a Rede Globo seria, de fato, a mídia direitista, conservadora, alinhada com os interesses das classes dominantes e uma das porta-vozes do imperialismo norte-americano (se bem que essa palavra, "imperialismo", tornou-se gasta no jargão esquerdista).

No entanto, a visão ingênua dos esquerdistas mais ingênuos, vários deles realmente iniciantes, embora reconheça corretamente o lado ideológico das Organizações Globo, comete o equívoco de contrapor a ela, de forma grosseiramente generalizada, a Rede Record, tida como "necessariamente esquerdista".

Alguns desses ingênuos, mal saídos das escolas de Comunicação, até tentam, assim que conhecem a história da televisão, criar uma analogia equivocada da Rede Record atual à extinta rede de televisão Excelsior, surgida em 1960 e administrada pelo dono da extinta empresa de aviação Panair, Mário Wallace Simonsen.

Simonsen - não confundir com o banqueiro direitista Mário Henrique Simonsen - era amigo de João Goulart e Leonel Brizola, e era um empresário que, apesar do seu poder econômico expressivo, tinha uma mentalidade centro-esquerdista. O IPES até tentou cooptá-lo, na sua "frente ampla" contra Jango, mas Wallace Simonsen manteve seus princípios e foi fiel a Jango e suas causas até mesmo depois do golpe.

A TV Excelsior, evidentemente, não era, por si só, uma televisão esquerdista. Mas tinha uma programação de qualidade num tempo em que até a direita cultural primava pelo respeito à cultura e ao ser humano. E a TV Excelsior também tornou-se conhecida por ter inovado o telejornalismo brasileiro, ao mesmo tempo interessante, instigante, honesto e digno.

A ditadura militar rompeu com isso, e hoje temos uma televisão que soa debilóide, viciada e desinteressante, apesar de hipnótica e tendenciosa. E a ditadura perseguiu a bem administrada TV Excelsior até estrangulá-la política e financeiramente em 1970.

Pois a Rede Record, que naqueles idos de 1963-1964 não era rigorosamente Rede Record, mas Emissoras Unidas, com parcerias feitas sobretudo com a carioca TV Rio, teve outro dono então, a família Machado de Carvalho que, em parte, passou a controlar também as rádios Panamericana (hoje Jovem Pan 1 e Jovem Pan 2).

Mas, passando por outros controles acionários, a Record, desde 1992, é controlada pelo pastor Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, complexo religioso surgido sob inspiração da Igreja Nova Vida, fundada pelo pastor Robert McAlister em 1960.

Juntando vários contextos diferentes num país hoje em crise de valores sócio-culturais como o Brasil, certamente a Rede Record nem de longe é a nova TV Excelsior, e muito menos Edir Macedo é o novo Mário Wallace Simonsen.

Em que pese a Record ter em seu elenco gente realmente inclinada à mídia esquerdista, como Paulo Henrique Amorim, Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna e Heloísa Villela, eles não refletem necessariamente o perfil da emissora, que na prática é uma grande salada ideológica.

Eles são até uma ilha de integridade e inteligência (embora se critique certas posturas de PHA) mesmo dentro do jornalismo da Record, que não é totalmente ligado às mídias progressistas. E seria muita tolice acharmos que até Gugu Liberato virou esquerdista. Além disso, até agora Rodrigo Faro não nos brindou, e nem está interessado em nos brindar, com uma imitação de Fidel Castro ou de Che Guevara discursando para a população. E já fizeram 50 anos da famosa condecoração de Jânio Quadros ao famoso Che.

O fato do jornalismo da Record não ser totalmente esquerdista e nem representar uma unidade de forças progressistas se explica desta forma:

Primeiro, porque há o tal "jornalismo mundo-cão". Ainda que Wagner Montes seja filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), ele trabalha com um tipo de noticiário grosseiro, vulgar, que nada tem a ver com os movimentos sociais, de fato. E sua origem vem do mesmo O Povo na TV (programa lançado pelo SBT há 30 anos) que o "petebista" de alma demotucana, Roberto Jefferson.

Segundo, porque recentemente entrou na Record o jornalista Heródoto Barbeiro, que, pelo seu passado remoto (ele chegou a ser filiado à ARENA) e recente (visão tecnocrática e jornalismo conservador) direitistas, e pelo rompimento relativo com o demotucanato, tornou-se uma espécie de Gilberto Kassab do telejornalismo, investindo no mesmo padrão abrangente, mas domesticado de telejornalismo da Rede Bandeirantes / Band News.

E, terceiro, porque, falando em Rede Bandeirantes, a quase entrada de José Luiz Datena no telejornalismo da Rede Record quase o faria pseudo-esquerdista, não fosse as posições claramente direitistas que Datena deixou passar e, quando voltou à Band, reafirmou quando era entrevistado pelos membros do programa humorístico CQC, notório pelo direitismo (Marcelo Tas no Instituto Millenium, Rafinha Bastos com posturas machistas).

Agora, algumas posturas fazem com que a Rede Record demonstre estar enquadrada na mesma mídia conservadora de Globo, Band e SBT. Ou mesmo da TV Cultura "tucana". Não bastasse o setor de entretenimento ser bastante popularesco - o portal R7 chega a ser um paraíso astral para a breguice reinante no nosso país - , a Record seguiu a mesma cartilha da Globo na cobetura do 11 de Setembro, da hidrelétrica de Belo Monte e das passeatas contra a corrupção.

Certamente isso é de parte de um jornalismo que não é o dos integrantes do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, mas de outros membros não alinhados com a mídia esquerdista. Afinal, existe uma rotatividade de profissionais da Globo para a Record, da Globo para a Band, ou vice-versa, que não há como realizar uma ruptura ideológica consistente.

Quanto ao dono Edir Macedo, nem precisam maiores comentários. Seu caráter manipulador, como líder religioso, além de corrupto e tendencioso, já tornaram-se famosos.

O que deve valer, na análise de Amorim, Azenha, Vianna e seus parceiros, é aquela máxima que vemos nas fichas técnicas dos veículos de imprensa em geral: "as opiniões que eles transmitem não refletem necessariamente a visão do veículo de comunicação ao qual fazem parte".

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

BREGA-POPULARESCO E "LIBERDADE DE EXPRESSÃO"



Por Alexandre Figueiredo

A liberdade artística não é qualquer nota. A qualidade artística não surge necessariamente nas academias, nos conservatórios, nos seminários de música. Surge da vocação natural dos artistas.

Se a mediocridade de hoje é associada à "cultura" supostamente feita pelas classes populares, ela não se deve à uma suposta visão "positiva" do outro em que a "burrice" é uma "outra inteligência", a "estupidez" é uma "outra sensatez" e a mediocridade é uma "nova genialidade". O senso crítico não permite eufemismos dessa ordem.

O que se atribui como "cultura popular" e que é duramente criticada e reprovada, fazendo com que a intelectualidade etnocêntrica falasse em "preconceito", "moralismo" e "elitismo", é a pseudo-cultura trabalhada pela grande mídia, a mesma mídia que condena os movimentos sociais, que estabelece uma visão conservadora da sociedade.

Ninguém entendeu ainda que existe a diferença entre a cultura popular de verdade e o "popular" midiático-mercadológico que se baseia na domesticação social do povo pobre e que claramente mostra sua qualidade sofrível, seus ídolos submissos, seu mercado milionário controlado por um empresariado que não pode ser confundido de jeito algum com um proletariado emergente.

Também ninguém entendeu, ou talvez não queira admitir, por que a mesma grande mídia que, em nome do reacionarismo antissocial, descumpre a ética e o profissionalismo, trata de forma gentil os mesmos ritmos "populares", até mesmo os "injustiçados" tecnobrega e "funk carioca", que a intelectualidade etnocêntrica pensa, tão boboalegremente, que vão apavorar a grande mídia.

A direita cultural que coopta a ala esquerdista dessa intelectualidade fala em "diversidade cultural" de forma bem análoga ao que a direita política fala em "liberdade de expressão" em relação à mídia dominante.

Fala-se em "polimorfia cultural" como a própria Folha de São Paulo, em suas propagandas recentes - que passaram na televisão e hoje se encontram no YouTube - falava em "diversidade de opiniões". E Pedro Alexandre Sanches, como um fruto que não cai longe da árvore, ainda mantém suas visões folhistas por mais que agora tente se dissociar do periódico paulista.

Porque a "liberdade de expressão" da velha grande mídia, sabemos, é apenas um pretexto para que visões dominantes e reacionárias prevaleçam, supostamente justificadas como se fosse uma "visão pluralista". Daí a obsessão da direitona em se dizer "democrática", "livre" e "imparcial", tudo para camuflar seus interesses de classe.

Na direita cultural, é a mesmíssima coisa. Cria-se um discurso de "diversidade cultural", de "polimorfia", de "pluralidade de culturas", até misturando alhos com bugalhos, juntando as manifestações autênticas do folclore, das tradições artísticas mais recentes, dos grandes artistas contemporâneos, com a mediocridade que rola nas "rádios populares".

Mas isso nem de longe representa uma defesa autêntica da diversidade, antes dissimulasse a "monocultura" brega-popularesca dos anos 90 num pretexto falsamente pluralista. Afinal, a direita cultural (comandada por Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e outros) apenas tenta desviar as atenções que deveriam ser para a verdadeira cultura popular para o mesmo brega-popularesco da grande mídia.

Como a "democracia" da velha grande imprensa, a "diversidade" da cultura de direita visa tão somente evitar que manifestações genuinamente populares floresçam e neutralizem a influência dominante das tendências comerciais impostas pela mídia.

Cria-se até mesmo um elenco de "coitadinhos", de ídolos brega-popularescos que fizeram muito sucesso, mas que, em vez de manifestar seu orgulho pelo sucesso conquistado, ficam ranzinzas reclamando do suposto preconceito que dizem sofrer. Só que eles, no fundo, nada têm de coitadinhos, mas de ingratos e arrogantes que não sabem os limites de seu talento nem do alcance de seu sucesso.

A direita cultural cria um discurso envolvente. Quando a abordagem é cultural, o discurso torna-se mais dócil, atraente, sua confusão nos argumentos chega a parecer verossímil, afinal, para todo efeito, "somos contraditórios". Passa-se a mão na cabeça, de modo paternalista, no povo pobre, coisa que qualquer corrupto em campanha eleitoral faz, e todos, boboalegremente, aplaudem feito focas de circo.

E aí evoca-se manifestações genuinamente culturais para "justificar" as bastardas. Isso dá a impressão falsa de defesa da diversidade cultural, mas o que acontece é o inverso, desvia-se as atenções que se dá à cultura de qualidade, porque a pseudo-cultura "popular" é tida como seu suposto equivalente.

