sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

MUDANÇA DE GOVERNO



Encerra-se a Era Lula, com um saldo positivo de progressos sociais.

Amanhã inicia-se um novo governo, que levará adiante as reformas sociais iniciadas pelo governo anterior.

Desejamos boa sorte a Dilma Rousseff!

Feliz 2011!

NÃO SEJAMOS INGÊNUOS COM AS NOVAS TECNOLOGIAS




Por Alexandre Figueiredo

Setores da blogosfera progressista estão tomados de muita ingenuidade. Sobretudo no que diz ao âmbito cultural.

Recentemente, vários intelectuais estão eufóricos com a aparente revolução tecnológica que envolve arquivos mp3, redes sociais da Internet e blogs, numa generalização ingênua como se a grande mídia, a grande indústria cultural e todos os seus barões e coronéis estivessem em processo terminal de decadência.

De fato eles vivem uma crise, mas é muito tolo afirmar que eles são como cachorros mortos. No fundo, eles são feras feridas. Que ainda rugem, e podem rugir de outras maneiras.

Mas a intelectualidade já comemora como se a Revolução Socialista fosse anunciada no Twitter, no YouTube, no Facebook, no Orkut e nos serviços de download de arquivos de vídeo e áudio, sobretudo os pós-Napster.

Não é bem assim.

A euforia é semelhante àquela que se deu a respeito da globalização econômica. E, ironicamente, com a decadência no lado comunista, como a queda do Muro de Berlim, da União Soviética e dos regimes do Leste Europeu, a chamada "cortina de ferro".

Mas, naquela época, entre 1989 e 1992, falava-se que as fronteiras do mundo seriam derrubadas, que um mundo de prosperidade e justiça social se efetivaria, que as velhas ordens mundiais seriam derrubadas definitivamente, que o mundo seria mais democrático, mais sábio, mais humano.

Francis Fukuyama, eufórico, apressou-se em afirmar que a História da humanidade atingiu seu ponto final. O veterano intelectual Noam Chomsky, no entanto, recomendou cautela, e afirmou que as velhas ordens mundiais continuam, só mudando alguns aspectos da geopolítica internacional.

Agora é a vez da tecnologia. O mesmo carnaval de dizer que o mundo será mais humano, sábio etc. Será muito barulho por nada. Será mais uma festa animada que dará numa dolorosa ressaca.

O jogo tecnológico do poder, que definimos como tecnocracia, continua intato, as forças e os mecanismos é que passam por transformações. A crise causa muita euforia, mas é superestimada, enquanto a fraqueza dos adversários - os detentores do poder tecnológico, político, econômico etc - é levada ao exagero, enquanto subestima-se sua capacidade de reagir a essas crises.

YOUTUBE, FACEBOOK, ORKUT, TWITTER: VEÍCULOS NEUTROS

O clima de euforia se sustenta com a utopia de que, por qualquer pessoa poder usar os mecanismos tecnológicos da rede mundial de computadores, a revolução social está por si efetivada.

Para a intelectualidade esquerdista com menos senso crítico, isso significa que basta qualquer um botar um vídeo no YouTube ou uma música no eMule (um dos mecanismos recentes similares ao antigo Napster), ou então uma rotina de mensagens no Twitter, ou uma comunidade no Facebook ou Orkut, para que esse joão-ninguém faça sua nova "revolução comunista".

Só que não é bem assim. Até porque existe uma infinidade de pessoas mandando vídeos e mensagens no Orkut e não é por isso que a revolução social se efetivou no país. Apenas houve transformações no ramo do entretenimento, é verdade, com mudanças significativas. Mas daí para dizer que qualquer um é revolucionário porque apareceu no YouTube ou no Twitter, e que a indústria cultural morreu por causa disso, é uma grande tolice.

Isso porque as relações da grande mídia, cujo poderio seus beneficiários não querem perder, apenas se configurarão. As grandes gravadoras perdem demanda, mas selos pequenos, longe de adotarem uma filosofia realmente independente - afinal, tais gravadoras são apenas pequenas, mas sua mentalidade mercantilista é igual às multinacionais - , representam a mesma filosofia de poder e domínio.

Também o YouTube não substituiu as rádios alternativas, nem o iPod, nem o Shareaza, eMule e similares. Esses meios, tais como o Twitter, o Facebook, o Orkut e agora o portal de compras Groupon, são neutros, podendo servir de expressão tanto para pessoas de mentalidade mais vanguardista como para gente absolutamente retrógrada.

Esses meios são apenas neutros. Não são trincheiras revolucionárias, em si. É como se classificasse, nos anos 50, a televisão como necessariamente socialista. Os grupos de poder se adaptarão às novas tecnologias, como aliás já estão se adaptando.

Os velhos jornalistas da grande mídia conservadora têm blogs, têm Twitter, passam vídeos no YouTube, têm Facebook. A música brega-popularesca tenta se passar por "vanguarda" só porque aparece no YouTube e grava por selos regionais. Balelas. É a mesma velha trilha-sonora do Brasil cafona e coronelista, com a mesma mentalidade retrógrada da domesticação das classes pobres. O tecnobrega e o "funk carioca" sempre foram grande mídia, sempre foram mídia golpista, sua formação ideológica remete justamente a isso.

Com o tempo, essa euforia toda vai passar. Ilusões serão derrubadas. Os deslumbrados de hoje, envergonhados, mudarão de assunto, mas não poderão esconder sua vergonha diante de tanto barulho por nada.

A grande mídia não quer largar o osso. Novas relações aparecerão. Uma indústria fonográfica, uma indústria midiática, um mercado do entretenimento, de caráter bem conservador, mostrarão suas caras, depois que muitos incautos acreditarem que a revolução se efetivou. Serão novas relações de poder, dentro de uma indústria cultural que se julgava morta, mas que apenas mudou.

Portanto, em que pese as possibilidades grandes oferecidas pelas novas tecnologias, quanto à revolução "contracultural", "socialista" ou "vanguardista" a elas atribuídas, é bom que se avise a quem acredita dessa forma: "Menos, menos...".

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

ALTAMIRO BORGES: ESTADÃO, INIMIGO DA REFORMA AGRÁRIA



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Tradicional expressão das oligarquias paulistas, o jornal O Estado de São Paulo, desde quando se chamava A Província de São Paulo, adotava sempre posições conservadoras, e evidentemente é um dos periódicos que se aliam fortemente aos grandes proprietários de terras, principalmente os paulistas, e é mais do que óbvio que o periódico assume uma postura hostil à reforma agrária.

Altamiro Borges: Estadão, inimigo da reforma agrária

Por Altamiro Borges - Blog do Miro

O jornal O Estado de S. Paulo, que já nasceu demonizando as lutas camponesas (basta lembrar suas matérias hidrófobas contra a revolta de Canudos) e defendendo os interesses da oligarquia paulista do café, não desiste nunca da sua cruzada contra a reforma agrária. Em editorial na semana passada, intitulado “Deixem a agricultura trabalhar”, ele voltou a atacar todos – MST, sindicalismo rural, partidos de esquerda e setores do governo Lula – que defendem uma justa distribuição de terras num dos países de maior concentração fundiária do planeta. Todos seriam entraves ao “desenvolvimento econômico” do Brasil.

Para o Estadão, os heróis do povo brasileiro são os ricos fazendeiros. “Com superávit comercial de US$ 58,2 bilhões neste ano, o agronegócio é mais uma vez a principal fonte de sustentação das contas externas brasileiras, graças ao seu poder de competição”, bajula o editorial, que parece saudoso das velhas teses oligárquicas sobre a “natureza agrícola” do país. Não há qualquer linha de crítica à concentração de terras nas mãos de poucos latifundiários, ao uso do trabalho escravo e infantil, à abjeta contratação de jagunços e pistoleiros ou às práticas devastadoras do meio ambiente tão comuns no campo brasileiro.

“Um recado político” para Dilma

Este editorial, dos vários já publicados, tem um objetivo nítido. Com base numa entrevista do atual ministro da Agricultura, Wagner Rossi, já confirmado para continuar no cargo, ele visa dar um “recado político” para o futuro governo. “O setor precisa de segurança para produzir bem e para ser competitivo. É um lembrete oportuno, a duas semanas da posse da presidente eleita, Dilma Rousseff”. O texto do Estadão expressa o temor dos ruralistas, para quem “o agronegócio continua na mira do Ministério do Desenvolvimento Agrário, do PT, do MST e de outras organizações comprometidas com as bandeiras do atraso”.

Sempre ancorado na entrevista do ministro, o Estadão centra seus ataques exatamente na revisão dos índices de produtividade usados para a desapropriação de terras. Lembra que uma portaria já passou pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, mas que está engavetada no Ministério da Agricultura – e assim deve continuar. Em síntese, a família Mesquita se mantém na dianteira da luta contra a reforma agrária. Para ela, esta bandeira é coisa do passado e seus defensores representam o “atraso”. Neste esforço militante, o jornal não vacila em abandonar qualquer tipo de imparcialidade e difunde as maiores mentiras.

Mentiras sem escrúpulos

Sem escrúpulos, o editorial afirma que o agronegócio é responsável pela “produção eficiente de alimentos abundantes, bons e baratos, acessíveis a qualquer trabalhador… Pode ter havido razão econômica para a reforma agrária há algumas décadas. Mas a agropecuária transformou-se amplamente nos últimos 40 anos. O setor produz muito mais que o necessário para abastecer o mercado interno e para atender à crescente demanda internacional… A agropecuária brasileira se modernizou. Os defensores da reforma agrária continuam no passado. A presidente eleita faria bem ao País se escolhesse o compromisso com a modernidade”.

Estas teses, infelizmente encampadas por alguns desenvolvimentistas, não levam em conta que a reforma agrária é uma questão de justiça social e de ampliação da democracia no Brasil – a vitória do direitista José Serra nos redutos do agronegócio deveria servir de alerta! Elas também ignoram o papel econômico de uma distribuição mais justa das terras no Brasil. Neste sentido, o Estadão mente descaradamente. Não é verdade que o agronegócio garante a comida na mesa dos brasileiros. Muito pelo contrário. São os 4,5 milhões de famílias de pequenos proprietários que garantem 80% dos alimentos consumidos no país.

Atentado à inteligência do leitor

Como observou Lúcio Mello, num excelente artigo publicado no Blog da Reforma Agrária, o editorial do Estadão é um atentado à inteligência dos leitores. Ele abusa da desinformação e das meias-verdades. Omite, inclusive, os dados oficiais recém divulgados pelo censo do IBGE. “O agronegócio não é responsável por alimentos bons, baratos e de qualidade. Por mais que comamos soja, açúcar e café e [bebamos] suco de laranja, é o produtor familiar que abastece em sua maioria as cidades de leite, feijão e mandioca, gerando renda e impedindo o aumento do fluxo migratório para São Paulo, Rio de Janeiro” e outras capitais.

Ponderado, ele observa que “o editorial louva a importância do agronegócio na sociedade, sobretudo na pauta das exportações brasileiras e na promoção do superávit primário. Até aí, nada de errado. É reconhecido o papel da monocultura agroexportadora na chamada modernização conservadora entre 1964 e o fim da década de 70”. De resto, tudo é mentira.

