quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ENTENDENDO MELHOR A CULTURA DE DIREITA


REINALDO AZEVEDO E PEDRO ALEXANDRE SANCHES - Dois lados de um mesmo disco.

Por Alexandre Figueiredo

A ingenuidade maniqueísta em que se encontra a intelectualidade média brasileira faz com que certas coisas não sejam percebidas.

Ignorando sutilezas e armadilhas, essa intelectualidade, talvez por uma inocência paternalista, ou por algum cinismo elitista enrustido, define esquerda e direita pela postura escancarada com que se elogia ou xinga as classes populares e seus representantes político-midiáticos.

O maniqueísmo torna-se, dessa forma, passível de erros, o que permite que muita gente de direita seja considerada "esquerdista" pela maneira paternal com que suas mãos acariciam as cabeças dos cidadãos pobres de seu convívio direto, como empregadas domésticas, porteiros de prédio e tudo o mais.

Já falamos muito da ação de pseudo-esquerdistas, e eles representam muitas vezes uma das faces mais sutis e perigosas da militância cultural de direita, pessoas que muitas vezes se infiltram nas causas esquerdistas sob o intuito de brecar os avanços sociais e manter o controle sócio-cultural das elites sobre as classes pobres em continuidade.

A cultura de direita, traçada sutilmente a partir das atividades do IPES nos anos 60, o "instituto" de pesquisas e estudos sociais que, na verdade, era uma espécie de partido político "informal" da burguesia brasileira, envolve uma "cultura de massa" que enfraqueça as identidades regionais e nacionais e a auto-estima popular, através de uma cultura "brasileira, mas nem tanto" enxarcada de estereótipos tragicômicos das classes pobres e de referenciais "universais" ditados pelo imperialismo.

A cultura de direita tem por objetivo separar as manifestações culturais de qualidade - que fortaleceriam a auto-estima e a identidade social das classes populares, o que estimularia sua mobilização política - para o usufruto privado das elites mais elitistas, enquanto o povo passa a consumir um padrão de "cultura popular" previamente estabelecido por emissoras de rádio e TV controladas por grupos oligárquicos.

O que oficialmente se conhece como "cultura de direita" por setores dominantes da opinião pública é tão somente a metade do processo. Entende-se o direitismo cultural, neste caso, apenas o protecionismo erudito das classes abastadas, uma paranóia "purista" e uma relativa apreciação à cultura das classes pobres do passado, apenas como um simulacro de identidade cultural brasileira.

Mas a outra metade do processo se mostra muito sutil e traiçoeira, embora se esforce de todas as formas para dar a falsa impressão de "verdadeira solidariedade às classes pobres", nem sempre de forma lógica e coerente, ou talvez até quase nunca. Mas sempre apelando de forma sentimental, buscando convencer a opinião pública de que a "cultura de massa" é o "novo folclore brasileiro".

CENTRO-DIREITA

A direita cultural que se compromete com o protecionismo erudito de seu patrimônio cultural, na verdade, é uma facção de extrema-direita, comprometida com a defesa dos interesses das próprias elites.

É essa a direita representada sobretudo por jornalistas políticos ranzinzas, celebridades excessivamente moralistas, estudiosos culturais radicalmente elitistas, que defendem os interesses de gente granfina, abastada, que entendem por "civilizada" e "formadora de opinião".

Mas o outro lado, em que pese sua aparente generosidade para com as classes pobres, também demonstra seu elitismo que até é explícito, mas é o "bom elitismo" do moleiro do conto "O amigo dedicado", do escritor e pensador socialista Oscar Wilde.

Esta é a centro-direita da abordagem cultural conservadora. Afeita a defender o comercialismo cultural brasileiro - o brega-popularesco de popozudas, jornalistas-broncos, imprensa populista, cantores bregas e neo-bregas - como se fosse a "verdadeira cultura popular", eles contam com um sofisticado e engenhoso esquema de pregação ideológica, a ponto de alguns de seus ideólogos se infiltrarem na imprensa esquerdista, como é o caso do "filhote da Folha" Pedro Alexandre Sanches.

O ÍDOLO "POPULAR" COMO UM "COITADINHO"

O método usado por essa campanha é confuso, contraditório, mas vale pelo sentimentalismo fácil que inspira nas pessoas. Monografias, documentários, reportagens, resenhas, críticas são lançadas para promover a hegemonia do brega-popularesco agora acima da MPB e do folclore brasileiro, cada vez mais postos à margem da apreciação pública ou, quando muito, só veiculadas quando associadas ao comercialismo de celebridades bregas, neo-bregas ou vulgares.

A ideia central é manipular a ideia de inferioridade social das classes populares de uma maneira sutil e enrustida. A visão elitista de que o povo pobre é uma "ralé do mais baixo nível" é carinhosamente diluída num discurso em que essa inferioridade é entendida como uma "superioridade" que nós "não conseguimos" entender.

Assim, sem que se defenda uma real melhoria para as classes populares, inverte-se o seu quadro de inferioridade, que não é resultante de qualquer paranóia moralista, mas do sistema de desigualdades sociais que a economia, a política e mesmo a cultura impõem na sociedade.

Dessa forma, os problemas sociais passam a ser vistos como "soluções", dentro da manobra elitista de dar ao povo pobre a impressão de que resolverá sozinho seus problemas, isentando as autoridades de qualquer atividade que possa resolver as desigualdades sociais, muitas delas consequentes do abuso de poder econômico das elites.

Em outras palavras, isenta-se as elites da culpa pelas desigualdades sociais e transforma-se subúrbios e zonas rurais em verdadeiras Disneylândias do entretenimento pobre, sem melhorias sociais autênticas, apenas uma relativa "inclusão social" dentro dos padrões do consumismo.

Nesse discurso engenhoso, transforma-se "burrice" numa "nova inteligência". A "alienação" é uma "nova identidade social" numa suposta integração entre global e local dentro dos padrões da grande mídia.

REINALDO E PEDRO

Para entender melhor essas duas vertentes, nada como compararmos o caso de Reinaldo Azevedo, colunista de Veja, e o Pedro Alexandre Sanches, cria da Folha de São Paulo que (por enquanto) passeia pelas redações da imprensa esquerdista.

Aparentemente, são jornalistas diferentes. Reinaldo não gosta de "funk" e Pedro gosta. Mas a verdade é que os dois servem a um mesmo propósito elitista de impedir que o povo pobre se fortaleça culturalmente.

Dessa forma, Reinaldo Azevedo defende o gosto pessoal de dondocas e doutos. Pedro Sanches parece defender as empregadas e os choferes das dondocas e doutores, mas no fundo defende mesmo é o mecanismo de controle do radinho e da televisãozinha que as empregadas e os choferes consomem.

Daí o discurso enrustido de Pedro Sanches que, aparentemente, soa agradável e positivo. Mas é o mesmo discurso de privar o povo pobre do aperfeiçoamento cultural, obrigando-o a se contentar com a mediocridade vigente há mais de 40 anos, uma "cultura popular" de mercado que serve a interesses de grupos regionais oligárquicos, empenhados no controle social sobre as classes populares.

Mas tudo isso tão enrustido que ninguém percebe as doces armadilhas. É como quem vê uma ratoeira e ninguém percebe a armadilha, deslumbrado que está com o queijo que nela está como isca.

A "PAÇOCA" DE ALI KAMEL

Sem que muitos percebam a gravidade desse discurso generoso, surgem analogias gritantes entre o discurso socialmente dissimulador do jornalista da Globo, Ali Kamel, e as "admiráveis" pregações de Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Mônica Neves Leme, MC Leonardo e outros que uma leitura atenta inevitavelmente comprovará.

Pois se trata de um discurso que se baseia em mascarar os problemas sociais em vez de resolvê-los, um costume que vem desde o regime militar ou mesmo do latifúndio de tempos mais antigos. Diz-se que os problemas "não existem", em vez de reconhecê-los e combatê-los.

Ali Kamel, dessa forma, disse que "não existe racismo" no Brasil. O discurso brega-popularesco, mesmo "de esquerda", segue o mesmo caminho, dizendo que "não existe mediocridade", "não existe burrice", "não existe machismo", "não existe vulgaridade", "não existe baixaria".

É um discurso que, embora "impunemente" transite pelas páginas das revistas Fórum e Caros Amigos graças ao funqueiro amigo das Organizações Globo, MC Leonardo e ao supracitado "filhote da Folha", transita livremente pelas páginas de veículos "flexíveis" da mídia golpista, como as próprias Organizações Globo, o Grupo Abril e o Grupo Folha.

Mas se tratam dos mesmos veículos que condenam os movimentos sociais, mas estranhamente corroboram a pregação "progressista" sobre a "cultura popular" midiática, mercadológica e sem qualquer utilidade real para o progresso social das classes pobres. Antes essa "cultura" as mantém no atoleiro, salvas apenas pela relativa inclusão no consumo e no espetáculo.

Como esse discurso é visto como "esquerdista" é algo difícil de entender. Afinal, até mesmo a palavra "periferia", tão utilizada nessa campanha ideológica, é influenciada pela teoria neoliberal de Fernando Henrique Cardoso que, ao lado de teóricos conservadores como Auguste Comte e Francis Fukuyama, inspiram explicitamente toda essa ideologia da suposta "cultura das periferias". A Teoria da Dependência já falava da dicotomia "centro X periferias", o que inspirou fortemente o discurso resultante dela.

OMISSÕES E IRONIAS

Sabe-se que ninguém desmente as acusações de direitismo dadas a essa intelectualidade "solidária" ao que entende por "cultura das periferias". Eles apenas se posicionam formalmente às esquerdas enquanto não despertam desconfiança na maioria das pessoas.

Nessa situação, a intelectualidade prefere ser omissa. Prefere apenas admitir a "contradição humana" e não dar qualquer explicação sobre o fato de que seu discurso penetra facilmente na velha grande mídia (mesmo a ranzinza Veja se rendeu ao tecnobrega, por exemplo).

Mas ironias ocorrem, para não dizer sobre o reacionarismo de troleiros ou outros internautas. Mas esse é um outro tema. As ironias da intelectualidade que aqui descrevemos se referem a ideias como "alienação cultural", por exemplo.

Esnobam a alienação cultural justificando o "sucesso" dos ídolos brega-popularescos nas classes pobres imersas no provincianismo social. Usam clichês da ideologia neoliberal sobre globalização e até informática - para definir as "pequenas mídias das periferias", que de "pequenas" só têm o nome e de "periferias" só tem o público alvo consumidor, mediante o poder econômico de seus "humildes investidores" - para dar suporte à sua teoria.

Outra omissão constante nessa ideologia é ignorar que, por trás dessa "cultura popular", estejam empresários e políticos interessados na manutenção do controle social, efetuado por músicas medíocres, musas vulgares e imprensas grotescas, que trabalham as classes pobres de forma caricata, estereotipada e domesticada.

OBJETIVOS OCULTOS

Pois os objetivos ocultos dessa pregação tão "generosa" e "solidária" é tão somente manter esse controle social e, em contrapartida, exercer o poder midiático da intelectualidade associada, endeusada por uma "panelinha" de outros intelectuais amigos.

Dessa maneira, Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo não estão posicionados, no poder midiático, de forma diferente da de um Otávio Frias Filho ou de Ali Kamel. Assim como suas posições sociais não possuem preconceitos diferentes daqueles notados em "urubólogas" e "calunistas".

O discurso "positivo" dos defensores do brega-popularesco é que engana as pessoas, pelo paternalismo bondoso que tal retórica sugere às classes pobres. Mas, por trás dessa retórica cordial, existe um processo perverso de manter o mercado do entretenimento que rende bilhões de reais no seu todo, além de manter o controle social das classes pobres, jogadas a uma falsa felicidade social que previne a ocorrência de protestos sociais que, no exterior, tiram o sono dos capitalistas.