Dessa forma, o povo pobre se sente desestimulado a apreciar a cultura de qualidade, porque falam que a pseudo-cultura é que é "a verdadeira, a moderna, a plural". Da mesma forma que o cidadão é desestimulado a pensar a reforma agrária, a redução das jornadas de trabalho e a manutenção da educação pública porque o "livre-mercado" e a "livre-iniciativa" são "democráticos, plurais e mais eficazes" para nossa sociedade.

Enquanto a intelectualidade não conseguir desmascarar a direita cultural - confundida com esquerdismo pela aparente cordialidade com o povo pobre - , ela mantém-se mascarada feito o Lobo Mau fantasiado de vovozinha.

A verdadeira diversidade cultural nem de longe passa pelo brega-popularesco que lota plateias e vende CDs, mas não traz conhecimentos nem valores sociais sólidos. A verdadeira diversidade cultural não impede o povo de pensar, mas evita o povo de fazer papel de ridículo.

Até agora, o que a mídia e a intelectualidade chamam de "cultura polimórfica das periferias" é nada mais e nada menos do que a pseudo-cultura midiática de uma forma só, que sempre transforma o povo pobre em bobos da corte da velha grande mídia.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

PAULO FREIRE E AS VERDADES ESCONDIDAS



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Este longo ensaio de Venício Artur de Lima apresenta uma relação entre as ideias de Paulo Freire e as atuais questões acerca da mídia brasileiras, baseado nas próprias ideias do educador e pesquisador sobre Comunicação e Educação.

Paulo Freire e as verdades escondidas

Por Venício A. de Lima - Observatório da Imprensa

Trinta anos após sua primeira edição, o que justificaria a republicação de Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire, um livro que explora o pensamento e a prática do educador brasileiro no período anterior à dissolução do chamado socialismo real; anterior às eleições que levaram ao poder vários governos populares na América Latina, na contramão da nossa tradição histórica; anterior à revolução digital que dá origem às imensas transformações tecnológicas nas comunicações? O que a prática e a reflexão posteriores de Freire – produtivo até sua morte em 1997 – acrescentaram sobre comunicação e cultura? O que pensam os pesquisadores, sobretudo os brasileiros, a respeito da contribuição de Freire para os estudos de comunicação?

Os escritos posteriores

Foram poucas as ocasiões, depois de Extensão ou Comunicação? [1969] e Pedagogia do Oprimido [1970], nas quais Freire tratou especificamente o tema da comunicação. Registro duas passagens emblemáticas em que ele faz referencia a formas tecnologicamente mediadas de comunicação, em particular à televisão. A primeira, quando publica, com Sérgio Guimarães, Sobre a Educação, volume 2 [1984]. Vale reproduzir (p. 40):


SÉRGIO: (...) A gente vê que, nos seus vários livros, você não chegou a discutir propriamente as questões [dos meios de comunicação]. Por quê?

FREIRE: Exatamente porque nunca me senti competente, a não ser do ponto de vista de uma apreciação global. Se me perguntas: ‘Paulo, o que é que você acha da televisão?’, eu te respondo: para mim, a televisão não pode ser compreendida em si. Ela não é um instrumento puramente técnico, o uso dela é político. E sou capaz também de fazer algumas propostas com relação ao uso da televisão. Mas, mesmo quando não venho tratando desses chamados meios de comunicação em trabalhos meus anteriores, mesmo quando não falo diretamente sobre eles, eu os considero, por exemplo, dentro do horizonte geral da teoria do conhecimento que venho desenvolvendo nos meus trabalhos sobre educação. Não os trato diretamente, no sentido de que eles não são objeto de um estudo técnico, cientificamente válido. (...) Não me sinto um especialista em torno desse tema. Eu o abordo em linhas gerais.


A segunda aparece em um de seus últimos escritos, Pedagogia da Autonomia [1997], quando trata da necessidade de “desocultar verdades escondidas” na mídia. Diz Freire (pp. 157-158):


Pensar em televisão ou na mídia em geral nos põe o problema da comunicação [de massa], processo impossível de ser neutro. Na verdade, toda comunicação [de massa] é comunicação de algo, feita de certa maneira em favor ou na defesa, sutil ou explícita, de algum ideal contra algo e contra alguém, nem sempre claramente referido. Daí também o papel apurado que joga a ideologia na comunicação [de massa], ocultando verdades, mas também a própria ideologização do processo comunicativo. Seria uma santa ingenuidade esperar de uma emissora de televisão do grupo do poder dominante que, noticiando uma greve de metalúrgicos, dissesse que seu comentário se funda nos interesses patronais. Pelo contrário, seu discurso se esforça para convencer que sua análise da greve leva em consideração os interesses da nação. Não podemos nos pôr diante de um aparelho de televisão “entregues” ou “disponíveis” ao que vier. (...) A postura crítica e desperta nos momentos necessários não pode faltar. (...) Para enfrentar o ardil ideológico de que se acha envolvida a mensagem [do poder dominante] na mídia (...) nossa mente ou nossa curiosidade teria que funcionar epistemologicamente todo o tempo. E isso não é fácil.

O que se observa nas duas citações acima é que, em ambas, Freire remete o leitor (a) para suas reflexões anteriores sobre a teoria do conhecimento e/ou a necessidade de se pensar “epistemologicamente”, vale dizer, considerar a matriz dialogal como referência normativa para o processo de comunicação, seja ela mediada tecnologicamente ou não.

Até o fim de seus dias, portanto, Freire manteve-se fiel à sua formulação original sobre a comunicação como co-participação de sujeitos que se relacionam dialogicamente em torno do objeto que querem conhecer e, ao mesmo tempo, transformam o mundo no contexto da ação cultural libertadora.

É exatamente a formulação original de Freire sobre comunicação e cultura que constitui o objeto de estudo deste livro.

O que pensam os estudiosos brasileiros

No ensaio “A Pesquisa em Comunicação na América Latina”, ao identificar o que chama de “pais fundadores”, Christa Berger menciona levantamento realizado entre 50 pesquisadores, em 1992, que aponta Paulo Freire como uma das cinco principais influências teóricas deste campo de estudo na região. Freire é lembrado por seu ensaio Extensão ou Comunicação?, escrito no Chile, no qual “está contida a crítica principal aos meios de comunicação de massa: de consistirem em meros instrumentos de transmissão, de tratarem os destinatários como receptores passivos e de impossibilitarem relações dialógicas”. Da mesma forma, autores amplamente reconhecidos e com vasta produção no campo, como o belga Armand Mattelart – com experiência histórica no Chile dos anos 60 e 70 do século passado – e o espanhol/colombiano Jesus Martin Barbero, reconhecem a contribuição de Freire na construção de suas perspectivas teóricas (Berger, 2001, pp. 241-277).

Denise Cogo (1999, pp. 29-36), por outro lado, descreve a presença ativa das idéias de Freire em três áreas: os estudos e a prática da comunicação rural; da comunicação alternativa e/ou popular e dos estudos culturais, nas vertentes de pesquisa sobre o receptor ativo e a leitura crítica da mídia.

Considerando que Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire constitui também um exercício de diálogo crítico, mais ou menos explícito, com as então nascentes tradições dos estudos culturais norte-americana e inglesa, personificadas em James W. Carey (1934-2006) e Raymond Williams (1921-1988), merecem registro especial as ponderações de Cogo sobre a importância fundadora de Freire para esta tradição na América Latina. Afirma ela:


(...) A obra de Paulo Freire ajuda a consolidar as bases para o entendimento das inter-relações entre comunicação, educação e cultura, cujos desdobramentos refletem-se, mais tarde, no desenvolvimento de uma vertente denominada de estudos culturais e comunicação. Herdeira dos estudos culturais ingleses, essa vertente encontra sua especificidade no contexto latino-americano a partir do final da década de 80 através de investigadores como o colombiano Jesus Martin-Barbero e os mexicanos (sic) Nestor Garcia Canclini e Guillermo Orozco Goméz, cujas reflexões apontam para a construção de uma trajetória comum: a compreensão da comunicação no marco do processo das culturas em que a compreensão do fenômeno comunicativo não se esgota em conceitos e critérios como canais, meios, códigos, mensagens, informação. O entendimento da comunicação é reorientado a uma revalorização do universo cultural e do cotidiano dos sujeitos como mediadores dos sentidos produzidos no campo da recepção das mensagens difundidas pelos meios massivos de comunicação.


Outro autor que destaca o potencial da obra de Freire para os estudos de comunicação é Eduardo Meditsch. Em instigante artigo publicado em 2008 ele chama a atenção para “o compromisso com a prática. O pensamento de Paulo Freire não era limitado por esta ou aquela escola teórica em que, eventualmente, se apoiava: seu compromisso primeiro era com a vida real, com a realidade humana que procurava compreender para transformar ou, numa palavra, com a prática”.

Tanto Cogo quanto Meditsch, no entanto, lembram não só as leituras reducionistas e o aprisionamento “no jogo dos conceitos praticado no meio acadêmico”, como “a débil apropriação” que se faz da obra freireana nos estudos de comunicação. Meditsch, em diagnóstico impiedoso sobre esse campo de estudos no nosso país, afirma que foi exatamente o primado fundamental da prática que afastou Freire. Afirma ele:


(...) Os “práticos” nunca se deram conta do potencial da teoria freireana para aperfeiçoar as suas práticas, e a grande maioria nem tomou conhecimento de suas idéias, a não ser por orelhas de livro. Por sua vez, os “teóricos” que leram além das orelhas jamais se sentiram compromissados a aplicar as idéias de Freire nas práticas midiáticas, não apenas por ignorarem solenemente estas práticas, mas também por sentirem um profundo desprezo por elas. Para estes, a prática de que falavam Marx e Freire era apenas mais um conceito a enriquecer sua bagagem teórica, ou era uma prática tão idealizada que se recusava a admitir como legítima a realidade com que “os práticos” se relacionavam. Desta forma, as idéias de Freire, quando levadas em conta em nossa área, foram confinadas ao “balé de conceitos” da comunicologia e “domesticadas” pela lógica acadêmica que seu autor sempre condenou. A sua aplicação no desenvolvimento das práticas da comunicação foi abortada em nosso campo (p. 8).


Diante do rigor dessas observações resta destacar qual, de fato, a contribuição das idéias de Freire para os estudos da comunicação e da cultura nos nossos dias.

Qual a contribuição de Freire hoje?

Além dos aspectos já mencionados na “Introdução”, no capítulo IV – “A Importância de Freire para os Estudos de Comunicação” – e outros ao longo de Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire [por exemplo, os pontos de contato com Habermas], a releitura de Freire se justifica hoje pelas seguintes razões:

1. Freire é o principal representante contemporâneo da tradição teórica da comunicação como diálogo. Esta é também a posição de Clifford Christians, um dos mais importantes pesquisadores dessa tradição nos Estados Unidos (cf. Christians, 1988 e 1991).