Entre outras distorções, o Estadão omite que o agronegócio “tem parcela de culpa considerável na dívida pública brasileira, seja através das sucessivas dívidas simplesmente não pagas ou de repasses com ônus ao tesouro de projetos agropecuários faraônicos”, explica Lúcio Mello. Estima-se que esta dívida atingiu R$74 bilhões em maio de 2008. Isto sem falar da anistias às dívidas, dos juros subsidiados e de outras benesses do Estado.

JORNALISMO PARA QUEM PRECISA: UMA PROPOSTA PARA 2011



COMENTÁRIO DESTE BLOG: Leandro Fortes escreve seu parecer sobre o tema jornalismo e as questões que o envolvem. Ele manifesta-se preocupado, sobretudo, com as campanhas que pedem o fim da obrigatoriedade do diploma jornalístico, fundamentada na confusão entre opinião e jornalismo, que favorece os interesses dos grupos patronais.

Jornalismo para quem precisa: uma proposta para 2011

A demanda por um jornalismo de maior qualidade terá que ser suprida por repórteres ciosos de outro tipo de jornalismo, mais aberto e solidário, comprometido com a verdade factual e a honestidade intelectual, interessado em boas histórias. Um jornalismo mais leve e mais humano, mais preocupado com a qualidade da informação do que com a vaidade do furo. Um jornalismo vinculado à realidade, não a interesses econômicos. E isso, certamente, só poderá ser viabilizado dentro de outro modelo, cooperativo e democrático, a ser exercido a partir das novas mídias virtuais. O artigo é de Leandro Fortes.

Por Leandro Fortes - Blog Brasília, Eu Vi

Há alguns dias, lancei na minha página do Facebook uma idéia que venho acalentando há tempos, desde que encerrei um curso de extensão para uma faculdade privada de jornalismo, aqui em Brasília. O curso, de Técnica Geral de Jornalismo, reuniu pouco mais de 10 alunos, basicamente, porque era muito caro. Embora tenha sido uma turma de bons estudantes, gente verdadeiramente animada e interessada no ofício, me senti desconectado da real intenção do curso, que era de fazer um contraponto de método, opinião e visão ideológica a esse jornalismo que aí vemos, montado em teses absurdas, em matérias incompletas e mentirosas, omissas em tudo e contra todos, a serviço de um pensamento conservador, reacionário e golpista disseminado, para infelicidade geral, c omo coisa normal. Não é. E é sobre isso que eu queria falar enquanto ensinava, dia a após dias, os fundamentos práticos da pauta, da entrevista, da redação jornalística, da nobre função do jornalista na sociedade, no Brasil, na História.

Perguntei, então, no Facebook, o que estudantes de jornalismos e jornalistas formados achariam de eu transferir essas aulas para um espaço barato e democrático, capaz de levar esses conhecimentos a muito mais gente, sobretudo ao estudante pobre – e, quem sabe, credenciar também os pobres a brigar por uma vaga nas redações, que se tornaram ambientes muito elitistas. Encaretadas por manuais de doutrina e comportamento, adestradas pela conduta neoliberal dos anos 1990, quando passaram a responder diretamente pelas demandas do Departamento Comercial, as redações brasileiras se desprenderam da ação política, dos movimentos sociais, do protagonismo histórico a favor dos direitos humanos e da luta contra a desigualdade. Passaram, sim, a reproduzir um universo medíocre de classe média, supostamente a favor de uma modernidade pós-muro de Berlim, onde bradar contra privatizações e a adoração ao deus mercado passou a ser encarado como esquerdismo imperdoável e anacrônico.

Não por outra razão, os movimentos corporativos a favor da manutenção da obrigatoriedade do diploma de jornalista, que resistiram a todo tipo de investida patronal ao longo de duas décadas, foram definitivamente golpeados com o apoio e, em parte, a omissão, da maioria dos jovens profissionais de imprensa, notadamente os bem colocados em redações da chamada grande mídia. Vale lembrar que o jornalismo é, provavelmente, a única profissão do mundo onde existem profissionais que pedem o fim do próprio diploma. Há muitas nuances, claro, nessa discussão, inclusive porque há gente muito boa que, historicamente, se coloca contra o diploma, sobretudo velhos jornalistas criados em velhas e românticas redações, cenas de um mundo que, infelizmente, não existe mais.

Na essência, o fim da obrigatoriedade do diploma não é uma demanda de jornalistas, mas de patrões, baseada num argumento falacioso de liberdade de expressão – na verdade, de opinião –, quando a verdadeira discussão está, justamente, na formação acadêmica dos repórteres. E há uma distância abissal entre opinião e reportagem, porque a primeira qualquer um tem, enquanto a segunda não é só fruto de talento, mas de aprendizado, técnica e repetição.

Nas grandes empresas, o fim da obrigatoriedade do diploma coroou uma estratégia que tem matado o jornalismo: a proliferação de cursinhos internos de treinees, tanto para estudantes como para recém-formados, cuja base de orientação profissional é a competitividade a qualquer custo, um conceito puramente empresarial copiado, sem aparas, do decadente yupismo americano. Digo que tem matado porque esses cursinhos de monstrinhos competitivos relegam o papel universal do jornalista ao segundo plano, quando não a plano algum. A idéia de que o jornalista deva ser um profissional solidário, inserido na sociedade para lhe decifrar os dramas e transmiti-los a outros seres humanos passou a ser um devaneio, um delírio socialista a ser combatido como a um inimigo. Para justificar essa sanha, reforça-se o mito da isençã o e da imparcialidade de uma mídia paradoxalmente comprometida com tudo, menos com a sua essência informativa, originalmente baseada no universalismo e no compromisso com o cidadão.

Na outra ponta, o fim da obrigatoriedade do diploma abriu a porteira para jagunços e capangas ocuparem as redações da imprensa regional, longe da fiscalização da lei e dos sindicatos, alegremente autorizados a fazer, literalmente, qualquer coisa com qualquer pessoa. Mesmo para o novo modelo de jornalismo que se anuncia na internet, baseado em disseminação mútua de informações primárias, como no caso dos vazamentos do Wikileaks, haverá sempre a necessidade do tratamento jornalístico dos conteúdos. E, para esse serviço, não há outro trabalhador credenciado senão um bom repórter treinado e formado para essa missão. Formação esta que, insisto, deve ser feita na academia e reforçada na experiência diária da reportagem.

Recentemente, li sobre a criação, em 2010, do Instituto de Altos Estudos em Jornalismo, sob os auspícios da Editora Abril. Entre os mestres do tal centro estavam o dono da editora, Roberto Civita, mantenedor da Veja, e Carlos Alberto Di Franco, do Master de Jornalismo, uma espécie de Escola das Américas da mídia nacional voltada para a formação de “líderes” dentro das redações. Di Franco, além de tudo, é um dos expoentes, no Brasil, da ultradireitista seita católica Opus Dei, a face mais medieval e conservadora da Igreja Católica no mundo.

Sinceramente, não vejo que “altos estudos”, muito menos de jornalismo, podem sair de um lugar assim. Não tenho dúvidas de que a representação do tal instituto não é acadêmica, embora seja dirigido por Eugênio Bucci, ex-presidente da Radiobrás no governo do PT, renomado estudioso da imprensa no Brasil. Trata-se de uma representação fundamentalmente ideológica, a reforçar as mesmíssimas estruturas de poder das redações, estruturas ultraverticalizadas, essencialmente antidemocráticas e personalistas, onde a possibilidade de ascensão funcional, sobretudo a cargos de chefia, está diretamente ligada à capacidade de ser subserviente aos patrões e bestas-feras com os subordinados.

Felizmente, o surgimento da internet deu vazão a outro ambiente midiático, regido por outras regras e demandas, um devastador contraponto ao funcionamento hermético das grandes redações e ao poder hegemônico da velha mídia brasileira, inclusive de seus filhotes replicadores e retransmissores Brasil adentro. O fenômeno dos blogs e sua capacidade de mobilização informativa é só a parte mais visível de um processo de reordenamento da comunicação social no mundo. As redes sociais fragmentaram a disseminação de notícias, fatos, dados estatísticos, informes e informações em um nível adoravelmente incontrolável, criando um ambiente noticioso ainda a ser desbravado por novas gerações de repórteres que, para tal, precisam ser treinados e apresentados a novas técnicas e, sobretudo, a novas idéias.

A “era do aquário”, para ficar numa definição feliz do jornalista Franklin Martins – aliás, contrário à obrigatoriedade do diploma –, está prestes a terminar. O jornalismo decidido por cúpulas restritas, com pouco ou nenhum apego à verdade dos fatos, está reduzida a um universo patético de mau jornalismo desmascarado instantaneamente pela blogosfera, vide a versão rocambolesca da TV Globo sobre a bolinha de papel na cabeça de José Serra ou a farsa do grampo sem áudio que uniu, numa mesma trama bisonha, a revista Veja, o ministro Gilmar Mendes, do STF, e o senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás.

Não será a escola de “altos estudos” da Veja e do professor Di Franco, portanto, a suprir essa necessidade. Essa demanda terá que ser suprida por repórteres ciosos de outro tipo de jornalismo, mais aberto e solidário, comprometido com a verdade factual e a honestidade intelectual, interessado em boas histórias. Um jornalismo mais leve e mais humano, mais preocupado com a qualidade da informação do que com a vaidade do furo. Um jornalismo vinculado à realidade, não a interesses econômicos. E isso, certamente, só poderá ser viabilizado dentro de outro modelo, cooperativo e democrático, a ser exercido a partir das novas mídias virtuais.

Por isso, é preciso estabelecer também um contraponto à ideologia da mídia hegemônica no campo da formação, em complemento aos cursos superiores de jornalismo. Abrir espaço para os milhares de estudantes de comunicação, em todo o Brasil, que não têm chance de participar dos cursinhos de treinees dos jornalões e das grandes emissoras de radiodifusão. Dar a eles, de forma prática e barata, uma oportunidade de aprender jornalismo com bons repórteres, com repórteres de verdade.

Foi nisso que pensei quando idealizei, em 2007, a Escola Livre de Jornalismo, junto com outros dois amigos, ambos ótimos jornalistas, Olímpio Cruz Neto e Gustavo Krieger. Com eles, ajudei a montar bem sucedidos ciclos de palestras e oficinas de jornalismo em Brasília. Em 2009, um ano antes do 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, em São Paulo, a Escola Livre, em parceria com o IESB, já havia conseguido reunir, na capital federal, os principais expoentes desse movimento no país: Luis Nassif (Blog do Nassif), Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada), Rodrigo Vianna (Escrevinhador), Marco Weissheimer (RS Urgente) e Luiz Carlos Azenha (Viomundo). Uma semana de debates ricos, bem humorados, em um auditório permanentemente lotado de estudantes de jornalismo e jornalistas profissionais. Foi nosso único evento gratuito e, claro, o de maior sucesso. Os ciclos e oficinas, embora tenham tido boa audiência, esbarravam sempre no problema do custo para os estudantes: como nos cursinhos de treinee da velha mídia, acabávamos por privilegiar um segmento de jovens já socialmente privilegiados. É dessa frustração e dessa armadilha que proponho fugir agora.