A extrema-direita dos "calunistas" e "urubólogas" é apenas o "lado A" de um mesmo disco anti-popular. O "lado B" dos ideólogos do brega-popularesco parece agradável aos ouvidos de muita gente, mas é tão somente a outra face do mesmo disco que pretende impedir que as classes populares tenham realmente uma voz própria, sem intermediários.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

DILMA DESAPONTA AS CENTRAIS SINDICAIS



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Os sindicatos se indignaram quando a presidenta Dilma Rousseff e o ministro Guido Mantega lançaram uma medida para manter o chamado superávit primário, isto é, o aumento do controle de gastos públicos, em detrimento de investir no pagamento da dívida pública. Com isso os projetos sociais e os benefícios aos trabalhadores se tornam comprometidos.

Dilma desaponta as centrais sindicais

Por André Barrocal - Agência Carta Maior

As centrais sindicais criticaram nesta segunda-feira (29/08) a estratégia que governo decidiu adotar contra a crise econômica mundial: redução da taxa de juros do Banco Central (BC) e aumento do controle de gastos públicos (superávit primário). O plano foi apresentado às centrais pela presidenta Dilma Rousseff e pelo ministro Guido Mantega (Fazenda) a dois dias do próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, que se reunirá pressionado a baixar o juro.

“O governo disse que a crise pode se agravar e que a forma de enfrentá-la é aumentar o superávit primário. Foi uma ducha de água fria”, disse o presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Wagner Gomes.

“Não concordamos com o aumento do superávit primário. O que estraga e sangra o Brasil nesse momento é a taxa de juros criminosa praticada pelo Banco Central”, afirmou o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Artur Henrique da Silva Santos.

Na reunião, Dilma e Mantega disseram que não é intenção mudar a meta de superávit primário, dinheiro que o governo tira das receitas para pagar juros da dívida pública. Nem cortar verba da área social. O superávit seria maior porque o governo poupará a arrecadação de tributos que exceder às previsões, em vez de usar este dinheiro para reforçar políticas públicas já em andamento.

Neste ano, a meta de superávit primário do governo federal é de cerca de R$ 80 bilhões. Até julho, já foram economizados R$ 66 bilhões. Para 2012, a meta é de R$ 97 bilhões, o equivalente a R$ 510 por brasileiro.

Apesar da reclamação geral, a contrariedade dos sindicalistas vai diminuir, caso o Banco Central dê um sinal de boa vontade e corte a taxa de juros na próxima quarta-feira (31/08). “Só acreditaremos se cair o juro imediatamente”, disse o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP).

Segundo Artur Henrique, Dilma teria dito que o sinal de austeridade fiscal que o governo tenta transmitir ao “mercado” criaria condições para o BC baixar os juros. Mas a posição das centrais, disse ele, é que, “sem pressão sobre o BC”, a taxa não vai cair “automaticamente”.

Por isso, as centrais planejam realizar mobilizações pelo país para pressionar o Copom. “Vamos fazer manifestação na frente do BC, para iluminar as cabeças”, declarou Paulinho sobre os planos da Força Sindical.

A mobilização dos sindicalistas na porta do Banco Central será reforçada por estudantes. No mesmo dia, a União Nacional dos Estudantes (UNE) pretende realizar um ato em Brasília, para pedir mais dinheiro para a educação. Mas o ato começará, logo pela manhã, com uma manifestação em frente ao prédio do Banco Central .

O presidente da UNE, Daniel Iliescu, que está em Brasília, articulou com as centrais uma ação conjunta na quarta-feira, depois da reunião dos dirigentes sindicais com Dilma e Mantega. Ele também criticou o plano do governo, que estaria abrindo mão de uma estratégia que deu certo em 2008 (usar os gastos públicos para incentivar a economia).

“A UNE é contra essa política fiscal perversa. As medidas anticílicas adotadas em 2008 deram certo, e agora o governo vai na contramão disso”, afirmou.

PEDRO ALEXANDRE SANCHES E A VELHA MÍDIA


A VELHA MÍDIA TAMBÉM GOSTA DE CERTAS "PAÇOCAS"...

Por Alexandre Figueiredo

Em certos momentos, o "esquerdismo" de Pedro Alexandre Sanches chega a ser constrangedor. Malabarista do discurso, sabemos que Sanches dissolve seus conceitos influenciados em Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso em clichês discursivos tirados da retórica esquerdista.

Na revista Fórum e na Caros Amigos - que, talvez por pressões dos distribuidores de revistas, dominados pelo Grupo Abril, contrataram o discípulo de Otávio Frias Filho para escrever resenhas culturais em suas páginas - deste mês, Pedro Alexandre Sanches tentou ser "agradável" aos trabalhadores rurais e "hostil" à velha mídia.

No primeiro caso, referente ao texto da Caros Amigos onde Sanches "mistura" um grupo performático com discursos de defesa do "funk carioca", ele não chega a defesa explícita do MST - seria demais para suas pretensões - mas adota o título "A terra da música é de quem plantar?" com uma ilustração de um agricultor arando a terra, como se quisesse adotar uma poética solidariedade aos trabalhadores rurais.

No segundo caso, Sanches tenta, através da defesa tendenciosa do "coitado do momento", Leandro Lehart, "criticar" a velha mídia, aquela que é simbolizada pela Globo, Folha e Estadão, citadas (talvez por algum "gancho" do entrevistador) pelo ex-cantor do Art Popular.

Sanches já havia "atacado" a Globo e o "velho estilo Folha", além de ter "falado mal" da Abril. Pura incoerência, deselegância e ingratidão. Afinal, sabemos que Pedro Alexandre Sanches em nenhum momento expressou qualquer rompimento com a velha grande mídia, já que sua visão de "cultura popular" é claramente e rigorosamente a mesma que vemos nas primeiras páginas da Ilustrada da Folha de São Paulo e das páginas de O Globo e da telinha da Rede Globo.

Qualquer dúvida a isso é só ler o que Pedro Sanches escreve sobre "cultura popular" e o que programas como Fantástico, Domingão do Faustão e Caldeirão do Huck e os críticos de Ilustrada mostram. Se a Ilustrada diz seis, Pedro Alexandre Sanches diz meia-dúzia. Se Ali Kamel fala abóbora, Pedro Alexandre Sanches fala jerimum. Dá no mesmo.

Pedro Alexandre Sanches é o crítico musical da velha mídia. Não adianta fazer um rompimento formal, se no âmbito das ideias a aliança com as velhas regras é integral. O maior discípulo não é aquele que louva seu mestre, mas aquele que segue rigorosamente suas lições, ainda que pareça estar brigado com seu mentor.

As lições deste para seu discípulo continuam integralmente preservadas, o que faz o trabalho do mestre ter cumprido sua realização plena, mesmo através do discípulo "desafeto".

Daí que Pedro Sanches ter muita sorte por dois motivos.

Primeiro, o leitor médio de Caros Amigos e Fórum, "emigrado" dos velhos tempos da Folha de São Paulo, ainda lê jornais, revistas e blogues às pressas, o que não permite discernir as pregações neoliberais de Sanches com a lucidez anti-mercado de Emir Sader, por exemplo.

Segundo, porque mesmo a intelectualidade média brasileira é dotada de um pieguismo sentimentalóide que faz com que se defenda ídolos da "cultura popular de mercado" como se fossem "gêniozinhos incompreendidos", através de uma campanha que, apesar da roupagem "científica" (monografias, documentários, reportagens etc), nada tem de lógica ou coerente.

Só que, se alguém ler com muita atenção os textos de Pedro Alexandre Sanches, verá o contraste violento entre os mesmos e outros textos escritos por gente realmente esquerdista como Emir Sader, Venício A. de Lima e Rodrigo Vianna.

Rodrigo, aliás, é um exemplo de alguém que teve a humildade de romper com a velha mídia. Ele rompeu não somente na forma, mas também no conteúdo, sendo elegante até mesmo nas críticas à velha grande mídia, mantendo a lógica, a coerência e a sensatez.

Pedro Sanches, não, porque este, quando parece atacar a velha mídia, é sempre pela voz pequena, pelas palavras miúdas. Ele rompeu com a grande mídia apenas formalmente, mas suas ideias permanecem sempre as mesmas de quando ele cumprimentava alegremente o colega Otávio Frias Filho.

Daí que o pseudo-esquerdismo de um crítico de imprensa "inventado" pelas distribuidoras DINAP e Fernando Chinaglia - que sofrem o forte lobby da velha mídia - de uma forma ou de outra deixam transparecer no neoliberalismo neo-brega de Pedro Alexandre Sanches.

Ele é um crítico que diz reprovar o mercado, mas exalta justamente o mercadão musical brasileiro. Tenta nos fazer crer que a grande mídia musical morreu, mas ela renasce no próprio colunista que o diz. Sua visão sobre "cultura popular" é paternalista, tendenciosa, mercantilista e marqueteira.

No fundo, Pedro Sanches está atrelado, pelo menos indiretamente, aos barões do entretenimento que sustentam o brega-popularesco e aos quais interessa "resgatar" ídolos esquecidos. E esses mesmos barões do entretenimento é que se associam também à velha mídia que Sanches finge odiar.

Pelo menos Pedro Alexandre Sanches deveria ser respeitoso com a velha mídia que o criou e a qual continua seguindo, se não no sentido formal, pelo menos no sentido ideológico.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

NINGUÉM É BOM PORQUE É REJEITADO



Por Alexandre Figueiredo

Em artigo publicado na revista Fórum, o jornalista (de direita) Pedro Alexandre Sanches tenta eleger mais um coitado para a galeria dos "admiráveis sofredores" da música popular(esca) brasileira, o cantor de sambrega Leandro Lehart.

No mesmo mês, o todo sempre discípulo de Otávio Frias Filho já havia feito também sua defesa ao "funk carioca", no seu texto da Caros Amigos do mesmo mês de agosto, servindo-se à arrogância daqueles que acreditam que o "funk carioca veio pra ficar", num excesso de pretensiosismo que já começa a chatear muita gente boa, aquela que não endeusa uma panelinha de intelectuais mais preocupados em salvar o playlist da Nativa FM do que a verdadeira cultura brasileira, perdida nos museus ou aprisionada nas mansões.

A defesa de ídolos que fizeram a música brega ou neo-brega em períodos políticos conservadores, seja Waldick Soriano, Odair José, seja o "funk carioca", seja Zezé Di Camargo & Luciano, Michael Sullivan, Tati Quebra-Barraco ("musa" num período onde estourava o escândalo do "mensalão") tem sempre um ponto em comum: promover o ídolo bem-sucedido como se fosse um coitadinho, como uma suposta vítima de "preconceitos" expressos na rejeição consequente do sucesso comercial.

Ora, sabemos que a música brega-popularesca sempre foi comercial e nunca tinha pretensões de valor artístico ou reconhecimento cultural. Mas, de uns dez anos para cá, surgiu uma campanha, que já entra num ponto de saturação, de tentar salvar os ídolos comerciais da música radiofônica dos períodos de Geisel, Sarney, Collor e FHC (todos governos conservadores), sob o pretexto de que seus ídolos são "vítimas de preconceito".

É aquele papo. Fulano vendeu muitos discos, lotou plateias em todo o país, mas ele fica mais preocupado com as críticas que sofre por sua mediocridade artística (que ele não admite), e seu sofrimento é levado ao exagero em relatos desesperados. Como se o ídolo em questão nunca tivesse feito sucesso na vida.