Ainda em 2001 escrevi:

“...se até recentemente esse modelo parecia inadequado para qualquer tipo de aplicação no contexto da chamada “comunicação de massa”, unidirecional e centralizada, hoje a nova mídia reabre as possibilidades de um processo dialógico mediado pela tecnologia. (...) O modelo normativo construído por Freire ganha atualidade e passa a servir de ideal para a realização plena da comunicação humana em todos os seus níveis” (cf. de Lima, 2001; p. 51).

A tradição da comunicação como diálogo ganha renovada importância e potencializa a possibilidade da interação permanente e on line no ato mesmo da comunicação. Freire teorizou a comunicação interativa antes da revolução digital, vale dizer, antes da internet e de suas redes sociais. Como fez o próprio Freire, devemos nos remeter às suas reflexões sobre a teoria do conhecimento, base do conceito de comunicação como diálogo. Lá encontramos uma referencia normativa revitalizada, criativa e desafiadora que será de imensa valia para pensar as novas tecnologias de comunicação e também pensar a sua regulação.

2. Existe um enorme potencial analítico embutido em alguns conceitos introduzidos por Freire que ainda não foram plenamente explorados. Um exemplo eloqüente é certamente o conceito de “cultura do silêncio”, discutido no capítulo III de Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire.

Freire fala da nossa herança colonial de “mutismo” e mais tarde da “cultura do silêncio” dos oprimidos, impedidos de ter voz, mergulhados na submissão pelo silêncio. Ele recorre a trecho conhecido do Padre Antonio Vieira (1959) em famoso sermão pronunciado na Bahia, ainda na primeira metade do século XVII (1640), que vale reproduzir novamente aqui:

“Bem sabem os que sabem a língua latina, que esta palavra – infans, infante – quer dizer o que não fala. Neste estado estava o menino Batista, quando a Senhora o visitou, e neste permaneceu o Brasil muitos anos, que foi, a meu ver, a maior ocasião de seus males. Como o doente não pode falar, toda a outra conjectura dificulta muito a medicina. (...) O pior acidente que teve o Brasil em sua enfermidade foi o tolher-se-lhe a fala: muitas vezes se quis queixar justamente, muitas vezes quis pedir o remédio de seus males, mas sempre lhe afogou as palavras na garganta, ou o respeito, ou a violência; e se alguma vez chegou algum gemido aos ouvidos de quem o devera remediar, chegaram também as vozes do poder, e venceram os clamores da razão”.

Não seria essa uma forma histórica de censura na medida em que a “cultura do silêncio” nega a boa parte da população sua liberdade fundamental de palavra, de se expressar? E quem seria, neste caso, o censor?

No Brasil colônia, certamente o Estado português e os muitos aliados que se beneficiavam da opressão aos povos nativos e aos escravos africanos. A própria sociedade era também “censora”, na medida em que convivia culturalmente com a exclusão de vários segmentos de qualquer participação civil. Por exemplo, as mulheres.

Nada disso é novidade, mas certamente ajudará, sobretudo aos jovens de uma sociedade onde nascem novas formas interativas de comunicação a compreender a verdadeira dimensão de conceitos como censura e liberdade de expressão. Nessa nova sociedade-rede, uma forma disfarçada de censura é o silencio da grande mídia em relação a determinados temas. Considerando que a grande mídia ainda é a principal mediadora e construtora dos espaços públicos, um tema que for deliberadamente omitido estará sendo sonegado e excluído desse espaço, vale dizer, da possibilidade de fazer parte do conhecimento e do debate público.

A cultura do silêncio freireana equivale, de certa forma, ao conceito de “efeito silenciador do discurso” introduzido pelo jurista norte americano Owen Fiss quando argumenta que, ao contrário do que apregoam os liberais clássicos, o Estado não é um inimigo natural da liberdade (2005, esp. capítulo 1). O Estado pode ser uma fonte de liberdade, por exemplo, quando promove “a robustez do debate público em circunstâncias nas quais poderes fora do Estado estão inibindo o discurso. Ele pode ter que alocar recursos públicos – distribuir megafones – para aqueles cujas vozes não seriam escutadas na praça pública de outra maneira. Ele pode até mesmo ter que silenciar as vozes de alguns para ouvir as vozes dos outros. Algumas vezes não há outra forma” (p. 30).

Fiss usa como exemplo os discursos de incitação ao ódio, à pornografia e os gastos ilimitados nas campanhas eleitorais. As vítimas do ódio têm sua auto-estima destroçada; as mulheres se transformam em objetos sexuais e os “menos prósperos” ficam em desvantagem na arena política. Em todos esses casos, “o efeito silenciador vem do próprio discurso”, isto é, “a agência que ameaça o discurso não é Estado”. Cabe, portanto, ao Estado promover e garantir o debate aberto e integral e assegurar “que o público ouça a todos que deveria”, ou ainda, garanta a democracia exigindo “que o discurso dos poderosos não soterre ou comprometa o discurso dos menos poderosos”.

Especificamente no caso da liberdade de expressão, existem situações em que o “remédio” liberal clássico de mais discurso, em oposição à regulação do Estado, simplesmente não funciona. Aqueles que supostamente poderiam responder ao discurso dominante não têm acesso às formas de fazê-lo (pp. 47-48). O exemplo emblemático dessa última situação é o acesso ao debate público nas sociedades onde ele (ainda) é controlado pelos grandes grupos de mídia.

A liberdade de expressão individual tem como fim assegurar um debate público democrático onde, como diz Fiss, todas as vozes sejam ouvidas. Ao usar como estratégia de oposição política o bordão da ameaça constante de volta à censura e de que a liberdade de expressão corre risco, os grandes grupos de mídia transformam a liberdade de expressão num fim em si mesmo. Ademais, escamoteiam a realidade de que, no Brasil, o debate público não só [ainda] é pautado pela grande mídia como uma imensa maioria da população a ele não tem acesso e é dele historicamente excluída.

Nossa imprensa tardia se desenvolveu nos marcos do de um “liberalismo antidemocrático” no qual as normas e procedimentos relativos a outorgas e renovações de concessões de radiodifusão são responsáveis pela concentração da propriedade nas mãos de tradicionais oligarquias políticas regionais e locais (nunca tivemos qualquer restrição efetiva à propriedade cruzada), e impedem a pluralidade e diversidade nos meios de comunicação.

A interdição do debate verdadeiramente público de questões relativas à democratização das comunicações pelos grupos dominantes de mídia, na prática, funciona como uma censura disfarçada. Este é o “efeito silenciador” que o discurso da grande mídia provoca exatamente em relação à liberdade de expressão que ela simula defender.

3. As idéias de Freire constituem a base teórica para a positivação da comunicação como direito humano fundamental.

A necessidade do desenvolvimento e da positivação de um direito à comunicação foi identificada há mais de 40 anos pelo francês Jean D’Arcy, quando diretor de serviços audiovisuais e de rádio do Departamento de Informações Públicas das Nações Unidas, em 1969. Naquela época ele afirmava:

Virá o tempo em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos terá de abarcar um direito mais amplo que o direito humano à informação, estabelecido pela primeira vez vinte e um anos atrás no Artigo 19. Trata-se do direito do homem de se comunicar (em Fisher, 1984, p. 26).

Onze anos depois, o famoso Relatório MacBride, publicado pela UNESCO (original 1980; 1983, pp. 287-291), reconhecia pioneiramente o direito à comunicação. Diz o Relatório:

Hoje em dia se considera que a comunicação é um aspecto dos direitos humanos. Mas esse direito é cada vez mais concebido como o direito de comunicar, passando-se por cima do direito de receber comunicação ou de ser informado. Acredita-se que a comunicação seja um processo bidirecional, cujos participantes – individuais ou coletivos – mantêm um diálogo democrático e equilibrado. Essa idéia de diálogo, contraposta à de monólogo, é a própria base de muitas das idéias atuais que levam ao reconhecimento de novos direitos humanos. O direito à comunicação constitui um prolongamento lógico do progresso constante em direção à liberdade e à democracia.

Tanto a proposta de D’Arcy como o Relatório MacBride, na verdade, assumiam e consagravam a perspectiva “dialógica” da comunicação que já havia sido elaborada, do ponto de vista conceitual, por Freire no ensaio Extensão ou comunicação?

Freire se diferencia da tradição dialógica dominante ao recorrer à raiz semântica da palavra comunicação e nela incluir a dimensão política da igualdade, da ausência de dominação. A comunicação implica um diálogo entre sujeitos mediados pelo objeto de conhecimento que por sua vez decorre da experiência e do trabalho cotidiano. Ao restringir a comunicação a uma relação entre sujeitos, necessariamente iguais, toda “relação de poder” fica excluída. A comunicação passa a ser, portanto, por definição, dialógica, vale dizer, de “mão dupla”, contemplando, ao mesmo tempo, o direito de informar e ser informado e o direito de acesso aos meios necessários à plena liberdade de expressão. O próprio conhecimento gerado pelo diálogo comunicativo só será verdadeiro e autêntico quando comprometido com a justiça e a transformação social. Essa é a base do direito à comunicação.

Pode-se afirmar também que Freire se filia à corrente do humanismo cívico do neo-republicanismo. A concepção implícita de liberdade na sua definição dialógica de comunicação é constitutiva de uma cidadania ativa que equaciona autogoverno com participação política, contrariamente à liberdade negativa do liberalismo clássico, ainda hoje indissociável da retórica histórica de nossas elites dominantes. Para Freire, inequivocamente, o cidadão constitui o eixo principal da vida pública através da participação ativa e do direito à voz. A liberdade não antecede à política, mas se constrói a partir dela.

Essas são algumas das razões que justificam a republicação de Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire, 30 anos depois, em homenagem aos 90 anos de nascimento de Paulo Freire. [Brasília, Outono de 2011]

* Introdução do livro Comunicação e Cultura: as ideias de Paulo Freire, de Venício A. de Lima, 2ª edição revista, prefácio de Ana Maria Freire, Editora da Universidade de Brasília/Editora Fundação Perseu Abramo, Brasília/São Paulo, 2011; título do OI

Referências

BERGER, C. “A Pesquisa em Comunicação na América Latina” em Holfeldt, A. et alii, Teorias da Comunicação – Conceitos, Escolas e Tendências, Vozes, Petrópolis, 2001.

CHRISTIANS, C. "Dialogic Communication Theory and Cultural Studies." Norman Denzin, ed., Studies in Symbolic Interaction, vol. 9. Greenwich, CN: JAI Press, 1988.

………………… "Paulo Freire's Emancipatory Strategy," Joseph C. Pitt and Elena Lugo, eds., The Technology of Discovery and the Discovery of Technology. Blacksburg, VA: The Society for Philosophy and Technology, 1991.

COGO, D. “Da comunicação rural aos estudos de audiência: influência da obra de Paulo Freire no ensino e na pesquisa em comunicação social” em Rastros – Revista do IELUSC, Joinville, SC, vol. 1, n. 1, 1999.