Por isso, expus no Facebook a idéia de ministrar minhas aulas de Técnica Geral de Jornalismo, divididas em módulos, de modo que cada estudante pague um valor baixo por cada aula. Ou seja, os estudantes vão às aulas que quiserem, pagam na entrada e participam de duas horas de aula de jornalismo sobre tópicos práticos e temas relevantes. Minha idéia é convocar outros repórteres de Brasília a participar desse movimento da Escola Livre de Jornalismo, com o compromisso de, em troca da aula de duas horas, receber 70% do valor arrecadado no dia, porque 30% serão sempre destinados à administração e organização do curso.

Além do valor da aula, ainda a ser estipulado, cada aluno deverá também levar um alimento não perecível qualquer, a ser distribuído para comunidades pobres do Distrito Federal ou instituições de assistência social a serem definidas com futuros parceiros. Esses mantimentos, inclusive, poderão ser usados como moeda de troca para podermos utilizar gratuitamente algum espaço físico em Brasília para ministrar as aulas. É algo ainda a ser definido.

A idéia está lançada. No Facebook, recebi quase 100 adesões imediatas de estudantes, jornalistas, incluindo alunos e ex-alunos realmente satisfeitos com a perspectiva de participar de um movimento interativo desse nível, a preços populares. Espero poder iniciar as primeiras aulas em fevereiro de 2011 e, desde já, conto com a participação de todos os amigos e colegas jornalistas do Brasil que quiserem compartilhar essa experiência. Quanto mais gente boa dando aula, mais gente boa a ser formada. Como nas experiências anteriores, a Escola Livre de Jornalismo espera contar com a parceria das faculdades de jornalismo do DF para transformar em crédito a freqüência dos estudantes nas aulas, de modo a colaborar com uma necessidade acadêmica deles, as horas extra-sala de atividades complementares.

Por favor, quem quiser participar dê o ar das graças. Nossa missão inicial é achar um lugar amplo e legal, com cadeiras e uma boa mesa de professor, para dar as aulas. A depender do nível de adesão dos colegas jornalistas, vamos organizar uma agenda para as aulas, que serão sempre aos sábados, em princípio, das 9 às 11 horas da manhã.

Por enquanto, é esse o meu manifesto, é essa a minha idéia. O resto virá, tenho certeza, na garupa de bons ventos.

O VOCABULÁRIO DO PODER DO BRASIL



Por Alexandre Figueiredo

Havia escrito um texto sobre as palavras do poder analisadas pelo jornalista inglês Robert Fisk. No Brasil, também existe um vocabulário do poder, mas ele não se limita tão somente ao âmbito político, afinal é pelo âmbito sócio-cultural que manipula-se mais as multidões do que a pregação político-ideológica do baronato da grande mídia.

Mas o vocabulário do poder mostra o quanto o baronato da mídia brasileira exerce também seu poder de ferro, manipulando até mesmo a forma de falar da juventude do país.

Selecionamos as palavras mais frequentes no vocabulário do poder da mídia brasileira:

ALIENADO - A pregação pró-popularesca da mídia, sobretudo no que diz a ideia de "preconceito" (ver abaixo), usa a expressão "alienado" para definir quem rejeita as tendências e modismos em evidência. O "alienado" seria então um estereótipo que mistura moralismo com saudosismo, ou então uma espécie de chato reacionário, purista paranóico ou coisa parecida.

ANTENADO - Termo antes atribuído a um estereótipo de juventude alternativa - ou seja, a juventude educada à base de Menudo, Xuxa, Dr. Silvana, Michael Jackson e Steven Spielberg que na faculdade foi obrigada a encarar Sonic Youth, Billie Holiday e Jean-Luc Godard - , o termo hoje é usado pelo vocabulário do poder para as pessoas que se encontram sempre "atualizadas" com as tendências "culturais" do momento. O antigo sentido de "antenado" passou a ser conhecido como "descolado" (ver abaixo).

BALADA - Originária do jargão próprio de DJs e publicitários paulistas, a gíria "balada" está ligada ao universo da dance music. Mas a mídia manipulou a gíria de tal forma que tentou-se ultrapassar a fronteira do pop dançante e ir até mesmo para os bailes da terceira idade ou mesmo para o segmento roqueiro (normalmente hostil ao universo do pop dançante). A grande mídia queria usar a gíria "balada" como substituta para a palavra "festa", mas a coisa chegou-se a tal ponto que até qualquer reunião num bar ou restaurante à noite ficou conhecido como "balada".

BANDA - Deturpando o sentido de boys bands (na verdade, "grupos de garotos") e pegando carona no jargão roqueiro (que credita cantores e grupos como bandas, até porque no rock até cantor solo tem uma banda por trás), passou a chamar qualquer conjunto de "bandas". Grupos apenas com cantores-dançarinos eram creditados como "bandas", ofendendo a classe dos músicos. Chegou-se ao ponto de chamar de "banda" um grupo com uma cantora e várias dançarinas-vocalistas de apoio chamado Pussycat Dolls. A expressão entrou em desuso, diante das reclamações de muita gente, até no Big Brother Brasil (!).

CIDADANIA - Não se sabe o que é pior, a "cidadania" da Antiguidade grega, que excluía mulheres e escravos, ou a "cidadania" burocrática que os detentores do poder reservam para o povo brasileiro, que no fundo não é mais do que a "cidadania clássica" grega adaptada para o contexto politicamente correto. Normalmente, a ideia distorcida de "cidadania", no vocabulário do poder, está associada a um mero comportamento de obediência sócio-política e no atendimento às exigências burocráticas.

CIDADÃO - Esta palavra também tem um sentido próprio no vocabulário de poder, com vida própria em relação ao derivativo "cidadania". O "cidadão" é, para o vocabulário de poder, uma espécie de boneco ventríloquo dos interesses dominantes, sobretudo tecnocráticos, e tornou-se o "sujeito" da retórica demagógica moderna. Antes o discurso demagogo falava em "povo", mas como isso significou uma inclinação populista que tornou-se pejorativa, o novo demagogo não fala mais em "povo", fala agora em "cidadão". É mais personalizado e pomposo para iludir as massas com mais eficiência.

CLIENTE - Poderia ser apenas um marketing pomposo usado pelo comércio, mas a coisa andou, ou melhor, desandou a ponto da mídia não falar mais "freguês". Agora, todo mundo é cliente, até freguês de barbearia de subúrbio. Cria uma impressão de pompa, sem a simplicidade natural da palavra "freguês", cujo derivativo, "freguesia", inspirou nome de dois bairros do Rio de Janeiro, um em Jacarepaguá, outro na Ilha do Governador.

DEMOCRACIA - Evidentemente, para a grande mídia dotada de ideias conservadoras, o conceito de "democracia" só pode ser associado a regimes capitalistas liberais, que não são, necessariamente, democráticos, principalmente numa época em que as decisões acerca da política salarial, da função do Estado nos serviços diversos, ou mesmo do urbanismo, são privilégio de tecnocratas sem qualquer identificação com os interesses de fato públicos. A "democracia", em diversos momentos da História recente, serviu de pretexto para governos de interesses oligárquico-empresariais derrubarem governos com projeto político voltado para os interesses populares.

DESCOLADO - Anos atrás, havia um estereótipo caricato do jovem intelectualizado e vanguardista que no Brasil denominava-se "antenado". Desde que veio o grunge, a mídia grande brasileira adorou brincar de "cultura alternativa" e até programas horrendos da Rede TV!, por exemplo, passaram a mostrar esportes radicais. O alternativo estereotipado era normalmente um rapaz ou moça que haviam tido uma "educação cultural" conservadora pela mídia, voltada ao pop descartável e ao populismo televisivo. Mas, quando chegava a faculdade, esses jovens eram "estimulados" a adotar um perfil alternativo caricato, cheio de clichês. Imagine um sujeito acostumado com filmes de Spielberg e comédias infanto-insossas da Sessão da Tarde nos anos 90 ter que conhecer, de uma hora para outra, os filmes alternativos europeus? É isso. Com o tempo, o termo "antenado" foi substituído por "descolado", e o estereótipo ganhou um toque fashion.

EDUCAÇÃO - A palavra "educação", que poderia naturalmente se referir a um âmbito geral de qualquer tipo de ensino, instrução e mesmo atividades sócio-educativas destinadas a desenvolver valores sociais elevados, é usada vagamente pelo vocabulário de poder como sinônimo de instrução. A própria ideia de educação escolar, trabalhada pelos barões da grande mídia, é de uma superficialidade tragicômica. Limita-se a ensinar a ler, escrever e fazer contas. De resto, apenas jogar bola (alusão ideológica ao futebol). A grande mídia transforma a Educação num processo extremamente fácil e tolo, esvaziando o sentido de qualquer abordagem que aprofunde os reais problemas que envolvem o tema. E tivemos grandes pensadores como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire, e hoje temos Cristovam Buarque. Só que o grande público não sabe disso, pensa que Educação é criança jogar bola.

ECOLOGICAMENTE CORRETO - Antes a mídia grande adotava o termo "politicamente correto" para definir aquele que se preocupa com a ecologia. Mas como a expressão pegou mal, muitos achavam a denominação muito pesada, a mídia grande resolveu amenizar e substituir "politicamente correto" por "ecologicamente correto". O que não deixa de ser uma provocação com quem se preocupa verdadeiramente com o meio ambiente, em detrimento do desejo de "progresso" das grandes corporações, responsáveis diretas do efeito estufa e dos desastres ambientais do planeta.

EMPREENDEDOR - A expressão "empreendedor" é usada no vocabulário do poder para "humanizar" a figura naturalmente fria e sisuda do grande empresário, principalmente em revistas, páginas de jornais e sites dedicados ao mundo dos negócios. Não há mais "executivo", agora é "empreeendedor", palavra que manipula a ideia de "empresário" como se ele fosse um idealista corajoso e perseverante, fundou e mantém a referida corporação citada pela imprensa. A palavra tenta apresentar uma ideia de "altruísmo" e "aventura", criando uma visão romantizada do homem de negócios.

GALERA - Expressão originária das navegações marítimas, foi adotada pela gíria esportiva e daí virou gíria de playboys. Mas a grande mídia empurrou a gíria para definir todo e qualquer tipo de coletivo de pessoas, geralmente num sentido afetivo. No lugar de "família", "equipe", "classe (da escola)", "(grupo) de amigos", agora é só "galera". Ficou até mais complicado, porque fulano tem que dizer qual ou de onde é a "galera" que ele fala: "galera da farmácia", "galera lá de casa", "galera lá do estúdio", "galera do Flamengo", "galera da Faculdade" etc.

GLOBALIZAÇÃO - Expressão usada pela mídia conservadora para camuflar a imagem negativa do sistema capitalista, sobretudo em relação ao imperialismo. Dessa forma, quando existem protestos contra o imperialismo em eventos como o Fórum Econômico Mundial, a grande mídia os credita como se fossem "protestos contra a globalização".