A intelectualidade que defende tais ídolos - que, sabemos, tem em Pedro Alexandre Sanches seu queridinho atual - tem sua formação ideológica baseada na adaptação das ideias de Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, José Serra, Mailson da Nóbrega e outros ao âmbito da cultura popular.

Foram eles que ofereceram subsídios teóricos para a geração de Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Mônica Neves Leme, Ronaldo Lemos e outros. Em outras palavras, é um pensamento de direita que tenta ser empurrado para o âmbito da esquerda só por causa de uma suposta (mas claramente paternalista) solidariedade com o povo pobre.

E aí acham que a cultura do povo pobre é assim "superior na sua inferioridade". Como se o povo pobre "não sabe" e "faz sem saber", mas desenvolve uma "sabedoria no que não sabe". Um discurso confuso, que claramente não tem o menor sentido lógico, mas que arrebanha adeptos pelo sentimentalismo fácil que expressa no seu dócil paternalismo.

Mas chega a ser curioso que esse discurso é acionado logo no momento em que as classes populares realizam manifestações no resto do mundo e, logo próximo a nós, no Chile, o povo protesta contra as arbitrariedades do presidente Sebastian Piñera.

Porque, para os festejados intelectuais brasileiros, o povo tem que ficar quietinho ouvindo sua rádio FM, vendo TV aberta, indo para o galpão mega show consumir os sucessos do momento, e acreditar que está fazendo "movimento social" com isso.

E tudo isso à base da campanha do coitadinho. O que faz com que as pregações ideológicas de Pedro Alexandre Sanches não sejam muito diferentes do assistencialismo de butique do Criança Esperança. As semelhanças entre a defesa de bregas e neo-bregas e o paternalismo do projeto "filantrópico" das Organizações Globo chegam a ser gritantes.

Aliás, o próprio Criança Esperança oferece, em seu cardápio "artístico", muitos dos "coitadinhos" de amanhã que por enquanto estão no topo das listas da Nativa FM, Beat 98, Band FM, Transcontinental e similares. E que, quando está à beira do ostracismo, é socorrida pela retórica confusa e cheia de referenciais alucinados do intelectual de plantão, podendo ser um sinistro Paulo César Araújo ou um tendencioso Pedro Alex Sanches.

Depois do sucesso de anos, se o ídolo brega-popularesco se desgasta, passa a trabalhar sua pose de vítima, com seu dramalhão momentâneo, que vai recolocá-lo nas paradas de sucesso agora com um status mais "superior", porque voltará para as rádios sob a imagem "reciclada" do coitadinho que venceu.

Só que ninguém é bom porque é rejeitado. Aí é que está a farsa.

Imagine se numa formatura da faculdade, o orador, em vez de dizer que venceu com seu próprio esforço, faça um discurso que enumera qualquer tipo de infortúnio, até com exagero dramático, dizendo-se vítima, sofredor, rejeitado e coisa e tal. Certamente os colegas sairão um a um do evento, indo embora chateados com um discurso tão metido.

É isso que acontece com a música. Ídolos meramente comerciais que, querendo ser levados demasiadamente a sério, se fazem de vítimas, trabalham exageradamente sua imagem de coitadinhos, numa arrogância às avessas, numa presunção do sofrimento.

Pois se passar por vítima não vai enobrecer os ídolos da mediocridade midiática de anos atrás. Muitas vezes é melhor um ostracismo decente do que uma volta arrogante ao sucesso. A retaguarda musical brasileira nunca vai se tornar vanguarda porque seus ídolos são os coitadinhos mais adorados por uma panelinha de intelectuais festejados.

Até porque houve várias tentativas de reabilitação - os próprios ídolos bregas "socorridos" por PC Araújo são prova disso - nunca fizeram dos ídolos-coitados nomes realmente respeitáveis e admiráveis da nossa música. Pelo contrário, fora as festinhas adolescentes e os redutos de bebedeira nos bares, bregas e neo-bregas nem de longe entraram no primeiro time da MPB.

É por isso que a intelectualidade solidária com esses coitados-de-proveta anda desgostosa com a MPB. E prefere mandar bala contra a música brasileira do passado, feita de peito erguido, olhando para a frente, com boas melodias e sem explorar o papel de ridículo ou de vítima.

BIAFRA - O cantor Biafra fez parte de uma fase menor da MPB, com Guilherme Arantes, Dalto e outros. Biafra pode não ter sido um gênio, mas tornou-se admirável pelo senso de humor e pela humildade. Não se aproveita da rejeição que sofre para se passar por uma pretensiosa grandeza.

Quando ídolos bregas e neo-bregas - de Waldick Soriano a MC Leonardo - são sujeitos de toda uma choradeira para que os mesmos sejam levados a sério demais, Biafra aparece num comercial de seguros de um conhecido banco na imagem de um cantor "chato", "tão chato" que nem um ladrão é capaz de aguentar ouvir sua voz.

Em vez de Biafra dizer que "sofreu de fome", "perdeu parentes", "foi escorraçado pela crítica" e tudo o mais, ele encarou sua má fama com bom humor. Certamente ele no fundo não concorda com isso, mas ele achou melhor brincar com sua "má reputação" do que posar-se de vítima.

Dessa maneira, Biafra marcou pontos diante de um Leandro Lehart em pose de coitadinho.

O JOGO SUJO DE VEJA



Por Alexandre Figueiredo

Independente de alguém gostar ou não de José Dirceu, ou de confiar ou não nele, a atitude da revista Veja mostra o quanto o denuncismo reacionário, caluniador e mentiroso da revista da famiglia Civita cada vez mais derruba a reputação do periódico.

Com o intuito de forjar uma "briga" entre José Dirceu e a presidenta Dilma Rousseff, um repórter de Veja, agindo no mais baixo nível do sensacionalismo jornalístico, invade o Hotel Naoum, em Brasília, famoso por ter hospedado várias celebridades e personalidades políticas, para "revelar" um suposto gabinete formado por Dirceu para, segundo a revista, "criar uma conspiração" para derrubar a presidenta.

Em primeiro lugar, talvez Veja desconheça que, quando políticos se hospedam em um hotel, evidentemente estabelecem contatos políticos. Mas nem por isso se torna um "gabinete". Uma personalidade política evidentemente recebe outros políticos, seus telefonemas são quase sempre de assuntos políticos e mesmo negociações políticas de urgência são feitas, principalmente em momentos políticos delicados.

Foi isso, por exemplo, que houve quando o já ex-vice do governo Jânio Quadros, o gaúcho João Goulart, fazia há exatos 50 anos, em vários hotéis em que esteve lotado na sua longa estadia no exterior, prorrogada por que os ministros militares do antigo titular não queriam ver Jango assumindo o poder.

Veja, há muito tempo, comete um jornalismo incompetente e constrangedor. A revista, além disso, parece estar quase sempre com mau humor, suas páginas são ranzinzas, preconceituosas, cafajestes, anti-sociais. Ataca do movimento estudantil às populações indígenas, do cinema experimental ao MST. Não dá para uma pessoa normal respirar folheando as páginas poluídas de Veja. Apesar do nome, Veja é cega, não por não poder ver, mas por não querer ver a realidade (olha o trocadilho).

Por incrível que pareça, uma das poucas pessoas que foram poupadas do tradicional mau humor de Veja foi a cantora Gaby Amarantos, a musa do tecnobrega, ritmo que alguns acreditavam que iria fazer a grande mídia correr de medo, e não fez. Ou quando uma celebridade é o Padre Marcelo Rossi, ou quando o político é demotucano.

A reporcagem de Veja não revelou fontes consultadas, não divulgou gravação da conversa, e muito menos respeitou a privacidade do hospedado numa situação que não tem grande gravidade. E limitou-se a dizer que a suposta fita foi "verificada" pelo "perito" Ricardo Molina, o mesmo usado pela Rede Globo para tentar convencer seus espectadores que a bolinha de papel jogada contra José Serra, no Rio de Janeiro, era um "perigoso objeto estranho que teria causado traumatismo no (então) candidato".

Além disso, a preocupação em divulgar escândalos tornou-se unilateral. A Veja nada divulga, por exemplo, sobre possíveis desavenças entre José Serra e Geraldo Alckmin, ou entre cada um dos dois com Aécio Neves, nem verificar se existe algum estremecimento de relações entre Fernando Henrique Cardoso e José Serra, ou se o PSDB e o DEM estariam ou não brigados.

Dá pena comparar a Veja com a prepotência de Rupert Murdoch. Não que este fosse menos corrupto ou cafajeste, mas porque Veja é provinciana, mofada e rabugenta. Murdoch, mesmo com todos os seus piores adjetivos, pelo menos é um cidadão do mundo. Um péssimo, repugnante, abominável e condenável cidadão do mundo, um canalha cosmopolita. A turma de Veja nem de longe esboça alguma modernidade cosmopolita.

Veja ainda parece viver entre o Brasil da República Velha e o Brasil do AI-5.

CARLOS LATUFF DÁ AULA DE MÍDIA REGIONAL



O cartunista Carlos Latuff, de talento e projeção internacional, é bastante conhecido pelas sátiras políticas, algumas delas de tom dramático - quando mostram os dramas sociais das classes populares ou a tirania política dos detentores do poder - e sempre sob o ponto de vista dos movimentos progressistas.

Mas ele, também crítico da velha grande mídia, também dá uma aula do que é a grande mídia regional, e aqui vemos uma charge com o chefão da Rede Brasil Sul, o famoso Grupo RBS que controla a mídia em Santa Catarina e Rio Grande do Sul , Nelson Sirotsky.

Sirotsky é o barbudo diante do quadro negro, enquanto o chargista da RBS, Carlos Henrique Iotti, aparece desenhando uma imagem "demonizada" que a direita gosta de fazer do Movimento dos Sem-Terra.

Na charge, o empresário ensina o cartunista da RBS a conjugar o verbo "vender", como lição básica para o aprendizado dos princípios neoliberais. Falando em "princípios", o Grupo RBS, representante das Organizações Globo no Sul do país, deve entender e concordar muito bem com os "princípios" que a corporação dos irmãos Marinho controla em âmbito nacional.

Algum intelectual etnocêntrico teria coragem de classificar o Grupo RBS como "pequena mídia das periferias"?

domingo, 28 de agosto de 2011

CASAMENTO x INTELIGÊNCIA FEMININA: O DILEMA DE HERMIONE



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Embora seja uma obra comercial, a saga literária de Harry Potter apresenta pontos interessantes, principalmente pela figura de Hermione Granger, interpretada pela encantadora Emma Watson (foto), personagem através da qual podem ser analisadas muitas situações referentes à posição da mulher na sociedade contemporânea.

Casamento x inteligência feminina: o dilema de Hermione

Por Cynthia Semiramis - Blogue de Cynthia Semiramis

Gosto muito da série Harry Potter, e admiro a forma como Joanne Rowling conseguiu transformar uma historinha infantil em uma série sobre política. Ou vocês acham que ela não está falando de política ao criticar diversas formas de discriminação, escravidão, restrição à liberdade de expressão e de imprensa? E ela ainda reforça valores importantes ao tratar a tortura, a interferência na liberdade da outra pessoa e a pena de morte como ações imperdoáveis.

As personagens mulheres são maravilhosas, ativas, e com personalidades bastante diferentes. Particularmente, adoro a Hermione Granger: é inteligente, estudiosa, e não tem vergonha de participar nas aulas e mostrar que sabe a matéria. Espero que ela tenha inspirado mais meninas a se manifestarem nas aulas e não terem vergonha de gostarem de estudar. Precisamos lembrar que mulheres só tiveram direito à alfabetização e acesso aos estudos em tempos bastante recentes, e que ainda somos discriminadas em diversas áreas – portanto, valorizar o estudo feminino nunca é exagero.