DE LIMA, V. A. Mídia: Teoria e Política, Perseu Abramo, SP, 2001.

FISS, O. A Ironia da Liberdade de Expressão, Rio, Editora Renovar, 2005.

FISHER, D. O Direito de Comunicar – Expressão, informação e liberdade,. Brasilienese, SP, 1984.

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia, Paz e Terra, SP, 1997.

.................. e GUIMARÃES, S. Sobre a Educação, volume 2, Paz e Terra, Rio,1984.

MEDITSCH, E. Paulo Freire e o estudo da mídia: uma matriz abortada; 2008; disponível aqui, acesso em 31/08/2011.

UNESCO; Um Mundo e Muitas Vozes – Comunicação e Informação na Nossa Época; Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1983.

VIEIRA, S. J., Pe. Antônio. “Sermão da Visitação de Nossa Senhora.” [1640], in Obras Completas de Pe. Antonio Vieira – Sermões, Vol. III, Tomo IX; Lello & Irmão Editores, Porto, Portugal, 1959.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

FOLHA X FALHA: JUIZ DÁ LIÇÃO NOS FRIAS


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: A prepotência da famiglia Frias, da Folha de São Paulo, tem limites. A Justiça, embora não tenha dado vitória definitiva à causa dos irmãos Bocchini, que investiram num blogue parodiando a FSP, acatou apenas o pedido dos Frias para o "congelamento" do domínio "falhadesaopaulo.com.br", mas rejeitou o restante do processo, abrindo caminho para que os Bocchini possibilitem expressar sua sátira contra o jornal.

FolhaXFalha: juiz dá lição nos Frias

Por Rodrigo Vianna - Blogue Escrevinhador

O Escrevinhador “teve acesso” à sentença do juiz da 29 Vara Cível de São Paulo, que julgou (em primeira instância) o importante caso “FalhaxFolha”. Aparentemente, o jogo terminou empatado. Ou seja: o juiz acolheu “parcialmente” o pedido da “Folha”, determinando o “congelamento” do dominio “falhadesãopaulo.com.br”, mas rejeitou todo o resto.


O empate pode ser visto como derrota para os Frias. O juiz deu uma lição do que seja liberdade de expressão. Destaco, especialmente, esse trecho da sentença do juiz, que pode ser visto como vitória dos irmãos Bocchini (Mario e Lino, donos do site “Falha”):

“Descabida, ainda, a imposição, ao réu {irmãos Bocchini – nota do Escrevinhador} do dever genérico e permanente de se abster de utilizar de imagens, logomarcas e excertos do jornal da autora, o que equivaleria a proibi-lo de parodiar o jornal, caracterizando indevida limitação ao direito de livre manifestação do pensamento, criação, expressão e informação previsto nos arts. 5º, IV, e 220, caput, da Constituição Federal. Deve ser rejeitado, também, o pedido de dano moral formulado pela autora. Como vimos acima, tanto o nome de domínio quanto o conteúdo crítico do website do autor podem ser definidos como paródia, a qual, sendo exercício da liberdade de manifestação constitucionalmente garantida, não caracteriza ato ilícito apto a ensejar reparação por dano moral.”

Entrevistei há pouco, por e-mail, Lino Bocchini, um dos proprietários do site “Falha” – que fazia humor e paródia, e que a “Folha” tenta calar e intimidar. Lino afirmou: “acho que a decisão foi, sim, uma bela vitória de todos nós, ou seja, não só minha e do Mário, mas de todos os outros blogueiros e entidades que denunciaram esse abuso do jornal dos Frias.”

Pedi que Lino mandasse um recado singelo aos irmãos Frias. Ele foi educado: “Caros Luis e Otávio, que tal praticar o que pregam em seus editoriais? Cansei de ler na “Folha” que liberdade de expressão é para todos, doa a quem doer. E, vem cá, um autoproclamado “Jornal do Futuro” censurando um blog independente em 2011?? Seus{deles, Frias} funcionários – que nos procuram aos montes – estão morrendo de vergonha. E vocês, estão orgulhosos do processo?”

A seguir, a entrevista, na íntegra…

1) Como avalia o trecho da sentença destacado acima?

É positivo, porque o juiz teve, nesse trecho, um entendimento semelhante ao nosso (de que trata-se de uma questão de liberdade de expressão), em oposição ao que argumenta a Folha, que é um problema de “uso indevido de marca”, o que levaria a questão para um lado puramente comercial, o que não faz sentido, já que nem banner de publicidade nós tínhamos.

2) Por que o juiz mandou “congelar” o dominio “Falha”?

Porque ele entendeu que um link que colocávamos para a “CartaCapital”, em nosso site, poderia configurar um dano comercial à Folha, já que “CartaCapital” e “Folha” seriam concorrentes. Vamos esperar a publicação da decisão para ver os detalhes direitinho e avaliar com nossos advogados como agir agora, já que nosso site segue fora do ar.

3)Já que o juiz não viu problema na paródia, vocês estudam a possibilidade de retomar a paródia da “Folha”, usando pra issso outro domínio/site?

Por enquanto não. A sentença não foi publicada, e cabe recurso tanto do nosso lado como do lado da Folha. E aí, se tiver uma decisão diferente em outra instância, tem a liminar, que nos ameaça com uma multa diária de R$ 1.000… é muito dinheiro para nos arriscarmos…

4) A “Folha” saiu derrotada na tentativa de intimidar quem a critica ou quem a parodia?

Acho que ainda não dá pra afirmar isso de forma tão categórica, mas essa decisão traz avanços a favor da volta do site e da liberdade de expressão geral na internet. Alguns trechos da decisão são bem claros nesse sentido, foram derrubados argumentos centrais do jornal. Por outro lado, o site segue impedido de voltar ao ar.

5) Considerando o poder de fogo da “Folha”, você considera que essa espécie de empate foi uma vitória para você e seu irmão?

Acho que a decisão foi, sim, uma bela vitória de todos nós, ou seja, não só minha e do Mário, mas de todos os outros blogueiros e entidades que denunciaram esse abuso do jornal dos Frias. Não somos ligados a entidade alguma e tivemos que nos virar pra nos defender, mas nunca estivemos sozinhos. Sem dúvida, ajudou bastante a indignação geral de todos e a compreensão coletiva de que a vitória dos argumentos da “Folha” abriria um precedente terrível contra a real liberdade de expressão – e não só pros peixes grandes.

6) Voces pretendem recorrer da decisão?

Temos que esperar a publicação da decisão e falar com nossos advogados, mas nosso desejo é sim de recorrer para o blog voltar ao ar em seu endereço original, o que segue proibido.

7) Está mantida a audiência pública na Câmara sobre o caso “FolhaxFalha”?

Não posso falar em nome dos deputados que votaram pela audiência, mas eu diria que sim, está mantida! Não só o blog segue censurado como a audiência é um momento muito importante pra denunciarmos esse atentado da Folha – o que pode servir de exemplo para que outras empresas não façam o mesmo. Vai ser dia 26 de outubro, 14h30, no Congresso Nacional.

7) O juiz considerou de “certo mau gosto” algumas paródias que vocês fazima no “Falha”. Não seria interessante saber a opinião do juiz sobre a ficha falsa da Dilma na primeira página da “Folha”?

Também achei curioso esse juízo de valor do nosso trabalho em meio a sentença… Mas não me põe em saia justa, hahahahaha. A batalha judicial ainda não terminou…

8) O juiz considerou haver “grande carga de chauvinismo político-partidário” nas paródias do site “Falha”. Você considera que haveria, por acaso, alguma “carga de chauvinismo político” nas manchetes da “Folha”?

Considero, claro, foi isso que motivou a criação do nosso site! Abrimos o site pela revolta diária que sentíamos ao ler o jornal, que afirma o tempo todo ser imparcial, tratar a todos igualmente, etc. Isso não é verdade. E queríamos denunciar essa balela do jornal de forma bem humorada. Mas Otavinho Vader não gostou da brincadeira…

9)Agora, faz de conta que isso aqui é uma rádio do interior – que recado você daria para os irmaos Frias?

Caros Luis e Otávio, que tal praticar o que pregam em seus editoriais? Cansei de ler na “Folha” que liberdade de expressão é para todos, doa a quem doer. E, vem cá, um autoproclamado “Jornal do Futuro” censurando um blog independente em 2011?? Seus (deles, Frias) funcionários –que nos procuram aos montes– estão morrendo de vergonha. E vocês, estão orgulhosos do processo?

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A seguir, outros trechos relevantes da sentença.

“O discurso do réu circunscreve-se nos limites da paródia, estando o conteúdo crítico do website, inclusive a utilização de imagens, logomarcas e excertos do jornal da autora, abrigado pelo direito de livre manifestação do pensamento, criação, expressão e informação, previsto nos arts. 5º, IV, e 220, caput, da Constituição Federal.”

“Nem mesmo um “tolo apressado” seria levado a crer tratar-se de página de qualquer forma vinculada oficialmente ao jornal da autora, pois a paródia, anunciada pelo nome de domínio, é reiterada pelo conteúdo do website.”

“Descabida, ainda, a imposição, ao réu, do dever genérico e permanente de se abster de utilizar de imagens, logomarcas e excertos do jornal da autora, o que equivaleria a proibi-lo de parodiar o jornal, caracterizando indevida limitação ao direito de livre manifestação do pensamento, criação, expressão e informação previsto nos arts. 5º, IV, e 220, caput, da Constituição Federal. Deve ser rejeitado, também, o pedido de dano moral formulado pela autora. Como vimos acima, o tanto o nome de domínio quanto o conteúdo crítico do website do autor podem ser definidos como paródia, a qual, sendo exercício da liberdade de manifestação constitucionalmente garantida, não caracteriza ato ilícito apto a ensejar reparação por dano moral.”

"FUNK CARIOCA" E BURGUESIA NACIONAL


MANIFESTAÇÃO PATROCINADA PELO IBAD-IPES, NUMA RUA EM SÃO PAULO, EM 1964.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade esquerdista no Brasil pode sucumbir a mais uma armadilha. Tomada pela pegadinha dos ideólogos do "funk carioca", os esquerdistas brasileiros acreditam em mais uma utopia sectária, semelhante ao que aconteceu entre 1963 e 1964 e que criou condições para que as esquerdas, enfraquecidas, estivessem mais frágeis ainda depois do golpe de 1964, em que pese toda a intensa reação ocorrida até o fim de 1968.

Naquela época, acreditava-se que a burguesia nacional estava no lado das esquerdas, a pretexto de uma aparente identidade com os interesses nacionais e populares. A crença era que a burguesia nacional, emergente, iria preferir se posicionar ao lado dos movimentos populares, na medida em que trabalhava pela soberania nacional.