INVESTIDOR - Da mesma forma que "empreendedor" é uma visão romantizada do empresário, o capitalista - e aqui não podemos nos esquecer também dos especuladores financeiros e dos agiotas - , através da palavra "investidor", também é tratado de forma pretensamente humana. É como se o capitalista do Primeiro Mundo investisse de forma generosa nos países dependentes, ou mesmo emergentes, porque supostamente acredita no desenvolvimento das nações subordinadas. Quando, na verdade, o "investidor" investe um punhado nesses países para, no mínimo, faturar o dobro do valor investido.

JABACULÊ - Acontece tanto jabaculê na mídia - e não se trata de sucessos musicais, não, há muito mais jabaculê no jornalismo político e esportivo - que mesmo os adeptos mais fervorosos do baronato da mídia não conseguem mais desenvolver. E agora? A grande mídia resolveu apelar para o sentido eufemista, transformando a expressão "jabaculê" ou "jabá" num simpático sinônimo à brasileira da expressão mershandising, procurando acobertar o macabro sentido de corrupção da mídia associado ao termo.

LÍDER - O vocabulário do poder tenta transformar a ideia de patrão e chefe em alguém ao mesmo tempo "aventureiro", "heróico", "altruísta", "companheiro", "corajoso" e "perseverante". E define tudo isso com a palavra "líder", neutralizando qualquer reação contrária dos subordinados ao seu "patrão-companheiro".

OPINIÃO - O inocente termo, relacionado a um ato de expressar o parecer do raciocínio humano em relação a uma ideia, é usado pela grande mídia como se fosse uma moeda valiosa cuja posse é prioritariamente dos chamados grandes jornalistas, elite de editores-chefes, colunistas, articulistas e comentaristas que, na prática, privatizam a opinião pública, tornando-a um bem privado. O povo não está proibido de ter opinião, desde que se apoie seguramente no ponto-de-vista "sábio e objetivo" dos chamados "profissionais da opinião".

PATRIOTISMO - Para distrair a moçada, a mídia grande brasileira distorce o termo "patriotismo" limitando-o a um mero culto à seleção brasileira de futebol. Limita-se o conceito de patriotismo ao fanatismo "sadio" pelo futebol, enquanto a mídia grande se recusa a definir como patriotismo os protestos diversos das classes populares. Realizar passeatas protestando contra a exclusão imobiliária não é "patriotismo", é "desordem", ser "patriota" é torcer pelos jogos do futebol brasileiro, sobretudo a "seleção". Num Brasil movido pela deterioração do conceito de nacionalismo, principalmente na Economia, isso é crucial para manter as multidões distraídas.

PRECONCEITO - A palavra tornou-se o verbete preferido pelos barões da mídia para fazer a mediocridade cultural levar vantagem e se propagar acima de quaisquer modismos. Neste caso, o vocabulário do poder trabalha a ideia de "preconceito" como uma "rejeição injusta", transformando qualquer ídolo medíocre do entretenimento num pretenso "mártir" em vida, criando todo um discurso choroso e apelativo que busca se promover às custas do sentimentalismo fácil do povo. Desconfiado, o lúcido e experiente Millôr Fernandes acha que a "ruptura de preconceitos" promovida pela grande mídia - e olha que, ironicamente, ele escreve para Veja (!), numa clara exceção à linha editorial golpista do periódico abrilino - é muito mais carregada de "preconceitos" do que os ditos "preconceitos".

ROBERT FISK E O VOCABULÁRIO DE PODER DA GRANDE IMPRENSA



Por Alexandre Figueiredo

Sim, a mídia usa um vocabulário do poder. Tanto nos EUA e Reino Unido quanto no Brasil. No mês passado, o jornalista inglês Robert Fisk, correspondente no Oriente Médio do jornal britânico The Independent, realizou uma palestra no quinto fórum anual da emissora árabe Al Jazeera.

Na sua exposição, Fisk alertava para o vocabulário do poder que a imprensa dos EUA, por influência do Pentágono, da Casa Branca e do Departamento de Estado , utilizava, mostrando o quanto a grande imprensa estadunidense é influenciada, até na linguagem, nas relações que estabelecem com os donos do poder. Afinal, são os donos do poder da mídia que se relacionam com os donos do poder da política.

Fisk enumera várias expressões, muitas delas absurdas, que por si só manipulam o sentido dos noticiários e até mesmo dos fatos. Por exemplo, o chamado "processo de paz" (peace process), na verdade, é uma expressão atraente usada para algo insignificante. Não é mais do que um eufemismo para nomear, nas palavras de Fisk, "o acordo sem futuro, inadequado e desonroso que permite aos Estados Unidos e a Israel fazerem o que bem entenderem com os pedaços de terra que deveriam ser dados a um povo sob ocupação".

Há muito tempo eu ouço essa palavra "processo de paz" e mesmo nos meus tempos de adolescente ficava cético com esses acordos "intermináveis" envolvendo o Oriente Médio. Fisk afirma que essa palavra é usada há pelo menos duas décadas, mas eu mesmo já ouvi essa palavra sendo mencionada nos noticiários há uns trinta anos.

Fisk menciona o famoso acordo de 1994 entre o então presidente dos EUA, Bill Clinton, o líder palestino Yasser Arafat e o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, que a grande imprensa "definiu" como "processo de paz" e classificou o evento, exageradamente, como "momento histórico". Algo enfeitado, jornalísticamente, para figurar como manchete principal de muitos noticiários e nas primeiras páginas de muitos jornais.

No entanto, sabemos que o referido acordo deu com os burros n'água, Yitzhak foi assassinado dois anos depois num atentado e Arafat faleceu em 2004 doente, e nada de concreto realmente aconteceu. E a esposa de Clinton, tornou-se secretária de Estado dos EUA e as coisas ficam na mesma.

Aliás, Fisk cita o comentário irônico de Arafat no referido acordo com Clinton e Rabin, definindo o tratado como "a paz dos bravos" (the peace of the brave), expressão que havia sido usada pelo general e depois primeiro-ministro francês Charles De Gaulle em relação à guerra da Argélia (1954-1962), que resultou na derrota da França. Ou seja, "a paz dos bravos" não seria eufemismo para "reconhecimento dos derrotados"?

Fisk enumera outras palavras do poder adotadas pela grande imprensa dos EUA e também do Reino Unido (aqui, sob influência do Parlamento e do governo do Primeiro-Ministro de uma monarquia parlamentarista).

Como o tal "processo de paz" quase sempre dá com os burros n'água, quando há uma nova tentativa, a grande imprensa ianque tenta afirmar que o "processo" foi colocado "nos trilhos" (back in track). Não anda, mas a cada nova tentativa, novamente se põe "nos trilhos". E, de brinde, o insosso Tony Blair, quase feito braço-direito de George W. Bush nas bravatas contra o terrorismo da Al-Qaeda, hoje é definido pelos barões da mídia pelo risível adjetivo de "enviado da paz".

Outro exemplo patético descrito por Robert Fisk são as "narrativas que competem" (competing narratives). Expressão preciosa para quem acredita naquele mito apático da "imparcialidade", que transformou o jornalista da grande imprensa como um "ser sem vida", sem emoções, portanto, sem postura própria na sociedade (e sabemos o quanto os barões da mídia, mesmo sob este mito, têm postura, sim, e ela é reacionária, quase anti-social), espécie de falso espelho para um tipo genérico de leitor que, de tão genérico e supostamente versátil (homens, mulheres, ricos, pobres, jovens, velhos, brancos, negros), acaba não tendo cara, nem voz, nem pensamentos, porque tenta agradar a todos e a ninguém agrada (fora seus adeptos deslumbrados). É a "imparcialidade" como motor de uma imprensa asséptica, insossa, quase robotizada.

As "narrativas que competem", portanto, consistem em um "campo neutro" onde não há justiças nem injustiças. Não há conflitos, os dois lados da reportagem ganham espaço igual e análise fria, sem posição, sem preocupações, sem postura. O jornalista só "ouve" os dois lados. Não há análise, nem questionamento, nem defesa, nada.

Também há a expressão, adotada por motivos etnocêntricos, chamada "combatentes estrangeiros" (foreign fighters). Os jornalistas ocidentais usam essa palavra, por exemplo, para definir os vários grupos árabes a serviço do Taliban, no Afeganistão. Mas eles mesmos desconhecem, ou desprezam, o fato de que pelo menos 150 mil "combatentes estrangeiros" no Afeganistão vestem, em maioria, uniformes dos Estados Unidos e da OTAN (Organização Tratado do Atlântico Norte).

E, entre outras expressões, há também a abreviatura Af-Pak (Afhganistan-Pakistan, que disfarça a influência da Índia na política terrorista do Afeganistão e apaga todo o histórico conflito entre Índia e Paquistão.

Um dos motivos que faz os jornalistas ocidentais usarem as "palavras de poder" é a falta de hábito de leitura de livros, que Robert Fisk considera um dos males da humanidade contemporânea. Certa vez, num voo de Paris a Beirute, uma mulher sentada ao lado de Fisk parecia ler um livro em francês sobre a Segunda Guerra Mundial. Em poucos segundos, ela mudava de página. Mas o jornalista logo viu que ela não estava lendo o livro, mas "surfando nas páginas", fazendo uma leitura superficial. E Fisk reconhece que os árabes, pelo menos, leem muitos livros, ainda são capazes de fazer a chamada "leitura profunda".

Eu mesmo imagino o quanto os reacionários que atacam este blog e defendem certos totens da mediocridade cultural só leem umas poucas palavras-chave que identificam ser contra seus ídolos queridos.

AS "PALAVRAS DO PODER" NO BRASIL

Talvez no Brasil a coisa não esteja somente carregada no âmbito politico. As "palavras de poder", aqui, talvez não sejam tratadas como um "vocabulário de guerra". E mesmo expressões do cotidiano, associadas ao puro entretenimento, no entanto, correspondem ao vocabulário de poder que a grande mídia adota no nosso país.

Há pouco mais de um ano, havia lido o livro A Imprensa e o Caos na Ortografia, que o jornalista Marcos de Castro lançou em 1998, que questionava as distorções ortográficas e vocabulares feitas pela grande imprensa brasileira.

Nem vamos nos ater em todos os exemplos dados pelo veterano jornalista, mas ele denuncia os vícios de linguagem que se tornaram um padrão na grande imprensa brasileira. Se é de propósito ou não, não se sabe, mas muita coisa já foi assimilada pelo nosso showrnalismo, uma vez que a cada dia nosso jornalismo é substituído, aos poucos, pelo "jornalismo de espetáculo". E agora, até reportagens sérias têm cenas em movimento acelerado, que a gente só via nas exibições de cinema mudo em equipamentos mais modernos.

Castro reclama que essa degradação do vocabulário, por incrível que pareça, tem por propósito forjar um preciosismo linguístico, principalmente na substituição de certas palavras simples por outras "valiosas".

Dois exemplos são sintomáticos. Passageiros de ônibus não são mais "passageiros", são "usuários". E, pior ainda, é o uso viciado da palavra "cliente" como substituta de freguês. É o fim da picada.

A palavra "freguês", em outros tempos, era tão honrada e respeitada, era o público dos comerciantes, uma palavra bonita que expressava uma relação social que envolvia não só compra e venda, mas também gentileza, respeito, cordialidade, ou mesmo amizade. O valor da palavra freguês e seu derivado "freguesia" é tal que, no Rio de Janeiro, ainda nos seus tempos de Distrito Federal, contou com dois bairros com o nome de Freguesia, um em Jacarepaguá (então uma grande roça) e outro na Ilha do Governador. Nomes que continuam valendo até hoje.

