terça-feira, 31 de maio de 2011

LOBÃO DESVIA SEU MAU HUMOR PARA A DIREITA



Por Alexandre Figueiredo

Certos iconoclastas até aparecem com ideias interessantes, mas depois exageram no mau humor reacionário.

O músico Lobão é um desses exemplos, quando, em reportagem da Folha de São Paulo, hoje, atacou a Música Popular Brasileira e ainda chamou a esquerda brasileira de "rancorosa e invejosa". Exagerando na iconoclastia, Lobão parecia estar com mau humor suficiente para criar polêmica por si só, pela vontade gratuita de chocar a opinião pública.

Temos que colocar os pingos nos "is". É claro que não vamos investir numa benevolência à indústria cultural e seus totens, como também não vamos derrubar os mestres da MPB como quem pratica um vandalismo. O mau humor exagerado, a indignação sem causa, acaba fazendo muita gente migrar para a direita.

E Lobão, conivente com os torturadores que "só arrancavam umas unhazinhas", parece esse tipo. A qualquer momento, o cantor carioca vai chorar suas mágoas no Instituto Millenium, que virou uma espécie de lavanderia para direitistas revoltados ou para neocons de primeira hora.

É bom lembrar que Lobão, apesar de sua iconoclastia que alterna momentos de lucidez e de intransigência, havia apoiado o funqueiro Mr. Catra, um oportunista que vendia sua imagem de "anti-mídia" ao mesmo tempo em que se tornava queridinho do Luciano Huck, na Rede Globo. Num desvio em prol da condescendência, Lobão havia demonstrado simpatia pelo cantor Amado Batista, numa época em que era moda qualquer artista ou celebridade adotar um ídolo brega como se fosse sua mascote, achando que vai promover "inclusão social" com isso.

A "mediocridade galopante" da música brasileira existe, seja em alguns artistas menos criativos da "fase burguesa" da MPB, seja pelo brega-popularesco que usa o rótulo de "popular". Mas se ser um iconoclasta turrão é reacionarismo, também é outra manobra direitista bancar o todo-bonzinho com aqueles que realmente são medíocres na nossa música.

É o caso do "direitista do bem" Pedro Alexandre Sanches, que promove uma visão etnocêntrica da periferia, bem ao gosto dos barões da grande mídia que o treinaram, junto à intelectualidade tucano-uspiana de FHC e companhia.

Afinal, se Lobão atacando João Gilberto e Chico Buarque soa direitista, também é direitismo analisar a cultura popular dissolvendo Francis Fukuyama, Roberto Campos e Auguste Comte em divagações tropico-paçoquianas, ignorando que muito dessa suposta "cultura da periferia" tem o patrocínio direto do mesmo poder latifundiário que manda matar agricultores, e que todos os ritmos brega-popularescos são tocados em rádios controladas por políticos e grandes fazendeiros.

Pois não é, por exemplo, alguém achar Parangolé e Psirico "geniais" só porque foram vítimas de racismo que vai resolver o problema da mediocridade ou vai fazer qualquer analista da música brasileira virar um bastião da generosidade humana. A iconoclastia extrema e a condescendência também tornam-se igualmente nocivas para a sociedade.

Mudando de enfoque: não deixa de ser curioso que os "desafetos" Lobão e Caetano Veloso agora navegam pelo mesmo plano ideológico.

GRUPO FOLHA INVENTOU FALSA ANALOGIA ENTRE ÚLTIMA HORA E NOTÍCIAS POPULARES



Por Alexandre Figueiredo

Se alguém acredita na analogia do jornal carioca Meia Hora com o Pasquim e no jornal Última Hora com qualquer veículo da imprensa policialesca, pode agradecer ao Octavio Frias de Oliveira, o falecido chefão da Folha de São Paulo antes de se aposentar e entregar o comando ao seu rebento Otávio Frias Filho.

Pois foi o Grupo Folha, que mal havia fundido os jornais Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite, transformando-os na atual Folha de São Paulo - mas, ao lado desta, tendo ressuscitado a Folha da Tarde até 1999 - , que se apropriou do copyright da edição paulistana do jornal Última Hora, já em 1965.

O fundador da UH, Samuel Wainer, já não controlava mais o jornal. Até porque isso era impossível. Wainer estava engajado na defesa de uma corrente política, o trabalhismo de Vargas e, também, pela sua continuidade representada por João Goulart, e por isso era considerado um "criminoso" entre tantos durante o então nascente regime militar.

Wainer havia sofrido problemas com a acusação, de parte de Carlos Lacerda, de que não era brasileiro, mas um estrangeiro naturalizado, nascido na Bessarábia, condição que lhe impedia legalmente de possuir um jornal. A acusação rolou na primeira metade dos anos 50.

É um daqueles casos de um grupo jornalístico conservador deter os direitos de copyright de um periódico ideologicamente oposto. Ainda que o Grupo Folha tenha investido num jornal aparentemente "esquerdista", como a Folha da Tarde, só para garantir a relativa autonomia de profissionais esquerdistas como Cláudio Abramo, numa época em que os militares ainda faziam um arremedo de "democracia".

Afinal, ainda era uma época de uma imprensa que mostrava muitos talentos progressistas, como Cláudio Abramo e seu irmão Perseu Abramo, Sérgio de Souza, Paulo Patarra, Milton Severiano, Mino Carta e outros. E que mesmo a grande imprensa empregava-os não por uma questão de cumplicidade, mas porque tinha que apostar na aparente independência editorial.

E, se tínhamos uma Última Hora que fazia um jornalismo autenticamente popular e por isso valorizando a inteligência, sem apelar para o sensacionalismo, depois tivemos uma Realidade que elevava o jornalismo ao nível da arte, juntando informação honesta com narrativa literária. E tivemos o Pasquim, que não era só um jornal de humor, mas também de ensaios literários, análise política, entrevistas substanciais e muitas, muitas dicas culturais.

PARA O PiG, IMPRENSA POPULAR TEM QUE SER BURRA

A mitificação que, por isso mesmo, ronda a imprensa popularesca, que se autopromove com falsas analogias ao Pasquim e Última Hora, surpreende certos leitores menos informados da mídia progressista, e tal deslize agrada e tranquiliza os barões da grande mídia, para os quais é perigoso oferecer inteligência às classes populares.

Por isso defendem uma imprensa "burra", a partir de pretextos bastante contraditórios. Afinal, a imprensa policialesca nunca é oficialmente definida como imprensa humorística, mas é a desculpa do "humorismo" que é acionada quando acusam esse tipo de imprensa de fazer mau jornalismo. E muito trouxa cai nessa.

Por isso este blogue, Mingau de Aço, apavora ainda algumas elites enrustidas, por defender uma cultura popular diferente dessa forma caricatural que se vê na TV aberta e nas rádios FM. Mesmo aquelas elites que disfarçam seu conservadorismo com o mimetismo "progressista" nas leituras de Caros Amigos e Carta Capital, do Conversa Afiada e Brasilianas.Org.

É uma elite que se diz "amiga do povo" mas cuja visão de classes populares é bem menor do que o quarto que ela reserva para suas empregadas domésticas. No fundo, é uma visão feita apenas para agrados pragmáticos a empregadas, porteiros e garis, desde que estes se condicionem a padrões de entretenimento determinados pelo mercado e pela mídia.

Por isso, essa elite - que no fundo vivia feliz nos anos 90 endeusando FHC e lendo a Folha de São Paulo - expõe volta e meia seus preconceitos "justoveríssimos" que creditam, entre outras coisas, a imprensa popularesca como se fosse a "genuína imprensa popular". Só veem as periferias nas telas de TV, mas acham, arrogantes, que a conhecem a fundo.

Quem está feliz com isso são os barões da grande mídia que, promovendo uma falsa reputação cult a Notícias Populares e talvez prepare alguma badalação similar se caso o Meia Hora falir, ainda conseguem fazer prevalecer a visão, equivocada mas verossímil, de que o povo "é mais povo" quando domesticado e manipulado pelo brega-popularesco.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

MAIS GRAVE QUE O JÁ GRAVÍSSIMO: RURALISTAS VAIAM ANÚNCIO DE MORTE


DONA MARIA E ZÉ CLÁUDIO - Mortos a mando do latifúndio, que ainda se achou no "direito" de vaiá-los no Congresso Nacional.

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O militante político Alípio Freire escreveu um manifesto contundente, enviado para Raphael Tsavkko Garcia, sobre a absurda atitude de parlamentares esnobarem as mortes de um casal de trabalhadores rurais, Zé Cláudio e Dona Maria, mortos numa emboscada armada por fazendeiros e pistoleiros. É algo extremamente lamentável, e os ruralistas ainda falam em moralidade nos seus comícios. Dá para acreditar?

MAIS GRAVE QUE O JÁ GRAVÍSSIMO: Ruralistas vaiam anúncio de morte, por Alípio Freire

Por Alípio Freire, com texto introdutório de Raphael Tsavkko Garcia - Blog do Tsavkko - The Angry Brazilian

O texto abaixo é do companheiro e grande lutador Alípio Freire que, para muitos, dispensa apresentações.

Ex-guerrilheiro da ala Vermelha, fundador do PT e jornalista dos bons, enviou por e-mail e me autorizou a publicar.
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Segue abaixo, no entanto, algo que não poderia adiar, pois não vi veiculado em nenhum veículo, seja da grande mídia comercial, seja do que chamamos de mídia popular e/ou independente: sem dúvida é intolerável que, além de seus pares terem mandado assassinar o casal Cláudio-Maria no Pará, os senhores ruralistas, depois de anunciado o crime no plenário da Câmara Federal, tenham se manifestado com vaias.

Por muito menos (incomparavelmente menos, apesar dedeplorável), a deputada do Partido dos Trabalhadores e ex-prefeita de São José dos Campos, senhora Ângela Moraes Guadagnin, teve seu mandato cassado por falta de decoro parlamentar, em conseqüência do episódio que ficou conhecido como “A Dança da Pizza” – cena que até hoje pode ser encontrada no Google.

Ou seja, não devemos apenas divulgar amplamente mais este crime (vaia) dos ruralistas, mas exigir junto aos senhores deputados (especialmente aqueles do Partido dos Trabalhadores e da suposta “base aliada”), a investigação rigorosa do episódio, e a cassação dos mandatos dos autores da manifestação.

Quando representantes de um dos poderes da República aplaudem um crime (e o fazem oficialmente, pois no plenário da Câmara Federal), ultrapassamos todos os limites. E, acreditem, ainda não é o que se costuma dizer “o fundo do poço”. Até porque esse poço não tem fundo, exceto se tivermos força para colocar um.

Peço a tod@ companheir@ que tenha acesso a deputados, que pressionem seus representantes nesse sentido, bem como aqueles que tenham contatos junto ao Executivo (sobretudo a ministros) que façam o mesmo.

Da minha parte, procurarei faze-lo.

A ausência de medidas punitivas é cimplicidade.

É ser cúmplice da legitimação e legalização da iniqüidade, é trasformar (escancaradamente e sem volta) que o Brasil não tem um Câmara Federal, mas um clube de celerados.

Putabraço para tod@s,

Alipio Freire

Instituto Humanitas UNISINOS

http://t.co/jCohXdP via @addthis

25/5/2011

Ruralistas vaiam anúncio de morte

Era perto das 16h quando uma cena grotesca aconteceu no plenário da Câmara dos Deputados. O líder do Partido Verde, José Sarney Filho, lia uma reportagem sobre o extrativista José Cláudio Ribeiro da Silva, brutalmente assassinado pela manhã no Pará, junto com sua mulher Maria do Espírito Santo da Silva, também uma liderança amazônica. Ao dizer que o casal que procurava defender os recursos naturais havia morrido em uma emboscada, ouviu-se uma vaia. Vinha das galerias e também de alguns deputados ruralistas.

A indignidade foi contada no Twitter e muito replicada. "Foi um absurdo o que aconteceu", diz Tasso Rezende de Azevedo, ex-diretor geral do Serviço Florestal Brasileiro. "Ficamos estarrecidos".