Lembro que quando saiu o último livro, várias pessoas ficaram indignadas por Hermione ter um “final feliz”, se casando com Ron Weasley. Já ouvi várias coisas: que ela é inteligente demais pra ele, que ele é um idiota, que ela deveria ficar com Harry, que ela é nerd demais pra se casar. Podemos até chamar essa discussão de “dilema de Hermione”. Não porque ela tenha dúvidas, mas porque nós, fofoqueir@s de plantão, temos dúvidas por ela.

Indo para além da antipatia por Ron (que considero injusta), são bastante interessantes os comentários sobre o que deveria ser a vida afetiva de Hermione. Eles mostram que, embora cada vez mais mulheres estejam tendo acesso a altos estudos, na hora dos relacionamentos afetivos o estudo interfere contra a mulher. De certa forma, estamos repetindo velhos preconceitos machistas, que opõem a inteligência e os estudos das mulheres à satisfação emocional.

Em um mundo machista, o homem ocupar posição inferior à da mulher é uma tragédia. Não à toa, a maioria dos ditos populares sobre mulheres afirma que a esposa deve ser menos que o marido em termos de idade, altura, dinheiro e… inteligência. Afinal, a mulher inteligente não será boa esposa, pois terá habilidade suficiente para desafiar e mandar no marido.

Seguindo essa linha de raciocínio, parece que a pergunta de fundo sobre o dilema de Hermione é outra: quem será o homem que terá a infelicidade de ser dominado intelectualmente pela esposa? Será que ele tem fama ou riqueza que possam fazer contraponto à inteligência dela? Ou será um relacionamento desigual, em desfavor dele?

Pelo menos nos livros, todos os personagens admiram e respeitam a inteligência de Hermione, e não há problema com quem ela escolhe para se relacionar. Ao final, ela escolhe Ron, e o máximo que ele tem a oferecer ao casamento é pertencer a uma família de sangue puro – o que, nas circunstâncias do final da série de livros, não tem importância alguma.

Pela ótica machista, o relacionamento entre Ron e Hermione é desigual, e ele está se rebaixando em relação a ela (mais pobre, menos inteligente, menos famoso). Porém, estamos julgando os livros repetindo os velhos padrões machistas, negando a possibilidade de um casamento “desigual” quando a mulher está em posição superior à do marido. E estamos negando a uma mulher o direito de ter vida afetiva quando é inteligente e gosta de estudar. E estamos negando a um homem não tão inteligente quanto a namorada o direito de se casar com ela sem ser xingado ou perder status por isso.

O dilema de Hermione, na verdade, é o dilema de qualquer mulher minimamente inteligente nos dias atuais. Ela é cobrada incessantemente: negam a ela o direito a vida afetiva, ou defendem a sua solidão até que encontre o parceiro “perfeito”, que necessariamente deverá ser mais que ela. Com isso, forçamos as mulheres a escolher entre estudar e cultivar a inteligência, ou ter vida afetiva. Essas não são situações opostas, e não deveriam ser tratadas dessa forma, pois limitam as possibilidades de felicidade das mulheres.

sábado, 27 de agosto de 2011

ÀS SUAS ORDENS, DOTÔ MERCADO!



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Esse texto é um relato sobre a crise de credibilidade do capitalismo, agravada pelas crises econômicas causadas pelas autoridades, tecnocratas e especuladores financeiros no exterior. É como se diz coloquialmente: é o mercado, estúpido!! Um mercado excludente e que só serve para aumentar os lucros dos detentores do poder econômico.

Às suas ordens, dotô Mercado!

Por Paulo Kliass - Agência Carta Maior

Uma das inúmeras lições que a atual crise econômica tem a nos oferecer é a possibilidade de compreender um pouco melhor os mecanismos de funcionamento da economia capitalista em sua fase de tão ampla e profunda internacionalização financeira. Depois de baixada a poeira e dado o devido distanciamento temporal, imagino a quantidade de teses que serão desenvolvidas para tentar entender e explicar aquilo que estamos vivendo a quente pelos quatro cantos do planeta.

As alternativas de enfoque são muitas. A relação conflituosa entre os interesses do capital produtivo e os do capital financeiro stricto sensu. A autonomia – na verdade, uma quase independência – do circuito monetário em relação ao chamado lado “real” da economia. A contradição entre o discurso liberal ortodoxo patrocinado pelos dirigentes dos países mais ricos até anteontem e a prática atual de medidas protecionistas de seus próprios interesses nacionais. A postura inequívoca e amplamente expandida de defesa das vontades das grandes instituições financeiras em primeiro lugar, sempre às custas de cortes nos gastos orçamentários na área social voltados à maioria da população de seus países. A dita solidez das estruturas do mercado financeiro, agora tão confiável quanto a de um castelo de cartas. A perda completa de credibilidade das instituições financeiras, a exemplo das chamadas agência de rating, que passam a escancarar a sua relação incestuosa com setores econômicos. O fim do mito da chamada “independência” dos Bancos Centrais, cujas políticas monetárias estariam sendo implementadas de forma neutra e isenta, uma vez que baseadas em critérios técnicos e científicos (sic...) do conhecimento econômico acumulado. A falência das correntes que se apegavam às teorias chamadas da “racionalidade dos agentes” para buscar assegurar que não haveria o que temer com o funcionamento das livres forças de mercado, pois o equilíbrio entre oferta e demanda sempre apontaria a solução mais racional possível. E por aí vai. A lista é quase infindável.

Mas um elemento, em especial, chama a atenção em meio a essa enormidade de aspectos. E trata-se de algo importante, pois diz respeito à tentativa de legitimação de toda e qualquer ação dos poderes públicos na busca da saída para a crise econômica. Com isso procura-se fugir da consequência mais próxima em caso de fracasso: colocar em risco a sua própria legitimidade política. Ainda que nos momentos de maior tensão seja perceptível uma contradição entre os desejos dos representantes do capital financeiro e as possibilidades oferecidas pelos agentes do governo, no final quase tudo acaba se resolvendo no conluio entre o público e o privado. Nos bastidores do poder, a ação do Estado é ditada, via de regra, pelos interesses do capital.

Mas nas conjunturas de crise profunda, como a atual, passa a operar também a chamada opinião pública. Os temas de economia e de finanças, antes restrito às páginas dos jornais especializados, ganham as manchetes de capa e se convertem em preocupação de amplos setores da sociedade. A população se assusta, exige mais explicações, quer entender melhor! Porém, não se consegue tornar tão claros os mecanismos de funcionamento da dinâmica econômica em tão pouco tempo e em tão poucas linhas. E nesse momento ganham importância os interlocutores chamados a explicar: os economistas dos grandes bancos, os analistas das instituições financeiras, os responsáveis pelas empresas de consultoria, enfim os chamados “especialistas”. Cabe a eles a tarefa de convencimento do grande público de que a crise é causada por este ou aquele fator, ou então de que as medidas anunciadas há pouco por um determinado Ministro da Economia são ou não adequadas para resolver os problemas a que se propõem.

E aqui entra em campo um elemento essencial na dinâmica do discurso. Uma entidade que passa a ser reverenciada em ampla escala, coisa que era antes reduzida a uma plateia restrita. Trata-se do famoso “mercado” – muito prazer! Um dos grandes enigmas da história da humanidade, tanto estudado e ainda tão pouco desvendado em seus aspectos essenciais, passa a ser tratado como um ser humanizado, um quase indivíduo. Isso porque para justificar a necessidade das decisões duras e difíceis a serem tomadas - sempre às custas de muitos e para favorecer uns bem poucos – recorre-se às opiniões de “alguém” que conheça, que assegure que não há realmente outra solução. Tem-se a impressão de que o mercado vira gente, um dos nossos!

As matérias dos grandes jornais, as páginas das revistas de maior circulação, os sítios da internet, os programas na televisão e no rádio, enfim, por todos os meios de comunicação passamos a conhecer aquilo que nos é vendido como sendo a opinião dessa entidade, dessa quase pessoa. As frases e os estilos podem variar, mas no fundo, lá no fundo, tudo é sempre mais do mesmo. Recorrer a um mecanismo que beira a abstração para justificar as medidas mais do que concretas. Fazer um chamamento a uma entidade externa, com ares de messianismo e divindade, para convencer de que as proposições - expostas numa linguagem e numa lógica incompreensíveis para a maioria - são realmente necessárias. Sim, sim, é preciso também ter fé! Pois em caso contrário, aquilo que nos espera é ainda pior do que o péssimo do vivido agora. Será o caos!

É o que tem acontecido na atual crise da dívida norte-americana ou na sequência dos diversos capítulos da crise dos países da União Europeia. O mercado “pensa”, o mercado “avalia”, o mercado “propõe”, o mercado “desconfia”, o mercado “sugere”, o mercado “reage”. E aí sim, de vez em quando, o tom de voz sobe e o mercado “exige”!! E depois o mercado “ameaça”. O mercado “cai”, o mercado “sobe”, o mercado “se recompõe”. O mercado “se sente inseguro”, o mercado “fica satisfeito”, o mercado “comemora”. O mercado “não aceita” tal medida, o mercado “se rebela” contra tal decisão.

E assim, à força de repetir à exaustão essa fórmula aparentemente tão simples, o que se busca, na verdade, é fazer um movimento de aproximação. Tornar a convivência com um ser que conhece de forma tão profunda a dinâmica da economia um ato quase amical e familiar para cada um de nós. Mas o “mercado” - sujeito de tantos verbos de ação e de percepção - não tem nome! Ele não pode ser achado, pois o mercado não tem endereço. Ele não pode ser entrevistado, pois o mercado nunca comparece fisicamente nos compromissos. Ele tampouco pode ser fotografado, pois o mercado não tem rosto. O que há, de fato, são uns poucos indivíduos que fazem a transmissão de suas idéias, de seus pensamentos, de seus sentimentos. São verdadeiros profetas, que têm o poder de fazer a interlocução entre o “mercado” e o povo. Pois, não obstante a tentativa de torná-la íntima de todos nós, essa entidade não se revela para qualquer um.

Ele escolhe uns poucos iluminados para representá-lo aqui entre nós. Como se, estes sim, tivessem a procuração sagrada para falar em seu nome e representar aqui seus interesses. E aos poucos o que era antes um sujeito, o indivíduo “mercado” também vai ganhando ares de divindade. Tudo se passa como ele se manifestasse exclusivamente por meio de seus oráculos, os únicos capazes de captar e interpretar o desejo do deus mercado. Pois ele pensa, fala, acha, opina, mas não se apresenta para um aperto de mão, ou mesmo para uma prosinha que seja, para confirmar o que andam falando e fazendo em seu nome aqui pelos nossos lados.

Mas, apesar de toda evidente fragilidade da cena construída, não há como contestá-la. O mercado é legitimado por quem tem poder de legitimar. O discurso dos que não acreditam e dos que desconfiam não chega à maioria. Sim, pois aqui tampouco pode haver espaço para a dúvida. Nenhuma chance para o ato irresponsável que seria dar o espaço para o contraditório. A única certeza é de que o mercado sempre tem razão. E ponto final. Assim, todos passam horas na angústia e na agonia para saber como o mercado “reagirá” na abertura das bolsas de valores na manhã seguinte ou para tentar antecipar como o mercado “avaliará” hipotéticas medidas anunciadas para as transações de câmbio na noite da véspera.