Mas agora, na grande imprensa, não existem mais os fregueses. Todos viraram "clientes". Segundo Castro, a expressão "cliente" era reservada apenas aos "fregueses" de médicos e advogados. Mas hoje até posto de gasolina tem "clientes". Não há mais fregueses, que, repito, corresponde a um radical tão bonito, "freguês", palavra que não soa obscena nem complicada para se falar.

No entanto, o vocabulário de poder da grande mídia brasileira tem seus truques. Se tenta passar um verniz preciosista, substituindo "freguês" por "cliente", entre outras barbaridades citadas por Castro, também não deixa de investir no empobrecimento do vocabulário, fundindo vários sentidos numa só palavra.

É o caso da expressão "galera", gíria antiga que correspondia a um tipo de embarcação marítima, assim como também à sua tripulação correspondente. Foi adotada pela imprensa esportiva porque o formato dos estádios esportivos pareciam "galeras" de navio, e o termo logo passou para definir uma multidão de torcedores.

Depois, a gíria passou para o vocabulário bicho-grilo, lá por volta de 1968-1973, e virou gíria de playboy nos anos 80. Até que no final dos anos 90 a mídia teve o asneirol de forjar um uso "universal" da gíria "galera", agora para definir coletivo de qualquer coisa "boa": de amigos, de equipe de profissionais, de parentes, de colegas da escola, de companheiros de determinado evento ou causa, etc.

Aí ficou uma coisa patética. Não se fala mais "família", "turma", "equipe". Tudo virou "galera". Entra o ditado popular "se dá para complicar, para que simplificar?". Com o vocabulário empobrecido, é hora da língua pegar pesado na matéria bruta, e aí em vez de falar "família", "turma" e "equipe", se fala "galera lá de casa", "galera lá da escola", "galera do trabalho", dando mais trabalho para a fala e para o raciocínio (me vem à mente o personagem Alexandre Fokker, de Bruno Mazzeo, e seus lapsos de raciocínio para certas palavras).

"Balada" tornou-se então um "clássico" do vocabulário do poder da grande mídia. A expressão, associada a histórias tristes e música lenta, foi então encharcada de ecstasy e teve o ritmo acelerado. Sem qualquer contexto social relevante, todas as prováveis origens sociológicas da palavra são imprecisas e atípicas para uma gíria que busca um uso "universal".

Além disso, a gíria "balada", associada a um universo de pop dançante, ganhou uma estranha projeção na grande mídia, que dava uma ideia de que a gíria passou a ter seu próprio departamento comercial e de marketing. Com direito a mershandising e mesmo a apropriação do passado. Evidentemente, as tais "baladas" nunca existiram nos anos 80 e nem existe "balada" senão de dance music daquelas bem "poperó". A não ser nas mentes bitoladas da "galera da grande imprensa", sobretudo Globo, Veja, Bandeirantes, Folha, Isto É, como também nas rádios Jovem Pan 2 e Transamérica, "donas" da gíria "balada" junto à Rede Globo.

Com "galera" e "balada", o vocabulário juvenil acaba se empobrecendo, e fica até nojento ouvir uma moça falar "vou pra balada c'a galera", como se estivesse cuspindo saliva na minha cara, como se estivesse falando com a língua enrolada de tantos "ll", e dando a crer que ela não é mais do que uma patricinha metida a "arrojada".

No âmbito político, as palavras de poder também fazem das suas, sobretudo no infame hábito de substituir "imperialismo" por "globalização". Tzavkko e Altamiro Borges que o digam, os protestos da sociedade contra o imperialismo neoliberal são, para os olhos da grande imprensa - e não se fala só de Globo, Folha e Veja, até as "boazinhas" Bandeirantes e Isto É usam e abusam da mesma linguagem - , "protestos contra a globalização". Isso porque "globalização", para a grande imprensa, dá uma ideia de "processo positivo", de "modernização do mundo", de "progresso da humanidade", não tem o sentido cruel do termo "imperialismo".

Essa é a lógica das palavras de poder. Nos EUA e Inglaterra, o poder político "amarra" os jornalistas com um padrão de vocabulário que, em si, representa domínio ideológico, controle social, manipulação da história. No Brasil, ocorre o mesmo, mas as palavras de poder envolvem também o entretenimento, visando controlar também a juventude, obrigando-a a padronizar seu vocabulário.

Os donos do poder, assim, tentam conquistar (no sentido de domínio) a humanidade por intermédio do uso de palavras.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

FOLHA DE SÃO PAULO DIZ QUE A INDÚSTRIA CULTURAL MORREU. DÁ PARA ACREDITAR?


FORA DA MÍDIA? - Enquanto o tecnobrega posa de "anti-mídia" e "anti-indústria", a Folha, a Som Livre e até a Veja se rendem abertamente ao gênero.

Que mentira, que lorota boa!!

É bom viver no Brasil.

O cara pode ser um neoliberal, um direitista enrustido, mas por esta ou aquela desculpa pode ser esquerdista.

No Brasil, se faz uma música comercial que, para convencer os otários, agora diz que "está fora da indústria", "está fora da grande mídia".

E advinha quem é que endossa essa mentiralhada toda?

A grande mídia, é claro.

Vejam esta nota dada pela Folha de São Paulo.

Editores e repórteres da FOLHA DE SÃO PAULO - repetindo, FOLHA DE SÃO PAULO - , elegeram os 50 álbuns mais influentes para a formação da dita "identidade cultural brasileira".

Ou seja, a lista tem a pretensão de creditar obras com "valor artístico reconhecido".

E o que vemos na lista? Evidentemente, existe a MPB que os críticos consideram patrimônio privativo de seu gosto pessoal, que o povo "não tem condições" de apreciar.

Mas, ao longo da lista, o que também vemos: nomes da Música de Cabresto Brasileira como Grupo Revelação, Banda Calypso, César Menotti & Fabiano, Tati Quebra-Barraco e, pasmem, Ivete Sangalo.

Todos "fora da mídia", "fora da indústria", cujo sucesso é atribuído "decisiva" e "exclusivamente" às redes sociais da Internet, ao iPod, ao iPad, às gravadoras ditas "independentes" (que de "indie" só têm a pose, porque a mentalidade é puramente mercantilista).

Detalhe: Ivete Sangalo, símbolo do conservadorismo fonográfico dominante, contratada pela Rede Globo (até para apresentar programa na casa), queridinha do Grupo Abril - esta semana, por exemplo, ela é capa de Caras (quem ainda não acredita, clique aqui) - , "paquerada" pela Folha de São Paulo, nunca poderia ser anti-mídia, nem anti-indústria ou coisa parecida.

Claro, a própria grande mídia estabelece essa mentira que o tecnobrega está "fora da grande mídia".

E já estão dizendo que até o "sertanejo" está "fora da indústria", como a Veja tentou dizer que o estilo está "fora da mídia".

Balelas! O que acontece é que mudam os personagens, mudam as instituições, mas a indústria continua a mesma, a mídia também.

O problema é que existe uma fragmentação de recursos midiáticos que confunde muito as pessoas.

Além da própria grande mídia mentir, quando diz que o tecnobrega e o "funk carioca" estão "fora da mídia e da indústria", a própria indústria mudou, mas manteve seus princípios.

Da mesma forma que a política neoliberal de hoje é representada pelos "esquerdistas" PSDB, PPS e até PV, que provaram que a direita brasileira continua viva, as "grandes gravadoras" de hoje são alguns "pequenos" selos, que só são independentes na teoria, mas que na prática pensam igualzinho às hoje decadentes multinacionais.

Grande mídia também é o serviço de autofalantes na cidade do agreste que toca sucessos bregas. Grande mídia é o canal dos fãs do cantor Belo, por exemplo, no YouTube.

A grande mídia pode ser também a grande FM regional que lidera os pontos do Ibope, pode ser também a rádio comunitária controlada por deputados, pode ser uma rede de fãs-clubes dos ídolos popularescos que monta uma gravadora e um esquema "próprio" de mídia.

Ou seja, existe uma grande mídia e uma grande indústria que apenas muda suas instituições.

É a mesma velha ordem mundial que muda os personagens, muda os anéis, mas têm os mesmos dedos, os mesmos procedimentos, não mais num escritório em Nova York ou na Avenida Paulista, mas já num escritório num novo mega-edifício de Belém, de Manaus, de Salvador, de Palmas, de Goiânia, da Barra da Tijuca, no Rio, ou de Jundiaí.

Essa "mídia alternativa" e "mídia independente" não existem, é tudo reencarnação da velha grande indústria, da velha grande mídia, que apenas seguem o processo de descentralização administrativa próprio das modernas teorias neoliberais.

Portanto, é muita hipocrisia o "sistema" se autoproclamar "anti-sistema".

No fundo, o "sistema" apenas quer brincar de "combater o sistema".

Mas, depois dessa brincadeira, seus princípios serão mantidos.

No final das contas, é o mesmo empresariado que fatura horrores às custas dos incautos, mesmo com esse papo de que "a indústria cultural", seja fonográfica, seja midiática, "morreu definitivamente".

No fundo, esse papo apenas serve para que a verdadeira mídia alternativa, o verdadeiro mercado alternativo, sejam impedidos de buscar seu espaço de desenvolvimento e expressão.

BREGA-POPULARESCO POSSUI RIGOR ESTÉTICO... PARA PIOR


PARA A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA, ISSO É LAMA MEDICINAL.

Por Alexandre Figueiredo

Você já ouviu essa. A intelectualidade, para defender os "sucessos do povão", apelava, quase que num alarmismo paranóico, para nós "não avaliarmos a estética". "Esqueçam a estética, isso não existe, é o que o povo gosta e sabe fazer", suplicam críticos musicais e cientistas sociais numa arrogante paranóia que faz qualquer dondoca de classe rica parecer militante das grandes causas sociais.

Pois eu havia pensado e cheguei a uma conclusão que parece um absurdo, mas tem seu sentido lógico dos mais verdadeiros: o brega-popularesco, essa "cultura popular" que aparece no rádio FM e na TV aberta e que se baseia na domesticação do povo pobre, possui, sim, seu grande rigor estético.

Você vai perguntar: "Como rigor estético? O MC Créu tem rigor estético? A Beyoncé do Pará tem rigor estético? O Calcinha Preta, É O Tchan, o Grupo Molejo têm rigor estético? O Waldick Soriano teve rigor estético? Os cantores de axé-music, 'pagode romântico' e 'música sertaneja' têm rigor estético?".

Sim, no sentido do rigor estético como um processo calculado, um rigor no nivelamento para baixo, que corrompe o sentido de cultura popular e o submete à mesma mediocridade que constrange a sociedade, mas que todos temos que acreditar que é "coisa boa". "É o que o povo gosta, é o que o povo sabe fazer".

Um verdadeiro artista é bom desde o começo. Ele não começa fazendo papel de ridículo no começo, para depois "querer fazer as coisas direitinho". A verdadeira cultura não investe primeiro no patético ou no pitoresco para depois aumentar o nível.

