segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O HORROR DA DIREITA BRASILEIRA ÀS MOBILIZAÇÕES POPULARES


PROTESTOS CONTRA HOSNI MUBARAK AGITAM O EGITO E REFLETEM ATÉ EM MANIFESTAÇÕES EM WASHINGTON, EUA, PAÍS QUE PROTEGE POLITICAMENTE O DITADOR EGÍPCIO.

Por Alexandre Figueiredo

Dá para perceber por que manifestações reacionárias vieram à tona contra vários sítios progressistas, na Internet.

São fatores de ordem local, relativos ao Brasil, mas também são fatores de ordem internacional envolvendo as classes populares.

Vamos aos fatores internacionais, primeiro.

Nas últimas semanas, intensas manifestações de protesto derrubaram o ditador Ben Ali, na Tunísia, e agora outras manifestações similares, organizadas pelas classes populares, pedem a saída do ditador egípcio Hosni Mubarak, protegido pelo imperialismo norte-americano.

Quanto aos fatores nacionais, nota-se a decadência da grande mídia golpista e das tendências do brega-popularesco a ela vinculadas, numa crise que envolve até mesmo o desgaste de valores associados ao machismo, como o culto às popozudas, e à domesticação do povo pobre, processo que já começa a sofrer risco com as conquistas sócio-econômicas e a evolução gradual da Educação.

Isso causa fúria, tanto entre jovens internautas reacionários - que se protegem pelo verniz da pouca idade para não serem vistos como reacionários - quanto entre os chamados "calunistas" da grande imprensa, que tentam desmoralizar, de uma forma ou de outra, blogues como Mingau de Aço, FAlha de São Paulo e outros.

Claro que é um reacionarismo à maneira do "jeitinho brasileiro", que segue a cartilha das manifestações direitistas que pediram a ditadura militar em 1964.

Da mesma forma que tais manifestações falavam em "liberdade", "família cristã", "livre iniciativa", "livre propriedade" e "liberdade de imprensa", os reaças atuais falam em "liberdade do corpo", "liberdade cultural", "expressão das periferias", "valorização do povo pobre", em argumentos que mais parecem de estagiários bem-sucedidos da revista Veja.

E ainda falam bem do PiG. Hoje elogiam o Fausto Silva, amanhã vão canonizar o Ali Kamel.

É o grande temor que a direita tem da evolução dos valores sociais. De ver que as populações das favelas estão emancipando sócio-econômica e culturalmente, o que faz seus jovens se afastarem da escravidão demagoga do "funk carioca". De ver que até mesmo as escolas de samba estão preferindo moças classudas como Ellen Rocche e Sheron Menezes em detrimento das ocas popozudas, de ver que as moças da periferia terão outros sonhos que não sejam o de balançar os glúteos em grupos de "funk" ou porno-pagodão.

Esse temor alarmista e fascista, que desperta iras de jovens de extrema-direita escondidos em suas camisetas saradas e ar de falso rebelde, que os faz reagir no seu reacionarismo que são incapazes de esconder, feito "Hosnis Mubaraks de bolso", leituras teen de Olavo de Carvalho.

Tentam inverter o discurso reacionário falando em "democracia", "cultura popular" e "direitos humanos", mas dentro daquela visão quase medieval, que no fundo quer que o povo pobre fique sempre subserviente à mídia e vá que nem gado para os galpões mega-shows da vida para consumir os "sucessos do povão".

Mas o teatrinho irritadiço deles só revela o horror que eles sentem por intelectuais que querem melhoria de vida para o povo, o horror de que o povo se livre dessa falsa cultura popular patrocinada pelo latifúndio, o horror de ver o povo pobre falando como gente, as mulheres pobres rompendo com sua aparente sina de mulheres-objeto e tudo o mais.

No fundo, o horror que contagia até mesmo a direita dente-de-leite é o medo paranóico de que as mobilizações populares do Egito e da Tunísia sirvam de exemplo para o povo brasileiro romper com o poder latifundiário e com os barões do entretenimento brega-popularesco.

Mas é esse horror, mesmo dentro de um discurso "bonitinho", é que comprova o ímpeto extremo-direitista que contagia de trolls a "calunistas".

VEJA E O "BOM-MOCISMO" DE LUCIANO HUCK



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Será que vale a pena nos calarmos diante dos abusos da grande mídia, como querem certos "donos da verdade"?

Veja e o "bom-mocismo" de Luciano Huck

Do blog Lado B - Reproduzido também no Blog do Miro

O mundo “explodindo” em convulsões sociais, protestos e catástrofes climático-ambientais à espera de iniciativas que diminuam os impactos de seus efeitos, de mudanças de atitude, e a revista semanal de maior circulação no país ignora tudo isso. Ela estampa uma capa estilo “Caras”, colocando o casal Angélica e Luciano Huck em destaque. Cuma?!

Mas o bom e velho jornalismo resiste bravamente na capa de outra revista, com menor poder de inserção, mas coerente com sua linha editorial e com a missão de se pautar pelo interesse público: a CartaCapital.

À revelia do “bom mocismo” que Veja tenta colar à sua imagem, Huck se defende de processo contra ele por acusação de crime ambiental movido pela Prefeitura de Angra dos Reis desde 2007:

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Luciano Huck é processado pela Prefeitura de Angra dos Reis
"A Prefeitura de Angra dos Reis move uma ação civil pública contra Luciano Huck. O apresentador teria feito contruções irregulares em sua casa de veraneio no município e causado danos ao meio ambiente. Huck ainda não foi informado oficialmente da ação. Oficiais de Justiça foram à TV Globo mas não conseguiram encontrá-lo. A assessoria de imprensa de Luciano afirmou que ele não tem conhecimento da ação, nem da visita de algum oficial de Justiça. A assessoria afirmou ainda que esse processo surpreende porque a planta e o habite-se da residência foram devidamente aprovados pela Prefeitura de Angra".

Luciano Huck estaria sendo processado pela Prefeitura de Angra dos Reis, diz jornal

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Para elucidar o porquê da decisão de Veja colocar o “bom mocinho” Luciano Huck na sua capa esta semana, basta consultar detalhes do processo que ele responde. Mesmo vencedor da ação em primeira instância, Huck terá a casa vistoriada por perícia e o Ministério Público do Rio de Janeiro, que recorreu da decisão, exige que ele deposite o valor das custas processuais. Confira e tire suas próprias conclusões.

Veja, agora, se presta a fazer assessoria de imprensa às celebridades? A revista se supera!

domingo, 30 de janeiro de 2011

PROTESTOS NO EGITO E MOBILIZAÇÃO POPULAR: SUPERAÇÃO DO MEDO E A LUTA CONTRA DITADURAS


PROTESTO MARCA ENTERRO DE MANIFESTANTE CONTRA A DITADURA DE HOSNI MUBARAK.

COMENTÁRIO DESTE BLOG: Talvez os episódios que envolvem, de um lado, a crise da grande mídia brasileira e, de outro, os movimentos populares da Tunísia e Egito (que, no Brasil, poderiam refletir na luta contra o latifúndio e as oligarquias do poder econômico e midiático), sejam os motivos pelos quais parte da sociedade conservadora deste país, mesmo os jovens internautas, estejam com medo e por isso reagem com fúria contra blogs progressistas como Mingau de Aço, Blog Cidadania, Viomundo e Angry Brazilian.

Protestos no Egito e Mobilização Popular: Superação do medo e a luta contra ditaduras

Por Raphael Tsavkko Garcia - Blogs Opera Mundi e Angry Brazilian

O Egito chega ao quarto dia ininterrupto de protestos, apelidado de Dia da Ira, em que milhares de manifestantes tomaram as principais ruas do país (como o Cairo, Alexandria e Suez) sem dar sinais de que irão recuar frente à polícia até que caia o regime de Hosni Mubarak, no poder há 30 anos.

Desde ontem a internet no Egito está praticamente inacessível e a população acusa o governo de - ilegalmente - ter "desligado" a internet. O Twitter e o Facebook já estavam inacessíveis e em alguns lugares as linhas de telefonia celular foram cortadas e mesmo a telefonia fixa passa por problemas. A transmissão via satélite do canal Al Jazeera foi cortado no Egito que pode se tornar um verdadeiro buraco negro informacional.

A repressão policial no Egito vem sendo brutal, os mortos são pelo menos oito, centenas de pessoas estão feridas ou foram presas pela polícia e encontram-se em paradeiros desconhecidos. O líder da oposição democrática, o ex-chefe da Agência Nuclear da ONU, Mohamed El Baradei encontra-se preso assim como diversos líderes da Irmandade Muçulmana e de outros partidos de oposição.

Jornalistas, em especial câmeras, são alvos preferenciais da polícia egípcia que tenta somar ampliar o blecaute informacional e proibir que imagens saiam do país.

Os protestos no Egito começaram depois que o líder da Tunísia, Zine el Abdine Ben Ali foi deposto depois de 29 dias de protestos contínuos no país. A queda de um antigo fitador Árabe - forte aliado dos EUA na região - serviu de gatilho para que a revolta se espalhasse para o Egito e mesmo para o Iêmen, onde milhares de manifestantes também exigem a saída de Saleh, no poder há 32 anos.

As imagens reproduzidas pela Al Jazeera e também pela BBC e por outras redes presentes no Egito são estarrecedoras. Frente à extrema violência policial a reação apaixonada e inebriada de milhares - talvez milhões - de egípcios que apenas pelo seu número conseguem forçar as forças de segurança a recuar.

sábado, 29 de janeiro de 2011

CHARGES CARIOCAS NO PROTESTO EGÍPCIO



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Depois do Sr. Cloaca, é a vez de Carlos Latuff despertar a atenção de jornalistas da imprensa conservadora. Mas aqui, além de não haver cooptação alguma, é um caso excepcional, sobretudo por conta de jornalistas que nem sempre correspondem ao perfil ideológico de seus patrões.

Carlos Latuff realmente tem um fino estilo de desenhar, a nível internacional, e seu humor chargista chama muito a atenção pela sua crítica direta e concisa, o que fez manifestantes no Egito usarem um de seus desenhos - como este em destaque - para os protestos contra o ditador Hosni Mubarak.

Desejamos parabéns a Carlos Latuff, pelo reconhecimento de seus desenhos.

Charges cariocas no protesto egípcio

Por Letícia Sorg - Da revista Época

O chargista carioca Carlos Latuff mora no Rio de Janeiro, mas, nesta semana, seus desenhos ganharam as ruas do Egito nas mãos de manifestantes. A charge que mostra o presidente egípcio Hosni Mubarak alvo de um sapato não foi publicada por nenhum jornal – sob a censura do regime autoritário – mas circulou nas mãos dos ativistas, como esse no Cairo. "É uma forma de soltar um grito atravessado na garganta por 30 anos", diz Latuff, em referência aos anos de Mubarak no poder.

Mas como as charges desse artista brasileiro foram parar nos protestos egípcios? Nesta entrevista, Latuff revela essa história e a origem de seu interesse pelo mundo árabe.
ÉPOCA - Suas charges chegaram às mãos dos manifestantes no Egito. Como isso aconteceu?
Carlos Latuff – Minhas charges já foram reproduzidas em protestos antes. As pessoas acessam a internet, baixam os desenhos e os imprimem. Desta vez ativistas egípcios, que já conheciam meu trabalho em favor dos palestinos, pediram-me que fizesse charges como forma de solidariedade com o movimento popular. Isso aconteceu dois dias antes do dia 25 de janeiro, data em que começaram os protestos por todo o Egito.