A reportagem é de Daniela Chiaretti e publicada pelo jornal Valor, 25-05-2011.

O assassinato de Zé Claudio, como era conhecido, e de Maria do Espírito Santo aconteceu às 7h da manhã, a 50 km de Nova Ipixuna, sudeste do Estado, na comunidade de Maçaranduba. "Eles vinham no carro deles, indo para a cidade. Tinha uma ponte meio danificada no igarapé. Ele desceu para ver e ali foi a emboscada", conta Atanagildo Matos, diretor da regional Belém do Conselho Nacional das Populações Extrativistas, o ex-Conselho Nacional dos Seringueiros. Zé Claudio foi morto fora do carro, Maria foi baleada dentro do veículo. Uma orelha foi arrancada pelos pistoleiros, conta Atanagildo, o primeiro a ser avisado por Clara Santos, sobrinha de Zé Claudio.

O casal vinha sofrendo ameaças desde 2008. "É um área muito tensa, que vinha sofrendo muita pressão de madeireiros e carvoeiros", conta Atanagildo. "Era a última área da região com potencial florestal muito bom. Zé Claudio e Maria resistiam muito ao desmatamento." Os dois viviam em Nova Ipixuna há 24 anos, em um terreno de 20 hectares no Projeto de Assentamento Agroextrativista (Paex) Praialta- Piranheira, às margens do lago de Tucuruí. Extraíam óleo de andiroba e castanha. Em palestra em novembro, no evento TEDx Amazônia, Zé Claudio denunciava o desmate. "É um desastre para quem vive do extrativismo como eu, que sou castanheiro desde os 7 anos da idade, vivo da floresta e protejo ela de todo jeito. Por isso, vivo com a bala na cabeça, a qualquer hora".

Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência estava no Fórum Interconselhos quando um dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) deu a notícia. Foi ao Palácio, relatou à presidente Dilma Rousseff e ela determinou ao ministro da Justiça José Eduardo Cardozo que a Polícia Federal apure o assassinato dos sindicalistas.

PALCO DE NOVO CRIME, PARÁ LIDERA RANKING E SOMA 800 ASSASSINATOS NO CAMPO


José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram enterrados na quinta (26) no Cemitério de Marabá (PA)

COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Já dá para entender a quem interessa o violento contraste entre o entretenimento caricatural do forró-brega e do tecnomelody paraenses e a realidade explosiva do interior do Pará. É para os latifundiários manterem seu poder de influência em todo o Estado, sem excluir a capital, e distrair o "povão" para que ele se esqueça de seus próprios dramas. Mas é difícil o povo esquecer seus mortos nessa verdadeira guerra no campo, onde os grandes fazendeiros acabam vencendo, lamentavelmente.

Palco de novo crime, Pará lidera ranking e soma 800 assassinatos no campo

Em 2010, Estado concentrou mais da metade das mortes registradas em conflitos rurais

Por José Henrique Lopez - Portal R7

O assassinato dos líderes extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, ocorrido na última terça-feira (24) em uma estrada no leste do Pará, está longe de ser um caso isolado.

Nos últimos anos, o Brasil se acostumou a enterrar vítimas da violência no campo. Somente no Pará, nas últimas quatro décadas, mais de 800 pessoas perderam a vida em crimes cometidos no ambiente rural, segundo a CPT (Comissão Pastoral da Terra). De todos esses casos, apenas 18 foram a julgamento. Oito pessoas foram condenadas, e somente uma cumpre pena.

São histórias que se repetem. Os que tombam, quase sempre, são pessoas que entram em choque com interesses de latifundiários, fazendeiros e madeireiros ao levar adiante sua luta pelo acesso à terra e pela preservação da natureza.

Foi assim com o seringueiro Chico Mendes, morto a tiros em casa em 1988, no município de Xapuri, no Acre. Foi assim com os 19 sem-terra brutalmente assassinados pela Polícia Militar do Pará em 1996, no mundialmente conhecido massacre de Eldorado dos Carajás. Foi assim com a missionária americana Dorothy Stang, morta a tiros em 2005 na cidade de Anapu, também no Pará.

E foi assim agora, com José, que tinha 54 anos, e Maria, de 53, baleados na manhã de terça em uma estrada na zona rural de Nova Ipixuna. A polícia desconfia que o casal foi vítima de uma tocaia e que o crime foi encomendado. A presidente Dilma Rousseff ordenou à Polícia Federal que investigue o caso.

Ainda no fim de 2010, em uma palestra sobre a Amazônia, José advertiu que corria risco. Duas semanas antes do crime, ele e Maria encaminharam ao Ministério Público uma denúncia de crime ambiental contra três madeireiras.

- A mesma coisa que fizeram no Acre com Chico Mendes querem fazer comigo, a mesma coisa que fizeram com irmã Dorothy Stang querem fazer comigo. Posso estar conversando hoje com vocês e daqui um mês vocês podem saber a notícia que eu já faleci.

Números

No ano passado, de acordo com levantamento da CPT, foram registrados 1.186 conflitos no campo brasileiro, dois a mais que em 2009. O dado mais alarmante, porém, refere-se ao número de assassinatos: 34, um aumento de 30% em relação ao ano anterior, quando 26 pessoas morreram por questões agrárias.

O Pará é o Estado que lidera as estatísticas. Lá, em 2010 foram registradas 18 mortes, mais que a metade do total relativo ao Brasil inteiro.

O cenário é o mesmo quando se consideram os dados da Ouvidoria Agrária Nacional, do Ministério do Desenvolvimento Agrário: o levantamento apontou 63 homicídios no campo entre janeiro e dezembro de 2010, sendo 11 deles decorrentes de conflitos agrários. Destes 11, o Pará foi o palco de sete.

O advogado José Batista Afonso, que trabalha para a CPT em Marabá, cidade que está na região leste do Estado, lembra que o triste quadro de violência rural na região é perpetuado devido a um misto de fatores que reflete algumas das principais mazelas do Brasil: pobreza, concentração de renda e acesso desigual aos serviços públicos, principalmente à Justiça.

- A reforma agrária não é prioridade, mexer na concentração da terra não é uma política prioritária por parte do governo, e outro fator é o atual modelo econômico imposto para a Amazônia e para o campo brasileiro, que privilegia o agronegócio, o setor madeireiro e de mineração.

A impunidade, diz ele, exerce ainda um papel especial, pois beneficia tanto quem mata como quem manda matar e acaba por banalizar a rotina de crimes.

- Aqui, nessa região, o crime compensa. Muitas vezes, aqueles que cometem os crimes e são donos do poder econômico, a Justiça dificilmente os alcança. A impunidade acaba virando regra em relação aos crimes que eles cometem. A impunidade é uma espécie de licença para matar.

domingo, 29 de maio de 2011

JOSÉ REINALDO: ABAIXO AS KÁTIAS ABREUS E RONALDOS CAIADOS DA VIDA!



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Aldo Rebelo deve estar com um frio na espinha. Afinal, o deputado do PC do B paulista escreveu o texto para o novo Código Florestal tentando agradar os latifundiários. Pois, sob o poder do latifúndio, um militante do PC do B, Adelino Ramos, o Dinho, sobrevivente do massacre de Corumbiara (RO), ocorrido em 1995, foi morto por um motociclista diante da esposa e duas filhas.

Adelino estava vendendo verduras, quando ocorreu o crime. Ele foi morto menos de uma semana depois do casal Zé Cláudio e Dona Maria, num assentamento no Pará.

José Reinaldo: Abaixo as Kátias Abreus e Ronaldos Caiados da vida!

Dinho, como Paulo Fonteles, é vítima do latifúndio assassino

por José Reinaldo Carvalho, editor do Vermelho, sugestão de Urariano Motta

Escrevo sob impacto de forte emoção. O sábado transcorria tranqüilo, quando recebi telefonema do camarada Renato Rabelo, presidente do PCdoB, informando-me que Adelino Ramos, o Dinho, assassinado na véspera por sicários a serviço de madeireiros e latifundiários, era militante do Partido.

O ato de banditismo tinha sido noticiado por algumas agências, mas nenhuma informava sobre a militância do camarada nas fileiras comunistas, sua opção de luta e vida desde 2007. É o terceiro assassinato de lideranças da luta no campo ao longo da semana.

Não conheci pessoalmente o Dinho, mas o telefonema do Renato tornou inevitável a associação com o assassinato do saudoso amigo e camarada Paulo Fonteles. Lembro-me como hoje. Não era um sábado, mas um dia de semana, uma quinta-feira. Estávamos o camarada Aldo Rebelo e eu confabulando na sede do Comitê Estadual do Partido de São Paulo, na rua Condessa de São Joaquim, quando recebemos, por telefone, a triste notícia. Conversávamos muito. Temos uma eterna contradição – ele palmeirense , eu corintiano. E total unidade quanto à necessidade de encontrar os meios e modos para conquistar a emancipação nacional e social do povo brasileiro. Sob a direção de João Amazonas, e com o concurso também do Zé Carlos Ruy, redigiríamos, quase década e meia depois, o documento do Partido em homenagem ao povo brasileiro pela passagem dos 500 anos do assim chamado Descobrimento (22 de abril de 1500).

Lembro-me, também como hoje, do discurso do camarada Sérgio Miranda na reunião do Comitê Central, do qual ele foi membro destacado durante décadas, em que homenageamos o Paulo. O Sérgio, impenitente humanista, em sua exemplar ética comunista, falava das qualidades de lutador do Paulo e do seus dons, como homem e poeta, seu amor à vida, seu sonho de liberdade e vida livre e coletivista. Sonho, mas um sonho vivo no exemplo dos nossos mártires. Sonhos que permanecem, na memória que não se apaga. E de um Partido que permanece em nosso ideal e corações.

Voltando ao dia de hoje, valemo-nos dos meios de que dispomos, e uma hora depois do telefonema, já tínhamos na capa do Vermelho a informação básica sobre o sacrifício do camarada Dinho e as repercussões da sua morte. Ressalto a presteza do camarada Renato, o exemplo que dá sobre a importância de circular com rapidez a informação. Além de orientador e dirigente, o presidente foi também “repórter”.

Atenção, dirigentes intermediários, atenção sucursais : mirem-se no exemplo! Com sua atitude, o Renato me remeteu a outra reminiscência, a do estilo de trabalho do Amazonas. Dizia o velho João: “Direção concreta, este é o nosso estilo”. Bela recomendação e belo exemplo para nossa política e prática de organização e de quadros.

No assassinato de Paulo Fonteles, como agora, ainda insepulto o corpo do Dinho, como em todas as demais situações semelhantes – assassinato de Sebastião e Canuto, ambos do Pará, e de centenas, milhares de mártires do latifúndio assassino – reagimos, o Renato, o Aldo, este escriba, milhares e milhares de camaradas e outros companheiros de outros tantos mártires – com indignação, mas não só.

Os comunistas, inclinamos nossas bandeiras em sinal de respeito aos nossos mortos, para depois reerguê-las, em posição mais alta, junto com os nossos punhos cerrados, para gritar com a mesma revolta dos camponeses e de todo o povo: Abaixo o latifúndio assassino!

Fica por minha conta o desabafo que segue: Abaixo as Kátias Abreus e Ronaldos Caiados da vida, com seus valhacoutos, as CNAs e UDRs!

O Brasil precisa urgentemente de reforma agrária, no quadro de outras tantas reformas estruturais democráticas, indispensáveis ao nosso desenvolvimento, progresso e salto civilizacional. Precisa punir os assassinos e seus agentes. Não pode haver um Brasil urbano, dos direitos humanos, da participação popular e da democracia, e um Brasil rural abandonado à própria sorte, vulnerável à ação de bandidos, a serviço do latifúndio e de um modelo agrícola e extrativista depredador, espoliador e opressor do povo.

A HORA DO PLANETA, OU A ESTUPIDEZ DO "CONSUMISMO COOL"



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Consumismo não é cidadania. Mas "consumismo cool" também não é. O "movimento" Hora do Planeta tem até algumas virtudes, mas não é uma iniciativa que deva se levar muito a sério, até porque ela não afeta os interesses dos grandes poluidores do planeta, não passando de um mero "ambientalismo de butique", como lembrou Raphael Tsavkko Garcia na revista Bula.