Pensar assim é defender o mais cruel etnocentrismo. É associar o povo a tudo que há de pior, e querer que só melhore aos poucos, sem assustar. É o mesmo raciocínio que Ernesto Geisel, quando assumiu a presidência da República indicado pelas Forças Armadas (era a ditadura militar), teve em relação ao país. "Melhorar" aos poucos, sem assustar.

Não é por acaso que a "cultura" brega-popularesca começou a crescer, para valer, na Era Geisel, e que seu governo é considerado pela grande mídia, mesmo de forma implícita, como seus "Anos Dourados".

Os artistas populares que fizeram sucesso entre 1935 e 1960 nunca viriam com essa frescura de fazer discos medíocres primeiro e querer fazer "bons discos" depois. Mas os ídolos "populares" que vieram sobretudo em 1990 fazem.

É até constrangedor. Discos que são propositalmente medíocres, como é a cartilha dos discos bregas. Por isso não é estranho dizer que mesmo os pomposos medalhões da axé-music, do "pagode romântico" e da "música sertaneja" são cantores bregas. Dá para perceber que seus sambas, seus afoxés, suas modinhas são muito fracos, a baixa qualidade estética é proposital, daí o rigor da nivelação para baixo.

Aí, com o passar do tempo, depois de mais de cinco CDs anuais, esses intérpretes vão querer ser levados a sério. E fazem da pior forma. Provam ser maus artistas, camuflados por um espetáculo cheio de técnica, de pompa, de marketing, de visual.

O que aliás, é pior. Enquanto os verdadeiros artistas se tornam mais autorais com o passar do tempo, os ídolos brega-popularescos que fizeram muito sucesso entre 1990 e 1997 (e, em certos casos, até 2002), no entanto, se tornam cada vez menos autorais.

Querendo provar aquilo que não são, na marra, gravam sucessivos CDs e DVDs ao vivo, enchem seus repertórios de covers tendenciosas de MPB, gravam duetos com quem quer que esteja pela frente, podendo ser Chico Buarque ou um outro ídolo brega-popularesco (tipo MC Buchecha). Tudo com palmas ensaiadas, dirigidas, faniquitos orientados pela produção do DVD, refrões decorados pela plateia dirigida e amestrada.

Isso é que é rigor estético, calculado, ainda que nivelado por baixo. A "diva" da axé-music começa sua carreira gravando falsos frevos, falsos afoxés, coisas risíveis mesmo, mas passados dez anos de carreira ela pega carona até em tributos à Bossa Nova, ao Rock Brasil, ao que encontrar pela frente.

Isso é uma grande falta de respeito ao próprio artista. Já soube de vários casos de ídolos do brega-popularesco que, antes de gravarem seus primeiros discos cafonas, sonhavam em fazer MPB.

Milton Nascimento, que teve origem pobre, nunca cairia nessa tentação. Sua carreira foi brilhante desde o começo. Seu primeiro álbum, de 1967, causou um grande impacto por sua qualidade artística impecável, e o cantor, mesmo em discos menos inspirados, sempre manteve sua qualidade, seu excelente nível artístico, sua integridade.

Nunca passaria pela cabeça do brilhante cantor, músico e compositor, um dos fundadores do Clube da Esquina, esperar fazer uma coleção de discos medíocres para depois fazer um álbum "razoável" com clássicos alheios. Milton não esperou que outros lhe oferecessem clássicos da MPB para gravar: ele mesmo fez os seus clássicos da MPB. E, quando gravou covers de clássicos da MPB, já tinha centenas de músicas marcantes em sua carreira, cuja sobrevida vai muito além dos seis meses de execução de rádio. Bem mais além.

Mas, no caso do ídolo popularesco que sonhava "fazer MPB" uma vez na vida, a mediocridade é o meio mais fácil. Certa vez aparece alguém que lhes diz que fazer MPB não dá dinheiro e aí tem que fazer um som "mais tosco" para fazer sucesso. "Depois você junta dinheiro, bajula Caetano Veloso, faz dueto com qualquer figurão da MPB que ninguém reclama. Aí você põe no seu novo CD metade do repertório com covers, participa de tudo quanto é tributo, e pronto. Você lança qualquer porcaria autoral nas rádios, que não deixa marca na carreira, porque tanto faz, porque você já fez seu nome mesmo. A crítica musical, a intelectualidade toda, foi toda comprada pelo mercado (popularesco) mesmo, ninguém vai falar mal...", dirá esse alguém.

É um caminho muito fácil para o beco sem saída. O cara que queria fazer MPB mas começou a carreira fazendo brega-popularesco se enriquece, faz sucesso em todo o país, vira cartaz em tudo quanto é mídia, mas aí, num dado momento da carreira, quando quer entrar no "salão" da MPB provavelmente apadrinhado por algum cantor mais condescendente, é duramente criticado.

Mas não é só música, não. A boazuda também quer ser considerada "feminista" ou "inteligente" a partir de nada. As pessoas se imbecilizam primeiro e depois querem exibir sua imbecilidade nas faculdades, nos ambientes mais credenciados etc. E querem exportar sua mediocridade para o resto do mundo.

A DESCULPA DO "PRECONCEITO" NÃO COLA MAIS

Querer tapear a mediocrização cultural do povo brasileiro - processo arquitetado pela ditadura militar e reforçado por governos "democráticos" conservadores como os de Sarney, Collor e FHC - com uma falsa generosidade paternalista, por conta de uma intelectualidade que, cinicamente, critica o "paternalismo" e o "etnocentrismo" dos outros, é demonstração do mais puro elitismo que essa intelectualidade, tão badalada, festejada e endeusada, sente em relação às classes populares.

Chegam a dizer que o povo é "bom assim", é "melhor" naquilo que tem de pior. Em outras palavras, essa intelectualidade acomodada em condomínios de luxo, mas endeusada na Internet, acha que o povo só é "melhor" quando permanece na sua mediocridade, no seu jeito patético, na sua cultura ruim, apenas temos que adotar uma "nova visão" e achar que essa "ruindade" é apenas "um jeito diferente de cultura". Isso parece generoso à primeira vista, mas é cruel.

PRECONCEITOS DE UMA INTELECTUALIDADE "SEM PRECONCEITOS"

Falam que não gostamos da ideologia brega-popularesca por "preconceito". Grande engano. Rejeitamos essa ideologia porque a conhecemos, seja verificando a programação das TVs e rádios, seja andando pelas ruas, seja passando pelos camelôs, entrando nos supermercados e nas lojas de varejo e atacado, seja pelo som da vizinhança.

Preconceito requer desconhecimento de algo. Se algo não é compreendido e é "pré-concebido", é porque não se tem conhecimento desse algo. Mas nós temos. Rejeitamos porque sabemos muito bem do que se trata.

Pior é o preconceito da intelectualidade "sem preconceitos". Eles veem o povo como uma massa "ruim" que, dentro dessa perspectiva, "só faz coisas boas". Eles geralmente só conhecem "a fundo" a periferia através de documentários estrangeiros, da Internet, de teses acadêmicas. Fazem sua sociologia de gabinete sem sequer aproximarem suas visões da realidade concreta, ainda que por intuição.

Pelo contrário, até em pesquisas de campo eles estabelecem seus preconceitos. Que são os mesmos da velha grande mídia, por mais que a mesma visão seja servida nas páginas da mídia esquerdista.

São preconceitos docilmente não-assumidos, mas expressos. Se resume em achar "positivo" o povo ser pitoresco, grotesco, idiotizado (evidentemente, sem usar tal adjetivo), porque isso é que tem "cheiro de povo", porque o povo, por mais submisso que pareça ao "sistema", é "mais feliz".

Até mesmo a noção de "qualidade de vida" é dotada dessa visão preconceituosa. Se o povo "é pop", tudo bem. Se o povo participa do consumo do entretenimento, tudo bem. A favela, com suas construções precárias e, não obstante, arriscadas, são a "arquitetura pop pós-moderna". O povo embriagado, miserável e grosseiro é "feliz" na sua miséria, é "criador" na sua falta de referências.

São preconceitos "positivos", que fazem a classe média etnocêntrica feliz. Povo domesticado, servindo de "gado" para os interesses da mídia, tido como "detentor" de uma moderna "cultura de cabresto" que é o brega-popularesco. Com seus valores rigidamente calculados, para que o povo seja a forma viva de sua caricatura, seja, na vida real, a imagem estereotipada de si mesmo.

Isso vai contra a tradição histórica do nosso povo, que era capaz de derrubar governos com sua mobilização social. O povo pobre não era bobo, não fazia esse papel do "selvagem abobalhado" que a mídia tanto trabalha, enquanto a intelectualidade faz vista grossa.

Também a cultura popular, que se constituiu no rico patrimônio de mais de 500 anos, até mesmo anterior a 1500, nada tem a ver com essa mediocridade resignada que faz sucesso na mídia.

A cultura popular de verdade tinha liberdade estética. E liberdade estética é buscar o melhor, não se satisfazer no pior. É querer ser bom naturalmente, fazer cultura porque é sua vocação, não para se livrar de algum trabalho braçal, não para ganhar dinheiro fácil.

Por isso não dá para apostar na verdadeira cultura popular, mesmo na aparente evolução artística dos ídolos do brega-popularesco. Esses são cheios de preconceitos, até mesmo em si mesmos. Acham que vão fazer "cultura popular de verdade" vestindo paletós ou vestidos de gala e enchendo os palcos de luzes, dançarinos e orquestras. Visão puramente esquizofrênica, porque isso em si não transforma o brega de ontem na MPB de amanhã.

Da mesma forma, não dá para popozudas romperem com o machismo, de cujos valores elas representam, através do celibato. Como não dá para transformar os funqueiros bobos em "cantores de protesto", só porque seus "bailes funk" foram invadidos pela polícia.

A Música de Cabresto Brasileira, a ideologia brega-popularesca, seja o brega de ontem, seja o "popular" de hoje, são na verdade um grande caleidoscópio de preconceitos, um processo cordialmente perverso de exclusão social. A classe média é que tem que aceitar essa mediocridade cultural, essa inferiorização social como se fosse inerente às classes pobres. Temos que achar essa inferioridade "superior", para o bem de uma suposta paz social que beneficia mais os lucros do mercado do que a busca de melhorias de vida do nosso povo.

Daí que essa mediocrização é rigorosamente calculada. O rigor estético não está na MPB mais sofisticada, cuja qualidade estética é maior porque é livre, é o talento natural de seus artistas. Como também não está na cultura popular autêntica que fez história no passado, porque esta também teve alta qualidade estética, era livre na sua criatividade.

O brega-popularesco, por não ser livre, por ser meramente mercadológico, esse sim é que tem rigor estético. Um rigor nivelado para baixo, calculado, tendencioso. O artista "se evolui" depois que se enriquecer nos seus discos medíocres.

As pessoas em geral primeiro são induzidas a se comportar como idiotas para depois receberem algum benefício de ordem sócio-econômica. Depois que, como farofeiros indo à praia, se sentam nas mesas das faculdades - sem que tenham sido beneficiados por um programa educacional melhor, mas por medidas mais fáceis de acesso - para exibir sua mediocridade triunfante.