ÉPOCA - Você é brasileiro de origem libanesa. Quando decidiu fazer charges sobre os conflitos políticos do mundo árabe?
Carlos Latuff – Isso aconteceu desde minha viagem ao territórios ocupados da Cisjordânia em 1999. Mas tenho apoiado diversas causas pelo mundo por meio das charges, como os direitos humanos na Turquia e no Sri Lanka, os trabalhadores na Grécia, os hondurenhos contra o golpe militar que derrubou Zelaya, e, no Brasil, em favor dos sem-teto, dos sem-terra e contra a violência policial nas favelas. Tenho colocado meu trabalho a serviço das causas populares aqui e lá fora.

ÉPOCA - Como se mantém informado sobre a política no Oriente Médio?
Carlos Latuff – Estive na Palestina em 1999 e em campos de refugiados palestinos na Jordânia e Líbano em 2009. Além das informações que obtive in loco, graças à internet, é possível também saber dos últimos acontecimentos diretamente das pessoas que vivem lá.

A DIREITA JUVENIL CONTRA-ATACA


IMAGINE ALGUÉM CHAMAR QUALQUER UM DESSES BLOGUEIROS DE "BURGUESINHOS SINDICAIS"?

Por Alexandre Figueiredo

Imagine a seguinte situação. Um colunista da Folha de São Paulo escreve para o Twitter do Blog do Miro dizendo que não gostou muito dos textos que Altamiro Borges publica ou escreve. Esse colunista acaba chamando Miro de "preconceituoso", "moralista" e diz que o blogueiro faz uma visão distorcida da realidade brasileira.

Miro tenta argumentar, dizendo que observa mais a realidade do que qualquer jornalista trancado nas quatro paredes da Alameda Barão de Limeira. Irritado, o jornalista da Folha dispara dizendo que Altamiro é um "burguesinho sindical", e o próprio jornalista tenta argumentar para dar a falsa impressão de que o colonista entende mais de sociedade brasileira do que o blogueiro progressista, presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé.

O reacionarismo na Internet ocorre comigo, mas poderia ocorrer até com o bem-humorado Senhor Cloaca, do Cloaca News. Como ocorre, com uma intensidade bem maior do que a de todos os blogueiros progressistas brasileiros juntos, com o fundador do Wikileaks, Julian Assange, que talvez sofra de constantes insônias diante das pressões que ele recebe.

O grande problema não é fulano discordar de mim num determinado momento da vida. O problema é que parte das pessoas, mesmo usando argumentos "racionais" e "mais objetivos", se incomoda de existir veículos que transmitem ideias que não são as delas.

O reacionário até faz cena, dizendo que meu blog não precisa ser feito para agradar ele, e coisa e tal. Mas, na prática, ele gostaria mesmo que eu fizesse blog só para seu agrado.

No âmbito da política, até que certas polêmicas se resolvem e trincheiras se dividem com mais clareza. Mas no setor cultura, que é o que mais está penando no debate público (já que visões direitistas são difundidas até mesmo na imprensa de esquerda, como no caso de Pedro Alexandre Sanches, ex-jornalista da Folha de São Paulo e hoje colunista de Caros Amigos), a situação é bastante dramática.

Afinal, a dita "cultura popular" que, na verdade, é vinculada aos mesmos interesses da grande mídia que condena os movimentos sociais, é um dos legados do período ditatorial e de cenários políticos e mercadológicos conservadores que ainda resiste, até de forma bastante furiosa, às mudanças sociais que acontecem no nosso país.

Isso se deve porque, assim como os programas da Rede Globo ou as vendagens da Folha de São Paulo e do carioca Meia Hora, o brega-popularesco anda perdendo a popularidade, causando fúria nos seus defensores, que lançam mão de um discurso politicamente correto tão insistente e agressivo, ora com desculpas, alegações e desaforos.

Eduardo Guimarães, no Blog Cidadania, escreveu um interessante texto sobre os trolls, que são os internautas que tem mania de reagir a textos que contrariam os valores dominantes e tidos como oficiais, primeiro com argumentos aparentemente convincentes, depois com ataques furiosos. Isso em fóruns de Internet, em páginas de comentários, e agora até em blogs feitos por esses trolls.

É verdade que muitos desses vândalos digitais só aparecem para bagunçar, mas vários deles escondem um germe de direitismo que os fará, no futuro, o equivalente a pessoas como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Eliane Cantanhede e outros "cães de guarda" do status quo.

O carinha que "inocentemente" defende o Domingão do Faustão e fala em "solidariedade ao povo pobre" é o mesmo que, anos adiante, irá defender a Folha de São Paulo e falar em "democracia".

Não é de surpreender que o internauta que me chamou de "burguesinho da favela" fala em "cultura popular" com a mesma convicção que qualquer colunista de Veja fala em "democracia". É a mesma visão direitista, só que num contexto "saudavelmente pop" que a princípio não desperta qualquer suspeita.

Mas imagine se, por trás de uma defesa do Domingão do Faustão, do Big Brother Brasil e das popozudas, há um conservadorismo intransigente, igual ao dos golpistas. Claro, o conservador vai acusar os outros de "conservadores", da mesma forma que aquele leitor da Folha de São Paulo que não gostou de ver seu jornal ser definido como "PiG" (Partido da Imprensa Golpista).

O problema maior também não é de haver pessoas assim, direitistas, principalmente os enrustidos. O problema é que eles querem ter hegemonia nos seus pontos-de-vista, quando eles têm seus próprios espaços, têm sua arena para defender seu conservadorismo. E que muitos desses jovens têm familiares trabalhando para a mídia, para os barões do entretenimento, estão ali para defender o "ganha-caviar" das oligarquias, mesmo sob o aparente pretexto de "defender a cultura popular".

A direita juvenil não assusta porque seus indivíduos não usam ternos e gravatas, não vão para as tribunas, ainda não sobem aos palanques, e falam gírias, usam linguagem coloquial. Parecem modernos no visual, mas na essência se tornam altamente conservadores.

Só que, na medida em que eles ganham mais visibilidade, eles tornam-se mais ambiciosos. Num primeiro momento, falam mal de intelectuais, mas depois irão desmoralizar os ativistas de direitos humanos. Hoje defendem o oficialmente estabelecido a título de "cultura popular", mas depois lutarão para prevalecer a visão que eles tem sobre "democracia".

Reinaldo Azevedo, Ali Kamel, Merval Pereira, Diogo Mainardi, Carlos Alberto Di Franco, Eliane Cantanhede, Miriam Leitão, William Waack etc. Quem sabe eles, bem antes do início de suas carreiras, não eram "inocentes trolls" que tão somente disseram "não gostar muito" do que a imprensa alternativa de seu tempo escrevia e divulgava?

É bom abrirmos o olho para a direita do futuro, para os neocons de bermudão e tênis.

AS AGRURAS DA BANDA LARGA


COMENTÁRIO DESTE BLOG: A Internet brasileira tem tecnologia defasada e sofre com vários problemas, sobretudo com monopólio de poucas empresas privadas em cidades distantes, que cobram serviço caro e ruim. Só para se ter uma ideia, a qualidade da Internet de banda larga corresponde, hoje

As agruras da banda larga

Por João Brant - Jornal Brasil de Fato

Todos sabem que a internet em banda larga no Brasil é cara, lenta e para poucos. Apenas 27% das residências são conectadas à banda larga, isso considerando como "largas" conexões a partir de 256 kbps. O Brasil é um dos países em que o serviço é mais caro, tanto em valores absolutos como se considerado o poder aquisitivo da população. E a velocidade ofertada é mentirosa, como denunciam as próprias letras miúdas do contrato – as empresas só garantem 10% da velocidade contratada.

Se pensarmos que a internet viabiliza o acesso a diversos serviços, amplia o acesso ao mercado de trabalho e fortalece a diversidade informativa e cultural, o problema é grave. Concorrência quase não existe; na maioria dos casos, o serviço é prestado só pela operadora de telefonia fixa. Na longa distância, o quadro é ainda pior. Algumas prefeituras tentam oferecer serviço gratuito para a população, mas se veem frente ao controle da rede de longa distância por operadoras privadas monopolistas, que cobram quanto querem.

Para enfrentar esse quadro, o governo desenhou um Plano Nacional de Banda Larga. A principal ação prevista é a reativação da Telebrás, que passa a coordenar o uso das redes de fibra ótica de várias empresas da administração indireta (Eletronorte, Chesf, Petrobras etc.). Ela vai ofertar capacidade de tráfego de longa distância para provedores locais. A expectativa é que essa ação gere competição e abra espaço para milhares de pequenos provedores prestarem o serviço diretamente.

Mas e naquelas cidades em que não há provedores interessados ou não há oferta adequada? A Telebrás diz que nestes casos, e só nesses, vai ofertar o serviço diretamente ao cidadão. Não deveria ser assim. Onde o custo de implementação é mais baixo e há mais usuários dispostos a pagar, a Telebrás não entra. Onde ela vai ter de investir milhões para se instalar e há um mercado pouco lucrativo, ela entra para cobrir as 'falhas de mercado'. É uma concessão injustificável. Banda larga deve ser um serviço público universal, barato e de qualidade para garantir o direito fundamental dos cidadãos a comunicação.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

"NOJINHO DE POBRE" É O QUÊ, MESMO, CARA PÁLIDA?



Por Alexandre Figueiredo

"Eu entendo de povo pobre", diz o burguesinho, feliz no seu condomínio de luxo, apenas comprometido com suas obrigatórias audiências a programas que, no típico recorte tendencioso de produções, edições e interpretações, "mostram" a periferia "como ela é", dentro dos limites ideológicos da emissora e dos limites sócio-econômicos de quem divulga essa periferia.

Mas o burguesinho, arrogante, "dono da verdade", cheio de desculpas, de pretensos argumentos, capaz de réplicas insistentes, acusações raivosas porém infundadas (mas que para ele são expressões de "pura sabedoria"[sic]), insiste que "entende de periferia como ninguém".

É essa a postura de muita gente que defende essa pseudo-cultura do brega-popularesco. Gente que parece acreditar que o Brasil virou um paraíso de justiça social, e que faz um discurso "humanitário" que, na verdade, esconde seus preconceitos, bem mais cruéis do que aqueles que supostamente são atribuídos a nós, humildes adeptos do senso crítico.

Nota-se, nas suas alegações "tão certinhas", que essa moçada arrogante acredita em determinadas ilusões:

1) O Brasil atingiu o grau pleno da cidadania e da justiça social.

2) A mídia grande é guardiã dessa justiça social em sua perfeição.

3) Quem falar mal dessa perfeição é que é "preconceituoso", "moralista" e outras "crueldades".

Dessa forma, nada como um Benito Mussolini da vida copiar a retórica de Mahatma Gandhi para disfarçar seus preconceitos. Qualquer semelhança entre tais internautas e Francis Fukuyama não é mera coincidência. Aliás, não é coincidência alguma.