O resultado de toda essa construção simbólica pode ser sintetizado na tentativa do convencimento político e ideológico dos caminhos escolhidos para a solução da crise. O mercado “alertou”, o mercado “ponderou”, o mercado “pressionou”, o mercado “exigiu”. E, finalmente, o mercado “conseguiu”. Por todo e qualquer lado que se procure, tentam nos convencer que não havia realmente outra forma possível de evitar o pior dos mundos. Como somos todos mesmo ignorantes em matéria de funcionamento dessa coisa tão complexa como a economia, somos chamados a delegar também as formas de solução para a crise. E, como sempre acontece em nossa tradição, estamos às suas ordens, Dotô Mercado...

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL PEDE SUSPENSÃO DO PROJETO BELO MONTE



Por Alexandre Figueiredo

O Ministério Público Federal - instituição que, por lei, representa juridicamente as populações indígenas do Brasil, além de atender aos interesses dos vários segmentos sociais afetados pela arbitrariedade política e institucional - moveu uma ação com o objetivo de suspender a construção da Hidrelétrica de Belo Monte, que irá afetar negativamente a biodiversidade da região do Alto Xingu, inclusive os índios que vivem no local. Que, por serem poucos, deveriam mesmo assim ter sua área sócio-ambiental preservada.

O texto do documento está a seguir:

"O objeto desta Ação é impedir a construção do Aproveitamento Hidrelétrico (AHE) BELO MONTE, em virtude da inevitável remoção de povos indígenas, do direito das futuras gerações e da natureza; ou a indenização aos povos indígenas JURUNA e ARARA, e ribeirinhos da Volta Grande do Xingu, pelos impactos e perda da biodiversidade."

"AÇÃO CIVIL PÚBLICA AMBIENTAL com Pedido de Liminar em face de: Norte Energia S/A (NESA) – concessionária de Uso de Bem Público para exploração da UHE Belo Monte, CNPJ/MF 12.300.288/0001-07, com sede no Setor Bancário Norte, Quadra 02, Bloco F, Lote 12, salas 706/708 (parte), Edifício Via Capital, Brasília/DF, CEP 70.041- 906."


O documento é ilustrado com um texto de Leonardo Boff, "Carta da Terra", um alerta sobre as ameaças sócio-ambientais encaradas pela humanidade:

"Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numaépoca em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medidaque o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que no meioda uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somosuma família humana e uma comunidade terrestre com um destinocomum. Devemos somar forças para gerar uma sociedadesustentável global baseada no rhttp://www.blogger.com/img/blank.gifespeito pela natureza, nos direitoshumanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz.Para chegar a este propósito, é imperativo que, nós, os povos daTerra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros,com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações."

O documento está reproduzido integralmente no texto de Raphael Tsavkko Garcia, do blogue Angry Brazilian. Raphael milita pelo fim do projeto Belo Monte, pela preservação dos povos indígenas e pela diversidade da fauna e flora do Alto Xingu.

O APARTHEID CULTURAL ESTÁ NO BREGA-POPULARESCO


CLUBE DA ESQUINA - Sofisticação musical do movimento mineiro está cada vez menos acessível ao grande público.

Por Alexandre Figueiredo

Os ideólogos do brega-popularesco, divinizados por uma classe média paternalista que acha que entende de cultura da periferia, já reclamaram daquilo que entendem como "apartheid cultural". Acham que os ídolos "populares" não conseguem um lugar nobre no primeiro time da MPB e, por isso, "não são justamente conhecidos".

Reclamam esses intelectuais que o brega-popularesco "se isola" na apreciação "natural" das classes populares, enquanto a classe média "moralista e preconceituosa" desdenha o sucesso dos ídolos "populares".

Com um discurso mais sentimentalista do que racional - em que pese a sua maciça penetração em monografias, documentários etc - , eles tentam lançar a tese utópica de que, promovendo a integração entre a "MPBzona" e o brega-popularesco, ou a aceitação da vulgaridade televisiva como um "movimento social libertário", a cultura popular "verdadeira" venha a florescer na sua plenitude.

Estão completamente enganados. Ou então estão mentindo para enganar os outros.

Juntar uma cultura de classe média com a "cultura" consumida por suas empregadas domésticas não vai resolver o apartheid cultural existente. Muito pelo contrário, agrava-se ao extremo o fosso cultural entre classes populares e classes abastadas.

Na medida em que setores de classe média passam a aceitar o brega-popularesco, a antiga cultura de qualidade, já isolada nos salões e nos museus, incluindo uma cultura produzida pelas classes pobres no passado, que nada tinha de medíocre ou vulgar, acaba sendo mais isolada ainda.

Afinal, se antes a classe média baixa poderia apreciar uma MPB autêntica ou ter acesso a referenciais sócio-culturais um pouco mais nobres, hoje nem isso mais acontece. Em vez da classe média baixa ter oportunidade, por exemplo, de ler um livro de Carlos Drummond de Andrade, ela é entregue pela mesma imprensa jagunça que a grande mídia despeja para o consumo das classes pobres.

A classe média baixa é entregue ao Big Brother Brasil, ao noticiário policialesco da televisão, às tendências "comportadas" da Música de Cabresto Brasileira ("sertanejo", "pagode romântico", axé-music, ou mesmo ao "funk carioca" mais pomposo), entre outros valores e referenciais duvidosos.

A situação torna-se tão grave que, mediante o acesso das classes populares ao ensino superior, o mercadão da mídia golpista já começa a empurrar vertentes "universitárias" do brega-popularesco, que não passam dos mesmos neo-bregas de sempre turbinados com alguma teoria enciclopédica do pop internacional.

Em outras palavras, um neo-brega que já não espera mais completar dez anos de carreira para iniciar curso trainée de "boa conduta cultural", já vem adestrada por essa técnica.

Enquanto a classe média paternalista comemora por que, finalmente, a "cultura popular" passou a ser "respeitada" pelas elites, o que se vê é o contrário. Coroa-se a mediocridade cultural dominante com o consentimento de uma classe média que tem medo de aumentar o salário de suas domésticas, mas bajula o que elas consomem da TV aberta, do rádio FM e da imprensa "popular", veículos midiáticos que também são controlados por seus baronetes.

Isola-se a cultura de qualidade, que em outros tempos até o povo das senzalas, quilombos e ocas podiam muito bem fazer, na apreciação cada vez mais privativa de profissionais liberais e empresários, de socialites e granfinos, enquanto a mediocridade cultural que as oligarquias midiáticas há mais de 50 anos empurram para as classes pobres agora elevam sua escalada de domínio para classes com alguma qualidade de vida.

O povo pobre não pode mais fazer baiões, sambas autênticos, modinhas, xaxados, lundus. Esses agora são confinados nos museus, para o deleite exclusivo dos grandes condôminos. Não deixa de ser uma infeliz ironia que o baião nordestino seja praticamente uma exclusividade de jovens de classe média do Sul e do Sudeste.

Mas os nordestinos são "brindados" pelo "moderno" caleidoscópio veiculado pela TV, pela imprensa e pelo rádio oligárquicos. E podem "misturar" disco music com merengue e country e colocar sanfona gaúcha em cima, que é o caso do forró-brega. Ou podem "misturar" merengue caricata com Jovem Guarda e, sob o rótulo de "samba-reggae", fazer axé-music. Ou fazer um "sertanejo" composto de raspas de country, mariachis e boleros, que vira "universitário" quando se põe influências estereotipadas de folk rock.

Isso não fortalece a cidadania nem traz benefícios reais para a população. O fosso cultural dificilmente se resolverá quando, de um lado, os ídolos bregas e neo-bregas fazem covers ou gravam duetos de MPB autêntica, ou quando grupos "performáticos" - tipo Conjunto Vazio e Orquestra Superpopular - cortejam o establishment brega e neo-brega.

Antes são as elites passando a mão na cabeça, paternalmente, nas classes pobres que àquelas servem, como dondocas que conversam carinhosamente com seus cãezinhos domésticos. Nenhum benefício social ocorre com essa "inclusão social", porque isso não passa do que o apoio das elites à domesticação sócio-cultural das classes pobres que move o mercado da grande mídia.

É certo que o brega-popularesco possui seus espaços de expressão e apreciação, mas seus próprios ídolos desconhecem isso, na obsessão de "inclusão" no status quo "cultural" que, no plano musical, trata a sigla MPB como um simples título de nobreza para a vaidade pessoal dos bregas e neo-bregas. Tudo para o bem do mercado, mas nada para a Cultura, com "c" maiúsculo, de forte serventia social.

Enquanto isso, nada de lundus, baiões, nada de Bossa Nova nem de Clube da Esquina sequer. A intelectualidade, arrogantemente, "cansou" da MPB que só ela ouvia privativamente e seus jornalistas e cientistas sociais agora passam a "redescobrir" o brega-popularesco numa ilusão semelhante ao que a esquerda dos anos 60 teve com a burguesia nacional.

Naqueles idos de 1960-1964, pensava-se que a burguesia nacional iria tocar para a frente o projeto de revolução social da esquerda brasileira. Mas a burguesia nacional apunhalou as esquerdas pelas costas e, entrincheiradas no IPES-IBAD e outros grupos derivados, pediu o golpe militar que a fez associar-se serenamente ao capital estrangeiro.

Hoje acredita-se que a revolução social das esquerdas se dará pelo "convívio integrado" entre bregas e neo-bregas com a intelectualidade, mas a "breguesia" também irá apunhalar os esquerdistas pelas costas, como aliás já fizeram vários ídolos, como a Banda Calypso e todo o "funk carioca".

A "breguesia" usa a mídia esquerdista como trampolim para forjar sua falsa imagem de coitadinha. Mas, depois, todo mundo vai apunhalando os caros amigos e desfila triunfante nas páginas da Folha de São Paulo e na telinha da Rede Globo, sem qualquer escrúpulos de abraçar fraternalmente celebridades engajadas no direitismo militante do Instituto Millenium.

Pois não existe apartheid cultural pior do que aquele que priva a cultura de qualidade para as classes populares e que obriga a intelectualidade a apoiar essa mediocrização cultural, enquanto reserva para si própria as preciosidades culturais das quais o povo não tem acesso.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A RENÚNCIA DE JÂNIO QUADROS



Por Alexandre Figueiredo

A história do Brasil sofreu tantos descaminhos que a gente imagina o que seria do país se certos episódios não tivessem ocorrido.

Até a eleição de Jânio Quadros, em 1960, houve tentativas de arranjar uma sucessão mais tranquila para Juscelino Kubitschek que, apesar da grande popularidade, era constantemente incomodado pela oposição por conta das dívidas que JK causou com a construção de Brasília.

Talvez Juscelino fosse um excelente estrategista político. A princípio desistiu da candidatura do marechal Henrique Lott - o mesmo que garantiu a posse de JK em 1955 - para apoiar a candidatura do udenista Juracy Magalhães, não por amores à UDN, mas como forma de entregar o poder à oposição que, com um governo impopular, abriria depois o caminho para JK vencer as eleições de 1965.

Mas a alternativa de Henrique Lott parecia também mais palatável. Lott era legalista e de vocação nacionalista, mas seu governo talvez não sofresse violenta oposição. A oposição seria forte, na medida em que Lott prometia priorizar a educação pública, mas seria difícil algum golpismo com um militar legalista no comando, governando com a Constituição (de 1946, que vigorava então).

Um governo conservador como o de Juracy Magalhães seria menos agradável, mas causaria um descontentamento diferente do que teve Jânio Quadros. Seria um governo "careta", com muitos retrocessos, mas certamente a UDN, saboreando o poder, talvez perdesse a fúria que sempre a acompanhava nos momentos de oposição política.