A #Horadoplaneta, ou a estupidez do "consumismo cool"

Por Raphael Tsavkko Garcia - Blog do Tsavkko - The Angry Brazilian

O fenômeno da #Horadoplaneta é apenas um “gancho”, mas se encaixa perfeitamente em outros (ou todos) os movimentos de sofá promovidos pela classe média para tentar mudar o mundo sem sair do lugar.

Por mudar o mundo, compreende-se o de fazê-los ter mais tempo ou mais possibilidades de consumir, passando a ideia de que o fazem de forma responsável, mesmo que, no fim, não mude em nada as relações de produção ou mesmo a mentalidade classe mediana de seus impulsores.
Consumo ou consumismo sem culpa. Uma contrapartida inócua que, de quebra, ainda os fazem sentir-se como parte de um grupo que se importa com o mundo — mas não com as pessoas.
"A #Horadoplaneta é tipo, vamos criticar consumismo, mas só por 1h enquanto usamos nosso iPad para dizer ao mundo o quanto cool nós somos."
Tuitei isso em resposta a um camarada, no Twitter, que disse: "Vem cá, lógico q apenas isso ñ ajuda em nada, mas qual o problema de aproximar pessoas ao tema e fazê-las repensar p/ serem + sustentáveis?".
Se não ajuda em nada, já temos um problema, pois a ideia é vendida como se desse algum resultado. Só isto resolverá metade dos problemas do mundo.
Mas, não pensemos em termos de "sucesso material" e sim na ideia de "fazer repensar para serem mais sustentáveis". Isto, meus amigos, é o novo mantra do "ambientalismo de butique" que Marina Silva vende tão bem. No caso dela realmente de butique, lembram-se da Natura. Ela ainda carrega um algo mais de exotismo, ao juntar o fanatismo evangélico na jogada, mas é apenas para atrair ainda mais adeptos.
É aquele ambientalismo que joga tinta em modelos com casacos de pele, mas usa camisas descoladas de empresas com trabalho escravo. Mas a camisa foi feita com algodão orgânico — plantado por crianças pobres da Guatemala. Não agride à natureza — só ao ser humano.

É a substituição do ser humano pelos animais, em alguns casos, como uma ONG que surgiu das trevas ha algum tempo defendendo o suicídio coletivo da humanidade para não criarmos problemas para a natureza. Até hoje não sei se era "séria". Até onde o termo permite, claro.

A hora do planeta passa a mensagem de que as pessoas — e não as grandes companhias — são responsáveis pelos problemas de "sustentabilidade", de energia, de água e etc. É a ideia de que meia dúzia de adolescentes são responsáveis pelas agruras do mundo e que, apagando a luz por uma hora, ou usando papel higiênico duas vezes, dos dois lados, vão mudar o mundo, quando o problema está em todo um modelo econômico e na gestão dos meios de produção.

A ideia central deste ambientalismo cool é que você nem precisa sair de casa pra mudar o mundo. Pode apenas tuitar que fez a diferença enquanto apaga a luz — mas usa baterias de lítio no celular — e muda o mundo.

Pra que sair às ruas e exigir uma mudança efetiva de sistema? Ou melhor, a maioria sequer sabe o que significa o sistema capitalista! O interesse é usar uma "ecobag" com alguma marca chique, mostrar pras amigas e amigos e esperar pelo lançamento do mais novo iPod ou iPad no mercado. Mas sempre exigindo que estes consumam menos energia ou não maltratem os cavalos exóticos da Mongólia — mas se for trabalho escravo de crianças na China não tem problema, eles tem muitas crianças lá!

Este tipo de "manifestação" passa a imagem errada de "revolução do sofá", sem crítica ao modelo e ao consumismo em si. Na verdade sem crítica alguma que faça a diferença.

MINISTÉRIO ACRESCENTA 7 CIDADES À LISTA DOS MAIORES DESMATADORES



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O Código Florestal, infelizmente, tornou-se brando na punição aos fazendeiros que praticam desmatamento. A pressão dos ruralistas provocou tal alteração, o que mostra o quanto é complexa a base de apoio do Governo Federal, nem sempre um apoio incondicional, movido mais pelas conveniências, o que obriga o governo a adotar medidas anti-populares por causa dessa pressão.

Ministério acrescenta 7 cidades à lista dos maiores desmatadores

Municípios do Pará, Maranhão, Mato Grosso e Amazonas foram incluídos.
Fiscalização será reforçada para combater devastação da Amazônia.

Por Eduardo Carvalho - Globo Natureza

Decreto do Ministério do Meio Ambiente incluiu nesta semana mais sete cidades à lista das localidades que mais devastaram o bioma Amazônia.

Passaram a integrar o grupo, que já contabilizava 41 cidades, os municípios de Moju (PA), Grajaú (MA), Boca do Acre (AM), Alto Boa Vista (MT), Tapurah (MT), Claudia (MT) e Santa Carmem (MT). De acordo com o governo federal, que publicou portaria a respeito na última quarta-feira (25), elas terão prioridade na fiscalização de crimes ambientais e em programas de criação de alternativas para a população que vive da exploração ilegal da floresta.
Desmatamento no Mato Grosso (Foto: Reprodução/TV Globo)Desmatamento em MT (Foto: Reprodução/TV Globo)

Para definir a lista, criada em dezembro de 2007, a União utilizou as taxas de devastação da floresta nos últimos três anos e ainda dados do sistema de monitoramento de desmatamento em tempo real da Amazônia Legal (Deter), entre o período de agosto de 2010 e abril de 2011.

Os sete municípios chamaram a atenção a partir dos dados levantados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), responsável pela operação do Deter.

Entre março e abril, 593 km² da floresta Amazônica foram derrubadas. Deste total, 480 km² foram somente em Mato Grosso, estado que foi o principal responsável pela devastação no período e que abriga o maior número de cidades na lista de alerta (22).

Disputa
Alto Boa Vista é a cidade mato-grossense com o maior foco de desmatamento detectado em abril na Amazônia Legal, com uma área de 68,8 km² dentro da Terra Indígena Maraiwatsede, - o equivalente a 43 vezes o Parque Ibirapuera, em São Paulo. A reserva é palco de uma disputa entre fazendeiros e índios xavantes.

No mesmo estado, Tapurah registrou desmates com a utilização de correntes de aço gigantes. A técnica, conhecida como ‘correntão’, é empregada por fazendeiros na derrubada ilegal de grandes árvores e na limpeza de propriedades.

De acordo com o Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente), centenas de árvores nativas, entre elas o Jatobá, Cambará e a Itaúba, são derrubadas pela corrente, que ganha força ao ser puxada por um trator. A região fica em uma área de transição entre o Cerrado e a Amazônia, área que já foi explorada no passado e agora sofre novo ataque.

Gabinete

Para tentar reduzir o desmatamento, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, anunciou um gabinete de crise com medidas de reforço na fiscalização feita pelo Ibama e a participação das Forças Armadas no combate aos crimes ambientais.

Veja a lista dos 48 municípios que mais desmatam a Amazônia, segundo o MM:

Amazonas: Lábrea, Boca do Acre
Mato Grosso: Alta Floresta, Alto Boa Vista, Aripuanã, Brasnorte, Claudia, Colniza, Confresa, Cotriguaçu, Feliz Natal, Gaúcha do Norte, Grajaú, Juara, Juína, Marcelândia, Nova Maringá, Nova Ubiratã, Paranaíta, Peixoto de Azevedo, Porto dos Gaúchos, Santa Carmem, São Félix do Araguaia, Tapurah, Vila Rica
Maranhão: Amarante do Maranhão
Pará: Altamira,Brasil Novo, Cumaru do Norte, Dom Eliseu, Machadinho D´Oeste, Nova Bandeirantes, Marabá, Moju, Nova Mamoré, Novo Progresso, Novo Repartimento, Pacajá, Rondon do Pará, Santa Maria das Barreiras, Santana do Araguaia, São Félix do Xingu, Tailândia, Ulianópolis, Itupiranga
Rondônia: Pimenta Bueno, Porto Velho
Roraima: Mucajaí

sábado, 28 de maio de 2011

DILMA ROUSSEFF, PALOCCI E OS OMELETES



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Difícil o Governo Federal, na gestão petista, ter uma base de apoio aparentemente eclética e predominantemente conservadora. Isso causa sérios problemas no percurso. E, para satisfazer certos aliados - como a bancada evangélica, cujo lobby é fortíssimo - , Dilma teve que recuar em certas posturas. E, agora que a bancada ruralista é também "aliada", o Código Florestal também representou outro retrocesso, beneficiando os latifundiários em muitos pontos.

Dilma Rousseff, Palocci e os omeletes

Por Rodrigo Vianna - Blogue Escrevinhador

A defesa de Palocci já custou caro para o governo: primeiro os ruralistas aprovaram o Código Florestal, em troca de não apertar o cerco ao ministro consultor; depois, Dilma cedeu à pressão da bancada religiosa e suspendeu o kit contra preconceito do Ministério da Educação. Esse foi o custo, no curto prazo.

Mais grave é o que pode ocorrer no médio prazo: a dissolução da base social que apoiou Dilma na eleição. Isso sim é grave, gravíssimo.

Os sinais já estão nas redes sociais. A militância que defendeu Dilma bravamente contra Serra durante a campanha suja de 2010, essa começa a abrir mão de apoiar o governo… O quadro pode ser revertido? Pode, com mudança de rumo. No ritmo atual, Dilma caminha para uma situação preocupante.

Muita gente há de de lembrar 2003. Primeiro ano de mandato de Lula. O governo parecia paralisado: juros nas alturas, Reforma da Previdência, parte da base social do petismo abandonava Lula. Palocci tentava acalmar o “mercado”. Era preciso. O Brasil estava às portas da bancarota. E aquele era um governo de coalizão, que ninguém se enganasse.

Lula perdeu algum apoio, mas não todo, e se recuperou. Antes, entretanto, teve que enfrentar a crise do Mensalão em 2005. A velha imprensa tentou fazer daquele o “escândalo mais grave da história”. Não era. Havia gente disposta a derrubar Lula entre os demotucanos. Isso havia. Bornhausen que o diga. Sabe por que não tentaram pra valer? Porque Lula tinha base social…

Quando o caldo entornou em 2005, não foram os banqueiros de Palocci que deram sustentação a Lula. Mas a base organizada. Assim como foi essa base, ou o que restou dela, que ajudou a enfrentar o PIG em 2006 e a onda conservadora insuflada por Serra em 2010.

O PT tomou um susto com os 20 milhões de votos de Marina? Se Dilma seguir no ritmo atual, o susto será dobrado em 2014… Quem vai defender o “legado” de Dilma?

Dilma encontrou a casa relativamente arrumada depois da vitória. Não precisava pagar o pedágio que Lula pagou em 2003. Mas escolheu fazê-lo. Levou Palocci ao centro do governo. E agora é ele que se agarra à presidenta, arrastando o governo para um redemoinho que, a médio prazo, pode tragá-lo.

E não é só isso. Vejamos. Em apenas cinco meses, quanta coisa desandou:

- retrocesso na política externa;

- retrocesso no Ministério da Cultura;

- derrota no Código Florestal;

- recuo no kit contra o preconceito.

O dado positivo do governo até agora, em minha humilde opinião: a política econômica. Mantega e o BC enfrentaram o repique da inflação sem ceder à chantagem mercadista. Foram bombardeados (e o bombardeio, dizem, teria partido de Palocci). Resistiram. A condução não liberal da economia (legado do segundo mandato de Lula) foi mantida por Dilma.

Lula, ao fazer determinadas escolhas ao longo de 8 anos, perdeu parte da base tradicional petista. Mas compensou as perdas com o tal “subproletariado” de que falou Andre Singer num já célebre artigo. Essa turma do subproletariado premiou Lula (e seus anos de bonança econômica) com a eleição de Dilma. Essa turma está se lixando pra Palocci, é verdade. Mas na hora em que o bicho pega não é essa turma (menos orgânica) que sustenta governo na rua. É a militância. E a militância, a mesma que o PT e Dilma desprezaram no primeiro turno e que mesmo assim evitou a vitória de Serra no segundo, essa está entre decepcionada e furiosa.