O tal "nojinho de pobre" quem sente é aquele cara de classe média que fala tão bem do "rebolation" e do "tecnobrega" como "últimas palavras em expressão da periferia". É dele esse sentimento de nojo pelos pobres que ele tanto disfarça com um discurso o mais dócil possível.

Pois o mesmo carinha abastado que se gaba em "entender de periferia" só porque viu os programas da Regina Casé na Rede Globo e que também assiste aos programas do SBT e Rede Record, é aquele que é incapaz de ir a uma feira livre sem fazer sua cara de horror.

Na Internet, tudo fica fácil. Ele escreve em suas mensagens que adora pobre, que não tem o menor preconceito contra a periferia, que quer o melhor para as classes populares, que pensa na felicidade deles.

Tudo isso é um ativismo social de mentirinha. E que esconde visões fascistas, elitistas, como no filme Terra Em Transe (1967), do genial Glauber Rocha. Num trecho do filme, o jornalista Paulo Martins (Jardel Filho), num surto elitista, manda o personagem trabalhador (interpretado por Flávio Miggliaccio) calar a boca, numa demonstração do quanto as elites paternalistas, quando querem, impedem o povo de falar, porque são essas elites que "falam pelo povo".

Pois essa ideologia brega-popularesca no fundo significou esse "cala boca" imposto ao povo pobre, que era obrigado a permanecer quieto no seu recreio da cafonice, da tolice, da mediocridade. O povo acaba sendo visto na mais hipócrita visão paternalista pelas elites.

Porque, para essas elites, o povo "é autêntico" e "feliz" quando dança seu "rebolation", seu "créu", seu "axé". Quando mostra seus sorrisos desdentados na televisão. Quando mostra sua "ignorância pura", ao qual não podemos problematizá-lo. Quando enche a cara no botequim. Quando vai que nem gado à casa noturna suburbana para consumir os atuais ídolos do brega-popularesco.

Chegam mesmo a dizer que a Educação não é necessária, porque isso seria interferir na "admirável inocência" das classes pobres. Acham que o povo pobre só tem valor "na sua mais pura ignorância, que o faz ter cheiro de povo". Acham que a escola irá estragar com a periferia, que Paulo Freire não passou de "um burguês metido".

E ainda dizem que "não se pode generalizar", como se dissesse que o MC Créu "pode ser ruim", mas o MC Leozinho é "um gênio". Ou que o Calcinha Preta "pode até ser péssimo", mas os Aviões de Forró "são o máximo". Quem pensa assim não fala em prol da cultura do povo, pensa tão somente no mercado do brega-popularesco, que precisa faturar à custa de alguns ídolos "menos ruins". Reprovar a mediocridade cultural como um todo incomoda o burguesinho porque põe o mercado todo em risco de falência.

Mas fazem um discurso doce feito mel, que esconde intenções puramente cruéis, maléficas.

Porque o mesmo cara que acha lindo o "rebolation", porque é a "expressão pura do povo da periferia",e acha o "funk carioca" o "primor de cidadania", é o mesmo que se horroriza quando vê os pobres fazendo passeata pedindo melhorias para seu bairro.

É o mesmo cara que sorri, quando vê os pobres sorrindo arreganhados para Regina Casé na televisão, o que sente horror quando tem que atravessar, de carro, um bairro popular para ir para outro município.

É o cara que acha lindo atribuir uma barbaridade como o Calcinha Preta como "expressão da periferia" - ignorando que o grupo é daqueles comandados pelo empresário e patrocinados pelos "coronéis" do latifúndio - , mas que fecha a janela do carro toda vez que passa perto de um pobre necessitado.

Posar de progressista é muito fácil. Você cria uma conta no fórum do blog do Luís Nassif, faz todo o teatrinho contra a Rede Globo - que você adora, até com certo fanatismo, mas é obrigado a esculhambar porque está na moda - , bajula a Dilma, o Lula, o Che Guevara, até que na hora H você pede para os amigos não falarem mal do PiG porque "a mídia é desprezível", algo que o hoje vovô Cabo Anselmo fez parecido há mais de 45 anos atrás.

Tendo visibilidade, o reacionário pseudo-progressista tenta reverter seus preconceitos de classe numa falácia politicamente correta que dê a falsa impressão de que tal reaça é "humanista", "sem preconceitos" e "solidário às classes populares".

Seu discurso acaba mostrando falhas, num e noutro momento. Fala de sua "defesa convicta" do povo pobre com o distanciamento de quem vê a multidão do alto de seu prédio. "Não vamos falar do povo pobre, deixa o povo, o povo é feliz", diz ele, com o ar de um nobre que não quer ser incomodado com polêmicas que, para ele, "não tem sentido".

Quando ocorrem deslizamentos de terra, ondas de violência, entre outros transtornos vividos pelas populações pobres, o burguesinho tão "solidário" com a periferia faz desdém, ainda que tente desconversar. "É por isso que tem o 'rebolation' e o forró-calcinha para alegrar essa moçada sofrida", diz, com natural e calma hipocrisia.

Mas quando nós reivindicamos uma justiça social que ainda não existe, esse burguesinho se irrita. "Tu tá (sic) de preconceito, tu é (sic) moralista!", diz ele, com raiva. Acusações de "preconceito", de "discriminação social", de "nojinho de ser pobre", vêm à tona, como se o burguesinho livrasse de seus próprios adjetivos como alguém que joga a bagagem no lombo dos outros.

É assim que funciona. O burguesinho tenta argumentar e, quando consegue, tudo bem. Mas ele mostra um nervosismo que é muito estranho para ele, que se autoproclama "ser tudo de bom". E, quando os argumentos tão insistentes, bonitinhos mas frágeis se esgotam, ele normalmente parte para a ignorância, mostrando-se claramente reacionário.

Aí, com a máscara caída, o burguesinho, que se dizia tão solidário com a periferia, não consegue esconder seus mais cruéis preconceitos elitistas, que nenhuma mensagem bonitinha ou certinha na Internet consegue mais esconder.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

RADIALISTA BAIANO É PRESO SUSPEITO DE EXTORSÃO


O AEROCLUBE PLAZA SHOW FOI USADO COMO PONTO DE ENCONTRO DA "NEGOCIATA".

COMENTÁRIO DESTE BLOG: A corrupção é um hábito muito frequente no rádio baiano que, salvo raríssimas exceções, é politiqueiro, tendencioso e incompetente. Denúncias de corrupção florescem a cada dia, e quase mataram Mário Kèrtesz, o histórico corrupto baiano (espécie de Paulo Maluf com dendê) e astro-rei da Rádio Metrópole, quando ele foi denunciado como envolvido em conchavos com dirigentes esportivos baianos.

Aqui o episódio envolve o conhecido radialista Ivan Carlos e o político Marcos Medrado (outro dublê de radiojornalista), que não nos consegue enganar disfarçando seu direitismo coronelista sob a legenda do PDT. Até porque, no plano nacional, Marcos Medrado já foi divulgado como membro da chamada "bancada ruralista" do Congresso Nacional, que sempre vota a favor dos latifundiários.

A extorsão teria sido um acordo para que casos de corrupção envolvendo Marcos e seu filho deixassem de ser denunciados pelo radialista. Ivan chegou a trabalhar na Nova Salvador FM, rádio de propriedade de Marcos Medrado.

Eles chegaram a marcar um encontro no Aeroclube Plaza Show, shopping de maior destaque na orla marítima de Salvador, localizado na Boca do Rio. Eu mesmo fui várias vezes ao Aeroclube, nas minhas caminhadas na orla.

BA: radialista é preso suspeito de tentar extorquir deputado

Do Terra Notícias

O radialista Ivan Carlos está preso na Delegacia de Repressão a Estelionato e Outras Fraudes (DREOF) de Salvador (BA) acusado de tentar extorquir o deputado federal baiano Marcos Medrado (PDT). De acordo com a polícia, ele teria solicitado R$ 150 mil e um carro para não divulgar documentos que supostamente poderiam incriminar o deputado.

Os contatos eram realizados por e-mail e telefone, onde o radialista se identificava como Superman. Segundo o parlamentar, foi o filho dele, Diogo Medrado, que também estava sofrendo as ameaças, que entrou em contato com a polícia para denunciar o chantagista e armar um esquema que possibilitasse a prisão. Até Ivan ser detido, nenhum deles sabia quem era o suposto Superman.

Para executar o plano, Diogo Medrado, resolveu, com o aval da polícia, marcar um encontro com o chantagista próximo ao shopping Aeroclube, no bairro Boca do Rio, orla de Salvador, prometendo entregar o valor solicitado. No momento da entrega do dinheiro o radialista foi detido.

Extorsão

Em agosto do ano passado, o blogueiro João Andrade Neto também foi preso suspeito de extorquir seis empresários da Bahia. Segundo a polícia, ele ameaçava as vítimas afirmando que publicaria no seu site "Pura Política" supostas denúncias para prejudicar os empresários. No escritório do blogueiro, onde a prisão foi realizada, a polícia apreendeu 12 computadores e grande quantidade de documentos.

FOLHA NÃO É MAIS O MAIOR JORNAL DO PAÍS. E DAÍ?



COMENTÁRIO DESTE BLOG: De fato, a decadência da Folha de São Paulo é notória, como a dos tais "jornais populares", como o carioca Meia Hora, também. Mas é muito cedo para dizer que a imprensa entra numa nova fase, até porque os igualmente conservadores O Globo e O Estado de São Paulo cresceram.

Além do mais, a força da Internet já fez tirar o Jornal do Brasil da circulação impressa, apesar do próprio Jornalismo B realizar uma campanha pela volta da versão de papel do JB, até para, ao menos, continuar a concorrência entre os jornais impressos, que minimiza a mesmice editorial. E nós aqui apoiamos a volta do JB impresso, visando este sentido. O mínimo de democracia que houver na mídia é sempre bem vindo.

Folha não é mais o maior jornal do país. E daí?

Por Alexandre Haubrich - Blog Jornalismo B

Foi muito comemorada na blogosfera e nas redes sociais a divulgação da notícia de que, depois de 24 anos, a Folha de S. Paulo deixou de ser o jornal de maior circulação do país. A Folha foi ultrapassada pelo jornal Super Notícia, de Minas Gerais, e a maioria dos comentários a respeito atribuiu a mudança de posições aos erros da Folha e aos ataques do jornal paulista à campanha de Dilma Rousseff. Me parecem enganos, tanto a atribuição de causa quanto a comemoração.

A verdade é que a circulação da Folha em 2010 manteve-se praticamente estável em relação a 2009. Passou – sempre arrendondando – de 295 mil para 294 mil exemplares diários. Queda insignificante. Enquanto isso, O Globo subiu de 257 mil para 262 mil. O Estadão teve grande crescimento: 213 mil para 236 mil. A impressão clara é de que o crescimento que a Folha poderia ter tido migrou para o Estadão. Isso muda muito pouco. Não torna a distribuição mais democrática nem melhora realmente a qualidade da leitura dos brasileiros. Dos três principais jornalões do país, apenas a Folha caiu, e muito pouco ou quase nada.