Jânio Quadros parecia uma figura simpática do professor que era. Dizem que foi bom prefeito paulistano e bom governador paulista. Mas a Presidência da República pareceu muito para ele, e ele tentou ser conciliador à sua maneira, fazendo uma política interna de direita, mas uma política externa de centro-esquerda.

A oposição ficou maluca. Carlos Lacerda, que apoiou Jânio em sua campanha presidencial, foi ver o presidente para pedi-lo explicações sobre sua postura "esquerdista" na política externa e a instabilidade do governo dentro do país, enquanto pretendia também solicitá-lo a ajudar financeiramente a Tribuna da Imprensa, o jornal do governador da Guanabara, que, sabemos, foi um grande jornalista. Conservador e reacionário, mas que escrevia e falava muito bem.

Mas Jânio queria ficar com uma amante, e mandou Lacerda embora para falar com o ministro da Justiça Oscar Pedroso Horta. Lacerda ficou furioso. Achou que foi traído e foi para a televisão dizer que Jânio Quadros pretendia fazer um golpe. Sabe-se que Jânio, como governador paulista, havia apoiado Lacerda naquele golpe de 1955 para impedir a posse de Juscelino, e que tinha o pouco iluminado Carlos Luz, o presidente interino, como um dos artífices. O mesmo golpe desfeito pelo contragolpe do general Lott.

Pois tivemos o governo de Jânio Quadros, dotado de um estranho populismo conservador e moralista, os bilhetinhos etc. E aí Jânio renuncia em sete meses de mandato e Jango prorrogando a estadia no exterior para que o clima esfriasse, porque a oposição não queria sua posse e os ministros militares ameaçavam prendê-lo se chegasse ao país.

Tivemos a crise política de 1961. Tivemos a opção de um parlamentarismo vesgo só para tentar "domar" Jango. E aí tem o plebiscito que aprovou a volta do presidencialismo, mas Jango só irritou a direita com as reformas de base que a classe média não estava preparada para enfrentar (ainda não existia os pseudo-esquerdistas na época; Eugênio Raggi, anti-socialista e anti-varguista, teria sido um udenista assumido), e ainda havia a Guerra Fria no exterior, com reflexos no Brasil.

Aí foi turbulência atrás de turbulência (que, não esqueçamos, veio desde o segundo governo de Getúlio Vargas), até vir o golpe militar que fez atrasar o país.

Daí que até agora estamos reconstruindo o país e retomando o rumo que quase perdemos em 1961 e que perdemos em 1964.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

PATRULHAS SE MULTIPLICAM NA INTERNET



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O reacionarismo virtual não é novidade alguma. Existe patrulhamento até em comunidades no Orkut contra ídolos brega-popularescos. Houve até o caso antológico de Zezé di Camargo & Luciano exibirem pretenso humanismo nas telas de cinema e na mídia, enquanto adeptos da dupla rastrearam quem não apreciava a dupla na Internet para fazer bullying digital.

Há miniaturas de Comando de Caça aos Comunistas, AI-5 de bolso, mini-José Serra e mini-Jair Bolsonaro defendendo o "estabelecido", desde o jornalismo político até o entretenimento. Convém tomarmos cuidado com eles.

Patrulhas se multiplicam na internet

Por Carlos Castilho - Observatório da Imprensa

A internet está perdendo cada vez mais o seu ar idílico para se aproximar cada vez mais da dura realidade do quotidiano das sociedades da era industrial. Bastou o mundo tomar conhecimento de que os manifestantes londrinos usaram intensivamente o sistema de mensagens eletrônicas dos telefones Blackberry para que a polícia britânica contra-atacasse com o Flickr, para identificar os participantes dos protestos que convulsionaram a capital inglesa.

O Blackberry foi largamente usado pelos jovens manifestantes porque é um sistema criptografado e que oferece mais segurança no tráfego de mensagens entre telefones fabricados pela empresa canadense RIM. O Blackberry tornou-se famoso por ser usado por executivos, mas depois caiu no gosto da garotada porque cria redes e é grátis para quem tem um telefone desta marca. Foi com ele que os protestos em Londres foram coordenados, surpreendendo a polícia britânica que ficou totalmente desorientada diante da rapidez com que os manifestantes mudavam de planos e de estratégias.

A resposta policial veio quando a Scotland Yard resolveu levar a repressão para o ambiente virtual ao postar no site Flickr fotografias de manifestantes e pedindo para que as pessoas os identificassem para fins de captura. É uma das primeiras vezes em que a prática do denuncismo e patrulhamento pessoal é levada para a internet de forma oficial, usando as redes sociais.

Processos sociais

Em junho passado, no Canadá, surgiu uma amostra das consequências das novas milícias cibernéticas quando sites sociais como Facebook e Twitter publicaram fotografias de suspeitos de participação nos conflitos de rua e depredações de lojas após um jogo de hóquei no gelo, o esporte mais popular do país. Surgiu então uma verdadeira caça às bruxas com postagens anônimas e acusações generalizadas, onde muitos espectadores da partida e transeuntes inocentes acabaram sob suspeita.

Dezenas de pessoas receberam ameaças – até de morte – por parte de donos de lojas saqueadas após o jogo, sem que houvesse provas concretas de participação nos distúrbios. Páginas na web se multiplicaram na área de Vancouver com acusações mútuas e ameaças recíprocas, num espetáculo de violência virtual descontrolada que levou o jornal Vancouver Sun a uma amarga confissão de culpa por ter divulgado endereços web relacionados às denúncias. A polícia canadense assistiu impotente ao salve-se quem puder virtual.

Como a internet é um território que muitos consideram sem lei, os vigilantes e milicianos online tendem a se multiplicar rapidamente. É quase impossível impor uma regulamentação estrita sobre o que pode e não pode ser feito na web. Isto coloca a sociedade diante da necessidade de buscar fórmulas inovadoras cujos resultados não são rápidos e muito menos infalíveis. É um novo desafio que começa a se delinear nesta era digital que apenas estamos começando a conhecer em detalhes.

Culpar a internet é o mesmo que responsabilizar o mensageiro por uma notícia ruim. Não resolve nada e só confunde ainda mais a questão. Impor regras draconianas também não vai impedir o surgimento de patrulhas digitais, porque o problema é de natureza social. A ausência de leis na internet apenas evidencia uma situação que é anterior à rede e que só poderá ser resolvida por processos sociais, entre os quais a autorregulação deverá jogar um papel transcendente.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

FALSA ANTROPOFAGIA CULTURAL



Por Alexandre Figueiredo

Nem tudo é antropofagia cultural. A assimilação de influências estrangeiras na música brasileira ocorre de duas formas: quando a ótica local prevalece e quando a ótica estrangeira prevalece.

Muitos pensam que qualquer influência estrangeira assimilada no Brasil é necessariamente uma antropofagia cultural, porque em muitos casos a mediocridade artística de certos fenômenos nacionais expressa uma fraca identidade local, em frouxas expressões da cultura local.

Esta mediocridade cultural mostra expressões caricatas que não revelam uma regionalidade forte, mas muito antes um provincianismo caricato, subordinado ao poder radiofônico e televisivo, formas de transmissão dos valores neoliberais para as populações pobres.

A antropofagia cultural, pensada por Oswald de Andrade, só ocorre quando a influência estrangeira, podendo ser até um estilo todo estrangeiro, é introduzida mas subordinada à linguagem nacional. Como foi o caso do Rock Brasil, que se moldou em linguagens bem brasileiras.

Não sejamos ingênuos em dizer que isso ocorre necessariamente porque o produto cultural é expressado em língua portuguesa e por brasileiros. No entanto, os ideólogos do brega-popularesco - pretensa "cultura popular" que, provinciana e entreguista, une o coronelismo local com o neoliberalismo associado ao poder dos EUA - tentam desconversar de outra forma.

É como pode-se ver nos argumentos desesperados de Pedro Alexandre Sanches em prol dos seus queridinhos do tecnobrega. Ele tenta dizer que o estilo "é muito mais do que mera influência estadunidense". O texto dele sobre o tecnobrega, em especial Gaby Amarantos - que, depois de brincar de Beyoncè, promete brincar de Clara Nunes, Elis Regina ou Gal Costa - , intitulado A Índia Negra Branca do Pará é um típico exemplo disso.

Neste texto, como num outro mais recente, Sanches tenta definir o brega-popularesco como algo "bem brasileiro". Mas o "lindo texto" sobre Gaby Amarantos é, na verdade, um desfile dos delírios etnocêntricos do jornalista, e o longo texto não é mais do que uma coleção de referências que só existem na imaginação do colonista-paçoca.

Afinal, se o "povão" do Pará não conhece Itamar Assumpção, muito menos Oswald de Andrade. Só Sanches conhece, e ele apenas emprestou uma visão paternalista para definir um reles estilo da música comercial, que se serve puramente do cardápio radiofônico das FMs controladas por oligarquias nacionais ou regionais. Só isso.

Ouvindo com muita atenção os sucessos popularescos, nota-se que eles não vão muito além da influência estadunidense. Apenas traduzem as influências numa linguagem superficialmente local, que não produz conhecimento nem valor artístico. São apenas sucessos para consumo momentâneo.

Não há como creditar uma criatividade que não existe. Estilos brega-popularescos são marcados pela "linha de montagem", onde a "matéria prima" vem de fora, dos valores dos filmes enlatados, da mediocridade sensacionalista da TV aberta, dos sucessos fáceis do rádio, geralmente hits, blockbusters, modelos de programação comercial de TV de Miami, tudo isso assimilado sem a menor visão crítica sequer.

Na antropofagia cultural, a assimilação do elemento estrangeiro é feito de forma crítica. Não é um mero capricho de "traduzir localmente" o que vem de fora, mas verificar criticamente o elemento estrangeiro, assimilá-lo não de forma subordinada, é ver o exterior mas sem deixar de enxergar o que há dentro do seu lugar.

O brega-popularesco sofre uma espécie de hipermetropia cultural. Se vê muito bem o que passa lá fora, pelo filtro populista e sensacionalista da TV aberta e das rádios FM. Mas se vê muito mal o que se passa por perto.

Como quem vê cabelo em ovo, os ideólogos do brega-popularesco veem criatividade onde ela inexiste, e ainda reclamam daquilo que dizem ser "preconceito", que é a rejeição que os ídolos que tocam nas rádios "do povão" (mas de propriedade de grupos oligárquicos nacionais ou locais) sofrem.

Só que o maior preconceito que tais ideólogos sentem é contra eles mesmos. Eles tentam minimizar as coisas, deixando questões estéticas de lado. Mas eles é que são preconceituosos consigo mesmos, porque não percebe que o brega-popularesco não compartilha das nobres informações que seus ideólogos tão habilmente dizem possuir.

Até agora as pessoas que ouvem o tecnobrega estão pouco se lixando sobre o tal do "dotô osváldi".

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O SENTIDO DO CINEMA DE GLAUBER ROCHA


GLAUBER ROCHA NO COMEÇO DA CARREIRA.

Por Alexandre Figueiredo

Glauber Rocha foi um dos diretores peculiares não somente do cinema brasileiro como também do cinema mundial. Sua visão sem igual e sua breve carreira causaram muita polêmica, mas marcaram história pela sua qualidade e pelo vigor de pensamento de seu diretor, produtor e roteirista.

Glauber foi um repórter do Jornal da Bahia - jornal de centro-esquerda queo barão midiático baiano Mário Kertèsz assassinou sob ordens de ACM - que também teve o hoje escritor e colunista João Ubaldo Ribeiro na sua equipe jornalística. Glauber mal havia entrado na maioridade e fazia reportagens policiais.