As escolhas de Dilma nesse início de governo me lembram um sujeito que tem família muito sólida, mas faz questão de agradar os vizinhos da rua. Deixa a mulher em casa pra ir ao churrasco de um. Depois, esquece de pegar o filho na escola pra ajudar o outro vizinho. E assim vai… Passa o tempo. Um dia ele volta pra casa distraído e descobre que a mulher foi embora e levou os filhos. Sente-se só. Vai bater na casa de um daqueles vizinhos muito amigos, e aí ouve: “cada um com seus problemas…”

Dilma faz a opção de agradar conservadores e religiosos de sua ampla base de apoio. Talvez as pesquisas ainda mostrem a popularidade da presidenta alta, porque essas questões demoram pra se espalhar entre o povão. Mas a base tradicional, mais à esquerda, essa se desmancha. Mas quais sáo os números que indicam isso? Não são números, é a pulsação na rede. Só não vê quem não quer.

O problema é que, quando vier uma crise brava ou quando chegar a eleição de 2014, esses conservadores não estarão com Dilma. Encontrarão outras alternativas. “Cada um com seus problemas” – dirão os banqueiros, os religiosos e a turma do agronegócio. Dilma vai olhar pro lado e perguntar: cadê o meu povo? Aí, pode ser tarde… Omeletes e Paloccis não vão resolver.

Ainda há tempo pra acertar a rota. Veto decidido ao Código Florestal, reorganização da base no Congresso, recomposição do Ministério abrindo mão de alguns nacos conservadores – na base aliada – para fortalecer o núcleo histórico de apoio ao lulismo. Isso tudo poderia ajudar. Mas seria preciso começar pela saída de Palocci.

A escolha parece não ser essa. Os sinais são preocupantes.

ELITES APOSTAM NO BREGA-POPULARESCO PARA FREIAR MOVIMENTOS SOCIAIS


FOTO DE JULIEN LAGARDE MOSTRA MOVIMENTO M-15 NA ESPANHA, PROTESTO POPULAR CONTRA A CRISE POLÍTICO-ECONÔMICA QUE ATINGE O PAÍS.

Por Alexandre Figueiredo

Investe-se pesado nos ídolos da pseudo-cultura popular brasileira, com recursos financeiros aparentemente infinitos. Seus ídolos fazem apresentações cada vez mais superproduzidas. Vários deles fazem turnê no exterior. Outros arrancam verbas públicas através da Lei Rouanet.

Sem falar que cientistas sociais, com a dedicação dos antigos militantes do IPES-IBAD, tentam defender o brega-popularesco como se fosse "a cultura das periferias", com o cinismo de pedir para que desprezemos questões estéticas, um procedimento claro de uma intelectualidade corrompida, que chega ao ponto de brecar o senso crítico, em vez de levá-lo adiante.

A cada vez que eclodem revoltas populares no exterior, seja no Oriente Médio, seja na Europa, as elites brasileiras que controlam o entretenimento entram em ação, para manter as classes pobres quietinhas nas suas "brincadeiras".

Para piorar (segundo a burguesia), esses movimentos nem sempre possuem um caráter ideológico definido, mas tornam-se espontaneamente crescentes, denunciando a opressão capitalista, as injustiças sociais e, no caso de países como Egito e Tunísia, regimes ditatoriais.

Mas na Europa há a revolta contra a figura corrupta e cafajeste do primeiro-ministro Silvio Berlusconi e, mais recentemente, na Espanha, o Movimento M-15, "Democracia Real Ya!" (Democracia Real Já!), comandado por militantes juvenis e difundido pelas redes sociais da Internet.

A crise do capitalismo e a opressão política - sobretudo da parte dos EUA, que ainda mantém uma prisão militar em Guantánamo e trata o prisioneiro Bradley Manning, informante do Wikileaks, da mesma forma que nós conhecemos sobre os presos políticos do período do AI-5 no Brasil - fazem com que tais manifestações eclodam num processo histórico que pode não ser inédito, mas é surpreendente pelos seus próprios contextos.

No Brasil, país onde as tensões sociais também acontecem, um casal de ambientalistas foi morto no mesmo Pará "ensolarado" pelo tecnomelody. O casal José Cláudio Ribeiro da Silva e sua mulher Maria do Espirito Santo da Silva foram assassinados no entorno de uma comunidade próxima a Nova Ipixuna, sudeste do Pará.

O casal teria sido atraído por uma emboscada armada por pistoleiros a mando de fazendeiros locais. Os dois recebiam ameaças de morte. Um dos pistoleiros chegou a arrancar a orelha de uma das vítimas. A ameaça de morte havia sido denunciada por Zé Cláudio antes de morrer.

Na Câmara dos Deputados, quando José Sarney Filho apenas lia a reportagem sobre a morte do casal, um grupo de deputados ruralistas chegou a fazer vaias, em total desprezo às vítimas. Ironicamente, o pai do deputado, senador José Sarney, faz parte dos ruralistas.

É sintomático que, diante de tantas tensões sociais, reacionários e conservadores - as duas denominações se diferem porque aqueles agem na ofensiva, enquanto estes atuam na defensiva - fazem o que podem para evitar o avanço das manifestações sociais do país.

CRIMINALIZAÇÃO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

Não bastasse a grande mídia promover uma imagem depreciativa dos movimentos sociais, reduzindo-os a "hordas de agitadores desordeiros" ou coisa parecida, políticos, empresários e outros membros das elites organizadas chegam a mover processos judiciais contra ativistas sociais que passem por cima de seus interesses.

Mas existem também internautas que despejam sua fúria contra quem questiona o estabelecido. Uns até se dizem "amigos do povo", "solidários à cultura popular", desde que o povo pobre cumpra o papel previsto do "sistema", que é praticamente de bobo-da-corte das elites esnobes e dominadoras.

Uns investem no discurso furioso, no esgotamento de todo seu arsenal argumentativo, de muitos pontos discutíveis, mas construídos de forma verossímil. Quando se esgota, o "argumentador" parte para a ofensiva, xingando ou dizendo desaforos.

A realidade oculta pela grande mídia assusta as pessoas. Levar à luz essa realidade oculta faz com que várias pessoas imaginem que se trata de um "relato rancoroso", lendo textos que contestam o "alegre país" veiculado por Luciano Huck, William Bonner, Fátima Bernardes, Galvão Bueno, Xuxa Meneghel e Fausto Silva.

Mas desde os anos 90 ter senso crítico é algo discriminado pela "sociedade organizada". A expressão da consciência crítica é tida como "radical", "rancorosa", "desesperada", "pessimista", mas isso se deve porque a maior parte das pessoas está acostumada a ter uma perspectiva de país propagada desde os tempos do "milagre brasileiro" da ditadura militar.

GRANDE MÍDIA E BREGA-POPULARESCO: CUMPLICIDADE

O Pará é o "Oriente Médio" brasileiro. Chega a ser curioso que sua capital seja Belém, o mesmo nome da terra natal de Jesus Cristo, e atualmente cidade localizada na Cisjordânia, território palestino ocupado por Israel (país árabe tutelado pelos Estados Unidos).

E se verificarmos o contexto de lutas do campo que envolvem Norte e Nordeste e, por outro lado, da indignação popular que se começa a ter contra a estereotipação cultural do brega-popularesco, nota-se o quanto a reação das elites contra o desgaste dos ídolos brega-popularescos, sejam as musas "calipígias", sejam os músicos da Música de Cabresto Brasileira, toma qualquer tipo de investida para tentar salvar esses ídolos da mediocrização cultural do Brasil.

Investe-se tanto em internautas enfezados quanto numa intelectualidade amestrada tanto pelos delírios pós-caetânicos quanto pelas visões tucano-uspianas de "cultura popular". Os primeiros, com desculpas quase esforçadas mas menos sutis, que no momento extremo se transformam em acusações infundadas ou xingações. Os segundos, com uma retórica "socializante" que tenta até mesmo livrar a culpa da grande mídia pelos fenômenos brega-popularescos.

Afinal, virou moda dizer que esses fenômenos de "grande sucesso popular" surgiram das redes sociais. O que é um erro. Também é outro equívoco que tais "sucessos do povão", seja de qualquer parte do país, causem pavor ou repugnância na grande mídia.

Afinal, descontado um protecionismo elitista da revista Veja e do jornal O Estado de São Paulo, toda a grande mídia apoia e até patrocina tendências como o tecnomelody, o "funk carioca" e tantos outros. E tendências "sofisticadas" do brega-popularesco, como o "sertanejo", o "pagode romântico" e a axé-music, além de alguns ídolos do "funk melody" e do "forró eletrônico", aparecem tranquilamente na revista Caras.

A cumplicidade da grande mídia e do brega-popularesco não deve ser considerada "coincidência", como alegam alguns de seus defensores. Afinal, o tema "cultura" tornou-se o último refúgio da manipulação midiática, diante do bombardeio de denúncias que afetam o noticiário político.

Pouco importa se a ala "concorrencial" da TV aberta e da grande imprensa também divulga os ídolos popularescos. A lógica acaba sendo sempre esta: fazer o que a Rede Globo e a Folha de São Paulo fazem.

Os grupos Folha e Abril e as Organizações Globo também contam com periódicos "populares", que nem por isso fogem do contexto dominante da grande mídia. Pelo contrário, mostra o quanto o modelo oficial de "cultura popular" agrada e muito os interesses dos barões da grande mídia, por manterem um mercado dominante e milionário que existe por trás desses ídolos "populares" e por manter o povo submisso e sob controle do poder político-midiático.

Afinal, interessa às nossas elites que o povo seja culturalmente subordinado, mantido no subemprego, na prostituição e no alcoolismo, consumindo músicas e valores provenientes de uma mídia sub-colonizada e conservadora. Assim, pelo menos dois terços da população brasileira são desestimulados a efetivar os movimentos sociais que apavoram os grandes senhores do capitalismo no seu sentido político e econômico.

Dizer essa realidade gritante, definitivamente, não é "ser rancoroso". É mostrar a verdade oculta dos fatos.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A DISCRIMINAÇÃO DO SENSO CRÍTICO


OTÁVIO FRIAS FILHO - Há 20 anos atrás, falar mal dele era coisa de gente "revoltada demais" com a vida.

Por Alexandre Figueiredo

Desde os anos 90, ter senso crítico virou alvo de autêntico preconceito. Se alguém expressava uma opinião crítica sobre determinado assunto, que ia contra a visão oficial que se tinha do mesmo, era visto como alguém "revoltado demais", que vivia "de mal com a vida", era "rancoroso" e por isso era tido como "anti-social" e outros adjetivos mais mórbidos.

Isso agia em preocupante contradição com o que ocorria nos primeiros quatro anos do regime militar. Pois afinal, se, lá pelos idos de 1965, quando os generais que comandavam a República afirmaram que vieram para ficar, o senso crítico ainda era uma atividade comum na sociedade, enquanto, nos anos 90 eminentemente democráticos, ter uma opinião crítica não passava de uma frustração de revoltados, é sinal de que alguma coisa está errada.

E esse erro vem justamente pelo fato de que o regime militar, sobretudo a partir do "milagre brasileiro" - quando se estabeleceu um paradigma de "nação feliz", a despeito das tensões ocultas pelas circunstâncias - , criou as condições psicológicas para a sociedade que, passando de pais para filhos, fizeram os mais jovens (crianças ou não-nascidos na vigência do AI-5) herdarem dos pais ou demais tutores (mesmo babás e domésticas) os mesmos temores sociais das elites e de parte domesticada das classes populares vividos no apogeu do regime militar.

Nos últimos cinco anos, a situação melhorou muito, porque o senso crítico ensaia uma recuperação gradual. Mas vez que outra surge algum internauta, seja por boa-fé ou por puro reacionarismo, dizer que determinadas abordagens críticas são supostos frutos de algum rancor ou de alguma revolta extrema e, por isso, anti-social.