Apesar de duas alterações de posicionamento (Folha trocou com Super Notícia e Zero Hora ultrapassou Meia Hora), os dez jornais de maior circulação continuam os mesmos, apesar da grande queda do Lance, de 125 mil para 94 mil exemplares diários. No Rio Grande do Sul, crescimento também na circulação da Zero Hora, do Correio do Povo e do Diário Gaúcho (também veículo do Grupo RBS).

Os jornais populares que estão na lista tiveram, em seu conjunto, uma queda grande, de 30 mil exemplares diários, enquanto os jornais tradicionais aumentaram em 27 mil exemplares sua circulação. A grande queda dos jornais Meia Hora e Extra puxaram pra baixo a circulação dos populares, mas o Super Notícia cresceu a ponto de se tornar o maior jornal do país.

O Super Notícia não segue a linha da linguagem agressiva e preconceituosa de boa parte dos chamados “jornais populares”, mas a linha editorial passa longe de ser o que se costuma defender nos espaços que hoje comemoraram a “queda” da Folha de S. Paulo. Não é um jornal de esquerda. Não colabora para a emancipação de seus leitores, não os instrui, não os informa verdadeiramente sobre as questões de seu espaço e seu tempo. Ao mesmo tempo, a Folha não teve uma queda verdadeira. E O Globo cresceu. E o Estadão cresceu. E a Zero Hora cresceu. O cálculo do IVC não mede a situação dos veículos independentes. O que há para ser comemorado nessa pesquisa? Absolutamente nada. Entender ou fazer entender que esses dados mudam alguma coisa é um erro. A democratização da comunicação ainda está muito longe, e os dados do IVC não são passo algum.

MÍDIA BRASILEIRA É ATRASADA ATÉ NO ENTRETENIMENTO


A MÍDIA BRASILEIRA LEVOU 15 ANOS PARA ENTENDER AS RAVES BRITÂNICAS, DEPOIS QUE ELAS DEIXARAM DE VIRAR MODA NO REINO UNIDO.

Por Alexandre Figueiredo

Quando se fala que a grande mídia é velha, esclerosada e atrasada, não se deve entender apenas na sua editoria política e nas suas pregações ranzinzas contra medidas de interesse público. Se deve entender também no que se diz ao entretenimento, à cultura, à arte, embora saibamos que não se deve confundir entretenimento com cultura ou arte.

Pois até nesses setores a mídia brasileira está num atraso retumbante. Chega a ser uma demonstração de provincianismo caipira a mídia defender a gíria "balada" como se fosse a última palavra em matéria de gíria. Mas o termo, até hoje, só serviu para definir uma tradução ao mesmo tempo preguiçosa, pedante, provinciana e datada das raves britânicas.

Aliás, houve um tempo em que o jovem brasileiro só queria saber de hip hop ou techno. Não porque esses estilos em si são datados, mas nota-se que a adoração dessa juventude amamentada pela grande mídia golpista - que possui seus redutos "descolados", como o canal de TV Multishow, o portal de Internet Ego (do Globo.Com), o Folhateen da Folha de São Paulo, o Caldeirão do Huck, a revista Capricho - tem um quê de coisa mofada. Como as rádios ex-jovens Jovem Pan 2 e Transamérica, que mais parecem cadáveres em avançado estado de decomposição.

Isso porque é a obsessão de parte midiotizada da juventude brasileira por eventos "modernos" que as move nesse culto a modismos "de ponta". Só que, mais uma vez, até para acertar o relógio o Brasil da grande mídia anda muito atrasado.

Pois o hip hop e o techno, como referenciais de modismo dessa juventude "descolada, são coisas completamente datadas, no que se refere à condição do sucesso predominante. Respectivamente, as duas tendências tiveram sua época no mainstream em 1983, sobretudo através da dança breakbeat, que lançou a onda hip hop nos EUA, e em 1988, quando o evento britânico Summer Of Love lançou as raves, a música eletrônica e a "cultura dos DJs", quando os disc jockeys eram os astros desses eventos.

Todo mundo gosta do que quiser, mas o que se diz aqui é que, enquanto a "galera" brasileira tinha obsessão por rappers e DJs, o exterior vinha com o renascimento do rock alternativo através de bandas calcadas no então pouco conhecido cenário alternativo de 1979-1981.

Mas, espere aí. Se eu critico uma tendência antiga, por que recomendo outra tendência antiga?

O problema não está aí. Está no fato de que o Brasil não consegue ser contemporâneo, mesmo quando quer ser retrô. As raves de 2003 eram datadas, mas não eram vistas como retrô. O problema não está em ressuscitar o antigo e renová-lo, mas em pegar uma onda tardiamente, sem mais contexto real para isso, e levá-lo como se fosse "novidade".

Dessa forma, enquanto o mercado lúdico brasileiro via desenvolver-se um despotismo de DJs pedantes que não sabiam a diferença entre a soul music dos anos 60 e a disco music, faziam um ralo dance bate-estacas e vampirizavam da Bossa Nova à Jovem Guarda, no Reino Unido e nos EUA grupos como Strokes, Franz Ferdinand, Interpol, Data Rock, Donnas e Kaiser Chiefs atualizavam referenciais lançados 30 anos antes por grupos como Television, Wire, Cars, Gary Numan, Wall Of Voodoo e Au Pairs.

Então, existe uma diferença entre os "descolados" brazucas que correm atrás do Verão do Amor perdido e os alternativos britânicos e estadunidenses que revitalizam sonoridades saudosas de Ric Ocasek, Stan Ridgeway e Vini Reilly, entre outros, em tendências atuais que fariam os citados mestres sorrirem de orgulho (e creio que eles sorriem).

O Brasil é tão datado, pelo despotismo não só da velha grande mídia como também do despotismo, não menos ridículo, de DJs, produtores fonográficos e empresários de talentos, que lançam tendências mofadas como se tivessem feito uma descoberta inédita. Não é de surpreender a sucessão de nomes que vão e vem com o vento, como Sublimes, Broz, Rouge, Sampa Crew, Maurício Manieri e Fat Family, todos querendo requentar aquilo que já foi feito lá fora, sem sequer dar alguma vitalidade, ainda que pálida, à tendência original.

No brega-popularesco, então, nem se fala. O que dizer de uma categoria musical que, já nos seus primeiros ídolos (Waldick Soriano, Odair José, Paulo Sérgio), segue tendências ultrapassadas, modismos que já se passaram? Todas as suas tendências sempre parecem como um vira-lata raivoso correndo atrás de uma moto. Não conseguem ultrapassá-la, por mais que tentem correr.

Soa patético, por exemplo, ver tanto o caso de Gretchen, que começou fazendo um proto-forró-brega em francês e com nome artístico de nórdica (para esconder o nome de batismo Maria Odete), numa pseudo-modernidade que, já naqueles idos de 1978 soava antiquado, ou o caso do vocalista do Parangolé dizer que para fazer seu "rebolation" se inspirou na sonoridade trance européia. Coisas totalmente forçadas, que nada expressam em modernidade.

A axé-music é antiquada, cheirando a pop bobo dos anos 80 travestido de reggae, salsa ou frevo. O "funk carioca" é antiquado, caricatura do que o miami bass dos EUA já havia feito uns 15 anos antes, com o agravante de que seus empresários-DJs promovem o mesmo despotismo pedante de sua classe. Nomes como o É O Tchan (*) são antiquados, sua pretensão "pós-moderna" é forçada e postiça. E até o tecnobrega é antiquado, por sua própria natureza medíocre e mercantilista.

Também nada soa moderna a tradução "emo" do folk rock através do "sertanejo universitário". Até porque é a mesma coisa mofada que Odair José e Paulo Sérgio faziam há 40 anos atrás. Além do mais, o que essa "música sertaneja" tem de moderna se, de Chitãozinho & Xororó para a frente, o que se vê é essa música pseudo-caipira tão claramente apoiada por latifundiários e barões de agronegócio, eles em si defensores e guardiões de ideais retrógrados herdados da República Velha.

O mais preocupante disso tudo é que a mídia do entretenimento no Brasil, e seu público de adeptos e defensores reacionários, sentem uma grande arrogância pelo provincianismo que eles entendem como "a sua modernidade". Querem ser futuristas sendo tão atrasados. E usam como desculpa sempre o relativismo: "não vamos generalizar", "nós temos nosso jeito de sermos modernos".

A mais nova onda dessa "modernidade" provinciana é o marketing em torno de um inocente evento sobre tecnologia e informática, o Campus Party. Os midiotas de plantão, em claro exagero, creditaram o evento como "uma festa da nação nerd", quando o Campus Party não é mais do que um evento como outro qualquer, onde tem gente de todo tipo, e que os nerds, de fato, são apenas minoria, descontando seus novos arremedos que são aqueles pseudo-nerds que parecem ter saído dos comerciais das cervejas Nova Schin e Skol.

O Brasil não precisa ficar na cola dos estrangeiros para adotar tendências. Mas precisa ter um mínimo de contemporaneidade. Em vez de ser um "museu de grandes novidades", o Brasil deveria ter um pouco mais de humildade e de observação, para que não inicie sua festa depois que a dos outros ter se encerrado.

As elites do entretenimento no Brasil vivem trancadas em seus escritórios, sem ver o mundo à sua volta. E, quando surge uma novidade, são sempre os últimos a saber.

Mas esse atraso cultural do Brasil se deve ao próprio atraso da mídia. A arrogância provinciana de certos jovens ditos "descolados" não é mais do que o reflexo dos veículos e espaços juvenis criados e desenvolvidos pela grande mídia.

(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

EXCLUSIVO: BRASILEIROS ENTREVISTAM JULIAN ASSANGE



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Eu enviei uma pergunta a Julian Assange mas ela não foi publicada. Tudo bem. Não me chateei com isso, nem um pouco, até porque Natália Viana está por dentro de várias entrevistas com o fundador do Wikileaks e ela escolheu as perguntas mais relevantes. Ela até resumiu várias questões de internautas em perguntas gerais, de forma a minimizar qualquer risco de injustiça.

Fica aqui nossos parabéns à jornalista, que em parceria com a Carta Capital, divulga fatos relacionados ao portal Wikileaks e a Julian Assange, que causaram um forte impacto nos bastidores da política internacional. Que Natália continue tendo sucesso com a sua dedicação e seu profissionalismo.

Exclusivo: Brasileiros entrevistam Julian Assange

Por Natália Viana - Blog Carta Capital Wikileaks

“Não somos uma organização exclusivamente da esquerda. Somos uma organização exclusivamente pela verdade e pela justiça”. Essa é apenas uma das muitas afirmações feitas pelo fundador e publisher do WikILeaks, Julian Assange, em entrevista aos internautas brasileiros.

A entrevista será publicada por diversos blogs, entre eles: Blog do Nassif, Viomundo, Nota de Rodapé, Maria Frô, Trezentos, Fazendo Média, FAlha de S Paulo, O Escrevinhador, Blog do Guaciara, Observatório do Direito à Comunicação, Blog da Dilma, Futepoca, Elaine Tavares, Blog do Mello, Altamiro Borges, Doutor Sujeira, Blog da Cidadania, Óleo do Diabo, Escreva Lola Escreva.

Julian, que enfrenta um processo na Suécia por crimes sexuais e atualmente vive sob monitoramento em uma mansão em Norfolk, na Inglaterra, concedeu a entrevista para internautas que enviaram perguntas a este blog.