Só que essa utopia foi desfeita quando se descobriu que a burguesia nacional estava, em maior parte, associada a dois "institutos" de fachada, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), fundado em 1959 para reagir à moratória que Juscelino Kubitschek fez ao Fundo Monetário Internacional, e seu derivado, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), surgido em 1961 para "fiscalizar" os atos do presidente João Goulart, então na sua fase parlamentarista governada por Tancredo Neves.

A burguesia nacional não só estava associada, em sua maioria, a grupos conservadores, como também estava associada aos representantes de multinacionais e de brasileiros associados, de qualquer forma, aos interesses do Departamento de Estado dos EUA, do Fundo Monetário Internacional e da Central Intelligence Agency (CIA).

E, com essa associação, a burguesia foi para as ruas pedir o golpe e a ditadura, que então eram conhecidos como "Revolução de 1964" e "governo revolucionário". As esquerdas se sentiram isoladas e traídas, e todo aquele sonho de país justo e desenvolvido se dissolveu como um castelo de areia destruído pelas ondas do mar.

A ARMADILHA FUNQUEIRA

E hoje? A grande utopia das esquerdas brasileiras é que o "funk carioca" irá trazer a revolução socialista para o Brasil, nem que seja apenas pelos glúteos das mulheres-frutas que "apavoram" (?!) o machismo com "suas" letras (assinadas por elas, mas provavelmente compostas pelos empresários e DJs que as têm como contratadas).

Mal sabem elas que o "funk carioca" é parte de uma abordagem de "cultura popular" que, na prática, consiste no equivalente atual do antigo IPES dos anos 60. Eu até apelido essa campanha do brega-popularesco de "Instituto Tropicalium", num trocadilho com o Instituto Millenium e as abordagens direito-tropicalistas de Caetano Veloso dos últimos 35 anos.

A utopia se justifica porque a intelectualidade esquerdista, dotada dos preconceitos da classe média alta - que o jargão marxista-leninista define como "pequeno-burgueses" - , acredita que o "funk carioca" está sendo bonzinho com as classes pobres, quando na verdade estas se tornam prisioneiras do entretenimento funqueiro, não podem ir além, não podem desenvolver sua cidadania.

Chega a ser lamentável que os dirigentes e empresários (ou "humildes" DJs) de "funk" tentem desmentir a todo custo que o "funk carioca" está associado ao imperialismo, que serve ao neoliberalismo, que impede o samba carioca de se expressar, que aliena o povo, que destrói os valores sociais etc.

Seus ideólogos ficam preocupados, até neuroticamente, em desmentir fatos e evidências, e nota-se seu nervosismo e arrogância que está por trás do seu discurso melífluo. Mas a intelectualidade aplaude, boboalegremente, qualquer coisa que um ideólogo do "funk" disser de "positivo", sem estabelecer qualquer visão crítica sobre o assunto. Tudo pela "ditabranda" do mau gosto.

Ninguém desconfia da armadilha que o "funk carioca" está armando para as esquerdas brasileiras. Pior: de repente criticar a máquina mercantil do "funk carioca" virou "coisa de direita". O "funk carioca" é um engenhoso e complexo processo de controle e manipulação social das classes pobres mas seu discurso melífluo seduz a quase todos, mesmo educadores e cientistas sociais.

Para piorar, se algum representante do "funk carioca" diz, numa assembleia, que as escolas deveriam substituir os exercícios de redação pelo de "funk", os especialistas de educação aplaudem sem verificar. Já aconteceu isso. Daí para dizer que o "funk carioca" substitui a educação básica, é um pulo.

Ninguém desconfia do jogo duplo feito pelo "funk carioca", que entra na velha grande mídia - sobretudo Rede Globo e Folha de São Paulo - pela porta da frente. Pior: prefere a facção mais frágil da esquerda brasileira acreditar que o "funk carioca" inexiste na velha mídia, enquanto existem provas contundentes do quanto o "pancadão" é música para os ouvidos das famiglias Marinho, Frias e Civita, entre outras.

O "funk" posa de "coitadinho" na mídia esquerdista, mas há muito tempo é o "vitorioso" na velha grande mídia. E, além disso, seus DJs e empresários estão cada dia mais ricos, mais até do que se poder imaginar, embora eles esnobem tal condição, se recusem a se reconhecer como empresários e ainda tentem argumentar que o "funk carioca" continua "pobre de marré de si".

JOGO DUPLO E INCENTIVOS FISCAIS

O jogo duplo do discurso funqueiro tem dois objetivos. Um é atrair incentivos fiscais do Governo Federal, o que faz os chefões e dirigentes do "funk" adotarem o disfarce de "ativismo cultural" para seduzir e enganar as esquerdas. Sobretudo numa época em que o pseudo-esquerdismo virou moda quando parte da direita passou a bajular o bonachão presidente Lula.

Outro é manter a visibilidade nos maiores veículos da grande mídia. Sem medir escrúpulos, o "funk carioca" adere facilmente ao mecanismo poderoso das Organizações Globo e ao pseudo-culturalismo da Folha de São Paulo. E adere com gosto, com tranquilidade, pois não se trata de invasão alguma, e sim do fato indiscutível de que o "funk" entra nos salões da velha grande mídia pelas portas da frente.

Por enquanto, o jogo duplo - que, no lado da esquerda, inclui até uma infeliz comparação com a Primavera de Praga - tenta se manter duplo. Enquanto a Caros Amigos publica uma "reportagem" sobre o programa funqueiro da Rádio Nacional, a fictícia adolescente Solange balança os glúteos no "baile funk" de uma novela da Rede Globo.

Os funqueiros usam as esquerdas como trampolim para se passarem por "ecumênicos" na grande mídia, e para se passarem por "progressistas" diante das autoridades e parlamentares de esquerda. Mas nada de Primavera de Praga, o "funk" mais parece Verão de Davos.

O grande problema para a intelectualidade esquerdista é quando os funqueiros, depois de conseguirem o que querem, vão apunhalar a esquerda pelas costas e oficializar seu casamento com a velha grande mídia e o neoliberalismo. Mas a intelectualidade esquerdista só perceberá isso quando será tarde demais.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ESCLARECIMENTO DOS BLOGUEIROS DE MG



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: É muito difícil ser esquerdista no Brasil. E, em Minas Gerais, é pior ainda. Lá, em certos momentos, mais parece uma torre de Babel. Temos um professor mineiro de direita que se diz "esquerdista convicto". Temos políticos de esquerda que se desentendem mais do que Aécio Neves com José Serra.

E, agora, há um blogueiro acusado de estuprar uma ex-enteada em 2004 que tentou dizer que o evento BlogProgMG (Bloguemus Quae Sera Tamen), ocorrido em junho passado, fazia sectarismo partidário, talvez para desviar a discussão em torno desse blogueiro, chamado Nartagman Wasley.

Mas talvez essas dificuldades possam fortalecer quem realmente é de esquerda em Minas Gerais, ante os desafios que esses transtornos representam.

Esclarecimento dos blogueiros de MG

Enviada por Michael Rosa - Reproduzido do Blog do Miro

Em face da exploração política de um lamentável fato que ocorreu com um dos participantes do Encontros dos Blogueiros Progressistas, a Comissão de organização do BlogProgMG ("Bloguemus") esclarece:

A) O ativista de redes sociais, de nome Nartagman, participou, como indivíduo, dos debates do encontro estadual mineiro de blogueiros progressistas. Evento que teve mais de 150 inscritos.
Os partidos, sindicatos, entidades e movimentos presentes se fizeram representar nas mesas do evento, por militantes credenciados e, em momento algum ele se arvorou representante de qualquer um deles. As mesas de debate, inclusive, foram pautadas pelos temas dos direitos da mulher, da lei "Maria da Penha", do respeito aos direitos humanos e do combate a toda e qualquer violência nas questões de gênero, de homoafetividade, etnico-racial etc.

B) Assim, não seria tolerável sua participação no evento, na condição de - reconhecidamente - apenado, por fato tão repugnante. Aliás, ele nem sequer constou da delegação mineira que compareceu à plenária nacional do II Blog Prog, por ausência de representatividade dentre os participantes.

C) Nesse sentido a comissão de organização do evento regional lamenta, duplamente, o fato: 1) em solidariedade à vítima de algo que ocorrera em 2004; 2) aos demais participantes, que não podem ser responsabilizados pela presença dele no evento.

Apenado e cumprindo a respectiva pena, ele já presta conta ao Estado e à sociedade, perdendo, inclusive, direitos políticos.

Reconhecemos como legítimas as cobranças de esclarecimentos acerca do episódio. Repudiamos, no entanto, a exploração político-partidária do fato. Um ativista de um pequeno partido de esquerda no país viu nesse lamentável episódio uma oportunidade de fazer disputa partidária. Não há blindagem, acobertamento, ou qualquer tipo de leniência com a situação por parte da blogosfera progressista. O recurso à luta partidária, que inclusive transformou um militante mediano em "alto dirigente partidário", só expõe a vítima, e seus familiares, à "curiosidade" na rede e, portanto, a um segundo constrangimento.

Ser blogueiro progressista é cultivar os valores da ética, da indignação co ntra injustiças e violências, de qualquer ordem, venha de onde vier.

Assina: Comissão organizadora do "BlogProgMG (Bloguemus)

domingo, 25 de setembro de 2011

ARTUR XEXÉO E A "CENSURA À IMPRENSA"



Por Alexandre Figueiredo

No artigo de hoje na Revista do Globo - suplemento dominical do jornal O Globo - , o colunista Artur Xexéo, enumerando vários eufemismos no texto intitulado Discursos, disse que o termo "regulação da mídia" era um eufemismo para "censura à imprensa".

Embora o texto pareça correto, esclarecendo a diferença de sentido entre expressões como "corrupção" e "malfeito", Xexéo, como poderia se esperar de quem segue as normas da casa (as Organizações Globo), vai na tradicional associação que a velha grande mídia faz de regulação dos meios de comunicação com "censura".

Evidentemente Xexéo desconhece, ou então repudia mesmo, os princípios de regulação da mídia claramente analisados e definidos por pessoas como Emir Sader, Fábio Konder Comparato e Venício Artur de Lima.

A regulação da mídia é um grande processo transformador da Comunicação Social de nosso país, e, como mexe em privilégios "seculares" dos barões da grande mídia, é visto então sob o pretexto da "censura à imprensa".

Portanto, o que Xexéo não disse é que "censura à imprensa", sim, é que é o eufemismo que os barões midiáticos usam para definir a regulação da mídia que vai contra os seus interesses.

E o que significa mesmo a regulação dos meios de comunicação?

Significa um processo muito complexo, mas por isso mesmo muito rico, de restrição dos abusos e deslizes cometidos constantemente pelos meios de comunicação. Abusos e deslizes que vão contra a ética jornalística, ao desenvolvimento da cidadania ou simplesmente na transmissão honesta e digna de valores sócio-culturais, de informação e de cidadania.