Grande engano. O problema não é que os textos soam rancorosos ou demasiado indignados. O problema está no fato do leitor assustado desses textos acreditar num país mais dócil, de ter perspectivas sonhadoras e positivistas (no sentido da doutrina de Auguste Comte), que encarar textos críticos causa um grande choque, porque vão contra o "estabelecido".

FOLHA DE SÃO PAULO: UM BOM EXEMPLO

Hoje a Folha de São Paulo é considerada um símbolo da imprensa decadente, retrógrada, quase medieval, e recentemente Raphael Tsavkko Garcia pôde nos alertar até mesmo do apoio que o jornal deu a uma manifestação de grupos neo-nazistas solidários ao deputado Jair Bolsonaro.

Além disso, a Folha pôde mesmo ser parodiada por dois irmãos blogueiros, Mário e Lino Bocchini, através de um blogue que goza com o nome do jornal, "FAlha de São Paulo". Ainda que a Folha tenha reagido com um processo judicial contra os dois, ridicularizar a Folha é um ato socialmente aceito e estimulado. Até o Sr. Cloaca, lá dos Pampas, dá suas beliscadas no periódico paulistano.

Mas houve um tempo em que não era assim. Não fazia muito tempo. Há cerca de 20 anos, a Folha de São Paulo era endeusada, era um totem inatingível, tal qual era José Serra na mesma época.

Eu mesmo notava o entusiasmo com que muita gente lia a Folha de São Paulo, sobretudo uma classe média que arrogava ser "formadora de opinião" e por isso "detentora da verdade" na sociedade dita organizada. Muitas dessas pessoas assinavam com orgulho o periódico paulista, em qualquer parte do país, e se achavam "intelectuais" por causa disso.

Os primeiros textos que contestavam o poder da Folha de São Paulo também eram vistos como "rancorosos", "revoltados demais" ou coisa parecida. Quem com alguma visibilidade tinha coragem de pôr em dúvida o prestígio de Otávio Frias Filho, um homem que até se envolvia com belas mulheres e era tido como um intelectual influente?

Imagine então se alguém parodiasse a Folha de São Paulo tal qual os irmãos Bocchini, ou o jornal fosse "beliscado" de vez em quando por alguém chamado Sr. Cloaca ou mesmo por um jornalista do prestígio de Paulo Henrique Amorim. A "opinião pública" pouco se importaria se esses indivíduos fossem para a cadeia, por desafiarem o prestígio aparentemente inabalável de um jornal considerado por muitos como "heróico".

Imagine então se alguém fosse relembrar o envolvimento da FSP com o regime militar? Não raro surgiria outra pessoa irritada perguntando: "Em que mundo você vive, afinal?", "Hoje são outros tempos, a Folha é o moderno bastião da liberdade humana".

OUTROS TEMPOS

Aparentemente, a Folha de São Paulo havia virado a casaca e se transformado, nos últimos dez anos, num periódico ranzinza e reacionário. Teria abolido até mesmo o único espaço para o pensamento de centro-esquerda no jornal, o caderno Mais!.

Mas um dos dissidentes da Folha de São Paulo, o hoje jornalista de Caros Amigos, José Arbex Jr., havia escrito um capítulo sobre o jornal no livro Showrnalismo: A mídia como espetáculo (Casa Amarela, 2001), dizendo que o "Projeto Folha", projeto aparentemente moderno implantado pela FSP em 1984, foi uma farsa desde o começo.

Arbex escreveu que, entre outras coisas, o jornal passou por uma espécie de "higienização ideológica", expulsando de sua redação jornalistas veteranos de posição esquerdista, substituídos por recém-formados em jornalismo que fossem ideologicamente "neutros".

Dos anos para cá, a própria Folha de São Paulo ajudou a promover sua imagem reacionária, se tornando, em seu noticiário político, quase que um house organ do PSDB. E a cada ano o "moderníssimo" jornal tornou-se um periódico antiquado, e até mais grotesco do que o retrógrado mas elegante Estadão.

E muita gente pode criticar os equívocos da Folha de São Paulo sem que sejam vistas como "revoltadas demais" ou "rancorosas". Ponto para o senso crítico.

O POVO É MERO DETALHE: O PSOL, A DIREITA E A HIPOCRISIA DA POLÍTICA CEGA


PAULO SKAF E GABRIEL CHALITA - Quando a direita não conseguiu convencer brincando de ser "socialista".

COMENTÁRIO DESTE BLOG: O bafafá político faz com que uma esquerda frágil e uma direita dividida cometam muitos erros. Tudo em nome do fisiologismo político, que são as trocas de vantagens pessoais da classe política. Raphael Garcia faz um comentário a respeito da situação atualmente.

Em tempo: três ex-integrantes do PSB (Partido Socialista Brasileiro) se desligaram do partido: Paulo Skaf, presidente da FIESP, Gabriel Chalita e Jaime Lerner. Os dois primeiros foram para o PMDB, o terceiro, histórico figurão da ARENA e do DEM paranaenses, desligou-se da vida partidária para vender seu arbitrário projeto de transporte coletivo para a comunidade tecnocrática visando os eventos esportivos de 2014 e 2016.

O povo é mero detalhe: O PSOL, a Direita e a hipocrisia da política cega

Por Raphael Tsavkko Garcia - Blog do Tsavkko - The Angry Brazilian

Uma coisa engraçada que sempre acontece é a de críticos do PSOL terem a mania de me copiarem em suas críticas ao partido no Twitter.

Eu não sou filiado ou militante do partido e sempre deixei claro isto. Mas admito - e com prazer - que tenho enorme simpatia pelo partido e grande admiração pelo Ivan, Plínio, Jean e tantos outros, da mesma forma que escancaro minhas críticas sem pena ou medo - coisa que muito petista que me critica não tem coragem de fazer contra seu próprio partido, seja ele filiado, militante ou simpatizante.

Pois bem, há muito que venho lendo - ou sendo forçado a ler, mesmo de quem sequer sigo - que o PSOL se alia com a direita (PSDB/DEM/PPS) para atacar o governo de esquerda do PT (a frase inteira deveria estar carregada de aspas).

O engraçado é que quando o PSOL apoia uma CPI contra o Palocci, por exemplo, que também tem a participação dos partidos de direita já citados, os críticos fazem questão de nomear todos estes partidos, apontando, criticando...

"PSOL alia-se ao DEM/PSDB/PPS para criar CPI d caso Palocci http://bit.ly/mgxfyM Aliando-se ao ACM Neto, Roberto Freire, Álvaro Dias? beleza!"

Mas quando fala-se em governo, é do PT. Ponto. Mas porque não do PT, PMDB, PSB, PCdoB, PDT, PP, PR, PTB, PRB, PHS, PTC, PTdoB, PMN e PSC (esqueci de alguma?)?

PHS é partido de esquerda? Seria o PP de Maluf e Bolsonaro (sim, BOLSONARO) de esquerda? Ou talvez os partidos ligados aos fanáticos cristãos da bancada da família, evangélica e etc como PSC e PTC seriam autênticos comunistas (em comum talvez só o fato de comer criancinhas, né?).

Mas o PRB, da Igreja universal é de esquerda! Hmmmm, não, não é, assim como não é o PMN, o PTB ou o PTdoB e muito menos o PR, mistura de Partido Liberal com o neofascista PRONA do Enéas!

Sobrou o PSB que até pouco tempo professava o socialismo empresarial com o Skaf (agora no PMDB, do MESMO governo)... O Chalita, que também era do PSB então, deveria ser uma espécie de guru do comunismo new age, ou um Stálin espiritualizado ligado à ala conservadora e estridente da igreja católica, a Renovação Carismática.

Já o PDT temos o maravilhoso exemplo do Paulinho da Força, incontestável liderança paulista da sigla que não tem problemas em dizer, como todo bom esquerdista, suponho, que papel da mulher é servir de puta pra trabalhador não se revoltar.

Mas sobrou o PCdoB, sem dúvida os comunistas salvam o grupo, não? Não. Netinho "Espancador de mulheres" de Paula, Protógenes "eu adoro o Kassab" Queiroz, Aldo "Ruralista" Rebelo... E aliados do Kassab na mais absurda Surrealpolitik já vista na história deste país!

Não, sobrou o PMDB... Esse nem precisa comentar. Quércia (que o capeta o guarde), Temer, Sarney.. sim, o Sarney velho de guerra que tanto bem faz ao Maranhão!

Ah, e o Collor tá aí no meio, perdido em algum lugar, mas amigo íntimo do governo... petista?

E o próprio PT, enfim. Tem MUITA gente boa, como o Paulo Teixeira... Mas tem o Palocci, o Vaccarezza (vendido pra Monsanto, mas tem espaço pra mais patrocínio, quem dá mais?), Mercadante (mais tucano q a encomenda) e muitos outros pra fazer a festa da... esquerda?!

Meus caros amigos petistas fanáticos, antes de querer criticar o PSOL por apoiar uma CPI contra um canalha como o Palocci (e tenho o Fabio Konder Comparato pra me apoiar, precisa de mais? Ou ele também virou aliado do PIG, virou canalha e etc?), dizendo que o partido se aliou com a direita, olhem pra si mesmos, olhem pro seu governo, com ministérios com Nelson Jobim, Ana "ECAD" de Hollanda e tantas outras pérolas e, por favor, enfiem sua hipocrisia lá onde o sol não bate.

Antes de dizer que o PSOL "se aliou" com Alvaro Dias, ACM e etc prestem atenção que o PT está efetiva e incontestavelmente ALIADO com Sarney, Collor, Inocêncio de Oliveira e mais uma penca de seres detestáveis, desprezíveis e nem remotamente de esquerda.

E isto porque o Kassab ainda nem entrou oficialmente na ala governista! Com a Kátia Abreu junto!

Esquerda... claro! O nome disto é hipocrisia e, em muitos casos, falta de caráter.

PS: eu tenho plena consciência de que tanto no PCdoB quanto no PSB ou no PDT ainda resistem pessoas decentes, como Miro Borges, Erundina ou o Brizola Neto, antes que me acusem de só ver o lado ruim.
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Em tempo, me pergunto aos grandes defensores da esquerda, da legalidade, especialmente agora com este caso Palocci, porque o PT não apresenta proposta (que segundo o Chico Alencar já foi discutido e apresentado pelo PSOL, mas obviamente deve estar em algum fundo de gaveta) obrigando TODO político que pretende assumir cargo público (seja vereador do interior até presidente e ministros) abra mão de seu sigilo fiscal e evite constrangimentos?

Ou melhor, evite a roubalheira mesmo!?

Garanto que nem 10% dos parlamentares eleitos hoje se apresentariam para um novo mandato.

Mas, claro, algo assim sequer é discutido. A proposta do PSOL teve o mesmo fim que a da Erundina de propor plebisicito para que salário de parlamentar seja reajustado. Político no Brasil, na maioria dos casos, só se importa em aumentar seus rendimentos. O povo é mero detalhe.

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Em tempo, não dou a mínima se a mídia, o PIG ou o diabo estão querendo usar o Palocci pra atacar o governo. Que ISTO seja denunciado, mas não impeça a crítica de esquerda ao Palocci, a crítica legítima, que mesmo a Carta Capital (virou PIG?) fez e MUITA gente de esquerda vem fazendo.

Blindar o Palocci é tão ou mais estúpido que blindar a Ana de Hollanda ou o Nelson Jobim, como se estes canalhas fizessem o mesmo caso o barco afundando não fosse o deles.

Fidelidade é lindo, mas tem que ser recíproco e é diferente de ser conivente e cúmplice.

Eu quero que Palocci, Ana de Hollanda, Jobim e metade dos canalhas que se aboletaram no governo caiam, faço pressão por isso e sou de esquerda. Meu (nosso) protesto é legítimo e não importa o que façam, não será calado.