Eu selecionei doze perguntas dentre as cerca de 350 que recebi – e não foi fácil. Acabei privilegiando perguntas muito repetidas, perguntas originais e aquelas que não querem calar. Infelizmente, nem todos foram contemplados. Todas as perguntas serão publicadas depois.

No final, os brasileiros não deram mole para o criador do WikiLeaks. Julian teve tempo de responder por escrito e aprofundar algumas questões.

O resultado é uma entrevista saborosa na qual ele explica por que trabalha com a grande mídia – sem deixar de criticá-la -, diz que gostaria de vir ao Brasil e sentencia: distribuir informação é distribuir poder.

Em tempo: se virasse filme de Hollywood, o editor do WikiLeaks diz que gostaria de ser interpretado por Will Smith.

A seguir, a entrevista.

Vários internautas - O WikiLeaks tem trabalhado com veículos da grande mídia – aqui no Brasil, Folha e Globo, vistos por muita gente como tendo uma linha política de direita. Mas além da concentração da comunicação, muitas vezes a grande mídia tem interesses próprios. Não é um contra-senso trabalhar com eles se o objetivo é democratizar a informação? Por que não trabalhar com blogs e mídias alternativas?

Por conta de restrições de recursos ainda não temos condições de avaliar o trabalho de milhares de indivíduos de uma vez. Em vez disso, trabalhamos com grupos de jornalistas ou de pesquisadores de direitos humanos que têm uma audiência significativa. Muitas vezes isso inclui veículos de mídia estabelecidos; mas também trabalhamos com alguns jornalistas individuais, veículos alternativos e organizações de ativistas, conforme a situação demanda e os recursos permitem.

Uma das funções primordiais da imprensa é obrigar os governos a prestar contas sobre o que fazem. No caso do Brasil, que tem um governo de esquerda, nós sentimos que era preciso um jornal de centro-direita para um melhor escrutínio dos governantes. Em outros países, usamos a equação inversa. O ideal seria podermos trabalhar com um veículo governista e um de oposição.

Marcelo Salles – Na sua opinião, o que é mais perigoso para a democracia: a manipulação de informações por governos ou a manipulação de informações por oligopólios de mídia?

A manipulação das informações pela mídia é mais perigosa, porque quando um governo as manipula em detrimento do público e a mídia é forte, essa manipulação não se segura por muito tempo. Quando a própria mídia se afasta do seu papel crítico, não somente os governos deixam de prestar contas como os interesses ou afiliações perniciosas da mídia e de seus donos permitem abusos por parte dos governos. O exemplo mais claro disso foi a Guerra do Iraque em 2003, alavancada pela grande mídia dos Estados Unidos.

Eduardo dos Anjos – Tenho acompanhado os vazamentos publicados pela sua ONG e até agora não encontrei nada que fosse relevante, me parece que é muito barulho por nada. Por que tanta gente ao mesmo tempo resolveu confiar em você? E por que devemos confiar em você?

O WikiLeaks tem uma história de quatro anos publicando documentos. Nesse período, até onde sabemos, nunca atestamos ser verdadeiro um documento falso. Além disso, nenhuma organização jamais nos acusou disso. Temos um histórico ilibado na distinção entre documentos verdadeiros e falsos, mas nós somos, é claro, apenas humanos e podemos um dia cometer um erro. No entanto até o momento temos o melhor histórico do mercado e queremos trabalhar duro para manter essa boa reputação.

Diferente de outras organizações de mídia que não têm padrões claros sobre o que vão aceitar e o que vão rejeitar, o WikiLeaks tem uma definição clara que permite às nossas fontes saber com segurança se vamos ou não publicar o seu material.

Aceitamos vazamentos de relevância diplomática, ética ou histórica, que sejam documentos oficiais classificados ou documentos suprimidos por alguma ordem judicial.

Vários internautas – Que tipo de mudança concreta pode acontecer como consequência do fenômeno Wikileaks nas práticas governamentais e empresariais? Pode haver uma mudança na relação de poder entre essas esferas e o público?

James Madison, que elaborou a Constituição americana, dizia que o conhecimento sempre irá governar sobre a ignorância. Então as pessoas que pretendem ser mestras de si mesmas têm de ter o poder que o conhecimento traz. Essa filosofia de Madison, que combina a esfera do conhecimento com a esfera da distribuição do poder, mostra as mudanças que acontecem quando o conhecimento é democratizado.

Os Estados e as megacorporações mantêm seu poder sobre o pensamento individual ao negar informação aos indivíduos. É esse vácuo de conhecimento que delineia quem são os mais poderosos dentro de um governo e quem são os mais poderosos dentro de uma corporação.

Assim, o livre fluxo de conhecimento de grupos poderosos para grupos ou indivíduos menos poderosos é também um fluxo de poder, e portanto uma força equalizadora e democratizante na sociedade.

Marcelo Träsel - Após o Cablegate, o Wikileaks ganhou muito poder. Declarações suas sobre futuros vazamentos já influenciaram a bolsa de valores e provavelmente influenciam a política dos países citados nesses alertas. Ao se tornar ele mesmo um poder, o Wikileaks não deveria criar mecanismos de auto-vigilância e auto-responsabilização frente à opinião pública mundial?

O WikiLeaks é uma das organizações globais mais responsáveis que existem.

Prestamos muito mais contas ao público do que governos nacionais, porque todo fruto do nosso trabalho é público. Somos uma organização essencialmente pública; não fazemos nada que não contribua para levar informação às pessoas.

O WikiLeaks é financiado pelo público, semana a semana, e assim eles “votam” com as suas carteiras.

Além disso, as fontes entregam documentos porque acreditam que nós vamos protegê-las e também vamos conseguir o maior impacto possível. Se em algum momento acharem que isso não é verdade, ou que estamos agindo de maneira antiética, as colaborações vão cessar.

O WikiLeaks é apoiado e defendido por milhares de pessoas generosas que oferecem voluntariamente o seu tempo, suas habilidades e seus recursos em nossa defesa. Dessa maneira elas também “votam” por nós todos os dias.

Daniel Ikenaga – Como você define o que deve ser um dado sigiloso?

Nós sempre ouvimos essa pergunta. Mas é melhor reformular da seguinte maneira: “quem deve ser obrigado por um Estado a esconder certo tipo de informação do resto da população?”

A resposta é clara: nem todo mundo no mundo e nem todas as pessoas em uma determinada posição. Assim, o seu médico deve ser responsável por manter a confidencialidade sobre seus dados na maioria das circunstâncias – mas não em todas.

Vários internautas – Em declarações ao Estado de São Paulo, você disse que pretendia usar o Brasil como uma das bases de atuação do WikiLeaks. Quais os planos futuros? Se o governo brasileiro te oferecesse asilo político, você aceitaria?

Eu ficaria, é claro, lisonjeado se o Brasil oferecesse ao meu pessoal e a mim asilo político. Nós temos grande apoio do público brasileiro. Com base nisso e na característica independente do Brasil em relação a outros países, decidimos expandir nossa presença no país. Infelizmente eu, no momento, estou sob prisão domiciliar no inverno frio de Norfolk, na Inglaterra, e não posso me mudar para o belo e quente Brasil.

Vários internautas – Você teme pela sua vida? Há algum mecanismo de proteção especial para você? Caso venha a ser assassinado, o que vai acontecer com o WikiLeaks?

Nós estamos determinados a continuar a despeito das muitas ameaças que sofremos. Acreditamos profundamente na nossa missão e não nos intimidamos nem vamos nos intimidar pelas forças que estão contra nós.

Minha maior proteção é a ineficácia das ações contra mim. Por exemplo, quando eu estava recentemente na prisão por cerca de dez dias, as publicações de documentos continuaram.

Além disso, nós também distribuímos cópias do material que ainda não foi publicado por todo o mundo, então não é possível impedir as futuras publicações do WikiLeaks atacando o nosso pessoal.

Helena Vieira - Na sua opinião, qual a principal revelação do Cablegate? A sua visão de mundo, suas opiniões sobre nossa atual realidade mudou com as informações a que você teve acesso?

O Cablegate cobre quase todos os maiores acontecimentos, públicos e privados, de todos os países do mundo – então há muitas revelações importantíssimas, dependendo de onde você vive. A maioria dessas revelações ainda está por vir.

Mas, se eu tiver que escolher um só telegrama, entre os poucos que eu li até agora – tendo em mente que são 250 mil – seria aquele que pede aos diplomatas americanos obter senhas, DNAs, números de cartões de crédito e números dos vôos de funcionários de diversas organizações – entre elas a ONU.

Esse telegrama mostra uma ordem da CIA e da Agência de Segurança Nacional aos diplomatas americanos, revelando uma zona sombria no vasto aparato secreto de obtenção de inteligência pelos EUA.

Tarcísio Mender e Maiko Rafael Spiess - Apesar de o WikiLeaks ter abalado as relações internacionais, o que acha da Time ter eleito Mark Zuckerberg o homem do ano? Não seria um paradoxo, você ser o “criminoso do ano”, enquanto Mark Zuckerberg é aplaudido e laureado?

A revista Time pode, claro, dar esse título a quem ela quiser. Mas para mim foi mais importante o fato de que o público votou em mim numa proporção vinte vezes maior do que no candidato escolhido pelo editor da Time. Eu ganhei o voto das pessoas, e não o voto das empresas de mídia multinacionais. Isso me parece correto.

Também gostei do que disse (o programa humorístico da TV americana) Saturday Night Live sobre a situação: “Eu te dou informações privadas sobre corporações de graça e sou um vilão. Mark Zuckerberg dá as suas informações privadas para corporações por dinheiro – e ele é o ‘Homem do Ano’.”

Nos bastidores, claro, as coisas foram mais interessantes, com a facção pró- Assange dentro da revista Time sendo apaziguada por uma capa bastante impressionante na edição de 13 de dezembro, o que abriu o caminho para a escolha conservadora de Zuckerberg algumas semanas depois.

Vinícius Juberte – Você se considera um homem de esquerda?

Eu vejo que há pessoas boas nos dois lados da política e definitivamente há pessoas más nos dois lados. Eu costumo procurar as pessoas boas e trabalhar por uma causa comum.

Agora, independente da tendência política, vejo que os políticos que deveriam controlar as agências de segurança e serviços secretos acabam, depois de eleitos, sendo gradualmente capturados e se tornando obedientes a eles.

Enquanto houver desequilíbrio de poder entre as pessoas e os governantes, nós estaremos do lado das pessoas.

Isso é geralmente associado com a retórica da esquerda, o que dá margem à visão de que somos uma organização exclusivamente de esquerda. Não é correto. Somos uma organização exclusivamente pela verdade e justiça – e isso se encontra em muitos lugares e tendências.

Ariely Barata – Hollywood divulgou que fará um filme sobre sua trajetória. Qual sua opinião sobre isso?

Hollywood pode produzir muitos filmes sobre o WikiLeaks, já que quase uma dúzia de livros está para ser publicada. Eu não estou envolvido em nenhuma produção de filme no momento.