Mas, frequentador de cineclubes e cinematecas - num tempo em que se contestava o cinema comercial norte-americano, décadas antes da infeliz ideia do TeleCine Cult de creditar o "cinemão de Hollywood" de "alternativo", em total desrespeito ao telespectador, que é enganado de graça (de graça, não, pois ainda tem que pagar o pacote de TV por assinatura, ainda que pela gatonet) - , Glauber também tinha uma forte visão crítica da teoria cinematográfica, e queria ser diretor para pôr suas ideias em prática.

Glauber é conhecido por três filmes que marcaram a década de 1960: Barravento (1961), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967).

Meu pai chegou a ver pessoalmente algumas filmagens de Barravento, vendo inclusive o ator Antônio Sampaio, o hoje famoso e ativo Antônio Pitanga, grande ator e cineasta, que também vive seus momentos de sogro desejado em virtude da solteirice da belíssima e charmosa filha Camila Pitanga. Antônio Pitanga hoje prepara um filme sobre os Malês, negros escravos e muçulmanos que viveram em Salvador.

Barravento é, da trilogia glauberiana, um filme urbano-provinciano. Conta a história de um jovem que, vindo do "Sul" - eufemismo que os nordestinos definem como o eixo Rio-São Paulo - , se choca com o provincianismo da comunidade de pescadores de sua origem. O filme, em preto e branco, inclui até mesmo um número de samba-de-roda, para os desavisados que pensam que o estilo se carateriza pelo caricato "pagodão erótico" dos dias de hoje.

O curioso é que Barravento quase não seria um filme de Glauber. Entre 1958, início do planejamento de produção e 1959, época do começo das filmagens, o filme teria como diretor Luís Paulino dos Santos, que havia produzido uns curta-metragens sobre a vida em Salvador. Só que Luís Paulino era apaixonado pela atriz do filme, Sônia Pereira, e ele, namorando-a, dá atenção exagerada a ela.

Sabendo disso, Glauber Rocha, o jovem membro da equipe técnica, diz ao produtor Rex Schindler que vai demitir Luís Paulino da direção. Faz e toma o seu lugar. O roteiro é reescrito por Glauber e José Telles de Magalhães. O filme é finalizado em 1961, mas só começou a ser exibido nos cinemas no começo do ano seguinte.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, é o "mais maçante" filme de Glauber, por sua história se passar no sertão nordestino. É uma crítica à alienação e ao fanatismo religiosos, e ao desejo de "justiçamento" das populações rurais oprimidas. É considerado o primeiro grande sucesso de Glauber, que a essas alturas lança um ensaio, A Estética da Fome, que expressa seu perfil de pensador de cinema.

Foi nessa época que ele populariza a expressão "Cinema é ter uma câmera na mão e uma ideia na cabeça". Na trilha sonora, o próprio Glauber teve seus poemas musicados por Sérgio Ricardo.

Terra em Transe, de 1967, é o filme mais urbano do diretor. Dizem que o filme inspirou o Tropicalismo, mas creio que foi além disso. O enredo faz uma crítica à hesitação intelectual "de esquerda", sobretudo em relação aos jornalistas, que se dividem entre o conservadorismo comercial, o tendenciosismo político e o idealismo "combativo" de esquerda.

O Glauber Rocha dos anos 70 parece mais excêntrico ainda. Essa fase é duramente criticada. Houve até um mal-entendido de um comentário que o cineasta baiano fez aprentemente em favor do general Golbery do Couto e Silva. Consta-se que o comentário "de apoio" não seria mais do que uma ironia diante da personalidade controversa do diretor.

Glauber era excêntrico e seus filmes dos anos 70 mostravam isso. Essa fase é até mais complicada para os cinéfilos iniciantes, embora a trilogia de 1961-1967 seria uma forma de introduzir às produções "mais difíceis".

Glauber Rocha também foi apresentador de TV do programa Abertura, da TV Bandeirantes, cujo logotipo - um olho com o céu na pupila - havia me assustado muito, naquela minha infância de nove anos, em 1980. E, como apresentador, mostrava o seu lado polêmico e seu jeito firme de falar e dizer suas opiniões.

O cineasta foi um dos que melhor viveram o perfil de cinema de autor, um cinema que mostra o cineasta como pensador, e cuja produção, embora não siga uma sequência episódica entre um longa e outro, sempre segue uma proposta de pensamento de seu diretor.

O diretor morreu cedo, aos 42 anos de idade, gravemente doente. Estava abalado com o falecimento da irmã, a bela atriz Anecy Rocha, em 1977, ao cair de um poço de elevador. Seu último trabalho foi A Idade da Terra, de 1980.

Glauber, entre várias atividades, fez em 1966 um documentário irônico sobre José Sarney, na posse deste ao governo do Maranhão. Maranhão 66 teria sido feito a pedido do próprio governador, mas o diretor subverteu a tarefa, mostrando imagens de prisões, comunidades pobres e doentes de hospitais enquanto o hoje presidente do Congresso Nacional fazia seu discurso como governador empossado, numa grandiloquência comparável a Odorico Paraguaçu, da obra O Bem Amado.

Nos últimos anos, houve documentários sobre Glauber que enriquecem a compreensão do cineasta. Rocha Que Voa, do filho Erik Rocha - que, corajosamente, criou uma polêmica com os diretores da Conspiração Filmes, acusados de fazer "cinema novinho e bonitinho" - , de 2002, que aproveita o som de uma entrevista antiga do cineasta e relata sua experiência no exílio em Cuba, e Glauber - Labirinto do Brasil, de 2004, de Sílvio Tendler, que entre outras coisas mostra a cerimônia de enterro do diretor.

Numa época de muita mediocridade e de muita cara-de-pau, uma figura como Glauber faz muita falta. Numa época em que os idiotas de plantão acham que "cinema de autor" é Steven Spielberg talvez Glauber, se tivesse vivo, não deixasse sequer os "ezecutivos" do TeleCine Cult venderem Rolyud como se fosse "cinema alternativo".

domingo, 21 de agosto de 2011

O KYLOCYCLO E MINGAU DE AÇO RECEBERÃO COMENTÁRIOS NO TWITTER



A partir de hoje, os blogues O Kylocyclo e Mingau de Aço deixarão de receber comentários no Blogger e passarão a receber comentários no Twitter respectivo de cada um.

Será uma forma do comentarista poder ser lido por um número maior de pessoas que frequenta a famosa rede social virtual. Só é preciso economizar os comentários, ou dividi-los em frases curtas de até 140 dígitos e lançá-las aos poucos, em cada vez.

Mesmo assim, essa nova fase interativa mostra-se mais vantajosa, porque é no Twitter que muitos debates públicos estão sendo feitos. Não devemos superestimar as redes sociais, mas o Twitter hoje exerce sua função de fórum virtual, sendo o espaço usado por vários sítios da Internet para a publicação de comentários dos internautas.

Esperamos vocês em @okylocyclo e @mingaudeaco!! Felicidades a todos!!

GANA: EM BUSCA DA "MULHER IDEAL": CONHEÇA A JORNALISTA E BLOGUEIRA LINDA ANNAN



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Esta é uma entrevista com uma blogueira e jornalista de Gana, a belíssima Linda Annan, comprometida com o ativismo social e que é editora da revista eletrônica Obaasema. Ela também colabora para o portal Global Voices, que publicou uma entrevista com ela.

Gana: Em Busca da “Mulher Ideal”: Conheça a Blogueira e Jornalista Linda Annan

Do portal Global Voices

Apesar de ter o mesmo sobrenome de um ganense mundialmente famoso, Linda Annan não tem parentesco com o ex-Secretário Geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Linda é uma jornalista e blogueira ganense que contribui para o Global Voices Online a respeito da blogosfera em Gana.

Linda fundou e edita Obaasema, uma revista on-line para mulheres. Obaasema significa “mulher ideal” em Twi, uma língua ganense. Iniciada em 2006, a revista possui um website, um canal YouTube, uma versão televisiva on-line, uma página no Facebook, e também está no Twitter.

Linda nasceu em Gana, mas mudou para os Estados Unidos em meados de sua adolescência. Enquanto nos Estados Unidos, obteve o grau de Bacharelado de Artes em Comunicação Corporativa, assim como uma segunda habilitação em Jornalismo na Faculdade Bernard M. Baruch em Nova Iorque. Recentemente, Linda retornou a Gana e trabalha com as mídias e comunicações.

Nesta entrevista com Steve Sharra, Linda fala sobre blogs, a paixão por partilhamento de conhecimento e empoderamento de mulheres, a revista Obaasema e todas as outras coisas que ela realiza na Internet.


Steve Sharra (SS): Para dar início à nossa entrevista, conte-nos sobre você. Quem é Linda Annan? Você tem o mesmo sobrenome de um ganense global, o ex-Secretário Geral das Nações Unidas Kofi Annan. Você tem algum parentesco com ele?

Linda Annan (LA): Sou uma jornalista e especialista em comunicação, ganense, e tenho uma paixão por política e ativismo que envolvam o empoderamento de mulheres e de jovens, assim como por várias questões sociais relacionadas à África. Não, não tenho parentesco com Kofi Annan, embora sejamos ambos de um mesmo grupo étnico, o dos Fante.

SS: Onde você nasceu, onde você cresceu e onde você mora atualmente?

LA: Eu nasci e cresci em Gana, onde vivi até meados da minha adolescência. Depois disto, fui morar nos Estados Unidos; acabei de mudar para Gana, três meses atrás.

SS: O que a trouxe de volta a Gana, e o que você faz agora?

LA: Foi sempre meu desejo voltar para Gana em algum momento; a questão era quando deveria ser este momento? Este ano pareceu adequado, já que meus planos haviam caído por terra, e Gana está madura, agora, para o tipo de projeto que eu queria iniciar. Além disto, a meta, desde que lancei a Obaasema, era de um dia, eventualmente, lançá-la em Gana e em outros países africanos. Agora é chegado o momento de iniciar estas mudanças. O que estou fazendo agora: trabalho como Consultora Associada num firma de Comunicações Integradas de Marketing [Integrated Marketing Communications, em português].

SS: Você mantém uma presença notável on-line, começando com Obaasema, a revista que você fundou e edita. Conte-nos sobre o porquê e como você fez para dar início à revista.

LA: Obrigada. Dei início à revista poucos meses após ter me formado na faculdade. Em geral, adoro inspirar e empoderar as pessoas, e já que acredito no poder das palavras e sou apaixonada pela questões femininas, fazia sentido que usasse este meio para alcançar meus objetivos. Partilhar conhecimentos é outra coisa que adoro fazer e a revista on-line parecia ser a plataforma perfeita para fazê-lo naquele momento. Assim, também, na pós-graduação notei a necessidade de uma plataforma que fornecesse mensagens de empoderamento e de inspiração para jovens africanas como eu, utilizando vários canais. Pelo fato de ser algo que eu queria muito ter em minha vida naquele momento e sabia que outras mulheres apreciariam e se beneficiariam com isto, decidi criar a revista Obaasema. O nome “Obaasema” por si só já carrega muito peso. Em língua ganense Twi, é traduzida como “mulher ideal” - a mulher que eu pretendia ser e a mulher que quero convidar toda mulher a aspirar a ser. Qualquer que seja a interpretação que ‘ideal' tem, é definitivamente de ter sua raiz fincada em conteúdo.

SS: Quem é seu público leitor da revista? Onde se encontram os limites de seu alcance até aqui?