Seria preciso livros para detalhar o processo, mas Venício A. de Lima contribui com livros, palestras e artigos, respaldado por outros teóricos, como os citados Sader e Comparato, além de outros que se empenhem em dar sua contribuição à rica análise do processo de regulação da mídia.

A direita é que tenta impedir o processo, não apenas a direitona explícita da velha grande mídia como mesmo os "dissidentes" que romperam formalmente com esta mídia, mas não com seus princípios e ideais.

Pois sabemos que a mídia peca sobretudo pelo jornalismo mal-humorado e medíocre de gente como Otávio Frias Filho, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede e mesmo o "imortal" Merval Pereira. Um jornalismo que mais parece agir contra o cidadão, com pontos de vista cada vez mais identificados com o capitalismo privatista e excludente.

Mas existe o outro lado, das baixarias do entretenimento, das grosserias feitas em nome dos interesses financeiros. Esses valores, defendidos por uma direita cultural que se camufla na mídia esquerdista e aparece até nas festas de dez anos da revista Fórum, também estão em xeque diante da necessidade de uma verdadeira regulação na mídia.

A centro-direita cultural, querendo diferir seu discurso ao de "calunistas" e "urubólogas", apenas finge que defende a regulação da grande mídia. Com justificativas caricatas de tão previsíveis - a impressão que se tem é que eles "repudiam" a grande mídia só para agradar - , eles sonham que a regulação da grande mídia converta nossos meios de comunicação numa mídia esquizofrênica que só expurgue comentaristas políticos mal-humorados e apenas o extremo das abordagens reacionárias.

Mas a centro-direita cultural nem de longe quer que a verdadeira cidadania brilhe nos meios de comunicação. Está imersa nas moitas diversas do fisiologismo partidário ou em outros pretextos, como o simples fato da esposa e os vizinhos de um centro-direitista serem identificados com a esquerda.

O direitismo cultural camuflado nas esquerdas quer uma mídia esquizofrênica porque sua intelectualidade, sendo de classe média alta, está empenhada com o domínio paternalista das classes populares, impedindo-as de se emanciparem através da distração vulgar do entretenimento popularesco.

Por isso quer apenas o expurgo de jornalistas mal-humorados e de comediantes ranzinzas. Mas sonha, por exemplo, com um jornalismo esquizofrênico que misturasse notícias educativas com notícias "mundo cão", que misturasse cidadania com baixaria, que misturasse movimentos sociais autênticos com frivolidades brega-popularescas.

Mas a regulação da mídia não tem por propósito juntar notícias de projetos em prol da educação pública com outras sobre "bailes funk". Também não tem por propósito juntar fofocas de famosos (ou mesmo de nulidades "famosas" como os ex-BBB) a outras que falam de cidadania e qualidade de vida.

Até porque, em determinado caminho, os valores da vulgaridade popularesca entrarão sempre em choque com outros que se relacionam à cidadania, à qualidade de vida e aos valores sócio-culturais edificantes. É bom deixar o politicamente correto de lado e parar de cobrir o lixo cultural com o verniz da "liberdade de expressão".

Por isso, a regulação da mídia ameaça não só "calunistas", mas bregas e neo-bregas em geral. E não ameaça só as "urubólogas", mas também popozudas e paniquetes. A defesa da verdadeira cidadania não deve se limitar à suposta superioridade intelectual das classes médias abastadas, que veem as periferias pelo binóculo eletrônico da televisão.

O entretenimento brega-popularesco também está relacionado com os interesses financeiros que ignoram princípios de cidadania e qualidade de vida. Ignoram identidades sócio-culturais, valores morais, interesses públicos, tudo em nome do dinheiro.

E seus ideólogos da cultura de direita, num discurso envolvente, acham que esse mercantilismo "cultural" é "saudável", usando argumentações confusamente "pós-modernas" que seduzem boa parte da intelectualidade de esquerda pelo seu caráter "cientificamente" sentimentalóide.

A defesa da cidadania vai muito longe. E a regulação da mídia representa liberdade, sim, mas a verdadeira liberdade requer responsabilidades sociais, para que os abusos de uns não entrem em choque com os direitos sociais de outros.

A VELHA GRANDE MÍDIA REPRESENTADA NA VELHA ABL



Por Alexandre Figueiredo

A velha grande imprensa brasileira é tão suja, tão suja, o seu lodo é tanto que vemos Pedro Alexandre Sanches trazer em suas botas a sujeira do jornalismo cultural de esgoto da Folha de São Paulo nas páginas de Caros Amigos e Fórum. Ah, sei, já estamos falando demais do cara. Tudo bem, mas quem mais fala da maneira crítica que falamos?

Pois a semana terminou com a posse do "imortal" (?!) Merval Pereira, na cadeira deixada pelo finado Moacir Scliar - escritor e médico que não conseguiu viver para descobrir a ainda não descoberta cura para o jornalixo brazuca - na Academia Brasileira de Letras.

A ABL já não era grande coisa faz tempo. A Academia fundada por nomes de admirável lembrança como Machado de Assis e Joaquim Nabuco havia sucumbido à defesa dos poderosos de plantão desde o regime militar, e também a cada ano se rendia à mediocridade intelectual por puro sensacionalismo modernoso.

Há até a famosa piada de que os acadêmicos da ABL só se reuniam para tomar chá. Pode parecer até exagero isso, mas mostra o quanto está a reputação dos intelectuais brasileiros que atuam na casa.

Exemplo da mediocridade é o calunista das Organizações Globo, Merval Pereira, que como Diogo Mainardi é amigo íntimo das autoridades estadunidenses. A escolha de Merval para substituir Moacir Scliar foi tratada pela ABL pelo pretexto de "expressar a riqueza da sociedade brasileira" e para "abrir o espaço para os jornalistas".

Tudo bem, abrir-se-á espaço para jornalistas na Academia. Mas tinha que ser uma figura como Merval? E que "riqueza social brasileira" ele representa? Nenhuma, evidentemente.

Merval nunca escreveu um livro de relevância, apenas lançou duas coletâneas de artigos, dotados do mais medíocre, pedante e reacionário jornalismo, que nem de longe justificariam tamanha responsabilidade de representar a ABL para os brasileiros.

Mas isso faz sentido num país em que se torna famoso por nada. Recentemente, um estudante virou "celebridade" só porque recebeu um beijinho no rosto da cantora estadunidense Katy Perry. Mas isso é pouco diante de tantas aberrações tidas como "geniais" e "revolucionárias".

Um país onde as inexpressivas ex-BBBs têm nome, sobrenome e vários sítios na Internet, uma atriz de comerciais que fez a "Rosa" do comercial da Ford e até hoje aparece em muitos comerciais, simplesmente não tem seu nome divulgado em lugar algum.

E faz sentido eleger Merval para a ABL se os ídolos bregas e neo-bregas, os mesmos que detém o poder em quase todo o mercado de cultura brasileira existente, por uma postura de falsos coitadinhos, garantem de bandeja o título de "cultura das periferias", "polimorfia cultural" ou, no caso da música, abocanham o status de MPB como quem obtinha, há dois séculos, um título de nobreza de uma monarquia.

Merval não escreveu livros e nem lançou obras de envergadura. Mas está na ABL. Mas é o Brasil em que "os maiores criadores da MPB" não são mais que os mesmos ídolos da axé-music, do "pagode romântico" e do "sertanejo" que, depois de uns pálidos sucessos radiofônicos, só ficam lançando CDs e DVDs ao vivo, a qualquer pretexto - desde uma apresentação "histórica" no Rio de Janeiro até uma simples efeméride de carreira - , com os mesmos sucessos e os mesmos covers de MPB escolhidos por puro oportunismo.

É o Brasil medíocre que elege o medíocre "funk carioca" como "movimento cultural", enquanto o ritmo ultimamente se limita a produzir meros clones de "Eguinha Pocotó", um deles simplesmente dizendo "ela quer pau", cujo nível de baixaria somos "aconselhados" a ignorar por uma intelectualidade que diz adorar o Emir Sader, mas, na hora do aperto, prefere mesmo o Ali Kamel.

A direita cultural é uma só. A que é abertamente reacionária e condena explicitamente os movimentos sociais, além de descumprir a ética jornalística, e a que aparentemente rompe com o status quo midiático, mas está carregado dos mesmos preconceitos e tabus, agora dissimulados por uma falsa generosidade com as classes populares.

Não faz diferença alguma a ABL eleger Merval Pereira como "imortal da Academia" e a intelectualidade etnocêntrica endeusar Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches por suas teses paternalistas sobre cultura brasileira que mais favorecem o mercado do que a cultura em si.

Aliás, até prejudicam, porque ao elegerem o "popular de mercado" do brega-popularesco como "de reconhecido valor artístico", esses intelectuais impedem, ou ao menos dificultam, o acesso do grande público às manifestações culturais de verdade.

Essa é a velha grande mídia. Um grande navio pirata que afunda, enquanto parte dos corsários migra para o navio inimigo próximo. Tudo isso para garantir a continuidade da mesmice sócio-cultural que, desprezando ou bajulando as periferias, não faz senão beneficiar e reafirmar o império dos barões da mídia e do entretenimento que travam o progresso de nosso país.

sábado, 24 de setembro de 2011

"POLIMORFIA CULTURAL" OU GOROROBA?


A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA IMAGINA QUE O JOIO E O TRIGO SÃO IGUAIS E INSEPARÁVEIS.

Por Alexandre Figueiredo

Pela primeira vez da vida, Pedro Alexandre Sanches admitiu aos leitores de Caros Amigos, na edição do corrente mês, que trabalhou na Folha de São Paulo. De acordo com o que ele escreveu, ele "boboalegremente" trabalhava num jornal que depois se transformou numa "cracolândia".

No entanto, isso parece insuficiente para que um jornalista que mantém a mesma visão mercantilista sobre "cultura" da FSP esclarecer sua aparente guinada. Até porque Pedro Alexandre Sanches é tão "anti-Folha" quanto a Folha de São Paulo é "anti-Rede Globo", ou tão anti-FHC quando Gilberto Kassab.

Nos dois artigos que ele escreveu, um para Caros Amigos, outro para a edição comemorativa dos dez anos da revista Fórum, ele tenta reafirmar a defesa do brega-popularesco sob o pretexto da "polimorfia cultural".

Junta-se a "cultura de mercado" com a cultura de verdade, dentro de uma perspectiva que, sabemos, é herdada de uma fusão entre o deslumbramento da indústria cultural pós-Tropicalismo e uma concepção neoliberal da sociologia e da antropologia sócio-cultural da ala pré-tucana da USP.

E, sob o pretexto da suposta reafirmação da diversidade cultural, o que se defende não é, de fato, a riqueza polimórfica de nossa cultura, mas a inclusão de tendências de valor artístico-cultural bastante duvidosos no elenco das várias tendências da cultura popular de nossa história.

"SOMOS CONTRADITÓRIOS"

Vamos entender o que Pedro Sanches tentou dizer em seu artigo em Caros Amigos, "A Bahia plural é filha da axé-music", um artigo cheio de inverdades e equívocos.