Mas se nós vendermos os direitos de produção, eu vou exigir que meu papel seja feito pelo Will Smith. O nosso porta-voz, Kristinn Hrafnsson, seria interpretado por Samuel L Jackson, e a minha bela assistente por Halle Berry. E o filme poderia se chamar “WikiLeaks Filme Noire”.

"EU NÃO VEJO BAIXARIA NA BAIXARIA"


PÂNICO NA TV - UM DOS PROGRAMAS QUE MAIS RECEBEM DENÚNCIAS DE TELESPECTADORES SOBRE BAIXARIA.

Por Alexandre Figueiredo

"Eu não vejo baixaria na baixaria". É o que resume o discurso da direita dente-de-leite que assiste aos programas de TV e que acredita muito na mídia gorda na capacidade de fornecer aos lares abastados uma visão precisa e completa da "cultura da periferia".

Mas a baixaria acontece nos meios de comunicação e não é um relativismo hipócrita e demagógico que irá minimizar a coisa. Não são xingações como "moralista" e "preconceituoso" que irão garantir a alta reputação de programas de TV e valores duvidosos que entram de graça nas emissoras de rádio e televisão.

A Comissão de Direitos Humanos e de Minorias da Câmara dos Deputados, desde 2002, promove a campanha "Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania", uma iniciativa que nem sempre é vista de forma positiva pela sociedade, já que o "deixar fazer" da grande mídia e sua plateia de defensores - principalmente entre vários internautas - encontra na campanha uma manifestação de "elites moralistas, preconceituosas e temerosas com os novos tempos, pessoas com medo do novo".

Daí a horda de reacionários que defendem o Pânico na TV, Solange Gomes, É O Tchan (*), Ratinho, José Luiz Datena, o jornal Meia Hora e outros ícones e símbolos de baixaria, do grotesco, da vulgaridade promovidos pela grande mídia.

É claro que a grande mídia tentou reagir, promovendo o "funk carioca", sobretudo a grotesca Tati Quebra-Barraco, como expressão desses "novos tempos", mas que simplesmente quase anulou a força da campanha contra a baixaria.

O problema é que entidades ou mesmo gente progressista, na sua boa-fé, acreditou na retórica "cidadã" dos funqueiros, e fez propagar, feito epidemia, todo um discurso falsamente cidadão, que permitiu lançar mão de toda baixaria, vulgaridade e mediocridade a título de "moderna expressão das periferias", ofuscando toda uma luta para combater os valores de degradação social, vistos erroneamente como "moralistas".

Todavia, Tati Quebra-Barraco mostrou sua mediocridade artística, e seu perfil "polêmico" foi tão somente fogo-de-palha. Sem lançar material novo, enriqueceu, gastou com plásticas e, sumindo, tornou-se evangélica, ainda que depois tivesse reagido, com arrogância, aos comentários reprovadores de um crítico musical, Regis Tadeu.

O mercado da baixaria, temendo derrota, hoje prepara para reciclar seus valores como se fossem cult. Investem no jornalismo policialesco, seja o Brasil Urgente, seja tablóides como Meia Hora, como se fossem, respectivamente, "jornalismo responsável" e "jornalismo de humor".

Além disso, tentam vender o Pânico na TV como um "humor arrojado". Tentam relançar o Ratinho como um "histórico animador de TV". Tentam relançar o É O Tchan (*) como "feminista" só porque conta com seis dançarinas. E tentam lançar a Valesca Popozuda juntando o "engajamento" (?!) de Tati Quebra-Barraco com o "apelo sexual" de Carla Perez, de quem a funqueira é quase uma sósia.

A própria mídia se aproveita de uma suposta liberdade social para fazer os valores degradarem. Confundem liberdade com libertinagem. A mídia grande aproveita a ausência, desde 1964, de referenciais morais, sociais e culturais sólidos, para promover uma espécie de "jeitinho brasileiro" sócio-cultural, onde qualquer abuso é justificado pelo "relativismo".

Por isso a campanha "Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania" encontra um caminho de pedras. Pelas dificuldades de pressionar qualquer punição aos programas denunciados. E o Brasil Urgente, Pânico na TV e Big Brother Brasil estão entre os mais denunciados. Há quem fale em "liberdade de expressão" mas isso até o Instituto Millenium e seus medievais integrantes falam.

Não dá para ter uma vocação "progressista" quando a defesa da vulgaridade feminina apenas é uma face da mesma moeda moralista dos conservadores. O próprio conservadorismo promove o espetáculo de musas calipígias, dentro da dicotomia erotismo-moralismo, para desviar as atenções dos homens para temas mais importantes.

E cria-se um rodízio entre a impulsividade sexual e a fé cega e não-raciocinada: para os excessos sexuais, o puritanismo religioso e medieval chega como um remédio "purificador". Como há o outro lado, da "liberação da sensualidade" diante do "excesso de religiosidade". Não é à toa que Solange Gomes fantasiada de "freira sexy" não contrasta muito com as pregações da Opus Dei na grande mídia. São duas faces de uma mesma moeda.

A deputada paulista Janete Rocha Pietá, única mulher deputada pelo PT paulista, preside a comissão da Câmara dos Deputados que investe na corajosa campanha. Ela sabe das dificuldades, mesmo as legais, de punir os abusos cometidos pela mídia. E, o que é pior, numa sociedade que, num retrocesso às avessas, classifica tais campanhas como "de um moralismo corrupto e irresponsável".

Queremos melhorar a sociedade, somos tidos como "moralistas", "elitistas", "preconceituosos". Há um conservadorismo mal-disfarçado, um reacionarismo enrustido, que nos desafia. É essa demanda de jovens de visual moderninho mas de ideias retrógradas - neocons em potencial - que dificulta o êxito de qualquer campanha em prol das melhorias sociais.

Essas pessoas ainda tentam arrancar aplausos dos incautos, dizendo que "não veem baixaria" na baixaria. Mas as pregações "libertárias" desse pessoal não os fazem senão de meros "cães de guarda" da mídia decadente, que fatura horrores através do caos de valores que ainda predominam em nosso país.

(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

A CRISE DA GLOBO E DO BREGA-POPULARESCO


DOMINGÃO DO FAUSTÃO TEVE, NO ÚLTIMO DOMINGO, APENAS 12 PONTOS NA CIDADE DE SÃO PAULO.

Por Alexandre Figueiredo

Crise no PSDB, crise na Globo. Duas crises, mas que envolvem duas instituições ideologicamente parecidas.

A Rede Globo atravessa uma crise de audiência, que ainda não a tira da posição de liderança na mídia brasileira, mas representa uma perda de influência antes inimaginada.

Depois do Casseta & Planeta, Fantástico e Jornal Nacional, o Domingão do Faustão torna-se a vítima da queda brusca de audiência da programação da emissora, processo que pode atingir também o Big Brother Brasil, que já não consegue mais passar um verniz cult como nas três edições anteriores à atual.

A crise da grande mídia envolve também o modelo de "cultura popular" por ela difundido. As tentativas de dissociar o brega-popularesco da grande mídia tornam-se vãs, mesmo com tantas alegações, muitas delas hipócritas, à "cultura da periferia".

É um processo que tem o mesmo sentido de fazer os peixes viverem fora d'água, e, além disso, esse discurso supostamente favorável ao povo pobre, com uma retórica falsamente humanista, só faz as classes abastadas esconderem por debaixo do tapete seus verdadeiros preconceitos contra os pobres.

Afinal, para eles o pobre só é "genuíno" quando se vira nos trinta segundos no programa de Fausto Silva, o pobre tem que fazer a sua palhaçada brega-popularesca, feito animalzinho de circo, e esperar calado os benefícios do progresso econômico serem decididos de cima.

O Domingão do Faustão era a vitrine maior da música brega-popularesca. Até pouco tempo atrás, havia rodízio dos maiores medalhões do "sertanejo", do "pagode romântico" e da axé-music, além da inserção de nomes emergentes de estilos como forró-brega, arrocha e tecnobrega.

Por questões estratégicas ou mesmo de cautela, o "funk carioca" só aparecia através de seus intérpretes mais comportados, até porque o público do Faustão inclui adultos e idosos que não são receptivos ao grotesco funqueiro, ainda que gostem das demais tendências da Música de Cabresto Brasileira.

Mas os próprios medalhões que batiam ponto no programa de Fausto Silva estão apavorados, correndo para os cruzeiros marítimos para, ao menos, lucrarem com um público de maior poder aquisitivo.

O MEDO DOS REACIONÁRIOS

Enquanto isso, em terra firme, internautas reacionários, numa conduta que varia entre um Reinaldo Azevedo e um Joseph McCarthy, um "racional" Carlos Alberto Sardenberg ou um irracional Diogo Mainardi, ou entre um Cabo Anselmo de 1964 e um José Serra de 2010, tentam protestar contra as críticas que os ídolos brega-popularescos andam sofrendo, assustados com a perda de popularidade desses ídolos lotadores de plateias.

Tentam rosnar, grunhir, ladrar e morder, como cães de guarda do establishment do entretenimento oficial brasileiro, ao verem seus valores e ídolos declinarem severamente, depois de quase dominarem a cultura popular.

São valores ligados à mediocridade cultural atribuída aos pobres, cuja decadência é rebatida com todo o discurso bonitinho de reacionários que tentam esconder os problemas da grande mídia por debaixo do tapete através de um discurso "relativista" que não convence, por não corresponder à realidade.

Afinal, a mediocridade cultural que existe aí não é fruto de julgamentos moralistas ou elitistas de qualquer ordem, mas da própria realidade da suposta "cultura popular" de hoje confrontada com as tradições culturais acumuladas em nosso país.

Daí a decadência que irrita a classe média "boazinha" com os pobres. São eles, que apoiam o "rebolation", o "créu", o "tchan" (*), a título de aparentemente defenderem a periferia, que no fundo sentem "nojo de pobre", porque o nojo deles pelos pobres se manifesta quando os pobres superam sua inferioridade social e rompem com os papéis que a mídia grande determina para eles.

Aí um horror elitista ainda maior do que esses reacionários atribuem falsamente aos outros vêm à tona. Ver que no lugar do "rebolation" renascerão, nas aulas de MPB nas favelas e cortiços, nas periferias e roças, nos sobrados e sertões, novos Ataulfo Alves, Jackson do Pandeiro, João do Vale e Elizeth Cardoso difundindo inteligência e humanismo para os pobres, é o que deixa a classe média politicamente correta e "dona da verdade" apavorada, horrorizada, com nojo.

Daí essa inversão de discurso que Adrianos, Eugênios, Pedros, Márcias fazem. Ver a moça da periferia trocar a Solange Gomes pela Larissa Maciel é o que deixa a classe média apavorada. Daí o esforço hipócrita e politicamente correto de preferir que se chame a Solange Gomes de "feminista". Mesmo odiando ler livros, mesmo posando de "enfermeira sexy".

DOMINGÃO É VITRINE DOS POPULARESCOS

E esse pavor deve ser sentido com a crise do Domingão do Faustão. Se o próprio Casseta & Planeta era vitrine de ídolos brega-popularescos - nos últimos meses os cassetas davam aval aos "sertanejos universitários" e estavam perto de contribuírem para o "renascimento" da axé-music - , o Domingão do Faustão era uma vitrine maior ainda.