LA: O público alvo para a Obaasema é a mulher africana, embora qualquer um estaria certo em afirmar que as questões referentes à mulher transcendem fronteiras territoriais. Nossas leitoras não são somente mulheres africanas ou mulheres de descendência africana; temos um público on-line global. A mulher Obaasema pode tanto ser a mulher posicionada em escalões superiores de um ambiente corporativo, tomando decisões maiores, quanto a artista que cultiva com beleza a sua habilidade ou mesmo a mulher no vilarejo que não possui qualquer conhecimento de seus direitos. Todas estas mulheres precisam de estímulo e necessitam ser empoderadas em diferentes níveis para se tornarem as mulheres que foram criadas para ser. É aí que entra a revista Obaasema. Posso dizer, honestamente, que temos sido capazes de cumprir com a missão principal da Obaasema, qual seja, a de inspirar e empoderar, embora, com certeza, há mais trabalho a ser feito. Por meio dos comentários feitos por nosso público sabemos que as pessoas tem sido desafiadas a se conectar consigo mesmas e lutar por coisas que tenham conteúdo, independente de ter a ver com suas relações com as pessoas, suas relações consigo próprias ou a realização daquele sonho. Me faz feliz ver que nossas contribuições para com a sociedade tenham chegado tão longe.

SS: Conte-nos sobre seu trabalho para o Global Voices Online [en]. Como você deu início a ele?

LA: Eu vim a saber do Global Voices Online em 2009 e achei que era um incrível recurso de notícias. Eu adoro a diversidade da equipe do GV e queria fazer parte disto; tenho escrito itens relativos à política que coloca Gana em foco. Não tenho tido como contribuir por algum tempo, mas espero fazê-lo ativamente em breve.

SS: Você tem um blog, Abi speaks [en]. O que te fez pensar em iniciar o blog?

LA: Sou muito opiniática e, como mencionei antes, adoro partilhar conhecimento com as pessoas. “Abi Speaks” é outra plataforma que uso para fazer isto. Ela me possibilita escrever livremente sobre meus pensamentos sem as limitações de, por exemplo, Obaashema, que é uma publicação oficial. Além disto, “Abi Speaks” é minha maneira de criar uma outra voz, uma voz pessoal, fora da Obaasema.

SS: Em 2007 você foi destaque no Black Star News, como Empreendedora do Dia. Como o BSN ficou sabendo de você? O que o fato de ter sido destaque no website do BSN trouxe para você?

LA: Black Star News me encontrou on-line e se aproximou de mim para conseguir uma entrevista. O destaque que me deram trouxe um certo grau de exposição à Obaasema, com certeza, principalmente porque ela era bem nova na web naquele momento.

SS: O que você acha interessante na blogosfera ganense?

LA: Eu gosto da vibração; a ousadia exibida em partes é emocionante e indica que os ganenses estão avançando nesta área de ‘liberdade'. Os blogueiros aqui são bastante ativos; eles promovem encontros e parecem ter construído amizades entre si como resultado.

SS: Por fim, quais são suas ambições futuras para a Obaasema? E para você mesma?

LA: Nos próximos meses, Obaasema Online passará por uma renovação para recuperar a energia ligada à publicação. Depois que tivermos alcançado o ponto que queremos com esta nova direção, uma ação se seguirá no sentido de lançar a versão impressa da revista na África. Ambições para mim mesma: minha carreira em Comunicações está tomando uma direção que não havia previsto, de uma forma bem boa, e estou aprendendo a relaxar e ver até onde Deus me levará nesta área. Enquanto isto, pretendo explorar ainda mais outras plataformas em mídia para ajudar a Obaasema a passar para o próximo nível.

sábado, 20 de agosto de 2011

HOJE É DIA DE PROTESTOS CONTRA A HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE



Por Alexandre Figueiredo

Ser progressista, atualmente, não significa estar do lado do progresso técnico, que muitas vezes resulta em retrocessos sociais.

A construção da hidrelétrica de Belo Monte, numa área da Amazônia, irá destruir uma reserva indígena importante, que até por ter apenas 200 índios é algo que devemos nos preocupar, porque só são eles que estão para contar e mostrar o legado de gerações passadas que viveram na região.

A construção da hidrelétrica é um dos equívocos políticos do governo Dilma, por clara influência das alianças políticas que encamparam o projeto que, na verdade, é herança do regime militar, sobretudo da Era Geisel (que, pelo jeito, deve simbolizar os verdadeiros "anos dourados" para muitos dos seus interessados).

Portanto, o dia 20 de agosto de 2011 é o dia dos protestos mundiais. Os movimentos sociais, em favor da preservação ambiental e da preservação social dos povos indígenas, que representam a memória original de nosso país, irão se manifestar em todo o mundo, em protesto contra a ganância tecnocrática, empresarial e politiqueira.

Cabe a nós participarmos de uma forma ou de outra do movimento. Nem que seja pelo tuitaço.

Raphael Tsavkko Garcia, um dos engajados na campanha, com certeza receberá mensagens de protesto contra Belo Monte em seu Twitter: http://twitter.com/#!/tsavkko.

Vamos lá!

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O CAMINHO PERIGOSO DO "REVISIONISMO"



Por Alexandre Figueiredo

A cada vez mais, o setor cultural torna-se mais vulnerável às manobras da mídia direitista através de seus herdeiros que vestem a máscara de "dissidentes".

Durante muito tempo uma geração de intelectuais e celebridades ficava feliz com os rumos do neoliberalismo brasileiro, e, na década de 90, apoiaram Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Muitos desses intelectuais beberam das fontes da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso e leram autores neoliberais que variam de Roberto Campos a Francis Fukuyama.

Mas, nos últimos cinco ou dez anos, essa gente, por alguma divergência insignificante, aparentemente "rompeu" com o direitismo em que se situavam confortavelmente e passaram a se autoproclamar "de esquerda" com encenada convicção.

Só que isso cobra um preço que, no Governo Federal, se vê através de retrocessos como o fracasso do Plano Nacional de Banda Larga - ontem houve um segundo tuitaço (manifestação digital no Twitter) pedindo o cumprimento das metas originais do PNBL - e a defesa da hidrelétrica de Belo Monte, projeto herdado do regime militar e que ameaça destruir uma das comunidades indígenas remanescentes.

O preço também está na corrupção que atinge os bastidores do governo Dilma, resultante de acordos políticos que agora mostram suas desvantagens com escândalos ocorridos em ministérios como o do Transporte e o do Turismo.

Mas o assunto não é esse, é o revisionismo que setores da intelectualidade "de esquerda" promovem em relação à nossa história cultural e que pode representar um caminho "lento, seguro e gradual" para a volta do demotucanato ao poder.

Sabemos que os ídolos "cafonas", que eram explicitamente a trilha sonora do "brasil grande" ditatorial, agora são considerados "vítimas" do regime militar.

É até engraçado que hoje falam da imagem "idealizada" de Chico Buarque como "vítima da ditadura" (como se ele nunca tivesse relação com o pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, de uma brilhante geração de intelectuais que realmente pensava o país e pensava pelo país), dizendo que a imagem foi criada pela RCA Italiana.

Mas é a mesma intelectualidade que forjou, com muito menos realismo mas caprichando no sentimentalismo fácil, a imagem de "vítimas da ditadura" dos ídolos cafonas, que, na pior das hipóteses, só eram convidados pela Censura Federal a explicar o sentido de determinadas letras. A campanha "revisionista" é tão risível que chega a atribuir a letra de "Torturas de Amor", de Waldick Soriano, a um protesto contra a ditadura.

Ora, ora, em que país nos vivemos? A canção de Waldick foi gravada em 1962, quando o regime militar era apenas uma ideia emergencial da direita brasileira e dos EUA, mas tudo parecia às mil maravilhas com o controverso João Goulart presidindo num regime parlamentarista.

Recentemente, circula uma versão de que a ditadura militar "foi muito, muito popular", principalmente durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici. Ora, isso é como dizer que o AI-5 era uma nova declaração dos direitos humanos feita no Brasil.

E isso numa época em que o povo brasileiro reivindica a verdade histórica do tempo do regime militar. Só que os oportunistas de plantão, protegidos sob a máscara de uma intelectualidade divinizada, mais contribuem para a inverdade histórica.

E, da mesma forma que usaram a defesa de Tati Quebra-Barraco para neutralizar toda a campanha contra as baixarias na mídia, agora usam Waldick Soriano para neutralizar qualquer esforço pela verdade histórica de um passado relativamente recente de nosso país.

PERSUASÃO

Historicamente, sabemos que a "popularização" do governo Médici foi condicionada por uma campanha midiática, associada às grandes empresas, num segundo processo de persuasão maciça feito pelas classes conservadoras do país, com o apoio, até explícito, das multinacionais e do Departamento de Estado dos EUA, que mandava recursos para o IPES-IBAD, o Instituto Millenium dos anos 60.

O primeiro processo de persuasão foi entre 1961 e 1964, quando a direita conseguiu convencer a sociedade brasileira de que o projeto nacional-popular de Jango (similar ao que vimos no governo Lula) era inviável e que o bom mesmo é o Brasil virar marionete político-econômica dos EUA. No segundo processo de persuasão, em 1969, falava-se que o Brasil era o "país grande" que rumava para vencer a Copa do Mundo e se tornar a oitava economia mundial, e que para isso teria que apoiar o "governo revolucionário".

O PERIGO DO REVISIONISMO ACRÍTICO

Pois o grande perigo do revisionismo acrítico é que certos oportunistas - uns com capacidade tão habilidosa de argumentação que se tornam "endeusados" pela capacidade de tocar fundo nas emoções ocultas da classe média paternalista - podem tratar a História como uma massa de modelar, fazendo-a da forma que quiserem.

É um risco muito antigo, afinal o passado é algo que não acontece mais no momento, e muitos dos personagens, mortos, não podem mais dar seu testemunho, enquanto que há outros que, mesmo vivos, podem mentir para livrar-se de encrencas pelo que fizeram.

Por isso moldar o passado é muito fácil, quando artífices começam a argumentar da maneira que podem - se preciso, até com xingações ou ironias - para que o relato histórico não esteja de acordo com a coerência possível dos fatos (ainda que sob diversas interpretações), mas conforme o "historiador" deseja que tivesse acontecido.

Se há dez anos atrás os ídolos cafonas que animavam o Brasil de Médici foram transformados em "vítimas" dele, e agora Emílio Médici foi promovido a um "ídolo tão carismático quanto Lula", o que esperaremos das futuras manobras revisionistas de nossa intelectualidade tão "santificada"?

Já falam que os ídolos do sambrega da Era Collor eram "vítimas de preconceito". Tentaram, em 2005, reabilitar Fernando Collor como um "estadista moderno", numa campanha que ressoou no Orkut e na revista Isto É. Amaury Jr. tentou reabilitar Paulo Maluf. O arenista Mário Kertèsz criou uma rádio toda para vendê-lo sob a falsíssima imagem de "radiojornalista intelectual de esquerda". O próprio "funk carioca de raiz", tão tolo em 1990, hoje vende a falsa imagem de "canção de protesto".

E o que virá depois? Fernando Henrique Cardoso voltará a ser lembrado como o "maior estadista que o Brasil já teve", e daí para dizer que José Serra foi "vítima de preconceito" nas urnas é um pulo. De repente Pimenta Neves, talvez postumamente, volte a ser lembrado como um "feminista", Guilherme de Pádua como um "grande ator" e Nicolau dos Santos Neto como "um eminente jurista".

Mas os "arautos da direita" somos nós, que contestamos o estabelecido, mesmo com todos os seus absurdos. Alegria, Alegria, vamos chorar a trajetória de Waldick Soriano. Juntemos forças para, daqui a 15 anos, recarregar José Serra nos nossos braços. Sob as bênçãos da Opus Dei e da Solange Gomes vestida de freira pornô.
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