Um desses equívocos se baseia na atual tendência da centro-direita cultural e os intelectuais de esquerda a ela cooptados, que é de superestimar a contradição humana. Que é de defender valores direitistas associados a uma concepção da "cultura popular" enquanto, na agenda política, se defende visões esquerdistas até quando o assunto é o Oriente Médio.

Partindo desse enfoque, Sanches definiu a "música popular" dos anos 90 como "mercadológica", tentando "admitir" que houve até "monoculturas" nesse tempo. Ele citou como exemplo a axé-music, "admitindo" também que ela teve uma fase "monocultural e autoritária" nos tempos de Antônio Carlos Magalhães e Fernando Henrique Cardoso (este um mestre renegado da visão intelectual de Sanches).

Ele lança a tese de que os anos 90 eram mercadológicos, mas criaram condições para o que ele entende como as "vanguardas culturais" dos dias de hoje. Mal comparando, é como se, na economia, creditássemos a democracia pluralista de hoje ao neoliberalismo que, no Brasil, tornou-se representado por Fernando Henrique Cardoso, que, repetimos, continua sendo o grão-mestre das pregações de Sanches.

Mas enquanto ele tenta lançar a tese de que os anos 90, "contraditoriamente mercadológicos", deram origem à "polimorfia cultural" dos dias atuais, ele tenta defender a axé-music creditando esse nome aos artistas baianos de qualidade que não encontram espaço no mercado.

Pela minha experiência vivendo em Salvador, essa ala da música baiana - Mariene de Castro, Rebecca da Matta, Lazzo, Bule-Bule, Edil Pacheco, Roque Ferreira, entre outros - espaço mesmo, no rádio, na Rádio Educadora FM, um oásis de cultura diante da indigência podre das FMs "carlistas" e "pós-carlistas" de barões midiáticos locais.

Equivocadamente, Pedro Alexandre Sanches define esse pessoal como "axé-music", quando desconhece que o termo foi designado pejorativamente pelo jornalista local Hagamenon Brito e, depois, foi apopriado mercadologicamente pelo pop-brega carnavalesco dos poderosíssimos, milionários e careiros blocos de trios.

Portanto, a axé-music se refere a nomes comerciais como Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Chiclete Com Banana, Asa de Águia ou até o Leva Nóiz - que leva às últimas consequências a natural tolice da axé-music, com aquela música sobre Super Homem e Mulher Maravilha - , podendo também ser assim chamada os derivados vindos do pagodão (É O Tchan, Harmonia do Samba, Terra Samba, Psirico e Parangolé) ou do arrocha (Nara Costa, Silvano Sales, Brazilian Boys).

Não pode ser chamada de axé-music uma parte da música baiana que, apesar de sua qualidade artística, não tem espaço na mídia. Até porque são artistas que não costumam compactuar com o comercialismo para turista ver dos megalomaníacos ídolos baianos, que até pouco tempo atrás se esqueceram que eram acima de tudo baianos e imaginavam ser donos do mundo e da MPB.

Chamar, por exemplo, Jussara Silveira, Lazzo e Mariene de Castro de "axé-music" seria o mesmo que dar o mesmo peso do jornalismo autêntico ao jornalixo de Veja e quejandos. Nada a ver uma coisa com outra.

"PRIMAVERA DE PRAGA"? AONDE?

Em certas passagens do texto, Pedro Sanches ainda trata como "injustiçados" não só a axé-music quanto o "pagode romântico" (que ele chama apenas de "pagode") e o "sertanejo". E também faz sua defesa ao "funk carioca", estilo que andou carregando na sua campanha tendenciosa e demagógica na mídia de esquerda, que os funqueiros, no fundo, a usam como mero trampolim para a grande mídia.

Aliás, essa é também a tônica do texto que Pedro Alex Sanches escreveu em Fórum. Ele credita o brega-popularesco - dentro de uma "polimorfia" (ou gororoba?) que mistura alhos com bugalhos, joio com trigo e música de valor duvidoso com música de qualidade - a uma suposta "Primavera de Praga" da cultura brasileira, talvez até para forçar a barra do pseudo-esquerdismo do colunista.

Usa-se a cultura de qualidade como escudo para a pseudo-cultura trabalhada pela velha mídia. Diante da competitividade existente no comercialismo do brega-popularesco, quando um modismo não consegue sustentar por muito tempo todos os ídolos que aparecem no rádio, aqueles que saíram do mainstream viram os "coitadinhos" da vez e a intelectualidade tão orgulhosamente "contraditória", com toda a sua relação de amor (prática) e ódio (teoria) com o neoliberalismo cultural, adora promover essa gente supostamente discriminada.

Mas é o mesmo pessoal que só depois de tantos anos de carreira se convence que fazer MPB teria sido bem melhor do que aqueles neo-bregas risíveis que fizeram antes. Ídolos do "pagode romântico", do "sertanejo" e da axé-music, que tanto expulsaram a MPB das rádios populares, que tanto ignoraram se artistas brasileiros de valor tinham ou não algum espaço na mídia, hoje recorrem a eles para não sucumbirem ao natural desgaste.

A "polimorfia" acaba sendo uma desculpa para usar nomes que variam do falecido Itamar Assumpção a nomes como Mariene de Castro e Zezé Motta para manter o mesmo cardápio indigesto das Nativa FM, Band FM, Transcontinental FM, Bahia FM, Beat 98 e a paraense Liberal FM, que movimentam o mercadão que enriquece os barões da mídia ou do entretenimento.

Que "Primavera de Praga" é essa comandada pelas rádios FM e pela TV aberta, só porque seus "valores" são consumidos pacífica e passivamente - e, sobretudo, boboalegremente - pelas classes pobres? Que "rebelião popular" é essa comandada por executivos de TV e rádio, por mega-chefões do mercado e do entretenimento, com o patrocínio claro de multinacionais, de mega-redes de atacado e varejo e até mesmo do latifúndio?

SEM EFEITO

Defender a música brasileira de qualidade para justificar a "outra música brasileira" que, a olhos vistos e ouvidos apurados, possui valor artístico-cultural bastante duvidoso e é marcado pelo tendenciosismo, não surte efeito naqueles que seriam seus maiores interessados, as classes populares ou mesmo a classe média baixa.

Seus indivíduos estão alheios a esse debate cultural e só tem aquelas rádios "populares" e a TV aberta, além das revistas fofoqueiras e da imprensa policialesca para definir a agenda setting de suas vidas. E pouco importa se, além dos bregas e neo-bregas que ouvem no rádio e veem na TV aberta, existem artistas populares mais consistentes, que não medem a evolução artística às pressões da crítica e do mercado.

Para a intelectualidade, é muito fácil juntar bregas e neo-bregas à MPB de qualidade. Os críticos musicais pesquisam discos e conhecem até títulos raros de artistas obscuros. Os sociólogos e antropólogos estudam o passado, conhecem até as expressões folclóricas hoje quase desaparecidas. Os historiadores garimpam até o passado oculto do nosso povo. Aí fica fácil juntar Waldick Soriano e Wilson Simonal, Psirico e Jackson do Pandeiro, Banda Calypso e Mutantes. "Gororobizar" é a regra, sob o pretexto da "polimorfia".

Mas o povo pobre continuará na sua indigência, no consumo do mesmo "lixo cultural" que apenas ganhou o verniz de luxo do apoio da intelectualidade influente. Será até pior, porque o povo pobre será desestimulado a apreciar a cultura de qualidade, confinada nos porões sacerdotais da intelectualidade etnocêntrica.

Afinal, para que conhecer a cultura de qualidade, se aquele crítico ou cientista social falaram maravilhas dos sucessinhos popularescos do rádio FM? Se o lixo cultural é visto pela intelectualidade influente como se fosse "luxo", o povo pobre não será estimulado a conhecer coisas melhores.

Pelo contrário, o povo pobre permanecerá, passivo e conformado, com a eterna mesmice dos repertórios radiofônicos da mídia "popular" que é tanto "mídia velha" quanto a "cracolândia" midiática da Folha de São Paulo e Veja.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

BREGA-POPULARESCO SEMPRE MENOSPREZOU A MPB



Por Alexandre Figueiredo

A música brega-popularesca, hoje em dia, clama desesperadamente de que é parte da diversidade cultural brasileira. Mas essa diversidade foi durante muito tempo menosprezada, ignorada e discriminada por ídolos bregas e neo-bregas que, quando eram os reis da mídia do entretenimento, pouco importaram se a MPB perdia ou não seus espaços.

Nos anos 90, época em que a música brega e seus derivados experimentaram uma hegemonia antes inesperada em todo o país, tudo parecia na "santa paz" do poder midiático.

Num lado, as classes pobres ficavam restritas ao consumo dos sucessos popularescos das rádios FM e da TV aberta, e, no outro, as classes abastadas se apropriavam de todo o patrimônio cultural brasileiro, até mesmo das tendências que, antes de 1964, eram feitas quase que exclusivamente pelas classes pobres.

Só que, com o advento da Internet, com sua capacidade de ampliar o alcance e a abrangência de novas informações, o público comum passou a ter sede de informações e aquela mesmice brega-popularesca dos anos 90 começou a ser questionada, até mesmo de forma bem mais austera.

A classe média não pode mais ter exclusividade no gosto musical de qualidade e as classes pobres começam a ver que existem coisas mais interessantes do que o engodo radiofônico que há muito consumiram.

Os ídolos popularescos até tentaram tapear. Passaram a gravar mais covers de MPB, passaram a fazer dueto com medalhões da Música Popular Brasileira, e a participar de tributos culturais produzidos pela grande mídia.

Mas as críticas tornavam-se ácidas e o mercado brega-popularesco teve por (seu) bem financiar toda uma campanha intelectual, presente em documentários, artigos, monografias, sempre comentando chorosamente da "discriminação" que os "ídolos populares" (bregas e neo-bregas) passaram a sofrer no final dos anos 90.

A campanha, tão conhecida, produziu uma "panelinha" de intelectuais, uns vindos da direita midiática, outros de setores menos firmes das esquerdas, que consistem hoje numa direita cultural que começa a se assustar com o questionamento não só à música que ela defende, mas agora estendidos à própria intelectualidade.

Nos últimos dez anos, a "monocultura" de brega "de raiz", axé-music, breganejo, sambrega, forró-brega, "funk" e similares passaram a ser promovidas como se fosse a "moderna diversidade brasileira".

A princípio, rejeitava-se a MPB autêntica como se ela fosse "música de ricaço", e mesmo nomes originários das classes pobres, como Cartola, Pixinguinha e João do Vale eram tratados jocosamente como "eruditos". Criou-se um preconceito implícito de que pobre quando faz boa música vira "burguês".