Aliás, uma vitrine que influía decididamente no mercado. Mas que chegou a ser descartada pelos barões do entretenimento popularesco, diante da exposição negativa da Rede Globo durante a campanha eleitoral.

Todavia, por questões de sobrevivência - afinal artigos e ensaios acadêmicos não enchem barriga alguma dos ídolos brega-popularescos - , o Domingão do Faustão continuou e continua sendo a arena dos popularescos. Não mais para colocar, uma semana atrás da outra, a "rainha do axé" alternando com o "rei do pagode romântico", com a "dupla sertaneja da hora" ou com "a nova sensação do forró eletrônico".

Mas, com a anunciada saída da banda Domingão - que fez o tecladista Luiz Schiavon retomar de vez o RPM - , o Domingão do Faustão, com toda a crise em que vive, terá que manter o espaço dos ídolos popularescos, enquanto estes fazem suas últimas apostas em cruzeiros marítimos ou posando de pretensos "discriminados pela mídia" na concorrente Rede Record.

A crise do Brasil cafona, mídio-golpista e tucano, só está começando. Pode gerar ainda mais nervosismo da elite "certinha" e seus argumentos bonitinhos, mas que não correspondem à realidade.

Eles podem bater o pé achando que vivemos no paraíso da cultura do povo pobre, mas eles são desmascarados e continuarão sendo na medida em que se prova que a "cultura popular" que eles defendem não é aquela que a História nos registra humildemente, mas aquela "periferia" reduzida a uma Disneylândia rural-suburbana que serve para enriquecer as oligarquias às custas da domesticação do povo pobre.

(*) O É O Tchan é pouco recomendado para a vovó e para o netinho, sendo um grupo abominável dos 8 aos 80. O É O Tchan é impróprio para a vovó, porque é pornográfico e pode causar problema no coração. O É O Tchan é impróprio para o netinho, porque seu erotismo exagerado e grosseiro pode criar desvios de conduta moral e controle dos desejos sexuais na idade adulta.

O É O Tchan é machista, mas suas dançarinas pensam que ser feminista é não contar com o sustento de maridos ou namorados. Dizem que não têm namorados porque está difícil arrumar homens, quando na verdade é porque está difícil arrumar horários para conhecer os homens que são pretendentes. Que, certamente, não sou eu nem você, no caso de você ser um leitor masculino. Nós queremos mulheres realmente de conteúdo, sem qualquer trocadilho pornográfico.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

BRIGA INTERNA AGITA PSDB E PiG



Por Alexandre Figueiredo

Em muitos filmes de ficção, há um momento em que uma quadrilha antes unida começa a sofrer divergências internas, com seus chefões brigando entre si, além deles brigarem também com seus comparsas.

Pois a direita brasileira vive hoje seu momento de conflito, cuja repercussão assusta até os tradicionais aliados do DEM (que hoje veem o prefeito paulistano Gilberto Kassab namorar o PMDB). Trata-se do conflito interno dentro dos quadros do PSDB e entre o partido e a imprensa associada.

Duas denúncias agitam os bastidores do partido, no seu Estado mais forte, São Paulo, que no entanto não conseguiu colocar o candidato José Serra ao Planalto.

Uma delas envolve o próprio Serra, com uma dívida R$ 307 milhões às agências de publicidade, por conta dos prejuízos para a campanha. O presidenciável derrotado teria passado para o governador paulista, Geraldo Alckmin, a missão de pagar a dívida.

Outra envolve o esquema de desvio de verbas públicas de parte do empresário Paulo César Ribeiro, irmão da esposa do governador, Lu Alckmin. Ele seria o líder de um grupo que desviou dinheiro público destinado a merendas escolares em várias cidades de São Paulo e de quatro Estados brasileiros.

Além disso, Ribeiro teria se beneficiado com fraudes nas licitações, o que teria favorecido o desvio financeiro. A corrupção ocorreu sobretudo em Pindamonhangaba, cidade do interior paulista que é berço político do governador.

Além do mais, a Secretaria de Transportes inclui um dos desafetos de Serra indicados por Alckmin para sua equipe de governo, e, além disso, a pasta estadual é um dos maiores focos de corrupção na política estadual.

Eu, como busólogo, sei o quanto isso influi decisivamente no transporte coletivo de São Paulo, cujo colapso, igual ao de Curitiba - devido ao modelo tecnocrático de sistema de ônibus, já em processo de desgaste - , é enorme. A corrupção no transporte de São Paulo é tão grande que inclui até um preocupante histórico de homicídios relacionados a disputas pessoais ou queimas de arquivos. Mas isso é outra história.

A Folha de São Paulo é obrigada a investigar os escândalos relacionados ao PSDB paulistano. Como teve que fazer reportagens sobre o esquema de corrupção envolvendo a filha de Serra, Verônica. A Veja, por sua vez, teve que admitir que o partido sofre sua pior crise histórica.

A postura da mídia direitista só faz agravar o clima de desentendimentos da base político-midiática tucana, e pode-se garantir que muita coisa ainda virá. Enquanto isso, Aécio Neves come quieto para ver como se dará a situação do PSDB, depois dessa confusão toda.

GRANDE MÍDIA QUER POVO FORA DO DEBATE PÚBLICO


O RECREIO POPULARESCO TEM POR FIM SILENCIAR E CONTROLAR O POVO DAS PERIFERIAS E ZONAS RURAIS.

Por Alexandre Figueiredo

Por que existe essa pseudo-cultura que é o brega-popularesco, a suposta "cultura popular" que domina nos rádios e TVs?

Só os preconceitos de parte da classe média alta, mesmo quando vários de seus porta-vozes se autoproclamam "sem preconceitos", acham que essa pseudo-cultura é a "verdadeira expressão das periferias".

Ou então estão mentindo, tudo para manter o esquema de controle social que rádios FM locais e emissoras de TV aberta, mais as revistas fofoqueiras e os jornais policialescos, todos a serviço das oligarquias regionais (não menos influentes no poderio elitista que as oligarquias de caráter nacional situadas em São Paulo).

A retórica tem muitos malabarismos, e o que se vê é gente defendendo ideias retrógradas sob o verniz do "progressismo", numa manobra bem mais sutil que se vê quando a grande imprensa fala em "democracia" e "liberdade".

Essa é a tônica de muitos que defendem essa "cultura popular" de proveta, higienizada o máximo possível para transformar o povo pobre numa massa ao mesmo tempo infantilizada e alienada.

"IPES" MODERNO

Essa retórica foi bombardeada em tudo quanto é mídia, da Folha de São Paulo aos fóruns da Internet, de gente como Hermano Vianna até o "anônimo" internauta reacionário que dispara desaforos no Twitter, Orkut e similares.

A frequência é de um verdadeiro "IPES" moderno, destinado a, se não freiar os progressos sócio-econômicos que fizeram parte dos pobres consistirem numa nova classe média, pelo menos tentar domesticá-lo culturalmente.

O objetivo não é outro senão deixar o povo imobilizado, mesmo dentro de um cenário político progressista.

Afinal, temos um cenário político progressista, mas não nos esqueçamos que temos uma estrutura de mídia ainda conservadora, e isso inclui praticamente todo o setor de entretenimento a ela vinculado, mesmo de forma enrustida, não assumida.

A esse esquema midiático conservador se inserem internautas que apoiam, mesmo de forma disfarçada, todo esse esquema conservador de mídia. E que transmitem todo seu reacionarismo a quem contestar qualquer aspecto dessa pseudo-cultura.

RETÓRICA INVERTIDA

Tentando enganar as pessoas, toda essa campanha para "legitimar" a pseudo-cultura como se fosse a "cultura definitiva do povo brasileiro" apela para todo um repertório esquizofrênico, que se baseia na inversão de abordagens, tentando servir a cicuta ideológica como se fosse um delicioso xarope de groselha.

Dessa maneira, vendem o machismo pornográfico das popozudas como se fosse "feminismo". Vendem a cafonice latifundiária como se fosse "a música do povo pobre". Promovem fenômenos conservadores como se fossem "vanguardistas". Vendem o lixo como se fosse o luxo.

É esse discurso, que parece doce feito mel, que expressa um paternalismo hipócrita e muito mal dissimulado. Em nome de uma falsa solidariedade ao povo pobre, defendem tão somente tendências da "cultura de massa", claramente fundamentadas na domesticação desse mesmo povo.

A intenção, a cada argumento feito, se esclarece. Intenções fascistas florescem em pretextos politicamente corretos. Da retórica solidariedade, expressa-se, na essência, um discurso fascista, anti-social, que desperta o temor das elites quanto ao risco das verdadeiras manifestações populares, tais quais ocorrem nos Andes, em Tel-Aviv, em Davos ou no Bronx, por exemplo.

Por isso essa retórica tenta creditar como "movimento social" um inocente e submisso processo de jovens se dirigirem, tal qual um gado disperso, para a casa noturna do subúrbio para consumir os "sucessos do povão" que a rádio FM de maior audiência, quase sempre controlada por um "coronel" ou por seu "laranja", está tocando.

Tentam se passar por bonzinhos, dizendo que "o povo está feliz", "é isso que a maioria do povo gosta", "é isso o que o povo sabe fazer", argumentos que parecem dóceis, mas são estes que, na verdade, expressam um verdadeiro preconceito contra os pobres.

"POVO BURRO": É O QUE OS DEFENSORES DO BREGA-POPULARESCO QUEREM

Por isso os defensores dessa pseudo-cultura brega-popularesca não escondem seus desejos de ver o povo pobre calado, submisso, infantilizado até ao nível mais pateta, consumindo uma "cultura" baseada na mediocridade.

Esses defensores da mediocridade cultural querem ver o povo pobre fora do debate público. Querem que o povo pobre seja burro e acham que "assim o povo fica mais povo". Tentam desculpar que isso é uma "nova forma de inteligência", mas no decorrer do caminho em nada eles conseguem convencer.

Dessa forma, vemos essas elites e seus internautas serem desmascarados, dia após dia, porque eles até aceitam que o Brasil se progrida política e economicamente, com garantia relativa da soberania política e da democracia. Desde que o povo pobre esteja fora de qualquer participação social e que tenha que aceitar que as coisas se resolvam de cima para baixo.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A DIREITA DENTE-DE-LEITE


FOI EXATAMENTE ASSIM QUE SURGIRAM PESSOAS COMO REINALDO AZEVEDO, DIOGO MAINARDI E OTÁVIO FRIAS FILHO.

Por Alexandre Figueiredo

O comportamento é conhecido. Uma pretensa racionalidade democrática, um certo ar de "dono da razão" para defender o que está estabelecido pela mídia. Uma retórica pronta para rebater qualquer argumento, ainda que não seja uma retórica coerente.

Por trás disso tudo, porém, há um furioso anti-intelectualismo, uma fúria silenciosa contra o senso crítico, enquanto se expressa também um conservadorismo enrustido, não-assumido no discurso, mas defendido ardentemente na essência.

Eu tive problemas no Twitter devido a dois internautas, Adriano e Thiago, expressões típicas da direita politicamente correta: dois burgueses que nunca viram a periferia de perto, mas se acham "solidários com o povo". Pseudo-esquerdistas, falsos humanistas, pretensos democráticos, possuidores da razão e malabaristas retóricos. São a mais exata amostra do que conhecemos como "neocons", ou neo-conservadores.