O Partido da Imprensa Favorável (glorioso PIF) não nota, mas presta um desserviço ao próprio governo que diz defender.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

MAIORIA DAS DOMÉSTICAS É NEGRA E TEM BAIXA ESCOLARIDADE



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O drama das domésticas no Brasil não é dimensionado pela grande mídia, que promove uma imagem "adocicada e feliz" das mesmas. Uma imagem que apenas livra as elites de qualquer sentimento de culpa, mas oculta a realidade das empregadas domésticas que lutam pelos seus direitos e possuem consciência social, sim.

Maioria das domésticas é negra e tem baixa escolaridade

Da Agência Brasil - Reproduzido no Portal Vermelho

Mulheres negras e com baixa escolaridade formam a maioria das trabalhadoras domésticas brasileiras. Em entrevista durante o Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas, a presidente da federação da categoria, Creuza Maria de Oliveira, disse que no Brasil a atividade deriva do trabalho escravo e por isso grande parte da categoria é negra.
“O trabalho doméstico no Brasil é executado por mulheres negras, que não tiveram a oportunidade de ir para uma faculdade e o trabalho que é valorizado é o acadêmico”, afirmou.

A assistente de programas da Organização das Nações Unidas para as mulheres, a ONU Mulheres, Danielle Valverde, afirmou que a maioria das trabalhadoras domésticas não chega a concluir o ensino básico.

“É um trabalho que tem grande componente de gênero, porque é exercido por mulheres, e também étnicorracial. No caso do Brasil, é feito por mulheres negras. Na América Latina, é um emprego exercido em grande parte por mulheres indígenas”, afirmou.

Ela disse ainda que grande parte das empregadas domésticas têm direitos legalmente reconhecidos, como a Carteira de Trabalho assinada e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), mas que na prática eles ainda não são considerados.

“Embora seja definido pela legislação que devem ter a carteira assinada, ainda estão na informalidade. Isso significa falta de acesso a uma série de direitos como o Instituto Nacional do Seguro Social [INSS], a licença-maternidade e o seguro-desemprego por falta da assinatura [da carteira]”.

Daniella afirmou também que o Artigo 7º da Constituição Federal garante esses direitos, mas não obriga os patrões a concedê-los. ”A Constituição Federal, no Artigo 7º, ainda não garante a igualdade de direitos em relação a outras categorias. Por exemplo, o FGTS ainda é facultativo para as empregadas domésticas. Os empregadores ainda não são obrigados a pagar o fundo de garantia.”

Creuza, por sua vez, disse que há 36 anos as trabalhadoras domésticas garantiram esses direitos, mas é necessário que os patrões mudem de mentalidade e os reconheçam. “Estamos na luta para que haja mudança de mentalidade dos empregadores, que é o reconhecimento das leis. No Brasil há 8 milhões de trabalhadoras domésticas, mas 80% não têm carteira assinada nem contribuição para a Previdência”, informou.

Para a presidente da federação que representa a categoria, ainda falta às trabalhadoras domésticas garantir o direito à hora extra, ao salário família, seguro-desemprego e auxílio por acidente de trabalho. “Estamos lutando ainda por equiparação de direitos aos de outros trabalhadores”, acrescentou.

CRÍTICA AO BREGA-POPULARESCO ESTÁ ACIMA DO GOSTO MUSICAL


ANA DE HOLLANDA EM CD - A ministra, em seu lado cantora, simboliza a ala da MPB hostilizada pelo pupilo de Tavinho Frias, Pedro Alexandre Sanches.

Por Alexandre Figueiredo

Atual queridinho da intelectualidade amestrada pelas cátedras tucano-uspianas nos anos 90, o jornalista Pedro Alexandre Sanches, depois de Paulo César Araújo e Hermano Vianna, mas ao lado de tantos outros, representa o empenho de sua classe na defesa do establishment musical do brega-popularesco, numa campanha retórica que já dura dez anos.

Pedro Sanches - que continua escrevendo para Caros Amigos, Carta Capital e Fórum como se ainda estivesse na Folha de São Paulo - é sobretudo um garoto-propaganda entusiasmado do tecnobrega, agora tecnomelody, ritmo da Música de Cabresto Brasileira que herdou a retórica pseudo-social do "funk carioca".

Mas o colonista-paçoca - que, a observar o que nos disse Mino Carta, adoraria chamar Otávio Frias Filho de colega, mas não pode fazê-lo abertamente - também defendeu funqueiros, forrozeiros-bregas e outras tendências, ignorando a histórica associação do "funk carioca" com as Organizações Globo e Grupo Folha (com o próprio Pedro Sanches entrevistando Tati Quebra-Barraco, nos felizes tempos em que PAS dava bom dia para Tavinho Frias), e desprezando completamente as denúncias de concentração de poder no mercado do dito "neo-forró" ou "forró eletrônico".

Claro que, assustado com as recentes repercussões dos textos deste blog e de outro meu, O Kylocyclo, desmascarando o suposto esquerdismo de Pedro Alexandre Sanches, o próprio jornalista ensaiou uma grande desculpa para suas defesas a respeito do brega-popularesco, que se expressa no parágrafo a seguir:

"Pode ser que eu, você e a ministra reprovemos o melody em termos estéticos (ou de classe social?), ou não toleremos a precariedade de partida de quem teve que aprender música fazendo música (sic), sem mecenas nem professor. Mas o que jovens como esses da Gang do Eletro alegorizam no Brasil é um processo inédito (sic) e profundo (?!) de inclusão social - e, no caso deles, essa inclusão se dá por intermédio da inserção à cultura (!). Gosto musical - seu, meu, da ministra ou da presidenta, é o que menos nos interessa, diante da grandeza ímpar (?) deste momento histórico (??!!)".

É evidente que os sinais de pontuação e o "sic" foram devidamente colocados pelo autor deste blogue, para chamar atenção aos pontos nebulosos que o colonista-paçoca escreveu. E que Caetano Veloso escreveria para O Globo com todas as palavras, vírgulas, pontos e acentos sem tirar nem por. Afinal, o tecnobrega e o "funk carioca", entre outras tendências "espontâneas" da dita "cultura popular", em nenhum momento causam pavor ou repugnância da grande mídia, que, num processo longe de ser mera coincidência, adere a esses ritmos com o maior entusiasmo.

Mas se até Nelson Motta, colaborador do Instituto Millenium, escreveria um parágrafo igualzinho ao que Pedro Sanches escreveu, fazer o quê, né? Apesar de Sanches ter seu nome citado ao lado de grandes blogueiros e jornalistas de esquerda, o colonista-paçoca continua tendo como caros amigos seus antigos colegas do PiG. E ainda pensa igual a eles.

GOSTO NÃO É VALOR CULTURAL

Portanto, é lamentável que exista uma intelectualidade que, ao invés de se dedicar a desenvolver a consciência crítica, se lança contra ela para justificar fenômenos estabelecidos pelo "sistema", às custas de retóricas engenhosas.

Uma delas se refere ao tal "gosto musical". De repente, o "gosto" tornou-se sinônimo de reconhecimento de valor de alguma coisa. Eu "não gosto", mas o outro "gosta", logo o que o outro "gosta" tem "valor cultural".

Isso não faz sentido. O gosto carece de noções objetivas e critérios necessários para dar um valor real a alguma coisa. E também abrir mão do "meu gosto" para reconhecer o "gosto do outro" também não encerram os problemas.

Isso apenas mascara o subjetivismo do "eu" pelo do "outro", onde os critérios de objetividade se tornam apenas palavras mortas de uma retórica sutil, mas não correspondem à realidade objetiva de cada coisa.

Se fosse assim, qualquer balinha de qualquer sabor cítrico artificial - pode ser framboesa, cereja, morango, limão ou abacaxi, ou mesmo tutti-frutti - seria "nutritiva" porque "eu gosto". Ou, de outra forma, seria "nutritiva" porque "eu posso não gostar", mas "a criançada adora".

REIFICAÇÃO DO HOMEM PELA "CULTURA POPULAR" DO PÓS-64

E quem garante que o povo realmente "gosta" das tendências brega-popularescas? Se verificarmos todo o contexto midiático, sociológico e político que está por trás, tornará-se de uma coerência assustadora toda a contestação que se faz à validade cultural atribuída ao tecnomelody, forró-brega, "funk carioca" e outras tendências da Música de Cabresto Brasileira, mesmo os "sofisticados" sambrega, breganejo e axé-music.

Não cabe aqui detalhar esse quadro midiático, sociológico e político que está por trás do brega-popularesco, definido pelas relações de poder dominante que estão por trás, porque outros textos meus já fizeram isso.

Mas a verdade é que, desde 1964 a dita "cultura popular" se desenvolveu dentro de paradigmas de controle social e concentração de poder econômico dos patrocinadores do entretenimento, dentro de uma perspectiva fordista de reprodução em série - pouco importa se são sob diferentes rótulos, seja "paromba", "rebolation" ou "cibermelody", "spacearrocha", "tecnotchan", "eletrocréu" ou coisa parecida - e de um processo político de reificação do homem.

Aliás, a palavra "reificação" torna-se aparentemente ambígua, porque os menos informados podem imaginar que a "reificação do homem" está ligada a ideia errada de "transformar o homem em "rei" ou "senhor de seu destino". Mas seu sentido real está no contrário, na transformação do homem em "coisa", sem qualquer consciência de sua situação nem de sua missão na Terra.

Isso é algo que o "esquerdista" Pedro Alexandre Sanches não deve saber ou despreza, porque é uma das ideias trabalhadas pelos livros de Karl Marx, e um dos problemas relacionados à alienação do homem no trabalho e no lazer.

É preciso recorrer a dois estudiosos da indústria cultural, Teixeira Coelho e Luiz Costa Lima, para verificarmos o quanto está errado Pedro Alexandre Sanches e sua retórica neo-caetânica.

Sobre a "inocente" indústria cultural exaltada por Sanches, Teixeira Coelho, no seu livro O Que É Indústria Cultural - lançado na série Primeiros Passos pela Editora Brasiliense, fundada por Caio Prado Jr. (que, para lembrar Sanches, teve uma biografia lançada pela mesma Editora Boitempo que publicou os dois livros do colonista-paçoca) - oferece subsídios para uma possível e válida contestação. Diz ele:

"Nesse quadro (de reificação do homem), também a cultura - feita em série, industrialmente, para o grande número (de consumidores) - passa a ser vista não como instrumento de livre expressão, crítica e conhecimento, mas como produto trocável por dinheiro e que deve ser consumido como se consome qualquer outra coisa."

Em outras palavras, não é pelo "gosto musical" que reprovamos os fenômenos popularescos. É pelo fato de que eles não cumprem sua função social. Eles são apenas fenômenos economicamente bem-sucedidos, e expressam um falso equilíbrio social que tão somente favorece o mercado, deixando as classes pobres no paliativo do entretenimento brega ou neo-brega.

Luiz Costa Lima é ainda mais contundente quanto a ideias que contribuem para analisarmos a deterioração da música popular pelo brega-popularesco, e que eu dou o devido rótulo de Música de Cabresto Brasileira:

"A série adaptada pela indústria cultural, levada a preços reduzidos a um público resultante torna o seu uso acessível, não significando a introdução da massa num domínio já antes fechado, apenas contribui para a degradação da cultura.

Só esse parágrafo contesta, de forma espantosa e decisiva, as alegações de "inclusão social" ditas por Pedro Alexandre Sanches a respeito dos ídolos brega-popularescos. Afinal, isso não expressa a inclusão das classes populares num mercado "fechado" pelos mecanismos de poder político e econômico, mas tão somente degrada, coisifica e desumaniza a cultura, reduzida a um arremedo ou a uma caricatura.

Além disso, no brega-popularesco, o povo pobre não é sujeito, mas apenas objeto de um mercado de consumo. É apenas "sujeito" na condição de consumidor, e sua "criatividade" não é mais do que uma linha de montagem dentro de um padrão de mídia colonizada simbolizada pela TV aberta e pelas rádios FM controladas por grupos oligárquicos associados ao capital estrangeiro.