Mas agora, com o pavor cada vez maior de desgaste do brega-popularesco, que se assusta por não ter conseguido a hegemonia absoluta, a intelectualidade agora tenta justificar essa categoria "cultural" apelando para nomes esquecidos da verdadeira cultura brasileira.

Em outras palavras, eles tornam cada vez mais engenhoso e sofisticado seu discurso sobre a pretensa "diversidade cultural" do brega-popularesco. Tudo para justificar a sua hegemonia que fez banir a MPB do livre acesso às classes pobres e depois quis fazer a MPB autêntica ser esquecida até mesmo pelas classes médias.

Mas agora, como não dá para jogar a MPB autêntica no limbo - fala-se da MPB autêntica a música das classes populares feita até 1964 e seus derivados posteriores, além da MPB universitária dos anos 60 e 70 - , usa-a para justificar o brega-popularesco de todas as formas.

Isso torna-se uma manobra sutil e aparentemente generosa, devido à memória curta que envolve tanto o Brasil. Esquecemos que os ídolos do brega-popularesco que agora são citados, em artigos tendenciosos, ao lado de "malditos" da MPB que nem mesmo a MPB FM consegue se lembrar, sempre menosprezaram a música de qualidade que agora é usada para justificar a "revolução" (?!) cultural dos anos 90.

Tudo isso é feito para tentar desviar a atenção dos internautas quanto ao "lado B" da música brasileira realmente discriminado pela fúria mercadológica da mídia. Do mesmo modo, mantém-se o vínculo do público pobre com a mesmice radiofônica dos sucessos popularescos, agora promovidos a "cultura das periferias" pela intelectualidade festejada.

E todo um discurso demagógico é feito, beneficiado pela riqueza da retórica, que, como uma massa de modelar, assume várias formas, várias máscaras. Usa-se pretextos esquerdistas para justificar o neoliberalismo.

Diz-se que a velha indústria cultural morreu, enquanto ela ressuscita nos mesmos ídolos exaltados por antropólogos, historiadores, sociólogos e críticos musicais. O mercado "morre" no enunciado, mas renasce nos fundamentos nem sempre admitidos no discurso, mas reafirmados na prática.

Dessa forma, cria-se uma "revolução cultural" que não existe. Usa-se a MPB autêntica mais obscura e underground para "justificar" o brega-popularesco. Recorre-se à MPB "maldita" como alguém que só se lembra de visitar um doente quando este se encontra em estado terminal.

Se escreve sobre axé-music, usa-se nomes como Bule-Bule, Diana Pequeno, Mariene de Castro e Lazzo para "justificar" mediocridades como Parangolé e Psirico, para não dizer o É O Tchan. Se escreve sobre "sertanejo", usa-se o Clube da Esquina, Renato Teixeira, o maestro João Carlos Martins e, talvez na próxima estação, até Jacob do Bandolim será usado.

No caso do "funk carioca", cita-se até mesmo Jackson do Pandeiro, usa-se o maxixe, usa-se até mesmo o Tropicalismo, a Semana de 1922, para "justificar" o fenômeno neo-brega.

Essa retórica desesperada, feita pela direita cultural que teme não ter mais influência nas esquerdas, mostra o quanto o tendenciosismo acontece para que velhas mentalidades se reciclem através de posturas aparentemente novas. Mudam-se os anéis, para perservarem-se os dedos.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

FUTEBOL, O SUPRA-SUMO DO 'SHOWRNALISMO'


O ATOR CARMO DALLA VECCHIA - Um dos poucos que assumem que não gostam de futebol.

Por Alexandre Figueiredo

O futebol brasileiro há muito não está nos tempos áureos. Há pelo menos 20 anos, a Seleção Brasileira de Futebol nem de longe pode ser considerada confiável e sua trajetória é marcada pelas jogadas inseguras e por jogadores que estão mais para celebridades esbanjando luxo do que esportistas de dotes atléticos admiráveis.

Mas o "Brasil" ganhou duas copas do mundo, nesse ínterim todo. E "possui" vários "craques" que se destacaram na mídia, dirão várias pessoas. E daí?

As duas copas do mundo foram medíocres, como também vários concursos de miss marcados pelo visual das candidatas alterado pelas plásticas. Como a música brasileira dita "popular", aquela que rola nas rádios "populares" da vida, também é medíocre.

Só a Copa da Coréia do Sul e Japão, realizada em 2002, foi tão postiça e fajuta que, se é para se comparar campeonatos de futebol com batalhas, nada como comparar com a Guerra do Golfo de 1991. Se esta não passou de um videojogo político de George Bush, o pai, o campeonato de 2002 não foi mais do que um videojogo de Ricardo Teixeira.

E, por incrível que pareça, a seleção brasileira saiu-se como vilã em 2002, com jogadas repetitivas que, das eliminatórias de 2001 até a final de 2002, pareciam ter tido um roteiro premeditado, de tão iguais e pouco empolgantes estavam os jogos.

Só o hipnotismo da Rede Globo para fazer o "espetáculo" sem sal da copa de 2002 parecer tão emocionante quanto a novidade da vitória do futebol brasileiro na copa de 1958. Cria-se uma ficção midiática em torno do futebol, que faz com que partidas medíocres, dependendo do caso, pareçam "geniais".

Se a mediocridade eleitoral de Fernando Collor foi editada "magistralmente" para dar a impressão de que o então candidato de 1989 era um "potencial estadista", edita-se também o futebol medíocre, com recursos como a câmera lenta, que "dramatizam" a corrida de determinado jogador para o gol adversário.

Põe-se um fundo musical de música erudita, dessas bem dramáticas, criando uma tensão no espectador que vê a "reportagem" sobre o joguinho ocorrido na véspera. A edição de imagens logo vai para a arquibancada, mostrando caras aflitas dos torcedores, numa edição "lenta" que desperte suspense no espectador.

Tudo isso para promover o fanatismo esportivo que não obstante corrompe as torcidas do país e mergulha muitos cidadãos num alcoolismo tão viciado que, independente de vitórias ou derrotas, os organismos se danificam ano a ano com os fígados humanos massacrados semanalmente pela overdose de cervejas, cachaças e outras biritas.

O fanatismo esportivo também é marcado por outra overdose, a da mídia. Nem vamos dizer muito do quanto de excelentes programações musicais de FM são dizimadas para dar lugar a "Aemões de FM" dotados de jornadas esportivas pedantes, antiquadas e mofadas e transmissões esportivas com som de fita cassete velha, cujo único som de FM está no chiado, da transmissão e dos ouvintes.

Mas sabe-se que tais FMs, supra-sumo da mídia velha, disfarçam sua merecida baixa audiência com poluições sonoras "espontaneamente" realizadas por bares, táxis, portarias de edifícios, estabelecimentos comerciais e, se deixarem, até UTIs de hospitais, que dão a falsa impressão para os transeuntes de que a audiência das mesmas é "enorme".

O showrnalismo esportivo contagia toda a mídia. Rádios em geral, TVs, jornais, revistas, Internet. O jornalismo esportivo é o paraíso astral do showrnalismo. Só quem ignorava isso eram os antigos "líderes de opinião", os proto-blogueiros que nada diziam e só enfeitavam suas páginas "jornalísticas" com fotos de prefeitos, sindicalistas, paralamentares.

Só nesses jornalistas com muito nome pouco conteúdo é que desconhecem que o supra-sumo do showrnalismo está no setor esportivo, que para eles é apenas a saudável doutrina da "emoção", palavra que é usada como um eufemismo para o fanatismo esportivo trabalhado pela grande mídia.

O Globo Esporte e o Esporte Espetacular, da Rede Globo, são os maiores exemplos disso. E todo o espaço do jornalismo esportivo dos veículos das Organizações Globo que veem de carona. E nem é preciso fazer uma análise longa sobre o astro maior das transmissões "globais", o locutor Galvão Bueno.

Mais do que seu maior orador, Galvão é quase que um tirano, chegando a "ordenar" os jogadores que vão direto ao gol adversário para realizar o intento. "No gol, (nome do jogador), no gol, no gol, no gol, ééééé... do Brasil!", narra, autoritária e hipnoticamente, o conhecido narrador.

Até mesmo o então âncora da CBN, Heródoto Barbeiro - espécie de Gilberto Kassab do PiG - , deu suas "pérolas", como classificar a péssima atuação da seleção brasileira de futebol em 2002 como "fantástica".

E quem não gosta de futebol costuma ser constrangido, até mesmo pela mídia, pela atitude vista como "anti-social". Atores de TV como Daniel Del Sarto e Carmo Dalla Vecchia, por exemplo, até perdem seu destaque como celebridades, porque a mídia de celebridades não gosta de ver famosos adotando posturas "do contra". Daí a sede de jovens atores e atrizes embarcando em micaretas, vaquejadas e "bailes funk" em troca de um bom papel de novela na Globo.

A mídia trabalha o fanático esportivo como se fosse uma "pessoa normal", apenas isolando os praticantes de violência nas notícias policiais veiculadas tanto no jornalismo esportivo quanto no policial. Ou mesmo na imprensa jagunça (Meia-Hora, Expresso, Supernotícia etc) que junta policial e esportes no mesmo engodo showrnalístico.

Se, por exemplo, um brutamontes grita, do seu apartamento para a vizinhança ao redor, o nome do seu time, ele é uma "pessoa normal" e adota uma "atitude saudável". Mas se alguém deixa de ver o joguinho da seleção na copa do mundo, apenas pela opção de não apreciar o futebol e querer fazer outras ocupações como ler um livro, essa pessoa é "anti-social", é "problemática".

Fanáticos esportivos - com a exceção dos hooligans brasileiros que existem aos montes nas "torcidas organizadas" - até admitem que alguém não torça pelo mesmo time que eles, mas veem com preocupação quando alguém diz que simplesmente não gosta de futebol.

O próprio futebol, para rechear esse fanatismo - que atinge níveis fascistas, em certos casos - , é trabalhado pela mídia como se fosse um "esporte para todo mundo", mostrando, com uma ênfase tendenciosa, mulheres, roqueiros e até nerds "fanáticos" por futebol. Uma associação que poderia ser opcional ou casual, mas que é forçada pelo marketing obsessivo da mídia esportiva.

Com isso, as torcidas são envoltas num mundo de fantasia e de ilusão. Os astros do futebol, de origem pobre, são transformados em celebridades por vezes internacionais sem que as classes populares tenham realmente uma melhoria substancial de vida. E questões importantes da vida são deixadas de lado, e até mesmo a miséria é cada vez agravada pelo sacrifício supérfluo de juntar dinheiro para uma televisão para ver a copa.

Enquanto isso, empresários, dirigentes esportivos e políticos, além da própria mídia, se enriquecem às custas do showrnalismo esportivo. Se fosse somente um entretenimento inocente, tudo bem. Mas o espetáculo possui conotações políticas e ideológicas que corrompem apenas um simples direito de curtir futebol, que se transforma numa neurótica obrigação.
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