Com toda a certeza, isso nada tem a ver com a verdadeira evolução das classes populares. Só mantém as desigualdades sociais, eliminando apenas os efeitos mais incômodos para as elites.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

BREGA-POPULARESCO: A "CULTURA POPULAR" DE DIREITA


A "SUBVERSIVA" BANDA CALYPSO, NAS PESSOAS DE JOELMA E CHIMBINHA, AO LADO DOS CASSETAS, SOBRETUDO O BOBO-DA-CORTE DO INSTITUTO MILLENIUM, MARCELO MADUREIRA.

Por Alexandre Figueiredo

O assunto cultura começa a ser, aos poucos, incluído na pauta dos blogs progressistas, seja pela indicação da irmã de Chico Buarque, Ana de Hollanda - ambos filhos do eminente historiador Sérgio Buarque de Hollanda - , para ministra da Cultura do vindouro governo Dilma Rousseff, seja pela lembrança dos progressistas quanto à MPB autêntica e seus mestres.

Artistas como Chico Buarque, Alceu Valença, Aldir Blanc, Gal Costa nos primórdios e até o saudoso Chico Science, são citados em detrimento da mesmice brega-popularesca que é a cada dia mais contestada.

Afinal, são intelectuais autênticos, antes ocupados pelo debate político, enquanto houve uma outra facção de intelectuais, sejam artistas, críticos musicais, cientistas sociais e celebridades, que defendia o brega-popularesco a pretexto de que era "a verdadeira rebelião das classes populares".

Essa intelectualidade, que eu defino como intelectualidade etnocêntrica, lançou mão de reportagens, documentários, artigos, monografias, resenhas, programas etc, defendendo os tais "sucessos do povão" como se fosse "a verdadeira cultura do povo pobre". Era um discurso habilidoso, sutil, persuasivo, que durante um bom tempo enganou muita gente.

A música brega-popularesca e os valores sócio-culturais que lhe dão suporte - que definem as classes pobres como uma multidão domesticada e resignada com sua inferioridade social - existem desde o final dos anos 50, quando a mídia latifundiária do interior do país e as oligarquias rurais e urbanas associadas lançaram os primeiros ídolos cafonas, lançando seu modelo de "cultura popular" baseado na destruição das identidades regionais e na promoção do conformismo social dos pobres, dentro dos seus mais baixos valores éticos, sociais, econômicos etc.

Dos arremedos caricatos de seresteiros até os funqueiros de hoje, passando por falsos caipiras "sertanejos", falsos sambistas "românticos", axézeiros, falsos forrozeiros e uma infinidade de figuras ao mesmo tempo pitorescas e caricatas como apresentadores policialescos, mulheres-frutas, idosos alcoólatras, favelados risonhos demais, a ideologia brega-popularesca criou uma concepção de "povo" que não é mais do que sua caricatura, se compararmos com a história das classes pobres que se deu ao longo de 510 anos.

A defesa dessa ideologia brega-popularesca - sem esse nome, aliás, porque até surgir esse termo, ela se confundia com a cultura de fato popular - expunha, na verdade, os preconceitos de uma intelectualidade que, mesmo festejada por setores influentes da opinião pública, pouco ou nada contribuía para a manutenção e mesmo a renovação da verdadeira cultura popular.

Afinal, esse discurso de defesa apronta sérias contradições. Entre elas, a tese de que a MPB autêntica estaria "parada no tempo" e que a "cultura popular" do brega-popularesco representaria "a verdadeira renovação".

Na prática, o que vemos é o contrário, afinal nomes como Alceu Valença e Gal Costa, para não dizer Chico Buarque, são capazes de profunda renovação artística, enquanto os ídolos "inovadores" do brega-popularesco - como as "duplas sertanejas", os "pagodeiros românticos" e as "divas do axé" - começam a se perder em sucessivas regravações de seus sucessos, em DVDs ao vivo lançados um atrás do outro, quase que totalmente recheados de covers, ou seja, de canções alheias de qualquer natureza.

Como podem ser considerados "renovadores" ídolos que fazem apenas uma carreira musical claramente medíocre que se congela em álbuns de auto-reverência, ao vivo, com duetos e muitos, muitos covers? Mesmo alegações como "eles fazem um som mais pop" soam muito vazias, com todo o discurso pós-moderno em que até Antônio Conselheiro e Zumbi dos Palmares e, por outro lado, Malcolm X e Malcolm McLaren são usados para "justificar" o sucesso do "funk carioca".

Esse discurso demonstrou não mais ser um delírio desses cientistas sociais, críticos musicais e artistas e celebridades, que tentam justificar fenômenos da mediocridade cultural a partir de referenciais sócio-político-culturais que só existem na imaginação dos próprios intelectuais.

As contradições são inúmeras e revelam preconceitos de direita até mesmo em intelectuais que tentam ingressar nas fileiras esquerdistas. O que dizer de Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e mesmo Leonardo Sakamoto se inspirarem no historiador neoliberal Francis Fukuyama para dizer que "a Era de Ouro da MPB acabou e agora música brasileira é o créu, o tchan, o rebolation, tecnobrega, arrocha etc)?

Além do mais, o próprio trânsito desse discurso de defesa é estranho. Afinal, para quê Gaby Amarantos aparecer na capa da Revista Fórum se, cinco meses depois, ela aparece em tratamento VIP pela ultradireitista revista Veja, justamente naquela edição de outubro com a capa mostrando frases supostamente contraditórias de Dilma Rousseff?

Por isso o discurso que se veio em torno de ritmos como o "funk carioca" e do tecnobrega, mas que socorre também os ídolos "sofisticados" (duplas de "sertanejo", cantores e grupos de "pagode romântico", "divas do axé" etc), perdeu completamente o sentido, apesar dos aplausos de focas de circo continuarem barulhentos.

Isso se explica porque vivemos num tempo em que esquerda e direita definem suas posições em vários assuntos, até mesmo no Oriente Médio ou no caso Wikileaks. Como isso não poderia ocorrer no âmbito cultural? Será que o pagodeiro-carneirinho que canta para George W. Bush e protegido da Globo pode ser definido como "artista revolucionário" nas páginas de Fórum?

A própria retórica em prol do "funk carioca" e do tecnobrega como "fenômenos sem mídia" ou "de esquerda" não passou de uma grande lorota. Claro, o ídolo que está começando a carreira nunca ia aparecer na grande mídia, isso não faz dele um "guerrilheiro bolchevique". Além disso, a facilidade com que os dois ritmos entraram na grande mídia - até o direitista O Liberal soltou fogos para o tecnobrega - , a mesma mídia golpista que condena os movimentos sociais, é algo para despertar muita suspeita.

Por isso o discurso de intelectuais antes renomados, ou, pelo menos, queridos por seus amigos e pela solidariedade corporativista, mais uma vez se dissolve feito castelos de areia sem que alguém venha para reforçar logicamente suas convicções. Ivana Bentes escreveu um texto reprovando o mito da "periferia legal", mas errou ao aplaudir um documentário de Denise Garcia que, mostrando até mesmo o grupo Gaiola das Popozudas (ícone do machismo lúdico brasileiro que tem Valesca Popozuda como principal integrante), reforça o mesmo mito condenado por Ivana. Seriam aplausos corporativistas?

A cada vez mais o brega-popularesco em geral e a Música de Cabresto Brasileira (nome dado para uma "música popular" que rola em rádios FM e TV aberta associadas a grupos oligárquicos) demonstram que são a "cultura popular de direita". E que alegações como "ruptura de preonceito" e "desprezo à estética" se tornem menos convincentes.

Primeiro, porque a ideia de "preconceito" está erroneamente ligada ao sentido de "detestar", como se não gostar fosse sempre em função de não conhecer. Mas quem odeia a Música de Cabresto Brasileira a conhece muito bem, de cor e salteado, através dos passeios nas ruas, nos supermercados, nas lojas de eletrodomésticos, camelôs e na consulta de rádios FM e TV aberta, etc.

Segundo, porque a estética é um dos elementos fundamentais da linguagem artística. Se os intelectuais "recomendam" que desprezemos a estética para validarmos este ou aquele fenômeno "de sucesso", é porque algo está errado e os intelectuais querem apenas que escondamos a sujeira no tapete. Isso em nada ajuda na manutenção nem na renovação da cultura popular autêntica, e não passa de uma censura sutil às nossas críticas bem analisadas.

Por essas e outras, os preconceitos dessa intelectualidade que defende o brega-popularesco se mostram evidentes, pois no fundo eles acham que o povo pobre "é melhor naquilo que ele tem de ruim". O que eles defendem não é a verdadeira cultura das classes populares, que nada tem de grotesca ou patética. Mas é a "cultura popular" que aparece no Domingão do Faustão, nas FMs "do povão", nas "dicas culturais" da imprensa populista.

Essa defesa, embora se diga solidária às classes pobres, definidas como "povo da periferia", no entanto se refere às oligarquias que investem, patrocinam, sustentam e difundem essa pseudo-cultura, que é estereotipada, apátrida, medíocre, que transforma o povo pobre numa massa domesticada, conformista, consumista, sem valores sólidos.

Essa defesa, no fundo, é a defesa da mídia golpista, do latifúndio, da politicagem e sobretudo do jabaculê, que foi o propinoduto que durante muitos anos reinou na dita "cultura popular", empurrando ídolos grotescos que, com o tempo, só se tornaram mais arrumadinhos e perfumadinhos. Mas continuam medíocres do mesmo jeito.

Enquanto isso, a verdadeira cultura popular ocorre fora de micaretas, vaquejadas, "bailes funk", domingões da TV etc. O povo quer falar, sem intermediários.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

GLOBO DISTORCE WIKILEAKS PARA ATACAR MST



COMENTÁRIO DESTE BLOG: A mídia golpista distorce fatos, condena os movimentos sociais e cria abordagens confusas. Isso em nada esclarece o leitor, mas o faz sentir raiva dos movimentos sociais, tamanho o grau de persuasão de seus colonistas. Por isso a informação alternativa da mídia progressista surge para desfazer os equívocos causados pela imprensa conservadora.

WikiLeaks e MST: Professor desmente O Globo e o vice-consul dos EUA

“A palavra ‘espião’ é invenção do Globo”, afirma professor

Da Página do MST - Reproduzido também no blog Viomundo

O professor Clifford Andrew Welch, do curso de história da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), foi citado como fonte das informações de telegramas remetidos por diplomatas estadunidenses no Brasil aos Estados Unidos, divulgados pelo Wikileaks.

O jornal O Globo publicou uma reportagem sobre esses telegramas em19/12, dando destaque à existência de espiões do MST dentro do Incra e sobre uma suposta prática dos assentados “de alugar a terra de novo ao agronegócio”.

“Nunca falei e jamais falaria algo assim. No primeiro lugar, a palavra ‘espião’ é invenção do Globo, porque não aparece nos relatos diplomáticos disponibilizados pelos jornais”, denuncia Welch.

Welch desmente também informações de Benjamin A. LeRoy, vice-consul do Consulado Geral dos EUA, em São Paulo.

*****

Abaixo, leia esclarecimento do professor.