Portanto, pouco importa se há mais ou menos sotaque local nos ritmos popularescos, como tenta nos fazer crer o discurso de Sanches, quando fala que o tecnomelody "vai muito longe da influência estadunidense" (menos, menos, colonista). A influência do poder dominante do hit-parade estrangeiro é grande o suficiente para que qualquer sotaque nortista, nordestino ou de outra região façam alguma diferença.

DESPREZO ESTÉTICO

Mas a alegação do esperto Pedro Alexandre Sanches - que escapuliu das redações da Folha-Abril-Globo a que estava vinculado, antes que alguém o reconhecesse como "o crítico musical do PiG" -vai mais além. Ele, como outros intelectuais que defendem os referenciais brega-popularescos, nos "convida" ao desprezo estético, da forma mais cínica possível.

Primeiro, porque ele, através de um traiçoeiro parêntesis, tenta definir a questão estética como uma questão de classe social (elitismo), indo na contramão de uma tradição intelectual que vem desde a Antiguidade, que é avaliar a questão estética dos fenômenos quaisquer que ocorrem na humanidade.

Confundir avaliação estética com preconceito elitista é a forma mais cínica e mais arrogante de certas correntes defenderem o "estabelecido". "Você é elitista", diz essa intelectualidade que finge que não é etnocêntrica e ainda nos acusa como tais, porque questionamos o estabelecido.

Nós alertamos que as elites "amigas do povo" gostam de ver o povo pobre culturalmente fraco, domesticado pela mídia e pelo mercado dominantes, porque isso é "mais povo" e deixa o povo "mais feliz", e os "elitistas" somos nós? Absurdo!

Só isso mostra o quanto Pedro Alexandre Sanches foi formado nas cátedras intelectuais comandadas pelos mesmos artífices do PSDB, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Sérgio Paulo Rouanet e Francisco Weffort, que, a pretexto de acusarem os CPC's da UNE e o ISEB de "sectários" - numa alegação que cheira a anticomunismo sutil - , contestava todos os valores da cultura popular anteriores da 1964.

É essa corrente tucano-uspiana que, sinalizando o inevitável desgaste dos ídolos da "cultura popular" midiática popularizados (e não, essencialmente, populares, a despeito da origem pobre de vários deles), que criou uma retórica socializante que tentou salvar do "funk carioca" ao "pagode romântico" que anima até cruzeiros marítimos.

É uma tese que se baseia na "purificação" da cultura popular através da "inocente" e "imparcial" ajuda da grande mídia e do mercado, que só querem apenas "propagar" seus valores e ídolos para o grande público e subisidiá-los financeiramente.

Mas, recheada de conceitos teóricos vindos de teóricos da direita como Francis Fukuyama, Roberto Campos, Auguste Comte, Paul Johnson, adaptados para uma perspectiva liberal-populista de domesticar culturalmente as classes populares para extinguir nelas seu potencial crítico, tornando-as culturalmente subordinadas e colonizadas e evitando nelas o máximo de incidências de movimentos sociais.

Afinal, vemos o quanto defensores do brega-popularesco, desde que eclodiram no exterior as revoltas sociais que derrubaram ditadores no Oriente Médio - e que poderiam influenciar na revolta popular brasileira contra o latifúndio - e que já existe uma revolta popular contra o império mercantilista do forró-brega no Norte-Nordeste, estão reagindo para salvar aquilo que eles dizem ser "cultura das periferias", mas que não passa de uma indústria milionária que já consiste, em si, em oligarquias do entretenimento, como as "aparelhagens" do Pará e os empresários-DJs de "funk carioca".

Por isso as argumentações podem variar de uma retórica engenhosa de um Hermano Vianna ou Pedro Alexandre Sanches, ou de um desaforo mal-educado de um direitista dente-de-leite. E dá-lhe desprezo estético, vamos queimar os livros de Platão, Aristóteles, Hegel, Marx, Lukács e Marcuse, porque nenhum deles devem servir para avaliar o "tchan", o "créu", o "tchibirabirom", o "uisminoufay", o "cibermelody", o "brega-de-raiz", o "rap das armas" ou qualquer outra coisa de gosto duvidoso.

Queimemos os livros de teoria estética, porque isso que está aí é "porque o povo quer" (Eduardo Sander), "não precisamos gostar" (Eugênio Arantes Raggi) mas devemos reconhecê-los como "processo histórico e profundo de inclusão social" (Pedro Alexandre Sanches), porque a "cultura popular de hoje mudou" (Hermano Vianna).

Mas todos eles andam de mãos dadas com Fernando Henrique Cardoso, no sentido de seu desprezo ao povo, que o fez investir na maciça e hoje tida como "espontânea" domesticação da cultura popular pelo brega-popularesco, um processo mais intenso do que o que já ocorria durante o regime militar a partir de 1964 e nos latifúndios nortistas-nordestinos em 1958.

Até quando continuará valendo essa visão oficial de "classes populares" baseada na domesticação que põe o povo pobre numa suposta felicidade sócio-cultural?

Por trás dessa visão generosa existem mecanismos de controle social, mais perversos do que imaginamos, e que com as recentes crises envolvendo o ministério da Cultura - não, Ana de Hollanda, a despeito do clã respeitável e do currículo de cantora de MPB sofisticada, não é parte inocente da situação - , que podem atingir tanto a ministra e o ECAD quanto a intelligentzia na qual se inserem Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo, muita coisa vai rolar.

Até porque, se os mestres (demotucanos) começam a cair, não serão seus alunos-discípulos que permanecerão de pé, mesmo escondidos nas vermelhíssimas "casas amarelas".

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O PODER, QUANDO CORROMPE



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Uma das grandes controvérsias entre os analistas de esquerda está na reputação do ministro-chefe da Casa Civil, Antônio Palocci, que teria aumentado em 20 vezes seu patrimônio pessoal. Uns até atribuem um passado de colaboração com o tucanato político, outros acham que a grande mídia exagera na campanha difamatória. Em todo caso, é quase um consenso dizer que, de uma forma ou de outra, Palocci errou. E não é de hoje.

Um interessante artigo a respeito foi escrito pelo jornalista Mino Carta.

O poder, quando corrompe

Por Mino Carta - Carta Capital

Silvio Berlusconi já não vive dias tão felizes. As eleições administrativas realizadas na Itália entre os dias 15 e 16 não favoreceram o seu partido ousadamente chamado Povo da Liberdade.

Praças importantes ficam nas mãos de prefeitos de centro-esquerda e a maior surpresa vem de Milão, a cidade do premier, onde a sua candidata, Letizia Moratti, em busca de reeleição, sai para o segundo turno em desvantagem em relação ao seu adversário, Giuliano Pisapia, esquerdista convicto.

Para tão fervoroso apaixonado pelo poder como Berlusconi, intérprete da ditadura da maioria a enxergar na oposição parlamentar e na Justiça que cumpre seu papel democrático a derradeira manifestação do comunismo, votos são combustível indispensável. Desta vez a colheita encolheu bastante ao registrar derrotas que pareciam impossíveis, de sorte a justificar quem fala de novo na antecipação das eleições políticas.

Berlusconi empenhou-se a fundo na campanha, mas sua retórica, mesmo exposta por uma rede maciça de televisão, não teve o efeito habitual junto a quantos ao elegê-lo envergonharam a Itália não menos do que ele. É lógico supor que as últimas desastradas façanhas do casanova da política italiana pesaram na balança eleitoral. Berlusconi é exemplar perfeito de quem se lambuza no poder. Porta-se como um sultão e se exibe suas fraquezas não é somente por obra de uma forma de jactância infantil, mas também, e sobretudo, porque certo de que tudo a ele é permitido.

Há nuances entre um abuso de poder e outro. O caso Strauss-Kahn, ao menos segundo meus reflexivos botões, é bem diferente. Antes de mais nada, dizem eles, como figura proeminente da política e da economia, ao contrário de Berlusconi, Strauss-Kahn é competente, e muito, e cogita de interesses bem diversos daqueles buscados pelo premier italiano. Que sempre se tratou de um sedutor era sabido, mas seus últimos lances donjuanescos chegam a revelar um traço doentio. Antes de explorar as benesses do poder, ele é vítima de si mesmo, e vai pagar caro por isso.

De outra natureza ainda é o caso do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, de características tipicamente nativas, de uma sociedade do privilégio vocacionado para a predação. O ex-ministro da Fazenda milita em uma categoria que no Brasil apresenta dimensões e tonelagem excepcionais. Os botões, insistentes, me levam a recordar personagens que influenciaram a política econômica brasileira nas últimas décadas, e ficaram ricos, melhor, riquíssimos, depois de deixarem seus cargos. Estabelecidas sólidas cabeças de ponte dentro dos gabinetes governistas, venderam a peso de ouro conselhos abastecidos pela chamada inside information. O próprio Palocci incumbe-se de desfiar um rosário de nomes ilustres que o precederam neste gênero de atividade. Sustenta, impávido, a seguinte tese: se eles pecaram, por que não eu?

A despeito de comportamento tão desarmado, não faltam elementos de surpresa, a começar pelo fato de que este desabrido pessoal fala de centenas de milhões como se fossem bagatela em um país tão desigual quanto o nosso. Capaz, contudo, de incluir quatro ricaços na lista dos cem mais enquanto não há um sequer a representar vários países do chamado Primeiro Mundo. Mas Palocci é um ex-trotskista, militante de um partido que até hoje se pretende de esquerda. E não falta quem acredite…

O desfecho do presente enredo é até imprevisível, mesmo porque o instituto da impunidade continua em pleno vigor. Neste exato instante, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Cesar Peluso, se empenha em busca de um caminho para agilizar a Justiça brasileira.

É esforço louvável nesta nossa terra, onde os ricos não costumam correr o risco de ir para a cadeia e onde um criminoso comum como Cesare Battisti ainda espera pelo asilo político, concedido por um Estado disposto a assinar um Tratado de Extradição com a Itália sem confiar na Justiça deste país, e até a condená-la.

Aliás, o próprio Berlusconi a ataca sem quartel. Meus botões malignamente sugerem que talvez o premier italiano tenha alguma peculiar semelhança com variados esquerdistas brasileiros.

DERROTADO NA CÂMARA, GOVERNO AGORA VAI BRIGAR NO SENADO PARA MUDAR CÓDIGO FLORESTAL



COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: O Governo Federal viu a votação do Código Florestal pender para os interesses da oposição, e mostra o quanto membros da bancada ruralista, que não votam pelas causas progressistas, estão infiltrados em partidos da base aliada. O Governo ainda tem uma esperança para reverter a situação, com a votação no Senado, mas a senadora Kátia Abreu promete fazer muito barulho para que os ruralistas saiam menos prejudicados pelo novo código.

Derrotado na Câmara, governo agora vai brigar no Senado para mudar Código Florestal

Deputados aprovaram novo texto, que dá poderes aos Estados para legislar sobre APPs

Por Priscilla Mendes e Gabriel Mestieri - Portal R7

No primeiro racha da base aliada na Câmara dos Deputados, o governo saiu enfraquecido da votação do novo Código Florestal, aprovado na noite desta terça-feira (24). A maioria dos deputados contrariou a orientação do Planalto e acatou a emenda que dá aos Estados poder para legislar sobre o uso das APPs (Áreas de Preservação Permanente).

O placar da votação da emenda – proposta pelo PMDB com apoio de partidos tanto da base quanto da oposição – revelou o racha: 273 deputados foram favoráveis à alteração, contra 182 – que votaram conforme a orientação do governo. Dois parlamentares se abstiveram.

O Palácio do Planalto, no entanto, não deverá desistir de adaptar o Código Florestal. Como o texto seguirá agora para análise do Senado, o governo vai tentar emplacar pelo menos três alterações na Casa, sendo que a principal é derrubar a emenda dos peemedebistas.

O Planalto já deixou claro que não abrirá mão de ter exclusividade em legislar sobre a consolidação das APPs. Ele quer ter exclusividade ao determinar, por meio de decreto presidencial, quais atividades poderão ocupar essas áreas.

Após o fim da votação, o líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), declarou que a presidente Dilma vetará medidas que “ameacem o meio ambiente”. Mesmo que as alterações desejadas pelo Planalto não sejam aprovadas no Senado, Dilma tem a prerrogativa de vetar partes ou a íntegra do projeto.