Trata-se de uma direita dente-com-leite, que detém o monopólio da razão, através de um discurso que lhes dê a impressão de que só eles são "perfeitos", só eles são "imparciais", só eles são "ponderados".

Machistas enrustidos, eles tentam desmentir que o espetáculo das popozudas seja "machismo". Como é "humano" o circo midiático deles. Falam mal do meu "pretenso intelectualismo" porque eu não gosto dos tais "sucessos do povão".

Quer dizer, para eles, mulheres como Solange Gomes, Nicole Bahls, Karol Loren e Valesca Popozuda são "expressões do mais puro feminismo", e só o fato de eu criticá-las, para eles, é que é "manifestação de moralismo machista".

É assim que nasce a direita que, depois, ameaçará a blogosfera e a verdadeira democracia. Esse discurso de "racionalidade perfeita" vemos também no Instituto Millenium, nas manifestações da grande imprensa golpista, nos depoimentos de figuras direitistas como Marcelo Madureira, Armínio Fraga, Guilherme Fiúza, Rodrigo Constantino.

O direitista não se assume de direita. Como as próprias instituições direitistas não se assumem como tais. Como gente tipo Reinaldo Azevedo também não se assume assim. Mas a direita põe todos os seus adjetivos naqueles que discordam dela: machista, fascista, intelectualóide, conservador, preconceituoso, moralista.

Os episódios políticos de 1964 deixam muito claros. João Goulart, presidente da República que, aos trancos e barrancos, tentava promover reformas sociais no Brasil, era tido como "agitador", "subversivo", "irresponsável", "corrupto" e "anti-constitucional".

Por outro lado, a direita que realizou a Marcha da Família Unida com Deus pela Liberdade no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no dia 19 de março de 1964 - sem se dar conta que era aniversário do então presidente da UNE, José Serra, que só mais tarde iria aderir ao direitismo ideológico da "marcha da liberdade" - , é que era "a mais racional", "a mais equilibrada", "a mais ponderada".

A direita defende o estabelecido, no que se refere ao sistema de valores e de privilégios montado pelo poderio político-econômico e difundido pela grande mídia, pelo status quo político e econômico, pelas limitações sociais impostas. E, para sustentar tudo isso, cria-se toda uma retórica engenhosa, tida como "a mais equilibrada", e através dela tenta-se desmontar qualquer argumentação contrária, por mais que esta seja, isso sim, a mais ponderada, equilibrada e racionalizada.

O grande problema é que a direita dente-de-leite se camufla no visual e na linguagem típicos da juventude comum. A juventude torna-se não só seu escudo, mas seu disfarce, sua máscara. Os jovens de direita podem parecer surfistas, rastafáris, skatistas, falam muitas gírias e palavrões, usam tatuagens, piercings e tudo o mais.

Não percebemos o perigo que ela representa. Enquanto não saem das faculdades ou não atingem os 40 anos de idade, os jovens direitistas são "tão progressistas" como nós. Esse mimetismo irá cobrar seu preço depois, quando eles serão guiados pelo que entendem como "maturidade" e irão para o Instituto Millenium pregar a privatização do Brasil, vendendo-o a preço de banana para os especuladores estrangeiros.

Tudo em nome da "superioridade" de que eles acreditam gozar, eles que se acham "os mais racionais", os "mais ponderados", os "mais imparciais", os "sem preconceitos". Como eram nomes como Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi e Otávio Frias Filho na juventude.

Mas, por trás desse discurso "perfeito", há, mesmo na direita dente-de-leite, um verdadeiro temor de que o povo deixe de bancar a multidão domesticada e infantilizada pela grande mídia para fazer protestos e passeatas pedindo o fim dos privilégios das elites.

Através da suposta "boa intenção" com o povo pobre, defendendo o lamentável entretenimento brega-popularesco, eles têm medo de que o povo volte a viver sem os plugues da televisão e do rádio, deixando de ser os bonecos de pilha dos barões midiáticos.

Para eles, o povo é "autêntico" quando dança, "feliz", com sorrisos ingênuos, o seu "rebolation", o seu "créu", o seu "axé". Mas quando o povo passa a fazer passeatas e escreve jornais pedindo qualidade de vida, o povo "torna-se desordeiro, bagunceiro, desafiador da lei e do equilíbrio social".

Para eles, é legal tomar como "feminista" uma Solange Gomes que odeia ler livros e se veste de "enfermeira erótica" ou "freira erótica", porque é a "liberdade de expressão", é o "livre senso de humor".

Mas esses mesmos "sábios" tremem de medo de que surja, na periferia, uma moça que cante como a Sílvia Telles, seja charmosa mesmo nas suas roupas de moça pobre e fale de política com uma lucidez de fazer Noam Chomsky sorrir com os olhos.

Através da pretensa defesa da vulgaridade feminina como se fosse "feminismo", eles mostram o temor de surgir, nas periferias - onde está o público-alvo das popozudas, como quer a grande mídia - , jovens moças que tenham a classe e a inteligência das atrizes Leandra Leal e Larissa Maciel.

Para esconder seus preconceitos, tentam fazer um discurso "humanitário". Para esconder seus equívocos intelectuais, usam e abusam da retórica fácil. Para esconder seus interesses egoístas - de defender o establishment que permite a manutenção dos privilégios de poder - , dizem que são "altruístas".

Dessa forma, quem discorda deles é desqualificado no máximo. À primeira vista, Thiago (ou ThiagoBeleza) e Adriano (Adriano AS) são apenas jovens comuns, mas o que eles fazem, no fundo, em nada difere do que os "colunistas" da revista Veja, de O Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo e Rede Globo, fazem.

O que um Adriano AS escreve é exatamente a mesma coisa que vemos em colunas como as de Augusto Nunes, Carlos Alberto Sardenberg, Gilberto Dimenstein, Merval Pereira e Eliane Cantanhede. Aquela "racionalidade" que se impõe como "perfeita", "racional" e "equilibrada", sempre "a favor do interesse público", num discurso engenhoso que, no entanto, mostra suas falhas num e noutro momento, na medida em que, no fundo, defende o sistema de privilégios sócio-econômicos vigentes sobretudo desde o golpe de 1964.

Hoje esses direitistas dentes-de-leite são "modernos", o que dá a falsa impressão de que são "progressistas" como a gente. Mas, passando o tempo, eles tiram a máscara, ao terem conquistado a visibilidade social que desejaram.

Aí, aquele golpismo que estava latente e bem escondido na abordagem juvenil, se desprende, se solta e se escancara na fase mais adulta, pegando todos nós de surpresa depois de ignorarmos as armadilhas cuidadosamente traçadas na flor etária.

BREGA-POPULARESCOS BUSCAM ÚLTIMA AUTO-AFIRMAÇÃO NOS CRUZEIROS MARÍTIMOS



Depois do breganejo, do sambrega e da axé-music, agora é o "funk carioca" que investe num cruzeiro marítimo, o mais novo refúgio da Música de Cabresto Brasileira diante de seu processo adiantado de desgaste. Uma poderosa equipe de som ligada aos funqueiros vai investir no primeiro "baile funk" realizado num grande navio de passageiros.

Desesperados, os barões do entretenimento, não conseguindo convencer que os "sucessos do povão" que patrocinam "está fora da mídia", agora tentam jogar seus ídolos em cruzeiros marítimos, porque, pelo menos, é o que tem um público de maior poder aquisitivo. O lucro financeiro, na lógica deles, é praticamente certo.

Com isso, os brega-popularescos põem por água abaixo a tese de que são "a verdadeira música popular brasileira". Buscam afirmação sempre no apoio das plateias das elites. Não há como levar a sério ídolos musicais da grande mídia dependerem do reconhecimento da burguesia para serem vistos como "artistas sérios de música popular".

Além disso, não há como imaginar algum sinal de vida progressista em qualquer das instalações dos cruzeiros marítimos, que na prática são verdadeiros grandes hotéis circulando em alto mar, com um padrão de vida típico das mais direitistas aristocracias urbanas.

Mas, em todo caso, os cruzeiros marítimos mostram um ponto positivo. Enquanto os brega-popularescos buscam uma derradeira auto-afirmação em alto-mar, no solo brasileiro as classes populares se preparam para conhecer a verdadeira MPB nas escolas, entrando em contato com o irresistível universo da música de qualidade que, aos poucos, os fará esquecer os "sucessos" das rádios e TVs comprometidas com o coronelismo brega e pseudo-popular.

domingo, 23 de janeiro de 2011

WIKILEAKS: POLÍCIA VOLTOU A DETER EX-BANQUEIRO RUDOLF ELMER



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Mais um personagem relacionado com o Wikileaks, Rudolf Elmer teria fornecido dados de clientes com depósitos bancários nas Ilhas Cayman, considerado um dos maiores paraísos fiscais do mundo, pelas facilidades de depósitos bancários e pelas baixas taxas de impostos. 40 políticos teriam sido clientes do banco Julius Baer, onde Elmer trabalhou durante 15 anos. No último dia 19, ele foi processado por coerção e violação do sigilo bancário suíço e a Promotoria pediu pena de oito meses de prisão e pagamento de multa.

Uma observação. A grafia desta nota, abaixo, é lusitana, por se tratar de uma fonte portuguesa.

WikiLeaks: Polícia voltou a deter ex- banqueiro Rudolf Elmer

Do Diário Digital / Agência Lusa

As autoridades suíças colocaram em detenção preventiva o antigo banqueiro suíço Rudolf Elmer, dado como culpado por violação de segredo bancário ao ter passado informações sobre clientes ao portal WikiLeaks, refere hoje a imprensa suíça.

O antigo diretor de operações da subsidiária do banco privado Julius Baer nas Ilhas Caimão foi detido no sábado porque existiam riscos de que pudesse destruir provas, disse o seu advogado, Ganden Tethong Blattner, citado pela agência noticiosa ATS.

Na passada quarta-feira, o tribunal deu o antigo banqueiro como culpado de passar informação secreta ao WikiLeaks e aplicou-lhe uma sentença de 7.200 francos suíços (5.500 euros), uma decisão de que Elmer vai apelar, disse o advogado.

Despedido pelo banco, em 2002, o antigo banqueiro, de 55 anos, passou em 2007 um primeiro conjunto de informações ao Wikileaks, num plano que, afirmou, visa pôr a nu os sistemas de evasão fiscal.

A polícia voltou agora a prender Elmer, por ter voltado a entregar ao fundador do WikiLeaks, Julian Assange, outros dois CD-ROM, durante uma conferência de impressa em Londres, na segunda-feira.

Os dados, afirmou, dizem respeito a clientes de três instituições financeiras, pelo menos, cobrindo um período entre 1990 e 2009.

“Com estes atos, a Suíça põe-se a si mesma no centro das atenções”, disse Julian Assange ao jornal Sontag, acrescentando que a detenção de Elemer justifica a publicação mais rápida dos dados bancários no WikiLeaks.

Os dois discos entregues a Assange revelam supostamente como os clientes do banco utilizaram contas nas Ilhas Caimão para fugir aos impostos.

Da lista de clientes fazem parte cerca de 40 políticos e o Wikileaks diz que vai começar a divulgar a informação “em duas semanas”, o mais tardar.
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