Wikileaks, a imprensa, o MST e eu

Por Clifford Andrew Welch, na Página do MST

Demorou. Em abril de 2007, pedi pessoalmente uma cópia do relatório do investigador dos Estados Unidos da América que me entrevistou sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Pedi de novo por email em setembro, mas nem resposta recebi, muito menos o documento.

Foi o grupo Wikileaks que recentemente revelou os resultados dos andamentos do agente estadunidense no Pontal do Paranapanema, São Paulo, e meu nome estava no meio das reportagens que saíram nos jornais nos dias 19 e 20 do mês atual.

Como coordenador ajunto do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos de Reforma Agrária (Nera) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em abril de 2009, confesso que estava pouco animado com a visita do Vice Consul Benjamin A. LeRoy, do Consulado Geral dos EUA, em São Paulo, quando nos pediu uma hora para “conhecer o trabalho do Nera e aprender um pouco mais sobre reforma agrária e movimentos sociais de sem-terra,” como nos escreveu a assistente de assuntos políticos do consulado, Arlete Salvador.

Como historiador especializado em estudos da política externa dos EUA na América Latina, já conhecia figuras como LeRoy e seus relatórios. Eram fontes importantes para entender a natureza da interferência do império em sua esfera de influência. Agora o disco virou e era eu a fonte. Fiquei assustado com os erros do relatório de Benjamin, a distorção dos fatos interpretados pelo cônsul-geral Thomas White e, mais uma vez, preocupado com o método empírico do historiador, que depende demais em documentos oficiais e notas jornalísticas.

Faz sentido confiar em um investigador que nem sabe onde estava ou com quem estava falando? O despacho que relata a investigação de Benjamin usa a sigla Uneste no lugar da sigla Unesp e dá como a minha afiliação institucional a Universidade de Michigan, ambas afirmações equivocadas.

Pior, ainda, é a fala atribuída a mim por Benjamin e relatado pelo White que ficou como manchete no Globo: “MST teria espiões no Incra para orientar invasões”. Nunca falei e jamais falaria algo assim. No primeiro lugar, a palavra “espião” é invenção do Globo, porque não aparece nos relatos diplomáticos disponibilizados pelos jornais.

No “telegrama” em questão de 29 de maio, White escreveu que “O MST segue uma metodologia programada em suas ocupações de terra que inclui a utilização de contatos dentro do Incra para ajudar selecionar alvos, segundo [...] Welch.”

Em outro momento, o cônsul relata que eu o informei de que “o MST aproveita contatos dentro do Incra para determinar qual será a próxima área sujeito a desapropriação.” Segundo o relato, “Welch contou para Benjamin que o Incra não disponibiliza as informações ao público e que o único jeito para o MST acessar os dados seria através de informantes dentro do Incra.”

O jeito como o cônsul interpretou o relato de Benjamin de coisas que não falei sobre as relações entre o MST e o Incra reflete mais do macartismo que a realidade do Brasil. Macartismo é a ideologia do “medo vermelho” que causou alarme nos EUA nos meados do século passado quando foi alegado que espiões russos infiltrados no setor público estavam minando a segurança nacional do país.

A atual situação no Brasil não tem nada ver com a Guerra Fria, obviamente. O dever constitucional do Incra é fazer reforma agrária. O MST procura pressionar para que o Incra realize a reforma agrária.

É bom lembrar, como falei para o Benjamin, que as informações do Incra são públicas para todo mundo. Me lembro que tentei explicar para o Benjamin que a maioria das ocupações do MST não foram realizadas em maneira aleatória, mas a partir de áreas com desapropriação em andamento. Quer dizer, o movimento faz esforço para colaborar com o processo constitucional de identificação de terras improdutivas ou sujeito a desapropriação por violar as leis trabalhistas ou ambientalistas. É o cônsul que inventou um sentido de clandestinidade.

No mesmo documento de abril, que tem o titulo “O método do MST: Tira proveito do governo, alienar os vizinhos,” o cônsul toma vantagem da investigação do Benjamin para alegar que membros do MST que ganham lotes de reforma agrária do Incra vão acabar “alugando ao agronegócio” a terra “numa pratica cínica e irônica.” A fonte para esta informação parece ter sido “um líder do agronegócio” em Presidente Prudente.

Fora de contexto, assim como apresentado no despacho diplomático, o aluguel dos lotes parece ser de fato “cínico e irônico.”

O relatório não contempla a pressão das usinas nos assentados, com oferta de dinheiro fácil para o plantio da cana de açúcar, que tem causado muitos problemas aos assentados, como demonstram várias pesquisas realizadas pela UNESP. A coordenação nacional do MST é declaradamente contra a prática.

São outros erros de fato e interpretação nos documentos e noticias. A Folha aproveitou o esvaziamento dos documentos para alegar que o MST está em “declínio,” que a “base do movimento encolheu.” O Globo dá destaque para um suposto abandonou da causa da luta pela terra pelo presidente Lula, uma interpretação que apareça nos telegramas do White.

Porém, é difícil sustentar estes argumentos. De fato, os cálculos das estatísticas do governo Lula bem como os do Nera sustentam o contrário, mostrando de que Lula assentou mais famílias que o presidente Fernando Henrique Cardoso que declarou ter feito mais para reforma agrária que qualquer outro presidente brasileiro, mas o governo Lula defende que assentou 59 por cento dos beneficiários de reforma agrária na história do Brasil.

No caso das ocupações de terras e o número de famílias envolvidas na luta pela terra, as estatísticas são quase iguais. Durante os oito anos do governo Cardoso, 571.650 famílias participaram em 3.876 ocupações organizadas por mais que 20 movimentos. Os números do governo Lula ainda não foram calculados totalmente, mas durante os primeiros sete anos, são registrados a participação de 480.214 famílias em 3.621 ocupações.

Temos que agradecer Wikileaks por quebrar o sigilo que ainda reina nos círculos diplomáticos décadas depois do final da Guerra Fria. Em meu caso, deu para desmentir fatos equivocados e desconstruir interpretações anacrônicas, inclusive das reportagens da grande imprensa.

* Por Clifford Andrew Welch, Prof. Dr. Adjunto do Curso de História da Universidade Federal de São Paulo.

SABEMOS POR QUE O PSDB GOSTA TANTO DO NEOLIBERALISMO NORTE-AMERICANO



Já dá para perceber por que o PSDB é tão adepto do neoliberalismo norte-americano.

Simples.

É uma ave admirando a outra.

A águia é o símbolo dos Estados Unidos da América.

O tucano é o símbolo do PSDB.

Os princípios neoliberais dos EUA fascinam os neoliberais provincianos do PSDB.

Que, como verdadeiros lacaios do Primeiro Mundo, não querem o desenvolvimento social autônomo no Brasil.

Apenas querem um "desenvolvimento" subordinado.

Afinal, "paraíso", para os tucanos, é tão somente o Primeiro Mundo.

domingo, 26 de dezembro de 2010

A FALA FINAL DO PRESIDENTE LULA



COMENTÁRIO DESTE BLOG: O governo Lula pode não ter sido um governo revolucionário, mas estabeleceu mudanças sociais que o antecessor Fernando Henrique Cardoso não se empenhou em fazer. A Era FHC apenas beneficiou o mercado, mas Lula foi mais adiante, mas dentro de uma perspectiva de transição de um governo reformista que, mesmo com seus altos e baixos, atingiu um saldo positivo para o povo brasileiro.

A fala final de Lula

Por Hugo Albuquerque - Blog Descurvo

Aliás, um ponto que não pode deixar de ser lembrado: Ontem (23/12), Luís Inácio Lula da Silva fez seu último pronunciamento como Presidente da República. Fim de papo e fim de uma era. Oito longos anos passados em flash, a saga do presidente-operário chega ao fim e pela última vez o Lula-mandatário falou em rede nacional neste papel. Entre altos e baixos, foi o primeiro governo brasileiro a combinar desenvolvimento econômico com o social - e a construir isso em um cenário de respeito às liberdades coletivas e individuais. Também foi o governo que ousou tocar o único gênero de política externa cabível a um país como nosso, altiva e ativa que só ela. Tropeçou, é verdade, no que diz respeito à política-política, a política em seu sentido estrito, seja no relacionamento com as instituições ou no que toca a tentativa de reforma-las - ou mesmo avançar no desenvolvimento de mecanismos de participação. Também falhou na tentativa de considerar o dado ecológico na sua política de desenvolvimento econômico - assim como fez, exitosamente, com o dado social. Mas entre esses altos e baixos, acertou muito mais do que errou. Muito ainda se falará desse período nos livros de História - aquela Narrativa que nunca terminou, mas cujo desejo de conta-la quase se perdeu assim como a própria consciência do seu caminhar, não teve muito tempo. O sistema político que temos pode ser uma das peças encenáveis dentro da grande arena política, mas dentre todas, é aquela que me parece a melhor; ao menos aqui a plateia pode escolher os atores, embora não escreva a peça nem defina as personagens - mas como ator, ninguém conseguiu imprimir tamanho significado à personagem de Presidente da República, nem interagir tão bem com a plateia que o escolheu, quanto o fez o meu querido conterrâneo Lula. Sim, a democracia no fundo é isso e eu voto nos atores que me fazem sorrir, chega de trágicos.


ESCOLA DE SAMBA SOFRE AMEAÇAS POR FALAR SOBRE NORDESTINOS



Por Alexandre Figueiredo

A escola de samba Acadêmicos do Tucuruvi, de São Paulo, é alvo de violentas ameaças lançadas por e-mail desde que a agremiação carnavalesca escolheu para o tema do Carnaval de 2011 o povo nordestino. Intitulado Oxente, o que seria da gente sem essa gente? São Paulo, a capital do Nordeste, lembra da influência dos imigrantes nordestinos na construção da cidade de São Paulo.

É bom lembrar que um dos retirantes nordestinos que contribuíram para o cotidiano paulistano foi Luís Inácio Lula da Silva, operário atuante no ABC paulista (região de cidades que faz parte da Região Metropolitana de São Paulo), que está a encerrar seu mandato de presidente da República.

O tema irritou algumas pessoas que, com mensagens fascistas de muito mau gosto, diziam frases como:

"Vocês deveriam ser proibidos de desfilar numa avenida da minha cidade um enredo nojento e racista (sic) desses";

"São Paulo não é a capital do NE p... nenhuma. Nós paulistas e paulistanos iremos mobilizar e vocês vão desfilar com essa b... de samba-enredo que desrespeita o Estado que carrega esse lixo de País nas costas".

Diante dessas manifestações de profundo conteúdo anti-social e desumano, que vai contra parte do povo brasileiro dotada de história e de grandes exemplos humanos, a Acadêmicos do Tucuruvi fez por bem registrar um boletim de ocorrência na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi).

Foi aberto um inquérito policial para investigar o caso e serão quebrados os sigilos de identificação dos IP's utilizados pelos internautas que enviaram mensagens fascistas. As identidades digitais dos mesmos, incluindo as contas de e-mail, também terão sigilo quebrado.

Fica nossa solidariedade à Acadêmicos do Tucuruvi e ao povo nordestino, já que a homenagem é justa e de grande lembrança histórica dessa parcela do povo brasileiro.
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