- Antes do veto vamos tentar mudar o projeto no Senado. [A] emenda desfigura completamente o projeto original do Aldo. Ele [texto do Código] vai para o Senado e vamos tentar mudar lá. Se não conseguirmos, tenho certeza de que Dilma vai vetar o que ameace o meio ambiente.

Além de derrubar a emenda do PMDB, segundo Vaccarezza, o governo quer emplacar outras duas alterações no Senado. A primeira determina uma punição adicional para quem reincidir em agressões ao meio ambiente. A segunda prevê uma alternativa aos pequenos produtores (aqueles cuja propriedade tem até quatro módulos rurais) na conservação das APPs das margens de rios.

O representante do governo foi bastante criticado pelos colegas ao dizer, da tribuna do plenário na noite de ontem, que o Brasil tem regime presidencialista e, portanto, “quem decide é a presidenta Dilma”. Ele fez questão de frisar que o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), faz parte da chapa que elegeu Dilma.

- É o resultado das eleições. Quem escolheu a Dilma presidente não foi o DEM, não foi a minoria, não foi a oposição, foi o povo brasileiro [...] Nós fomos eleitos com a presidente Dilma. Foi na mesma chapa da Dilma. Na mesma chapa que estava o Henrique Eduardo Alves, que estava o Candido Vaccarezza, o Paulo Teixeira. Foi nessa chapa. Então a vitória do governo é a nossa vitória.

Apesar de o próprio Vaccarezza ter dito que votar favoravelmente à emenda significaria “derrotar o governo”, o líder do PMDB negou a derrota do Planalto no Congresso.

- Eu sou do governo de Michel [Temer, vice-presidente da República e ex-presidente do PMDB] e sou do governo de Dilma. Sou do PT e do PMDB. Então não aceito que se diga aqui que estão derrotando o governo.

O relator do projeto, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), disse que espera ver seu texto “aperfeiçoado” no Senado. Ele negou, entretanto, após a votação, que a emenda da oposição tenha "desfigurado" seu texto, como afirmou Vaccarezza.

- A emenda faz com que artigo 8º volte ao que era originalmente [deixando definições de plantio em APPs para Estados]. Fomos levados a abrir mão dessa matéria por acordo. Todos sabiam que texto excluindo especificações sobre APPs causaria insegurança jurídica para agricultores.

A expectativa é que o texto do novo Código Florestal seja levado ao plenário do Senado na próxima semana, uma vez que no dia 11 de junho o decreto que regulariza propriedades que não declaram reserva legal até 2008 perde a validade. Vaccarezza não descartou, entretanto, que Dilma edite um novo decreto caso a nova lei não entre em vigor até lá.

PIMENTA NEVES E A "PROTEÇÃO" DA IMPRENSA PAULISTA



Por Alexandre Figueiredo

Ontem à noite, o ex-diretor do jornal O Estado de São Paulo, Antônio Marcos Pimenta Neves, se rendeu ao mandado de prisão expedido pelo Supremo Tribunal Federal, para cumprir pena de 15 anos de prisão pelo assassinato da jornalista Sandra Gomide, ex-namorada do criminoso.

O crime havia ocorrido no dia 20 de agosto de 2000, num haras dentro de uma fazenda em Ibiúna, no interior paulista (mesma cidade onde o Congresso da UNE de 1968, presidido por José Dirceu, foi logo dissolvido pela repressão militar, com seus envolvidos presos). Pimenta, embriagado, baleou a ex-namorada duas vezes pelas costas, sem que ela tivesse chance de defesa.

Ironicamente, este que lhes escreve estava finalizando um zine com o mesmo nome de outro blogue, O Kylocyclo. Era irônico que, enquanto um jornalista saía de cena, entrasse outro, ainda que de forma amadora.

INTENSA VIOLÊNCIA MACHISTA

Ao longo desses 11 anos da ocorrência do crime, e que são parte dos últimos 35 anos de intensa violência machista, que dizimou milhares de mulheres - deixando lacunas irreparáveis em muitas gerações - , Pimenta Neves por muito pouco não havia herdado, junto com Guilherme de Pádua (assassino da atriz Daniella Perez), o estrelismo do franco atirador do famoso filme de Luiz Buñuel, O Fantasma da Liberdade (1974).

No filme, o franco atirador, que do alto de um prédio atirava aleatoriamente para qualquer transeunte com sua espingarda, como quem atirasse em passarinhos, foi teoricamente condenado à morte no seu julgamento. No entanto, um guarda abriu a chave da algema e soltou o criminoso, que passou a ser livre e ainda por cima deu autógrafos para duas fãs.

Depois que Doca Street matou a socialite mineira Ângela Diniz, no final de 1976, os assassinatos conjugais que vitimam mulheres tornaram-se um interminável drama na medida em que os assassinos ficavam impunes pelas brechas da lei.

E, o que é pior, os homens de bem teriam que competir com os próprios criminosos passionais em liberdade condicional no chamado "mercado" da vida amorosa, uma vez que estes homens, incapazes de aceitar um fim de namoro, no entanto são muito habilidosos na hora de conquistar novas mulheres.

O caso Pimenta Neves e outros dois criminosos passionais, de cargos relacionados ao zelo da Justiça, que "entraram em ação" naqueles idos de 1999-2000 - o promotor Igor Ferreira, em Atibaia, também interior paulista, e o promotor Reinaldo Pacífico (?!) em Belo Horizonte - , reativaram o pesadelo de homens ilustres cometendo crimes passionais, já que em 1994, aparentemente, as estatísticas de crimes passionais estavam declinando nas classes sócio-econômicas, diminuindo as incidências nas elites.

Afinal, quando o criminoso passional é de classe pobre, ele permanece preso. Não tem dinheiro para comprar um advogado, e seu crime, ainda que movido pela ignorância e pelo consumo de drogas e álcool, também não encontra "atenuantes sociais" para garantir a liberdade condicional, mesmo na condição de réu primário, tida como fator para essa liberdade.

Ja quando o criminoso é de elite, mesmo na classe média alta, a impunidade torna-se certa, tanto pela liberdade condicional no caso de réu primário quanto pelos sucessivos recursos jurídicos entre advogados de acusação e defesa, enquanto o acusado responde ao processo em liberdade. Pior, a liberdade é em tese condicional, mas muitas vezes o criminoso pode sair do país e pode circular aonde quiser, mas de preferência tendo que evitar estar no mesmo lugar de algum ente querido de sua vítima, para evitar qualquer constrangimento ou outro incômodo, mesmo grave.

Mas no caso de Pimenta Neves, o que surpreendeu foi a cumplicidade da imprensa paulista, ou mesmo da Associação Nacional dos Jornais, que influía até nas manobras editoriais. Em periódicos da grande imprensa em circulação em todo o país, que constam com seção específica para noticiários policiais, Pimenta Neves quase não aparecia nelas, sendo colocado cordialmente na seção de "País", normalmente relacionada a fatos políticos ou os sociais de grande repercussão.

"PROTEÇÃO" DA IMPRENSA

A imprensa paulista, então, do contrário que comentou Alexandre Garcia hoje, no Bom Dia Brasil, protegeu, sim, Pimenta Neves. Ele foi tratado como um "coitado que errou", levando a sério o próprio telefonema que Pimenta deu para a redação do Estadão, assim que cometeu o crime. "Cometi uma besteira", disse Pimenta na ligação.

Era a Folha de São Paulo, onde Pimenta também trabalhou, o próprio Estadão e a revista Veja, que até 2006 adotavam uma postura gentil com o "nobre colega", pois, mesmo sem aprovar o crime cometido por ele, minimizava sua gravidade dizendo que "foi um erro" e que "nosso colega Pimenta sente muito pelo que fez". Pimenta foi tratado pela imprensa paulista como se tivesse sido um moleque que, jogando bola no quintal, a chutou, sem querer, contra a vidraça da casa do vizinho.

Tanto que as primeiras reações enérgicas na grande imprensa, poucos dias após o crime, foi da parte do humorismo. A revista Exame VIP, numa divertida sacada, fez uma tabela comparando o mítico Abominável Homem das Neves e o "Abominável Pimenta das Neves", concluindo que o ex-editor do Estadão era bem mais perigoso.

Já na imprensa carioca, destaca-se a atuação de Agamenon Mendes Pedreira, colunista fictício criado pelos cassetas Hubert Aranha e Marcelo Madureira (este muito longe do atual tucano ranzinza a bater ponto no Instituto Millenium), que, fazendo um trocadilho com a expressão "furo", do jargão jornalístico (que quer dizer "notícia de primeira mão e grande impacto"), constatando que Pimenta deu dois "furos" contra a ex-namorada.

Fora isso, só mesmo a realidade buñueliana de Pimenta ser solto na proximidade da Semana Santa, em 2001 - depois de estar encarcerado com outros presos, como Mateus da Costa Meira (que cometeu uma chacina num cinema paulistano, na sessão do filme Clube da Luta) e o juiz corrupto Nicolau dos Santos Neto - , e ninguém ter se lembrado de Pimenta na "malhação de Judas" do sábado de Aleluia.

Foi a mesma omissão também em 2002, com o "colega" (de crime) de Pimenta Neves, o ex-ator Guilherme de Pádua, tambem "protegido" da imprensa paulista e que, ignorado pelas malhações de Judas, praticamente virou um personagem kafkiano, quando ameaçava processar a novelista Glória Perez, mãe da vítima, se ela dirigisse algum comentário contra o assassino de Daniella.

IMPRENSA CARIOCA

A imprensa carioca, por não conviver com Pimenta Neves, conduziu o caso de maneira menos corporativista. O Jornal do Brasil foi um dos que mais pegaram pesado contra o ex-editor, que oficialmente ainda carrega o título de "jornalista" depois de, pelas forças circunstanciais, ter sido aposentado.

Mas em 2006 - ano em que Doca Street lançou sua biografia (talvez, um testamento antecipado) para a sociedade, Mea Culpa, e atingia uma idade de alguém que, com um passado de muito cigarro, bebedeira e drogas, indicava fragilidade, os 72 anos - , quando Pimenta enfrentou um júri popular, a imprensa carioca pegou tão pesado que a paulista teve que seguir o ritmo para não ser acusada de impunidade.

Isso se via sobretudo na TV Bandeirantes, que havia inaugurado um "novo" jornalismo a partir de ex-astros globais - Ricardo Boechat e Joelmir Betting, ainda acompanhados de uma Mariana Ferrão que seguiu o caminho oposto - , e comandou a corneteira contra o réu. Mas a barulheira não impediu que Pimenta fosse mais uma vez sentenciado para a liberdade condicional, esperando o processo "em liberdade".

Hoje a prisão parece ser um marco de decadência do machismo. Mas a grande imprensa, ainda assim, divergia suas visões quanto ao modo de Pimenta viver sua impunidade. A imprensa paulista dramatiza, dizendo que o "nobre amigo" vivia sozinho, triste e tomando remédios antidepressivos. A imprensa carioca, no entanto, garantia que Pimenta vivia na gandaia, com arrogância e ainda exibindo um revólver, com pose de valentão.

Pimenta Neves nunca foi um jornalista marcante. Surgiu como crítico de cinema da Última Hora paulista, e profissionalmente não deixou grandes marcas. Apenas fazia o "dever de aula", dentro de um jornalismo morno, mais próximo do conservador.

Mas tão cedo voltou-se claramente para a imprensa direitista, através da extinta revista Visão e do cargo de consultor do Banco Interamericano para a Reconstrução e Desenvolvimento, conhecido também como Banco Mundial.

Aparentemente, não cabem mais, para a defesa de Pimenta Neves, novos recursos para evitar sua prisão. Ele terá que cumprir a sentença de 15 anos dentro da cela. Aparentemente, o ex-editor disse estar pronto para a nova rotina. Não se sabe ainda se é a decadência definitiva do machismo, mas a chamada "defesa da honra" sofreu uma enorme ferida moral. Isso é bom.
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